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quarta-feira, janeiro 24, 2007

Poemas entrelaçados..., 15
Porta #13: O tempo ajuda a curar feridas do passado

Como é que algo que no nosso tempo encarámos de uma forma extremamente negativa, sabendo que representava um período desagradável, nos pode surgir de uma forma brejeira, risonha, passados quase quarenta anos?
É o que me acontece com esta ida às sortes devidamente captada em verso e fotografias. Apreciem os grandes heróis da nossa terra lá para o ano de 196?... São capazes de os reconhecer? Eu penso que, se passar por alguns, me será extremamente difícil.
Passemos então uma esponja pelo desagradável da época. Celebremos com mais um poema...
Esquecimento
Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei… tacteio sombras… que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro…
A sombra dos meus olhos, a escurecer…
Veste de roxo e negro os crisântemos…

E desse que era eu meu já me não lembro…
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos…!

Florbela Espanca - Charneca em Flor

terça-feira, janeiro 23, 2007

Poemas entrelaçados..., 14
Porta #12: Tudo é contingente


Há uma lição que podemos retirar da nossa passagem por este efémero lugar: "No fundo, tudo é contingente", possivelmente, também o é esta afirmação. Sem dúvida que o foram a passagem por Ourém, os bailaricos no Castelo e os intermináveis verões com a Nazaré entre as magras opções. Também o são a prepotência dos governantes quer os vejamos a um nível local, nacional ou mundial embora, naturalmente, venham a ser substituídos por outros que farão igual ou pior... ou talvez não...
Estes merecem uma lápide para recordar as suas más práticas, não obstante em Ourém já restem poucos lugares para a podermos colocar.
No fundo, uma lápide é um marco que deixamos sobre tudo o que nos impressionou na passagem. Como a que decorre deste poema de Torga


Lápide
Quando eu morrer e tu ficares sozinha,
longe do bafo quente do meu corpo,
tu, a quem eu amei, sei lá por vingança
de Deus,
nessa hora,
olha serenamente a nossa história inútil
e chora...

Rega de pura mágoa a flor do «nunca mais»
(sequer ao menos a flor do «nunca mais»)
e depois morde o chão seivado e semeado
do místico perfume do meu sexo
sepultado...

Miguel Torga

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Poemas entrelaçados..., 13
Porta #11: A força dos sentimentos

E será que as materialista criaturas, ao menos por momentos, não conseguem acreditar naquela força dita espiritual que parece conduzir e transformar a matéria? Que nos leva a ter comportamentos dos mais estranhos? Que nos leva a afrontar a lei por amor?
Alguns, como aquela associação sindical de gente fria, dirão e sugerirão que tudo é metodicamente preparado e aproveitado para, aproveitando a fragilidade de outros, atingirmos os nossos fins. Eu não vou nessa...
Deixo a dúvida...
Se calhar, há sentimento, como passou a existir quando subi aquela escada ou como aquele para o qual a nossa Espanca estava sempre disponível.
Amar

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
Florbela Espanca

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Poemas entrelaçados..., 12
Porta #10: O destino marca a hora

Que, mal nascemos, temos o destino marcado é verdade, não tenham dúvidas. Senão, porquê todos os sinais que recebemos antes da concretização?
Quando o Domingos veio ter comigo e com o Jó a perguntar se queríamos ir com ele a Leiria, no bólide negro, levar um pneu, nenhum de nós sonhou com a importância que aquela terra iria ter na minha vida. Também, não imaginámos a sórdida partida que a roda nos iria pregar...
Antes, esse destino já tinha sido anunciado com aquela expressão “Perdi-me”, em momento de exames, que um dos “pastores” tratou imediatamente de parodiar.
Depois, estadias e viagens tornaram-se constantes: a pé, de camioneta, à boleia...
O que existiria por lá para tantas vezes ser chamado?


Olhos cor de mel

Na minha terra houve uma batalha
Para lá fui no meu corcel
Levava o amor que me agasalha
Olhos cor de mel

Era um apelo irresistível
Queriam destruir o meu passado
Mas sou combatente temível
Ninguém me traça negro fado

E eis que ela me adoece
De tanta luta e labuta
E enquanto do martírio padece
As minhas palavras escuta

Lutei contra ricos e poderosos
Contra corruptos e mentecaptos
Denunciei autarcas horrorosos
Que só para a podridão são aptos

Chamei amigos à causa
Seus corações ficaram frios
Cheguei ao fim sem uma pausa
Todos voltaram aos seus navios

Ourém está igual ao que era
Mas tem estórias e memórias
Queria contá-las, quem me dera
Traíram-me por outras glórias

Derrotado, o meu corcel
Trouxe-me de volta à outra terra
Sem os olhos cor de mel
Ficaram no sítio da guerra

Mas lá voltei tantos dias
Triste da minha solidão
E as suas palavras macias
Deram-me de novo razão

Trouxe-a no meu corcel
Para a casa que ainda é nossa
Já tenho os olhos cor de mel
nada mais me fará mossa

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Poemas entrelaçados..., 11
Porta #9: Matar a sede com água salgada

Não tenho palavras para apresentar este poema. Ele é porta para um conjunto de posts que tinham a ver com o ambiente nas aulas na escola em Ourém. Tantas vezes eu afirmo que gostava de lá voltar, rever aqueles livros, pensando até em repetir testes para ter melhores resultados e agora avanço com esta súplica que, apesar de tudo, partilho.
Não há dúvida, o ser humano é pleno de contradições.

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Poemas entrelaçados..., 10
Porta #8: As cartas que eu escrevi!

Diz Pessoa que todas as cartas de amor são ridículas. Mas, no colégio, não tive oportunidade de o ler.
Talvez por isso, também tive as minhas cartas... além de outras.
Foram as cartas da cidade do desterro para a cidade da moura encantada.
Foram os bilhetinhos com que bombardeava as coleguinhas...
Foram as cartas em tempo de guerra...
Foram as cartas de homem mau...
... já não falando naquelas missivas curriculares com que, paciente mas infrutiferamente alimentava as bases de dados dos garimpadores de emprego no Expresso...
Mas estão os meus amigos descansados. Todos esses textos terão tido o seu suporte reciclado ou destruído pelo fogo e pela erosão. Não há viabilidade de publicação.

Todas as cartas de amor são ridículas…
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
D'essas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos

terça-feira, janeiro 16, 2007

Poemas entrelaçados..., 9
Porta #7: Voltar lá

Durante muito tempo pensamos: será que um dia lá conseguiremos voltar e reviver aqueles dias saudosos? Pouco a pouco a esperança vai-se perdendo. A esperança que não a recordação... que nos surge mais difusa, mas que nos assegura que estivemos presentes...
Recordo-vos uma aula de ginástica que não houve e, a partir da qual, cometi o atrevimento de jogar futebol com as sapatilhas brancas. Mas será que acreditam que havia alguns que também teimavam em voar... ou em fazer rebolar pedras na direcção do colégio a partir de uma encosta que tantas vezes era cenário de jogos de batota e um dia teve um parceiro inesperado.
Esta porta tem elementos em número excessivo, diz-se que quando alguém começa a recordar, muitas coisas aparecem em catadupa... como por exemplo o prato voador que procurou o director ou a bala traiçoeira.
É todo um ambiente que este poema de Tolentino de Mendonça nos traz à memória: também nós tivemos um Pico Ruivo...


Pico Ruivo
Todo o verão amontoei pedras e as dispersei
vigiava nuvens e sombras pelas fajãs
a mesma solidão perigosamente
transcrita naquele cinzento avermelhado
sob as escamas do céu
urzes sobrevivendo à dura estação
duas ou três cabras, uma tenda

túneis, atalhos, águas geladas
por aí nos conduz a travessia
a folha e a flor pertencem ao vento
um olhar (ainda o meu?) persegue-as entretido
na grande subida

mais abaixo, quando principiava a vereda
manchas de líquenes cobriam de igual modo
o nome dos lugares onde iremos
e dos lugares onde não chegaremos

Tolentino de Mendonça

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Poemas entrelaçados..., 8
Porta #6: Tudo perder...


E que dizer de tudo que ao longo destes anos temos vindo a ser desapossados na nossa terra? O processo começou muito cedo. Primeiro, foi o afastamento, uma espécie de emigração. Isso traduziu-se na perda dos espaços frequentados durante anos e anos. Espaços, onde também tivemos desilusões, verdades que abruptas caiam em cima da nossa ingenuidade. Mas que possibilitavam um ambiente magnífico... E que dizer da bondade dos mais velhos que nos transportavam, na fiel viatura, para todo o lado, ajudando a abrir os nossos olhos para um mundo diferente onde ainda não havia este sentimento de perda?
É altura de chamarmos mais um poema de Pessoa:

Mágoa
Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.

Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego -
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.

Fernando Pessoa, 3-9-1924.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Poemas entrelaçados..., 7
Porta #5: E que um dia, como um raio, a verdade lhes caia em cima...!!!

E, de repente, a verdade, nua e crua, caiu em cima de nós.
Afinal, não havia Pai Natal.
Afinal, o Sol não anda à volta da Terra.
Afinal, os olhos em que inventámos amor eram apenas amizade.
Afinal, o governo teve de aumentar os impostos e, em vez de distribuir a riqueza, o que fez foi socializar a miséria, isentando disso uns tantos: é o socialismo à moda deles.
É-me sempre difícil interpretar o que está escrito num poema. Ele transmite sentimentos que, geralmente, não estou capaz de captar. Por isso, o que posso fazer é associar-lhe pedaços ou espaços de uma vida passada. A minha crença nas prendas que nos chegavam não sei donde, o acreditar na bondade natural das pessoas, o sentimento da durabilidade eterna das representações e dos espaços da juventude.
Hoje, esse acreditar nas ilusões de menino está totalmente exorcizado: a vida encarregou-se de tal conseguir. E parece-me que é isso que está expresso neste poema da Carmen Zita cuja bondade (que afinal ainda existe como qualidade humana) foi enorme ao oferecê-lo ao OUREM:


Verdade

Os solitários castelos de areia
não fazem barulho ao ruir.
No entanto,
é tão sibilante o som
que invade (sem licença) esta voz
que os versos,
que se queriam luminosos,
tenebrosamente se consolidam
em chuva.
Disfarçar o silêncio
com cantos tristes e compassados
não ajuda:
A máscara não assenta bem
nos rostos desiludidos.
Há um qualquer pormenor
que denuncia o engodo.

Carmen Zita Ferreira

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Poemas entrelaçados..., 6
Porta #4: Amigo da bicharada

Há dias, estava no Central e ouvia o miar lancinente de uma série de gatos, entretanto abandonados pelo facto de a sua dona estar numa condição física que não lhe permitia prosseguir o tratamento. Vistos do café, em cima do telhado, ao fim do dia, com restos de Sol projectados sobre eles, mostravam toda a sua beleza. Mas a situação não deixava de ser muito triste e a questão ocorreu imediatamente: não existirão serviços na autarquia que os possam recolher, tratar e eventualmente reencaminhar para adopção?
Ourém, noutros tempos, era uma terra amiga da bicharada. Que o digam os familiares do médico veterinário que nos legou um Caderno de apontamentos e cujo carteiro procurava o devaneio nocturno. Que o diga a estória do gato cirúrgico ou a paciência do Tejo naquele dia em que resolvi dar-lhe um banho.
Mas mais enternecedor que tudo isso é, com certeza, este poema de António Gedeão que nos traz a preocupação do ser humano com estes amigos quando sente a inevitabilidade de os vir a abandonar.


Poema do gato

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta pra trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre pra mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

António Gedeão

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Poemas entrelaçados..., 5
Porta #3: A Perdição como destino

O tema “Perdição” sempre teve múltiplos motivos de aplicação em Ourém. Era a perdição pelos olhos de uma linda menina, era a perdição pela prova do palhete que acabava a cura na pipa...
Na infância, também me acompanhou: uma vez, foi-me trazido por uma castanhola que quase me tornou um marginal em relação aos bem-comportados; mas houve também uma famosa viatura, o chamado carrinho do palhete.
Ourém não perdeu esta tendência e, hoje, enquadrada por um poder autárquico que vê no falso desenvolvimento das negociatas e do favor ao capital a razão de existir, entra em definhamento imparável. Os oureenses perderam a chama, a vida, a identidade e as referências da magnífica terra que herdaram.
A Perdição, enquanto resultado da entrega ao amor, foi-nos dada a conhecer na letra de um fado que, um dia, Cristina Branco, nos trouxe:


Fado perdição

Este amor não é um rio,
tem a vastidão do mar.
E a dança verde das ondas
soluça no meu olhar.

Tentei esquecer as palavras
nunca ditas entre nós
Mas pairam sobre o silêncio,
nas margens da nossa voz.

Tentei esquecer os teus olhos,
que não sabem ler nos meus.
Mas neles nasce alvorada,
que amanhece a terra e os céus.

Tentei esquecer o teu nome
arrancá-lo ao pensamento
Mas regressa a todo o instante
entrelaçado no vento.

Tentei ver a minha imagem,
mas foi a tua que vi
no meu espelho porque trago
os olhos cheios de ti.

Este amor não é um rio
Tem abismos como o mar.
E o manto negro das ondas
cobre-me de negro o olhar.

Maria Duarte

terça-feira, janeiro 09, 2007

Poemas entrelaçados..., 4
Porta #2: Saber guardar segredos

Naquela idade e, talvez, em todas as demais, era importante apreender, guardar e calar para um dia partilhar com quem mais apreciávamos. Passou-se isso comigo...
Vocês não calculam o aspecto daquelas varas e as funções que eu sonhava para elas depois de cuidadosamente ter removido a pelica que as cobria. Mas os netos da Júlia padeira, primos do Quim e do Julito, não permitiram que a brincadeira chegasse ao fim. E um dia o arraial foi enorme no largo onde se inicia a Rua de Castela e a mãe deles acabou ferida por um golpe de uma das varas..
Como que para festejar esse arraial, um dia, eu e Mina Guta decidimos atirar arames pelos ares e destruímos os fios eléctricos que iam de casa da Aurorita - aquele formidável albergue que, às quinta-feiras, no quintal, guardava as carroças, as mulas e os burros que traziam os donos ao mercado - para a casa do Souto. Na polícia, não falámos, mantivémos o segredo até ao fim, independentemente das suas manobras para nos confundir, e tiveram que nos libertar.
E se, por acaso, vos fiz crescer o desejo de recordar mais alguém também perito em guardar segredos, vejam este delicioso poema de Torga:

Segredo

Sei de um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

Miguel Torga, in Diário VIII

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Poemas entrelaçados..., 3
Porta #1: Abertura


O primeiro poema e os primeiros textos são como que uma dedicatória e um foco no local da acção. A dedicatória abrange todos os amigos: os do Poço e os não do Poço, os presentes e os ausentes, os resistentes e os desaparecidos, o que desde logo é visível na capa. O local é a saudosa Aldeia de Castela que o actual poder autárquico (que quer gastar o mínimo), com alguma cumplicidade de proprietários (que querem receber o máximo), persegue para destruição sem um mínimo de respeito por toda a história que guarda.
Retornamos assim ao Esquema geral da Aldeia de Castela e às Memórias do infante.
Quanto ao poema, também já aqui publicado, não poderia ter melhor título:


A todos e a cada um dos meus amigos

Por um por todos por nenhum
faço o meu canto canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.

Por nenhum por todos ou por um
eu dou o meu poema o meu tecido
de palavras gravadas com o lume
do medo que na voz trago vencido.

Por nenhum por um mesmo por todos
sou a bala e o vinho sou o mesmo
que pisa as uvas os versos e o lodo
num chão onde a coragem nasce a esmo.

Joaquim Pessoa
in Poemas de Perfil

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Poemas entrelaçados..., 2

Esta é a capa (e contracapa) que idealizei para o segundo volume do "Ourém em estórias e memórias". Não sei se reconhecem os distintos que nela aparecem, eu ajudo: os três Luíses nascidos na aldeia de Castela e o Manel...
Ao longo das próximas semanas divulgarei o seu conteúdo. Nada tem de novo, pois tudo foi publicado no OUREM. A organização, essa, é diferente: cada poema (e são catorze) é uma porta para uma ou várias estórias passadas na nossa terra. Gosto do efeito conseguido...

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Poemas entrelaçados com estórias da nossa Ourém

A actividade editorial dedicada a Ourém vai prosseguir, agora com a produção do segundo volume do "Ourém em estórias e memórias", portanto, a quarta peça do projecto com o mesmo nome (que não ficará por aí).
O objectivo deste livro continua a levar-nos à exploração de recordações da doce Ourém dos anos cinquenta e sessenta tão maltratada por gentes de agora.
Estas recordações foram sendo publicadas neste blog, alternando com poemas e com legendas de canções. Resolvemos, por isso, reproduzir parte desse efeito neste livro: as estórias de Ourém são antecedidas de uma porta que é um poema de alguém de méritos já reconhecidos e que vem, assim, contribuir para a elevação das nossas humildes linhas à categoria dos seus produtos. O efeito parece-nos extremamente benéfico.
Surgem-nos, assim, neste livro poemas de Álvaro de Campos, António Gedeão, Carmen Zita Ferreira, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Joaquim Pessoa, Maria Duarte, Miguel Torga, Tolentino de Mendonça e, claro, daquele prolífero autor que teima em não vos largar.
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