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quinta-feira, fevereiro 06, 2020

Regresso à aula de Português

Uma das técnicas do Dr. Laranjeira para prestarmos aos livros de leitura obrigatória maior atenção, era fazer proceder a uma leitura dividida entre os diferentes alunos, por vezes intervalada por comentários para melhor interpretação ou para introduzir conceitos da gramática.
Foi assim que fizemos quase um teatro a ler o «Frei Luís de Sousa» que culminava naquele: «Quem és tu, romeiro» e na resposta com o dedo a apontar: «Aquele…».
Mas, se a leitura da obra de Garrett decorreu excecionalmente bem, até porque convidava a usar um certo estilo teatral, ao passarmos por Júlio Dinis, as coisas não foram tão fáceis.
Estávamos a tratar a obra «A Morgadinha dos Canaviais». A aula já ia um pouco longa e o professor quis fazer-nos ler algumas passagens.
- Começa a menina Borda d’Água.
E a Lena não se fez rogada. Com voz firme, pausada, bem colocada iniciou a leitura da passagem atribuída.
- «O ti' Zé Pereira era homem dos seus quarenta e tantos anos; tinha no rosto, principalmente no nariz, vestígios evidentes das suas simpatias pela divindade celebrada nos antigos ditirambos. Esposo da Sra. Catarina do Nascimento de S. João Baptista, vivia em perene sabatina com a sua cara-metade, sujeitando lhe todas as suas ações, mas salvando sempre o direito de protestar pela palavra. Ganhava a vida no ofício de hortelão, e, aos domingos e dias de festa, à força de rufos e pancadaria na retesada pele do seu companheiro inseparável — o zabumba. Era aos cuidados e vigilância deste par conjugal que o recoveiro Cancela confiava o seu mais precioso tesouro, a pequena Ermelinda, uma mimosa criança, que lhe ficara à sua viuvez, tão cheia de saudades, e a quem ele mais queria do que à menina dos olhos.
«Ermelinda era afilhada da família Zé Pereira, e a mesma a quem ouvimos referir-se Ângelo no fim da carta.»
O Dr. Laranjeira interrompeu a leitura da Lena e disse:
- Estivemos a caraterizar a figura do ti’ Zé Pereira e a submissão conjugal a que ele se sujeitava. Mas há esta passagem em que se fala numa divindade celebrada em antigos ditirambos. Quem sabe o que é isto?
Ouviu-se logo a vozinha da sabichona:
- É uma referência ao Deus do vinho, Baco…
- Mas aqui a referência é a Grécia. Daí ser uma louvação a Dionísio. Prossiga agora o Luís Manuel.
- O Zé Pereira é parvo – dizia o Amândio ao meu lado.
O certo é que eu estava a achar piada à descrição. Parecia que via a figura do homem tisnado pela bebida. E iniciei a leitura.
- «Zé Pereira estava, como dissemos, só na cozinha, quando Augusto ali chegou: sentado, no meio da sala, sobre um alqueire voltado com o fundo para o ar, viradas as costas para a porta e a face para o lar apagado e vazio, falava, gesticulava e mudava de tom desde a nota mais grave e rouca da sua escala de barítono, até o mais agudo e desafinado falsete. A língua pegava-se lhe ao céu da boca, dificultando-lhe suspeitosamente a articulação de algumas sílabas; era evidente que se apossara do hortelão o espírito familiar, o qual, neste caso, era um verdadeiro espírito, na aceção química do termo.»
Naquele momento, começou a invadir-me irreprimível vontade de rir. Mas ainda continuei:
- «Zé Pereira era um homem baixo, já grisalho, suficientemente nutrido, de olhos vesgos e que mais vesgos se faziam quando o entusiasmo, o rapto artístico se apoderava dele; usava de umas suíças que pareciam tentar sumir-se-lhe pela boca dentro; tinha longos braços, acomodados às dificuldades e evoluções da sua arte, e pernas que, do joelho para baixo, lhe divergiam em ângulo de mais de trinta gra… gra… gra… us.»
Não aguentei mais. Um homem baixo, nutrido, vesgo, com umas suíças até à boca era demais. Ainda tentei, mas as palavras não saiam. Ri, ri, ri que nem um perdido.
Os outros alunos começaram todos a rir também e eu que não parava. O Dr. Laranjeira teve de interromper a aula e fazer uma pausa.
Quando tudo acalmou, virou-se para mim e disse:
- Não sei onde estava a piada…
- Desculpe, professor, não aguentei, comecei a ver a figura do homem à minha frente…
- Espero que não se repita, se não terei de falar com o diretor…
A verdade é que nunca mais esqueci esta aula de Português. E resta dizer que o relacionamento com este professor foi, a partir daí, sempre excelente.

quinta-feira, janeiro 23, 2020

A tática da punição mútua

Lembro-me que, na instrução primária, uma tática utilizada pela professora para reforçar o amor mútuo entre alunos era pôr os que acertavam uma pergunta a dar umas reguadazinhas aos colegas que erravam… e o sistema era maquiavélico, porque, se algum não desse a reguada com um mínimo de força, era ele quem levava depois das mãos da professora.
Eu era dos que mais era chamado a dar a reguadazinha, mas, como era boa pessoa, tratava todos os colegas com suavidade, todos ou quase todos. Mas havia uma ou duas meninas da nossa turma que eram terríveis. Uma era a Borda d’Água e outra a menina dos Castelos. Um desgraçado que levasse uma reguada delas já sabia que tinha de pôr a mão de molho durante três ou quatro dias, pois eram impiedosas, batiam com raiva… só lhes faltava pôr pregos na extremidade da régua.
E um dia calhou-me levar três reguadas dadas pela Borda d’Água. Tinha errado uma pergunta sobre os rios de Portugal e, no entretanto, ela tinha visto a resposta no livro e oferecera-se para responder ganhando o direito de me punir.
Vi-a chegar junto de mim com a régua na mão…
- Estende a mão…
Que me iria acontecer? Olhei para ela e o ar dela não denunciava um mínimo de piedade…
- Leninha, sê suave!!!
- Eu te digo… ainda há dias me torturaste com cinco reguadas.
Eu já nem me lembrava…
Lá estendi a mão, ela levantou o braço, fez a régua ficar quase perpendicular ao chão, cabeça para trás quase em posição de mortal e aplicou o primeiro golpe.
-Ai!!!!!!
Todos a contemplarem o belo espetáculo, inclusivamente a professora que, assim, nem tinha o trabalho de nos castigar. Acho que alguns até se arrepiaram.
- Malvada! Se te apanho a jeito…
Segunda reguada ainda com mais força. A menina dos Castelos ria que nem uma perdida, cheia de pena por não ser ela a aplicar o castigo.
Até que chegámos à última reguada…
- Agora é que vais ver – dizia a Lena entre dentes.
Vi que o seu olhar não estava para brincadeiras. Ela repetiu os gestos anteriores, trouxe o braço até mais atrás e desferiu sobre a minha mão.
Desferiu…
… só que a mão já lá não estava. E, sem algo para lhe amparar o movimento, a Lena estatelou-se no chão e a régua fez-se em mil pedaços. Os minutos seguintes foram passados a dar-lhe assistência. Que coisa estranha se passara para ela cair no chão se eu nem me mexera?
Acho que ela aprendeu. A partir de então tornou-se a pessoa mais suave a aplicar os castigos que, pelo direito vigente, caberiam à professora.

quinta-feira, dezembro 12, 2019

A Gala do CFL

No mês de Março de um dos primeiros anos da década de sessenta, foram chamados ao gabinete do diretor do CFL os seguintes alunos com o objetivo de colaborarem na organização da primeira gala do colégio: Lena Borda d’Água, Céu Vieira, Maria Emília, Luís Cúrdia, Amândio Lopes, Rui Leitão e Jó rodrigues.
Depois de lhes apelar aos mais profundos, pedagógicos e patrióticos sentimentos, ficou combinado que as duas primeiras se encarregariam de confecionar os bolos para a gala, a Maria Emília forneceria, abateria e depenaria 50 frangos, o Luís Cúrdia traria 250 litros de vinho da taberna do Manel Raul bem como uma centena de pirolitos e laranjadas, o Amândio traria 50 kilos de batatas cortadas em palitos para fritar, o Rui Leitão encarregar-se-ia de distribuir pastilhas Reny para apoiar a digestão e o Jó Rodrigues assaria os frangos.
A Lena e a Céu deveriam também servir às mesas vestidas de coelhinhas e de patins.
Conseguido o acordo dos colaboradores, o diretor produziu imediatamente intensa ação de propaganda relativamente à gala. Só existiriam vinte mesas para os familiares dos alunos à razão de 300 euros por mesa (1)… Desta maneira, conseguia-se estabelecer um apertado filtro à entrada já que Ourém era habitada por gente tesa, rude, sem princípios, capaz das piores zaragatas…
Algumas dessas mesas ficaram de imediato reservadas para o Presidente da Câmara e sua comitiva, para o diretor do colégio e para o pároco da Igreja.
Ficou ainda clara a proibição de o João Passarinho entrar no espaço reservado à gala devido ao seu comportamento desnaturado.
A gala contaria ainda com um baile abrilhantado por um conjunto da região e previa-se uma curta atuação de quatro elementos que viriam a integrar o quarteto 1111.
***

E o dia da gala chegou.
Os participantes foram estacionando os belos automóveis ao longo da estrada que servia o colégio. As damas da elite de Ourém, muito perfumadas, resplandeciam nos seus vestidos de tecidos comprados para o efeito na loja do sr. Pina e elaborados pelas melhores modistas da terra. O senhor prior também não faltou para abençoar aquelas almas tão gentis. As meninas, oh!, aquelas flores… como vinham bem vestidas para o baile…
A gala iniciou-se com um discurso do Dr. Armando:
- Esta é a primeira gala do nosso Colégio Fernão Lopes e espero que não seja a última. Com ela queremos cimentar a união entre pais, alunos e professores num ambiente de mútuo respeito. O nosso programa para hoje é longo. Um antigo aluno proferirá a oração de sapiência. Alguns dos melhores alunos vão ler alguns poemas que mostram a qualidade das leituras que temos no nosso espaço de ensino. Depois, veremos uma breve atuação de quatro rapazes que virão a formar o quarteto 1111 que, daqui a algum tempo, lançará a Lenda de El-rei D. Sebastião e a Balada para Dona Dinis. O José Cid ainda não tem o nível do nosso Fernão Lopes, mas garanto que chegará longe e que em 2019 lhe será atribuído um prémio musical.
Terminado o discurso do diretor, em nome dos antigos alunos do Colégio, a Florência proferiu uma oração de sapiência na qual enaltecia o papel do grande cronista na divulgação da História do nosso país. Terminou pedindo ao Ministro da Câmara (o Presidente) que nunca deixasse definhar aquele espaço para ali poderem voltar com prazer todos o que o tinham frequentado.
O Presidente da Câmara agradeceu as palavras da antiga aluna, acenou afirmativamente ao pedido, garantindo que a autarquia tudo faria para manter aquele espaço nas melhores condições. Em seguida, propôs um brinde, augurando um excelente futuro aos alunos a servir a Pátria na Guerra Colonial e, aos que escapassem, a trabalhar para engrandecer o país. Todos de pé, de copo na mão bem cheio, seguiram as suas palavras:
- Vai acima, vai abaixo, pela goela abaixo…
Em seguida, três alunos foram ler poemas, originando significativos aplausos. Eram os três Luíses nascidos nas imediações da Rua de Castela ali a trazerem os versos de Pessoa e António Gedeão(2).


Finalmente, o futuro quarteto 1111 interpretou três canções que entusiasmaram novos e velhos:
João Nada
Entretanto, o belo cheirinho do frango assado já entrava pela sala improvisada no ginásio. Lá fora, o Jó Rodrigues rogava pragas àquela gente toda e ao trabalho que lhe tinha calhado e resolveu participar na festa carregando a assadura com piri-piri. E não tardou muito, procedeu-se ao início da refeição. As meninas vinham de patins trazer frangos e batata frita às mesas. Comia-se e bebia-se a valer e, com o tempero do frango, bebia-se ainda mais… Tudo parecia correr às mil maravilhas.
O João não estava nada contente e, quando uma das meninas passou à frente da porta onde se escondia e como já estavam todos com os copos e não davam por ele, rasteirou-a. A pobre caiu em cima da mesa onde estava o diretor do colégio e família e o frango caiu na cabeça do Presidente da Câmara enquanto uma asa acertava em cheio numa bochecha da Aninhas…
A patinadora foi de imediato socorrida. Era a Céu. Coitadinha, estava cheia de nódoas negras, mas foi amparada por vários rapazes gentis e, em breve, recuperou a boa disposição.
Confusão ultrapassada, foi servida a sobremesa. Um belo bolo de ovos feito pela Lena, coberto de chantilly. O problema é que, mal aproximaram o nariz do bolo, as pessoas fizeram um esgar de desconfiança. Levantou-se o dr. Laranjeira:
- É curioso, este bolo está muito bonito, mas cheira mal…
A Lena ficou logo nervosa.
- O quê?
- Cheira a ovos podres…
Mal sabiam que o malvado do João um dia antes tinha trocado os ovos que a Lena tinha comprado, ovos fresquinhos da melhor criadora de Ourém, por ovos podres que já guardava há vários meses em casa.
- Mas não pode ser… Kakakakakakaka – dizia a pobre Lena.
Contudo, teve de render-se à evidência e, em total descontrolo, pegou no bolo e espetou com ele na cabeça do padre.
- A culpa foi sua que me recomendou a Eulália dos ovos…
Foi o sinal que faltava. De festa, a gala transformou-se em guerra com todos a despejarem os bolos na cabeça uns dos outros. Verdadeira batalha campal com as damas a fugirem para não lhes estragarem os fatos elaborados exclusivamente para aquele efeito. E, cá fora, o João e o Jó gozavam todo aquele espetáculo deprimente enquanto se deliciavam com os frangos que tinham escapado à gula dos participantes.
Escusado será dizer que nunca mais houve galas no CFL.


(1) 60 contos na moeda da altura.
(2) O Luís Filipe, o Luís Manuel e o Luís Nuno. Três Luíses que nasceram com uns oito dias de diferença uns dos outros.

quinta-feira, novembro 28, 2019

A aula de Geografia no CFL

Recordo o encanto das aulas de Geografia com os mapas pendurados e estendidos ao longo da parede da sala em torno do quadro preto.
Naquele dia, o Dr. Armando resolveu fazer uma revisão da matéria e procurou na caderneta alguém para ilustrar a localização de diversas regiões.
- Venha cá o Amadeu…
Amadeu… um nome que me lembra sempre o concerto para piano nº 21 de Mozart. Mas ali não era uma aula de música. Era um interrogatório que o nosso colega, mais conhecido por Trinca-Espinhas, iria sentir na pele.
Cabe dizer que o distintíssimo professor para apontar coisas no mapa utilizava um varão com mais de 2 metros de comprimento que algumas vezes vi descer sobre a cabeça dos alunos com inegável força e irascibilidade.
- Amadeu, localiza-me aí no mapa onde fica a Venezuela…
O Trinca-Espinhas ficou branco como a cal.
- A Venezuela, sôtor? – e olhava com terror para todos os mapas sem notar onde ficava aquele país. Acredito que os próprios nervos suscitados pelo interrogatório o levassem a não ver nada.
De repente, pareceu lembrar-se e apontou para o mapa da Ásia para uma localização muito perto do Paquistão.
- É aqui…
O professor olhou-o furibundo e deu uma cacetada no mapa com o varão.
- Então não vês que é ali? – disse a espumar de raiva, apontando o mapa da América.
A menina do Castelo pediu para falar, esfregando as mãos de tanta sabedoria.
- Eu sei onde é, sôtor.
O varão saiu disparado e bateu com força em cima de uma carteira fazendo a Borda d’Água dar um salto e exclamar:
-Kakakakkakakaka…
- A menina cale-se. Responda quando eu lhe perguntar. – gritou ele para a miuda do Castelo.
A pobre miúda encolheu-se e o Dr. Armando voltou a virar-se para o aluno em avaliação.
- Vê-se que não estudas nada, malandro. Sabes ao menos onde fica Lisboa?
- Sim, sr. Professor, é lá que é o estádio da Luz, não é?
- Grrrrrrrr! O estádio da Luz… esse covil de lampiões. Devia ser banido do cimo da terra. Ah! E localiza-me, no mapa que apontaste antes, as nossas fortalezas de Goa, Damão e Dio…
- Perdão, sr. Professor, isso já não é nosso. Foi ocupado pelas forças indianas.
- Esses malvados… Estás muito informado para quem erra tanto em Geografia… Sim, foram ocupadas por eles, por esse Neruh de uma figa. Mas agora é que eu quero ver quando os chineses lhes caírem em cima. Quero ver como vão ser corajosos e se batem com eles que são milhões.
E ficou a falar sozinho e enervado acerca da ocupação indiana.
- Eramos um país tão grande… e vamos perder tudo o que conquistámos. O nosso império… porque, vocês, coiotes, não querem lutar para o defender. O vosso dever seria DEFENDÊ-LO ATÉ À MORTE!
Deu com o varão em cima da secretária que estranhamente ficou incólume e saiu, afirmando já de costas:
- A aula terminou
Toda a gente respirou aliviada… Que se lixe o Império! Ao menos ficámos vivos…

quarta-feira, novembro 06, 2019

O primeiro casting no CFL

Quando a Lena regressou da reunião com o diretor, trazia um sorriso a iluminar-lhe a face. Todos ficaram admirados uma vez que as visitas àquela santa criatura acabavam sempre em sova.
- Então, Lena, tem alguma coisa para nos dizer? – perguntou a professora.
- Sim – respondeu a Lena – O Dr. Armando também quer falar com outra menina. Parece que há um grande desenhador de nome Garcês que vai criar a História de Ourém em BD. Ele pretende encontrar duas meninas que sirvam de modelo para as figuras da moura Fátima e da rainha D. Mécia. Será feito um casting aqui no Colégio, mas para já seremos as indicadas…
Claro que as outras miúdas ficaram todas ciumentas por aquela já ter sido escolhida e por suspeitarem de quem seria a outra. Havia lá raparigas tão bonitas: a Gracelinda, a Nicha, a Manuela, a Luísa… e aquelas já pareciam escolhidas… decerto alguém tinha praticado tráfico de influências.
- Já sabia disso – afirmou a professora. – Não calculava que o sr. Diretor o revelasse já. A verdade é que esperamos a visita do grande desenhador na próxima semana.
Mas, quando Garcês chegou ao CFL, pretendeu ser ele a escolher as meninas modelo. Assim, um dia vieram para o colégio todas bonitas, perfumadas, com um saiote até aos pés e uma blusa branca vaporosa para se proceder ao Casting. Não vos vou dizer quem o grande desenhador escolheu para seu modelo, quem assistiu lembra-se muito bem.
E a aula em que Garcês desenhou aquelas duas meninas processou-se à nossa frente e apreciámos os seus gestos, a maneira como olhava para as que desenhava, o modo como esboçava, o modo como sombreava as suas curvas. Era mesmo bom, o desenhador…
Do resultado deste trabalho vamos dar conta aos amigos desta página, publicando por inteiro a História de Ourém desenhada por Garcês. Avisamos desde já que alguns problemas com a legendagem a qual está muito esbatida na origem tornam por vezes as palavras difíceis de serem lidas. Não percebemos como uma edição que se pretendia de qualidade, patrocinada pela própria Câmara, tem legendas que mal se veem.
Quanto às meninas, deixo um desafio: quem acham que foram as escolhidas?

terça-feira, novembro 05, 2019

A aula de desenho no CFL

A verdade é que nunca tive jeito para desenho, mas recordo que as aulas não eram de todo desagradáveis. As cores, os instrumentos, o cheirinho dos materiais dava ao tempo ocupado nas mesmas um ar lúdico e relaxante.
Apesar dos dissabores, eu achava um piadão ao compasso e ao tira-linhas pelo menos na fase de esboço. E as magníficas retas que conseguia desenhar com o auxílio de uma régua estimulavam a autoconfiança. Quando era para passar a tinta é que borrava a pintura toda. As pobres circunferências que desenhava nunca acabavam no ponto em que começavam, não sei por que motivo havia sempre um desvio e o que aparecia era uma espécie de caracol.
Também gostava muito de colorir com guaches e as cores mais simpáticas eram o vermelho e o amarelo que utilizava abundantemente em livrecos para colorir. Mas mesmo as cores que usava eram geralmente tremendo borrão. Enfim, total falta de jeito.
Um dia, surgiu algo de novo, uma surpresa agradável. A Dra. Nazaré apareceu com uma garrafa e um banquinho. Pôs o banquinho em cima da secretária e aproveitou para colocar a garrafa sobre o mesmo, ficando assim à vista de todos nós embora em perspetivas diferentes.
- Vamos fazer o primeiro desenho à vista. Da posição em que estão, olhem na direção da garrafa e tentem passar a sua imagem para o papel. Reparem que há zonas mais e menos sombreadas. Experimentem sombrear de acordo com que veem.
E eu passei quase uma hora a sombrear, sombrear, sombrear. Como estava lindo o meu desenho e eu estava quase a dá-lo por acabado após alguma ajuda da professora.
Mas eis que um elemento novo veio perturbar a aula que tão bem estava a correr. Era o Sr. Nunes.
- A menina Borda d’Água é chamada ao Sr. Diretor.
A Lena tremeu como varas verdes. É que tinham passado poucos dias sobre o famoso assalto ao CFL em que uma loira de meias negras quase tinha enfeitiçado o simpático contínuo. Será que alguém desconfiava de alguma coisa em relação à Lena? A verdade é que ela nunca mais tinha usado as suas fantásticas meias, mas desde pequenino nos andavam a dizer que «todas as maldades que fizéssemos cá na terra, seriam pagas cá na terra» e ela pensou que era o dia em que iria pagar tudo…
O certo é que ficou aterrorizada e, quando passou junto ao banquinho, com um movimento involuntário, derrubou-o. A garrafinha partiu-se em mil bocados, espalhando-se completamente pelo chão.
E assim ficou estragada a minha aula de desenho. Não consegui concluir o gargalo da garrafa e a nota acabou por não premiar o meu esforço e apego. Tudo por causa de uma colega que um dia se disfarçou de loira com meias negras e ficou aterrorizada por ser chamada ao diretor…

domingo, outubro 20, 2019

Vejam o que eles fizeram ao nosso CFL


Recordar os tempos do CFL é um gosto, passar junto dele e examinar o que dele resta é uma tristeza, mais, posso dizer, uma vergonha para os autarcas que têm conduzido os destinos da nossa terra. Será possível que algo que marcou tantas gerações de oureenses esteja naquele estado? Que falta de brio!
Em 2008, segundo o NO, a autarquia, a troco da cedência de algumas facilidades na construção de moradias unifamiliares, era nesse momento detentora do edifício do estórico Colégio Fernão Lopes e projetava requalificá-lo bem como a sua envolvente com o objetivo de ali instalar um local de formação.
Os edifícios em torno surgiram, mas o edifício do CFL é que não foi requalificado. Nem percebo como alguns dos novos edifícios conseguiram ser comercializados com sucesso com esta porcaria em frente. É que nem o diabo das paredes em tijolo totalmente inúteis deitaram abaixo e limparam.
Que se terá passado de 2008 para cá? Nem me atrevo a perguntar quem beneficiou com as facilidades concedidas…

quarta-feira, setembro 18, 2019

Da... da O fotográfo distraído

Houve um professor de que só se sabe a alcunha por que ficou conhecido. Veio de África e ensinava português. Vivia na Avenida, perto da casa do Melo. Era o "Zebú". 
Para começar uma frase tinha que usar a expressão "Da...da..."
Lembro-me que um dia chamou o Amílcar ao quadro e lhe disse "Da...da..., Amílcar escreve aí" . E o Amílcar escreveu 

Da...da... Amílcar escreve aí! 

Também há que contar que era um excelente ... fotógrafo. Só que não vimos qualquer fotografia. Tirava, com a sua máquina, fotografias a toda a gente. Em grupo ou separado. 
E quando pedíamos para ver essas fotografias, respondia invariavelmente: "Da... da perdi as chaves da gaveta onde as meti.". Se fosse hoje, desconfiávamos...




(Nota: adaptado das memórias do Zé Rito, o nosso querido Avião)

terça-feira, setembro 17, 2019

Será que queriam deitar fogo ao colégio?


No intervalo das aulas, um grupo de estudantes do CFL estava a fumar, às escondidas, por trás do ginásio.
Ao atirarem as beatas fora para junto de um silvado que ali havia, aconteceu o inevitável: o silvado começou a arder.
Fugiram para a encosta dos moinhos. Sorrateiramente, deram a volta e chegaram ao local do crime vindos do lado oposto. Já havia muita gente com baldes que conseguiu apagar o fogo.
Mas alguém os tinha visto e denunciou-os. Deram uma desculpa e atribuíram a autoria ao Natureza, rapaz que vivia na Rua da Castela (que obviamente não pôde defender-se, pois não estava lá).
Durante muito tempo estiveram à espera de ser chamados ao gabinete do Dr. Armando e prestar contas, que seriam pesadas. Mas, daquela vez, escaparam... e o Natureza também não foi incomodado.
Belos tempos em que os fogos se apagavam com alguns baldes de água.


Esta e outras revelações podem ser encontradas nas magníficas crónicas do Zé Rito, o nosso venerado "Avião".

segunda-feira, setembro 16, 2019

A seita do autocarro dos Claras

Eram de Fátima. 
Lembro-me especialmente de quatro: o Matias, o José Augusto, o Seminário (Frazão) e o Zé Carlos. Operando em turmas diferentes, recordo o Pinto e o Rui.
Eles aí vinham na fabulosa camioneta dos Claras a caminho do CFL. Antes, passavam pela tasca do Frazão para uma partida de matraquilhos.
Tenho uma boa recordação de quase todos.
De quando em quando ainda encontro o Matias perto do Cinquentenário em Fátima.
O Zé Augusto foi o protagonista da história do mata-borrão e, por isso, está imortalizado pela nossa crónica. Sabe-se também que inúmeras vezes regressou a Fátima a pé, pois gastou o dinheiro para o regresso a jogar à batota.
Encontrei o Pinto há anos em Ourém como gerente de um banco. Exactamente o mesmo, excelente pessoa, sempre disponível, especialmente depois de ter sido exemplarmente sovado pelo Dr. Armando junto ao magnífico cineteatro da nossa terra.
Já não encontro o Rui há muitos anos, sempre convivi pouco com ele.
Deixei para o fim aqueles com quem me dei mais.
O Frazão, excelente ponta de lança, portador da alcunha Seminário devido à existência na época de famoso jogador com esse nome, brindava-me sistematicamente com os livros de banda desenhada que devorava nos intervalos e que, conhecida a história, deixavam de lhe interessar. Era a concretização correta e sistemática da partilha. Um dia, foi-se embora e nunca mais o encontrei.
Por fim o Zé Carlos. Foi um amigo, acompanhou-me por aquele CFL durante vários anos. Falou-me nas estrelas de Hollywood que tanto admirava. 
Há anos, passou-se uma cena caricata com um deles.
Foi na Milano, em Fátima. “X! Eh, pá! Não és o X...?”. “Sou, sim”. “Não me conheces? Sou o Luís. Do CFL”. “Não, não faço a menor ideia...”.
Que lhe terá passado pela cabeça? Estaria assim tão diferente? Não foi um dia, dois, foram anos...
Desde então, passei a ter especial cuidado na abordagem a velhos conhecidos. 

sexta-feira, setembro 13, 2019

Os problemas do infinito



… Eu já gostava dos desafios da Matemática dedicando-lhe largas horas de estudo e, por vezes, do tempo livre. Mas com ela ganharam outra conotação.
Problemas, teoremas, axiomas, postulados… tudo se transformava, envolvendo-se em cores fantásticas sem perderem a identidade.
Um dia fui chamado ao quadro e, desengonçado, resolvi armar-me em esperto, usando a matéria de simplificações.
- Vou demonstrar que 2 é igual a 3.
- Como?
- É verdade, descobri esta noite numa investigação que fiz…
Qual júri de um concurso musical da RTP, ela respondeu:
- Faça favor, o quadro é todo seu…
E eu comecei a escrever:
0 = 0, logo
2-2 = 3-3, pondo em evidência vem
2*(1-1) = 3*(1-1).
Podemos substituir 1-1 por X, logo
2*X = 3*X, pelo que, simplificando
2 = 3
Comecei a ouvir uns risinhos.
E, de repente, ouvi aquela vozinha, proveniente do lado direito da primeira fila, estilo Ronaldinha das Matemáticas:
- Não pode ser. 0 não divide por 0, dá infinito…
Olhei-a furibundo, batido em toda a linha. Ali estava ela, com ar de vencedor, de todas as cores, um verdadeiro arco-iris. Esta a razão por que não segui Matemática e desgastei o meu tempo no mundo da Economia onde se pode demonstrar tudo e o seu contrário…

quarta-feira, setembro 11, 2019

O regresso da «Pau de Giz»

A Dra. Nazaré Nunes era uma excelente professora de Matemática. Era uma pessoa alta, magra, sempre de bata branca, o que lhe valeu o nome de "pau de giz".
Mas houve um ano em que ela saiu, alegadamente por problemas de vencimento. Era difícil viver noutra terra com os salários que se praticavam...
E a primeira manifestação de massas ocorreu em Ourém.


QUEREMOS A DOUTORA NAZARÉ!!!!

Pais e alunos unidos juntaram-se frente ao Colégio exigindo o seu regresso e, apesar da rigidez do sistema, acabaram por vencer.
No ano seguinte a prestigiada professora regressava, sendo substituída até esse momento pelo Dr. Preto.




(Nota: texto baseado nas memórias do Zé Rito, o nosso querido Avião…)


domingo, setembro 08, 2019

O piquenique




A turma (parte) da primária

Confesso que não me lembro de isto ter acontecido.
Mas a foto demonstra que estava lá. Simpático como sempre. Como apreciava muito rir-me, aí está um magnífico esgar que faz lembrar as aventuras do Drácula.
Neste momento já demonstrava a minha notável aptidão para estragar as fotografias. Demonstrei-o aqui como personagem. Demonstrei-o outras vezes como executante e que o recordem o Duarte e o Ferraz que um dia caíram na patetice de me pôr uma máquina fotográfica nas mãos. Depois da revelação, um tinha ficado sem cabeça, outro sem pernas, metade do grupo não constava. Eh! Eh!, numca me diverti tanto...
Mas estava a falar desta foto...
Fomos todos fazer um piquenique para a zona da Quinta da Sardinha. Meninos: Manel da Mata, Helder, Alfredo, Quim Vaz, Luís Filipe, Faustino, Quim Zé,..., Humberto, Zé Quim, Luís Nuno, eu. Meninas: Teresa, Isabel, Cristina, Aninhas, Lena,..., Gabriela, Mena.
Perdoem algum não reconhecimento.
Diz o Al Simon que tenho de ir ao oftalmologista: não reconheço as pessoas nem me lembro do facto. 

terça-feira, setembro 03, 2019

A aula de inglês

Não quero ser injusto com o Dr. Laranjeira que me fez desenvolver os conhecimentos de inglês e sempre ensinou com notável profissionalismo. Mas houve um momento antes dele que preparou o terreno onde os seus magníficos ensinamentos tiveram lugar...
E recordo uma das fabulosas manhãs primaveris de Ourém, em que estávamos embevecidos na contemplação da belíssima imagem da Boazinha. Era linda, pequenina, bem torneada, doce e falava maravilhosamente «o Inglês». Nem preciso de recordar o nome para me lembrar dela...
Naquele momento, ela fazia notável esforço para nos dotar com mais alguns vocábulos da língua inglesa. 
O problema era o "só". E ela recomendava: 
- Lembrem-se daquela canção, o "Only You", dos Platters. Sabem como se traduz o título?
E nós, nos nossos virginais treze anos, ainda sem maldade mas prenhes de desejo, absorvidos por aquela figurinha maravilhosa, respondíamos:
- Só tu...
Nunca mais esqueci o momento nem a canção.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Ai! Do que é que eles se terão lembrado?



Segundo o NO, a autarquia, a troco da cedência de algumas facilidades na construção de moradias unifamiliares, é neste momento detentora do edifício do estórico Colégio Fernão Lopes e projecta requalificá-lo bem como a sua envolvente com o objectivo de ali instalar um local de formação.
De longa data temos vindo a denunciar a incúria relativamente às referências da história recente de Ourém, designadamente das que acompanharam as gerações de cinquenta, sessenta e setenta... Este foi um desses locais.
Terão estes senhores ganho algum juízo? E será mesmo para USO Oureense?
Duvido muito...
...mais, a avaliar pelo que realizaram noutros pontos de Ourém é de acreditar que vão fazer qualquer coisa que descaracterizará totalmente o espaço pelo que breve diremos: "antes morto que assim torto!".

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Marca #10: Colégio Fernão Lopes


Houve um momento em que um oureense contestou a ligação que nutríamos à escola que nos acompanhou uma série de anos com um argumento do tipo: “Não valia nada. O que nos ensinava tinha, no fundo, o intuito de nos explorar, de ficar com o pouco dinheiro que os nossos pais ganhavam”.
É terrível esta lógica que leva a não reconhecer valor àqueles que prestam uma actividade remunerada que é útil a outros. Como se isso não se passasse em todos os ramos de actividade económica.
Ao mesmo tempo, tal argumento não deixa ver que, na época, o CFL era a hipótese única de se avançar nos estudos e fazer o primeiro ano, o segundo,... sem ser explorado por um produtor de serviços de habitação em Leiria ou noutro local mais afastado, permitindo-nos estar junto à família numa idade em que isso era importante.
E quanto a professores, eu desafio que me apontem escolas onde, globalmente, fossem melhores, isto para não citar casos individuais como o da Dra. Nazaré, do Dr. Laranjeira ou do próprio Dr. Armando quando não estava com os azeites e nos conseguia fazer ver História apenas com as suas palavras...
Talvez seja, no entanto, esse argumento que, banalizando a importância que aquele local teve para a nossa geração, permita a sua lenta mas constante degradação, sem uma acção para a sua recuperação, transformando-o numa espécie de “Colégio de triste destino”.

sexta-feira, março 03, 2006

A encosta da pedra rolante



Caminhavam pela encosta do moinho imbuídos pelo espírito de mil aventuras. Por vezes transportavam lanças, resultado da mutação de canas em virtual exercício mental, julgando ter com eles elemento de arremesso.
Naquele dia procuravam algo de diferente. Que encontraram...
No chão, a uns 100 metros da estrutura já esventrada do moinho, estava uma mó. Algo bem pesado pela certa. Em forma circular, convidava imediatamente a exercício mais radical.
- E se a apontássemos ao colégio?
- Temos de ser vários a agarrá-la. Vamos a isso.
Com a força que tinham, lá a conseguiram pôr de pé. Um ainda pôs ligeiro entrave:
- E se acertamos em alguém?
- Deixa-te disso.. Isto vai trespassar o ginásio e fazer monumental alarido no recreio.
Continuaram a apontar a mó.
- Vamos largá-la.
E a encosta começou por viabilizar a insólita descida. Algo impediu que ela se concretizasse na totalidade. Ou uma oliveira ou inclinação mais abrupta fizeram com que ela fosse encontrada uns metros mais abaixo e deitada de lado...
Lá em baixo, no colégio, o sr. Nunes tocou a campainha e, pouco depois, o recreio estava cheio de estudantes que ali foram gozar as delícias do intervalo…

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

O engenhoso paraquedista




Esperávamos que a Dona Aninhas chegasse junto à porta da sala de aulas. O dia parecia que estaria chuvoso pelo que todos íamos munidos com o respetivo guarda-chuva. Não sei se os meus amigos ainda se recordam: extremamente largo, cabo grosso, todo em madeira.
O acesso à sala de aulas era através de uma escada, protegida lateralmente por um estreito muro que funcionava como corrimão. Lá de cima, vislumbrava-se o ginásio, os moinhos, o pinhal circundante.
Havia alguma impaciência, mas isso não impedia que se fizessem planos para o futuro.
- Quando for grande, hei-de ser paraquedista – dizia o TóLiz.
- Tu? – gozava o Manel – se calhar nem és capaz de saltar lá para baixo.
Creio que o TóLiz não gostou do que ouviu. A altura era relativamente significativa. Ele sentou-se no muro, lá no alto e mediu a distância. Em seguida, puxou do seu guarda-chuva e abriu-o.
- Vê se tens a minha coragem – respondeu ao Manel.
Levantou o braço com o chapéu, fez ligeiro movimento para a frente e deixou-se cair. E não é que, num primeiro momento, ele parecia que deslizava suavemente pelos ares sustentado pelo guarda-chuva? Ele ria, dava aos pés, o resto do pessoal estava preso do momento. Que parecia interminável, que parecia deixar ouvir aquela música:

… he flies like a bird...



...in the sky...

De repente, o chapéu não aguentou mais. As varetas deram de si, o pano virou-se e o TóLiz caiu vertiginosamente no chão. Mas levantou-se num instante.
- Vês? Quem é que não tem coragem?
O pobre chapéu é que, nesse dia, foi para o caixote do lixo.

E agora…
Siga o voo do TóLiz ouvindo os Honeybus.




quarta-feira, janeiro 25, 2006

A aula de Ciências Naturais



Naquela manhã, a Dra. Lurdes Moreira arrumou cuidadosamente o seu carro junto ao muro do CFL e dirigiu-se apressadamente para a sala de aula onde a esperávamos à porta. Estava um pouco atrasada devido talvez à lentidão do seu bólide.
- Podem entrar...
Lá fomos. Que matéria nos traria hoje, uma vez que tínhamos acabado o manual de Botânica? Ela não tardou a esclarecer.
- Vamos começar a estudar Zoologia. Penso que já terão adquirido o livro que vos recomendei no início do ano. É um livro aprovado oficialmente no Diário de Governo nº 147, II Série, de 25 de Junho de 1960 como livro único.
Por acaso tínha-o comigo já que no início do ano, devido à dificuldade em arranjar livros em Ourém o tinha adquirido aproveitando uma deslocação a Tomar de alguém que se prontificou a adquiri-los para a turma toda.
- Se quiserem podem dar uma vista de olhos ao meu livro ou ao vosso se aí tiverem. Vamos proceder ao estudo morfológico dos Vertebrados ilustrando-o com o coelho bravo, o pombo, o lagarto, a rã, o barbo e as lampreias. Depois vamos dar noções de sistemática com a distribuição em ordens dos animais de cada classe.
Comecei a achar alguma graça ao que ela estava a dizer e folheei rapidamente o livro.
- Veem? Reparem entre a página 12 e 13. Têm aí uma estampa com a organização interna do coelho. No texto, encontram o nome de alguns órgãos, procurem observar a sua posição relativa.


Coelho de barriga abertaPosted by Picasa

Pobre bicho. O que terá sofrido para chegarem àquele conhecimento. Tenho a certeza que existem pessoas que não conseguirão olhar para estas estampas que ilustram como nos servimos dos animais com muito pouco respeito...
- Mais à frente, continuou a professora, encontram as noções de sistemática, na página 88. Chamo a vossa atenção pois têm de saber rigorosamente esta caracterização em classes. Por exemplo, em relação à classe I – Mamíferos – não devem enganar-se e dizer “vertebrados como o coelho, que respiram por pulmões, que têm o corpo coberto com pelos e que nos primeiros tempos de vida se alimentam de leite materno. Têm temperatura constante, e a maior parte são vivíparos”. Vamos ver estas classes uma por uma. Daqui a três semanas faremos um teste para ver o que aprenderam...
E a aula continuou tendo a professora ajudado a arrumar, nesse dia, uma boa porção de matéria.

Os incomensuráveis segredos do livro de Zoologia



O livro Posted by Picasa

Terminada as aulas, já em casa, fui observar mais detalhadamente o livro recomendado. O autor era Augusto C. G. Soeiro e chamava-se “Compêndio de Zoologia”. O preço de capa era de 18$00. Tinha 88 páginas numeradas, algumas estampas e algumas páginas não numeradas com texto relativo às estampas.
Logo numa das primeiras páginas, deparei com um pormenor interessante: “Todos os exemplares são numerados e autenticados pelo Ministério da Educação Nacional”. E, mais abaixo, o número do exemplar que me coubera: 27503 e o resultado de um carimbo com a expressão Livro único.
Mas o mais engraçado estava para encontrar lá à frente com todas aquelas estampas relativas às várias ordens e deliciosas descrições das mesmas. Apreciem só:
Os Primatas são Mamíferos unguiculados, con os olhos dirigidos para diante e com o polegar oponível aos outros dedos, pelo menos num par de membros. E lá apareciam o Mandril e o Chimpazé. 


O mandril Posted by Picasa

Depois vinham os quirópteros, os insectívoros, os roedores, os carnívoros, os artiodáctilos, os perissodáctilos, os proboscídeos, os cetáceos, os sirénios, os desdentados, os marsupiais e os monotrématos. 


Os marsupiais Posted by Picasa

Que trabalheira! Como iria decorar tudo aquilo? E depois ainda vinham as aves, os peixes...
Apreciem... apreciem algumas das estampas do livro para verem o que me esperava... 


O mocho Posted by Picasa

Batem à porta. E oiço aquela voz salvadora: 
- Boa tarde, Dona Maria. O Luís Manel está? 
Era o Jó Rodrigues. A tarde de estudo ficou por ali interrompida por um programa muito mais importante que o da aula de Ciências Naturais
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