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segunda-feira, dezembro 09, 2019

Malvada moedinha de escudo


Claro que gostava muito do Luís Nuno, fomos amigos desde muito pequenos, criados muito perto um do outro. Eu frequentava muito a casa da «Vizinha» e do Rafael que tinha uma varanda que dava para a casa dele a uma distância de uns dez metros. Assim, falávamos de varanda para varanda…
Com um relacionamento quase perfeito, um dia as coisas deram para o torto. Ele pediu-me um escudo para comprar tabaco e eu fingi que não tinha. Bolas! Um escudo dava quase para o Mundo de Aventuras, era 1/8 de um livro da Coleção Búfalo. Nunca mais me falou…
Foi estudar para Tondela e, quando regressava, já todo vaidoso com capa e batina, reunia os seus amigos e deixava-me desprezado a um canto do Avenida. O que me valia era que ainda sobravam alguns para o King e conseguia ignorar a provocação.
Pouco depois de ele ter fugido para França, escrevi uma pequena nota no Notícias de Ourém acerca dele e da nossa amizade. Já não tenho esse artigo, mas referia-se a esta pequena, mas significativa discordância. Uma discordância com efeitos…
Os pais do Luís ficaram muito comovidos com essa nota e quiseram falar comigo. Foi talvez a última vez que os vi e lá estive um bom bocado com eles em que me contaram alguns pormenores da vida dele em França e da sua generosidade que chegava ao ponto de, por vezes, dar o seu salário a outros que precisavam mais do que ele…
Pois bem, apesar de estarmos una anos sem nos falarmos, fui com certeza dos primeiros que ele procurou no regresso de França. Mais tarde, fiz uma prova académica e ele e o Zé Quim fizeram questão de estar presentes.
E, quando fez cinquenta anos, fui um dos convidados à sua festa de anos, mas desta falaremos mais tarde…

sexta-feira, dezembro 06, 2019

O regresso do Luís Nuno


Naquele dia, tinha estado na Revolução até às dezanove. Regressei a casa e informaram-me.
- Sabe, esteve cá um amigo seu...
- Mas quem era?
- Não sei. Trazia umas barbas muito grandes. Disse que volta mais tarde.
Fiquei intrigado. Mas, confiante como sempre, resolvi esperar.
Tocam à porta. Vou abrir e aparece-me um Luís Nuno, regressado de França após longa ausência e dolorosa separação de pais e amigos, completamente diferente daquele que eu recordava. Mal o reconheci, mas o abraço que nos uniu foi mais forte que qualquer desconfiança.
- Então, voltaste de todo?
- Sim, temos que fazer alguma coisa pelo país...
Olhando para ele, como estava diferente!. A pele muito queimada, rouco, barbas enormes, uma respeitável barriguinha. Impressionante...
Pouco a pouco, a nossa conversa mostrou-me que ele era alguém diferente de tudo o que eu podia imaginar.
- Sabes, é preciso ter muito cuidado no trabalho político. Há dias, um grupo em que me integro deu uma conferência de imprensa onde apareceram mascarados...
Lembrava-me. Mais ou menos uma semana antes, tinha visto na televisão uma reportagem sobre uma organização muito estranha que se dava pelo nome Grito do Povo.
E eu continuava a ouvi-lo.
- Os gajos do PC estragaram aquilo tudo na União Soviética. São nossos inimigos. É preciso sabermos escolher muito bem as pessoas para a nossa organização.
Na altura, eu andava entusiasmado com o MES, e falei-lhe nesse movimento.
- Não acredites neles, mais ano menos ano, enfiam-se todos no PS, pelo menos foi o que aconteceu em França.
Eu confirmei a veracidade da previsão do Luís. Mas então quem existiria para suportar uma actividade política pela causa justa?
- E os do PC?
- Só desmobilizam o povo. Não vês o que eles andam a dizer: “o povo unido jamais será vencido”? Isto não é correcto. No Chile, disseram o mesmo e vê o que se passou. Eles pensam que tudo está feito quando o povo ainda tem de vencer. Tem de fazer-se uma revolução democrática popular.
Fiquei admiradíssimo. Para mim, nos livros, vinha revolução socialista e, depois, extinção do Estado.
- Luís, somos muito poucos. Temos que ir com muito cuidado fazer trabalho para os campos, para as fábricas, nas próprias forças armadas. Não te esqueças que as forças armadas são, pela sua natureza, uma força repressiva, mas, no momento final, se trabalharmos bem, os soldados estarão ao lado do povo.
- E que podemos fazer no campo tão afastados que temos estado?
- Há muita coisa a fazer. No local de onde venho, realizavam-se festas populares onde os artistas têm uma mensagem que é imediatamente recebida. Trago-te aqui um exemplo das canções que põem o povo logo a dançar e a desejar a revolução.
E entregou-me dois discos em formato single ou EP que eu contemplei. Tino Flores.
Nunca tinha ouvido aquele artista popular. As canções até tinham um nome engraçado. Ó senhora Guida, O meu amigo está preso...
- Luís, ouve essas canções e podes ter a certeza que com elas convenceremos toda a gente.
Efectivamente, a primeira audição foi fantástica. Eu fiquei a recordar o Luís Nuno como um ser que em determinado momento me tinha trazido a mensagem correcta, a mensagem necessária. E imaginava-me em Ourém, frente às massas, a tentar conduzi-las para a revolução. Mas não conseguia aceitar todo aquele radicalismo que se desprendia da sua figura, das suas palavras.
Abandonar tudo e todos? Os meus hábitos, apesar de tudo, burgueses? Os meus amigos do MES, do PC, do PS...?
Não fui capaz. Fiquei para sempre um adepto da unidade na diversidade de todas as forças da esquerda, inclusivamente em momento de construção da nova sociedade. E, se alguém não estiver de acordo, mais do que o obrigar, há que o ir convencendo pouco a pouco.
A verdade é que o Luís Nuno também evoluiu muito a partir dessa data e transformou-se numa pessoa maravilhosa que pudemos desfrutar até àquele dia de Dezembro. 
E, se ele aqui estivesse, como gostaria de brincar com os blogs!

segunda-feira, novembro 11, 2019

1968: a ida às Sortes




Fomos convocados prá banda
Que é que nos querem fazer?
Contratar carne pra canhão...
Será que isso lhes dá prazer?

Mas onde está o Luís Nuno
Que também é da nossa idade?
Pirou-se para França, oportuno,
Anda preso à saudade...




O que pensam eles de nós
Enquanto aqui esperamos?
Até nos mandaram despir ...
Julgam que são nossos amos?



Olha o papelinho na mão
Contentes por ser perfeitos
Mas no fundo a apreensão:
A que vamos ser sujeitos?

Vamos buscar os instrumentos
E cantar nossa desdita
Toda a gente de Ourém
Merece saber da fita



tum, tum, turum, tum, tum

Ouve lá, ó mãe querida
Querem que eu vá prá guerra
Que abandone a boa vida
E oprima os de outra terra

tum, tum, turum, tum, tum



tum, tum, turum, tum, tum

Vamos direitos à Praça
Para toda a gente ver
Que o pessoal até tem raça
Que é bravo a valer

tum, tum, turum, tum, tum

5 anos vão esperar
Podiam até ser mil
O curso quero tirar
E ser tropa em Abril

tum, tum, turum, tum, tum



Almoçámos no Vilar
Que hoje é vila por sinal
O repasto até foi bom
E partimos pró Agroal



Ai que águas tão bonitas
Aqui viemos encontrar
Mas as guerras são malditas
Há que as fazer acabar




Vamos fazer um bailarico
A banda é um bom lugar
Toma banho, põe a gravata
É toda a noite a dançar


sexta-feira, setembro 20, 2019

O último voo da perdiz


Eis a fabulosa casa onde nasceram e cresceram o Luís Nuno e o Zé Avião. Casa onde entrei muitas vezes para participar em conversas e brincadeiras. Casa com frente para o Poente e costas para o Nascente, ou o inverso...
Lembro-me que eles tinham um estranho jogo com figuras de plástico cujos contornos já não sei precisar. Recordo também que era lá que jogávamos poker de dados de que o Luís contabilizava a evolução.
Muitas vezes, partíamos desta casa para o Central, o Avenida, a feira nova ou o ataque ao moinho.
E, um dia, também fomos daqui para o Largo de Castela.
Permanecemos lá em amena cavaqueira. De repente, um grupo de quatro ou cinco perdizes, em formação, atravessou Ourém. Uma delas parecia ter problemas...
Tinha mesmo. Veio cair na quingosta ao lado do quintal da Júlia padeira.
Corremos para lá para tentar apanhá-la. O pobre animal estava vivo, mas mexia-se mal. Ao fim de algum tempo, o Avião conseguiu apanhá-la.
Voltámos ao Largo de Castela. Ciente dos meus direitos por ter sido o primeiro a vê-la, disse:
- Dá cá...
Mas o Zé não estava pelos ajustes.
- Não, não, a perdiz é minha, eu é que a apanhei.
Tentei tirar-lha, mas ele era muito rápido, não tivesse já treino completo por toda a Ourém, e fugiu direito a casa acompanhado pelo irmão. Ainda lhes atirei com um pedregulho da calçada que felizmente não acertou no alvo.
E, nessa noite, a perdiz foi saboreada na casa virada ao Sol Poente, perante o desespero dos habitantes da casa do Largo de Castela

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Marca #1: Luís Nuno

A primeira marca que aqui deixamos é dedicada ao nosso querido amigo Luís Nuno, desaparecido já há alguns anos.
O Luís nasceu e brincou no Largo de Castela. Durante mais de uma dezena de anos tive o prazer da sua companhia quase diária o que nos tornou como que uma espécie de irmãos. Recordá-lo aqui, no blog, é sempre algo que me comove bastante, mas que me dá a sensação de ele estar connosco.
Haveria muito a dizer sobre o Luís. Um dia, a Teresa prometeu fazê-lo, mas eu acredito que lhe seja especialmente difícil. Mas não duvido que, um dia, teremos esse texto.
Para já contentem-se com este marcador que aponta para páginas algo desorganizadas mas que, agora, estão mais longe de se perder.

quinta-feira, junho 01, 2006

A bala traiçoeira




Naquele dia, a chegada das aulas teve a acompanhá-la notícia inesperada.
- O Luís Nuno levou um tiro, está no hospital...
Dita daquele maneira, aquela notícia foi um choque.
Luís Nuno, o grande amigo, tinha levado um tiro. Lá fui a correr... não era longe, aliás naquele tempo, em Ourém, nada era longe, nem sequer as pesssoas.
À porta do hospital já havia um aglomerado. A trupe do costume... das janelas as pessoas contemplavam aquele estranho movimento
- O que se passa?
- O Genito deu um tiro ao Luís Nuno...
Olhei acusatoriamente o Genito*.
Ele explicou-se...
- Que é que queres? O Jó Rodrigues veio da caça com a pressão de ar...
Já não me lembro onde estavam. Sei que o Genito tentou imitar aquele gesto dos cow-bois de fazer a pistola rodar em torno do dedo. A pressão de ar estava desactivada com o cano frontal baixo e com um chumbo no interior. O movimento fez com que o cano voltasse à posição normal e o disparo se produzisse.
Mas, naquele momento, o Luís chegou ao pé de nós.
- Então? Então?...
- Têm que me tirar o chumbo que está debaixo da pele...
E voltou para o interior.
Ficámos mais tranquilos. Pouco tempo depois, aquilo estava transformado em mais um estória para se recordar com saudade daqueles tempos. As janelas de onde nos observavam fecharam-se. O Prostes, cujo atelier era ali em frente, retomou o trabalho. O Jó voltou à caça tranquilo (os pobre bichos é que não...). O Genito e o Luís continuaram grandes amigos...

*Cabeça Aguda mais novo, irmão do Duarte que há poucos dias nos visitou...

terça-feira, maio 30, 2006

A olaria do Patica


Será que, após tanta deceção, ainda é possível desfrutar algum prazer por viver ou visitar esta terra?
Ourém não é nada do que foi. As pessoas que a dominam foram moldadas em condições de profunda ignorância relativamente à vivência no meu tempo e os seus actos manifestam uma doentia raiva ao que sentem que a caracterizava.
Foram moldadas…
Já repararam na identidade dos membros da camarilha*? Tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão unidos no objetivo de destruir a terra…
Noutro tempo, naquela rua que vai da Avenida para a casa do Largo de Castela, junto ao Isidro das galinhas, do outro lado, mas mais abaixo da casa do Luís Nuno, também houve em Ourém alguém que moldava…
Não moldava a consciência, o comportamento, mas o barro. Era delicioso ver aquelas peças saírem da conjugação das suas mãos com a matéria prima e o instrumento que transmitia àquelas um movimento circular, mais abaixo, mais acima, de acordo com a pressão. Mais tarde, beber água saída daqueles cântaros, ênfusas, era delicioso.
O artista era o Patica, uma das pessoas simples de Ourém. Decerto não teve qualquer responsabilidade nos moldes transmitidos à doentia e destruidora mentalidade dos (ir)responsáveis autárquicos.



* De acordo com o dicionário do OUREM, camarilha significa aqui “os que dominam, em conjugação de interesses contra a história da nossa terra, a Câmara".

sexta-feira, abril 21, 2006

Por causa do Ukelele

O Ric Jo, no seu Malibu Cola, tem um artigo muito interessante sobre uma guitarra acústica Havaiana muito pequena de apenas 4 cordas: o Ukelele.
A questão é que esse instrumento traz-me alguns sentimento e recordações (por exemplo, o fabuloso “Cavaquinho” do Júlio Pereira) que não posso deixar calados e, por isso, contrariando o momento, todo virado para a comemoração do 25, vamos criar um pequeno enclave.
Contam os amigos que o nosso velho amigo Harrison, quando viajava, transportava consigo sempre dois Ukeleles, um para ele tocar e outro para alguém que conhecesse e o quisesse acompanhar. Imaginem aqueles passeios...
O Harrison morreu já há alguns anos e, no ano seguinte, alguns dos mais chegados fizeram-lhe um concerto de homenagem, algo muito comovente, algo que me recorda sempre os nossos amigos oureenses já desaparecidos e outros que tanto produziram para nós sem nos conhecer.
É verdade, há trinta e dois anos, estávamos bem mais ricos. Tínhamos perdido o Zé Manel, mas o Luís Nuno e o Félix preparavam-se para dar o contributo para o nascimento do Poço, o Vitor Guerra ainda nos acompanhava, o Jó Rodrigues estudava aquelas estranhas ervas com que pretendia melhorar a nossa saúde (um dia chegámos à loja dele: “Ó Jó, para que é que são estas ervas?”, “Sei lá...”), o Lennon preparava mais albuns (a compilação “shaved fish” com o fabuloso Imagine e o Give peace a chance, e o magnífico “Double Fantasy” que trazia o Woman e a capa mostrava a malvada Beatlecida), o George ainda faria o Cloud Nine, deixaria músicas para o póstumo, ajudaria a regressar os Beatles com a Antologia, dinamizaria os Travelling Wilburys, o Zeca ainda tinha muito para dar (“com as minhas tamanquinhas”, “fura-fura”, “como se fora seu filho”, “enquanto há força”...) e o Adriano cantava e não lhe ficava atrás (“que nunca mais”, “cantigas portuguesas”). Deram-nos muita coisa a partir do 25. Depois, pouco a pouco, deixaram-nos...
Imagino-os lá em cima, naquela confraternização que a sua qualidade de espírito puro, nada sujeito às barreiras que a matéria cria, proporciona. Se calhar atentos ao tributo que foi prestado ao George que os outros também mereceriam naquilo em que se tornaram notados entre nós. Uma das peças desse tributo foi uma nova versão do “Something” que, e aqui está a razão do post, foi introduzida por Ukelele. Ora oiçam...
Claro que, em DVD, ainda é mais interessante, pois mostra-nos algumas particularidades dos intervenientes: do baterista, do Clapton..., dos instrumentos a associarem-se um por um... A mim, bate-me especialmente a transição para a versão convencional. Por tudo isto, sempre que oiço esta canção ela traz-me a recordação dos nossos amigos, destes que vos falei. Tudo isto estava guardado para mais tarde, mas o artigo do Ric Jo levou-ma a antecipá-lo. São danados estes jovens ourenenses...

Paul McCartney - Something (Concert for George) from Samuel Bello on Vimeo.

domingo, abril 09, 2006

O meu amigo está preso

Há 32 anos, por esta altura, existiriam alguns oureenses que teriam motivos para não se sentir muito bem:
- o Zé Quim, detido em Santa Margarida em virtude de ter acompanhado as tropas que em 16 Março desencadearam um golpe abortado, mas que já anunciava o 25 de Abril;
- o Sérgio que, pela segunda ou terceira vez, foi convidado a uma estadia em Caxias adornada pelos tratamentos da polícia política e
- o Luís Nuno que, na sequência do movimento estudantil em Coimbra, prestes a ser preso, meteu-se a caminho, atravessou a fronteira e exilou-se em França durante alguns anos.
Em França, o Luís acompanhou as movimentações políticas e esteve associado a uma organização da esquerda radical da qual também fazia parte um cantor chamado Tino Flores.
Uma das práticas de agitação desta organização baseava-se em festas populares onde a actuação do Tino continha canções com uma mensagem muito directa e intimamente relacionada com a exploração de que as pessoas eram alvo.
Só por um ou dois dias, aqui fica uma dessas canções, cuja qualidade de gravação neste momento, após tantas vezes ter sido ouvida no nosso país, deixa bastante a desejar.
Oiça "O meu amigo está preso"

quinta-feira, outubro 20, 2005

Manhãs cinzentas de Ourém

Está um daqueles dias que me faz lembrar o nosso querido amigo Luís Nuno: uma manhã com aquela tonalidade cinzenta que ele tanto gostava. Sente-se o cheiro da terra húmida após a queda de uma chuva muito suave.
Uma manhã que convida à leitura, à lareira, mas...
... impõe-se uma visita ao Central e ao mercado.

sexta-feira, agosto 26, 2005

Os amigos de longa data



Não duvido que aqueles que já partiram, lá de cima, estarão a dizer: força, Luís!
O Zé Manel, o Vitor Guerra, o Jó Rodrigues, o Luís Nuno, o Félix... Sim, não tenho dúvidas que me apoiam neste esforço para manter a nossa Ourém. Mas...
... e os outros?... os que estão mais presos à efemeridade material?...
Continuarão a ser amigos obviamente. Quer votem Alho, Catarino, Sandra ou Luís.
Talvez não volte a falar nisto, talvez nem lhes peça o voto. Que actuem de acordo com a consciência.
Alguns pensarão:” mas por que é que este maluco se meteu nisto? Que hei-de fazer?”
Se chegarem a esta questão, lembrem-se da nossa Ourém, do Largo de Castela, do king no Avenida, do parque atrás da Câmara, das bilharadas no Central e no Avenida, dos bailaricos, da tromba do Kansas toda queimada, do nosso colégio, da escola do Roque, da Feira Nova, e questionem-se se, uma vez na vida, isso não merece fazer correr o risco de um voto diferente...

domingo, julho 31, 2005

Imagem do dia


Olá! Posted by Picasa

Em Ourém, pela manhã, é sempre possível encontrar algum amigo.
Este estava entre a casa do Luís Nuno e da Dona Gracinda.

quinta-feira, julho 14, 2005

Adorava esta Ourém - 7O jardim frente à Câmara


Levado pelos Exterminadores Posted by Picasa

Era muito mais bonito do que a fotografia deixa transparecer. Mais folhas nas árvores, mais flores, relva mais espessa. Mas esta fotografia desperta em mim toda a nostalgia desse tempo.
É curioso, ainda ontem tinha falado naquele banco lá ao fundo mesmo em frente que tem um candeeiro por trás, a propósito daquela canção dos Beatles.
Mas haveria muito mais estórias. As corridas cronometradas em que o Avião e o Luís NUno eram os inevitáveis vencedores, os jogos de criança, o passeio com o carrinho de madeira oferecido pelos que estavam na prisão, a apanhada, os namoricos...
Lá ao fundo uma fila de casinhas de cujos habitantes ainda recordo alguns rostos.

quinta-feira, junho 16, 2005

Ourem's lonely hearts club band




Eis um grupo organizado de oureenses de outrora que se dedicava à música. Um grupo que, com certeza, não viu a Lucy no céu com diamantes, mas que teve com certeza muitos dias na vida agradáveis.
Alguém quer ajudar à sua identificação?
Lá está o pai dos nossos queridos amigos Luís Nuno e Zé Avião...

sexta-feira, abril 22, 2005

Será que esta conversa existiu?

Preparem-se.
Falta pouco mais de dois dias...
Temos de aproveitar para libertar o Sérgio e o Zé Quim.
Temos de criar condições para o Luís Nuno poder regressar de França.
Maia, parece que tens alguém porreiro para comandar um pelotão quando avançares. É de Ourém e...
Mas que se passa, camarada Luís? Parece triste, nostálgico, pouco confiante...

Não é isso, meu major. Tive uma visão do que vai ser isto daqui a trinta anos: corrupção, fuga ao fisco, tráfico de droga, insegurança, mentira, terrorismo de Estado...
Comparada com isto, a exploração capitalista, aquela em que o patrão paga o salário para obter mais-valia, parece uma santa. Mesmo o meu major vai ser perseguido e acusado de coisas horríveis...

Eu, perseguido? E achas que é a primeira vez? Tu próprio vais escrever sobre uma história um tanto semelhante que ocorreu quase há dois mil anos. O nosso povo padece de um défice, não aquele com que ela1 vos vai torturar, mas educacional. Mas eu vou tratar já disso, das perseguições políticas...
Aspirante Sampaio, vá pensando numa lista de homens de confiança porque temos que extinguir a dita...

A verdade é que o Luís Nuno (que aqui representa o português incoformado que resistiu até à última relativamente à integração na tropa colonial) pôde regressar e o Sérgio (o preso político) e o ZéQuim (militar detido por ter participado no golpe que antecedeu e anunciou o 25 de Abril) foram libertados. Um pelotão de Salgueiro Maia que avançou para Lisboa foi comandado por um oureense.
Curiosamente, aquele que preparou tudo isto ao pormenor (e que o fez com o sentido de gerar o que gerou), acabou por ser preso e perseguido. Tantas vezes as revoluções devoram os seus heróis!


1-Referência à política de Manuela Ferreira Leite no governo de Durão

segunda-feira, abril 11, 2005

O galheteiro



Atenção ao passarinho... Posted by Hello

Pode ser que não se note, mas era mais alto que todos eles. Assim, posicionado ao centro, lembra-me as constantes vezes que participei em caminhadas e o pessoal chamava galheteiro ao conjunto. 
Nos extremos, estão o Avião e o Luís Nuno e, a separá-los de mim, respectivamente, o Fernando e o João, netos da Júlia padeira, os tais dois miúdos ultra-arreliadores que já vos falei a propósito do Largo de Castela. 
O local foi o saudoso jardim de Ourém junto à Câmara.

sábado, março 26, 2005

O Santuário da Irmandade de Sangue




Havia um estranho ritual entre alguns oureenses baseado no que se lia nas revistas de quadradinhos. Fazer uma pequena incisão no pulso, juntá-lo com o de um amigo de toda a confiança e, a partir daí, ficavam irmãos de sangue.
O Luís Nuno deve ter sido quem reuniu mais irmãos, tendo trazido a essa qualidade o Humberto e o Jó Rodrigues.
Um dia, por trás desta porta, tive uma conversa com ele sobre este assunto. Esperávamos o Manel, já não me lembro o que se guardava por ali, mas era um espaço agradável, talvez o melhor local para se instalar o «Santuária da Irmandade».
O Luís falava em termos de aliciamento para a causa, no que já era um perito, mas eu nunca me senti muito atraído, incisões e outras coisas sempre fizeram impressão e, como sabem, a coragem não abundava. De modo que a nossa amizade continuou sem este ritual um tanto selvagem. 
Mas, nessa noite, algo de extraordinário invadiu os meus sonhos. Parecia que uma corrente de sangue fluía do improvisado Santuário para a nossa ribeira que, progressivamente, se ia tingindo de vermelho cobrindo enorme extensão. Houve quem chamasse àquela zona «Red River Valley»...
E, enquanto eu sonhava, parecia ouvir o som de uma harmónica de boca.

quarta-feira, março 23, 2005

A casa virada ao Sol Poente

Eis a fabulosa casa onde nasceram e cresceram o Luís Nuno e o Zé Avião. Casa onde entrei muitas vezes para participar em conversas e brincadeiras.
Lembro-me que eles tinham um estranho jogo com figuras de plástico cujos contornos já não sei precisar. Recordo também que era lá que jogávamos poker de dados de que o Luís contabilizava a evolução.
Muitas vezes, partíamos desta casa para o Central, o Avenida, a feira nova ou o ataque ao moinho.
E, um dia, também fomos daqui para o Largo de Castela.
Permanecemos lá em amena cavaqueira. De repente, um grupo de quatro ou cinco perdizes, em formação, atravessou Ourém. Uma delas parecia ter problemas...
Tinha mesmo. Veio cair na quingosta ao lado do quintal da Júlia padeira.
Corremos para lá para tentar apanhá-la. O pobre animal estava vivo, mas mexia-se mal. Ao fim de algum tempo, o Avião conseguiu apanhá-la.
Voltámos ao Largo de Castela. Ciente dos meus direitos por ter sido o primeiro a vê-la, disse:
- Dá cá...
Mas o Zé não estava pelos ajustes.
- Não, não, a perdiz é minha, eu é que a apanhei.
Tentei tirar-lha, mas ele era muito rápido, não tivesse já treino completo por toda a Ourém, e fugiu direito a casa acompanhado pelo irmão. Ainda lhes atirei com um pedregulho da calçada que felizmente não acertou no alvo.
E, nessa noite, a perdiz foi saboreada na casa virada ao Sol Poente, perante o desespero dos habitantes da casa do Largo de Castela

E lá longe ouviam-se os Animals...
 

sexta-feira, março 11, 2005

11 de Março de 1975

Ainda se fazia a festa, pá...
A Teresa e o Luís Nuno (na altura conhecido, no meio, por Barbas e seu companheiro),viviam em Alpiarça. Eram ferozes anti revisionistas, de extrema esquerda, mas sempre conviveram com os 'inimigos' e respeitaram-se mutuamente, ao ponto de o Luís Nuno ter feito parte da Direcção da maior Associação Desportiva e Recreativa - Os Águias.
Eu, sempre hesitante, estava no Exército ligado a uma estrutura do COPCON. Puxava para a extrema, mas recusava-me a atacar o PCP.
Tínhamos a ilusão que as coisas podiam avançar, mas já havia a certeza de que alguém não apoiava. Spínola armadilhou os paras e atirou-os contra o RALIS. Houve perda de vidas. O soldado Luís foi martirizado e imortalizado.
Ficámos em alerta máximo uns dias. Foram horas em que, para além dos nervos, se conseguia, apesar de tudo, jogar xadrês enquanto as forças em conflito se reequilibravam.
Tive a honra de num desses dias ficar de vigilância à casa, em Cascais, desse ser magnífico que foi conhecido como Camarada Vasco que, poucos dias depois, se não estou em erro, declarava a nacionalização da banca.
Começou a ver-se o processo avançar. No Governo, Silva Lopes e Mário Murteira não se manifestavam contras as nacionalizações, eu penso que até apoiaram, apesar de, agora, exibirem alguma hesitação quando falam no assunto.
Mais de 1000 empresas entraram em autogestão. Os capitalistas, quando sabotadores, fugiam ou eram presos. Houve excessos? Sem dúvida. Mais tarde, houve coisas erradas que viraram as pessoas contra nós. Mas foi bonito...

quinta-feira, novembro 04, 2004

Uma mensagem do Luís Nuno aos seus amigos do Poço (e a todos os outros...)

Vale a pena encontrarmo-nos quando a vida, insensivelmente, procura a cada momento afastar-nos. Sabe bem isto porque significa que naqueles tempos se cultivava a amizade, a brincadeira sã, as pedradas “suaves”, as idas ao dentista “macabro”, enfim, o convívio da cultura “poceira”, a amizade verdadeira que, se calhar, hoje pouco se cultiva.
Por tudo o que fomos, o que sentimos e o que somos ainda, vale um abraço daqueles que só amigos podem sentir!


Luís Nuno
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