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terça-feira, janeiro 17, 2006

Da Divina Comédia...

A aula de História

Naquela manhã, o Dr. Armando estava visivelmente bem disposto. Envolto em enorme sobretudo cinzento, entrou pela sala de aula, exibindo as baforadas do seu cachimbo.
Nós esperávamos em pé, sentindo o desconforto do assento das carteiras nas pernas, por trás dos joelhos, fazendo-as dobrar-se.
- Podem sentar-se – disse ele.
Enquanto nos sentávamos, ele inspirou intensamente a partir do seu objecto de fumo e lançou-o pelos ares.
- Sumário: A Divina Comédia.
(Lembro-me que quando chegava a casa e o meu irmão me perguntava “então o que fizeram hoje?”, eu respondia “fizemos o sumário...” e ele retorquia “isso é o resumo das coisas que se vão dar...”)
Aquele excelente professor fitou-nos e começou:
- Hoje vamos falar de um vulto incontornável da litereatura medieval: Dante. Foi autor de uma obra que, em crítica à religião católica, nos traz a sua caminhada pelo Inferno, pelo purgatório, pelo céu...
Nós começávamos a ser levados para o ambiente que ele criava com a sua descrição. O fumo proveniente do cachimbo conferia-lhe ainda uma certa distância e, apesar de, de quando em quando, aquela mão descer sobre a secretária com incomensurável força e ruído, iamo-lo seguindo dando por bem aproveitada aquela disponibilidade que ele conseguira para estar connosco...
Dante


Encontro com Beatriz Posted by Picasa

Dante Alighieri nasceu em Florença em 1265 de uma família da baixa nobreza. A mãe morreu quando era ainda criança e o pai, quando tinha dezoito anos.
Pouco se sabe sobre a vida de Dante e a maior parte das informações sobre sua educação, sua família e suas opiniões são geralmente meras suposições. As especulações sobre a sua vida deram origem à vários mitos que foram propagados por seus primeiros biógrafos, dificultando o trabalho de separar o fato da ficção. Pode-se encontrar muita informação em suas obras, como na Vida Nova (La Vita Nuova) e na Divina Comédia (Commedia).
Na Vida Nova Dante fala de seu amor platônico por Beatriz (provavelmente Beatrice Portinari), que encontrara pela primeira vez quando ambos tinham 9 anos e que só voltaria a ver 9 anos mais tarde, em 1283. Nos tempos de Dante, o casamento era motivado principalmente por alianças políticas entre famílias. Desde os 12 anos, Dante já sabia que deveria se casar com uma moça da família Donati. A própria Beatriz, casou-se em 1287 com o banqueiro Simone dei Bardi e isto, aparentemente, não mudou a forma como Dante encarava o seu amor por ela. Provavelmente em 1285, Dante casou-se com Gemma Donati com quem teve pelo menos três filhos. Uma filha de Dante tornou-se freira e assumiu o nome de Beatrice.
Em 1290, Beatriz morreu repentinamente deixando Dante inconsolável. Esse acontecimento teria provocado uma mudança radical na sua vida o levando a iniciar estudos intensivos das obras filosóficas de Aristóteles e a dedicar-se à arte poética.

Fonte: A Divina Comédia
Divina Comédia

Divina Comédia é a obra prima de Dante Alighieri, que a iniciou provavelmente por volta de 1307, concluindo-a pouco antes de sua morte (1321). Escrita em italiano, a obra é um poema narrativo rigorosamente simétrico e planejado que narra uma odisséia pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, descrevendo cada etapa da viagem com detalhes quase visuais. Dante, o personagem da história, é guiado pelo inferno e purgatório pelo poeta romano Virgílio, e no céu por Beatriz, musa em várias de suas obras.
O poema possui uma impressionante simetria matemática baseada no número três. É escrito utilizando uma técnica original conhecida como terza rima, onde as estrofes de dez sílabas, com três linhas cada, rimam da forma ABA, BCB, CDC, DED, EFE, etc. Ou seja, a linha central de cada terceto controla as duas linhas marginais do terceto seguinte.
Ao fazer com que cada terceto antecipe o som que irá ecoar duas vezes no terceto seguinte, a terza rima dá uma impressão de movimento ao poema. É como se ele iniciasse um processo que não poderia mais parar. Através do desenho abaixo pode-se ter uma visão mais clara do efeito dinâmico da poesia:



Diagrama representando o esquema poético da Divina Comédia (terza rima). As letras representam o som das últimas sílabas de cada verso das estrofes de três sílabas (tercetos). Ilustração de Douglas Hofstadter retirada do seu livro Le Ton Beau de Marot.

Os três livros que formam a Divina Comédia são divididos em 33 cantos cada, com aproximadamente 40 a 50 tercetos, que terminam com um verso isolado no final. O Inferno possui um canto a mais que serve de introdução a todo o poema. No total são 100 cantos. Os lugares descritos por cada livro (o inferno, o purgatório e o paraíso) são divididos em nove círculos cada, formando no total 27 (3 vezes 3 vezes 3) níveis. Os três livros rimam no último verso, pois terminam com a mesma palavra: stelle, que significa 'estrelas'.
O Inferno



O Inferno relata uma odisséia pelo mundo subterrâneo para onde se dirigem após a morte, segundo a crença cristã, aqueles que pecaram e não se arrependeram em vida. A viagem, relatada em 4720 versos rimados em tercetos, é realizada pelo próprio Dante guiado pelo espírito de Virgílio - famoso poeta romano dos tempos de Júlio César.
A viagem narrada pelo poema acontece na semana santa do ano de 1300. Naquela época, Dante era um atuante político florentino prestes a ser eleito, dois meses depois, como um dos priores (governadores) da cidade de Florença. Porém, em menos de um ano, Dante foi exilado e expulso da cidade. O Inferno, escrito no exílio, faz referência a vários fatos históricos que aconteceram em 1300 e depois, através de profecias de almas condenadas no Inferno, que vêem o futuro.

(continue a ler O Inferno de Dante)
O purgatório



Qualquer alma pecadora que tenha se arrependido em vida tem direito ao purgatório, por mais graves que tenham sido os pecados cometidos. Aqueles que só se arrependeram quando não podiam mais pecar não podem entrar imediatamente pela porta de São Pedro. Precisam ficar esperando do lado de fora, onde a espera pode durar dezenas de vezes o tempo de sua vida na Terra.
Dentro do purgatório, a alma passa períodos de tempo em um ou mais terraços de acordo com os pecados capitais que tenha cometido em vida. Nesses terraços ela sofre cumprindo penas que tem como objetivo a sua purificação. As penas são às vezes tão terríveis quanto às do inferno, mas as almas cumprem-as sem reclamar, pois têm certeza que, quando o tempo de sua purgação chegar ao fim, lhes será concedida a entrada no paraíso.

(continue a ler o purgatório de Dante)
O paraíso


Bebendo da fonte Lethe Posted by Picasa

Com o olhar fixo, Beatriz encarava o Sol sem piscar, como águia alguma jamais teria feito. Como um raio, seu olhar se infundiu em minha mente que se deixou inundar com o reflexo da sua luz e fez com que eu também fitasse o Sol por mais tempo que eu seria capaz. Naquele lugar sagrado, muito mais coisas são permitidas aos sentidos humanos que aqui na Terra. Não pude olhar muito, mas o suficiente para ver a esfera do Sol contornada por faíscas, como fogo escapando de ferro derretido. Subitamente, pareceu-me que um dia iluminava o dia seguinte, como se Deus tivesse decorado o céu com outro Sol.
Livre da luz que preenchia as alturas, virei o olhar para Beatriz, que permanecia fitando o Sol. E então senti uma coisa que eu seria incapaz de descrever. Algo similar, talvez, à transformação sofrida por Glauco, ao provar a erva que o transformou em um deus. “Transumanizar,” é a melhor palavra que posso oferecer, para algo que não se pode explicar com palavras. Se era apenas a minha alma, separada do corpo, que subia, só aquele Amor que governa o Céu poderia dizer.

(continue a ler o Paraíso de Dante)
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