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quarta-feira, junho 08, 2005

O gerico do Clemente

Que mártir, as 5.as feiras,
Quando ia para o mercado
Carregadinho, ajoujado
Com sacas, fardos e ceiras!

Se eu lhes disse que o jumento
Carregava como um macho,
Palavra que nao invento,
Calculo ainda por baixo.

E era tao forte o costume
Que fôsse o peso qual fosse,
No seu olhar triste e doce
Nao se lia um azedume.

Um dia, vendo-lhe as chagas,
Compadecido, o patrao
Resolveu, com muitas pragas,
Melhorar-lhe a situaçao.

E pôs-lhe em cima um carrego.
Tao leve, tao maneirinho,
Que até no dedo mendinho
O levaria um galego!

Pois, nao lhe digo mais nada!
O pacientíssimo bruto,
Ao sentir sôbre a lombada
Um peso tao diminuto,

Pôs-se aos coices a zurrar,
A recusar o serviço
E naquele reboliço
Atirou a carga ao ar!

Conheço muito casmurro
Que, em sendo tratado bem,
Agradece como o burro
De Vila Nova de Ourém.


(Do livro Fábulas e historietas de Acácio de Paiva) in, Notícias de Ourém de 07-04-1935
Via Notícias de Ourém
SONETO SOBRE LEIRIA

Minha terra velhinha! Assim te quero,
Ente as olhalvas frescas, pequenina,
Teu Lis saudoso, teu castelo em ruína,
Teu ar de monja, tímido e severo.

Assim te represento e te venero,
Te possuo em minh'alma e na retina.
Deixei-te muito cedo, porque é sina
Fugir de quem mais amo e mais espero.

Ela me arrasta, força e descaminha,
Mas não me esqueces, terra doce e triste,
Vetusta jóia de precioso engaste.

Em cada pedra tua, em cada ervinha,
Quantas vezes comigo tu sorriste
E, só porque eu chorava, tu choraste!


Acácio de Paiva
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