sexta-feira, abril 29, 2005

De tantos tempos já fui!Por Sérgio Ribeiro



Deste tempo me lembro/neste tempo vivi/este tempo também eu sou.
De tantos tempos já fui!

Deste tempo/desta praça/destas quintas-feiras/deste mercado/desta gente que eu fui e sou.
Desta gente que nós fomos e somos.

Panelas/“amontolias”/formas para queijo/gente/homens de barrete e jaleco/mulheres de lenço e xaile/(alguns e algumas descalços e descalças)/burros a servirem de montaria/… e de companhia.
Era a vila nova e de Ourém/viva às quintas-feiras.

Uma sardinha assada,/um pedaço de broa e um copo no Manel do Raul/que o ti’Raul era dono da Pensão Santos/ que mais conhecida era pela da Dona Ema;
e/ logo ao lado/a roda de tirar água/ e um jogo da laranjinha/que as laranjinhas eram/então/outras e bem melhores/que as que hoje são/ e tão amargas nos sabem/(não a todos, não a todos.../que alguns bem as saboreiam).

E para casa/nas aldeias ao redor/se levavam as sardinhas/ que da Nazaré vinham/e para toda a semana se mercavam;
de salmoura se guardavam/que até à quinta-feira/da semana que logo viria/era preciso se chegassem.

Nalgumas das casas/em muitas casas/era preciso partir e repartir;
o homem ficava com o melhor bocado/que ele era quem partia e repartia/ainda que fossem as mãos da mulher que partissem e repartissem/porque era ele quem trabalhava de sol a sol…/como se não fosse de sol a sol o trabalho da mulher/que fazia a lida da casa/que tratava do gado e da horta/que cozia o pão/que fazia a vindima/que organizava a descamisada/e tempo lhe tinha que sobrar para ajudar o “sê home” nas fainas que/dizia-se/dele seriam.

Descalços andavam os gaiatos/descalços e ranhosos/pés nus, frios, magoados, feridos/depressa duros, crostas, calejados/preparados para as pedras e as silvas a caminho das escolas/onde escolas havia/e só para aqueles que às escolas iam.

Depois/foi o salto/a fuga para as Franças e Araganças/a recusa da estagnação/da resignação/da pobreza/do cerco/da repressão/da guerra/do que não se queria que continuasse/mesmo sem se saber o que não se queria/e também sem se saber o que se queria/a não ser que era preciso ir/que era vital partir.

E como os tempos mudaram.
Como fizemos/as mulheres e os homens de todos os tempos/mudar os tempos!

De tantos tempos já fui!
Vivi atravessando estes tempos que fomos e somos.
Deste tempo me lembro/e gosto de o lembrar como tempo vivido/Com saudade/com nostalgia/mas olhando-o de frente/Com os olhos de hoje/Dos homens e das mulheres de hoje/e de amanhã.

2 comentários:

  1. Caro Sérgio, dás-me cada pérola!
    E que achas a este formato?

    Deste tempo me lembro
    neste tempo vivi
    este tempo também eu sou.
    De tantos tempos já fui!

    Deste tempo
    desta praça
    destas quintas-feiras
    deste mercado
    desta gente que eu fui e sou.
    Desta gente que nós fomos e somos.

    Panelas
    “amontolias”
    formas para queijo
    gente
    homens de barrete e jaleco
    mulheres de lenço e xaile
    (alguns e algumas descalços e descalças)
    burros a servirem de montaria
    … e de companhia.
    Era a vila nova e de Ourém
    viva às quintas-feiras.

    Uma sardinha assada,
    um pedaço de broa e um copo no Manel do Raul
    que o ti’Raul era dono da Pensão Santos
    que mais conhecida era pela da Dona Ema;
    e
    logo ao lado
    a roda de tirar água
    e um jogo da laranjinha
    que as laranjinhas eram
    então
    outras e bem melhores
    que as que hoje são
    e tão amargas nos sabem
    (não a todos, não a todos...
    que alguns bem as saboreiam).

    E para casa
    nas aldeias ao redor
    se levavam as sardinhas
    que da Nazaré vinham
    e para toda a semana se mercavam;
    de salmoura se guardavam
    que até à quinta-feira
    da semana que logo viria
    era preciso se chegassem.

    Nalgumas das casas
    em muitas casas
    era preciso partir e repartir;
    o homem ficava com o melhor bocado
    que ele era quem partia e repartia
    ainda que fossem as mãos da mulher que partissem e repartissem
    porque era ele quem trabalhava de sol a sol…
    como se não fosse de sol a sol o trabalho da mulher
    que fazia a lida da casa
    que tratava do gado e da horta
    que cozia o pão
    que fazia a vindima
    que organizava a descamisada
    e tempo lhe tinha que sobrar para ajudar o “sê home” nas fainas que
    dizia-se
    dele seriam.

    Descalços andavam os gaiatos
    descalços e ranhosos
    pés nus, frios, magoados, feridos
    depressa duros, crostas, calejados
    preparados para as pedras e as silvas a caminho das escolas
    onde escolas havia
    e só para aqueles que às escolas iam.

    Depois
    foi o salto
    a fuga para as Franças e Araganças
    a recusa da estagnação
    da resignação
    da pobreza
    do cerco
    da repressão
    da guerra
    do que não se queria que continuasse
    mesmo sem se saber o que não se queria
    e também sem se saber o que se queria
    a não ser que era preciso ir
    que era vital partir.

    E como os tempos mudaram.
    Como fizemos
    as mulheres e os homens de todos os tempos
    mudar os tempos!

    De tantos tempos já fui!
    Vivi atravessando estes tempos que fomos e somos.
    Deste tempo me lembro
    e gosto de o lembrar como tempo vivido
    Com saudade
    com nostalgia
    mas olhando-o de frente
    Com os olhos de hoje
    Dos homens e das mulheres de hoje
    e de amanhã.

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  2. Saiu-me de jacto. A forma ficou para ver depois. Se vier a valer a pena... daqui a dias, meses ou anos. Se resistir ao tempo.
    Mas estás-me a pressionar, amigo Luís, e breve te direi alguma coisa.

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