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sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Marca #11: O Castelo

No meu tempo, dizia-se “Castelos”, isto é, qualquer referência ao local e às muralhas aparecia no plural o que, sei, não agrada muito a alguns dos seus habitantes que associam à referência um sentido pejorativo.
Diz-se que nenhum oureense que se preze gosta de estar separado mais do que uma semana do seu castelo. Isso acontece comigo que já amaldiçoo uma ausência que vai para cima dos dois meses prolongados por este tempo nada convidativo.
Os Castelos foram para mim lugar de ilusão e decepção, contemplação, deslocação e fruição.
Houve momentos em que não reconheci a sua importância e tive daqueles textos em que acabei por ser o bombo da festa. Mas já lá vai...
Noutros, tinha aquela sensação que andando em aproximação a Ourém, de todo o lado o Castelo se avistava, mas mostrando um aspecto diferente. Era o quilómetro 110, a descida de Alvega, a panorâmica de São Sebastião, a visão a partir da praça. Alguém lhe chamou então “o castelo maluco” devido à sua transformação em aparência constante.
Aqui fica a marca para uma revisita mais fácil ao que nos ocorreu dizer sobre ele neste espaço...

quinta-feira, agosto 10, 2006

Imagem do dia: um castelo quase lunar



Ourém, umas sete da manhã.
O cavalo de ferro continua estacionado em Zagreb, consta que em breve dará a volta.
Por aqui, a calmaria do costume. Agora fresquinho, mais logo a exigir cautelas...

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

O som do silêncio

Caminhávamos em pequenos grupos a partir do Largo da Igreja na direcção da cruz do Regato. Aí, uma pequena inflexão para a direita fez-nos tomar o caminho para o nosso objectivo. Pouco depois, chegámos a uma zona de pinhal que resolvemos atravessar para atalhar.
Curiosamente, nos arredores de Ourém, por essa altura, parecia poder ouvir-se o silêncio. Aconteceu-me várias vezes: ao chegar a Peras Ruivas, a caminho do Castelo... uma sensação que não existe nada a perturbar a nossa quietude a nossa capacidade concentração, um envolvimento que nos parece dizer que tudo depende da nossa acção.
Íamos bem municiados. Giradiscos, discos, sandes, bebidas... Já não me lembro quem eram os desgraçados que transportavam tudo. As meninas não eram com certeza, mas o certo é que as coisas chegavam ao seu destino e hoje parece que ninguém recorda essa carga com azedume.
A certa altura, o caminho tornou-se mais íngreme, mas ao fim de algum tempo lá chegámos.
A visão de Ourém, enquanto os preparativos dominavam as acções, a partir dos terraços das torres era única, fabulosa.
Uma sessão do “Lá vai alho” não resultou muito bem, traduzindo-se numa monumental cabeçada do Rui Leitão nesta mãe de aluguer que foi projectada contra a parede.
Mas tudo passou quando se ouviu:
- Meninos, vamos dançar...
Descemos para o local do bailarico onde elas já estavam e a música já se fazia ouvir...
E que belo era aquele som que eu nunca tinha ouvido... nem me parecia ser possível resultar de uma evolução da música anterior que já conhecíamos. Aquelas vozes calmas que nos pareciam trazer o Som do Silêncio... Era a primeira vez que ouvia aquela canção.
- Quem são? – perguntei.
- Simon and Garfunkle – respondeu o Jó.
Aquele dia ficou-me inesquecível. Foi passando, mas o som daquela canção não me largava...
Ao fim da tarde, tudo foi devidamente arrumado e regressámos a Ourém. Eis porque há uns dias (já bastantes) vos disse: “nós tivemos o privilégio de conhecer certas maravilhas e vivê-las no momento em que elas surgiram...”.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Manhãs de Ourém


O Castelo das brumas Posted by Picasa

Esta envolvência do CAstelo pelas nuvens é vulgar, mas recorda-me outros tempos de Ourém, em que pelas minhas manhãs passavam sons de canções que já não sei reproduzir na sua totalidade (se quiserem podem dar uma ajuda nos comentários). Ora oiçam:

Ó mulher, eu dou-te umas meias...
Isso não, maridinho, isso não, isso não
Que me fazem as pernas feias
Dá-me antes um litro de vinho
Água fria faz-me mal
Isso sim, maridinho

Ó mulher, eu dou-te um burrinho
Isso sim, maridinho, isso sim, isso sim
Que dum lado leva o pão
E do outro lado leva o vinho
E eu também vou no burrinho
Isso sim, maridinho,
Isso sim, maridinho,
Isso sim, maridinho...

segunda-feira, outubro 24, 2005

Uma tarde no Castelo


Ontem escrevi:
Isto não está completo, mas o blogger teima em não me aceitar as fotografias. Eventualmente, já excedi qualquer limite...
Foi preciso muita paciência. Agora há que mudar alguns caracteres. Fica para amanhã...

Olhem quão bela é Ourem vista de tão perto do seu Castelo Posted by Picasa

quarta-feira, agosto 03, 2005

Imagem do dia


Um castelo que se vê de todo o lado Posted by Picasa

... mas ...
... por vezes temos de nos afastar para bem longe da sua majestosa protecção.

segunda-feira, junho 06, 2005

Oureana, Moura amada
Por Rosalina Melro

Corria o ano de 1136. Num dos seus ousados e bem sucedidos fossados, D. Afonso Henriques arrebatava a fortaleza de Abdegas, atalaia mourisca alcandorada em elevado morro, num lugar de difícil acesso que travava o avanço dos Cristãos para a linha do Tejo.
Entre os intrépidos guerreiros das hostes do Conquistador encontrava-se o lendário Traga-Mouros, filho de Hermígio Gonçalves, companheiro de Afonso Henriques desde a meninice nas terras galegas do Condado Portucalense. É dos amores desse temível guerreiro que hoje iremos falar. Mais uma lenda apenas. Uma das muitas versões que correm na vila velha de Ourém. Lenda que imortaliza a mais amada de todas as mouras, a doce Fátima, baptizada Oureana pelos cristãos, a bela filha de Abu Déniz, capitão da fortaleza de Alcácer do Sal, nas terras de mar e sol que se alongam para o Sul, a Ocidente do antigo Garbe.
Crelo não errar se disser que de todas as lendas reunidas por Almeida Garrett, a mais poética e, também, a mais dramática é esta Lenda de Ourém, onde se conta a história de um amor que se prolonga para além da morte, pois reúne, na mesma campa aberta em terra sagrada do adro da igreja do Castelo de Ourém, os corpos de Oureana e de Gonçalo Hermigues, o Traga-Mouros. Mas comecemos a Lenda tal como a ouvimos nas terras que foram de D. Teresa, infanta de Portugal.
O galã da "Lenda de Oureana" é dotado de superiores talentos, posto que é o primeiro de todos os belos Trovadores que iniciam as cantigas em Lingua Galega com o novo modo de trobar trazido pelos Cruzados que, dos longínquos castelos da doce Bretanha, tinham vindo auxiliar nas lutas contra os Mouros nos tempos da reconquista. A sua voz melodiosa, a sua arte sublime de poeta, a sua sensibilidade ao dedilhar o alaúde, eram um poder mágico que abria ao guerreiro-trovador as portas de todos os castelos cristãos da Galiza até Coimbra.
Os Mouros tinham esfacelado o seu valente pai, apelidado de Lutador, durante aquela sangrenta Batalha de Ourique, num golpe de traição. Chorou-o como D. Afonso Henriques que, logo em seguida, auxiliado por poderes divinais, degolou cinco reis mouros e desbaratou o poderoso exército da moirama. Gonçalo Hermigues substitui, então, no lugar de valido do rei, o seu nobre pai. Recebe a honra de governar o Castelo de Abdegas acompanhado de um valente punhado de nobre guerreiros, todos jovens e bem treinados nas duras lutas contra o infiel.
Numa noite de S. Joáo, os moços cavaleiros entretinham-se em jogos de lanças, quando um dos mais ousados propôs um treino mais proveitoso nessa noite de amores e de folgança para cristão e para mouros. Em breve, cavalgavam nos areais, batidos por mansas ondas. Embarcam no batel dos cruzados, ancorado junto à praia. Rompia a madrugada, de um S. João exaltante, quando o batel chegou à foz do Mira. Atracaram, em silêncio, frente aos campos floridos de Alcácer. Subitamente, vindo do lado do Alcazar, o vozear pipilante de um bando de formosas e jovens mulheres. Destancando-se de todas as outras, a mais garbosa era Fátima, a filha dilecta do governador do castelo. Sobre ela tombaram os olhos de Gonçalo Hermigues. Por ela ficou enfeitiçado o Traga-Mouros. Logo, esquecidos os perigos, ele improvisa uma trova sublime. Desse momento se acham vestígios nos Cancioneiros Medievais.
Sem temor, a doce Fátima corria para os braços do Trovador. Tomados de êxtase, cada um dos cavaleiros arrebata uma moirinha. No ar perfumado de giesta e rosmaninho, ouviam-se as trovas, que haveriam de dar o nome a Oureana:

Oureana!Oureana! Oh! Tem por certo
Que esta vida, de viver,
Toda a vida se olvidou naquele aperto.
E o que em troco eu vim a haver
Não há mais para se ver.
Ora vos tenho, ora não
E um a um eles que chegaram
Já me apanhaste e já não...
D'aqui largam e d'ali pegam,
que anda tudo ao repelão
Por mil golvos retoiçando
Ai,ai, que vos avistei!...
Já sei por que ando lidando,
Que em tais terras bem pensei
Melhor fruto não verei.

Entretanto, aproximava-se uma chusma de mouros, bem armados de alfanges e adagas reluzentes. Corriam a salvar as suas irmãs e noivas. Então, o corajoso Gonçalo Hermigues deitou o corpo de Fátima, que entretanto desmaiara, sobre uma pequena duna e ordenou aos companheiros que fossem para o batel e o aguardassem. Sozinho, fez frente aos aguerridos sarracenos e, num repente, tomava a amada contra o seu peito e entrava no batel salvador. Alquns dias mais tarde, pela lua cheia de Agosto, grande festa anima a sua herdade, cerca do Castelo de Abdegas. Música e danças e muitos folguedos celebram a alegria da conversão da bela moura. Nesse dia, fora celebrado o baptizado e logo em seguida o casamento cristão da filha de Abu Déniz que tomara o nome de Oureana. Tanta fama teve a sua beleza e a força do seu amor que o povo trocou o nome de Abdegas pelo de Ourém. Mas o drama da manhã de S. João ferira de morte o coração dividido de Oureana. Saudades da família e das terras do Sul entristeciam-lhe a alma e roubavam-lhe o alento. Numa manhã cinzenta de Abril, começavam a florir as rosas brancas no jardim do Castelo, Oureana caía morta no caminho pare a igreja. Inconsolável, o Traga-Mouros encerra a sua dor e a sua juventude na branca cela de um Convento. Diz-se que todas as manhãs, quando o sol nascia, ele vinha rezar junto da campa da sua amada, com uma rosa branca entre as mãos que nunca mais dedilharam as cordas do alaúde. E, porque de amor também se morre, foi sobre a campa de Oureana que, num triste dia de Novembro, abandonou esta vida de paixóes. Os dois ficaram, para sempre, unidos nesse pedaço da terra de Ourém. Terra de ligaçoes profundas entre os homens e os deuses. Terra de fé e de elevados ideais, cultivados de geraçao em geracão, pelos seus filhos, descendentes de Gonçalo Hermigues, o Traga-Mouros.

In "Suplemento Cultural de O Mirante" de 3/9/97

quarta-feira, abril 13, 2005

As armas de Ourém

Armas de Ourém Posted by Hello

As armas da antiga vila de Ourém são as que se acham colocadas acima das portas de "Santarém"; assim chamada por estar voltada na direcção desta vila, como nas praças de guerra é costume dizer, invocando o nome das terras principais, para as quais olham as portas. Constam as armas de um castelo de duas torres, as cinco quinas em cruz, por cima uma águia de assas estendidas, ao lado esquerdo a meia lua, e ao direito uma estrela.
O castelo é indisputavelmente a própria divisa de Ourém, a meia lua, insígnia mahometana, e do mesmo modo a estrela, usada nas bandeiras mouriscas, o que indica para nós este escudo e trofeu da conquista de Ourém aos muçulanos. Quanto à "águia de asas estendidas, olhando para a esquerda", sabendo que a rainha D. Mafalda mulher de D. Henrique tinha no escudo uma águia de asas estendidas, olhando para a esquerda devemos supor que sua filha a rainha D. Teresa a quem fora dado por el-rei seu pai o castelo de Ourém, adoptara como sua divisa aquela de sua mãe, e tanto mais que é do mesmo modo colocada nas armas de Ourém, como no escudo das armas da rainha D. Mafalda...
As quinas reais nos cinco escudos pequenos são as armas de Portugal, que não estão cercadas na orla de castelos e nos indicam por isso a sua forma , que são as de que usavam os nossos reis...
In: J. Elyseu, Esboço Histórico do concelho de Vila Nova de Ourém, 1868

quinta-feira, março 31, 2005

O nosso Castelo esta manhã


As brumas de Ourém Posted by Hello

O nevoeiro indiciará a chegada do desejado?
Os dias vão passando e não consigo aquela imagem do Castelo a pairar acima das nuvens que, uma vez, tive o privilédio de descortinar. Fica aqui um esboço...

domingo, abril 04, 2004

Ó do Castelo
Eu também lá estava no 25 de Abril.
A participação foi muito humilde, mas serviu para ficar feliz da vida por uns tempos. Estava na Escola Prática de Administração Militar (EPAM) tinha concluído a especialidade e aguardava colocação noutra unidade como aspirante a oficial miliciano. Apesar do carácter ditatorial do regime, éramos uns senhores, pois deixavam-nos sair do quartel e vir dormir a casa. Comigo estavam muitos colegas de Económicas (o Albino, o Jorge (boisano), o Teixeira, o Angelo, o Gilberto e outros cujo nome não recordo). Não sabíamos de nada, quando acordei fui surpreendido pela rádio a anunciar o golpe e a dizer-nos para comparecermos no quartel. Lá fui com mil interrogações: seria um golpe da extrema direita de que tanto se falava?
No quartel sossegámos. Um oficial de alta patente informou-nos acerca das intenções e pediu a nossa participação. Deixou-nos a liberdade de sair ou ficar. Mais de 90% ficaram, dois ou três saíram. E começou a grande aventura. O boisano, tipo comando suicida, muniu-se de granadas à volta da cintura e foi dar uma ajuda para a RTP. A mim coube-me guardar os postos de sentinela da EPAM. Pela tarde começaram carros a passar com pessoas a saudar-nos e a fazer o V da vitória, lá mais para meio da tarde alguém gritava "ganhámos, ganhámos". Não ouvi um tiro, nem um insulto, só vi alegria nas pessoas. Pela noite, os dois ou três que tinham abandonado o quartel regressaram e foram recebidos com alegria. A vigilância ao quartel continuou. Mas logo nesse dia um camarada de armas me dizia que a revolução era uma coisa muito limitada, só iria trazer as liberdades formais. Mas eu não acreditava, sempre depositei muitas esperanças no Movimento, apesar de o primeiro contacto com a Junta de Salvação Nacional ter constituído um choque. Que faziam ali aqueles generais? As parecenças com a junta chilena fizeram-me pensar o pior o que felizmente não veio a verificar-se.
Ficámos fechados no quartel uns três ou quatro dias. Eu comecei a preocupar-me, a Ana estava quase a nascer e o comando revolucionário permitiu-me ir a casa. Fiquei extasiado com as manifestações que vi na rua e a que antes nunca tinha assistido, porque era sempre fugir à frente da polícia.
A festa durou mais perto de ano e meio. Estive lá no 28 de Setembro e no 11 de Março. Tive sempre a sensação de estar muito perto do poder. Na altura, desculpem-me que o diga, embirrava com os nove, gostava de Otelo. Mas o meu temperamento hesitante fazia-me sempre admirar Vasco Gonçalves, apesar de não gostar do PCP.
Pouco a pouco, fui vendo as pessoas cansarem-se da revolução, exigirem o regresso dos militares aos quartéis. Mas por que nos estavam a fazer aquilo, se nós só queríamos o melhor para elas? Vieram as eleições. O PS venceu e quando eu pensava que uma aliança com o PCP era o mais natural teimou em governar sozinho ou em aliar-se à direita. Uma coisa que nunca consegui perceber é porque é que o PS e o PCP nunca se entenderam para formar governo. A verdade é que, olhando hoje para as sociedades que seguiram o modelo de desenvolvimento soviético, confesso que não gostava nada daquilo. Mas o cinismo da sociedade burguesa é tão limitador, porquê ficar sujeito a estas opções?
No 25 de Novembro já tinha abandonado a vida militar. Vi de fora, com alguma tristeza, o desmoronar de um sonho em que procurava uma sociedade onde não existisse a exploração do homem pelo homem.
Mas ficou a liberdade formal. Antes não podia falar porque corria o risco de ser preso, agora posso gritar à vontade que ninguém me liga.

quarta-feira, agosto 06, 2003

Um verdadeiro tiro no pé…
Foi o que me aconteceu com a história do Castelo dos Sonhadores. Afinal eu até gostava do castelo (vivi numa casa parecida com um castelinho à entrada da rua de Castela) e achava um piadão à terra ali entalada entre o castelo e os moinhos. Mas as lamúrias constantes nos jornais da terra irritavam-me solenemente. Então, um ente superior como eu,um marxista-leninista dos puros, tolerava aquelas coisas execráveis????.
É claro que levei tareia até dizer chega. Aos poucos tentei recuperar e a bondade dos meus adversários que viram nas minhas palavras a irreverência da juventude ou sonhos utópicos permitiu-me sair da crise. Mas o Postigo de Alberto Pinheiro não merecia ser tão maltratado como eu o fiz e, afinal,o UM OURIENSE até tinha alguma razão.
Aqui fica a história quase toda. Já não sei é como começou…
LV


O Castelo dos Sonhadores
Com mais EoIo menos Hades, mais escaravelho menos abelha, os nossos cronistas provincianos vão desviando as atenções do povo ouriense para os restos de umas muralhas sitas na antiga vila.
É lastimável!
Pois será esse o único problema que afecta (?) os trabalhadores da nossa terra e havendo outros será ele prioritário?
Sinceramente, estão a tomar-se enfadonhos. Por acaso ainda não viram que as "entidades competentes" a quem esmolam ajudas ou me-didas se estão nas tintas?
Não viram o fluxo emigrat6rio?
Não viram o abandono dos campos?
Não viram o atraso industrial?
Não viram a necessidade de cooperativas?
Não viram a exploração da criança?
A escravização da mulher...
As cadeias dos trabalhadores...
O racismo nos Estados Unidos...
A transição para o socialismo!
Não viram nada, mesmo nada?
Por favor, senhores sonhadores, acordem. De contrário, enquanto vão vociferando sobre o castelo, o mundo ultrapassa-os e só lhes resta um tiro nos miolos.

LV

Coisas do Nosso Tempo…
Enquanto houver dois homens, terá de haver opositores, visões diferentes, caminhos diferentes. . e tantas, tantas diferenças e critérios, quantos os homens, afinal de contas.
E não vamos condenar nem pretos nem brancos, nem gregos nem troianos, já para respeitar direitos que todos têm, apenas sujeitos às normas duma ética justa, já para podermos admirar a policromia humana, cujos tons inspiram poe-tas e sonhadores.
Pois é verdade, «UM OURIENSE» admite ser apelidado de «sonhador dos castelos», e confessa que felizmente não é o castelo de Ourém, nem problema e muito menus o único problema deste concelho, como também admite e verifi-ca com tristeza que não é com duas penadas que alguém se arvora em salvador ou mentor infalível dos destinos dum concelho.
Já sabemos que para os europeus os africanos são pretos e, vice-versa, para os africanos os europeus são brancos; mas também sabemos que cada um é o que é e tem valor no seu ser, relativo sim, mas real. Ambos vêem, ambos sentem, e ambos reagem a seu modo, mas validamente. Provincianos ou alfacinhas, serranos ou campesinos, todos têm direi-to a sentir, a amar e a sonhar. Uns sonham com castelos e outros fazem caste-los no ar; uns sonham com as grande-zas do passado e outros com as utopias do futuro.
Uma coisa, porém, é certa, em todos os tempos e hoje mais que nunca, e em todos os lugares sempre os homens, na impossibilidade talvez de ver o futuro, se voltam para o passado, admiram as suas obras e guardam ciosos os seus valores. Na sua ânsia de desvendar o pas-sado percorreu-se séculos já vividos, re-cua-se em anos aos milhares e até aos mi1hões, revolve-se a terra, põem-se a descoberto ossadas, túmulos, grandes necrópoles, cidades e civilizações, joei-ram-se poeiras, entulhos, enriquece-se a hist6ria e a ciência, e não vamos conde-nar tais iniciativas porque há doenças a tratar, caminhos a abrir, escolas a cons-truir e crianças a educar, ou porque há correntes a enfrentar, ventos a soprar em rajadas ciclónicas ou em pachorren-tas brisas, ou ainda porque há couves a plantar!
Não, caro amigo! Não! As pedras sa-gradas do nosso castelo de Ourém, as suas torres altaneiras e os seus pergami-nhos da mais antiga nobreza, nem im-pedem a marcha ao progresso do nosso concelho, talvez pelo contrário a ajudem, nem tiram a importância aos problemas que afectam os nossos tempos, e nem os resolvem ou impedem a sua solução.
Que tem que ver o nosso desprezado e pacato castelo com o racismo dos Es-tados Unidos ou com os socialismos co-loridos dos nossos dias? Ou, que relação e influencia teria esse vetusto castelo, reparado ou par reparar, no fenómeno universal das migrações, na montagem dos grandes impérios comerciais ou indus-triais, ou no abandono dos campos que hoje se processa?
Apenas parece que o desprezo votado ao castelo de Ourém prefigura o aban-dono dos vastos campos que o rodeiam, desde o extremo norte da Freixianda ao fundo Sul da Serra de Aire.
Então a exploração da criança - diga-mos antes matança tão criminosa como generalizada e até legalizada em tantas paragens, ditas progressivas, do mundo, e a escravização da mulher - digamos antes destruição do seu destino e dos seus valores femininos que a própria natureza, pródiga como o seu Criador, lhe conferiu, - são problemas, são males que se remediariam, se o castelo de Ourém, não fosse restaurado?
Se é o caso, provem-no, que eu sou o primeiro a pegar na picareta e a desfazê-lo pela raiz, apesar de sonhar com castelos, cujas muralhas se situam na «antiga Vila».
Para tanto não são precisos «tiros nos miolos», pois o Castelo, pobre e velho, nem já miolos tem. Tiros, sim! Eles que venham para acordar e fazer surgir quem jaz na sombra da morte: o castelo e aqueles que o mataram ou não querem que ressuscite.
Se quem não ama permanece na morte, e a palavra é inspirada, parece que permanecem na morte os ourienses que não amam o seu castelo; por isso precisam de acordar. Tiros que acordem, é que são precisos. Que façam ressuscitar o que está sepultado há séculos e que enriqueceria o presente de hoje e o de amanhã. Esses que são precisos! Que venham.
UM OURIENSE


O Meu Postigo
Por Alberto Pinheiro

Dois artigos publicados no "Notícias de Ourém"1 "o crime do Castelo de Aurém" e "o Castelo dos Sonhadores", posso entendê-los como discordantes da análise histórica respeitante a Ourém que costumo fazer, na imprensa local. O primeiro não merece qualquer apreciação dada a sua forma irónica e descabida de comentar o assunto, mas o segundo, confesso, presto-lhe atenção dada a franqueza da opinião exposta e a simpatia que me merecem as pessoas que aparecem cara a cara a dizer o que pensam, pois essa atitude os concilia com a minha maneira de ser.
As considerações que vou expor não se dirigem exclusivamente ao autor do artigo em referencia.
Existem também aquelas pessoas que são de opinião diferente e me têm felicitado por eu diligenciar expurgar da história de Ourém, as lendas, as confusões e os erros de que está inquinada.
Tenho muita admiração pelos jovens com personalidade e que consoante as suas ideologias
lutam pelo futuro que melhor satisfaça os anseios de valorização das suas qualidades e virtudes sem condicionalismos que molestem a sua dignidade.
Creio que não existem sociedades perfeitas mas é certamente possível, limar arestas para que as desiguladades sociais não sejam tão chocantes como as que a cada passo se observam, e tendem a desenvolver-se em ambiente favorável.
Sigo os seus passos, embora um pouco atrasado.
A minha idade não me permite acompanhar a rapidez da sua marcha.
Mas não adormeci nem me deixei ultrapassar pela marcha do tempo, não corro portanto o risco de ter de "dar um tiro nos miolos".
Já um dia, num dos meus artigos sobre o Castelo de Ourém, esclareci que quando olhava aquele monte e aquele Castelo, o admirava como um símbolo de grandeza e como berço do concelho, ou antes, dum condado, que foi dos mais importantes e cobiçados do país.
O Castelo de Ourem para mim não é só um monumento histórico é também uma testemunha de acusação para os Ourienses que têm administrado o concelho e orientado o seu desenvolvimento, e lentamente o deixaram chegar à apagada de vil tristeza dos dias de hoje que por todo o lado se lamenta.
Houve desenvolvimento económico? Certamente que sim, mas, mais por iniciativa particular do que por diligência das autarquias locais.
Não veja pois o articulista que me critica qualquer adesão da minha parte com a organização social da época medieval.
Não posso à distância ver em pormenor ou analisar com segurança Os problemas Ourienses e não devo portanto criticá-los, sem me sujeitar a ser injusto:
A critica tem de ser serena fria e objectiva.
Envolvo quase sempre as pessoas que por negligência incapacidade ou muitas outras razões,
não procederam como em nossa opinião deviam ter procedido.
Essa crítica para ser honesta e construtiva tem de alicerçar-se em factos devidamente com-6vados. Fazer o contrário é ofender a dignidade das pessoas comprometidas e a própria dignidade do crítico.
Para aqueles que vivem mais perto dos factos e Os conhecem na verdadeira dimensão, é mais fácil apreciá-1os e discuti-los apresentando mesmo sugestões válidas que contribuam para uma concre-tização satisfatória.
A noção da responsabilidade aliada ao bom senso leva-me na apreciação histórica do concelho dentro das minhas possibilidades, e mesmo al procuro abordar apenas Os assuntos para que me julgo
preparado e de bom grado aceito que me digam que estou errado e me demonstrem porque.
Agradar a todos creio não ser possível, nem aos génios, e não haverá portanto razão para me sentar à beira da estrada. Irei seguindo o meu caminho;

Lisboa, 25 de Outubro de 1975,


O postigo da História
Escreve: Luís Vieira

Em artigo publicado no 'Noticias de Ourém' metemos no mesmo saco "historiadores", palradores e sonhadores. 'Ores" que pela intensa actividade exercida entendemos estarem a conduzir o povo Ouriense para uma condição de alienado em relação ~s determinantes reais da existência.

A reacção a este artigo não se fez esperar. Todas as posições que encontram eco na nossa sinceridade tendem a afirmar-se quando combatidas e eis os seus portadores, com maior ou menor razão, bramando contra o cretino que faz da Hist6ria uma coisa a construir e não um altar a adorar.

Em artigo que enviámos ao "Notícias de Ourem" definimos a nossa posição em relação ao assunto. Não valera a pena repetirmos o que então dissemos porque nada acrescentaria a matéria em discussão. Mas eis que surge em cena um novo ofendido, um homem cuja vida tem contribuído para "expurgar da história de Ourém, as lendas, as confusões e os erros de que está inquinada" e que considera o "Castelo dos Sondadores" como "discordante da análise histórica respeitante a Ourém" que costuma fazer.

Evidentemente, o "Castelo dos Sonhadores" nada tem a ver com os que honestamente pro-curam conhecer o passado da nossa terra, ele é apenas uma critica aos que choramingam o passado esquecendo os problemas presentes, tentando transformar Ourém numa monarquia de sonhadores. E uma estatística a artigos dessa natureza provaria que quase de quinze em quinze dias aparecia uma aberração dessas ocupando um jornal quase por inteiro numa extensa e enfadonha lengalenga que, se os mortos lessem, faria levantar o D. Afonso-quaIquer-coisa da cova para lhes dar o destino que merecem numa lixeira.

Ora, a História não tem culpa nenhuma em ser tão maltratada e é por isso que não a conde-namos nem aos esforços que se façam para a c6nhecer. Desse modo, o que nos une a Alberto Pinheiro é bastante superior aquilo que nos separa. Os seus artigos permanecem imunes a critica que nós formu-lamos pois constituem um contributo válido para o domínio em causa. É evidente que nos estamos marimbando para que no tão falado e abandonado castelo tivesse vivido uma princesa Oureana, Pratiana ou lá como lhe quiserem chamar que era multo boazinha para o Zé. No entanto, já nos atrai saber que aquele Castelo foi dos mais importantes e cobiçados do Pais.

Importante porquê e cobiçado per quem?

Estas as interrogações que neste momento nos acodem e em certa medida podem abrir um capitulo das costumeiras paginas de Hist6ria:

Na realidade, o Castelo de tão concreto que parece é uma abstracção. É-o enquanto se esquece aqueles que o tornaram possível. aqueles que na sociedade medieval estavam envolvidos em re1ações de servidão, cujo trabalho era sugado pelos nobres que habitaram o Castelo à custa de uma precária protecção, e sem cuja existência era impossível a de todos os demais.

Mas se o estudo dessas relações é importante, também o é o das condições que as levaram a modificar-se e tornaram possível a marcha da História até aos nossos dias com todos os dissabores que a humanidade conhece.
Por tudo isto, pela sua necessidade e oportunidade afirmamos que Alberto Pinheiro deve seguir o seu caminho, continuar atento no seu postigo.

Lisboa, 10 de Novembro de 1975.

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