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quinta-feira, janeiro 23, 2020

A tática da punição mútua

Lembro-me que, na instrução primária, uma tática utilizada pela professora para reforçar o amor mútuo entre alunos era pôr os que acertavam uma pergunta a dar umas reguadazinhas aos colegas que erravam… e o sistema era maquiavélico, porque, se algum não desse a reguada com um mínimo de força, era ele quem levava depois das mãos da professora.
Eu era dos que mais era chamado a dar a reguadazinha, mas, como era boa pessoa, tratava todos os colegas com suavidade, todos ou quase todos. Mas havia uma ou duas meninas da nossa turma que eram terríveis. Uma era a Borda d’Água e outra a menina dos Castelos. Um desgraçado que levasse uma reguada delas já sabia que tinha de pôr a mão de molho durante três ou quatro dias, pois eram impiedosas, batiam com raiva… só lhes faltava pôr pregos na extremidade da régua.
E um dia calhou-me levar três reguadas dadas pela Borda d’Água. Tinha errado uma pergunta sobre os rios de Portugal e, no entretanto, ela tinha visto a resposta no livro e oferecera-se para responder ganhando o direito de me punir.
Vi-a chegar junto de mim com a régua na mão…
- Estende a mão…
Que me iria acontecer? Olhei para ela e o ar dela não denunciava um mínimo de piedade…
- Leninha, sê suave!!!
- Eu te digo… ainda há dias me torturaste com cinco reguadas.
Eu já nem me lembrava…
Lá estendi a mão, ela levantou o braço, fez a régua ficar quase perpendicular ao chão, cabeça para trás quase em posição de mortal e aplicou o primeiro golpe.
-Ai!!!!!!
Todos a contemplarem o belo espetáculo, inclusivamente a professora que, assim, nem tinha o trabalho de nos castigar. Acho que alguns até se arrepiaram.
- Malvada! Se te apanho a jeito…
Segunda reguada ainda com mais força. A menina dos Castelos ria que nem uma perdida, cheia de pena por não ser ela a aplicar o castigo.
Até que chegámos à última reguada…
- Agora é que vais ver – dizia a Lena entre dentes.
Vi que o seu olhar não estava para brincadeiras. Ela repetiu os gestos anteriores, trouxe o braço até mais atrás e desferiu sobre a minha mão.
Desferiu…
… só que a mão já lá não estava. E, sem algo para lhe amparar o movimento, a Lena estatelou-se no chão e a régua fez-se em mil pedaços. Os minutos seguintes foram passados a dar-lhe assistência. Que coisa estranha se passara para ela cair no chão se eu nem me mexera?
Acho que ela aprendeu. A partir de então tornou-se a pessoa mais suave a aplicar os castigos que, pelo direito vigente, caberiam à professora.

quinta-feira, janeiro 09, 2020

O abraço do macaco

O circo chegou a Ourém e começou de imediato a montagem junto à escola da Dona Iria. Passávamos por ali e víamos artistas e animais. Estes estavam em jaulas e alguns deles tinham um aspecto bastante agressivo designadamente os leões e os tigres. Mais para a esquerda, um conjunto de macacos numa jaula maior fazia as delícias do pessoal pendurando-se no cimo da jaula e fazendo as acrobacias mais incríveis.
Numa tarde, um dos guardadores dos animais teve uma distração ao levar-lhes comida, ele esqueceu-se de fechar a porta dos macacos e alguns deles aproveitaram para sair e dar uma volta pela vila.
A notícia correu célere:
- Os animais do circo fugiram e andam por aí…
Foi o terror. Ninguém se lembrou de dizer quais os animais que tinham fugido e as pessoas associaram imediatamente a canção do Roberto Carlos: “Um leão anda à solta pelas ruas / por descuido do seu domador / não mais terá problemas de alimentação / se ele encontra o meu broto por aí/…”.
Assim, toda a gente se fechou em casa, enquanto o pessoal do circo procurava os macacos por todo o lado.  Dos três que tinham fugido, um foi encontrado a comer bananas na loja do sr. Moreira e outro quando se sentou numa cadeira no café Central, provavelmente à espera de tomar um café.
Restava descobrir onde estava o terceiro macaco. Que estranha coisa teria acontecido para não o conseguirem apanhar?


***
Alta noite, a porta da casa do Dr. Preto abriu-se e uma bicicleta saiu para o exterior. Um vulto todo coberto por uma capa negra, levando uma carga estranha num saco, montou a bicicleta e partiu pedalando resolutamente. Desceu à Avenida, virou à esquerda, fez rapidamente o percurso até à casa do Zé Canoa e, aí, virou na direção do Vale Travesso.
Ao passar junto ao Fernão Lopes, parou e retirou a carga de cima da bicicleta. Acto contínuo, levou-a até à entrada do Colégio e dirigiu-se à sala de aula mais à esquerda conseguindo abrir a janela com um simples movimento, libertando-a então do saco que a embrulhava. Tratava-se do terceiro macaco. A pessoa em causa colocou a carga no interior da sala, fechou a janela e voltou pela estrada que tinha tomado. Liberto da carga, um ligeiro movimento, tornou possível descortinar do que se tratava. Era um rapaz já bastante famoso em Ourém pelos terríveis desmandos que ali provocava: o famoso João Passarinho…
No dia seguinte, pela manhã, o João foi o primeiro aluno a chegar às aulas. Foi aguardando junto à sala de aula, pensando no cagaço que ia pregar a alguém. As portas da sala estavam fechadas e os alunos esperavam no corredor que o sr. Nunes as abrisse e o professor permitisse a sua entrada para se sentarem.
E chegou o momento do início da aula.
No seu andar sincronizado, o sr. Nunes chegou junto da porta da sala e fez rodar a chave.
- As meninas podem entrar… - disse naquele tom que fazia lembrar o anúncio do Ferrero Rocher.
A Ciete era a menina que estava à frente. Sempre voluntariosa, não queria perder pitada da aula e, por isso, ganhava logo vantagem a sentar-se, abrir os cadernos e pegar no equipamento de escrita.
O problema é que, mal entrou na sala, deu um grito:
- Que horror!!! Está aqui um bicho…
O macaco ainda ficou com mais medo. Deu um salto e saltou-lhe para o colo procurando refúgio naquela menina, aterrorizado com a avalanche de gente que se avizinhava. A Ciete estava apavorada, não sabia o que fazer, pois as colegas, por trás, empurravam-na, mas ela queria recuar e não conseguia.
- Deve ser o macaco que fugiu do circo – dizia a Gracelinda toda valente.
Lá atrás, o João ria que nem um perdido enquanto os outros rapazes tentavam compreender o que se passava.
Mas o macaco era mesmo um doce. Agarrou-se à Ciete, encostou a cabecita à dela e deitou-lhe os braços ao pescoço, pedindo-lhe proteção. Ela não conseguiu recusar…
Num instante a situação acalmou e, nesse dia, a aula não se realizou, porque uma embaixada do CFL foi devolver o macaquito ao circo. O João, como sempre, escapou mais uma vez ao castigo por um crime gravíssimo…
Nunca ninguém descobriu como o macaco tinha ido parar à sala de aula. As janelas eram rigorosamente fechadas quando acabava a última aula e as portas ao fim do dia, assim era muito estranho o facto de ele se ter metido na sala, admitindo-se que se tenha escondido debaixo de uma carteira depois de a última aula ter terminado. Por isso, ninguém suspeitou do João que, passeando pelo jardim da casa do avô, viu o macaco saltar para o interior do mesmo e idealizou de imediato uma maldade para os colegas do Fernão Lopes. Depois de o ter apanhado, sorrateiramente, voltou ao colégio, entrou na sala de aula depois de a última se ter realizado e deu um ligeiro toque no fecho da janela de forma a poder manejá-lo durante a noite a partir do exterior. Um cérebro brilhante, mas sempre malvado…

segunda-feira, janeiro 06, 2020

Receção de honra às heroínas do Exército Vermelho


Num instante reanimaram a Ciete que, olhando o indivíduo que chegara, afirmou:
- Tirem-me essa horrorosa criatura da frente. Foi ele quem nos atirou para isto.
- Perdoem-me – respondeu o indivíduo com a usual delicadeza. - Houve uma grande confusão dos serviços de defesa da revolução. Vocês deviam ser consideradas heroínas do Exército Vermelho e foram parar à prisão por a informação ser mal veiculada…
- Heroínas… mas porquê?
- Sou um agente dos serviços secretos da RPC e andava a investigar a atividade de uma célula que queria criar uma rede anticomunista em Hong-Kong. Infiltrámos um dos nossos na rede e simulámos o envio de armas e propaganda para os locais. O casino de Macau é um local excelente para, entre os que perdem, descobrirmos papalvos que se disponibilizem ao tipo de missão que vos foi atribuída… A missão foi um sucesso, conseguimos desmantelar toda a rede, temos mais de trinta indivíduos presos…
- Que horror!...
- É assim. Não deviam resistir ao inexorável avanço da História.
- E agora? Que nos vai acontecer?
- Vão ser tratadas como rainhas. Depois, quando a situação acalmar, poderão voltar a Macau e regressar à vossa vida. Já agora podemos apresentar-nos… Eu chamo-me Johnny Little Bird, sou de origem portuguesa, mas, depois de passar una anos em Inglaterra, naturalizei-me e mudei de nome. As minhas convicções ideológicas sempre me aproximaram muito da RPC e estabeleci-me em Macau para a apoiar nesta fase importante da História da Humanidade.
Nesse momento, o comandante do posto da Guarda da Revolução informou:
- Está na hora de almoçarmos. As duas gentis damas que tão alto serviço prestaram à nossa democracia popular estão convidadas. Vou mostrar-lhes as futuras instalações onde poderão tomar banho e vestir novas roupas que vão escolher de um lote que eu tomei a liberdade de mandar vir de um dos melhores costureiros da nossa terra.
Algum tempo depois, a Céu e a Ciete foram conduzidas ao local onde se realizava o almoço de gala. A Céu ficou sentada ao lado de Johnny Little Bird e a Ciete ao lado do comandante do posto. Começaram por brindar aos êxitos da Revolução e, pouco depois, começaram a chegar travessas muito bem cheirosas e melhor apresentadas.
A Céu serviu-se e o seu prato ficou com excelente aspeto.
«Isto começa a correr bem…» - pensou consigo própria, enquanto tentava olhar a cara da irmã.
- Tem excelente aspeto este assado. De que se trata? – perguntou.
- Cão assado no forno com batatas e grelos – respondeu o comandante – Utilizamos sempre cães das melhores raças criados livremente nos nossos campos onde podem correr e divertir-se.
A Céu e a Ciete sentiram um baque no peito. Cão assado no forno… como é que elas iriam comer aquilo? Mas não podiam ser deselegantes, senão nunca mais as libertavam. Desforraram-se nas batatinhas e grelos e muita carne puseram de lado.
- Não está a gostar? – perguntou Johnny.
- Não é isso… converti-me à alimentação Vegan.
- Vocês arranjam cada mania lá pelo Ocidente. Não há nada que substitua a proteína animal saudável.
Depois de uma sobremesa à base de gelatina de cascavel, o comandante ergueu a sua taça e fez um brinde às duas manas, enquanto lhes estendia com a mão livre um pequeno livro vermelho.
- Ergo a minha taça em honra de quem tão bem serviu os interesses da República Popular da China. Ainda não partiram e já sentimos a vossa falta. Aqui vos deixo este pequeno livro para saberem mais acerca dos princípios que nos orientam. A nossa fonte é a doutrina de Karl Marx, mas não se preocupem a ler os calhamaços todos que ele publicou e que, possivelmente, estarão desatualizados. Neste livro encontram os grandes ensinamentos do presidente Mao em pouco mais de cem páginas. Leem-nos em duas horas e ficam logo a saber tudo o que é preciso saber para ser feliz na nossa democracia.
Corresponderam ao brinde e aceitaram delicadamente a oferta…
Nos dias que se seguiram, encheram-nas de honras. Elas sentiram-se como verdadeiras princesas na China Comunista. Levaram-nas a ver e percorrer parte da Grande Muralha nos circuitos reservados aos dirigentes. Atribuíram-lhes instalações fabulosas e elas acabaram por considerar que a estadia estava a ser ótima… e que até não se importavam de repetir a ida ao casino de Macau onde tudo começara.
Alguns dias depois, Little Bird veio falar com elas:
- A situação acalmou muito. Já podem sair em segurança. Não sei se querem passar mais alguns dias em HK.
- Temos de voltar. Não temos dinheiro connosco.
- Mas têm cheques?
- Sim – disse a Céu – Trago sempre comigo…
- Vou-vos propor um belo investimento: entregam-me um cheque ao portador de 50000 euros e eu arranjo-vos o correspondente em Yuan Chinês para poderem comprar recordações, as vossas viagens de regresso e o que mais entenderem… caso contrário, não encontrarão aqui qualquer possibilidade de câmbio

A Céu passou o cheque à ordem do Banco Nacional Ultramarino e passado um bocado, Little Bird voltou com uma mala preta cheia de notas.



- Pronto, têm aqui 40000 yuan chineses. Já vos marquei um hotel para prosseguirem a estadia e lá têm um cofre onde podem guardar o dinheiro. Depois, quando quiserem, compram as passagens e regressam a Macau.
- Acha que o vamos encontrar lá em Macau?
- É pouco provável. Nestas aventuras, há sempre quem nos reconheça ou saiba algo de nós. Acho que vou para outra região da China Popular.
- Então nunca mais nos encontraremos…
- Possívelmente, não. Talvez um dia, lá para Março, eu volte a Ourém…
- Será muito bem recebido no nosso Castelo.
Passaram mais alguns dias, e as duas irmãs notaram que o dinheiro se esvaia muito depressa em Hong Kong pelo que resolveram voltar a Macau.
Já ali, a Céu disse:
- É esquisito, o dinheiro chinês esgotou-se num instante. Pouco comprámos e num instante sumiram-se 50000 euros.
A Ciete pegou num jornal e começou a consultar a página de câmbios. Passado algum tempo, fez umas contas e disse, quase a chorar:
- Ceuzinha, o malvado do Johnny enganou-nos outra vez. Cada Yuan vale mais ou menos 13 cêntimos. Ele devia-nos ter dado 400000 e não apenas quarenta mil. Roubou-nos perto de 45000 euros.
- O bandido! O crápula… e eu a convidá-lo para a minha casa no Castelo…



FIM

sexta-feira, janeiro 03, 2020

O valor de uma notícia

Passados dois dias, o jornal “South China Morning Post” trazia uma notícia, «Desmantelada célula de conspiração contra a Revolução», sobre o que se tinha passado em Hong-Kong acompanhado da foto de duas ocidentais.
Em Macau, um individuo que parecia passear com a esposa, viu a capa do jornal e adquiriu-o imediatamente.
«Mas o que é isto? Não está de acordo com o combinado. Tenho de ir a Hong Kong».

***

No terceiro dia da sua prisão em Hong Kong, as duas irmãs estavam completamente desesperadas.
- O que vai ser de nós? Ninguém sabe que aqui estamos presas…
E continuaram a chorar toda a manhã olhadas pelas outras mulheres com um certo desdém. Entretanto, a prisão estava cada vez mais cheia de pessoas que parecia conhecerem-se umas às outras. Dir-se-ia que a prisão delas tinha levado à prisão de muitas outras pessoas.
- É estranho. Parece que a nossa chegada desencadeou tudo isto.
Nunca mais tinham falado com o indivíduo que as tinha esperado no cais, mas um dia viram-no passar bastante maltratado depois de ter estado a ser interrogado.
- São horríveis estes regimes – dizia a Ciete.
- Lembra-te que ele nos disse que havia uma conspiração contra o sistema. É uma luta de morte e estes indivíduos não são nada meigos.
- Nada justifica que as pessoas tratem assim o seu semelhante. E para quê? No fundo, o povo vive miseravelmente, o que há é igualdade na miséria. É tudo muito semelhante ao que um dia designaram por «Modo de produção asiático»: tudo escravo, tudo na miséria e uma casta cheia de direitos e riqueza a mexer os cordelinhos.
- Ena. Leste muito sobre isto…
A porta da cela abriu-se e um guarda fez-lhes sinal para o seguirem. Entretanto, na rua, parecia ouvir-se gritos de pessoas a clamarem…
Foram de novo levadas à presença do responsável pelo local de detenção que as recebeu com um sorriso amarelo. A seu lado estava o intérprete que fez a tradução das suas primeiras palavras:
- As nossas desculpas pelo mal-entendido em que estiveram metidas. Só agora percebemos que foram uma peça importante para deter elementos que conspiravam contra o sistema.
- Como? – perguntou a Céu sem perceber nada.
- Mais uma vez, aceitem as desculpas em nome do Governo da República Popular da China. Devíamos libertá-las imediatamente, mas não podemos: há uma manifestação contra os rebeldes e, se saírem agora em liberdade, podem confundi-las com eles uma vez que a imprensa publicou as vossas fotos. Têm de esperar que a situação acalme. Mas vamos mudá-las de instalações e dar-vos outro tratamento até poderem sair.
- Isso é que é falar – disse a Ciete – Mas a quem se deve esta mudança?
- Àquele… - disse o intérprete apontando para a porta que se abria.
Nesse momento apareceu perante elas, sorridente, a imagem do cavalheiro que as tinha conduzido àquela situação em Macau.
- Ohhhh!!!!! – exclamou a Ciete, caindo no chão sem consciência.

terça-feira, dezembro 31, 2019

Prisioneiras da Guarda da Revolução


A primeira noite numa prisão chinesa foi horrível para as duas manas. Cercadas por mais de quinze presos do género feminino numa cela sem as menores condições tinham um catre estreitíssimo para se deitar e um misero cobertor para se cobrir. Passaram a noite a chorar sempre olhadas com estranheza por uma série de mulheres de raça amarela. A língua era um problema enorme e fazia com não se conseguissem entender com mais nenhum preso. Na cela ao lado, ainda em piores condições, estavam os homens e passaram a noite a ouvir aquelas cuspidelas horrorosas que as enojavam.
Pela manhã, foram chamadas ao comandante da Guarda da Revolução o qual se rodeou de um intérprete que falava inglês e foi nesta língua que o diálogo se desenvolveu:
- Quem é o vosso chefe?
A Céu, mais resoluta, tentou contar a história do casino e o estranho contacto com um cavalheiro que lhes pediu para trazer os barcos com uma encomenda cujo conteúdo desconheciam.
Ao ter conhecimento da resposta da jovem, o oficial chinês ficou bastante irritado.
- Ele diz que vocês estão a mentir, a gozar com o povo chinês – disse o intérprete. – Se não falarem ficam na prisão toda a vida.
As duas irmãs desataram a chorar e, mais uma vez, garantiram que estavam a dizer toda a verdade. Foram forçadas a regressar à cela e, pouco depois, foram conduzidas ao refeitório da prisão para almoçar.
Era um recinto enorme que já estava cheio de pessoas andrajosas e terrivelmente tristes. Um guarda indicou-lhes dois lugares junto a outras reclusas. Repararam que tinham uma pulseira com um número igual ao que estava no lugar que iam ocupar.
Um conjunto de homens, na sua maioria chineses, foi trazendo a comida para as mesas. Um deles que parecia ocidental trouxe uma travessa com arroz, legumes cozinhados e uns fritos esquisitos. A Céu perguntou em inglês:
- O que é isto?
O indivíduo com aspeto ocidental respondeu na mesma língua:
- Orelhas de macaco fritas.
- Que horror! – gritou a Ciete, levando as mãos à cara. – Não consigo comer isso.
- Prove, porque não é mau – respondeu o serviçal. – Ao jantar, são gafanhotos grelhados…
A Céu, mais decidida, perguntou ao guarda serviçal:
- Como podemos avisar as nossas famílias que estamos aqui presas?
- Enquanto não apurarem a verdade, não têm hipótese de contatar ninguém.
No fundo, as orelhas de macaco nem foram o pior da estória. As duas irmãs comeram conforme puderam e recolheram à cela onde se deitaram no catre a chorar convulsivamente.
- E agora? Que vai ser de nós aqui fechadas? – dizia a Céu.
- A culpa é toda tua com a mania dos ganhos em casinos.
- Nunca mais entro num local desses. Mas o importante era avisar alguém do nosso país. Talvez o professor Marcelo pudesse fazer alguma coisa…
- Achas? O mais provável era ir dar um abraço de consolação ao nosso paizinho e pregava-lhe um susto enorme…




Como veem, meus amigos, a eterna juventude da Céu e da Ciete acabou por as colocar numa situação delicada. Que fazer? Como conseguiria chegar às autoridades portuguesas o relato da sua situação?

sexta-feira, dezembro 27, 2019

Uma aventura na Ásia


Houve um ano em que a Céu e a Ciete foram passar uma temporada a Macau. Para além de visitarem toda a região e deliciarem-se com a comida local, uma das coisas que mais as motivava era o jogo. Assim, em várias noites dirigiram-se ao casino local e, curiosamente, foram ganhando algum dinheiro. Nunca suspeitaram que os ganhos que estavam a ter eram provenientes de alguma intenção de as fazer voltar ao local.
A verdade é que houve uma noite em que as coisas correram mal, tendo elas feito uma aposta que não conseguiram pagar. Um cavalheiro pagou a dívida e elas comprometeram-se a fazer o que fosse necessário para o compensar.
No dia seguinte, encontraram-se e ele propôs:
- Preciso de enviar um carregamento para HK. A viagem será feita em dois barcos. Se vocês os conduzirem ninguém vos incomodará e eu poderei descansar relativamente ao não extravio das coisas.
As jovens aceitaram e, no dia seguinte, pela manhã, apresentaram-se no cais. O cavalheiro que as tinha ajudado vestia uma camisola azul da Burberry. Viram logo que se tratava de uma pessoa de fino trato acima de qualquer suspeita.
- Saem do terminal de ferry e, seguindo estas instruções, numa hora estarão no terminal de Hong Kong onde alguém as espera.
- E o que é que nós levamos? – perguntou a Céu sempre voluntariosa e cheia de curiosidade.
- Nada importante. Nada que vos interesse. O importante é pagarem a vossa dívida. Agora, tenho de tirar uma fotografia convosco para enviar ao contacto em HK e ele poder reconhecer-vos sem mais confusões.
- Uma fotografia? – perguntou a Céu – É para já. Até pode ser dentro do barco.
E elas lá partiram cada uma em seu barco, sempre ao lado uma da outra. De vez em quando a Ciete acenava para a Céu, mostrando-lhe quanto estava a gostar da aventura.
- Isto é que é vida.
- Vou filmar para publicar uma reportagem…
- A reportagem das nossas vidas…
À chegada a Hong Kong, viram imediatamente no cais um indivíduo a fazer-lhes sinais com um lenço vermelho.
- Lá está o nosso contacto…
Num instante, chegaram ao local onde eram aguardadas. O sujeito procurou a carga e começou a transportar para uma camioneta um conjunto de caixas nos mais diversos formatos. Nisto ouviu-se um apito e um conjunto de chineses armados da cabeça aos pés chegou junto do trio apontando-lhes as armas.
As duas irmãs ficaram aterrorizadas.
- Mas o que é isto?
O sujeito que as tinha esperado respondeu.
- Estamos perdidos. São os Guardas da Revolução.
- Mas nós não fizemos nada de mal.
- Fizeram, sim, sem o saber. Os barcos traziam armas e propaganda contra o regime. Andamos a organizar uma célula da resistência ao sistema comunista.
- E que nos vão fazer? Nós não sabíamos de nada…
- Vocês são ocidentais. É natural que pensem que participaram ativa e conscientemente nesta ação. Vão ficar presas o resto da vida se não vos fizerem pior…
-Ohhh! – gritou a Cietezinha levando a mão à cabeça. – Fomos enganadas…
E caiu no chão não dando mais acordo de si. Uns minutos depois, estavam numa carrinha celular a caminho da prisão. A Céu, com um leque, abanava junto à face da irmã. Esta começou a dar sinais de recuperar da comoção e, daí a pouco, sentou-se, ocupando um lugar na carrinha.


E agora? O que vai ser das duas irmãzinhas? Quem está a favor da prisão delas? Quem está contra? Como é que acham que a estória vai acabar? Será que me podem dar alguma sugestão para as tirar da prisão? Elas não podem ficar ali eternamente… Temos de as fazer voltar a Ourém?

E quem seria o sujeito da camisola Burberry que as contratou? O seu ar não me era estranho, mas não consigo recordar por mais esforços que faça...

Por favor, participem. Já que há orçamentos participativos, podemos também ter estorietas participativas. E estas com o nobre objetivo de libertar as duas irmãs.

segunda-feira, dezembro 16, 2019

O golpe

No dia seguinte, pela manhã, a Céu procurou a sua gestora de conta na CGD a quem pôs a necessidade de realizar em dinheiro a quantia de 50000. Examinada a situação patrimonial da cliente, a solução foi a seguinte:
- venda de 50% da participação da Céu na Editorial Âncora que realizaria 25000 euros;
- venda de 75000 ações do BCP a 20 cêntimos por ação, ações que tinha adquirido ao comendador Berardo a 12 cêntimos por ação, sendo alertada que iria ter alguma penalização pela mais-valia;
- resgate de um plano poupança reforma no valor de 10000.
A gestora de conta ofereceu-se para lhe levar o dinheiro a casa com segurança, mas a Céu recusou. Colocou o dinheiro numa mala negra, entrou no carro e rapidamente voltou a casa.
Uma hora antes da hora marcada pelos chantagistas, o João chegou e combinou com ela:
- Tu entregas-lhes o dinheiro e pedes logo para libertarem a tua irmã. Eu vou esconder-me naquele quarto e, quando tudo estiver tratado, apareço, prendo o assaltante, exijo-lhe que nos diga onde está a tua irmã e vou lá buscá-la.
- Está bem, João. Não sei como te agradecer o que estás a fazer por mim…
- Não te preocupes. O importante é que o nosso plano resulte.
O João escondeu-se no quarto e a Céu sentou-se cheia de nervos à espera dos chantagistas. Como ela gostava daquela irmãzinha! Não podia imaginar que alguém lhe quisesse fazer mal. As suas mãos retorciam-se enquanto esperava. E rezou, rezou fervorosamente...
De súbito, ouviu uns passos na rua. Pouco depois, alguém bateu à porta…
O assaltante apareceu.
- Sou eu. Tem o dinheiro?
- Sim. Mas exijo que telefone a mandar libertar a minha irmã.
- Primeiro, mostra-me o dinheiro…
A Céu abriu a mala e mostrou-lhe o conteúdo desta. O assaltante não teve dúvidas que estavam ali 50000 euros. Então, sacou de uma faca e ameaçou-a:
- Chega-te àquela coluna da tua casa.
Amarrou-a à coluna e, em seguida telefonou aos capangas:
- Já tenho o dinheiro, podem libertar a outra, vou sair agora daqui.
Só que não pôde sair. Nesse momento, o João apareceu e apontou-lhe um revólver.
- Para, bandido. Foste apanhado.
O assaltante olhou para ele e riu-se.
- Não julgues que me metes medo com essa arma. Tenho a certeza que não és capaz de disparar.
O João tentou apertar o gatilho, mas tudo estava perro. A arma não era limpa há anos, as munições estavam humedecidas.
O assaltante aproveitou e deu um murro no João que caiu desmaiado no chão. Em seguida, pegou na mala do dinheiro e fugiu.
Algum tempo depois, a Ciete chegou a casa da irmã e ficou espavorida.
- Minha querida irmã! Estou aterrorizada. Mas que faz aqui o João?
- Tentou ajudar-me e o bandido deu-lhe um murro muito forte. Quase que ia passando por cima do cadáver dele… Vamos, liberta-me. Temos de o ajudar…
A Ciete desatou as cordas que prendiam a Céu que correu de imediato para o João.
- Joãozinho, ias morrendo por minha causa.
O João fingiu que acordava naquela altura e levou a mão à cabeça.
- O malvado deu-me a valer.
- Vou tratar de ti. Ficas aqui connosco a passar uma temporada  no Castelo.
- Não posso. Os meus negócios chamam-me a Madrid. Temos de apresentar queixa contra os bandidos e amanhã tenho de partir…
No dia seguinte, pela manhã, comodamente sentado no seu carro, com o Baloo ao lado, o João olhava uma mala preta…
Afagou o pescoço do Baloo e sorriu:
- Belo golpe. 25000 para mim e o restante para os três angolanos, uma sociedade que parece estar a dar resultados. E a Ceuzinha é um doce. Breve voltarei a encontrá-la.

- AU AU!!!… - respondeu o Baloo, abanando a cauda de contente.




FIM

domingo, dezembro 15, 2019

Pedido de resgate

No dia seguinte, pela tarde, o João voltou à casa da Céu no Castelo. Levava com ele o Baloo que se fartou de dar beijinhos à Céu.
- Então, já sabes alguma coisa?
- Nada de nada. Não há notícias, continua sem atender o telefone e a Polícia continua a teimar que ela pode ter desaparecido por vontade própria.
- Já mandaste cancelar as contas dela?
- Não sei os números, estou completamente descontrolada.
Nesse momento, alguém bateu à porta. A Céu foi abrir e quando voltou trazia um envelope na mão.
- Era um africano que me trouxe esta carta.
- Um africano? – repetiu o João – Se calhar era um dos que levou a tua irmã…
E correu rapidamente para a porta que abriu. Mas já não viu ninguém e voltou.
- Já não o vi. Que diz a carta?
A Céu abriu o envelope e leu a missiva:
“Se queres voltar a ver a tua irmã, amanhã, pelas três da tarde, tem em teu poder 50000 euros que entregarás ao mensageiro que te procurar. Não fales à polícia, senão a tua irmã será executada.”
A Céu desatou a chorar e o João aproveitou para lhe passar o braço pelos ombros.
- Ceuzinha, sabes que podes contar sempre comigo…
Ela limpou as lágrimas, fungou e respondeu:
- Não sei o que hei de fazer. Dizem que a executam se eu contar à Polícia
- Eu ajudo-te. O melhor é pagarmos o resgate e, depois, denunciamo-los. Amanhã levantas o dinheiro e esperamos por eles no local que eles pretendem aqui em casa. Eles não saberão que eu estou cá e eu apanho-os com a ajuda do Baloo e um revólver que trago sempre comigo… Depois, obrigamo-los a falar e a dizer onde está a Ciete.
- Oh, João! E pensar que duvidei de ti…
- Ceuzinha, não há pessoa mais credível do que eu.

- Ajuda-me, João. Não me imagino a passar o Natal sem ela...


(Conclui amanhã)

sábado, dezembro 14, 2019

Rapto junto à Capela

Um dia, uma das damas do Castelo passeava pelo campo, envolvida nas mais nostálgicas recordações de infância e dirigiu-se até às ruínas da capela de São Sebastião. Mal sabia que ia ser protagonista de uma estória muito estranha.
Chegado três dias antes a Ourém, o João seguiu-a e fez-se acompanhar de um presa canario adquirido recentemente. Que teria ele em mente?
Perto das ruínas, a pobre Ciete vagueava sem se aperceber do perigo que corria. De repente, o cão surgiu-lhe por trás e rosnou-lhe. Ela ficou paralisada.
- Ai! O que é isto?
Num derradeiro esforço, tentou correr, tentou fugir do cão, mas este perseguiu-a e rapidamente filou a sua perna com a boca obrigando-a a deter-se
Atrás de umas moitas, o João espreitava o movimento. Colocou o seu gorro e aproveitou a paralisação momentânea da pequena para a aprisionar e enfiar numa carrinha com o auxílio de dois capangas. Rapidamente, conduziu-a até ao Castelo onde foi presa ficando guardada pelo cão.
- Mas o que é isto? – perguntava ela.
- Cala-te e nada de mal te acontecerá…
Durante duas horas a pequena ali esteve aprisionada, comendo umas migalhas que ele lhe levava e sempre vigiada pela feroz criatura.
Entretanto, na vila, todos estranhavam a sua ausência.
- Que lhe terá acontecido? – perguntava a Ceuzinha, terrivelmente preocupada. – Ela foi apanhar flores ao campo e ainda não voltou.
Mas a resposta não chegava. A Ceu estava nesta agitação quando alguém bateu à porta da sua casa no Castelo.
Era o João sempre gentil com uma caixinha de bolos do Algarve adquiridos propositadamente para ela.
- Oh, João! Tão gentil… mas aconteceu uma coisa incrível. A minha irmã desapareceu… não sei que fazer… ela não atende o telefone. É surreal…
- Podes crer – respondeu o João - Temos de comunicar à polícia e fazer com que a procurem.
Dirigiram-se imediatamente ao posto da polícia de Ourém e expuseram o caso.
- Nós temos de esperar 48 horas – respondeu o agente a quem entregaram a participação do desaparecimento – A pessoa pode-se ter ausentado por vontade própria.
- Mas eu já lhe disse que a vontade dela era estar em nossa casa. Nada justifica a ausência.
Mas a verdade é que nada demoveu o agente da sua posição legitimada pela lei, pelo que, derrotados, saíram e caminharam por Ourém depois de ainda o ouvirem dizer:
- Minha senhora, a Lei é para ser cumprida. Não há desaparecimento se não passarem 48 horas
A notícia do desaparecimento, entretanto, ia correndo pela cidade e, logo, alguns voluntários se ofereceram para a ajudar nas buscas.
- Se a polícia não a procura, procuramos nós…
E imediatamente se organizou um grupo o qual se dirigiu para a zona das ruínas da Capela. O João e a Céu acompanhavam-nos possuídos de motivações e preocupações muito diversas…
De repente, um dos voluntários encontrou algo…
- Olhem isto. Alguém passou por aqui.
Era uma trela para conduzir um cão.
- João, acho que já vi aquela trela nos teus filmes com o Baloo. Passa-se alguma coisa que eu não saiba?
- Jejejejejejejeje. De facto, a trela é minha. Eu passei por aqui e devo-a ter perdido.
- João, tu sabes onde está a minha irmã?
- Não, não sei nada. Por acaso, passei por aqui e vi uma senhora a ser arrastada por três angolanos, mas não a reconheci, nem a eles. Nesse instante, devo ter perdido a trela…
A Céu não ficou nada convencida.
- Arrastada por três angolanos… onde é que eu já ouvi isso? E por que não revelaste isso mais cedo?
- Não associei os casos. Pensei que era uma brincadeira.
De regresso a casa, depois da busca infrutífera, o João refletia:
- Quase ia sendo apanhado por causa da trela… Como hei-de dar a volta à situação?
E elaborou um plano que, com a colaboração de um capanga, arrastaria a Céu para um enredo ainda mais dramático.
(Continua na próxima semana)
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