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segunda-feira, janeiro 20, 2020

O prazer de fumar

Comecei a fumar a sério no meu segundo ano em Leiria quando completava o antigo sétimo ano. Na altura, o Rui Themido tinha ido para lá e um domingo convidou-me para irmos até a um café nas arcadas da Praça Rodrigues Lobo. Ali, estivemos toda a tarde e, a certa altura, ele puxou de um maço e ofereceu-me um cigarro.
- Toma. Fuma um cigarro…
Bebemos o café e, depois do primeiro cigarro, ofereceu-me outro e disse-me:
- Agora, engole o fumo.
Lá tentei e confesso que não me saí muito mal, pois não desatei a tossir como muitas vezes via acontecer com os novos dependentes do hábito. Passámos a tarde inteira na conversa e confesso que gostei da sensação que o tabaco me tinha transmitido.
No dia seguinte, comprei o meu primeiro maço de tabaco e, a partir de então começou uma viagem maravilhosa pelos prazeres da nicotina.
Gostava especialmente dos cigarros após as refeições e o primeiro da manhã tinha um sabor especial. Mas o ritual associado ao tabaco era outra coisa.
Conduzir um automóvel com o cotovelo sobre a janela e um cigarro na mão enquanto olhava desprezivelmente os que caminhavam a pé…
Enfrentar um novo problema, mas, antes disso, puxar do cigarro e iniciar um profundo processo de concentração…
Também gostava de observar os outros quando fumavam. O jogo do King era particularmente elucidativo nesse aspeto. Por exemplo, o Kansas, quando estava atrapalhado, aspirava profundamente o cigarro e depois soprava longamente. Era um notável fumador, um fumador que eu admirava pois conseguia fazer rodelas de fumo que evoluíam no ar com significativo encanto quando expulsava o que tinha nos pulmões.
Nunca consegui fazer essas rodelas de fumo e o malvado do Kansas nunca me ensinou talvez para me irritar durante o jogo. Mas eu ficava fascinado com as mesmas.
Bom, um dia o prazer do tabaco teve de terminar. Um médico, aos 28 anos, disse-me:
- Ou o meu amigo para ou…
E eu preferi parar. Mas ainda recordo com saudade aqueles processos de profunda concentração que o tabaco me proporcionava e sinto, garanto que sinto, a falta dele…

quinta-feira, dezembro 26, 2019

Às do pedal

Olhem que linda prenda de Natal se podia ter há uns cinquenta anos. 
A energia exercia-se no pedal e era sustentada pela força de cada um. Nem a jovem Greta se atreveria a contestar a sua bondade.
Apesar de conduzir tão distinto objecto, fazia-o por especial deferência do Rui, o proprietário legal do NI-11-71. 
Hoje, olho para a foto como se tivesse sido meu. É que a sua importância reside nos momentos que proporcionou e na magnífica partilha de que foi alvo.

quarta-feira, outubro 16, 2019

Garmpeiro musical

Voltemos ao Jó Rodrigues, presença assídua na minha casa, num pequeno morro na rua Santa Teresinha, frente à do Zé Quim e ao lado da dos padrinhos do Rui Temido.
O seu sentido de audição musical era notável: ele conseguia descobrir no meio das músicas, escondidas sob as vozes, os solos, as baterias, pequenas pérolas que, sem o seu apoio, a nós, sempre com um ouvido para o mais comercial com certeza escapariam. Era um autêntico songs mining. Isto fazia com que, muitas vezes, conseguisse transformar uma canção insuportável em algo em que nós abstraíamos daquelas partes fastidiosas para esperarmos pacientemente pela passagem maravilha.
Parece-me que estou a vê-lo. Um dia entra pela casa, sem bater como era nosso apanágio, sentamo-nos na sala interior e eis-me a ser objeto de revelação: estive a ouvir o Tell me you are coming back dos Stones e aquilo tem um solo que é um tratado. E lá íamos nós a procura do solo e ficávamos a adorar o disco. E se era difícil na época gostar dos Rolling Stones
Noutra ocasião, referiu-se a um conjunto que teve um êxito retumbante com apenas uma música: os Turtles e o Happy Together. Sabes, Luís, lá pelo meio, depois daquela parte mais rápida, quando eles começam de novo “Me and You...” aparece uma música de fundo tão linda como eu nunca ouvi. Hás-de ouvir.
E era bem verdade, tão verdade que nunca consegui esquecer esses pequenos pedacinhos da nossa maravilhosa vivência nem quem me ajudou a descobri-los.


sexta-feira, outubro 04, 2019

A grande desilusão


Um dia, junto ao tanque das banhocas da trupe, o pai do Rui fez-me a sacramental pergunta frente aos outros:
- Então, Luís, e vai estudar para ser o quê?
Eu sabia lá, embevecido que andava com estórias de cowboys. Nenhuma profissão daquela gente de fatos cinzentos ou das de fato macaco me seduzia. Imaginava-me cavaleiro solitário de viola na mão ou como pistoleiro em cidade selvagem para a qual traria a ordem ou galanteador perante aquelas fabulosas meninas que se cruzavam no caminho do Cisco ou de outro dos nosso heróis.
Mas que havia de responder? Eu sempre abusei da sinceridade em momentos críticos como este.
- Eu quero ir para a América para ser cow-boy.
Ficaram de boca aberta.
- Mas já não há cow-boys hoje...
- Não há. Mas eu vejo-os nos livros e no cinema.
- Mas o que lá vê passou-se há quase cem anos ou mais. Agora o mais que lá encontrará serão alguns ranchos e o tratamento de gado...
Fiquei de todo. Lá se foram os meus sonhos... como era possível todas as ilusões irem por água abaixo de um momento para o outro.
Nessa noite, passaram pela minha frente todas essas figuram que tanto me diziam...

terça-feira, abril 18, 2006

FL-22-08, o acelera das retas infinitas

Era a matrícula de um dos carros de estimação da nossa juventude. Um magnífico Simca Aronde, cinzento, religiosamente guardado numa garagem sobre as ruínas da qual foram construídas as instalações da EPO e mantido em estado impecável.
O proprietário era o Sr. Ferreira, padrinho do Rui, sempre disponível para nos transportar para Tomar, Leiria, Nazaré e outros passeios.
A sua confiança no bólide era de tal ordem que, quando pronunciava a matrícula, o fazia de forma a ouvir-se claramente “FieL”, vinte e dois, zero oito.
Mas quem o topava bem como condutor era o Vitor Guerra.
- Sr. Ferreira, meta-lhe a quarta...
- Tenha calma, Vítor – respondia ele – deixe-me chegar àquela recta, lá ao fundo...

quinta-feira, abril 28, 2005

Louvação ao Fio de Azeite mal amado

Se queres batata e couves
com um sabor divinal
não esqueças o fio de azeite
sabe bem e não faz mal



Publiquei uma foto sobre o antigo cine-teatro de Ourém, porque queria dedicar umas palavras à pessoa que foi o seu responsável, o José Melo.
É que tenho aquela sensação que Ourém nunca foi inteiramente justa com esta figura.
O Melo foi uma das pessoas mais dinâmicas da nossa terra. Talvez tenha tido o azar de nunca ter feito grande fortuna e, portanto, não passou para o rol dos que são sistematicamente mencionados, porque o dinheiro traz credibilidade, respeito.
Mas foi o responsável por, durante muitos anos, termos o melhor cinema a que uma terra de província com um pequeno número de habitantes poderia aspirar.
Montou uma tipografia que ainda funciona (1). 
E, zangado com o Notícias de Ourém, criou um jornal, o Ourém e seu Concelho, que é um modelo em termos de publicação. Repito, é um modelo. O jornal é aberto a todas as correntes de opinião. Podem os meus amigos dizer: "mas o que lá se publica não presta...". Eu aceito, quando leio aquele Pinto e aquele Cavaco (2) até sinto náuseas de tanto facciosismo, mas está lá a possibilidade de existirem bons artigos de qualquer corrente de pensamento. Se não os fazem, a culpa não é do jornal.
Por outro lado, encontro no Ourém e seu Concelho pedaços da história da nossa terra muito interessantes. Como aquele sobre a Igreja de Vila Nova de Ourém. Leiam é excelente, até gostaria de a publicar aos bocadinhos no blog. Mas eles não mo oferecem em texto...
Para além do seu dinamismo, o Melo era uma excelente pessoa. Já nem estou a falar dos dissabores que lhe dei com os artigos do tempo à volta do 25 de Abril e que ele engolia sem queixume. É que, antes, há uma história engraçada.




Um dia, ele convidou o meu irmão para passar com ele uns tempos na Nazaré, em férias. Claro está, fui logo atrás. O acordo era ficar numa pensão, comer por lá e o meu irmão vigiava o bom comportamento. Não levava muito dinheiro, mas a malta amiga ajudava. Um dia almoçava com o Rui, outro com o Zé Manel, enfim havia lá tantos que tinha a agenda quase sempre preenchida.
À noite, ia vê-los.
- Ti no nin , dizia o Melo, já jantaste?
- Ainda não...
- Então jantas connosco...
E ali passei uma bela série de dias, guardando o que tinha amealhado para poder aplicar em discos ou banda desenhada.
Excelente pessoa, o Melo... 


Notas: Fio de Azeita, alcunha do Melo
(1) - Tipografia e Jornal desapareceram pouco depois da publicação deste post
(2) - Perdoem, isto foi do calor da época

quarta-feira, abril 13, 2005

A quinta da paciência infinita


A fotografia não deixa ver, mas permite recordar
Ao lado dos distintos, eram os galinheiros. Mais à frente, na habitação guardavam-se os instrumentos de trabalho, palha para os currais de porcos e era o local onde à noite se faziam as descamisadas. Do lado direito, havia pequenas instalações para os porcos, religiosa e diariamente limpas pelo caseiro, o sr. António.
Ao fundo, distingue-se o espaço onde era guardado o que se retirava dos currais, a palha envolta em dejetos que, mais tarde, era aproveitada como fertilizante. Para a direita e em frente, era a quinta que eu percorria quase diariamente para controlar se tudo estava bem.
A rega era efetuada a partir do tanque. A água seguia alegremente por pequenos carreiros que depois eram desviados para a conduzir às couves, ao feijão, às flores. Eu tentava intervir nessa operação, pois fascinava-me a sua entrada naqueles pequenos retângulos e o envolvimento das culturas e, depois, quando a desviávamos para outro, o sorvar da mesma pela terra. Imaginem as secas que dava ao caseiro a pedir para ser eu a fazer o desvio e ele a não me poder dar a resposta merecida por ser amigo dos patrões...
Muitas vezes aproveitava a água e os carreiros para lá introduzir pequenos paus ou barcos de papel e depois procurá-los nos sítios onde encalhavam.
Os donos da quinta suportavam este meu esforço para me divertir com toda a bondade.
Às vezes, ia mais longe, na direcção da vinha (onde está hoje o parque de estacionamento). Um dia, deparei com um cãozito dentro de um poço, a debater-se para tentar sair. Já não sei como, consegui tirá-lo de lá e então reparei que o pobre bicho tinha as patitas da frente em sangue e as unhas todas raspadas de tanto ter lutado.

terça-feira, abril 12, 2005

O tanque dos nadadores persistentes


Com o aproximar do Verão, este tanque era cuidadosamente lavado e os dias ganhavam novo interesse. 
Era o momento da chegada do Rui o que se traduzia em excelente companhia, lanches, idas à piscina a Tomar, leituras, novos discos. E, claro, o encontro com os restantes no Avenida.
Um dos elementos da trupe de nadadores, que não está na fotografia, era, também, o Jó Rodrigues.
Todo este espaço foi destruído e sobre ele construída a Escola Profissional de Ourém. "Uma boa causa", já o afirmei, mas que não me impede de contemplar os invasores com uma certa mágoa. 
Aliás, diz-se que o Rui nunca mais veio a Ourém para não ter de se sujeitar a esta tristeza.
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