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quarta-feira, março 21, 2007

Marca #15: Quim

O Quim foi o grande companheiro das horas perdidas em Ourém quando, sem nada para se fazer, lá surgia a oportunidade de jogar bilhar ou dar uma passeata a pé, conversando, conversando, conversando...
Calmo, dotado de notável paciência, cedo começou a construir o futuro enquanto nós outros mantínhamos o vínculo à boa vida.
As suas características (pessoa mais calma, mais silenciosa) e o seu maior afastamento devido a abraçar mais cedo o trabalho podem fazer parecer que interveio menos nas nossas estórias. Mas estou em crer que não foi bem assim. Ele era uma espécie do silencioso presente... Muitas vezes, e felizmente nunca perdemos o contacto, traz-me pormenores que só eram possíveis de ser conhecidos por quem lá estava.
É verdade. Ele tinha notável capacidade de retenção. O seu cérebro funcionava já como que uma verdadeira máquina fotográfica. Registava tudo. E o seu exemplo parece ter influencido os seus descendentes, não é?
Boa recordação, o Quim!

terça-feira, dezembro 07, 2004

Um amigo tranquilo

 A partir de certa altura, em Ourém, quando as férias terminavam, tornava-se difícil arranjar companhia para partilhar a passagem, porque muitos amigos iam estudar para outras terras.
Era aí que ganhavam importância aqueles que, obstinadamente, encontravam na sua terra, a razão de viver.
Um deles acompanhou-me naquelas noites frias pela ruas de Ourém dias sem conta. Jogávamos bilhar no Central, depois passávamos ao Grémio do Comércio.
Era uma pessoa muito tranquila com a qual de tudo se podia falar, pois sabia ouvir e sabia dar a sua opinião.
Um dia, deixei de o ter por companhia. Quando passava direito à casa da Rua de Santa Teresinha, via-o num escritório mais ou menos frente ao sítio onde era o café Parreirinha. Lá estava a aprender a viver, a fazer algo de útil, a fazer aquilo a que hoje chamaríamos, indignados, trabalho infantil, enquanto muitos de nós andávamos por ali a passar tempo.
Voltei a encontrá-lo muitas vezes e, também, no último Poço. Sei que vem muitas vezes ver este espaço e que conhece alguns posts pelo nome. Falámos sobre tudo isto e sobre a minha fixação no passado. De um modo tranquilo... mas com imenso gosto por recordarmos anos de uma saudável amizade que parece reforçada à medida que o tempo vai passando.

quinta-feira, maio 27, 2004

O Piromaníaco

Recordo Ourém, há cinquenta anos, talvez lá para 1953/54 ou mesmo antes.
Desfrutava a magnífica casa do Largo de Castela.
A partir daquela janela sobre a porta de entrada, dominava todo o espaço circundante.
Em frente, a rua que conduz à avenida. Mais ou menos a cinquenta metros, ficava a casa da Vizinha e do Rafael. Ela era uma espécie de terceira mãe sempre pronta a proteger-me em momentos difíeis, ele um verdadeiro avôzinho que me levava a passear pelos pinhais e até ao rio para que, de lingrinhas, ultraleve e doentio, me transformasse em alguém forte e saudável.
Mais abaixo, a casa do Luís Nuno e do Zé Rito à frente da qual ficavam os quintais onde o sr. Isidro guardava as galinhas que transacionava. Ao fundo e, já a dar para a avenida, o estabelecimento comercial do sr. Adelino e, do outro lado da rua, um sítio onde me lembro que se comprava carvão.
O largo de Castela, famoso pelas formidáveis partidas de futebol que possibilitava, era rodeado por mais duas casas relativamente habitáveis e por outra em piores condições. À direita, era a padaria da Júlia padeira e do sr. Zé Maria, avós do Fernando e do João, dois miúdos ultra-arreliadores primos do Quim e do Julito. Ela era a fornecedora do magnífico pão que podíamos saborear na época; do lado esquerdo era a casa da Dona Aurora, mãe da Aurorita que me ensinou as primeiras letras e números.
Em frente à padaria e do outro lado da rua, numa casa que penso que ainda lá está, o Souto dedicava-se ao trabalho artesanal de construir jaulas em madeira, cortando pacientemente pequenos pausinhos e descacando-os com uma navalha para depois os assemblar em estruturas mais complexas. Eu passava horas e horas a contemplar esse trabalho, embevecido e sem pensar nos pobres animais que iam ali ser guardados e torturados.
Por vezes, o espectáculo a partir da casa era mais animado. Se não estou em erro, regularmente, pelo dia três, realizava-se a feira do mês no largo junto à escola da Dona Iria, perto da prisão da GNR. E a rua de Castela enchia-se das mais diversas espécies de animais - ovelhas, carneiros, cabritos, burros, vacas, mulas - que a desciam para se dirigirem ao largo da feira onde eram transacionados. O ruído dos chocalhos, a mistura dos sons produzidos pelos animais e pelas pessoas que os controlavam, o seu tropel eram magníficos dando a tudo aquilo uma sensação que de semelhante só se encontrava nos filmes do Oeste com as cavalgadas junto aos bisontes ou a manadas de gado tresmalhadas. Eu abria a porta e via todo aquele ondulado barulhento a passar. Depois era de novo o silêncio, a rua ficava um pouco suja com excrementos do tipo azeitona e, no mês seguinte, lá se repetia a história.
Mas o objectivo do nosso post de hoje é a casa do largo de Castela.
Vamos até lá e entremos.
Logo do lado direito, uma escada conduzia-nos à parte superior da casa. Subindo-a, há que fazer um ângulo de noventa graus à esquerda para termos acesso às várias divisões.
À direita, existia uma casa de banho com um anexo que, com uma escada, permitia o acesso ao sótão.
Em frente, era o quarto do meu irmão. Lembro-me que ele tinha uma cama de metal toda bonita, uma mesa de cabeceira onde religiosamente guardava a colecção do Mundo de Aventuras que eu, com a mania de tudo ler, e, aproveitando uma possibilidade de acesso retirando a gaveta superior, contribuí para destruir e uma pequena estante com um rádio onde, na época, se ouviam delícias como os folhetins do Tide e do Omo, adaptados por Alice Ogando e cujo começo era mais ou menos assim: Teatro Tide apresenta.... a gata...
Do lado esquerdo era o meu quarto, do qual tenho a primeira recordação desta minha passagem por este efémero planeta, onde tive a honra de conhecer os meus excelsos amigos, e que se resume simplesmente a isto: um acordar, sentindo qualquer coisa junto aos dedos que se ia desfazendo e que era, afinal, a parede do quarto que eu riscava com as unhas. Ao lado, era o quarto dos meus pais.
Na parte de baixo, a casa tinha menos divisões devido ao espaço que a monumental escada ocupava. Assim do lado esquerdo, tinha uma verdadeira sala de jantar, onde a minha mãe, à quinta-feira, escondia as tangerinas que eu depois me entretinha a procurar para meu exclusivo proveito.
Em frente, era a cozinha que tinha uma despensa relativamente grande. Na altura, ainda não tínhamos fogão a gaz, pelo que o fogareiro de petróleo e aquele fogareiro a carvão do tipo que se utiliza quando fazemos grelhados nas praias eram os mais usados. Assim, em minha casa, na despensa, havia sempre caruma e carvão. E um dia a contemplação daquela caruma deu-me uma brilhante ideia.
Estava sózinho na parte de baixo, ouvia-se o Tony de Matos:
O vendaval passou, nada mais resta...
e eu, pé ante pé, vou até à cozinha para me apoderar dos fósforos, dirigindo-me posteriormente para a despensa. Risquei o primeiro fósforo e, depois de aceso, atirei-o para cima das carumas.
Frustrado, vi que se apagou no ar, pelo que pensei logo em repetir a operação. Como não era muito corajoso, não me aproximei suficientemente e o resultado era sempre o mesmo: fumaça e algum cheiro...
E estava eu todo entretido nesta operação que, mais tarde, me lembraria o que possibilitou aquela cena de Nero a contemplar Roma, quando oiço a voz da minha mãe: Oh Luís! O que é que estás tu a fazer?
Gelei, fiquei paralizado. Só me ocorreu uma resposta: era para ouvir a sirene dos bombeiros...
Não sei se a a sova foi grande ou pequena, sei que deu para fugir de casa, ir até à casa da Vizinha, para me acolher à sua quase maternal protecção, dar umas voltas a fugir em torno da cama, enquanto a minha mãe, ainda relativamente jovem, me perseguia com algo na mão e que eu não queria que me fizesse chegar a roupa ao pelo.
A Vizinha, sempre conciliadora, lá conseguiu acalmá-la e o caso ficou por aqui depois de eu fazer mil promessas de que nunca mais repetiria tão valente feito.

domingo, maio 23, 2004

O tiro saiu pela culatra II
ou... é preciso repor a verdade histórica


Amigo Robalo (Luís é bonito, mas este peixe, por menos informal, transporta-me a outros mares, atlântidas desaparecidas, mas persistentes nas memórias)
Bem, li a história e… quem conta um conto acrescenta um ponto, não é assim?
Vamos lá então.
Lembro-me que éramos para aí uns catorze, entre os quais o ZD que
desenhou uma caveira com a pólvora, do modo a que, quando esta se incendiasse,projectasse a imagem desenhada. Assim, perto do cemitério, estás a ver o efeito!!!
A ideia era assustar a mulherzinha que vinha com o alguidar de roupa à cabeça, mas o homem da bicicleta dos pneus grossos (à francesa) adiantou-se e, a precipitação originou, como muito bem disseste, uma monumental chamuscadela na tromba do K.
Fomos direitos ao chafariz que havia à porta da casa do Abel Faria (pai do Aguinaldo e do Vitó que têm uma bomba de gasolina perto da taberna do Frazão) e, armados em ferreiros, metemos a cabeça do K debaixo da água que corria da torneira, qual ferradura incandescente. O cheiro a grelhado era intenso e o cagaço também andava por aí.
Resolvemos então ir até à farmácia que estava de serviço que era a do Dr. Verdasca. Entrámos, o K, o meu primo Q (irmão de J) e a minha pessoa.
Estavam o dr. Verdasca e o dr. Oliveira em amena cavaqueira quando entrámos por ali adentro.
Diz logo o dr. Oliveira(padrinho do K): -Ó Arquimedes (era assim que ele o tratava) o que é que se passou?
O K, nada, não piava.
Respondi eu:
-Foi com uma bicha!
-Dr. Verdasca: Bicha?! Nã, isso foi com água a ferver
-Dr. Oliveira- Não me parece, pelo aspecto deve ter sido ácido.
Bem entre o ácido e a água a ferver, lá nos aconselharam a ir ao hospital para fazer o curativo.
Quem estava de serviço era uma enfermeira, tipo peso pesado que, sem hesitar, besuntou o trombil do K com uma pomada que o rapaz até fosforescia.
Era preciso ir pôr o K a casa. Saímos do hospital e lá fomos os três: eu, K e Q. Assim que saímos a porta de ferro do velho hospital, ouvimos uma voz de aflição a gritar no meio da rua: ó R, Ó R! Deixámos que a mãe do K passasse e escondemo-nos na antiga garagem do Zé Leal que, como te deves lembrar, ficava encostada à casa do K. Entrámos e por pouco íamos caindo no alçapão utilizado para a reparação e lavagem das camionetas.
Não sei que por artes, a mãe do K descobriu que estávamos ali escondidos e, junto ao portão grande da garagem pôs-se a gritar: Sai daí, eu sei que aí estás! Depois de repetir a dose não sei quantas vezes e, talvez comandado pelo desespero ouve-se a voz do Q (que era –ainda é- gago: Nãããã tátátá cácá ninninguém!
E foi assim que a história terminou, que não pró K que parece ainda teve espaço para levantar uma monumental carga de porrada.
Peço que não repares na forma como a história está escrita, porque ela saiu de rajada e foi assim que ficou.
Fala com o Q. Talvez ele possa acrescentar ou tirar alguns exageros que, como sabes, de tão contados dão em lenda.
Grande abraço
Zéquim

terça-feira, abril 13, 2004

Distintos Oureenses
Conheceram-me pouco depois de ter aparecido neste mundo. Jogámos à bola no magnífico Largo de Castela e na feira do mês. Disputámos corridas bem cronometradas no interior do belíssimo jardim junto da Câmara, já desaparecido. Esfolaram-me e foram esfolados ao King no Avenida e no Parque da vila. Enfrentaram-me ao bilhar no Central e no Grémio do Comércio. Tal como eu, esperaram pelo Mundo de Aventuras e pelo Condor Popular e, se eram bem comportados, chegaram a ler o Cavaleiro Andante. Tiveram o privilégio de ouvir os Animals, os Beatles, os Stones, os Bee Gees e os Moody Blues exactamente no momento em que as suas músicas surgiram. Acompanharam-me para quebrar a solidão nas noites de Ourém onde o maior ruído era o que provinha dos Mééé de inocentes carneirinhos ali para os lados da casa do sr. Lúcio.
Um deles, mesmo sem alguma vez conversarmos, teve influência decisiva na formação do meu pensamento. Elaborou cadernos de Política Económica Economia Política. Escreveu O que é o Mercado Comum que li com sofreguidão. O mesmo interesse manteve-se em O que é o Comecom. Colaborou no Notícias da Amadora com o Carvalhas, o Blasco, o Eugénio, quando escrever era um exercício de risco e aquele jornal formava com o Comércio do Funchal e o Jornal do Centro um bloco fortíssimo na ataque à ditadura e suas manifestações.
São estes os distintos oureenses. Distintos porque, por qualquer acção, ultrapassarm o limiar da indiferença na minha perspectiva. É deles que, muitas vezes, falo, é para eles que, muitas vezes, escrevo. É isso o que acontecerá em próximos posts.
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