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quinta-feira, junho 01, 2006

A bala traiçoeira




Naquele dia, a chegada das aulas teve a acompanhá-la notícia inesperada.
- O Luís Nuno levou um tiro, está no hospital...
Dita daquele maneira, aquela notícia foi um choque.
Luís Nuno, o grande amigo, tinha levado um tiro. Lá fui a correr... não era longe, aliás naquele tempo, em Ourém, nada era longe, nem sequer as pesssoas.
À porta do hospital já havia um aglomerado. A trupe do costume... das janelas as pessoas contemplavam aquele estranho movimento
- O que se passa?
- O Genito deu um tiro ao Luís Nuno...
Olhei acusatoriamente o Genito*.
Ele explicou-se...
- Que é que queres? O Jó Rodrigues veio da caça com a pressão de ar...
Já não me lembro onde estavam. Sei que o Genito tentou imitar aquele gesto dos cow-bois de fazer a pistola rodar em torno do dedo. A pressão de ar estava desactivada com o cano frontal baixo e com um chumbo no interior. O movimento fez com que o cano voltasse à posição normal e o disparo se produzisse.
Mas, naquele momento, o Luís chegou ao pé de nós.
- Então? Então?...
- Têm que me tirar o chumbo que está debaixo da pele...
E voltou para o interior.
Ficámos mais tranquilos. Pouco tempo depois, aquilo estava transformado em mais um estória para se recordar com saudade daqueles tempos. As janelas de onde nos observavam fecharam-se. O Prostes, cujo atelier era ali em frente, retomou o trabalho. O Jó voltou à caça tranquilo (os pobre bichos é que não...). O Genito e o Luís continuaram grandes amigos...

*Cabeça Aguda mais novo, irmão do Duarte que há poucos dias nos visitou...

segunda-feira, maio 29, 2006

O carteiro do médico veterinário

Aquela casa tinha sempre lindas serviçais.
Um homem não é de ferro. Todos os dias batia àquela porta e aparecia-lhe uma linda menina pronta a receber a correspondência. Brindava-o com um sorriso e um olhar cheio de promessas.
Um dia não resistiu.

Deixou cair a noite. Então, pé ante pé, desceu aquela estreita rua que há defronte do hospital. Lá mais em baixo o portão não foi obstáculo à sua passagem. A lua, cheia, convidativa, incitava-o a avançar. Lá dentro podia ver os movimentos dela, deslocando-se de um lado para o outro.
Avançou cuidadosamente até atrás de uma árvore. Tentou fazer-lhe um sinal. Mas ela não via certamente, cá fora estava mais escuro que no interior.
Andou um pouco mais. De repente, sentiu que algo se desfazia debaixo dos seus pés. Sentiu-se cair, mergulhar. Uma massa gordurenta e aquosa cobriu-o rapidamente, mas debateu-se e conseguiu pôr a cabeça de fora.
Que cheiro nauseabundo sentiu! Tinha caído na fossa da casa do médico veterinário…

terça-feira, abril 18, 2006

FL-22-08, o acelera das retas infinitas

Era a matrícula de um dos carros de estimação da nossa juventude. Um magnífico Simca Aronde, cinzento, religiosamente guardado numa garagem sobre as ruínas da qual foram construídas as instalações da EPO e mantido em estado impecável.
O proprietário era o Sr. Ferreira, padrinho do Rui, sempre disponível para nos transportar para Tomar, Leiria, Nazaré e outros passeios.
A sua confiança no bólide era de tal ordem que, quando pronunciava a matrícula, o fazia de forma a ouvir-se claramente “FieL”, vinte e dois, zero oito.
Mas quem o topava bem como condutor era o Vitor Guerra.
- Sr. Ferreira, meta-lhe a quarta...
- Tenha calma, Vítor – respondia ele – deixe-me chegar àquela recta, lá ao fundo...

quarta-feira, abril 12, 2006

Levaram o pé de ferro

Os sapatos já andavam em estado lastimoso. Que é que se poderia esperar? Jogar à bola, subir e descer a encosta dos moinhos, correr pela calçada, pontapear a terra... Enfim, o aspecto nada tinha de animador e por vezes por baixo eu tinha a sensação de possuir ventilador automático.
A tia Elvira não era para brincadeiras. Um dia viu-me aqueles sapatos e deu imediatamente as suas ordens:
- Luís, amanhã esses sapatos vão para o sapateiro. Não quero voltar a vê-los nesse estado.
Tudo bem...
Os sapatos foram e vieram.
Nem calculam o regalo para os olhos que era receber uns sapatos após arranjo. O artista tinha colocado solas novas, lindas. Tinha também engraxado, dado lustro. Eu imaginava o trabalho que ele tinha tido. Aliás, por vezes deliciava-me a contemplar o seu trabalho a juntar novas meias solas. Limpar todo o espaço da aplicação, pôr cola, juntar a sola, cortar com uma faca que tinha capacidade e precisão notáveis. E, depois, depois, enfiá-los num pé de ferro, espetar uns pregos e dar monumental aderência à aplicação.
Os sapatos brilhavam, estavam melhores que novos, eu hesitava entre guardá-los para qualquer ocasião especial ou voltar a utilizá-los nas frenéticas actividades da infância.
Mas a voz da tia Elvira não me deixou qualquer dúvida:
- Luís, já podes calçar os sapatos arranjados.
Confesso que o fiz um pouco contrafeito, com pena de ir estragar aquela obra-prima.
Comecei a andar com os sapatos. Mas, ao fim de algum tempo, comecei a sentir uma coisa estranha, algo que vinha da sola e me magoava o pé, que picava.
Não disse nada.
Sempre fui assim. Resistir até ao fim, até cair...
E o problema é que ao fim de alguns dias comecei a sentir alguma dificuldade em me deslocar. O pé parecia maior, a perna já me doía, mas curiosamente a picada que tinha sentido nos primeiros dias já não a sentia. Que seria?
A minha mãe começou a ver as minhas dificuldades em andar e achou estranho:
- Luís, o que é que tens?
- Nada, nada...
Mas ela não se deu por satisfeita.
- Luís, mostra-me imediatamente o teu pé...
De má vontade, lá tirei o sapato, a meia e mostrei-lhe a sola do pé.
- Luís, o teu pé está um horror, tens de ir para o hospital!
- Outra ves? Ainda há dias foi a história do gato? Não vou...
Mas fui, porque eu próprio já não aguentava. Mais uma vez, o atendimento do enfermeiro Cruz foi impecável (reparem, para comparar, isto era Ourém na década de 50, sem qualquer exagero).
- Tens isto bonito, Luís. Vais ter de levar uma injecção, vou ter de te lancetar...
As horríveis torturas... mas por que vim eu ao mundo?
Ele desinfectou, cortou um pedaço de pele que cobria uma matéria mais espessa, retirou tudo lá de dentro. Lembro-me que parecia uma espinha esbranquiçada... fez o penso e recomendou:
- Agora, tens de ter cuidado: andar sem assentares a palma do pé no chão, se possível compra uma palmilha macia...
Lá me adaptei como pude. Mas a família quis esclarecer o assunto. Passando a mão por dentro do sapato, sentiu-se imediatamente a ponta de um prego.
- Pois, a culpa é do sapateiro.
Fomos falar com o homem que ficou um pouco acabrunhado.
- Sabe, peço muita desculpa. É que roubaram-me o pé de ferro e eu utilizei um calço de madeira para eliminar as pontas dos pregos. Possivelmente, não correu bem com esse...
Imaginam que a partir de então não calço qualquer bota ou sapato sem, previamente, lhe fazer o teste do prego despistado pelo fé de ferro...

quarta-feira, março 29, 2006

Castanhola traiçoeira


Tinha uns sete anos quando participei numa encenação que teve lugar no cine-teatro de Ourém. A recordação já é muito ténue, mas pode ser que alguns amigos tragam mais algum elemento. Tratava-se de uma acção em que um grupo de meninos e meninas, vestidos a rigor, à antiga, eles com uma capa negra, entravam por um dos lados do palco ao som de uma música do tipo "Amor, amor, amor..." dispunham-se na perpendicular relativamente ao público e aguardavam. Depois, chegava um coche e lá de dentro saía uma princesa de inigualável beleza: a oureana mais linda dessa época. Os meninos estendiam as capas no chão e a princesa, graciosamente, aproximava-se do extremo do palco, saudando o público...
Mas chegar aqui não foi tão pacífico como podem julgar.
Tinham-me oferecido uma castanhola e eu divertia-me à brava com ela. Chegava ao Central e fazia "click, clack...", chegava à Marina e repetia a gracinha.
O meu par na peça era, de início, uma adorável oureana que, à ida para o colégio, parava frente à minha casa para irmos os dois. Era uma menina muito simpática, linda...
Já não me recordo porquê, mas penso que a preparação da encenação era numa casa nas traseiras da igreja. Lembro-me de lá estarmos, formando duas ou três filas, enquanto o encenador, Dr. Manuel Afonso (?, eis mais uma dúvida) nos dava mais uns conselhos para tão importante acto.
- Vocês têm de ter muita atenção ao momento em que chega o coche para que o movimento de estender a capa seja um só...
Eu ouvia-o com atenção. Mas, de repente, lembrei-me daquilo... levei a mão ao bolso e... "click".
O encenador calou-se imediatamente. Ao fim de algum tempo, disse:
- Agradeço que sejam obedientes e disciplinados. É impossível fazerem uma boa representação se o vosso comportamento continuar assim...
O problema é que eu só tinha feito metade do movimento. Naquele momento, a minha mão pressionava a castanhola, mas eu não conseguiria aguentar a posição por muito mais tempo.
E aconteceu: "clack...".
Senti como que uma clareira a abrir-se à minha frente na direcção do encenador. Todos a olharem para mim, virados de lado e, lá à frente ele, com ar de poucos amigos. Não consegui disfarçar.
- Luís, não esperava que fosses tão mal-educado. Sai. És indigno de pertencer ao nosso grupo. Sai!
Saí acabrunhado, envergonhado. Fui triste para casa, amaldiçoando o meu acto. Nem sei como consegui explicar à minha mãe ter sido expulso de um ambiente tão recomendável e saudável. O certo é que ela lá me fez apresentar as inevitáveis desculpas e eu voltei à encenação. O problema é que o meu par já não era o mesmo. Dançava bem, dizia-se, mas não era a minha oureana adorável.
A partir daí, nunca mais utilizei a castanhola...

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

O último suspiro do ciclope

Fui pelos campos e, a certa altura, encontrei umas varas de tom castanho esverdeado. Ena! Que descoberta! Eram perfeitas para jogar à espada ou levar o arco ou simular o cajado de peregrino.
Com uma pequena incisão vi que era fácil dar-lhes novo aspeto, pois aquele película superior teria talvez um milímetro e saia em tiras com um leve puxar.
Trouxe-as para casa e passei algumas horas a descascá-las. Ficaram lindas, clarinhas, ainda um pouco esverdeadas. Quando a minha mãe viu aquele arraial, disse logo:
- Vais levar tudo isso daqui para fora, para o lixo...
O quê? A minha obra ia para o lixo?
Mas em breve tive uma ideia salvadora. A casa da Vizinha(1) tinha um pequeno quintal a que a porta do lado direito, sempre aberta, dava acesso. Podia guardar lá o meu tesouro. Juntei o molho de varas e transportei-o para lá.
Os dias foram passando. Regularmente, eu ia ver a minha obra e apreciar como as varas iam ficando cada vez mais secas e claras. Estavam quase perfeitas para ser utilizadas...
Até que uma manhã saí de casa e vi dois vultos conhecidos junto à casa da Vizinha. O Fernando e o João, netos da Júlia padeira. E o mais insólito é que transportavam com eles as varas. As minhas varas!...
Desatei a correr que nem um doido na direção deles.
- Isso é meu. Vão pô-lo onde tiraram...
E tirei-lhes algumas das mãos para as repor no seu sítio. Mas não consegui reaver tudo o que me pertencia, eles não estavam pelos ajustes apesar do arraial que eu fazia. Até que a mãe deles, atraída pelo ruído, veio ter connosco frente à casa da Aurorita.
- Que é que se passa?
- Essas varas são minhas. Façam favor de mas dar...
- Chegam para todos brincar...
- São minhas, quero-as de volta...
Irritei-a tanta que ela pegou em duas ou três varas e quebrou-as sobre a perna, atirando-as desprezivelmente para o chão.
- Vê o que eu faço às tuas varas…
As minhas varas... reduzidas a pedaços, espalhados pelo chão.
Impelido por formidável impulso, agarrei num pedaço e atirei-lho acima, acertando-lhe em cheio na testa de onde, qual ciclope ferido, o sangue jorrou imediatamente. O dia na rua acabou por ali...
Em casa, aquela voz protetora, que nunca esqueço, ouvidas as minhas razões, deixou o apelo:
- Não voltes a fazer aquilo, podem-te prender ou mandar para uma casa de correção...
Curiosamente, nesse momento, na rádio, ouvia-se aquela canção:

Notas:
(1) Vizinha - designação para uma senhora deliciosa que vivia numa casa junto ao Picalimas, casa essa com vista para a varanda do Luís Nuno. Depois mudou para o Bairro Dr. Trigo de Negreiros...

sexta-feira, janeiro 20, 2006

O dia em que a vi pela primeira vez na cidade da moura encantada
Subi a escada levado pelo meu irresistível sentido de futuro melómano. Mal cruzei aquela porta, os meus olhos deram com ela. O impacto foi imediato e nunca se desvaneceu.

Cabelos de ouro
Tom rosado de pele
Eis o meu tesouro
Olhos cor de mel

A partir daquela hora, não a consegui largar. Inventava motivos para a ver, para a acompanhar. Mas do outro lado, a recepção não era calorosa. Sentia-me mal amado, rejeitado.
Aos fins de semana, ao chegar a Ourém, as saudades e o desejo de voltar não paravam de me perseguir. A música era um refúgio. A música em canções tristes, em ambiente que noutras condições não conseguiria suportar:

Le ciel est si beau ce soir
La nuit est si bleu ce soir
c'est lá ou je me sens
perdu comme un enfant
le ciel est si beau portant

Depuis que l'ont se quité
je n'a jamais eu d'eter
soudain je viens d'avoir
envie de te revoir
le ciel est si beau ce soir

Longtemps j’ai atendu
Alongs de ta rue
Mais tu n’est pas venue
Je suis reparti sans rume
tout seul atravers la nuit

Mais je ne veux pas croir
qu'il n' y a plus d'espoir
le ciel est si beau ce soir
le ciel est si beau ce soir

...
(Perdoem os erros). Percebem agora por que as memórias vinílicas têm tanto a ver com a vida oureense?

sábado, dezembro 31, 2005

A primeira vez que ela veio à nossa terra

Levei-a a dançar ao baile de fim de ano. Já não me lembro onde se realizou, mas foi uma noite fabulosa. Tanto oureense cheio de inveja por aquele ser lindo que eu conduzia ao som da música. Não que eu fosse grande dançarino. Aliás, ela era muito melhor do que eu. Mas sentia-me especialmente vocacionado. Para a noite. Para nos dias seguintes ouvir ou adivinhar as palavras que se sussurravam procurando que eu não ouvisse.
Não foi fácil a vinda a Ourém. Armei-me em duro que, assim, todo macho deveria ser. Ela chegou e não lhe liguei nenhuma. Fui passear com os amigos, nem sei se não cometi o pecado de outras paragens planear visitar. Passaram horas e, de repente, as tias fizeram-se ouvir.
- Ai que menina tão bonita esteve cá em casa!
Apanhado, estava definitivamente apanhado. Os procedimentos para a ida ao baile sucederam-se em ritmo vertiginoso. Só foi esquecido um pormenor: o regresso. Mas a boa vontade de um amigo oureense tudo ajudou a resolver e a fazer daquela noite uma das minhas inesquecíveis paragens em Ourém.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

O tio de Lisboa
O tio João viveu em Lisboa durante a maior parte da sua vida profissional.
O seu afastamento, a noção que tínhamos da capital onde de tudo existia para satisfazer as necessidades de consumo, conferiu-lhe uma imagem de sujeito mais rico e importante que, na verdade, contrastava com a sua bondade e a sua afabilidade.
Ainda me lembro da sua chegada, um dia, à casa do Largo de Castela.
- É o tio de Lisboa...
E foi uma festa enquanto esteve connosco.
Houve um ano que tive o privilégio de vir passar uns dias de férias à sua casa de Lisboa. Cheio de paciência, ele trouxe-me no comboio e, depois, a viagem de eléctrico para a Morais Soares foi quase mitológica.
A estadia permitiu-me conhecer alguns cinemas da capital (o Imperial, ainda muito novo, o Max...) a feita popular e as casas de alfarrabistas onde a oferta de livros usados da nossa época era uma atração inigualável, permitindo-me constituir um bom espólio, infelizmente já desaparecido.
Como todo o bom oureense, o tio de Lisboa adorava o nosso palhete e, mal se reformou, veio para a santa terrinha.
...
Era mais um Natal, talvez uma véspera. A família já estava em Fátima. Fazia mil tropelias ao sobrinhito que, com dois ou três anos, já queria abrir as prendas.
Bateram à porta.
- Era a polícia. O tio João foi atropelado por um motociclista quando regressava a casa a pé. Ainda o levaram para Lisboa, mas não resistiu...

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Coração de oiro

Tinha 7 ou 8 anos. Ainda há pouco iniciara a leitura da fabulosa BD do meu tempo.
A Dona Alzira habitava o rés-do-chão do mesmo prédio onde vivia a tia Elvira. Explorava um estabelecimento de venda de fruta e hortaliça junto à Praça dos Carros.
Na casa dos tios, o Natal já se anunciava: nas conversas, nas ofertas, nos bolos, naquela massa que levedava junto ao fogão e que iria dar origem aos balharotes.
Eu participava interessado naquela confusão: o que é que eles me vão dar?
Às vezes batiam à porta:”é um cabritinho para o sr. Abel”. (maravilhosa Ourém em que o Natal se celebrava com estas oferats e me deu a conhecer tão execelente sabor fruto do trabalho das suas gentes).
Eu observava todo aquele movimento. O Inverno era frio, não apetecia nada ir para a rua.
Ouve-se uma voz:
- Posso entrar?
Era a Dona Alzira. Trazia uma pequena embalagem na mão em papel de Natal.
- Quer um bolo, Dona Alzira?
- Não, obrigada, venho trazer isto para o menino.
- Luís, agradece À Dona Alzira.
O meu coração bateu apressado. Uma oferta para mim? Fiquei extasiado. Nunca ninguém que não fosse familiar se tinha lembrado de me oferecer qualquer coisa.
- Posso abrir?
- Claro, depois põe na árvore.
Ela observava com carinho a minha excitação.
Abri com tudo o cuidado e perante os meus olhos apareceram dois belos livros de histórias, provenientes directamente do Central, capa bem colorida, novinhos em folha. E, ainda nessa noite, conheci as magníficas aventuras do Roy Rogers e do Trigger...

terça-feira, dezembro 20, 2005

O presépio
Íamos pelos campos para, em sítios mais húmidos, descobrirmos o musgo que usaríamos na nossa representação. Nada era longe do centro de Ourém, mas era um ou dois passos que nos faziam sentir a maravilhosa envolvência de que a nossa terra desfruta.
Em casa, sobre uma caixa de madeira que se forrava com papel de jornal, depositávamos o musgo e algumas pedras, estas para simular a gruta e alguma montanha.
Povoávamos com figuras: ovelhas, poços, moinhos, pontes, a estrela, a vaquinha, o burrinho, o menino, a mãe e o pai. Juntávamos os reis magos a cavalo e tudo aquilo adorávamos até alguns dias depois de Janeiro...
Lembro-me que me fascinava especialmente com o presépio que se fazia na igreja de Ourém, especialmente pela sua dimensão.
O nascimento de alguém que desejava uma vida melhor para todos nós era assim comemorado por todos às vezes sem grande conhecimento do seu significado. Partilhar, abandonar as coisas materiais foram mensagens que aquele menino nos trouxe e que os seguidores, às vezes profundos devotos, se terão frequentemente esquecido, substituindo-as por agressões, violentações da consciência do próximo só por ser ligeiramente diferente.
É curioso como algumas das doutrinas que nos procuram tornar em seres melhores, mais solidários, mais humanistas, se podem transformar pelas mãos dos seus portadores e serem algo de terrível para os que não as seguem como é preconizado por aqueles que as interpretam naquele momento...

segunda-feira, março 28, 2005

O tira-olhos


Poços Posted by Hello

Entrávamos pelo caminho estreito frente ao antigo hospital, ao lado da casa do Dr. Durão. Íamos por ali abaixo...
Ao fundo, perto do sítio onde hoje se situa o Centro de Negócios, um conjunto de lavadeiras partilhava um tanque e águas em comum no meio de vegetação luxuriante.
Havia conversas, cantigas, risos, qual aldeia da roupa branca.
Passei por lá algumas vezes à espera de alguém que já não recordo. A vegetação atraía insectos. Eu ouvia, via, ria-me. Até que o diabo do bicharoco começou a enervar-me.
Era uma espécie de helicóptero que se mexia a uma velocidade tremenda. As pessoas chamavam-lhe tira-olhos o que me irritou ainda mais pois dava-me a impressão que ele vinha na minha direcção antes de fazer abruptamente uma mudança.
Escapei ao ataque...
Mas, há dias, passei por um local que me fez recordar as horas ali passadas. Não tem a vegetação, não tem o ambiente, mas, no mesmo momento, já lá encontrei um Mercedes e uma carroça com o respectivo jumento.
Às portas de Ourém, há, assim, algo que me lembra a Ourém da nossa juventude.

sábado, março 26, 2005

O Santuário da Irmandade de Sangue




Havia um estranho ritual entre alguns oureenses baseado no que se lia nas revistas de quadradinhos. Fazer uma pequena incisão no pulso, juntá-lo com o de um amigo de toda a confiança e, a partir daí, ficavam irmãos de sangue.
O Luís Nuno deve ter sido quem reuniu mais irmãos, tendo trazido a essa qualidade o Humberto e o Jó Rodrigues.
Um dia, por trás desta porta, tive uma conversa com ele sobre este assunto. Esperávamos o Manel, já não me lembro o que se guardava por ali, mas era um espaço agradável, talvez o melhor local para se instalar o «Santuária da Irmandade».
O Luís falava em termos de aliciamento para a causa, no que já era um perito, mas eu nunca me senti muito atraído, incisões e outras coisas sempre fizeram impressão e, como sabem, a coragem não abundava. De modo que a nossa amizade continuou sem este ritual um tanto selvagem. 
Mas, nessa noite, algo de extraordinário invadiu os meus sonhos. Parecia que uma corrente de sangue fluía do improvisado Santuário para a nossa ribeira que, progressivamente, se ia tingindo de vermelho cobrindo enorme extensão. Houve quem chamasse àquela zona «Red River Valley»...
E, enquanto eu sonhava, parecia ouvir o som de uma harmónica de boca.

quarta-feira, março 23, 2005

A casa virada ao Sol Poente

Eis a fabulosa casa onde nasceram e cresceram o Luís Nuno e o Zé Avião. Casa onde entrei muitas vezes para participar em conversas e brincadeiras.
Lembro-me que eles tinham um estranho jogo com figuras de plástico cujos contornos já não sei precisar. Recordo também que era lá que jogávamos poker de dados de que o Luís contabilizava a evolução.
Muitas vezes, partíamos desta casa para o Central, o Avenida, a feira nova ou o ataque ao moinho.
E, um dia, também fomos daqui para o Largo de Castela.
Permanecemos lá em amena cavaqueira. De repente, um grupo de quatro ou cinco perdizes, em formação, atravessou Ourém. Uma delas parecia ter problemas...
Tinha mesmo. Veio cair na quingosta ao lado do quintal da Júlia padeira.
Corremos para lá para tentar apanhá-la. O pobre animal estava vivo, mas mexia-se mal. Ao fim de algum tempo, o Avião conseguiu apanhá-la.
Voltámos ao Largo de Castela. Ciente dos meus direitos por ter sido o primeiro a vê-la, disse:
- Dá cá...
Mas o Zé não estava pelos ajustes.
- Não, não, a perdiz é minha, eu é que a apanhei.
Tentei tirar-lha, mas ele era muito rápido, não tivesse já treino completo por toda a Ourém, e fugiu direito a casa acompanhado pelo irmão. Ainda lhes atirei com um pedregulho da calçada que felizmente não acertou no alvo.
E, nessa noite, a perdiz foi saboreada na casa virada ao Sol Poente, perante o desespero dos habitantes da casa do Largo de Castela

E lá longe ouviam-se os Animals...
 

segunda-feira, agosto 09, 2004

O fantástico rugido do «maquitan»

Era uma tarde de futebol no largo de Castela.
Jogava-se com empenho à procura do golo. O Jó Alho era o mais habilidoso, um autêntico médio de ataque benfiquista que só Ourém conseguiu descobrir.
O Manel não lhe ficava muito atrás. Bom a fintar e a idealizar jogo era mais possante e isso dava grande solidez à sua equipa.
O Luís Cúrdia tinha mais um ou dois anos pelo que a diferença física dava de imediato superioridade a quem jogava com ele.
O Luís Nuno era o guarda-redes de eleição. Um autêntico Carlos Gomes, que então brilhava pelo Sporting.
A minha modéstia proibe-me de falar no mais desajeitado ponta de lança que Ourém alguma vez conheceu, mas que, de vez em quando, marcava um golito.
O Zé Rito jogava, relatava e fazia de árbitro.
O Mina Guta trazia rapidez e argúcia a qualquer equipa.
Eram estes e outros heróis que, em certo dia da década de cinquenta do século passado, depois de os capitães de equipa escolherem, após moeda ao ar, os guerreiros de cada lado, procedimento em que, estranhamente, eu ficava sempre para o fim, disputavam renhida partida naquela fabuloso estádio.
A minha equipa já vencia por uns claros três a zero.
De repente, vindo daquela rua que se iniciava frente àquele local onde já funcionou a Dirup, que passava frente à casa do Luís Nuno e ao atelier do Souto(1), ouve-se um fantástico rugido que atroa oa ares.
Os jogadores param apreensivos. Que se passaria? Seria o George a ensaiar, uns cinquenta anos antes, a operação estrondo e terror, já a pensar na famosa cruzada em que se empenharia no início do século XXI?
O ruído continuava enorme e ouvia-se lata a bater sobre lata.
Ao fim de algum tempo, o mistério era esclarecido.
Um carrinho, um Austin de eleição, daqueles mais ou menos de forma semelhante aos actuais Partner ou Kangoo, carregado com balanças, entra pelo largo de Castela em baixa velocidade e com ruído elevado.
Era o maquitan.
Lá dentro, o João Honório gozava o susto que nos tinha pregado.
Excelente pessoa, foi outro dos que puderam desfrutar o prazer de habitar a casa do Largo de Castela, após eu a ter deixado. Tantas vezes lá voltei para ele me emprestar os magníficos Búfalos e Bisontes que possuia.
Agora, ali, estacionava junto à casa da Dona Aurora e permitia que nós, com o devido cuidado, continuássemos o jogo.


(1) Confusão. Era uma atelier onde se fabricavam jaulas para galinhas. Não sei se da responsabilidade de Souto ou Ezequiel Casimiro

domingo, junho 20, 2004

Leitaria Guerra

Ourém, anos 50, praça de automóveis.
Estou no meio daquele jardim que já é uma saudade. Ali existiam toda a espécie de árvores, arbustos e flores, respirava-se vegetação. Ao centro, os banquinhos de madeira permitiam que as pessoas descansassem por um bocado.
Em torno da praça estavam os automóveis de aluguer. O Cabeça Aguda, o Chucha, o Alicate, o Flores, o Zé Vieira.
Eu e o meu irmão encontrámo-nos ali com o meu pai e decidimos ir até aquela minúscula leitaria que, para mim, com quatro ou cinco anos era um mundo.
Sentámo-nos e eles mandaram vir leitão e palhete. Perceberam? Leitão e palhete no centro de Ourém.
Olharam para mim.
- Que é que tu queres?
Como aquelas comidas e bebidas me faziam alguma confusão, achei que o ideal era tomar qualquer coisa que estivesse de acordo com o meu estatuto.
- Um garoto.
E lá veio aquela maravilha num daqueles copinhos da época.
Entretanto, eles encarregavam-se do magnífico leitão do Guerra. O meu irmão rapa da navalhita que o acompanha sempre e passa a parti-lo em pequenos pedaços que depois ia picando descansadamente e levando à boca. O meu pai era mais directo, pegava em conjuntos daquelas peles bem tostadas e carne e deleitava-se. Depois a tacinha compunha o petisco. Como tudo aquilo parecia delicioso, o leitão, o tempero, o pão, o palhete…
Falaram de desporto.
- Sabe, pai, este ano o Sporting vai ganhar o campeonato.
- Espero bem que sim, ninguém se pode comparar a eles.
Mas vendo que havia alguém estranho a ouvi-los, viram-se para mim:
- És Sporting ou Benfica?
Nunca fui uma pessoa agradável e, depois de os estar a ver deleitar-se com o Leitão, deixando-me com uma simples bebida embora deliciosa, achei que devia marcar a minha posição:
- Benfica!
E fiquei benfiquista para toda a vida. Aquela cor vermelha sempre exerceu um enorme fascínio sobre a minha pessoa pelo que julguei ter sido a opção certa. Aliás, uma coisa que nunca percebi muito bem terá sido a grande quantidade de adeptos sportinguistas que havia em Ourém na altura. Parecia que já, na época, não gostavam de vermelho.
- Não tens vergonha? Devias ser do Sporting como todos somos.
- O Benfica ainda há-de ganhar a Europa.
- Ganhar a Europa? Há-de ir tanto à Europa como o outro há-de cair da cadeira, não é, pai?
- O Sporting vai ser campeão para a eternidade. É tão certo ser eterno campeão como aquele jardim que está ali fora. E, se isso não acontecer, será por causa do sistema.
- Cuidado, pai, algo me diz que já nasceram os que se perfilam como ameaças alaranjadas a esse jardim.
- Que é que tu dizes? Deve ser do palhete que já não me está a deixar ouvir bem. Fica sabendo duma coisa. Esse jardim que nós ajudámos a construir, só será destruído se os gajos da tua geração não tiverem vergonha e deixarem a terra abandonada aos que aí à volta se preparam para tomar conta dela.
E, como sempre, o meu pai tinha razão. O pessoal da minha geração, do qual não me excluo, não teve vergonha.

quinta-feira, maio 27, 2004

O Piromaníaco

Recordo Ourém, há cinquenta anos, talvez lá para 1953/54 ou mesmo antes.
Desfrutava a magnífica casa do Largo de Castela.
A partir daquela janela sobre a porta de entrada, dominava todo o espaço circundante.
Em frente, a rua que conduz à avenida. Mais ou menos a cinquenta metros, ficava a casa da Vizinha e do Rafael. Ela era uma espécie de terceira mãe sempre pronta a proteger-me em momentos difíeis, ele um verdadeiro avôzinho que me levava a passear pelos pinhais e até ao rio para que, de lingrinhas, ultraleve e doentio, me transformasse em alguém forte e saudável.
Mais abaixo, a casa do Luís Nuno e do Zé Rito à frente da qual ficavam os quintais onde o sr. Isidro guardava as galinhas que transacionava. Ao fundo e, já a dar para a avenida, o estabelecimento comercial do sr. Adelino e, do outro lado da rua, um sítio onde me lembro que se comprava carvão.
O largo de Castela, famoso pelas formidáveis partidas de futebol que possibilitava, era rodeado por mais duas casas relativamente habitáveis e por outra em piores condições. À direita, era a padaria da Júlia padeira e do sr. Zé Maria, avós do Fernando e do João, dois miúdos ultra-arreliadores primos do Quim e do Julito. Ela era a fornecedora do magnífico pão que podíamos saborear na época; do lado esquerdo era a casa da Dona Aurora, mãe da Aurorita que me ensinou as primeiras letras e números.
Em frente à padaria e do outro lado da rua, numa casa que penso que ainda lá está, o Souto dedicava-se ao trabalho artesanal de construir jaulas em madeira, cortando pacientemente pequenos pausinhos e descacando-os com uma navalha para depois os assemblar em estruturas mais complexas. Eu passava horas e horas a contemplar esse trabalho, embevecido e sem pensar nos pobres animais que iam ali ser guardados e torturados.
Por vezes, o espectáculo a partir da casa era mais animado. Se não estou em erro, regularmente, pelo dia três, realizava-se a feira do mês no largo junto à escola da Dona Iria, perto da prisão da GNR. E a rua de Castela enchia-se das mais diversas espécies de animais - ovelhas, carneiros, cabritos, burros, vacas, mulas - que a desciam para se dirigirem ao largo da feira onde eram transacionados. O ruído dos chocalhos, a mistura dos sons produzidos pelos animais e pelas pessoas que os controlavam, o seu tropel eram magníficos dando a tudo aquilo uma sensação que de semelhante só se encontrava nos filmes do Oeste com as cavalgadas junto aos bisontes ou a manadas de gado tresmalhadas. Eu abria a porta e via todo aquele ondulado barulhento a passar. Depois era de novo o silêncio, a rua ficava um pouco suja com excrementos do tipo azeitona e, no mês seguinte, lá se repetia a história.
Mas o objectivo do nosso post de hoje é a casa do largo de Castela.
Vamos até lá e entremos.
Logo do lado direito, uma escada conduzia-nos à parte superior da casa. Subindo-a, há que fazer um ângulo de noventa graus à esquerda para termos acesso às várias divisões.
À direita, existia uma casa de banho com um anexo que, com uma escada, permitia o acesso ao sótão.
Em frente, era o quarto do meu irmão. Lembro-me que ele tinha uma cama de metal toda bonita, uma mesa de cabeceira onde religiosamente guardava a colecção do Mundo de Aventuras que eu, com a mania de tudo ler, e, aproveitando uma possibilidade de acesso retirando a gaveta superior, contribuí para destruir e uma pequena estante com um rádio onde, na época, se ouviam delícias como os folhetins do Tide e do Omo, adaptados por Alice Ogando e cujo começo era mais ou menos assim: Teatro Tide apresenta.... a gata...
Do lado esquerdo era o meu quarto, do qual tenho a primeira recordação desta minha passagem por este efémero planeta, onde tive a honra de conhecer os meus excelsos amigos, e que se resume simplesmente a isto: um acordar, sentindo qualquer coisa junto aos dedos que se ia desfazendo e que era, afinal, a parede do quarto que eu riscava com as unhas. Ao lado, era o quarto dos meus pais.
Na parte de baixo, a casa tinha menos divisões devido ao espaço que a monumental escada ocupava. Assim do lado esquerdo, tinha uma verdadeira sala de jantar, onde a minha mãe, à quinta-feira, escondia as tangerinas que eu depois me entretinha a procurar para meu exclusivo proveito.
Em frente, era a cozinha que tinha uma despensa relativamente grande. Na altura, ainda não tínhamos fogão a gaz, pelo que o fogareiro de petróleo e aquele fogareiro a carvão do tipo que se utiliza quando fazemos grelhados nas praias eram os mais usados. Assim, em minha casa, na despensa, havia sempre caruma e carvão. E um dia a contemplação daquela caruma deu-me uma brilhante ideia.
Estava sózinho na parte de baixo, ouvia-se o Tony de Matos:
O vendaval passou, nada mais resta...
e eu, pé ante pé, vou até à cozinha para me apoderar dos fósforos, dirigindo-me posteriormente para a despensa. Risquei o primeiro fósforo e, depois de aceso, atirei-o para cima das carumas.
Frustrado, vi que se apagou no ar, pelo que pensei logo em repetir a operação. Como não era muito corajoso, não me aproximei suficientemente e o resultado era sempre o mesmo: fumaça e algum cheiro...
E estava eu todo entretido nesta operação que, mais tarde, me lembraria o que possibilitou aquela cena de Nero a contemplar Roma, quando oiço a voz da minha mãe: Oh Luís! O que é que estás tu a fazer?
Gelei, fiquei paralizado. Só me ocorreu uma resposta: era para ouvir a sirene dos bombeiros...
Não sei se a a sova foi grande ou pequena, sei que deu para fugir de casa, ir até à casa da Vizinha, para me acolher à sua quase maternal protecção, dar umas voltas a fugir em torno da cama, enquanto a minha mãe, ainda relativamente jovem, me perseguia com algo na mão e que eu não queria que me fizesse chegar a roupa ao pelo.
A Vizinha, sempre conciliadora, lá conseguiu acalmá-la e o caso ficou por aqui depois de eu fazer mil promessas de que nunca mais repetiria tão valente feito.
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