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quinta-feira, outubro 17, 2019

O caso do cruzamento frente à morada do Padre Doutor

Na década de 60, a mobilidade urbana em Ourém era um facto. Ciclistas, automóveis e peões circulavam pelas ruas da vila com toda a confiança. Por um lado, circulava-se devagar, por outro o silêncio era tal que, se um carro se aproximava, ouvia-se o seu ruído a longa distância. Além disso, a polícia era um elemento presente por todo o lado sempre no objetivo de “proteger o cidadão”.
Um dos grandes ciclistas da nossa terra, para além de nós todos os outros, era o Manel do Tenente, insigne oureense de quem já falei algumas vezes, mas a quem nunca tive o prazer de dedicar uma crónica.

Pois, um dia, o Manel dirigia-se, pela rua Augusto Castilho, de bicicleta e a toda a velocidade, de casa do Luís Nuno para a casa do Dr. Preto, onde, como sabem, também habitava o famigerado João Passarinho.
Da parte de cima, proveniente da rua António Leitão, onde morava o César, vinha, no seu carro, o sr. Félix, magnífico representante da classe comerciante e da marca de máquinas de costura Oliva, pessoa que também vendia seguros. O sr. Félix não vinha muito depressa, mas tinha uma maneira estranha de olhar, dava a impressão que não via bem os que se cruzavam com ele. E, naquele dia, deveria vir a pensar na maneira como havia de empandeirar mais alguma apólice de seguro a algum descuidado oureense.
Claro que o choque inevitável deu-se…
… melhor dizendo, quase que se deu. O Manel travou a bicicleta e, para afastar aquele monstro do seu caminho, não descobriu melhor remédio do que mandar uns murros ao vidro do automóvel. Aí, o sr. Félix travou e o incidente ficou sem consequências de maior. Mas o homem ficou transtornado. Quase que oiço a voz dele:
- Ó Manel, então está a dar murros ao meu automóvel? Eu vinha da direita, eu tinha prioridade…
- Cale-se e tire esse monstro da minha frente – berrou o Manel.
Imaginem o que poderá ser agora com 15 lombas na Avenida e com a eventual chegada de trotinetes, skates, bicicletas elétricas, segways… Pobre peão que se quer deslocar em Ourém, pobre automobilista… e o Manel do Tenente ainda anda por aí.

domingo, novembro 18, 2007

Em busca de «O último moicano»



Em 1757, os franceses, juntamente com os seus aliados índios, os iroqueses, procuraram tomar o Forte William Henry. 
Cora e Alice empreenderam uma viagem para ir ter com o pai, o comandante da guarnição. A acompanhá-las estava o major Heyward Duncan, noivo de Alice, e Daviv Gamut, o professor de música. O grupo era escoltado pelo índio Magua chamado Volpe Astuta, um espião ao serviço dos franceses, que pretendia entregar os viajantes à sua tribo. 
O plano foi malogrado por Nathaniel, Olho de Falcão, um caçador yankee, e pelo seu amigo Chingachgook, único sobrevivente, juntamente com o filho Unkas, da estirpe dos nobres guerreiros Moicanos. 
As raparigas foram capturadas pelos índios Huron e pelo pérfido Magua que pretendia levar Cora como troféu de guerra. Uncas, agora apaixonado por Cora, acorreu a salvá-la, mas foi morto por Volpe Astuta ao pé da sua amada. Olho de Falcão vingou-o e com a sua pontaria infalível atingiu o índio perverso.
(breve descrição de «O último moicano», obra escrita em 1826 por J. Fenimore Cooper)

Alguns anos depois, na década de sessenta do século passado, alguns jovens procuravam informação na biblioteca de Vila Nova de Ourém, apoiados pela anfitriã Luísa Pereira, sobre a colonização do continente americano, mas alguns deles aproveitavam para outro tipo de leituras. E as bocas eram muitas...
- É pá - dizia o Manel como sempre entusiasmado com a sua ficção – este livro diz que os espanhóis destruíram as civilizações da América Central e parte da América do Sul, que reduziram os seus povos à condição de escravos e até pilharam as suas riquezas...
Os outros já não o podiam ouvir. A Mena murmurava baixinho: "respeitinho, respeitinho". O LizManel procurava concentrar-se nas suas estórias de pajens, alheando-se daqueles comentários e dos objetivos do trabalho.
E ele prosseguia:
- Não me admiro que, daqui a uns anos, ainda apoiem as invasões dos americanos...
Até que, imperial como sempre, o futuro alferes Sampaio, cioso dos livros que contemplava e que tinha de escolher para leitura e sempre um passo mais à frente, interrompeu:
- Por que non te callas?







Fonte: Boletim Informativo da Fundação Caloustre Gulbenkian de 1960

terça-feira, maio 08, 2007

Marca #18: Vitor Castanheira

Perante o êxito do Juventude, que saudamos, não podemos deixar de recordar um amigo, hoje estabelecido mesmo em frente ao seu histórico campo, ao lado da alfaitaria do Zé Penso, que tem monumental desejoso de ser recordado como um dos grandes guarda-redes da saudosa equipa do Atlético - embora o Manel não esteja pelos ajustes, mas eu confirmo que um defesa de prestígio o escolhia sempre para aquela posição.
Relembrar o Vitor, é voltar aos tempos do Fernão Lopes, às corridas pela enconta dos moinhos e à que apelidei equipa maravilha (ainda sem conhecer os feitos actuais). É também voltar ao mata-borrão, peça indispensável do nosso património estórico.
O Vítor é outro dos tais que faz com que valha a pena voltar a Ourém...
My God! Há quanto tempo não vou àquela terra... que se está a passar comigo? Será só culpa do senhor dos Prantos?

sexta-feira, abril 29, 2005

O charme discreto do cine-teatro


O nosso cine-teatro...
A rua por onde levei a gatita branca e preta quando mudei para a casa da rua Santa Teresinha...
A morgue. Em frente, a casa onde conheci o Manel. Lá ao fundo, o atelier do Zé Canoa onde agora funciona a Botica...
Os oureenses permitiram a destruição desta obra prima para construir o mamarracho que ainda vemos crescer.
O Melo era o gestor, o Jóia controlava as entradas, o Mário vendia os bilhetes. No Verão todas aquelas janelas se abriam para o ar poder entrar...
Foi aqui que conheci alguns ídolos da juventude: a Marisol, o Joselito, o John Wayne...
Foi aqui que vi os primeiros filmes: Território Apache, Rio Bravo, Psico, Os dez mandamentos, Ben-Hur e outras maravilhas que a memória já não me permite.
O preto e branco, a magia do cinemascope...
Uma sala com qualidades notáveis, pois toda ela vibrava conforme as sensações das suas plateias como pode notar-se nesta descrição de “A seita do cavalo branco”:
Não sei quantas vezes vi este saudoso filme no cine-teatro da vila, uma magnífica sala onde as plateias (de primeira e segunda), a geral, os camarotes e o balcão reflectiam a estratificação social que se vivia.
Mas, em momento de filme, corridas aquelas belas cortinas verdes que tapavam as portas de saída, tudo isso de esbatia. Detentor de pouco dinheiro, geralmente utilizava aquela plateia quase colada à geral e daí podia assistir à magnífica cavalgada para apanhar os bandidos no momento chave em que o espectador se tornava actor.
A galopada e o seu ruído entravam pela sala dentro. Toda a gente gritava de entusiasmo e saltava nas cadeiras. Sentia-se todo o edifício a tremer pelo arrebatamento desordenado que lhe era transmitido por quem se julgava a viver a monumental perseguição. Finalmente, os bandidos eram capturados.
No dia seguinte, menos tensos, com mais uma boa dose de paliativo para aceitarem a situação social em que viviam, todos comentavam o esplendor do espetáculo e todos pretendiam ter sido aquela figura que, no final, planeava passar o resto dos seus dias com a bela menina que amenizava tão brutais costumes.

Já nem sei como posso agradecer ao NA...

sábado, março 26, 2005

O Santuário da Irmandade de Sangue




Havia um estranho ritual entre alguns oureenses baseado no que se lia nas revistas de quadradinhos. Fazer uma pequena incisão no pulso, juntá-lo com o de um amigo de toda a confiança e, a partir daí, ficavam irmãos de sangue.
O Luís Nuno deve ter sido quem reuniu mais irmãos, tendo trazido a essa qualidade o Humberto e o Jó Rodrigues.
Um dia, por trás desta porta, tive uma conversa com ele sobre este assunto. Esperávamos o Manel, já não me lembro o que se guardava por ali, mas era um espaço agradável, talvez o melhor local para se instalar o «Santuária da Irmandade».
O Luís falava em termos de aliciamento para a causa, no que já era um perito, mas eu nunca me senti muito atraído, incisões e outras coisas sempre fizeram impressão e, como sabem, a coragem não abundava. De modo que a nossa amizade continuou sem este ritual um tanto selvagem. 
Mas, nessa noite, algo de extraordinário invadiu os meus sonhos. Parecia que uma corrente de sangue fluía do improvisado Santuário para a nossa ribeira que, progressivamente, se ia tingindo de vermelho cobrindo enorme extensão. Houve quem chamasse àquela zona «Red River Valley»...
E, enquanto eu sonhava, parecia ouvir o som de uma harmónica de boca.

sexta-feira, outubro 29, 2004

Reavivar memórias (3)
O fatinho da comunhão


Os fatos da comunhão Posted by Hello
Mas porque estavam estes distintos tão bem vestidos?
Haveria eleições? No Portugal de então, era bem duvidoso...
Alguma festa especial?
Se calhar a época da primeira comunhão que o espírito democrático da época nos impunha.
Não consigo reconhecer o local, apesar de lembrar ar puro, mas ali estão os três Luíses nascidos em 48 (Luís Nuno e Luís Filipe, à esquerda e este vosso servidor, à direita) e o Manel. Os primeiros estão sorridentes, o último, cabeça ao lado, um bocadinho apreensivo, preocupado.
Em que pensaria naquela altura?

segunda-feira, agosto 09, 2004

O fantástico rugido do «maquitan»

Era uma tarde de futebol no largo de Castela.
Jogava-se com empenho à procura do golo. O Jó Alho era o mais habilidoso, um autêntico médio de ataque benfiquista que só Ourém conseguiu descobrir.
O Manel não lhe ficava muito atrás. Bom a fintar e a idealizar jogo era mais possante e isso dava grande solidez à sua equipa.
O Luís Cúrdia tinha mais um ou dois anos pelo que a diferença física dava de imediato superioridade a quem jogava com ele.
O Luís Nuno era o guarda-redes de eleição. Um autêntico Carlos Gomes, que então brilhava pelo Sporting.
A minha modéstia proibe-me de falar no mais desajeitado ponta de lança que Ourém alguma vez conheceu, mas que, de vez em quando, marcava um golito.
O Zé Rito jogava, relatava e fazia de árbitro.
O Mina Guta trazia rapidez e argúcia a qualquer equipa.
Eram estes e outros heróis que, em certo dia da década de cinquenta do século passado, depois de os capitães de equipa escolherem, após moeda ao ar, os guerreiros de cada lado, procedimento em que, estranhamente, eu ficava sempre para o fim, disputavam renhida partida naquela fabuloso estádio.
A minha equipa já vencia por uns claros três a zero.
De repente, vindo daquela rua que se iniciava frente àquele local onde já funcionou a Dirup, que passava frente à casa do Luís Nuno e ao atelier do Souto(1), ouve-se um fantástico rugido que atroa oa ares.
Os jogadores param apreensivos. Que se passaria? Seria o George a ensaiar, uns cinquenta anos antes, a operação estrondo e terror, já a pensar na famosa cruzada em que se empenharia no início do século XXI?
O ruído continuava enorme e ouvia-se lata a bater sobre lata.
Ao fim de algum tempo, o mistério era esclarecido.
Um carrinho, um Austin de eleição, daqueles mais ou menos de forma semelhante aos actuais Partner ou Kangoo, carregado com balanças, entra pelo largo de Castela em baixa velocidade e com ruído elevado.
Era o maquitan.
Lá dentro, o João Honório gozava o susto que nos tinha pregado.
Excelente pessoa, foi outro dos que puderam desfrutar o prazer de habitar a casa do Largo de Castela, após eu a ter deixado. Tantas vezes lá voltei para ele me emprestar os magníficos Búfalos e Bisontes que possuia.
Agora, ali, estacionava junto à casa da Dona Aurora e permitia que nós, com o devido cuidado, continuássemos o jogo.


(1) Confusão. Era uma atelier onde se fabricavam jaulas para galinhas. Não sei se da responsabilidade de Souto ou Ezequiel Casimiro
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