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quarta-feira, setembro 11, 2019

A besta ignorante




O Presidente dos Estados Unidos da América é uma besta. 
Não é apenas uma besta. É uma besta ignorante. Trump é rico. Poderia educar-se ou rodear-se de pessoas que não fossem ignorantes. Mas não o fez, apesar de o Presidente dos Estados Unidos da América ter direito a rodear-se dessas pessoas. 
Trump é uma besta porque gosta de ser como é. Sabe que é uma besta ignorante, mas gosta assim. Acha graça ser uma besta ignorante e ter chegado aonde chegou. Acha que é uma prova que ser uma besta ignorante não impede uma pessoa de ser Presidente dos Estados Unidos da América. 
Trump revelou que confunde a Inglaterra com o Reino Unido. Que tanto faz chamar-se uma coisa como outra. O pior é que ele se orgulha de ser ignorante. Gosta de demonstrar que se pode dar a esse luxo: "Olhem para mim, eu confundo a Inglaterra com o Reino Unido, tenho um campo de golfe na Escócia, mas é-me indiferente, não sofro por causa disso. Façam como eu! Sejam ricos e estúpidos como eu, que tudo vos será perdoado! Toda a gente é estúpida!" 
É um erro condescendente ter pena de uma besta ignorante que nunca leu um livro na vida. Ele orgulha-se disso. Não precisou. Não teve de passar por esse sacrifício. É a prova viva de que, ao contrário de Obama e de todos os outros Presidentes dos Estados Unidos da América, não é preciso ler um livro. Esse esforço tão desagradável, afinal, é inútil. Seja qual for o livro que não se lê! É indiferente — acompanhe-se com o sorriso de boquinha oscilante de cu tremido que é tão, tão atraente em Donald Trump.

quarta-feira, setembro 04, 2019

Água por água


Água por água

Chegam duas mulheres ao restaurante. A mais nova diz: "Posso comprar uma água para a minha mãe usar a casa de banho?"

"Que estranho", disse eu à Maria João. Ela diz que não é estranho, que é o que toda a gente faz. Assim acontece que à porta dos meus 65 anos aprendo que me tenho portado mal toda a vida. A minha prática é pedir plangentemente licença para usar a casa de banho para se perceber que estou in extremis.

Um breve inquérito entre as gentes estabeleceu que a forma correcta de pedir para usar uma casa de banho é dizer: "Dá-me licença que use a casa de banho que eu já venho beber um café/uma água/uma imperial? É que estou aflito." É um quid pro quo: eu compro-lhe uma água para compensar a água do autoclismo (e da limpeza) que lhe vou gastar.

A parte bonita — que logo observei no caso das duas mulheres — é que o autorizador depois liberta o utente da casa de banho da obrigação de comprar uma água.

Esta cordialidade existe, porque ainda são muitas as bestas que entram pelos cafés e pelas pastelarias adentro e vão directos à casa de banho, sem pedir licença ou dizer "boa tarde". Será por esta razão que antigamente as casas de banho tinham uma chave que era preciso pedir? Pensava eu que era para desmotivar os heroinómanos, mas, na volta, era para as pessoas terem um mínimo de respeito.

Infelizmente há cada vez menos casas de banho públicas, mas, pelos vistos, há maneiras civilizadas de lidar com a transferência dessa responsabilidade para as pessoas que não têm nada que ver com isso: os pobres proprietários dos cafés e dos restaurantes.

quarta-feira, agosto 28, 2019

Agradecer, sempre

Caraças… 
Se calhar, também estou à beira da morte. 
Então… 
… a quem agradecer a bela vida que desfruto?


Penso em todos que me rodearam 
e encontro um fundamento lá atrás 
pessoas que me ajudaram a formar 
outras que se bateram por uma sociedade mais justa… 
outras que em momento difícil estiveram presentes… 
mas não consigo individualizar 


Então…
Agradecer tem uma conotação profundamente social





Não estou à beira da morte mas imaginar que estou torna-me uma pessoa melhor. Pensar que as pessoas de quem eu gosto estão à beira da morte torna-me melhor ainda. 

Experimente. Vai ver. Pense que as pessoas de quem gosta só têm mais um dia de vida. Quais são as coisas que gostaria de lhes dizer enquanto eles ainda têm ouvidos para ouvir e um coração para entender? O mais importante é pensar — durante umas horas que seja — para descobrir o que é que aquela pessoa tem que mais ninguém tem e que tomou a nossa vida mais segura, mais risonha, mais sossegada, mais interessante, mais valiosa. 

O elogio que importa é aquele que não se pode aplicar a mais nenhuma pessoa. Aquele que é generalizável ("foste um amigo, tiveste graça, aturaste-me e fizeste-me rir") é o que menos interessa ouvir. Pode ser verdade mas é um ready made e nós precisamos é de ouvir um elogio que só nos diga respeito, que reconheça a nossa particularidade, o nosso contributo, a maneira como escolhemos passar por esta vida. 

Desatei então, neste mês de Agosto, a escrever elogios às pessoas que melhoraram mesmo a minha vida. Aprendi com a Amália Rodrigues. Três anos antes de ela morrer enchi três páginas de jornal a elogiá-la. Ela ficou desiludida (não havia uma única novidade), mas, apesar de tudo, preferiu assim do que estando já morta. 

Falei sobre isto com a Maria João e, como se não bastassem as coisas que eu já tenho para lhe agradecer, ela disse: "Deve ser por isso que a coisa mais importante que os nossos pais nos ensinam é a dizer `obrigado'."


quarta-feira, agosto 21, 2019

O silêncio interior


Desloco-me para Ourém a pensar que vou ter repouso, mas estou muito enganado. Pior que a praga de emigrantes que me inunda o povoado, o vizinho adjacente é barulheira constante. 
Até arranjou uma espécie de papagaio de plástico com uma gravação barulhenta a imitar o bicho. Os cães não se calam noite e dia e fazem movimentos pelo meio da vegetação que assustam quem quer dormir. 
E o gajo, a alimária, que não para de fazer muros e estradinhas, arranjou uma mota barulhenta para se treinar ao fim  da tarde. É altura de dar a palavra ao MEC...




São os cães a ladrar, sempre a ladrar a mesma coisa, sem variações.

São os pombos que moram e cagam na nossa casa, a arrulhar aos gritos, mesmo por cima da janela do quarto onde uma noite gostaria de dormir.

São as motas de escape propositadamente furado para se saber a qualquer hora do dia que estão a fazer-nos o favor de acelerar a fundo. Como acelerando passam mais depressa e não querem que fiquemos a perder, fazem questão de voltar de cinco em cinco minutos — até porque são motoqueiros adolescentes que têm medo de se afastar aqui da aldeia, onde se sentem seguros e ninguém os manda prender.

Temos a sorte de morar mesmo em frente de três caixotões do lixo e gostamos muito de brincar às garrafinhas: quantas irão estilhaçar? Serão duas? Ou vinte e três? Ou, já aconteceu várias vezes, adegas inteiras?

Tenho tampões para os ouvidos feitos à medida que me tornam completamente surdo mas não são confortáveis. Desconfio que o meu canal auditivo está a encolher. A minha salvação são as bolinhas de cera da Ohropax. Por pouco mais de 4 euros, numa caixinha giríssima, obtém-se uma dúzia destes maravilhosos empecilhos. Desde 1907 que trazem a paz a um mundo conturbado. Também há para tomar banho — adeus otites de nadador — e para apanhar aviões, para ir a concertos, para suportar gélidas ventanias e para todas as agressões aos nossos ouvidos. Os alemães da Ohropax têm tudo previsto, muito obrigado. Quando se é novo, o silêncio também maça. Felizmente essa inquietação passa — e já não se quer outra coisa.

quarta-feira, agosto 14, 2019

Os interruptores

Ontem, falava de interruptores por causa do regresso do PedroL e do seu amor à leitura. Parecia que me estava a lembrar de um texto aparecido há algum tempo no Público. Garimpei, garimpei e eis mais um rapinanço...delicioso…



 À medida que os anos passam as batalhas que perdemos custam cada vez menos a suportar porque, apesar de tudo, vão sendo apagadas pelo esquecimento. Em contrapartida, as batalhas que continuamos a perder custam cada vez mais. Quanto mais lutámos por elas mais amarga é a noção do desperdício de tempo e de esforço que vamos acumulando.

Uma das batalhas que perco diariamente é contra a interrupção da leitura. Já a expliquei milhares de vezes. Alguma vezes explodi. Outras vezes pedi encarecidamente. Nunca funcionou. Continuam a interromper-me como se eu estivesse a ler a ementa.

Há pessoas que têm pena de mim por estar a ler. "Coitado", pensam, "está a ler porque está sozinho". Vêm fazer-me companhia, orgulhosos de serem bons samaritanos, salvando-me do triste destino de ler. Mesmo gritando para que desandem dali e me deixem em paz não se comovem — e não arredam pé. Alguém pôs-lhe nas cabeças que os livros só servem para estudar e estudar é um castigo a que só nos submetemos quando tempos de passar um exame.

Os livros precisam de concentração. Ando a ler a Simone Weil, enlevado mas com dificuldade. Tenho de reflectir, voltar a ler, interpretar, verificar se compreendi, pensar em exemplos e aplicações. Interromperam-me para me dizer, com voz excitada, que estava ali sentado um jogador de andebol do Sporting. Isto mesmo a meio de um parágrafo misterioso sobre a alma e a gravidade. Passei-me. Tenho a certeza que esse interruptor nunca mais me fala. Mas com a sorte que tenho pode ter sido o princípio de uma linda amizade.

quinta-feira, julho 11, 2019

Hoje, rapinei um texto ao Público

Não resisti…
Por razões óbvias fiquei comovido ao ler este texto de MEC.
Resolvi faná-lo ao jornal Público e integrá-lo no meu espaço, espero que não me levem a mal.

O meu irmão








Miguel Esteves Cardoso

Ainda ontem



O meu irmão chama-se Paulo e é a pessoa masculina que mais amo nesta vida.

Hoje almocei com ele na Praia das Maçãs e fartou-me de fazer rir. O meu irmão é o meu cúmplice mais antigo, o meu amigo mais velho, se eu medisse os meus amigos por velhice. O meu irmão é o riso que nasce de ser ele, o riso que nasce de sermos nós, o riso que nasceu só da sorte de nos encontrarmos. Só tenho um Irmão - deveria dar-lhe mais valor. Isto sou eu a dar-lhe mais valor; só tenho um irmão, estou a dar-lhe mais valor.

Num dia aceso, feito dos nossos desejos, as pessoas que estão próximas de nós deveriam ser devidamente agradecidas. Não são. Somos nós que pagamos a irresolução.

Eu adoro o meu irmão. A única coisa que me limita é que quase nunca estou com ele: desgraça-me uma deficiência de comparência.

Na vida, afinal, é sempre melhor exigir. Ser desiludido é o nosso estado natural. O meu irmão Paulo faz-me rir.

O meu irmão Paulo faz-me pensar. O meu irmão Paulo enche-me de palavras e de amor.

O dia é sexta-feira e o mês é julho. Estou na Praia das Maçãs com o meu irmão Paulo e como Chico, o nosso melhor amigo desde 1970. Estou feliz e cheio de riso. É tudo graças ao meu irmão e ao Chico.

É uma grande tristeza da vida não conseguirmos dar valor ao que já temos, sem mérito algum da nossa parte. Metade da alegria da vida é reconhecer que se teve sorte.

É a sorte de ter tido este irmão e não outro, é a sorte de ter escolhido bem os amigos que se têm. A alegria é sempre mais simples do que pensamos: é estar com as pessoas que. amamos, a fazer as coisas que mais nos apetecem.
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