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sábado, fevereiro 22, 2020

Parecenças assumidas



E vejam aqui por que razão o João se achava parecido com o Pequeno Castor.
O simpático Pequeno Castor acompanhava para todo o lado o terrível Red Ryder, também conhecido por Cavaleiro Ruivo, uma figura criada por Fred Harman (visite aqui o museu de arte deste criador em Pagosa Springs, Colorado).
O Pequeno Castor era um mouro de trabalho, era um miúdo valente e salvou por diversas vezes a vida do seu amigo. Mas não gostava muito de tomar banho. Aliás, com a pouca roupa que vestia, bastavam umas borrifadelas de chuva para sacudir as montanhas de pó que o cobriam.
O Pequeno Castor tinha também uma namorada. Um dia, ela disse-lhe:
- Sabes? Vou realizar uma grande viagem para fazer as compras de Natal. Que prenda queres que te traga?
Ele pensou um bocadinho e, depois, com o seu sorriso matreiro, respondeu:
- Traz-me água de Colónia...

Um índio chegou ao Carnaval de Ourém

Era um Carnaval triste e cinzento. Em Ourém, o João procurava motivos para alegrar os seus amigos.
«Que falta de ideias nesta malta! Parece uma terra de mortos. Que hei-de fazer?»
Teve então uma excelente ideia.
«Vou disfarçar-me de índio. Eu sei que sou parecido com o Pequeno Castor e vou surpreender toda a gente no Avenida».
E não foi preciso muito para estar disfarçado. Para dar maior rigor à sua vestimenta, não esqueceu de munir-se de uma boneca, o seu brinquedo predileto.
Saiu de casa do avô, o Dr. Preto, pela porta do quintal para os familiares não o verem e encaminhou-se para o Café Avenida.
Lá dentro, reinava a pasmaceira do costume. Uns jogavam King, outros faziam as bolas do bilhar saltar e quase partir os vidros, o Ezequiel já estava com a cabeça doida… Imaginem o que foi quando o João entrou disfarçado de índio, embora em pleno Carnaval.
Ninguém o reconheceu.
- Olha um índio – dizia o Kansas. - Vou já buscar a minha pistola.
Naquela altura, para além do Ezequiel, o Avenida tinha um empregado novo que ainda nem conhecia bem a terra, mas queria mostrar-se um grande defensor do espaço. Não se lembrando que era Carnaval, foi logo na direção dele e não teve receio de mandar uma tirada xenófoba para proteger o negócio dos patrões.
- Rua! Cães, índios, pretos, ciganos e comunas não se toleram neste espaço…
O João pensou que ele estava a brincar e mostrou-lhe a boneca:
- Olha, tenho um tesouro aqui dentro. Queres ver? Jejjejjejjjeje…
Carregou num botão da boneca e ela fez xixi para a cara dele.
O empregado ficou danado, levantou a bandeja e desfechou com ela na cabeça do João que se estatelou imediatamente no chão. O Ezequiel veio a correr e, com o seu bom coração, ajudou-o a levantar.
- Oh! É o neto do Dr. Preto. Não sabes o que fizeste, alimária…
Todos estavam boquiabertos e admirados com o desfecho daquela cena. No dia seguinte, o malvado empregado que deu com a bandeja na cabeça do João já não se apresentou ao serviço. Tinha sido despedido… Ourém sempre respeitou as diferenças.

sexta-feira, janeiro 31, 2020

Salvos pelo cachorro

No CFL, estranhava-se a ausência da Teresinha e todas ficaram espantados quando alguém trouxe a notícia da sua detenção.
O Dr. Armando reuniu os alunos mais relacionados com ela e afirmou:
- Alunos do CFL, deem muita atenção ao que se passou que não me admira absolutamente nada. Esse Passarinho é um malandro que já fez várias partidas aqui no Colégio. Até acho bem que esteja preso. A Teresa é uma menina exemplar. Mas eu conheço o graduado e sei que ele é uma pessoa ponderada. Decerto a vai libertar dentro em breve. Eu próprio falarei com ele se a libertação se atrasar.

A Gracelinda é que não gostou nada do que ouviu. Não achava bem que miúdos tão jovens estivessem detidos na prisão. Assim, combinou rapidamente um plano com o seu Pepe…

*

Nessa tarde, vestida de freira, a Gracelinda dirigiu-se ao posto da GNR. O graduado reconheceu-a imediatamente:
- Oh! É a menina Gracelinda. Então, voltou ao convento.
- Ainda não, mas estou a ponderar fazê-lo. Vim aqui pois soube que a Teresinha está presa por uma questão fútil. Acha que posso falar com ela?
O graduado tinha as chaves da cela em cima da mesa e levantou-se para cumprimentar a jovem.
- Sabe? Contamos libertá-la dentro em breve, até já aqui tenho as chaves, mas pretendemos que lhe sirva de lição para ela não repetir o disparate de circular pela vila da maneira que fez.
Neste momento, um pequeno vulto entrou pelo posto da GNR, saltou para cima da mesa e fugiu com as chaves na boca. Não mais chegou a ser visto. O graduado ficou boquiaberto.
- O diabo do cão fugiu com as chaves…
- Está a ver? Agora como vai libertar a Teresinha e o João? Para onde terá ido o cão?
- Temos de o procurar. Que disparate eu fiz…
Rapidamente saíram do posto. A Gracelinda disse:
- Eu vou na direção da Câmara, o senhor vá pelo outro lado. Se encontrar o cão, dê um tiro para o ar para me avisar. Encontramo-nos no posto.
E partiram em busca do cão. O graduado mobilizou ainda mais dois homens que partiram em direções diferentes.
Claro que a Gracelinda sabia muito bem onde estava o seu Pepe e, daí a pouco, encontrou-o junto ao parque por trás da Câmara.
- Cãozinho lindo! És mais rápido e inteligente que o Baloo! Ele nunca faria o que fizeste…
O Pepe deu dois saltitos e entregou-lhe alegremente as chaves das celas.
- Agora, esperas aqui por mim.
Rapidamente, voltou ao posto e, ao passar pela cela da Teresinha, disse-lhe:
- Prepara-te. Penso que, em breve serás libertada…
Mas foi preciso passarem umas duas horas para  os GNR regressarem. Vinham todos com cara de caso e o graduado disse:
- Não conseguimos nada. Para onde terá ido o cão? E agora temos de chamar os bombeiros ou o ferreiro para abrirem as celas à força. Que vou dizer aos meus superiores?
A Gracelinda olhou para ele e sorriu:
- Não, não é preciso nada disso. Olhe aqui…
E mostrou-lhe as chaves das celas. O graduado ficou comovido:
- Não sabe como lhe estou agradecido, irmã Gracelinda. Que posso fazer para a compensar?
- A única coisa que pretendo é que devolva a liberdade aos meus amigos. Eles devem estar muito tristes. O desaparecimento das chaves foi uma partida que Deus quis fazer-lhe para lhe lembrar que, neste mundo, se não deve tirar a liberdade a pessoas inocentes por motivos fúteis…
Pouco depois, a Teresa e o João foram libertados e encontraram-se com o graduado e a sua amiga.
- É a ela que devem a liberdade. Agora, não façam mais disparates para não os voltar a enfiar na prisão.
O João trazia na mão o carrinho de madeira completamente montado:
- Diga ao miúdo a quem o vai oferecer que foi feito por mim, o João Passarinho. Aliás, leva as minhas iniciais: "JP".
No Avenida, foi uma alegria o reencontro com os amigos. Entretanto, no posto da GNR, o graduado via passar frente ao mesmo a Gracelinda acompanhada de um cãozito que se deslocava rapidamente.
- Coisa esquisita! Dir-se-ia que já vi aquele vulto noutra ocasião… 




FIM



quinta-feira, janeiro 30, 2020

O trabalho ajuda a reabilitar

Ainda na tarde do dia da detenção do João, o graduado foi falar com ele à cela. Levava um pau de vassoura, uma roda de madeira com uns vinte centímetros de diâmetro e um pau arredondado curto.
- Estamos a averiguar o teu comportamento e o da restante família. Demorará alguns dias pelo que, para passares o tempo, vamos iniciar-te à arte de construção de um cavalo de madeira.
Mostrou-lhe um desenho e entregou-lhe uma faca bem afiada:
- Com este material, deves reconstruir este carro que vai ser oferecido a um dos miúdos cá da terra.
- Eu não faço nada disso – reagiu o João.
- Se não fazes, não sais…

E o João teve de atirar-se ao trabalho. Oh! Se os reclusos de agora fossem assim tratados, aprenderiam num instante a ser boas pessoas.
Mal o viram a aplainar a madeira, os miúdos da escola fizeram nova dança e cantoria:

Passarito, companheiro
toda a noite alisa o pau
quis armar-se em cavalheiro
no fundo é um marau

e, depois, num ritmo bem mais forte:

Olha o triste Passarito
na gaiola a penar
é bem feita, é bem feita
não vai ter com quem casar.

Na cela ao lado, a Teresinha chorava. Ela não podia comunicar com o João e ver as pessoas passarem na rua em liberdade causava-lhe uma terrível angústia.
«Oh! Por que me pus a fazer o disparate de andar a cavalo nas ruas de Ourém…? E a multa… como é que vou conseguir pagar essa quantia exorbitante?».
À noite, trouxeram-lhe o jantar.
- Comidinha do Manel do Raul. Nada má…
A Teresinha provou, mas a situação em que estava não a deixou apreciar as excelentes iguarias que tinham posto à sua disposição. E passou a noite a chorar enquanto, na cela ao lado, ouvia o estranho ruído de alguém como que a cortar e aplainar madeira.


quarta-feira, janeiro 29, 2020

Uma lição de civismo

Quando os pais da Teresinha souberam da sua prisão ficaram em pânico.
- Oh! Meu Deus, o que vai acontecer à nossa menina??!!
- Eu sempre disse que ela não devia acompanhar aquela miudagem do Café Avenida. São todos uns mal comportados e aqueles que vêm de Lisboa são piores, habituados a coisas horrorosas. Há alguns que até já deixam crescer o cabelo. Então o Passarinho tem mesmo aspeto de malandro e já se lhe conhecem várias ações lamentáveis. Um dia foi preso acusado de fabricar dinheiro falso para pagar dívidas de jogo.
E a sua preocupação aumentou muito mais quando souberam o valor da multa:

- Cinquenta contos… o dinheiro que estávamos a juntar para um Fiat 127. Lá se vão as nossas economias.
A Céu estava boquiaberta e não conseguiu evitar um comentário:
- Olha, Estefaninha, se lhe tivesses dado as chineladas que me deste, isto não aconteceria.
- Eu acho uma multa demasiado elevada – dizia a mãe da Teresinha toda decidida. – Temos de contestar o graduado da GNR.
E dirigiram-se ao posto da GNR. O graduado, quando os viu, recebeu-os com um sorriso:
- Não tenham receio. Eu só quero dar uma lição a esses dois miúdos. Eles vão ficar em isolamento até amanhã e, depois, liberto-os na convicção de que terão aprendido a lição de que devem ser bem comportados.
- Mas a nossa menina é um anjo, não precisa de uma lição dessas – respondeu a mãe da Teresinha, apesar de mais descansada por terem desistido da multa. - Se os senhores quiserem, até pode vir todas as semanas fazer bolinhos para os prisioneiros...
- Estes jovens são bons, mas têm de ser moldados para terem um melhor comportamento e servirem a Pátria quando for necessário. Vão ficar na prisão até amanhã e espero que não repitam estes disparates. Mas acho que vou aceitar a sua oferta dos bolinhos. Fica desde já marcado que todas as terças-feiras, ela vem até cá fazer uns bolos para nós e para os prisioneiros. Eles não merecem, mas...
- E podemos ver a nossa menina?
- Não. Ela fica em reclusão, pois, se a virem e lhe falarem, o castigo perderá o seu efeito. Poderão vê-la através das grades, mas só isso…
Quando saíram, viram a Teresinha por trás das grades, a ver o Sol aos quadradinhos…
- Mãezinha, quando é que eu saio daqui?
- Minha filha, tem paciência. O graduado disse-me que, em breve, serás libertada, mas não me permite que fale contigo.

E a Teresinha ficou na prisão de Ourém a chorar enquanto os pais se afastavam de regresso a casa, mas já com a certeza que ela seria libertada…
Cá fora, os miúdos de escola, conhecedores da sua situação, iniciaram um estranho bailado usando pequenos carrinhos de madeira fabricados pelos presos:

A Teresinha está presa
não aprendeu a lição
ela não vai ter defesa
não vai sair da prisão

e, depois, num coro mais forte:

Olha a triste Teresinha
está na prisão a penar
é bem feita, é bem feita
não vai ter com quem casar...

Um deles veio bater nas grades:
- Olá… - e escapuliu-se.
Ali passou mais uma noite horrível a ouvir os gemidos e lamentos de outros presos, esses sim autores de crimes que mereciam castigo.
«Que grande lição! Mas estão a ser injustos comigo. Eu não merecia este castigo…»


terça-feira, janeiro 28, 2020

Todos para a prisão

No dia seguinte, pela manhã, o João dirigiu-se ao posto da GNR. Sentia-se culpado da situação da Teresinha e queria esclarecer toda a situação.
O graduado estava a tomar o pequeno almoço e só o recebeu ao fim de meia-hora num gabinete sem um mínimo de condições.
- Senhor comandante, venho falar-lhe na menina que prendeu ontem…
- Ela excedeu os limites de velocidade na vila e por isso vai ficar presa durante uma semana…
- Não pode ser, senhor guarda, o cavalo tinha tomado o freio nos dentes e a culpa foi dos senhores que dispararam aquela salva de tiros sem ninguém estar à espera.
- A culpa foi nossa? Repare, senhor cidadão, que estávamos a cumprir o nosso dever. Estávamos a treinar-nos para uma cerimónia importantíssima… enquanto o menino e a menina estavam a brincar.
- Cerimónia importantíssima?!! PFFFF!!! Uma palhaçada para apoiar o regime…
- Que disse? Guardas, prendam já este miúdo mal educado. Clementina, investiga já o comportamento de toda a família…
E o João acabou também por ser preso acusado por injuriar o regime que servia tão bem o país.

segunda-feira, janeiro 27, 2020

Uma amazona em perigo


Naquela manhã, a Teresinha estava encantadora com o ar desportivo e juvenil que lhe dava o traje de amazona. Os olhos pareciam mais rasgados e claros que nunca e o cabelo, recentemente penteado, caia como uma cascata sobre os ombros, em redondos anéis. Suspenso do pulso levava um pequeno chicote e foi assim que entrou no Avenida fazendo suspender a respiração a toda a gente.
- Teresa, pareces uma verdadeira cavaleira – disse o Jó Rodrigues.
Ela riu-se e respondeu:
- O João conseguiu que as meninas do circo me emprestassem um cavalinho dócil para dar uma volta pela vila.
O João, sempre o João… a conseguir coisas que pareciam inacessíveis aos outros.
Nesse momento, viram o João e uma miúda do circo que desciam a rua que vinha de casa do César na direção do Avenida.
A miúda segurava com uma das mãos as rédeas de um formoso corcel, negro de azeviche, uma bela estampa que, à simples vista, denotava ser animal de puro sangue. Um excelente exemplar.
- Aqui tens, Teresinha. Cumpro sempre o prometido.
A rapariga montou com agilidade e dirigiu-se ao longo da Avenida no sentido do jardim da vila. Aí, voltou à direita, num trote muito suave e subiu na direção da Câmara. Observava tudo com interesse e reparou que, lá à frente, havia uma parada da GNR. Cerca de 20 soldados estavam perfilados, obedecendo às ordens de um superior. Dirigiu para lá o corcel.
Mais acima, pôde ouvir as vozes de comando:
- Apontar!
Um movimento bem sincronizado fez com que os soldados virassem as espingardas para o ar.
- Fogo!
Uma fortíssima salva atroou os ares de Ourém. O animal, espantado, saltou, encabritou-se, levantou as patas dianteiras e esteve quase a derrubar a amazona.
Entretanto, alguns rapazes subiram a rua do César e puderam ouvir todo aquele ruído. Ao mesmo tempo, viram a mole negra de um cavalo desenfreado prestes a desabar-lhes em cima. E vinha na direção do Estorietas…
Forte e vigoroso, o aspeto do animal era horrível. O peito dilatado pela corrida louca, a boca meio aberta e cheia de espuma, os dentes à mostra, parecendo resolvidos a morderem-lhe, formavam um conjunto aterrador.
Os soldados da GNR contemplavam espantados aquela corrida louca. O graduado olhou aquele espetáculo e começou a tomar notas:
- Só nesta terra… - murmurou.
O primeiro impulso do Estorietas foi atirar-se de cabeça fugindo rapidamente do caminho trilhado pelo animal, mas deteve-o no último instante a visão fugaz de uma carinha desfigurada pelo pavor e o débil vulto da amazona que, com a força do desespero, se aferrava às crinas do corcel, tão desnorteada e sem domínio dos nervos que tinha largado as rédeas; já nem sequer tentava pará-lo e o galope cego arrastava-os rapidamente para a praça Mouzinho de Albuquerque onde se esmagariam de encontro às paredes que de maneira nenhuma poderiam evitar, isto se não chocassem com algum carro na Avenida. Foi a certeza deste facto que impediu o seu primeiro e instintivo movimento.
Nesses poucos segundos, apenas o tempo de lançar uma vista de olhos para avaliar a situação, o animal, ganhando terreno com fantástica velocidade, atirava-se irresistivelmente para cima dele. Um grito de horror saiu da garganta dos espetadores daquela tremenda cena, tanto mais que a ninguém era possível intervir.
Imobilizado pela expressão de medo que se lia nos olhos da amazona, convenceu-se de que tinha de fazer qualquer coisa, fosse o que fosse, para a salvar, mas a extraordinária rapidez do desenfreado animal impediu de pensar na melhor maneira de o deter.  Só por instinto, afastou levemente o corpo na altura própria, deixando passar a cabeça do cavalo e, com vigoroso impulso, saltou-lhe para o pescoço, de onde, pela violência do choque, se viu repelido. Concentrando toda a sua força nos braços para manter a posição, conseguiu afinal agarrar-se com firmeza e, então, sustendo o peso do corpo com o braço esquerdo, avançou a mão direita para agarrar as rédeas pendentes.
Chegou a julgar que ia cair pois o suor que empapava o corpo do animal fazia resvalar o braço em que se apoiava; ao dar por isso, apertou com novas energias as crinas do cavalo e, já com as rédeas bem presas, obrigou-o, violentamente, a baixar a cabeça. Agarrando-se como podia, às rédeas e ao pescoço, foi estendendo as pernas que mantivera encolhidas, inclinou-se para a frente e deixou cair os pés, a tocarem o solo, fincando os saltos dos sapatos para se firmar no terreno, e largou-se puxando as rédeas com ambas as mãos.
Fizera tudo aquilo com a maior rapidez, mas, apesar disso, já estavam a poucos metros do Avenida e a parede parecia aproximar-se vertiginosamente, sombria, ameaçadora…
Os músculos em completa tensão afiguravam-se incapazes de resistir ao esforço, o alcatrão feria-lhe os pés, deixando visível um sulco escuro, mas, quando a catástrofe parecia iminente, o animal rendeu-se, ofegante e trémulo. Um suspiro de alívio saiu do seu peito angustiado ao perceber que os seus esforços tinam sido coroados do êxito mais rotundo. O cavalo ainda tentou encabritar-se mas a forte pressão que sobre ele exercia o Estorietas dominou-o por completo.
A Teresinha chorava e teve de ser retirada de cima do cavalo pelos rapazes. O João só dizia:
- Oh! Que estupidez eu fiz.
Entretanto aproximava-se o graduado da GNR que, com voz dura, perguntou:
- Quem conduzia aquele cavalo?
- Era eu, senhor comandante – respondeu a Teresinha ainda a tremer e quase a chorar.
O homem não teve dó nem piedade:
- A menina tem de pagar uma multa de 50 contos por ter circulado na vila com excesso de velocidade.
- Mas eu não tenho dinheiro…
- Então vai ficar na prisão durante uns dias…
E, nessa noite, a Teresinha foi dormir no calaboiço da GNR sem ninguém saber quando sairia.


segunda-feira, janeiro 13, 2020

O sequestro do leão bébé

Mal saiam de casa, o João e a Luzinha passeavam em frente ao circo para se deliciarem a ver os animais. O João, entretanto, ia conhecendo algumas das artistas e, por vezes, falava com elas. Um dia, teve uma novidade fantástica para a Luzinha:
- Sabes? A Leoa Elsa teve leõezinhos. Já andam e as meninas do circo permitem que nós lá vamos vê-los…
- Vamos – gritou a Luzinha toda excitada.
Foi um passo a sua caminhada até ao circo. Uma das meninas já os esperava e apresentou-os ao domador.
- São o João e a Luzinha, dois jovens muito simpáticos desta vila. O João permite que nós tomemos banho no tanque da casa deles. Amanhã à tarde já lá vamos, eu convidei-os para virem ver os leões bebé.
- Venham comigo – disse o domador – Eu devo estar presente para a leoa não se enervar…
Foram por ali dentro e, pouco depois, um espetáculo maravilhoso ficou perante os seus olhos. Uma leoa amamentava três filhotes que mais pareciam uns gatos. A Luzinha ficou extasiada. À saída, depois de agradecerem, ela disse:
- João, eu quero um bichinho daqueles…
- O quê? Não sejas louca…
- Já disse. Quero um daqueles leões. Vou criá-lo com todo o amor. Já te imaginaste a levá-lo de trela até ao Avenida? Depois, quando crescer, é a melhor proteção que poderemos ter…
O João tentou demovê-la, mas não conseguiu. E ficou numa situação difícil. Ele adorava aquela irmã, gostava de lhe fazer as vontades todas e, mais uma vez, não a poderia desiludir.
- Irmãzinha, eu vou fazer o que puder para satisfazer o teu desejo…
Nos dias seguintes, houve grande confraternização do João com três meninas do circo. Ele convidara-as para tomar banho no tanque e divertiam-se muito na água com vários jogos. Pouco a pouco, uma das miúdas ia-se sentindo cada vez mais atraída pelo João. Passavam muitas horas juntos e chegavam a passear-se de mão dada. Um dia, ele resolveu avançar.
- Ouve, Leontina. Tens de me ajudar a ficar com um daqueles leões.
A pequena ao princípio recusou, mas, depois, cedeu à pressão do João.
- Farei o que me for possível.
Ninguém sabe como o conseguiu. O certo é que, um dia, disfarçado dentro de um cesto que vinha tapado, a pequena entregou um dos leões ao João.
- Aqui tens. Agora, não me denuncies senão eles expulsam-me do circo…
- Está descansada…
A Luzinha ficou encantada quando o João chegou junto dela com o filhote da Elsa…
- João… como conseguiste?
- Nem eu sei. O que interessa é que tens o teu leãozinho. Agora temos de o manter escondido até o circo se ir embora…
No circo, houve intensa discussão quando se soube que o leão tinha desaparecido. O domador foi despedido e acusado de fazer tráfico de animais selvagens quando lhe foi descoberto na mesa de cabeceira uma carteira cheia de notas de mil que o desgraçado tinha poupado ao longo de anos de trabalho. A menina que ajudara o João ocupou o lugar dele, passando ela a ser a principal estrela nos números com as feras.
E um dia o circo foi-se embora. O João e a Luzinha respiraram de alívio e começaram a levar o leão a passear, fazendo-o adaptar-se aos hábitos dos humanos.
Mas um dia os dois irmãos tiveram uma notícia muito triste. A página principal do Diário de Notícias informava que a domadora do Circo “Ordem Nova” tinha sido devorada pela leoa Elsa quando fazia um número com ela frente aos espetadores.
A Luzinha ficou muito comovida.
- João, não aguento isto. A Leontina morta, o domador despedido, é muito injusto. Temos de devolver o leão. Além disso, está a ficar muito grande e parece-me feroz. Qualquer dia, não conseguimos conviver com ele.
E o João teve de arranjar uma desculpa para a devolução do leão e para a sua presença na sua casa em Ourém.
- Ele estava escondido numa gruta… jejejejjejjejjjej.
As pessoas do circo aceitaram as suas razões e o caso acabou por ser esquecido. Mas consta que, por causa deste episódio, a Luzinha garante que nunca viu um circo em Ourém, apesar de este ter estado mesmo frente ao muro do seu quintal…

quinta-feira, janeiro 09, 2020

O abraço do macaco

O circo chegou a Ourém e começou de imediato a montagem junto à escola da Dona Iria. Passávamos por ali e víamos artistas e animais. Estes estavam em jaulas e alguns deles tinham um aspecto bastante agressivo designadamente os leões e os tigres. Mais para a esquerda, um conjunto de macacos numa jaula maior fazia as delícias do pessoal pendurando-se no cimo da jaula e fazendo as acrobacias mais incríveis.
Numa tarde, um dos guardadores dos animais teve uma distração ao levar-lhes comida, ele esqueceu-se de fechar a porta dos macacos e alguns deles aproveitaram para sair e dar uma volta pela vila.
A notícia correu célere:
- Os animais do circo fugiram e andam por aí…
Foi o terror. Ninguém se lembrou de dizer quais os animais que tinham fugido e as pessoas associaram imediatamente a canção do Roberto Carlos: “Um leão anda à solta pelas ruas / por descuido do seu domador / não mais terá problemas de alimentação / se ele encontra o meu broto por aí/…”.
Assim, toda a gente se fechou em casa, enquanto o pessoal do circo procurava os macacos por todo o lado.  Dos três que tinham fugido, um foi encontrado a comer bananas na loja do sr. Moreira e outro quando se sentou numa cadeira no café Central, provavelmente à espera de tomar um café.
Restava descobrir onde estava o terceiro macaco. Que estranha coisa teria acontecido para não o conseguirem apanhar?


***
Alta noite, a porta da casa do Dr. Preto abriu-se e uma bicicleta saiu para o exterior. Um vulto todo coberto por uma capa negra, levando uma carga estranha num saco, montou a bicicleta e partiu pedalando resolutamente. Desceu à Avenida, virou à esquerda, fez rapidamente o percurso até à casa do Zé Canoa e, aí, virou na direção do Vale Travesso.
Ao passar junto ao Fernão Lopes, parou e retirou a carga de cima da bicicleta. Acto contínuo, levou-a até à entrada do Colégio e dirigiu-se à sala de aula mais à esquerda conseguindo abrir a janela com um simples movimento, libertando-a então do saco que a embrulhava. Tratava-se do terceiro macaco. A pessoa em causa colocou a carga no interior da sala, fechou a janela e voltou pela estrada que tinha tomado. Liberto da carga, um ligeiro movimento, tornou possível descortinar do que se tratava. Era um rapaz já bastante famoso em Ourém pelos terríveis desmandos que ali provocava: o famoso João Passarinho…
No dia seguinte, pela manhã, o João foi o primeiro aluno a chegar às aulas. Foi aguardando junto à sala de aula, pensando no cagaço que ia pregar a alguém. As portas da sala estavam fechadas e os alunos esperavam no corredor que o sr. Nunes as abrisse e o professor permitisse a sua entrada para se sentarem.
E chegou o momento do início da aula.
No seu andar sincronizado, o sr. Nunes chegou junto da porta da sala e fez rodar a chave.
- As meninas podem entrar… - disse naquele tom que fazia lembrar o anúncio do Ferrero Rocher.
A Ciete era a menina que estava à frente. Sempre voluntariosa, não queria perder pitada da aula e, por isso, ganhava logo vantagem a sentar-se, abrir os cadernos e pegar no equipamento de escrita.
O problema é que, mal entrou na sala, deu um grito:
- Que horror!!! Está aqui um bicho…
O macaco ainda ficou com mais medo. Deu um salto e saltou-lhe para o colo procurando refúgio naquela menina, aterrorizado com a avalanche de gente que se avizinhava. A Ciete estava apavorada, não sabia o que fazer, pois as colegas, por trás, empurravam-na, mas ela queria recuar e não conseguia.
- Deve ser o macaco que fugiu do circo – dizia a Gracelinda toda valente.
Lá atrás, o João ria que nem um perdido enquanto os outros rapazes tentavam compreender o que se passava.
Mas o macaco era mesmo um doce. Agarrou-se à Ciete, encostou a cabecita à dela e deitou-lhe os braços ao pescoço, pedindo-lhe proteção. Ela não conseguiu recusar…
Num instante a situação acalmou e, nesse dia, a aula não se realizou, porque uma embaixada do CFL foi devolver o macaquito ao circo. O João, como sempre, escapou mais uma vez ao castigo por um crime gravíssimo…
Nunca ninguém descobriu como o macaco tinha ido parar à sala de aula. As janelas eram rigorosamente fechadas quando acabava a última aula e as portas ao fim do dia, assim era muito estranho o facto de ele se ter metido na sala, admitindo-se que se tenha escondido debaixo de uma carteira depois de a última aula ter terminado. Por isso, ninguém suspeitou do João que, passeando pelo jardim da casa do avô, viu o macaco saltar para o interior do mesmo e idealizou de imediato uma maldade para os colegas do Fernão Lopes. Depois de o ter apanhado, sorrateiramente, voltou ao colégio, entrou na sala de aula depois de a última se ter realizado e deu um ligeiro toque no fecho da janela de forma a poder manejá-lo durante a noite a partir do exterior. Um cérebro brilhante, mas sempre malvado…

segunda-feira, janeiro 06, 2020

Receção de honra às heroínas do Exército Vermelho


Num instante reanimaram a Ciete que, olhando o indivíduo que chegara, afirmou:
- Tirem-me essa horrorosa criatura da frente. Foi ele quem nos atirou para isto.
- Perdoem-me – respondeu o indivíduo com a usual delicadeza. - Houve uma grande confusão dos serviços de defesa da revolução. Vocês deviam ser consideradas heroínas do Exército Vermelho e foram parar à prisão por a informação ser mal veiculada…
- Heroínas… mas porquê?
- Sou um agente dos serviços secretos da RPC e andava a investigar a atividade de uma célula que queria criar uma rede anticomunista em Hong-Kong. Infiltrámos um dos nossos na rede e simulámos o envio de armas e propaganda para os locais. O casino de Macau é um local excelente para, entre os que perdem, descobrirmos papalvos que se disponibilizem ao tipo de missão que vos foi atribuída… A missão foi um sucesso, conseguimos desmantelar toda a rede, temos mais de trinta indivíduos presos…
- Que horror!...
- É assim. Não deviam resistir ao inexorável avanço da História.
- E agora? Que nos vai acontecer?
- Vão ser tratadas como rainhas. Depois, quando a situação acalmar, poderão voltar a Macau e regressar à vossa vida. Já agora podemos apresentar-nos… Eu chamo-me Johnny Little Bird, sou de origem portuguesa, mas, depois de passar una anos em Inglaterra, naturalizei-me e mudei de nome. As minhas convicções ideológicas sempre me aproximaram muito da RPC e estabeleci-me em Macau para a apoiar nesta fase importante da História da Humanidade.
Nesse momento, o comandante do posto da Guarda da Revolução informou:
- Está na hora de almoçarmos. As duas gentis damas que tão alto serviço prestaram à nossa democracia popular estão convidadas. Vou mostrar-lhes as futuras instalações onde poderão tomar banho e vestir novas roupas que vão escolher de um lote que eu tomei a liberdade de mandar vir de um dos melhores costureiros da nossa terra.
Algum tempo depois, a Céu e a Ciete foram conduzidas ao local onde se realizava o almoço de gala. A Céu ficou sentada ao lado de Johnny Little Bird e a Ciete ao lado do comandante do posto. Começaram por brindar aos êxitos da Revolução e, pouco depois, começaram a chegar travessas muito bem cheirosas e melhor apresentadas.
A Céu serviu-se e o seu prato ficou com excelente aspeto.
«Isto começa a correr bem…» - pensou consigo própria, enquanto tentava olhar a cara da irmã.
- Tem excelente aspeto este assado. De que se trata? – perguntou.
- Cão assado no forno com batatas e grelos – respondeu o comandante – Utilizamos sempre cães das melhores raças criados livremente nos nossos campos onde podem correr e divertir-se.
A Céu e a Ciete sentiram um baque no peito. Cão assado no forno… como é que elas iriam comer aquilo? Mas não podiam ser deselegantes, senão nunca mais as libertavam. Desforraram-se nas batatinhas e grelos e muita carne puseram de lado.
- Não está a gostar? – perguntou Johnny.
- Não é isso… converti-me à alimentação Vegan.
- Vocês arranjam cada mania lá pelo Ocidente. Não há nada que substitua a proteína animal saudável.
Depois de uma sobremesa à base de gelatina de cascavel, o comandante ergueu a sua taça e fez um brinde às duas manas, enquanto lhes estendia com a mão livre um pequeno livro vermelho.
- Ergo a minha taça em honra de quem tão bem serviu os interesses da República Popular da China. Ainda não partiram e já sentimos a vossa falta. Aqui vos deixo este pequeno livro para saberem mais acerca dos princípios que nos orientam. A nossa fonte é a doutrina de Karl Marx, mas não se preocupem a ler os calhamaços todos que ele publicou e que, possivelmente, estarão desatualizados. Neste livro encontram os grandes ensinamentos do presidente Mao em pouco mais de cem páginas. Leem-nos em duas horas e ficam logo a saber tudo o que é preciso saber para ser feliz na nossa democracia.
Corresponderam ao brinde e aceitaram delicadamente a oferta…
Nos dias que se seguiram, encheram-nas de honras. Elas sentiram-se como verdadeiras princesas na China Comunista. Levaram-nas a ver e percorrer parte da Grande Muralha nos circuitos reservados aos dirigentes. Atribuíram-lhes instalações fabulosas e elas acabaram por considerar que a estadia estava a ser ótima… e que até não se importavam de repetir a ida ao casino de Macau onde tudo começara.
Alguns dias depois, Little Bird veio falar com elas:
- A situação acalmou muito. Já podem sair em segurança. Não sei se querem passar mais alguns dias em HK.
- Temos de voltar. Não temos dinheiro connosco.
- Mas têm cheques?
- Sim – disse a Céu – Trago sempre comigo…
- Vou-vos propor um belo investimento: entregam-me um cheque ao portador de 50000 euros e eu arranjo-vos o correspondente em Yuan Chinês para poderem comprar recordações, as vossas viagens de regresso e o que mais entenderem… caso contrário, não encontrarão aqui qualquer possibilidade de câmbio

A Céu passou o cheque à ordem do Banco Nacional Ultramarino e passado um bocado, Little Bird voltou com uma mala preta cheia de notas.



- Pronto, têm aqui 40000 yuan chineses. Já vos marquei um hotel para prosseguirem a estadia e lá têm um cofre onde podem guardar o dinheiro. Depois, quando quiserem, compram as passagens e regressam a Macau.
- Acha que o vamos encontrar lá em Macau?
- É pouco provável. Nestas aventuras, há sempre quem nos reconheça ou saiba algo de nós. Acho que vou para outra região da China Popular.
- Então nunca mais nos encontraremos…
- Possívelmente, não. Talvez um dia, lá para Março, eu volte a Ourém…
- Será muito bem recebido no nosso Castelo.
Passaram mais alguns dias, e as duas irmãs notaram que o dinheiro se esvaia muito depressa em Hong Kong pelo que resolveram voltar a Macau.
Já ali, a Céu disse:
- É esquisito, o dinheiro chinês esgotou-se num instante. Pouco comprámos e num instante sumiram-se 50000 euros.
A Ciete pegou num jornal e começou a consultar a página de câmbios. Passado algum tempo, fez umas contas e disse, quase a chorar:
- Ceuzinha, o malvado do Johnny enganou-nos outra vez. Cada Yuan vale mais ou menos 13 cêntimos. Ele devia-nos ter dado 400000 e não apenas quarenta mil. Roubou-nos perto de 45000 euros.
- O bandido! O crápula… e eu a convidá-lo para a minha casa no Castelo…



FIM

sexta-feira, janeiro 03, 2020

O valor de uma notícia

Passados dois dias, o jornal “South China Morning Post” trazia uma notícia, «Desmantelada célula de conspiração contra a Revolução», sobre o que se tinha passado em Hong-Kong acompanhado da foto de duas ocidentais.
Em Macau, um individuo que parecia passear com a esposa, viu a capa do jornal e adquiriu-o imediatamente.
«Mas o que é isto? Não está de acordo com o combinado. Tenho de ir a Hong Kong».

***

No terceiro dia da sua prisão em Hong Kong, as duas irmãs estavam completamente desesperadas.
- O que vai ser de nós? Ninguém sabe que aqui estamos presas…
E continuaram a chorar toda a manhã olhadas pelas outras mulheres com um certo desdém. Entretanto, a prisão estava cada vez mais cheia de pessoas que parecia conhecerem-se umas às outras. Dir-se-ia que a prisão delas tinha levado à prisão de muitas outras pessoas.
- É estranho. Parece que a nossa chegada desencadeou tudo isto.
Nunca mais tinham falado com o indivíduo que as tinha esperado no cais, mas um dia viram-no passar bastante maltratado depois de ter estado a ser interrogado.
- São horríveis estes regimes – dizia a Ciete.
- Lembra-te que ele nos disse que havia uma conspiração contra o sistema. É uma luta de morte e estes indivíduos não são nada meigos.
- Nada justifica que as pessoas tratem assim o seu semelhante. E para quê? No fundo, o povo vive miseravelmente, o que há é igualdade na miséria. É tudo muito semelhante ao que um dia designaram por «Modo de produção asiático»: tudo escravo, tudo na miséria e uma casta cheia de direitos e riqueza a mexer os cordelinhos.
- Ena. Leste muito sobre isto…
A porta da cela abriu-se e um guarda fez-lhes sinal para o seguirem. Entretanto, na rua, parecia ouvir-se gritos de pessoas a clamarem…
Foram de novo levadas à presença do responsável pelo local de detenção que as recebeu com um sorriso amarelo. A seu lado estava o intérprete que fez a tradução das suas primeiras palavras:
- As nossas desculpas pelo mal-entendido em que estiveram metidas. Só agora percebemos que foram uma peça importante para deter elementos que conspiravam contra o sistema.
- Como? – perguntou a Céu sem perceber nada.
- Mais uma vez, aceitem as desculpas em nome do Governo da República Popular da China. Devíamos libertá-las imediatamente, mas não podemos: há uma manifestação contra os rebeldes e, se saírem agora em liberdade, podem confundi-las com eles uma vez que a imprensa publicou as vossas fotos. Têm de esperar que a situação acalme. Mas vamos mudá-las de instalações e dar-vos outro tratamento até poderem sair.
- Isso é que é falar – disse a Ciete – Mas a quem se deve esta mudança?
- Àquele… - disse o intérprete apontando para a porta que se abria.
Nesse momento apareceu perante elas, sorridente, a imagem do cavalheiro que as tinha conduzido àquela situação em Macau.
- Ohhhh!!!!! – exclamou a Ciete, caindo no chão sem consciência.

terça-feira, dezembro 31, 2019

Prisioneiras da Guarda da Revolução


A primeira noite numa prisão chinesa foi horrível para as duas manas. Cercadas por mais de quinze presos do género feminino numa cela sem as menores condições tinham um catre estreitíssimo para se deitar e um misero cobertor para se cobrir. Passaram a noite a chorar sempre olhadas com estranheza por uma série de mulheres de raça amarela. A língua era um problema enorme e fazia com não se conseguissem entender com mais nenhum preso. Na cela ao lado, ainda em piores condições, estavam os homens e passaram a noite a ouvir aquelas cuspidelas horrorosas que as enojavam.
Pela manhã, foram chamadas ao comandante da Guarda da Revolução o qual se rodeou de um intérprete que falava inglês e foi nesta língua que o diálogo se desenvolveu:
- Quem é o vosso chefe?
A Céu, mais resoluta, tentou contar a história do casino e o estranho contacto com um cavalheiro que lhes pediu para trazer os barcos com uma encomenda cujo conteúdo desconheciam.
Ao ter conhecimento da resposta da jovem, o oficial chinês ficou bastante irritado.
- Ele diz que vocês estão a mentir, a gozar com o povo chinês – disse o intérprete. – Se não falarem ficam na prisão toda a vida.
As duas irmãs desataram a chorar e, mais uma vez, garantiram que estavam a dizer toda a verdade. Foram forçadas a regressar à cela e, pouco depois, foram conduzidas ao refeitório da prisão para almoçar.
Era um recinto enorme que já estava cheio de pessoas andrajosas e terrivelmente tristes. Um guarda indicou-lhes dois lugares junto a outras reclusas. Repararam que tinham uma pulseira com um número igual ao que estava no lugar que iam ocupar.
Um conjunto de homens, na sua maioria chineses, foi trazendo a comida para as mesas. Um deles que parecia ocidental trouxe uma travessa com arroz, legumes cozinhados e uns fritos esquisitos. A Céu perguntou em inglês:
- O que é isto?
O indivíduo com aspeto ocidental respondeu na mesma língua:
- Orelhas de macaco fritas.
- Que horror! – gritou a Ciete, levando as mãos à cara. – Não consigo comer isso.
- Prove, porque não é mau – respondeu o serviçal. – Ao jantar, são gafanhotos grelhados…
A Céu, mais decidida, perguntou ao guarda serviçal:
- Como podemos avisar as nossas famílias que estamos aqui presas?
- Enquanto não apurarem a verdade, não têm hipótese de contatar ninguém.
No fundo, as orelhas de macaco nem foram o pior da estória. As duas irmãs comeram conforme puderam e recolheram à cela onde se deitaram no catre a chorar convulsivamente.
- E agora? Que vai ser de nós aqui fechadas? – dizia a Céu.
- A culpa é toda tua com a mania dos ganhos em casinos.
- Nunca mais entro num local desses. Mas o importante era avisar alguém do nosso país. Talvez o professor Marcelo pudesse fazer alguma coisa…
- Achas? O mais provável era ir dar um abraço de consolação ao nosso paizinho e pregava-lhe um susto enorme…




Como veem, meus amigos, a eterna juventude da Céu e da Ciete acabou por as colocar numa situação delicada. Que fazer? Como conseguiria chegar às autoridades portuguesas o relato da sua situação?

sexta-feira, dezembro 27, 2019

Uma aventura na Ásia


Houve um ano em que a Céu e a Ciete foram passar uma temporada a Macau. Para além de visitarem toda a região e deliciarem-se com a comida local, uma das coisas que mais as motivava era o jogo. Assim, em várias noites dirigiram-se ao casino local e, curiosamente, foram ganhando algum dinheiro. Nunca suspeitaram que os ganhos que estavam a ter eram provenientes de alguma intenção de as fazer voltar ao local.
A verdade é que houve uma noite em que as coisas correram mal, tendo elas feito uma aposta que não conseguiram pagar. Um cavalheiro pagou a dívida e elas comprometeram-se a fazer o que fosse necessário para o compensar.
No dia seguinte, encontraram-se e ele propôs:
- Preciso de enviar um carregamento para HK. A viagem será feita em dois barcos. Se vocês os conduzirem ninguém vos incomodará e eu poderei descansar relativamente ao não extravio das coisas.
As jovens aceitaram e, no dia seguinte, pela manhã, apresentaram-se no cais. O cavalheiro que as tinha ajudado vestia uma camisola azul da Burberry. Viram logo que se tratava de uma pessoa de fino trato acima de qualquer suspeita.
- Saem do terminal de ferry e, seguindo estas instruções, numa hora estarão no terminal de Hong Kong onde alguém as espera.
- E o que é que nós levamos? – perguntou a Céu sempre voluntariosa e cheia de curiosidade.
- Nada importante. Nada que vos interesse. O importante é pagarem a vossa dívida. Agora, tenho de tirar uma fotografia convosco para enviar ao contacto em HK e ele poder reconhecer-vos sem mais confusões.
- Uma fotografia? – perguntou a Céu – É para já. Até pode ser dentro do barco.
E elas lá partiram cada uma em seu barco, sempre ao lado uma da outra. De vez em quando a Ciete acenava para a Céu, mostrando-lhe quanto estava a gostar da aventura.
- Isto é que é vida.
- Vou filmar para publicar uma reportagem…
- A reportagem das nossas vidas…
À chegada a Hong Kong, viram imediatamente no cais um indivíduo a fazer-lhes sinais com um lenço vermelho.
- Lá está o nosso contacto…
Num instante, chegaram ao local onde eram aguardadas. O sujeito procurou a carga e começou a transportar para uma camioneta um conjunto de caixas nos mais diversos formatos. Nisto ouviu-se um apito e um conjunto de chineses armados da cabeça aos pés chegou junto do trio apontando-lhes as armas.
As duas irmãs ficaram aterrorizadas.
- Mas o que é isto?
O sujeito que as tinha esperado respondeu.
- Estamos perdidos. São os Guardas da Revolução.
- Mas nós não fizemos nada de mal.
- Fizeram, sim, sem o saber. Os barcos traziam armas e propaganda contra o regime. Andamos a organizar uma célula da resistência ao sistema comunista.
- E que nos vão fazer? Nós não sabíamos de nada…
- Vocês são ocidentais. É natural que pensem que participaram ativa e conscientemente nesta ação. Vão ficar presas o resto da vida se não vos fizerem pior…
-Ohhh! – gritou a Cietezinha levando a mão à cabeça. – Fomos enganadas…
E caiu no chão não dando mais acordo de si. Uns minutos depois, estavam numa carrinha celular a caminho da prisão. A Céu, com um leque, abanava junto à face da irmã. Esta começou a dar sinais de recuperar da comoção e, daí a pouco, sentou-se, ocupando um lugar na carrinha.


E agora? O que vai ser das duas irmãzinhas? Quem está a favor da prisão delas? Quem está contra? Como é que acham que a estória vai acabar? Será que me podem dar alguma sugestão para as tirar da prisão? Elas não podem ficar ali eternamente… Temos de as fazer voltar a Ourém?

E quem seria o sujeito da camisola Burberry que as contratou? O seu ar não me era estranho, mas não consigo recordar por mais esforços que faça...

Por favor, participem. Já que há orçamentos participativos, podemos também ter estorietas participativas. E estas com o nobre objetivo de libertar as duas irmãs.

segunda-feira, dezembro 16, 2019

O golpe

No dia seguinte, pela manhã, a Céu procurou a sua gestora de conta na CGD a quem pôs a necessidade de realizar em dinheiro a quantia de 50000. Examinada a situação patrimonial da cliente, a solução foi a seguinte:
- venda de 50% da participação da Céu na Editorial Âncora que realizaria 25000 euros;
- venda de 75000 ações do BCP a 20 cêntimos por ação, ações que tinha adquirido ao comendador Berardo a 12 cêntimos por ação, sendo alertada que iria ter alguma penalização pela mais-valia;
- resgate de um plano poupança reforma no valor de 10000.
A gestora de conta ofereceu-se para lhe levar o dinheiro a casa com segurança, mas a Céu recusou. Colocou o dinheiro numa mala negra, entrou no carro e rapidamente voltou a casa.
Uma hora antes da hora marcada pelos chantagistas, o João chegou e combinou com ela:
- Tu entregas-lhes o dinheiro e pedes logo para libertarem a tua irmã. Eu vou esconder-me naquele quarto e, quando tudo estiver tratado, apareço, prendo o assaltante, exijo-lhe que nos diga onde está a tua irmã e vou lá buscá-la.
- Está bem, João. Não sei como te agradecer o que estás a fazer por mim…
- Não te preocupes. O importante é que o nosso plano resulte.
O João escondeu-se no quarto e a Céu sentou-se cheia de nervos à espera dos chantagistas. Como ela gostava daquela irmãzinha! Não podia imaginar que alguém lhe quisesse fazer mal. As suas mãos retorciam-se enquanto esperava. E rezou, rezou fervorosamente...
De súbito, ouviu uns passos na rua. Pouco depois, alguém bateu à porta…
O assaltante apareceu.
- Sou eu. Tem o dinheiro?
- Sim. Mas exijo que telefone a mandar libertar a minha irmã.
- Primeiro, mostra-me o dinheiro…
A Céu abriu a mala e mostrou-lhe o conteúdo desta. O assaltante não teve dúvidas que estavam ali 50000 euros. Então, sacou de uma faca e ameaçou-a:
- Chega-te àquela coluna da tua casa.
Amarrou-a à coluna e, em seguida telefonou aos capangas:
- Já tenho o dinheiro, podem libertar a outra, vou sair agora daqui.
Só que não pôde sair. Nesse momento, o João apareceu e apontou-lhe um revólver.
- Para, bandido. Foste apanhado.
O assaltante olhou para ele e riu-se.
- Não julgues que me metes medo com essa arma. Tenho a certeza que não és capaz de disparar.
O João tentou apertar o gatilho, mas tudo estava perro. A arma não era limpa há anos, as munições estavam humedecidas.
O assaltante aproveitou e deu um murro no João que caiu desmaiado no chão. Em seguida, pegou na mala do dinheiro e fugiu.
Algum tempo depois, a Ciete chegou a casa da irmã e ficou espavorida.
- Minha querida irmã! Estou aterrorizada. Mas que faz aqui o João?
- Tentou ajudar-me e o bandido deu-lhe um murro muito forte. Quase que ia passando por cima do cadáver dele… Vamos, liberta-me. Temos de o ajudar…
A Ciete desatou as cordas que prendiam a Céu que correu de imediato para o João.
- Joãozinho, ias morrendo por minha causa.
O João fingiu que acordava naquela altura e levou a mão à cabeça.
- O malvado deu-me a valer.
- Vou tratar de ti. Ficas aqui connosco a passar uma temporada  no Castelo.
- Não posso. Os meus negócios chamam-me a Madrid. Temos de apresentar queixa contra os bandidos e amanhã tenho de partir…
No dia seguinte, pela manhã, comodamente sentado no seu carro, com o Baloo ao lado, o João olhava uma mala preta…
Afagou o pescoço do Baloo e sorriu:
- Belo golpe. 25000 para mim e o restante para os três angolanos, uma sociedade que parece estar a dar resultados. E a Ceuzinha é um doce. Breve voltarei a encontrá-la.

- AU AU!!!… - respondeu o Baloo, abanando a cauda de contente.




FIM

domingo, dezembro 15, 2019

Pedido de resgate

No dia seguinte, pela tarde, o João voltou à casa da Céu no Castelo. Levava com ele o Baloo que se fartou de dar beijinhos à Céu.
- Então, já sabes alguma coisa?
- Nada de nada. Não há notícias, continua sem atender o telefone e a Polícia continua a teimar que ela pode ter desaparecido por vontade própria.
- Já mandaste cancelar as contas dela?
- Não sei os números, estou completamente descontrolada.
Nesse momento, alguém bateu à porta. A Céu foi abrir e quando voltou trazia um envelope na mão.
- Era um africano que me trouxe esta carta.
- Um africano? – repetiu o João – Se calhar era um dos que levou a tua irmã…
E correu rapidamente para a porta que abriu. Mas já não viu ninguém e voltou.
- Já não o vi. Que diz a carta?
A Céu abriu o envelope e leu a missiva:
“Se queres voltar a ver a tua irmã, amanhã, pelas três da tarde, tem em teu poder 50000 euros que entregarás ao mensageiro que te procurar. Não fales à polícia, senão a tua irmã será executada.”
A Céu desatou a chorar e o João aproveitou para lhe passar o braço pelos ombros.
- Ceuzinha, sabes que podes contar sempre comigo…
Ela limpou as lágrimas, fungou e respondeu:
- Não sei o que hei de fazer. Dizem que a executam se eu contar à Polícia
- Eu ajudo-te. O melhor é pagarmos o resgate e, depois, denunciamo-los. Amanhã levantas o dinheiro e esperamos por eles no local que eles pretendem aqui em casa. Eles não saberão que eu estou cá e eu apanho-os com a ajuda do Baloo e um revólver que trago sempre comigo… Depois, obrigamo-los a falar e a dizer onde está a Ciete.
- Oh, João! E pensar que duvidei de ti…
- Ceuzinha, não há pessoa mais credível do que eu.

- Ajuda-me, João. Não me imagino a passar o Natal sem ela...


(Conclui amanhã)

sábado, dezembro 14, 2019

Rapto junto à Capela

Um dia, uma das damas do Castelo passeava pelo campo, envolvida nas mais nostálgicas recordações de infância e dirigiu-se até às ruínas da capela de São Sebastião. Mal sabia que ia ser protagonista de uma estória muito estranha.
Chegado três dias antes a Ourém, o João seguiu-a e fez-se acompanhar de um presa canario adquirido recentemente. Que teria ele em mente?
Perto das ruínas, a pobre Ciete vagueava sem se aperceber do perigo que corria. De repente, o cão surgiu-lhe por trás e rosnou-lhe. Ela ficou paralisada.
- Ai! O que é isto?
Num derradeiro esforço, tentou correr, tentou fugir do cão, mas este perseguiu-a e rapidamente filou a sua perna com a boca obrigando-a a deter-se
Atrás de umas moitas, o João espreitava o movimento. Colocou o seu gorro e aproveitou a paralisação momentânea da pequena para a aprisionar e enfiar numa carrinha com o auxílio de dois capangas. Rapidamente, conduziu-a até ao Castelo onde foi presa ficando guardada pelo cão.
- Mas o que é isto? – perguntava ela.
- Cala-te e nada de mal te acontecerá…
Durante duas horas a pequena ali esteve aprisionada, comendo umas migalhas que ele lhe levava e sempre vigiada pela feroz criatura.
Entretanto, na vila, todos estranhavam a sua ausência.
- Que lhe terá acontecido? – perguntava a Ceuzinha, terrivelmente preocupada. – Ela foi apanhar flores ao campo e ainda não voltou.
Mas a resposta não chegava. A Ceu estava nesta agitação quando alguém bateu à porta da sua casa no Castelo.
Era o João sempre gentil com uma caixinha de bolos do Algarve adquiridos propositadamente para ela.
- Oh, João! Tão gentil… mas aconteceu uma coisa incrível. A minha irmã desapareceu… não sei que fazer… ela não atende o telefone. É surreal…
- Podes crer – respondeu o João - Temos de comunicar à polícia e fazer com que a procurem.
Dirigiram-se imediatamente ao posto da polícia de Ourém e expuseram o caso.
- Nós temos de esperar 48 horas – respondeu o agente a quem entregaram a participação do desaparecimento – A pessoa pode-se ter ausentado por vontade própria.
- Mas eu já lhe disse que a vontade dela era estar em nossa casa. Nada justifica a ausência.
Mas a verdade é que nada demoveu o agente da sua posição legitimada pela lei, pelo que, derrotados, saíram e caminharam por Ourém depois de ainda o ouvirem dizer:
- Minha senhora, a Lei é para ser cumprida. Não há desaparecimento se não passarem 48 horas
A notícia do desaparecimento, entretanto, ia correndo pela cidade e, logo, alguns voluntários se ofereceram para a ajudar nas buscas.
- Se a polícia não a procura, procuramos nós…
E imediatamente se organizou um grupo o qual se dirigiu para a zona das ruínas da Capela. O João e a Céu acompanhavam-nos possuídos de motivações e preocupações muito diversas…
De repente, um dos voluntários encontrou algo…
- Olhem isto. Alguém passou por aqui.
Era uma trela para conduzir um cão.
- João, acho que já vi aquela trela nos teus filmes com o Baloo. Passa-se alguma coisa que eu não saiba?
- Jejejejejejejeje. De facto, a trela é minha. Eu passei por aqui e devo-a ter perdido.
- João, tu sabes onde está a minha irmã?
- Não, não sei nada. Por acaso, passei por aqui e vi uma senhora a ser arrastada por três angolanos, mas não a reconheci, nem a eles. Nesse instante, devo ter perdido a trela…
A Céu não ficou nada convencida.
- Arrastada por três angolanos… onde é que eu já ouvi isso? E por que não revelaste isso mais cedo?
- Não associei os casos. Pensei que era uma brincadeira.
De regresso a casa, depois da busca infrutífera, o João refletia:
- Quase ia sendo apanhado por causa da trela… Como hei-de dar a volta à situação?
E elaborou um plano que, com a colaboração de um capanga, arrastaria a Céu para um enredo ainda mais dramático.
(Continua na próxima semana)

quinta-feira, dezembro 12, 2019

A Gala do CFL

No mês de Março de um dos primeiros anos da década de sessenta, foram chamados ao gabinete do diretor do CFL os seguintes alunos com o objetivo de colaborarem na organização da primeira gala do colégio: Lena Borda d’Água, Céu Vieira, Maria Emília, Luís Cúrdia, Amândio Lopes, Rui Leitão e Jó rodrigues.
Depois de lhes apelar aos mais profundos, pedagógicos e patrióticos sentimentos, ficou combinado que as duas primeiras se encarregariam de confecionar os bolos para a gala, a Maria Emília forneceria, abateria e depenaria 50 frangos, o Luís Cúrdia traria 250 litros de vinho da taberna do Manel Raul bem como uma centena de pirolitos e laranjadas, o Amândio traria 50 kilos de batatas cortadas em palitos para fritar, o Rui Leitão encarregar-se-ia de distribuir pastilhas Reny para apoiar a digestão e o Jó Rodrigues assaria os frangos.
A Lena e a Céu deveriam também servir às mesas vestidas de coelhinhas e de patins.
Conseguido o acordo dos colaboradores, o diretor produziu imediatamente intensa ação de propaganda relativamente à gala. Só existiriam vinte mesas para os familiares dos alunos à razão de 300 euros por mesa (1)… Desta maneira, conseguia-se estabelecer um apertado filtro à entrada já que Ourém era habitada por gente tesa, rude, sem princípios, capaz das piores zaragatas…
Algumas dessas mesas ficaram de imediato reservadas para o Presidente da Câmara e sua comitiva, para o diretor do colégio e para o pároco da Igreja.
Ficou ainda clara a proibição de o João Passarinho entrar no espaço reservado à gala devido ao seu comportamento desnaturado.
A gala contaria ainda com um baile abrilhantado por um conjunto da região e previa-se uma curta atuação de quatro elementos que viriam a integrar o quarteto 1111.
***

E o dia da gala chegou.
Os participantes foram estacionando os belos automóveis ao longo da estrada que servia o colégio. As damas da elite de Ourém, muito perfumadas, resplandeciam nos seus vestidos de tecidos comprados para o efeito na loja do sr. Pina e elaborados pelas melhores modistas da terra. O senhor prior também não faltou para abençoar aquelas almas tão gentis. As meninas, oh!, aquelas flores… como vinham bem vestidas para o baile…
A gala iniciou-se com um discurso do Dr. Armando:
- Esta é a primeira gala do nosso Colégio Fernão Lopes e espero que não seja a última. Com ela queremos cimentar a união entre pais, alunos e professores num ambiente de mútuo respeito. O nosso programa para hoje é longo. Um antigo aluno proferirá a oração de sapiência. Alguns dos melhores alunos vão ler alguns poemas que mostram a qualidade das leituras que temos no nosso espaço de ensino. Depois, veremos uma breve atuação de quatro rapazes que virão a formar o quarteto 1111 que, daqui a algum tempo, lançará a Lenda de El-rei D. Sebastião e a Balada para Dona Dinis. O José Cid ainda não tem o nível do nosso Fernão Lopes, mas garanto que chegará longe e que em 2019 lhe será atribuído um prémio musical.
Terminado o discurso do diretor, em nome dos antigos alunos do Colégio, a Florência proferiu uma oração de sapiência na qual enaltecia o papel do grande cronista na divulgação da História do nosso país. Terminou pedindo ao Ministro da Câmara (o Presidente) que nunca deixasse definhar aquele espaço para ali poderem voltar com prazer todos o que o tinham frequentado.
O Presidente da Câmara agradeceu as palavras da antiga aluna, acenou afirmativamente ao pedido, garantindo que a autarquia tudo faria para manter aquele espaço nas melhores condições. Em seguida, propôs um brinde, augurando um excelente futuro aos alunos a servir a Pátria na Guerra Colonial e, aos que escapassem, a trabalhar para engrandecer o país. Todos de pé, de copo na mão bem cheio, seguiram as suas palavras:
- Vai acima, vai abaixo, pela goela abaixo…
Em seguida, três alunos foram ler poemas, originando significativos aplausos. Eram os três Luíses nascidos nas imediações da Rua de Castela ali a trazerem os versos de Pessoa e António Gedeão(2).


Finalmente, o futuro quarteto 1111 interpretou três canções que entusiasmaram novos e velhos:
João Nada
Entretanto, o belo cheirinho do frango assado já entrava pela sala improvisada no ginásio. Lá fora, o Jó Rodrigues rogava pragas àquela gente toda e ao trabalho que lhe tinha calhado e resolveu participar na festa carregando a assadura com piri-piri. E não tardou muito, procedeu-se ao início da refeição. As meninas vinham de patins trazer frangos e batata frita às mesas. Comia-se e bebia-se a valer e, com o tempero do frango, bebia-se ainda mais… Tudo parecia correr às mil maravilhas.
O João não estava nada contente e, quando uma das meninas passou à frente da porta onde se escondia e como já estavam todos com os copos e não davam por ele, rasteirou-a. A pobre caiu em cima da mesa onde estava o diretor do colégio e família e o frango caiu na cabeça do Presidente da Câmara enquanto uma asa acertava em cheio numa bochecha da Aninhas…
A patinadora foi de imediato socorrida. Era a Céu. Coitadinha, estava cheia de nódoas negras, mas foi amparada por vários rapazes gentis e, em breve, recuperou a boa disposição.
Confusão ultrapassada, foi servida a sobremesa. Um belo bolo de ovos feito pela Lena, coberto de chantilly. O problema é que, mal aproximaram o nariz do bolo, as pessoas fizeram um esgar de desconfiança. Levantou-se o dr. Laranjeira:
- É curioso, este bolo está muito bonito, mas cheira mal…
A Lena ficou logo nervosa.
- O quê?
- Cheira a ovos podres…
Mal sabiam que o malvado do João um dia antes tinha trocado os ovos que a Lena tinha comprado, ovos fresquinhos da melhor criadora de Ourém, por ovos podres que já guardava há vários meses em casa.
- Mas não pode ser… Kakakakakakaka – dizia a pobre Lena.
Contudo, teve de render-se à evidência e, em total descontrolo, pegou no bolo e espetou com ele na cabeça do padre.
- A culpa foi sua que me recomendou a Eulália dos ovos…
Foi o sinal que faltava. De festa, a gala transformou-se em guerra com todos a despejarem os bolos na cabeça uns dos outros. Verdadeira batalha campal com as damas a fugirem para não lhes estragarem os fatos elaborados exclusivamente para aquele efeito. E, cá fora, o João e o Jó gozavam todo aquele espetáculo deprimente enquanto se deliciavam com os frangos que tinham escapado à gula dos participantes.
Escusado será dizer que nunca mais houve galas no CFL.


(1) 60 contos na moeda da altura.
(2) O Luís Filipe, o Luís Manuel e o Luís Nuno. Três Luíses que nasceram com uns oito dias de diferença uns dos outros.

quinta-feira, dezembro 05, 2019

Vingança servida em aula de Francês

Mas o João não gostou da humilhação que sofrera com a história do clister. A prestação da futura enfermeira sempre lhe pareceu muito suspeita e procurou arranjar uma maneira de se vingar.
A pequena tinha a sua carteira mesmo em frente à secretária do professor. Não é de admirar. Era uma excelente aluna e estava sempre atenta a tudo o que os professores explicavam e não explicavam na aula.
Aos poucos, a sua mente tenebrosa ia formulando um plano.
- Vais ver, malvada, vais ver… - murmurava baixinho enquanto esfregava as mãos.
E, se bem o pensou, melhor o fez…
Um dia, a sua tia, a Dra. Maria Júlia, chegou à sala de aula com o objetivo de transmitir mais umas noções de francês aos seus alunos. Como sempre, pousou a sua mala em cima da secretária e começou a abri-la para tirar o material de apoio.
- É curioso – comentou – esta mala tem qualquer coisa de estranho…
De repente, deu um grito e retirou a mão com toda a força. Logo atrás disso, uma série de pequenos e horrorosos bichos começou a saltar, saindo de dentro da mala.
- Que horror! São ratos… - gritou a futura enfermeira levando as mãos à boca enquanto um rato lhe saltava para o pescoço.
E foi o pânico na sala de aula. Os ratos a correrem para um lado, os alunos a correrem para outro, a Dra. Maria Júlia a subir para cima da secretária e a levantar os pés perante algum bicho que se tivesse atrasado na fuga, numa dança muito estranha que a sua avantajada compleição nunca deixaria pensar possível.
O mais engraçado é que, como ninguém abria a porta, todos ficavam dentro da sala a fugirem uns dos outros. Os alunos fugiam dos ratos, os ratos fugiam dos alunos e todos cada vez mais assustados e a gritar. Por fim, perante aquele estardalhaço, o sr. Nunes abriu a porta e os bicharocos fugiram a sete pés para o quintal. E a paz voltou à sala de aula…
Algumas meninas choravam baixinho. A professora limpava o rosto com um lenço e pediu:
- Por favor, senhor Nunes, traga-me um copo de água…
Depois de saciada, olhou para a turma e afirmou:
- Não percebo o que se passou. Como é possível a minha mala vir cheia com esses bichos horrorosos?
A menina do Castelo, essa, já tinha algum juízo formulado. O seu olhar ia da professora para a mala e da mala para a professora. Nesse momento, à porta da sala de aula apareceu o João.
- Olá! Tiveram problemas? Ouvi tanto ruído aqui ao lado…
Foi então que a professora percebeu tudo:

- João, que andaste a fazer esta manhã com a minha mala?

O João olhou desdenhosamente e afastou-se no seu andar de gato importante...


E, mais uma vez, foi expulso de um colégio…

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