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sexta-feira, dezembro 20, 2019

Oração sobre a desigualdade social

Ourém, lá para 1954/55. 
Na casa do Largo de Castela, o frio já se fazia sentir, convidando a ficar à braseira, ouvindo o ronronar da gatinha bem perto. Sentia-se o aproximar do grande dia. E lá veio aquela voz que nunca me deixa.
- Á, mê menino, o que é que tu vais pedir ao pai Natal?
- Uma bicicleta.
- Não acredites que ele ta traga, não cabe na nossa chaminé. Não vês que é excessivamente larga?
- O Alvega tem lá bicicletas que eu já vi e cabem perfeitamente – rematei, sem perceber o sentido de “não cabe na nossa chaminé”.
Chegou a grande noite. Fui deitar-me excitado, desejando que a manhã chegasse rapidamente para ver se a almejada bicicleta chegava.
Já me estava a ver... subir a rua de Castela, descer direito à Avenida, percorrê-la em grande velocidade e fazer grande arraial frente ao Avenida. Depois, havia a polícia... “e se eles me chateiam por não ter carta?” (os polícias da minha juventude eram tramados, especialmente o Cunha que nos roubava as bolas de futebol todas...).
Voltas e voltas na cama à espera da manhã...
E o grande momento chegou. Lá desci ao rés-do-chão e fui direito à chaminé.
Moedas de chocolate, um jogo, um avião com elástico, mas, sinais da bicicleta, nada. Afinal, era verdade: a nossa chaminé era demasiado pequena para ela lá caber. Devia dar-me por feliz, aliás aquele avião que levantava voo com a ajuda de um elástico tinha a sua piada.
Mas passei uns tempos com algum ressentimento (fico sempre bastante ressentido quando não me fazem as vontades ou quando me enganam e eu conto com as coisas e elas não surgem). Porque é que uns tinham a bicicleta e outros não? Porque é que ainda éramos tão pequenos, ainda nada tínhamos produzido e já éramos em tudo tão desiguais?

quinta-feira, outubro 10, 2019

Adeus ao Largo de Castela


Claro que um dia aconteceu a inevitável mudança. Não sei o que deu na cabeça aos meus pais, resolveram mudar-se para uma casa hoje sepultada pela EPO.
Na altura, não me apercebi das terríveis consequências nem imaginava que Ourém poderia vir a cair sob o domínio da cambada de brutos, pouco civilizada e sem amor à terra, que a tem vindo a destruir.
A verdade é que nunca mais vi algumas das simpáticas pessoas que lá conheci. Mariana, a lavadeira, que vivia numa casa junto ao Guerra dos leitões, o Nicolau, a Rosalina, o Peru, o Queimado, o Boas-falas...
Ainda voltei à casa do Largo de Castela. Ela foi habitada, após obras de renovação, pela Aurorita e pelo João do Maquitan e um dia convidaram-me para lá ir ver a magnífica colecção de Búfalos e Bisontes que ele tinha. Claro que não me fiz rogado e actualizei as minhas recordações e as minhas leituras.
Depois, não houve mais qualquer visita.
So long é uma expressão que exprime este adeus, um pouco doloroso e que dura há tanto tempo.
Alguns anos depois, Cohen trouxe-o na forma de canção e numa pessoa de nome Marianne...

Nesses falaremos mais logo.



quinta-feira, outubro 03, 2019

O caso do boomerang desgovernado

Havia inúmeros arames espalhados pelo Largo de Castela. Teriam talvez uns 20cm, eram relativamente novos. Eu e o Mina Guta vimos aquilo e tivemos de imediato uma luminosa ideia.
- Vamos simular boomerangs...
Agarrámos alguns arames e demos-lhes um ligeiro torcegão ao meio. Depois, era só pegar numa ponta e enviar o mais alto possível. De acordo com a nossa destreza, o arame cairia ou não praticamente no mesmo ponto de onde tinha sido enviado.
A verdade é que eles subiam com uma tal força, rodando sobre si mesmo que o espectáculo tinha alguma graça. Eu tinha o braço mais longo, o Mina Guta tinha mais fibra de maneira que as alturas a que chegávamos conseguiam equilibrar-se.
Mas eis que algo corre mal...
Na tentativa de enviar o mais alto possível, um arame não subiu perpendicularmente, mas com uma certa inclinação. O Largo de Castela era atravessado por fios de electricidade entre a casa da Aurorita e a do Souto. O arame foi por ali fora e encontrou a toda a velocidade os fios. Enrolou-se com eles, fê-los bater uns nos outros, provocou curto-circuitos. O espectáculo tornou-se deslumbrante com os fios em estranho bailado e faíscas a jorrarem por todo o lado. Depois, tudo cessou, os fios quebraram-se e as pontas caíram no chão ficando suspensos a partir dos pontos de apoio.
- Estamos tramados...
- O melhor é irmos para casa...
Algum tempo depois a brigada de avarias veio e resolveu tudo, mas eu, nessa noite, não estava muito tranquilo e tive dificuldade em adormecer.

...

Alguém bateu à porta.
A minha mãe foi abrir. Era o polícia Cunha.
- O Luís está?
- Está sim...
- Era para fazer o favor de me acompanhar à esquadra...
Comecei a não ficar muito tranquilo. Vesti-me e saí de casa para o acompanhar. Na rua, já estava o Mina Guta com outro polícia. A caminhada até à esquadra foi marcante. As pessoas a verem aqueles dois gabirus e a comentar o que teriam feito...
Passámos frente ao Avenida, depois frente aos correios e, pouco depois, estávamos na esquadra. Fizeram-nos sentar à frente de uma secretária e um deles afirmou:
- Vocês ontem andaram a brincar com arames lá no Largo. Os fios estoiraram. Alguém vos viu e nos disse que podem ter sido os responsáveis. É verdade?.
- Não, senhor guarda – respondi.
O Mina Guta confirmou...
Ali estivémos um bom bocado até o polícia ver que nada conseguia tirar de nós, que não tinha ninguém a quem imputar o crime e a quem fazer pagar as despesas.
Eles retiraram-se e estiveram em conferência um bocado. Eu e o Mina Guta já estávamos combinados: negar até ao fim.
Mas eles separaram-nos e não permitiram a continuação da nossa comunicação. Fui com o polícia Cunha para um gabinete e o Mina Guta foi com o outro. Mandou-me sentar e começou a andar à minha frente dando pequenos toques na perna com o cacetete...
- Luís, és muito bom rapaz, mas temos de tirar isto a limpo. Foram vocês ou não?
- Não, senhor Cunha...
- Tenho uma proposta para te fazer. Se tu confessares e o teu amigo não o fizer, vais em liberdade e ele passa três semanas no calabouço para aprender a não fazer diabruras e a assumi-las. Mas se tu não confessares e ele o fizer, é ele quem vai em liberdade e tu quem cá passa as três semanas... Confessas?
- Não, senhor polícia, não fomos nós e tenho a certeza que o Augusto vai dizer o mesmo...
- Mas olha que com os testemunhos que temos, se nenhum confessar, arriscam-se a cá passar os dois duas semanas...
- E se confessarmos ambos?...
- Só passarão uma semana que é o castigo por serem tão descuidados... e terão sempre que pagar as despesas...
Estava entalado. Que havia de fazer? Colaborar? Negar até ao fim?... a vida traz-nos cada dilema. E qual seria a atitude do Mina Guta? Se eu confessasse e ele não, ficava lá três semanas...
Pensei, pensei, pensei...
Comecei a sentir suores frios...

...

Acordei. Estava encharcado em suor.
Mas estava na casa do Largo de Castela. Na rádio, ouvia estranha notícia: “Von Neumman acaba de anunciar uma nova teoria: a teoria dos jogos...”.
Assomei à janela. O velho Dodge do meu pai ainda estava à porta. Os fios já estavam reparados, parecia que tudo corria bem, não havia sinal de polícia.
O maquitan repousava frente à casa da Aurorita. Do outro lado, o senhor Zé Maria, com uma pá, introduzia uma massa branca dentro do forno. O Guerra passava com pedaços de leitão bem embalados. Lá em baixo, a camioneta do Isidro era cheia com jaulas para levar as galinhas ao mercado.
Pela rua de Castela, vinham a Lelita e a Rosalina em alegre cavaqueira. E lá no largo, o Boas Falas levava a mão ao chapéu e cumprimentava:
- Boas falas...
O Largo de Castela estava cheio de vida. Como era bom acordar naquele ambiente. Hoje já não consigo acordar assim, perdi esse dom, converti-me numa espécie de prisioneiro do tempo... 


(primeira publicação em 01/02/2006)

quarta-feira, setembro 25, 2019

O caso das lâmpadas fundidas

Há muitos anos, em Ourém, a substituição das lâmpadas fundidas era efectuada regularmente.
Durante o dia, as luzes eram acesas, vinha o funcionário com uma escada e uma série de lâmpadas novas, examinava o que se passava em determinado local e actuava de acordo com o resultado do exame.
Com seis ou sete anos, embevecido, eu contemplava, no Largo de Castela, essa operação.
Para além da novidade da luz acesa durante o dia, o que gostava mais era aquela parte em que havia efectivamente substituição e eu podia guardar a maravilhosa caixinha, julgo que vermelha, em que vinha lâmpada nova.
Um dia, o deslumbramento foi de tal ordem que segui o incansável trabalhador na mira de me apropriar de todas as caixas que pudesse.
Ele subiu a rua de Castela, desceu para a Avenida, passou à Teófilo Braga, fez ligeira paragem no Manuel Raul, desceu para a loja do sr. Paisana...
De quando em quando, lá subia à escada para substituir a lâmpada e oferecer-me a magnífica caixa. 
Para aumentar o ritmo e obter mais caixas, eu já pensava em, da próxima vez, atirar previamente umas pedras às lâmpadas.
Já tinha umas dez caixas em meu poder quando ouvi o sino da igreja. Sete da tarde. Tinha saído de casa pelas duas horas e ninguém sabia onde eu estava. Ai a monumental sova que aí vem.
Iniciei os procedimentos de regresso, cinco minutos depois estava em casa. Mas Ourém era uma paz. Afinal apenas houve um ralhete por não ter lanchado e ficou tudo bem.
Já não me lembro quando deixei de seguir o processo de mudança de lâmpadas. Foram muitas as pedras com que contribuí para aumentar a produtividade do funcionário autárquico... Mas, a avaliar pela escuridão em algumas ruas de Ourém, parece que anda por lá alguém com a ilusão que o homenzinho ainda voltará para lhe oferecer as caixas e que o seu ritmo pode ser acelerado nos moldes que eu idealizei.

sexta-feira, setembro 13, 2019

A tenebrosa visita do Dr. Preto numa tarde da Feira Nova

Há muitos anos, a quinta-feira, era, talvez, o melhor dia de festa da Feira Nova que se realizava no enorme espaço frente ao local onde agora se situa a Câmara Municipal.
Mas houve uma vez que não o pude desfrutar.
Vivia ainda na casa do Largo de Castela, uma febre malvada apareceu e não pude sair de casa. Ao longe, ouvia a música proveniente do carrossel e dos automóveis. O cheirinho a castanhas chegou a invadir a minha casa. O troar daquela carruagem que seguia por uma linha para testar músculo, por vezes, fazia-se ouvir.
Mas eu estava ali sem poder ir ver uma das coisas que mais adorava.
Para ajudar à desgraça, a família lembrou-se de chamar o médico. Lá veio o Dr. Preto que fez o exame necessário.
- Arranje-me água fervida.
Assim mesmo, à veterinário, serviço completo…. 
O que é que ele estaria para fazer? Vejo-o sacar de um estojo com seringas ameaçadoras.
Lá longe a festa continuava, mas eu quase já não a ouvia pregado naquele filme de terror. Ele fez a preparação bem à minha frente, para eu aprender a ser homem, sem receio de nada. E lá veio o suplício.
Continuei na cama mais uns dias e tudo passou.
Quando me pude levantar, fui revisitar o lugar da feira. Já todos tinham ido embora. Junto à Câmara e ao depósito, tudo era calmaria, silêncio.
Depois, tudo acabou, em nome do progresso…

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Rei na cidade menor



Na pequena aldeia, as pessoas tinham uma vida humilde, mas reviam-se no seu espaço e na sua convivência que para elas se tornou uma referência. Nenhum dos que por lá passaram a esqueceu.
Um dia, a cidade onde era a pequena aldeia foi tomada pelo rei laranja. E logo a descaracterização começou. Formidável prédio que não respeitava as mais elementares normas de urbanismo avançou sobre o largo que era o centro da pequena aldeia e a todos sufocou, escureceu e humidificou a existência. Alguns reagiram. Mas a chegada de tão indesejado vizinho logo fez lembrar a muitos os benefícios da especulação.
O que era emanação de tribunal deixou de se cumprir. O rei laranja em breve fez os seus cortesãos elaborar e aprovar normas em que o ilegal correspondia ao que lá estava há décadas. Apreciem este trecho retirado do Crónicas recentes da cidade menor: “corrigir agora o erro como deve ser não é gastar recursos públicos a demolir um prédio que está no sítio certo e com a altura certa, mas sim retirar as casas que estão no sítio errado...”.
Acabou-se a esperança. O rei laranja virou o bico ao prego. O formidável mamarracho não virá abaixo, não recuará para os limites onde era o Albergue da Dona Aurora. A aldeia, essa, será certamente arrasada.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Marca #7: Largo de Castela

Muitos dizem: "É pá, Luís, o Largo de Castela é lá para cima, para a zona do cemitério". Pode ser, mas essa é uma designação meramente formal que nada tem a ver com a realidade histórica e estórica. Perguntem ao pessoal do meu tempo.
Refiro-me ao Largo de Castela considerando aquele espaço, hoje mui estreitado, que fica na confluência da Rua da Olaria com a Rua de Castela. Espaço de mil brincadeiras, jogos de futebol, pião, berlinde... espaço onde terão decorrido muitas das nossas estórias.
Hoje, o Largo de Castela está condenado à degradação e destruição, fruto da selvática política dos nossos autarcas. Mas há memória dele - alguma até em publicações que o OUREM apadrinhou - e, por isso, enquanto este blog não desaparecer, e pode ser que dure muito mesmo depois do seguro fim da sua manutenção, ela (a memória) com certeza manter-se-á.

quarta-feira, maio 31, 2006

Esquema geral da aldeia de Castela

Isto pode ter erros, não está à escala, mas não resisti a elaborá-lo num momento em que ainda lamentamos a destruição do depósito. Facilmente descobrem onde era o centro da vida em Ourém, complementado exemplarmente pelo Fernão Lopes, pelas escolas do Roque e da Dona Iria, pelo Cinema, pela Feira do mês, Pelo Lagar do tenente, pelo Central e pelo Avenida. Admirem a riqueza de profissões ali existente.
Pois, é saudosista... porque a camarilha não merece a nossa estima.



1 – Casa do largo de Castela
2 – Albergue da Dona Aurora
3 – Mansão do senhor José Maria
4 – Mélita, Zeca, Chico Zé
5 – Peru
6 – Ás do pedal
7 – Anexo do albergue: quintal que guardava burros, mulas e cavalos em dias de feira
8 – Isidro das galinhas
9 – Olaria do Patica
10 – Carvoeira
11 – Alfaiate (Torrejano) e, mais tarde, sapateiro que tinha a mania que era manipulador de calçado
12 – Lelita Chouriça (futura grande cantadeira oureana)
13 – Dona Branca
14 – Costureira (Rosalina)
15 – Manuel Maria
16 – Afonso das Botijas
17 – Marceneiro
18 – Chapeleiro que saudava com um original “Boas Falas...”
19 – Ezequiel Casimiro
20 – Taxista (Cabeça Aguda)
21 – Ferraz, o Senhor dos Latões
22 – Chafariz
23 – Nicolau
24 –
25 – Toná
26 – Guerra dos leitões
27 – Septenta, grande guarda-redes do CAO
28 – Natureza
29 – Orlando
30 – Padaria (Júlia Padeira)
31 – Atelier do Ezequiel Casimiro: fabrico de jaulas
32 – Jácome, um homem Seguro
33 – A espanhola (Zinha e Rafael)
34 – Picalimas
35 – Casa virada ao sol poente ( Luis Nuno e Avião)
36 – Funileiro (Adelino)
37 – Quingosta
38 – Largo de Castela

terça-feira, maio 30, 2006

A olaria do Patica


Será que, após tanta deceção, ainda é possível desfrutar algum prazer por viver ou visitar esta terra?
Ourém não é nada do que foi. As pessoas que a dominam foram moldadas em condições de profunda ignorância relativamente à vivência no meu tempo e os seus actos manifestam uma doentia raiva ao que sentem que a caracterizava.
Foram moldadas…
Já repararam na identidade dos membros da camarilha*? Tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão unidos no objetivo de destruir a terra…
Noutro tempo, naquela rua que vai da Avenida para a casa do Largo de Castela, junto ao Isidro das galinhas, do outro lado, mas mais abaixo da casa do Luís Nuno, também houve em Ourém alguém que moldava…
Não moldava a consciência, o comportamento, mas o barro. Era delicioso ver aquelas peças saírem da conjugação das suas mãos com a matéria prima e o instrumento que transmitia àquelas um movimento circular, mais abaixo, mais acima, de acordo com a pressão. Mais tarde, beber água saída daqueles cântaros, ênfusas, era delicioso.
O artista era o Patica, uma das pessoas simples de Ourém. Decerto não teve qualquer responsabilidade nos moldes transmitidos à doentia e destruidora mentalidade dos (ir)responsáveis autárquicos.



* De acordo com o dicionário do OUREM, camarilha significa aqui “os que dominam, em conjugação de interesses contra a história da nossa terra, a Câmara".

quarta-feira, abril 05, 2006

O caso do gato cirúrgico


Era uma manhã primaveril de Ourém quase há uns cinquenta anos. Tinha estado no Central a assistir ao desembrulhar das novidades o que me trouxe irresistível atracção: um álbum do Cavaleiro Andante com uma aventura da cadela Bessy.
Não sei se os meus amigos recordam o fascínio que este canino trazia.
Naquelas aventuras, ela dominava os malfeitores, comandava os rebanhos, mordia os tornozelos de quem a queria atacar, dava monumental salto para cima de quem não tivesse uma atitude correcta com o seu dono ou pedia socorro no rancho mais próximo quando alguém ficava em situação difícil.
Isto também era visível na televisão, onde, curiosamente, não se chamava Bessy, mas Lassy. Não importa.
Vinha eu do Central com o álbum na mão...
Subi as escadinhas junto ao Mariano, virei à direita, avancei e, de repente, dei com eles...
O Licínio e o TóLiz eram duros. Passar no seu território era quase uma aventura do tipo atravessar território apache. Por vezes, cobravam direitos de passagem. Por isso, pus-me logo em guarda à sua aproximação...
- O que é que levas aí? Mostra cá.
É o mostras. Num instante, avaliei a situação e corri para o outro lado da rua. Apanhados de surpresa, eles não reagiram logo, mas, pouco depois, perseguiram-me. Eu corri na direcção da loja do Adelino, flecti para a esquerda e fui na direcção do largo de Castela. Um súbito obstáculo surgiu. No meio da rua, junto à casa do Luís Nuno, estava estacionada uma camioneta do Sr. Isidro, carregada de jaulas com galinhas, frangos, galos, patos e o espaço para passar não era muito largo.
Não abrandei. Corri como pude ao lado da camioneta que, dos lados, tinha daqueles elementos metálicos pontiagudos onde as cordas que seguravam as jaulas se fixavam. De repente senti o braço preso e a camisa a ser rasgada. O corpo foi projectado para a frente e para a direita, aproximando-se do chão. Bati com a cara em cheio mais à frente na camioneta.
Mesmo assim, não desisti. Livrei-me da camioneta e continuei a corrida para o Largo de Castela, enquanto eles desistiam vendo a minha situação. Ao mesmo tempo, a minha camisa ia-se tingindo de vermelho.
Ao chegar a casa, com o álbum na mão, esfarrapado, a minha mãe ficou aterrorizada.
- Ó Luís, já viste como tu vens, o que é que te fizeram?
Mas eu não consegui falar. A pancada tinha sido forte, sentia algo estranho sobre os dentes à frente que estavam doridos.
- Mas tu estás a deitar sangue, tens o lábio aberto...
A minha mãe percebeu do que se tratava.
- Tens de ir para o hospital.
- Não - murmurei como pude, com a mão sobre a boca e já a pensar nas torturas que aí vinham - isto passa...
Mas não passou e tive mesmo de ir para o hospital.
Lá, o enfermeiro Cruz examinou-me cuidadosamente, estancou a hemorragia, desinfectou a zona e, pouco depois disse:
- O espigão de ferro abriu-te o lábio. Não vou coser-te, mas tens de levar um gato ou dois...
Fiquei admirado, mas a ideia não me desagradou de todo, já que sempre tive alguma simpatia pelos felinos.
Como devem estar recordados, um gato era uma espécis de agrafo mais largo.
Ele espetou-me dois gatos sobre o lábio a unir os dois pedaços em que se tinha dividido. Imaginem bem, as garras de um felino bem espetadas sobre a vossa boca. Mas confesso que não custou muito. Tudo tratado, tapou e lá voltei para casa.
Não podia falar nem comer com grande facilidade, mas a minha aventura foi estória para os amigos no colégio.
Já mais calmo, tratado, pude finalmente descansar de tão longa caminhada e sentar-me no meu recanto a ler a magnífica aventura da Bessy...

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

O último suspiro do ciclope

Fui pelos campos e, a certa altura, encontrei umas varas de tom castanho esverdeado. Ena! Que descoberta! Eram perfeitas para jogar à espada ou levar o arco ou simular o cajado de peregrino.
Com uma pequena incisão vi que era fácil dar-lhes novo aspeto, pois aquele película superior teria talvez um milímetro e saia em tiras com um leve puxar.
Trouxe-as para casa e passei algumas horas a descascá-las. Ficaram lindas, clarinhas, ainda um pouco esverdeadas. Quando a minha mãe viu aquele arraial, disse logo:
- Vais levar tudo isso daqui para fora, para o lixo...
O quê? A minha obra ia para o lixo?
Mas em breve tive uma ideia salvadora. A casa da Vizinha(1) tinha um pequeno quintal a que a porta do lado direito, sempre aberta, dava acesso. Podia guardar lá o meu tesouro. Juntei o molho de varas e transportei-o para lá.
Os dias foram passando. Regularmente, eu ia ver a minha obra e apreciar como as varas iam ficando cada vez mais secas e claras. Estavam quase perfeitas para ser utilizadas...
Até que uma manhã saí de casa e vi dois vultos conhecidos junto à casa da Vizinha. O Fernando e o João, netos da Júlia padeira. E o mais insólito é que transportavam com eles as varas. As minhas varas!...
Desatei a correr que nem um doido na direção deles.
- Isso é meu. Vão pô-lo onde tiraram...
E tirei-lhes algumas das mãos para as repor no seu sítio. Mas não consegui reaver tudo o que me pertencia, eles não estavam pelos ajustes apesar do arraial que eu fazia. Até que a mãe deles, atraída pelo ruído, veio ter connosco frente à casa da Aurorita.
- Que é que se passa?
- Essas varas são minhas. Façam favor de mas dar...
- Chegam para todos brincar...
- São minhas, quero-as de volta...
Irritei-a tanta que ela pegou em duas ou três varas e quebrou-as sobre a perna, atirando-as desprezivelmente para o chão.
- Vê o que eu faço às tuas varas…
As minhas varas... reduzidas a pedaços, espalhados pelo chão.
Impelido por formidável impulso, agarrei num pedaço e atirei-lho acima, acertando-lhe em cheio na testa de onde, qual ciclope ferido, o sangue jorrou imediatamente. O dia na rua acabou por ali...
Em casa, aquela voz protetora, que nunca esqueço, ouvidas as minhas razões, deixou o apelo:
- Não voltes a fazer aquilo, podem-te prender ou mandar para uma casa de correção...
Curiosamente, nesse momento, na rádio, ouvia-se aquela canção:

Notas:
(1) Vizinha - designação para uma senhora deliciosa que vivia numa casa junto ao Picalimas, casa essa com vista para a varanda do Luís Nuno. Depois mudou para o Bairro Dr. Trigo de Negreiros...

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

O dilema do prisioneiro

Havia inúmeros arames espalhados pelo Largo de Castela. Teriam talvez uns 20cm, eram relativamente novos. Eu e o Mina Guta vimos aquilo e tivemos de imediato uma luminosa ideia.
- Vamos simular boomerangs...
Agarrámos alguns arames e demos-lhes um ligeiro torcegão ao meio. Depois, era só pegar numa ponta e enviar o mais alto possível. De acordo com a nossa destreza, o arame cairia ou não praticamente no mesmo ponto de onde tinha sido enviado.
A verdade é que eles subiam com uma tal força, rodando sobre si mesmo que o espectáculo tinha alguma graça. Eu tinha o braço mais longo, o Mina Guta tinha mais fibra de maneira que as alturas a que chegávamos conseguiam equilibrar-se.
Mas eis que algo corre mal...
Na tentativa de enviar o mais alto possível, um arame não subiu perpendicularmente, mas com uma certa inclinação. O Largo de Castela era atravessado por fios de electricidade entre a casa da Aurorita e a do Souto. O arame foi por ali fora e encontrou a toda a velocidade os fios. Enrolou-se com eles, fê-los bater uns nos outros, provocou curto-circuitos. O espectáculo tornou-se deslumbrante com os fios em estranho bailado e faíscas a jorrarem por todo o lado. Depois, tudo cessou, os fios quebraram-se e as pontas caíram no chão ficando suspensos a partir dos pontos de apoio.
- Estamos tramados...
- O melhor é irmos para casa...
Algum tempo depois a brigada de avarias veio e resolveu tudo, mas eu, nessa noite, não estava muito tranquilo e tive dificuldade em adormecer.
...
Alguém bateu à porta.
A minha mãe foi abrir. Era o polícia Cunha.
- O Luís está?
- Está sim...
- Era para fazer o favor de me acompanhar à esquadra...
Comecei a não ficar muito tranquilo. Vesti-me e saí de casa para o acompanhar. Na rua, já estava o Mina Guta com outro polícia. A caminhada até à esquadra foi marcante. As pessoas a verem aqueles dois gabirus e a comentar o que teriam feito...
Passámos frente ao Avenida, depois frente aos correios e, pouco depois, estávamos na esquadra. Fizeram-nos sentar à frente de uma secretária e um deles afirmou:
- Vocês ontem andaram a brincar com arames lá no Largo. Os fios estoiraram. Alguém vos viu e nos disse que podem ter sido os responsáveis. É verdade?.
- Não, senhor guarda – respondi.
O Mina Guta confirmou...
Ali estivémos um bom bocado até o polícia ver que nada conseguia tirar de nós, que não tinha ninguém a quem imputar o crime e a quem fazer pagar as despesas.
Eles retiraram-se e estiveram em conferência um bocado. Eu e o Mina Guta já estávamos combinados: negar até ao fim.
Mas eles separaram-nos e não permitiram a continuação da nossa comunicação. Fui com o polícia Cunha para um gabinete e o Mina Guta foi com o outro. Mandou-me sentar e começou a andar à minha frente dando pequenos toques na perna com o cacetete...
- Luís, és muito bom rapaz, mas temos de tirar isto a limpo. Foram vocês ou não?
- Não, senhor Cunha...
- Tenho uma proposta para te fazer. Se tu confessares e o teu amigo não o fizer, vais em liberdade e ele passa três semanas no calabouço para aprender a não fazer diabruras e a assumi-las. Mas se tu não confessares e ele o fizer, é ele quem vai em liberdade e tu quem cá passa as três semanas... Confessas?
- Não, senhor polícia, não fomos nós e tenho a certeza que o Augusto vai dizer o mesmo...
- Mas olha que com os testemunhos que temos, se nenhum confessar, arriscam-se a cá passar os dois duas semanas...
- E se confessarmos ambos?...
- Só passarão uma semana que é o castigo por serem tão descuidados... e terão sempre que pagar as despesas...
Estava entalado. Que havia de fazer? Colaborar? Negar até ao fim?... a vida traz-nos cada dilema. E qual seria a atitude do Mina Guta? Se eu confessasse e ele não, ficava lá três semanas...
Pensei, pensei, pensei...
Comecei a sentir suores frios...
...
Acordei. Estava encharcado em suor.
Mas estava na casa do Largo de Castela. Na rádio, ouvia estranha notícia: “Von Neumman acaba de anunciar uma nova teoria: a teoria dos jogos...”.
Assomei à janela. O Dodge do meu pai ainda estava à porta. Os fios já estavam reparados, parecia que tudo corria bem, não havia sinal de polícia.
O maquitan repousava frente à casa da Aurorita. Do outro lado, o senhor Zé Maria, com uma pá, introduzia uma massa branca dentro do forno. O Guerra passava com pedaços de leitão bem embalados. Lá em baixo, a camioneta do Isidro era cheia com jaulas para levar as galinhas ao mercado.
Pela rua de Castela, vinham a Lelita e a Rosalina em alegre cavaqueira. E lá no largo, o Boas Falas levava a mão ao chapéu e cumprimentava:
- Boas falas...
O Largo de Castela estava cheio de vida. Como era bom acordar naquele ambiente. Hoje já não consigo acordar assim, perdi esse dom, converti-me numa espécie de prisioneiro do tempo...

quinta-feira, setembro 08, 2005

Onde estará





O cãozito vinha todo contente dos lados da casa do Ferraz. Parecia uma gazela a saltitar.
Entra no Largo de Castela e fita-nos desafiador enquanto jogávamos futebol. Senta-se, levanta a perna e procura parasitas. Mais tranquilo corre atrás da bola e até parece um excelente esquerdino.
De repente, vindos não sei de onde, surgem quatro homens com redes às costas. Dispõem-se rapidamente à volta do largo e aproximam-se do bicho.
Ele vê-os e percebe logo a sua triste sorte. Ó gente malvada, sem piedade…
Tenta fugir pela rua de Castela, mas um dá um passo em frente e tapa-lhe o caminho. Volta para trás, mas os outros avançaram e têm todas as direções barradas. Impotente, cai na rede e desata a latir.
Os homens riem-se perante a nossa revolta. Que se passa? Por que fazem isto?
Todos os protestos foram em vão.
Nunca mais o vimos.

(estória verídica lá de 195... publicada no OUREM blog em 30 de Maio de 2004)

sexta-feira, agosto 26, 2005

Os amigos de longa data



Não duvido que aqueles que já partiram, lá de cima, estarão a dizer: força, Luís!
O Zé Manel, o Vitor Guerra, o Jó Rodrigues, o Luís Nuno, o Félix... Sim, não tenho dúvidas que me apoiam neste esforço para manter a nossa Ourém. Mas...
... e os outros?... os que estão mais presos à efemeridade material?...
Continuarão a ser amigos obviamente. Quer votem Alho, Catarino, Sandra ou Luís.
Talvez não volte a falar nisto, talvez nem lhes peça o voto. Que actuem de acordo com a consciência.
Alguns pensarão:” mas por que é que este maluco se meteu nisto? Que hei-de fazer?”
Se chegarem a esta questão, lembrem-se da nossa Ourém, do Largo de Castela, do king no Avenida, do parque atrás da Câmara, das bilharadas no Central e no Avenida, dos bailaricos, da tromba do Kansas toda queimada, do nosso colégio, da escola do Roque, da Feira Nova, e questionem-se se, uma vez na vida, isso não merece fazer correr o risco de um voto diferente...

terça-feira, maio 31, 2005

O carrinho de madeira


Ainda lá está Posted by Hello

Desloco-me do Largo de Castela na direcção da Câmara no meu carrinho de madeira novinho em folha. Trata-se de um pau tipo cabo de vassoura atravessado ao meio por um pequeno bocado de madeira e terminado numa extremidade por uma roda com uns vinte centímetros de diâmetro que funciona em torno de um eixo que atravessa o pau. Frente à prisão da GNR saúdo o simpático prisioneiro que teve a amabilidade de me oferecer aquilo que era produto da sua tentativa de passar o tempo o mais depressa possível. Como é possível pessoa tão boa estar ali dentro, atrás daquelas grades?
Chego junto à Câmara e sigo por trás, mais à frente viro à esquerda e continuo. Começo a ouvir o som que vem da escola do Roque daqueles que decoram tabuada:
um vezes um, um
um vezes dois, dois
um vezes três, três…
Fujo dali. Ena! Que coisa difícil.

quarta-feira, março 16, 2005

O protótipo (1)


A capa Posted by Hello

Eis a sugestiva capa, concebida pelo mais famoso designer oureense, a propor ao editor, da obra que celebra e retrata a amizade e a vivência de um conjunto de oureenses na segunda metade do século XX, sem esquecer o lamentável processo de anos recentes.
Distingue-se nela, a cores negras que retratam o sórdido destino que lhe é prometido pelos modernos bárbaros, insuflados de profecias marianas, a fabulosa casa do Largo de Castela, verdadeiro centro da época. Distinguem-se ainda a casa do Mina Guta e outra onde viveu o Luís Filipe. Atrás, a encosta dos moinhos vigia silenciosa...

quarta-feira, novembro 03, 2004


A casa do largo de Castela



Reconhecem esta obra prima?
Pois esta casinha ainda existe ali bem no início da Rua de Castela e continua a dominar com o seu porte a rua que nos conduz à avenida. Ali se travaram renhidos combates de futebol, pião e berlinde. Há quem sustente que, bem rente ao chão, a 20 centímetros do lado esquerdo da porta principal existiu um buraco que terá ocultado dezenas de bolas de futebol que eram engolidas perante os remates inadvertidos dos jovens jogadores. E que, no seu sótão, existirá possivelmente um saco contendo restos da banda desenhada da década de cinquenta e sessenta consubstanciada em Camaradas, Pajens, Moscas, talvez Mundos de Aventuras, ali deixados inadvertidamente por uma família que a habitou.
Consta que esta casa tinha características notáveis para a leitura e contemplação de banda desenhada. Reparem agora naquela pequena torre do lado esquerdo, quando vista bem de frente, que lhe dá uma solidez singular e única em todo o distrito…
A verdade é que me constou que esta casa também está condenada à destruição por causa do traçado de uma rua, por causa da relação com outras arquitecturas que nasceram tortas. Pode acontecer que assim seja, dar-me-ão um grande desgosto. Mas garanto que se tivesse posses para tanto, adquiriria essa casa, restaurá-la-ia e instalaria lá uma mostra de banda desenhada, resistindo ao seu abate até ao último suspiro.
E acreditem no profeta, a sentença está dada: quem participar na sua destruição, quer seja responsável, executante ou mero colaborador, é condenado à sua reconstrução, pedra por pedra, em local digno da visita de distintos oureenses.
Um recanto pitoresco



Afinal, ainda lá está. Ali à entrada do local em que iniciávamos a subida da encosta para os moinhos, existia um cantinho muito agradável habitado por uma família muita afável. Ali apoiei o Ferraz em momentos de doença com a audição dos poucos discos que possuia.
À frente do recanto ainda se pode ver a casa que foi habitada pelo Genito e pelo Duarte (filhos do Cabeça Aguda) a qual ainda apresenta um aspecto razoável.
Do lado esquerdo, constata-se a existência de uma pequena fonte, onde muitas vezes os oureenses se dessedentaram, mas a que a incúria autárquica ainda não devolveu a necessária torneira.
Experimentem descer do recanto até ao largo de Castela e sintam um pouco do ambiente de outro tempo. Trata-se de uma rua estreitinha, silenciosa, com uma certa inclinação. Do lado direito há uma bela casa amarela em degradação. Mais abaixo, do lado esquerdo, encontramos a casa do Boas Falas onde habitava o nosso amigo Augusto.
Sintam a minha angústia: será que tudo isto está condenado à destruição?

segunda-feira, agosto 09, 2004

O fantástico rugido do «maquitan»

Era uma tarde de futebol no largo de Castela.
Jogava-se com empenho à procura do golo. O Jó Alho era o mais habilidoso, um autêntico médio de ataque benfiquista que só Ourém conseguiu descobrir.
O Manel não lhe ficava muito atrás. Bom a fintar e a idealizar jogo era mais possante e isso dava grande solidez à sua equipa.
O Luís Cúrdia tinha mais um ou dois anos pelo que a diferença física dava de imediato superioridade a quem jogava com ele.
O Luís Nuno era o guarda-redes de eleição. Um autêntico Carlos Gomes, que então brilhava pelo Sporting.
A minha modéstia proibe-me de falar no mais desajeitado ponta de lança que Ourém alguma vez conheceu, mas que, de vez em quando, marcava um golito.
O Zé Rito jogava, relatava e fazia de árbitro.
O Mina Guta trazia rapidez e argúcia a qualquer equipa.
Eram estes e outros heróis que, em certo dia da década de cinquenta do século passado, depois de os capitães de equipa escolherem, após moeda ao ar, os guerreiros de cada lado, procedimento em que, estranhamente, eu ficava sempre para o fim, disputavam renhida partida naquela fabuloso estádio.
A minha equipa já vencia por uns claros três a zero.
De repente, vindo daquela rua que se iniciava frente àquele local onde já funcionou a Dirup, que passava frente à casa do Luís Nuno e ao atelier do Souto(1), ouve-se um fantástico rugido que atroa oa ares.
Os jogadores param apreensivos. Que se passaria? Seria o George a ensaiar, uns cinquenta anos antes, a operação estrondo e terror, já a pensar na famosa cruzada em que se empenharia no início do século XXI?
O ruído continuava enorme e ouvia-se lata a bater sobre lata.
Ao fim de algum tempo, o mistério era esclarecido.
Um carrinho, um Austin de eleição, daqueles mais ou menos de forma semelhante aos actuais Partner ou Kangoo, carregado com balanças, entra pelo largo de Castela em baixa velocidade e com ruído elevado.
Era o maquitan.
Lá dentro, o João Honório gozava o susto que nos tinha pregado.
Excelente pessoa, foi outro dos que puderam desfrutar o prazer de habitar a casa do Largo de Castela, após eu a ter deixado. Tantas vezes lá voltei para ele me emprestar os magníficos Búfalos e Bisontes que possuia.
Agora, ali, estacionava junto à casa da Dona Aurora e permitia que nós, com o devido cuidado, continuássemos o jogo.


(1) Confusão. Era uma atelier onde se fabricavam jaulas para galinhas. Não sei se da responsabilidade de Souto ou Ezequiel Casimiro

domingo, maio 30, 2004

Onde estará?
O cãozito vinha todo contente dos lados da casa do Ferraz. Entra no Largo de Castela e fita-nos desafiador enquanto jogávamos futebol. Senta-se, levanta a perna e procura parasitas. Mais tranquilo corre atrás da bola e até parece um excelente esquerdino.
De repente, vindos não sei de onde, surgem quatro homens com redes às costas. Dispõem-se rapidamente à volta do largo e aproximam-se do bicho. Ele vê-os e percebe logo a sua triste sorte. Tenta fugir pela rua de Castela, mas um dá um passo em frente e tapa-lhe o caminho. Volta para trás, mas os outros avançaram e tem todas as direcções barradas. Impotente, cai na rede e desata a latir.
Os homens riem-se perante a nossa revolta. Que se passa? Por que fazem isto?
Todos os protesto foram em vão.
Nunca mais o vimos.
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