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segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Ai! Do que é que eles se terão lembrado?



Segundo o NO, a autarquia, a troco da cedência de algumas facilidades na construção de moradias unifamiliares, é neste momento detentora do edifício do estórico Colégio Fernão Lopes e projecta requalificá-lo bem como a sua envolvente com o objectivo de ali instalar um local de formação.
De longa data temos vindo a denunciar a incúria relativamente às referências da história recente de Ourém, designadamente das que acompanharam as gerações de cinquenta, sessenta e setenta... Este foi um desses locais.
Terão estes senhores ganho algum juízo? E será mesmo para USO Oureense?
Duvido muito...
...mais, a avaliar pelo que realizaram noutros pontos de Ourém é de acreditar que vão fazer qualquer coisa que descaracterizará totalmente o espaço pelo que breve diremos: "antes morto que assim torto!".

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Marca #10: Colégio Fernão Lopes


Houve um momento em que um oureense contestou a ligação que nutríamos à escola que nos acompanhou uma série de anos com um argumento do tipo: “Não valia nada. O que nos ensinava tinha, no fundo, o intuito de nos explorar, de ficar com o pouco dinheiro que os nossos pais ganhavam”.
É terrível esta lógica que leva a não reconhecer valor àqueles que prestam uma actividade remunerada que é útil a outros. Como se isso não se passasse em todos os ramos de actividade económica.
Ao mesmo tempo, tal argumento não deixa ver que, na época, o CFL era a hipótese única de se avançar nos estudos e fazer o primeiro ano, o segundo,... sem ser explorado por um produtor de serviços de habitação em Leiria ou noutro local mais afastado, permitindo-nos estar junto à família numa idade em que isso era importante.
E quanto a professores, eu desafio que me apontem escolas onde, globalmente, fossem melhores, isto para não citar casos individuais como o da Dra. Nazaré, do Dr. Laranjeira ou do próprio Dr. Armando quando não estava com os azeites e nos conseguia fazer ver História apenas com as suas palavras...
Talvez seja, no entanto, esse argumento que, banalizando a importância que aquele local teve para a nossa geração, permita a sua lenta mas constante degradação, sem uma acção para a sua recuperação, transformando-o numa espécie de “Colégio de triste destino”.

sexta-feira, março 03, 2006

A encosta da pedra rolante

Caminhavam pela encosta do moinho imbuídos pelo espírito de mil aventuras. Por vezes transportavam lanças, resultado da mutação de canas em virtual exercício mental, julgando ter com eles elemento de arremesso.
Naquele dia procuravam algo de diferente. Que encontraram...
No chão, a uns 100 metros da estrutura já esventrada do moinho, estava uma mó. Algo bem pesado pela certa. Em forma circular, convidava imediatamente a exercício mais radical.
- E se a apontássemos ao colégio?
- Temos de ser vários a agarrá-la. Vamos a isso.
Com a força que tinham, lá a conseguiram pôr de pé. Um ainda pôs ligeiro entrave:
- E se acertamos em alguém?
- Deixa-te disso.. Isto vai trespassar o ginásio e fazer monumental alarido no recreio.
Continuaram a apontar a mó.
- Vamos largá-la.
E a encosta começou por viabilizar a insólita descida. Algo impediu que ela se concretizasse na totalidade. Ou uma oliveira ou inclinação mais abrupta fizeram com que ela fosse encontrada uns metros mais abaixo e deitada de lado...
Lá em baixo, no colégio, o sr. Nunes tocou a campainha e, pouco depois, o recreio estava cheio de estudantes que ali foram gozar as delícias do intervalo...

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

O engenhoso paraquedista



Esperávamos que a Dona Aninhas chegasse junto à porta da sala de aulas. O dia parecia que estaria chuvoso pelo que todos iamos munidos com o respectivo guarda-chuva. Não sei se os meus amigos ainda se recordam: extremamemente largo, cabo grosso, todo em madeira.
O acesso à sala de aulas era através de uma escada, protegida lateralmente por um estreito muro que funcionava como corrimão. Lá de cima, vislumbrava-se o ginásio, os moinhos, o pinhal circundante.
Havia alguma impaciência, mas isso não impedia que se fizessem planos para o futuro.
- Quando for grande, hei-de ser paraquedista – dizia o TóLiz.
- Tu? – gozava o Manel – se calhar nem és capaz de saltar lá para baixo.
Creio que o TóLiz não gostou do que ouviu. A altura era relativamente significativa. Ele sentou-se no muro, lá no alto e mediu a distência. Em seguida, puxou do seu guarda-chuva e abriu-o.
- Vê se tens a minha coragem – respondeu ao Manel.
Levantou o braço com o chapéu, fez ligeiro movimento para a frente e deixou-se cair. E não é que, num primeiro momento, ele parecia que deslizava suavemente pelos ares sustentado pelo guarda-chuva? Ele ria, dava aos pés, o resto do pessoal estava preso do momento. Que parecia interminável, que parecia deixar ouvir aquela música:
... he flies like a bird...
De repente, o chapéu não aguentou mais. As varetas deram de si, o pano virou-se e o TóLiz caiu vertiginosamente no chão. Mas levantou-se num instante.
- Vês? Quem é que não tem coragem?
O pobre chapéu é que, nesse dia, foi para o caixote do lixo.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

A aula de Ciências Naturais

Naquela manhã, a Dra. Lurdes Moreira arrumou cuidadosamente o seu carro junto ao muro do CFL e dirigiu-se apressadamente para a sala de aula onde a esperávamos à porta. Estava um pouco atrasada devido talvez à lentidão do seu bólide.
- Podem entrar...
Lá fomos. Que matéria nos traria hoje, uma vez que tínhamos acabado o manual de Botânica? Ela não tardou a esclarecer.
- Vamos começar a estudar Zoologia. Penso que já terão adquirido o livro que vos recomendei no início do ano. É um livro aprovado oficialmente no Diário de Governo nº 147, II Série, de 25 de Junho de 1960 como livro único.
Por acaso tínha-o comigo já que no início do ano, devido à dificuldade em arranjar livros em Ourém o tinha adquirido aproveitando uma deslocação a Tomar de alguém que se prontificou a adquiri-los para a turma toda.
- Se quiserem podem dar uma vista de olhos ao meu livro ou ao vosso se aí tiverem. Vamos proceder ao estudo morfológico dos Vertebrados ilustrando-o com o coelho bravo, o pombo, o lagarto, a rã, o barbo e as lampreias. Depois vamos dar noções de sistemática com a distribuição em ordens dos animais de cada classe.
Comecei a achar alguma graça ao que ela estava a dizer e folheei rapidamente o livro.
- Veem? Reparem entre a página 12 e 13. Têm aí uma estampa com a organização interna do coelho. No texto, encontram o nome de alguns órgãos, procurem observar a sua posição relativa.


Coelho de barriga abertaPosted by Picasa

Pobre bicho. O que terá sofrido para chegarem àquele conhecimento. Tenho a certeza que existem pessoas que não conseguirão olhar para estas estampas que ilustram como nos servimos dos animais com muito pouco respeito...
- Mais à frente, continuou a professora, encontram as noções de sistemática, na página 88. Chamo a vossa atenção pois têm de saber rigorosamente esta caracterização em classes. Por exemplo, em relação à classe I – Mamíferos – não devem enganar-se e dizer “vertebrados como o coelho, que respiram por pulmões, que têm o corpo coberto com pelos e que nos primeiros tempos de vida se alimentam de leite materno. Têm temperatura constante, e a maior parte são vivíparos”. Vamos ver estas classes uma por uma. Daqui a três semanas faremos um teste para ver o que aprenderam...
E a aula continuou tendo a professora ajudado a arrumar, nesse dia, uma boa porção de matéria.
O livro de Zoologia


O livro Posted by Picasa

Terminada as aulas, já em casa, fui observar mais detalhadamente o livro recomendado. O autor era Augusto C. G. Soeiro e chamava-se “Compêndio de Zoologia”. O preço de capa era de 18$00. Tinha 88 páginas numeradas, algumas estampas e algumas páginas não numeradas com texto relativo às estampas.
Logo numa das primeiras páginas, deparei com um pormenor interessante: “Todos os exemplares são numerados e autenticados pelo Ministério da Educação Nacional”. E, mais abaixo, o número do exemplar que me coubera: 27503 e o resultado de um carimbo com a expressão Livro único.
Mas o mais engraçado estava para encontrar lá à frente com todas aquelas estampas relativas às várias ordens e deliciosas descrições das mesmas. Apreciem só:
Os Primatas são Mamíferos unguiculados, con os olhos dirigidos para diante e com o polegar oponível aos outros dedos, pelo menos num par de membros. E lá apareciam o Mandril e o Chimpazé.

O mandril Posted by Picasa

Depois vinham os quirópteros, os insectívoros, os roedores, os carnívoros, os artiodáctilos, os perissodáctilos, os proboscídeos, os cetáceos, os sirénios, os desdentados, os marsupiais e os monotrématos.

Os marsupiais Posted by Picasa

Que trabalheira! Como iria decorar tudo aquilo? E depois ainda vinham as aves, os peixes...
Apreciem... apreciem algumas das estampas do livro para verem o que me esperava...

O mocho Posted by Picasa
O teste de Zoologia


A preguiça Posted by Picasa

Durante aquelas três semanas, estudei que nem um desalmado. Quando ia para a rua, tentava relembrar todo aquele texto de caracterização das classes e das ordens e recordava-o através da fotografia dos bichos. Nem as tardes na Marina eram as mesmas, parecia que andava assombrado.
Para além do Mandril, simpatizava especialmente com a Preguiça, pertencente à ordem dos desdentados, perceberão facilmente porquê, com a Zebra, por me lembrar um burro às riscas e com os estranhos Ornitorrinco e Equidno, provenientes da Austrália, mas que eu jurava que já tinha visto em qualquer lugar.
Lá chegou o teste e os nervos eram muitos nesse dia. Parecia que todos aqueles nomes e caracterizações se baralhavam. Mas passou-se. Que nota iria ter?
Alguns dias depois, a Dra. Lurdes trouxe os testes.
- Vê-se logo quem estudou e quem não estudou. X tem um 20...
X era a minha arqui-rival. Sempre em despique por causa das notas... sempre em competição, nada que se comparasse à doçura daquelas coleguinhas que ficavam bem perto nas carteiras à minha frente. Fiquei logo a ver que, mais uma vez, tinha sido batido. Sim, eu tinha consciência, havia uma série de coisas que eu não tinha escrito da melhor maneira.
- E o Luís penso que também tem...
Não pude crer! A bondade da professora! Ela com certeza que me beneficiou, pois eu tinha cometido alguns erros. Mas não quis desmotivar-me e a caderneta lá passou a exibir aquele magnífico resultado. Ao menos, uma vez na vida...

sexta-feira, dezembro 02, 2005

De como o jovem bombista tornou o prato voador

Houve um ano que o Jó Rodrigues esteve como aluno interno no CFL. Torná-lo mais estudioso, dar-lhe mais gosto por essa actividade seriam os objectivos, porque esperteza e inteligência não lhe faltavam.
Aquilo foi para o Jó como uma prisão. Ali fechado, dia após dia, foi acumulando feridas contra o colégio, que tardou a largar.
Contaram-me que uma vez a refeição era tão má que ninguém a conseguia tragar. Uma espécie de massa com carne ou carne com massa de sabor pouco agradável e a tender para o intragável. O Jó não esteve com meias medidas. Janela aberta, a massa e respectivo prato voaram a boa velocidade para o exterior e os nossos amigos ficaram livres daquele cheiro nauseabundo.
O pior é que não esperavam o que ia passar-se. Como neste mundo tudo o que pode acontecer de mau acontece, mesmo sem o prevermos, o assunto não ficou por aqui porque prato e massa cairam em cima do Dr. Armando, a partir do primeiro andar, que, passado alguns segundos, chegava ao refeitório coberto de massa, ainda com bocadinhos de cacos, a pedir contas de um acto tão cobarde...
O ressentimento do Jó relativamente ao CFL não se ficou por aqui. Em férias, nomeadamente, nas de Carnaval, aquelas bombinhas típicas da época serviam para, lá para as dez da noite, em passeio de distintos oureenses por tão prestigiado local, assustar os habitantes daquele espaço, após brutal e inesperada deflagração sob as arcadas a que se seguia pronta correria na direcção do Central enquanto o director do colégio procurava a sua espingarda e o seu Peugeot para iniciar a perseguição a gente tão selvagem....

terça-feira, novembro 29, 2005

A aula de ginástica

O ginásio do CFL ficava mais junto ao pinhal e no caminho para os moinhos e, semanalmente, lá tínhamos a aula de ginástica, vestidos a rigor: calção, blusa e sapatilhas imaculadamente brancos. No Inverno a tiritar de frio, imaginem o que aquilo era.
E ainda me lembro do Dr. Albano:
- Façam agora alguns abdominais. Se repetirem este exercício regularmente, ganharão tal músculo, aí, na zona da barriga, que nunca terão hérnias. Deitem-se no chão, elevem lentamente as pernas a uns 45 graus, parem por uns momentos e aguentem, depois, lentamente, deixem-nas descer.
O amor do Dr. Albano ao desporto era reconhecido por todos, chegando inclusivamente a publicar, na época, artigos a fomentar a sua prática entre os jovens. Vejam este pequeno texto do NO:

Rapazes de Ourém, criai animo, subjugais o vício, ou melhor, os vícios, ponde de arte essa indiferença pelas coisas da vossa terra, dedicai umas horas ao desporto e vós encontrareis sempre quem vos guie.

Rapazes de Ourém o vício arruína-vos, o vício arruína a vossa família, o vício conduz sempre à degradação moral.

Praticai desporto e voltareis a ter saúde; praticai desporto e vivereis alegres; praticai desporto e vereis a vossa família cheia de vida gozando o que de melhor temos nesta vida – saúde (1).

Mas, num dia de Inverno, bem chuvoso, não tivemos aula. Por qualquer motivo, o senhor teve de faltar e ali estávamos cheios de frio sem saber o que fazer. Logo alguém se lembrou:
- Vamos lá para fora jogar à bola.
Como era muito frio, vestimos a roupa da semana e lá fomos para o lamaçal. Eu gostava tanto das sapatilhas brancas que resolvi ir jogar com elas já que as botas eram bem pesadas.
Fui uma hora magnífica, bem quentinha. NO final calculam como ficaram as sapatilhas. A mãezinha lá em casa tratou de devolver tudo à sua cor original. Sem um queixume, sem uma reprimenda...
...
Serão na casa dos meus tios na Rua de Santa Teresa.
A tia Elvira e a minha mãe falavam. O meu tio Abel preenchia aquelas horrorosas folhas de contabilidade com caracteres desenhados que me faziam monumental impressão. Como é que ele conseguia?
De repente, interrompeu a conversa delas, olhou por cima dos óculos e ergueu a voz:
- Fui hoje ao colégio levar uns papéis. Estavam lá uns rapazes a jogar à bola no recreio. Tudo bem, porque estavam fora de aulas. Mas havia um, o único que me chamou a atenção. Estava de sapatilhas brancas. A estragá-las... era o único. Todos os outros tinham o calçado normal, só tu é que estavas assim. Não tens vergonha?
Fogo!
Que monumental desanda! Que gente tão severa e ao mesmo tempo de quem gostávamos tanto! Chegou até hoje...

quinta-feira, novembro 10, 2005

Física e Química

Hoje, deu-me para voltar ao saudoso Fernão Lopes.
Numa daquelas tardes, estávamos reunidos no ginásio. Era talvez o primeiro ano em que estudámos Química. Em Ourém, o banho diário ainda não estava definitivamente instituído. Uma vez por semana com aqueles chuveiros de roldana e já era uma sorte.
Repentinamente, ouviu-se a Lena:
- Ó,..., sabes qual é a fórmula do Sulfato de Peúga. Talvez SO4PE2, não...?
Eu não queria estar na pele daquele distinto...

sábado, setembro 17, 2005

O CFL outra vez

Pensamos que ninguém nos conhece.
Andamos descontraídos por OUrém e, de repente, alguém pára ostensivamente à nossa frente.
- Não me conheces?
Claro que a conheci logo.
A Lena. A miúda mais espevitada do Fernão Lopes, cujo pai ainda se desloca por Ourém numa espécie de bicicleta com um pequeno motor.
Um dia, teve o arrojo de interromper uma aula, virar-se para a turma com um disco na mão e...
- Sabem quem é? A Françoise Hardy... Gira, não é?
É a vantagem de ter vivido aqueles anos...

quarta-feira, novembro 03, 2004


Como é possível?



O Albuquerque esteve aqui. Aqui terá passado alguns dos melhores anos da sua vida. Aqui terá conhecido o primeiro sabor dos SGs, dos Portos, dos Definitivos. Aqui terá dado muitos toques na bola, terá levado muitos colegas mais novos ao poste. E certamente terá recebido a formação que o ajudou a ocupar alguns dos postos politicamente mais poderosos no distrito e no concelho. Apesar disso tudo, nada conseguiu fazer para devolver ao que foi o Colégio Fernão Lopes um pouco da dignidade que ele orgulhosamente ostentava noutros tempos.
Esta escola foi responsável pela transmissão de conhecimentos a muitos jovens de Ourém e de outras terras. Nela trabalharam excelentes professores alguns dos quais para mim constituem uma referência: a Dra. Maria da Nazaré, o Dr. Laranjeira, a Dra Lurdes Moreira, a Dra Maria Júlia, o próprio Dr. Armando quando não estava virado do avesso. E quem não recorda a Boazinha?
Por respeito a toda esta gente, a Câmara devia pensar na sua recuperação e na sua utilização como um local de formação do mais alto nível.

domingo, setembro 19, 2004

Bolinhas de naftalina (4)
O vendaval

À noite, Ourém era silenciosa, escura, triste. Mas, por vezes, as noites eram quentes e isso convidava distintos oureenses a abandonarem o jogo de cartas ou bilhar. Então caminhavam pelas ruas, por vezes sem muito assunto para conversar.
Façamos uma dessas caminhadas.
Por exemplo, subamos a rua de Castela, antes uma calçada, daquelas que magoava quando se caia e o joelho ia ao chão. De um lado e doutro, pequenas casinhas davam-nos um pouco da vida, pobre, dos oureenses. Mas as vozes, dentro de casa, revelavam alguma alegria, enquanto as luzes, das velas ou das lâmpadas, indiciavam que também era difícil dormir por ali.
À falta de televisão, a melhor companhia era a rádio, com aqueles folhetins intermináveis em que o Rui de Carvalho, a Carmen Dolores e a Eunice transportavam os portugueses para outros mundos e outros tempos.
Ultrapassada a rua de Castela, entrava-se na estrada que liga a Avenida ao magnífico Colégio. Aí, o ambiente mudava radicalmente. O Julito, muito mais pequenito que nós, então com doze ou treze anos, dormia, pachorrentamente, naquela casinha do lado esquerdo. Do mesmo lado, o magnífico pinhal que nos acompanhou na juventude enquanto educação. Do lado direito, se não me engano, uma vinha.
Mas aquela vida era mesmo defícil de passar. Desejávamos como que um vendaval que mudasse tudo aquilo.
- Não há ninguém que saiba cantar?
E, nesse momento, uma voz elevou-se no meio daquele grupo e revelou algumas horas de treino e audição na clandestinidade.

O vendaval passou nada mais resta
a nau do meu amor tem novo rumo
igual a tudo aquilo que não presta
o amor que me prendeu desfez-se em fumo

Navego agora em mar de calmaria
ao sabor da maré em verdes águas
ao leme o esquecimento e a alegria
vai deixando, para trás, as minhas mágoas

Para onde vou não sei
o que farei sei lá
só sei que me encontrei
e que eu sou eu enfim
e sei que ninguém mais rirá de mim

Longe no cais ficou a tua imagem
mal a distingo já esmanhecida (??)
comigo a alegrar-me a viagem
vão andorinhas de paz de nova vida

Sigo o tranquilo rumo da esperança
buscando aquela paz apetecida
para ti eu fui um lago de bonança
ai e tu um vendaval na minha vida

Para onde vou não sei
o que farei sei lá
só sei que me encontrei
e que eu sou eu enfim
e sei que ninguém mais rirá de mim

Foi a estupefacção total. Depois, veio o aplauso. Ali estava um distinto oureense que conseguia imitar o magnífico cantor latino, o romântico que nunca teve a honra de ser considerado fadista apesar de algumas das suas canções valerem mais que mil fados.
A sessão repetiu-se várias vezes, mas tudo acabou por acabar inclusivamente aquela voz que nunca conheceu qualquer sinal de consagração. E testemunhas quase que não há, pois dois dos poucos que lá estavam, infelizmente, já partiram.

domingo, junho 13, 2004

Pi-Pi
Voltemos ao CFL.
Vamos falar de uma professora que nos deixou uma deliciosa recordação nos dois ou três anos que precederam o formidável calhambeque do Roberto Carlos.
Residente no centro de Ourém, utilizava um carrinho verde, julgo, para se deslocar para o colégio. A velocidade era moderada, dava a sensação que nunca ultrapassava os 20km/h e que não passava da segunda velocidade. De dez em dez metros, anunciava a sua presença com fortes buzinadelas para afastar algum incauto transeunte ou algum cãozito que, vendo o seu andamento, se atrevia a desafiá-la para uma corrida até à curva junto à casa do Zé Canoa.
Ensinava (e bem) Físico-Químicas, Botânica e Ciências Naturais. Foi nesta última matéria que consegui pela primeira vez a classificação máxima num teste, que durante anos tinha perseguido infrutiferamente. Tratava-se daquele tema em que se estudavam os mamíferos, as aves e aquelas ordens todas que o esquecimento já levou.
E quando o ambiente na magnífica sala do CFL era de todo insuportável devido a efervescência desobediente dos alunos que mereceria muito mais do que um valente abanão, ouvia-se a sua voz, com um misto de carinho e repreensão, numa frase que, neste momento, todos os que a conheceram decerto recordam:
- Que coisa! Vocês são de uma impertinência única.

sexta-feira, junho 11, 2004

O mata-borrão
Em Ourém, havia uma escola para rapazes e outra para meninas, respectivamente a escola do Roque e a escola da Dona Iria. Mas no CFL tive o privilégio de encontrar turmas mistas o que permitia aos mais abonados (?) uma educação mais equilibrada do que a reservada aos outros.
Ali, a filha do poeta podia encontrar-se com o filho do plebeu e, não fosse a separação nos recreios, que podia muito bem ser contrariada pelo reencontro no pinhal, poder-se-ia dizer que viviamos num mundo onde não existia segregação. Com efeito, as traseiras do colégio eram reservadas aos rapazes que aproveitavam a parte de trás do ginásio para experimentar os primeiros cigarros. A parte da frente, a das flores, era para as meninas que podiam aí gozar a simpática companhia dos professores que, nos intervalos, passeavam na estrada para baixo e para cima.
De repente, o toque da campainha, desencadeado pelo Sr. Nunes fazia com que todos voltassem para as salas de aula e para os corredores.
Todos?
Lembro-me de uma certa história protagonizada pelo Augusto Almeida e pelo Vitor Castanheira que acabou mal. Por causa do mata-borrão, desdenhosamente apelidado de chupa o que causou manifestação de estranheza pelos ditos, foram postos na rua com a indicação de que só lhes seria permitida a entrada após o pedido de desculpas. Eles é que não estiveram pelos ajustes: como não lhes era permitida a entrada, ficaram pelo recreio, não fosse aquele o melhor sítio para se estar. E os dias foram passando. Imaginem a satisfação do Augusto e do Vítor enquanto nós penávamos nas aulas...
Um dia, estávamos todos descansados na aula, quando, repentinamente, a porta se abre com estrondo, entram o Augusto e o Vítor em voo e, atrás deles, o Dr. Armando, esbaforido, muito vermelho, praguejante, que lhes pregou uma monumental sova à nossa frente e os obrigou a pedir desculpa pelo vil acto que tinham praticado com o mata-borrão.
Não contente com isso, conduziu-os aos lugares onde os fez sentar, fez menção de se retirar e, quando nós nos levantámos para saudar a sua saída, espetou mais uma ou duas bofetadas no Oliveira que, nesse dia, teve o azar de estar no local errado.

quarta-feira, junho 02, 2004

Bem feito


Ourém, Colégio Fernão Lopes.
Tínhamos talvez oito, nove anos. Concentrávamo-nos na parte da frente do colégio já não me lembro porquê. Algum encontro com alguns professores.
De repente aparece ele, no seu Volkswagen tipo carocha novinho em folha, conduzido pelo pai. Olha-nos com desprezo do alto da sua fortuna. Tudo nele era horroroso, embirrante, nem sei como o classifiquei como distinto oureense. Deve ter mudado muito depois disso.
Olha para nós, cabisbaixos, tristes, tesos que nem carapaus.
- Anjinhos!!!!
O pai acelera o carro para se afastar. Mas eis que coordena mal a condução e o carro vai abaixo. Foi gargalhada geral.

quinta-feira, abril 15, 2004

Como é possível?




O Albuquerque esteve aqui. Aqui terá passado alguns dos melhores anos da sua vida. Aqui terá conhecido o primeiro sabor dos SG, dos Porto, dos Definitivos. Aqui terá dado muitos toques na bola, terá levado muitos colegas mais novos ao poste. E certamente terá recebido a formação que o ajudou a ocupar alguns dos postos politicamente mais poderosos no distrito e no concelho. Apesar disso tudo, nada conseguiu fazer para devolver ao que foi o Colégio Fernão Lopes um pouco da dignidade que ele orgulhosamente ostentava noutros tempos.
Esta escola foi responsável pela transmissão de conhecimentos a muitos jovens de Ourém e de outras terras. Nela trabalharam excelentes professores alguns dos quais para mim constituem uma referência: a Dra. Maria da Nazaré, o Dr. Laranjeira, a Dra Lurdes Moreira, a Dra Maria Júlia, o próprio Dr. Armando quando não estava virado do avesso. E quem não recorda a Boazinha?
Por respeito a toda esta gente, a Câmara devia pensar na sua recuperação e na sua utilização como um local de formação do mais alto nível.
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