sexta-feira, novembro 01, 2019

Regresso à casa dos fantasmas

Noite saborosa, a manhã quase a clarear. “Não tarda muito começaremos a ouvir os pássaros” – pensámos.
E não nos enganámos.
Por volta das sete, um magnífico cantar trouxe nova vida à nossa casa:


Pi-Pa-Pi-Pa-Pi-Pa-Pi-Pa
Pi-Pi-Pi-Pi-Pi-Pi-Pi-Pi
Pa-Pa-Pa-Pa-Pa-Pa-Pa-Pa
Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii


Que simpático passarinho. Logo de manhã a dar-nos música...
Passaram 10 minutos.
- O diabo do pássaro nunca mais se cala...
Sete e meia.
- Já estou com a cabeça doida. Vou enxotá-lo.
A Pipoca já estava escondida debaixo de um cobertor aterrorizada com tanto ruído.
- É ali na chaminé.
Pum! Pum! Pum!
Mas o pássaro não se calava.
- Já sei é atrás daquele vidro. Vem cá e abre a janela...
A vontade não era muita, o frio não convidava, mas lá fui. No fundo, não tinha grande vontade de afastar o bicharoco que tinha sido tão simpático em vir saudar-nos.
- Olha que ele canta muito bem...
- Quero lá saber! Estou farta, já não aguento...
Junto à janela havia um móvel em cima do qual estava um relógio. Aproximei-me e reparei que o ruído vinha mais da direcção do móvel.
Não havia dúvida, era dali...
Peguei no relógio e logo o cantar mudou de direcção, ele acompanhava a minha mão.
- Foste tu quem ligou isto?...


quinta-feira, outubro 31, 2019

O caso do assalto frustrado a duas avozinhas

Naquele fim de tarde, já escuridão, a voz dum famigerado criminoso voltou a fazer-se ouvir num sussurro para os seus capangas que chegava até mim tão perto estava deles numa mesa do Café Avenida.
- Há duas velhotas que vão todos as noites à Igreja. Nas malas levam o dinheiro das reformas e o livrinho de Missa. Não quero que lhes façam mal, mas precisamos do dinheiro delas para continuarmos a nossa partida de King. Ao meu sinal ataquem, mas não esqueçam de lhes deixar o Missal para elas poderem fazer a reza em paz. Se elas resistirem, amordacem-nas e atem-nas pelos pés a um banco da Igreja.

E, à hora por ele marcada, saíram sorrateiramente do Avenida e esconderam-se na esquina da alfaiataria do Zé Penso. 
Do Avenida, vi as velhotas a descerem a rua e a atravessarem a praça Mouzinho de Albuquerque de braço dado, totalmente alheias à sorte que as esperava. Será que podia consentir naquilo?
Rapidamente, elaborei um plano com os companheiros de mesa, uma manobra de diversão. Saímos do Avenida, calcorreámos rapidamente o espaço até às avozinhas e dois de nós tirámos-lhe os chapéus e assim seguimos disfarçados até ao local da emboscada. Ali chegados, a abordagem dos assaltantes foi de imediato repelida e eles foram postos em fuga sem saber quem os tinha tramado.
Com toda a deferência, devolvemos os chapéus às avozinhas que assim puderam assistir à Missa em paz sem lhes passar pela cabeça a malvadez que alguém lhes tinha preparado.
Mas quem seria o famigerado malfeitor que tão más horas queria proporcionar àquelas simpáticas criaturas? No momento da fuga, tentei fotografá-lo, mas um súbito movimento de um capanga introduziu um inesperado elemento de distorção na imagem. Mas, aquelas pernas… aquelas meias… creio que já as vi em qualquer lado… Com um pequeno esforço, talvez os meus amigos me ajudem a identificá-lo...
Não voltes a Ourém, perigoso malfeitor! Breve serás descoberto mesmo que fales castelhano. A Justiça te espera sem piedade…

quarta-feira, outubro 30, 2019

O primeiro grande fanico de um futuro Presidente

Naquele tempo, Cavaco Silva era um rapazinho que ensinava Finanças no ISCEF. Era acompanhado, nas práticas, por uma jovem de nome Manuela Ferreira Leite e a opinião geral era a de que a disciplina era um cadeirão em que exigiam que se soubesse localizar no Orçamento de Estado as rubricas mais estranhas. Apesar de tudo, a sua juventude tornava-os simpáticos num mundo muito cinzento.
Acima deles, assistentes da disciplina, havia o patrono da cadeira, o catedrático Alves Martins de quem se contava um episódio curioso.
Dizia ele, nas suas brilhantes aulas:
- Há tempos estive numa conferência. Só sábios éramos 11, a minha modéstia não me permite mencionar qual o maior de todos eles…
Com sábios destes como havia a disciplina de correr mal?
Ai Ourém que me estás tão longe!...

***



E um dia Cavaco teve o seu primeiro cagaço a sério.
Estava-se numa daquelas aulas teóricas a que assistia o curso todo, mais de 100 mânfios enfiados numa sala, alguns quase pendurados no tecto em posição de morcego. E Cavaco explicava os benefícios de um Orçamento para um desenvolvimento harmonioso da Nação.
De súbito, ouviu-se uma voz que se sobrepôs à do professor:
- O sr. Doutor dá-me licença?

Olhámos todos naquela direção. Um barbaças, mais barbaças que o Marx, com o braço no ar e apontando, parecia querer dizer qualquer coisa. 
A seu lado, com ar de Ciganito, um estudante que hoje todos conhecemos numa prestigiada posição pública(Eduardo Ferro Rodrigues). 
Do outro lado, um dos dirigentes mais dotados que o ISCEF conheceu (Félix Ribeiro), um tipo miudinho de bigode mas de clarividência notável. 
Mas foi o barbaças que retomou a palavra:
- O que o senhor está a dizer só serve os capitalistas, não serve o povo… É preciso fazer um orçamento que sirva o povo e abale o poder dos exploradores.
- O sr. é um contestatário, diga-me o seu nome, vou apresentar queixa à escola.
Um enorme sururu fez-se então ouvir. Cavaco ia tendo um fanico e retirou-se apressado. A partir daquele dia, a figura daquele barbaças passou a inundar a grande maioria das aulas. Alguns tratavam-no por Mestre. Mas o seu nome era Graça, Eduardo Graça, se não me engana a memória porque me parecem Eduardos a mais.


… e, de vez em quando, lá vem o malvado sonho: ainda me falta uma cadeira para acabar o curso…

terça-feira, outubro 29, 2019

Passeio interrompido

Fazem-se passeios com mais de três metros de largura. Que belo espaço para uma caminhada, pensa o incauto transeunte. Depois, instala-se uma esplanada no mesmo. A esplanada até é jeitosa, tem vista para o Castelo, é relaxante, passa-se ali um bom bocado.
Mas não ficaram satisfeitos. Ao espaço ocupado pela esplanada, juntaram uns vasos em madeira cada um deles com perto de um metro de comprimento por cinquenta centímetros de largura.
Alguns desses vasos foram instalados na parte frontal da esplanada o que significa que, quem quer passar frente à mesma tem de ir para a estrada. E garanto que já vi automobilistas a circular nessa estrada a mais de oitenta à hora.
Será que a Administração do Intermarché não tem noção do mau serviço que presta ao obrigar o peão que pretende seguir relaxadamente pelo passeio a fazer parte da caminhada na estrada, isto é, na parte alcatroada do parque de estacionamento onde se circula à bruta?
Se tem, não merece permanecer em Ourém. Se não tem, é inconsciente…

segunda-feira, outubro 28, 2019

Autos relativos a um roubo de equipamento no CFL

Apesar de sair em liberdade graças ao dinheiro de que a família dispunha, o famoso João Passarinho foi submetido a apertado interrogatório acerca da sua capacidade para produzir dinheiro falso, tendo-se apurado que tinha desviado as máquinas para o seu fabrico a partir da reprografia do CFL. Uma pesquisa atenta aos autos, permitiu reconstituir os seus passos, sendo claro que não executou sozinho o crime.
O acusado soube da existência do equipamento e da sua localização através de uma aluna do CFL de nome Teresa Simões que não teve qualquer participação no assalto, já que falou casualmente no assunto. Na posse dessa informação, contatou a Leninha das Meias Negras para conseguir o seu apoio:
- Leninha, hoje vai ser um dia grande em Ourém e na história do CFL, pois vai ser sujeito ao primeiro assalto. Vou dizer o que preciso que tu faças. Dez minutos depois de começarem as aulas das onze, altura em que todos devem estar na sala de aula, vais vestir as tuas meias negras. Depois, escondes os teus cabelos negros sob uma peruca loira e tiras os teus óculos. Vestes-te à turista e vais ao CFL ter com o senhor Nunes e pedir-lhe que ele te mostre as instalações mais afastadas da porta de entrada, pois estás interessada em matricular-te no Colégio no ano seguinte. Não duvido que ele te seguirá imediatamente para todo o lado.
Conseguindo a concordância da Lena, foi falar com a futura enfermeira Céu.
- Céuzinha do meu coração, preciso que me faças um grande favor. Pelas onze e um quarto, o Dr. Armando está à espera de uma enfermeira para lhe dar uma injeção com um anti-inflamatório. Eu quero que tu sejas essa enfermeira, mas não lhe dás o anti-inflamatório, dás-lhe sim um forte sedativo bem injetado no traseiro e, quando ele estiver a dormir fazes-me sinal para eu entrar. Depois, retiras-te tranquilamente enquanto faço o que tenho de fazer.
Tendo conseguido a concordância da futura enfermeira Céu, o acusado pôs o seu crime em prática. Assim, no dia, 14 de Novembro de 1963, quando uma enfermeira do Hospital de Ourém se dirigia ao CFL para injetar um anti-inflamatório ao seu diretor, foi intercetada junto à tasca do Frazão por dois malandrins que a obrigaram a acompanhá-los ao interior da mesma, retendo-a aí durante mais de duas horas. A enfermeira não conseguiu identificá-los, embora um deles fosse parecido com o neto mais novo do Dr. Preto. Quando a libertaram, dirigiu-se ao CFL onde encontrou o Dr. Armando a dormir no seu gabinete e o Sr. Nunes a bater com a mão na cabeça:
- Estou desgraçado. Roubaram o equipamento da Reprografia e eu sou o culpado pois uma loira obrigou-me a sair do meu posto. Maldita a hora em que me deixei enfeitiçar...
Ela tomou imediatamente as medidas para despertar o Dr. Armando e mandou chamar a polícia. Mas já era tarde, o equipamento da Reprografia tinha-se sumido sem deixar rasto.

O Dr. Armando manteve uma calma significativa, talvez um pouco estranha numa pessoa como ele, e tratou de elaborar um retrato robot acerca de quem tinha administrado o soporífero. É esse retrato que aqui reproduzimos e a participação da pessoa a quem corresponde foi confirmada pelo acusado.
Estes autos foram elaborados apenas para constarem na História de Ourém, já que o acusado devolveu tudo e pagou uma caução elevada para sair em liberdade.
Nestas condições, arquivem-se os autos, esqueça-se a acusação e proceda-se à libertação do acusado.
Vila Nove de Ourém, 15 de Dezembro de 1963
O escrivão
(assinatura não legível)

sábado, outubro 26, 2019

A aula de Informática no CFL


Isto hoje está muito murcho. Por isso, vou propôr-vos um desafio…
Imaginem-se de novo no CFL, uma escola magnífica com os mais modernos meios informáticos à vossa disposição. O Dr. Armando entra na sala e diz:
- Preciso de descobrir uma menina na Internet. Procedam assim: Vão ao Google; na caixa de diálogo escrevam: menina carrinhos choque; desencadeiem a pesquisa; saltem para imagens; descubram a imagem que deu origem ao post do Estorias. Estou ciente que a encontrarão sem o horroroso disfarce que o Estorietas lhe aplicou: ela é loira, bonita, talvez um pouco gordinha.
Parou para respirar e tirar uma baforada do cachimbo.
- E agora o melhor do desafio: como é que o Estorietas converteu a menina que descobriram no esboço que postou?
Grande Dr. Armando! Sempre à frente no tempo…

A menina dos carrinhos de choque

Sempre que chega esta altura do ano, lembro-me dela, da menina que um dia veio à nossa velhinha Vila Nova de Ourém, integrada na equipa de suporte aos carrinhos de choque.
Era loira, linda, bem-feita e assaz simpática.

Quando a sua voz apregoava as sucessivas viagens, todos parávamos para a escutar. E um fenómeno curioso passou a desenrolar-se na nossa terra. Em vez de pagar a viagem dentro do carrinho a algum canastrão que saltasse para a lateral do mesmo, os jovens, sedentos de paixão, faziam bicha para ir comprar a senha ao pequeno balcão em que ela estava, comprando uma de cada vez, para assim a verem mais vezes, para beneficiarem do seu sorriso, e para tentarem uma conversa…
Ao suave toque da sua mão para entregar a senha ou o troco, sentiam o coração a derreter. Nunca os carrinhos de choque terão tido tanto sucesso.
Mas um dia tudo mudou…
A linda menina saiu do seu balcão e acompanhou um dos nossos numa viagem de carrinho. Que lata a daquele mânfio! Tinha conquistado a menina com a sua conversa de cascavel fedorenta.
A partir de então, nunca mais houve bichas frente ao balcão dos carrinhos. Agora ninguém gastava dinheiro em viagens, entretendo-se a contemplar, invejoso, aquele romance que durou até ao final da Feira Nova. De manhã, à tarde, à noite, a menina estava sempre com ele, um sujeito monopolista, absorvente, devorador…
Curiosamente, nesse ano, os carrinhos permaneceram mais uma semana do que era seu costume. Depois, foram embora, levando com eles a menina a qual nunca mais voltou à nossa terra, deixando esta maravilhosa recordação acerca da sua passagem…

Será que ainda alguém se lembra dela? Tenho a certeza que muitos recordam o seu nome… mas nenhum terá coragem para o pronunciar.

sexta-feira, outubro 25, 2019

O dinheiro que um passarinho forjou

Nas férias, passávamos muitas tardes e noites a jogar King no Café Avenida. Ninguém o sabia, mas o jogo era a dinheiro. Eu era tão viciado naquilo que um dia alguém disse:
- Qualquer dia dá 50 escudos ao filho para depois lhos esfolar ao jogo.
Mas havia outro bem mais viciado…
As perdas do famoso João Passarinho estavam a tornar-se volumosas. Claro que nós lhe dávamos crédito, mas a conta começava a ser tão elevada, já a atingir os milhares de escudos, que um dia tivemos de lhe dizer:
- João, se não pagas, deixas de jogar connosco. Há parceiros que querem entrar para ocupar o teu lugar e têm dinheiro para pagar.
O João ficou abalado. Esteve três semanas sem aparecer e, um dia, chegou todo sorridente.
- Quero ocupar o meu lugar na mesa de jogo.
E distribuiu profusamente dinheiro por todos nós. Eu recebi umas quatro notas de cem, o Kansas uma de mil e o Jó uns trocos.
Fiquei todo contente a pensar no que haveria de fazer com aquele dinheiro que certamente seria para comprar livros de BD e discos. E comecei a gastar as notas…
Ao pagar o Mundo de Aventuras, o Adelino do Central olhou-me com mais atenção.
- Ó Luís, esta nota tem algo de estranho. Não sei se lha posso aceitar…
- Mas porquê? Eu não vejo nada de especial…
- É aqui nesta zona e acho que o papel é demasiado mole quando comparado com o usual.
Ele tinha razão. Vendo bem, aquela nota era mesmo uma cópia de má qualidade. Parecia desenhada à mão e o papel nada tinha a ver com o das notas normais.
E a cena foi-se repetindo com os outros elementos do jogo no Avenida. Começámos a achar estranha a situação até que um dia fomos chamados à Polícia. Aí não pudemos negar a situação: o João tinha-nos pago com dinheiro falso.

Alguns dias depois, a casa onde um dia morara o Dr. Preto, a casa onde ainda morava a Dra. Júlia, a casa onde por vezes o João Passarinho passava férias foi invadida por forças policiais que ali descobriram equipamento especial para proceder à contrafação de notas. 
Ainda vi o João, algemado, a ser levado para os calaboiços. Tive pena dele ao pensar que nunca mais o deixavam sair. E não era mau rapaz, apesar de tudo...
Mas o prestígio dos seus históricos habitantes tudo abafou. Ninguém soube que jogávamos a dinheiro no Avenida, uma formidável caução tirou o João Passarinho da prisão e todos passámos a ter muito mais cuidado com o dinheiro com que ele nos pagava as dívidas.
Mas uma coisa vos garanto: ele pagava… era um homem de honra, de palavra… 

quinta-feira, outubro 24, 2019

A queda da pera

Cheguei de Lisboa com a minha nova pera, fruto de horas de estudo e subversão e fui exibi-la para o Avenida com assinalável êxito.
À saída, o Zé Mineiro, pai do ZéQuim, não se calava em elogios.
-É pá, Luís Manuel! Isso é que é uma pera! E tem mosca e tudo... vê-se logo que és um grande estudante.
Ao nosso lado, o ZéQuim, cerca de meio metro mais para cima de qualquer de nós, acompanhava-nos naquele passo que nos dirigia para nossas casas e olhava a biqueira dos sapatos para estar mais atento à conversa.
Lá chegámos à Rua Santa Teresinha, eles subiram as escadinhas que davam acesso à sua casa, eu dirigi-me para a minha.
Mas, aí, a recepção já não foi tão calorosa.
- Vais imediatamente cortar essa porcaria. Isso não são coisa para nós, humildes...
Eu bem procurei argumentar que os tempos estavam a mudar, que todos tinhamos direito a usar o que quiséssemos. A autoridade paternal não se deixou convencer: aquilo não era para nós. E, de repente, recordei aquela mão enorme que uns quinze anos antes vira descer na minha direcção e preferi mudar de estratégia.
Daí a dias voltaria a Lisboa, com uma semana de mau aspecto e quinze dias de comichões conseguiria a reconstrução.
E a pera caiu...

quarta-feira, outubro 23, 2019

O guarda diligente

Muitas das nossas noites eram passadas num café da Buenos Aires que apelidámos de Gordo devido ao volume de um dos proprietários. Daí, destaco as famosas sandes mistas de um conteúdo indescritível feito de queijo, fiambre, pickles, pasta de fígado e outras iguarias.
Bem comidos e bebidos, descíamos o Quelhas, falávamos, caminhávamos aproveitando a bonomia da noite.
O cigarro era uma boa ajuda.
Mas, naquela noite, faltaram-me os fósforos e lembrei-me de os pedir a um polícia de guarda à Emissora Nacional.
- Senhor Guarda, tem lume?
Ele virou-se para nós, apontou a metralhadora e só disse:
- A minha última palavra é dispersar!!!
Aí fomos nós pela Travessa do Pasteleiro. O homem não era para brincadeiras e estava bem ensinado…

terça-feira, outubro 22, 2019

O impostor


No primeiro ano das Económicas, fui conhecendo novas pessoas. O meu colega de quarto chamava-se Joaquim Morais e tinha um grande lote de conhecidos nas proximidades do Quelhas. Claro que, ao fim de pouco tempo, já o acompanhava até à casa destes.
Uma noite, fomos ter com um tal Vasco. Uma espécie de manager de meninas carentes de companhia que passava o tempo agarrado ao telefone.
- Arranja-me uma garota para eu passear com ela – pediu-lhe o Morais.
O Vasco não se fez rogado. Era bem falante, tinha boa figura e tinha uma invejável lista de garotas. De maneira que lá cantou a canção do bandido a uma série delas.
- Sabes? O meu amigo Morais é de Bragança, chegou agora a Lisboa, não conhece ninguém, precisava de alguém que o orientasse pela cidade.
Nenhuma estava disponível, até que uma se prontificou a tão piedoso papel. O Vasco combinou tudo, deu os devidos pormenores à pequena, incluindo o número de telefone da casa onde estávamos hospedados e ficou combinado que ela o levaria a uma matiné dançante num boite.

***

Jantava-se na Rua Miguel Lupi, junto a Económicas e, de repente, tocou o telefone. Era ela…
- O senhor Morais ao telefone – disse a dona de casa.
Ele lá foi e quando voltou um sorriso iluminava-lhe a cara.
- Era a Lena. Domingo à tarde, vou com ela dançar para o Calhambeque.
Cheios de inveja, lá vimos o ar altaneiro dele. Sempre à frente com uma pequena para ir dançar… e nós outros ali a chuchar no dedo.
Os dias foram passando e a data do encontro cada vez mais próxima. O problema é que, quando o dia chegou, o Morais não estava em condições de se apresentar. Uma crise de ansiedade apoderou-se dele.
- Luís, não posso ir. Tens de ir tu… Não posso deixar o Vasco mal visto.
Bonito serviço aquele! O primeiro encontro com uma miúda em Lisboa a fingir que era outro.
E lá fui em fatinho domingueiro direito à rua Aquiles de Monteverde para uma morada junto à Portugália. Ela não demorou a aparecer. Era morena, bonita, bem feita, talvez um bocadinho forte…
Feitas as apresentações, surgiu a inevitável questão:
- Achei a sua voz um pouco diferente…
- Estava um bocadinho constipado.
E dançámos, dançámos, dançámos. O Calhambeque era um ambiente escuro, com muita bebida que eu enfrentava pela primeira vez. Mesmo assim, tudo correu bem, embora a miúda parecesse um pouco nervosa.
À saída da boite, quem havia de aparecer? A Luzinha…
- Olá Luís, estás bom? Então por aqui?
- É verdade. Apresento-te esta amiga…
- Então, tens ido a Ourém…?
- Não, já há algum que não estou por lá…
A Luzinha foi-se e veio a inevitável pergunta:
- Não me tinha dito que era de Bragança? O seu nome não é Joaquim?
- Efetivamente, sou de Bragança, mas muitas vezes faço férias em Ourém, onde existe um grupo excelente de que a Luzinha faz parte. Por outro lado, chamo-me Joaquim Luis Morais… Como não gosto de Joaquim, os amigos tratam-me por Luís, é mais breve.
Grande aldrabão! Sempre com pinta para a desculpa rápida…
Mais à frente, como por acaso, encontrámos a mãe dela.
- Mãe, venha conhecer o Joaquim Morais…
- Muito prazer, gosto de saber quem acompanha a minha filha.
E fomos a pé até casa da Lena. Houve mais alguns encontros, bastante aproximação...
Um dia, aquela confusão de nomes e de terras criou o desenlace fatal.
- Lena, tenho de dizer-lhe uma coisa…
Ela ficou ansiosa, pensando numa declaração de amor. Mas o que ouviu deixou-a gelada.
- O meu nome é… e sou de Ourém…
Não sei o que ela pensou. Só a vi partir a toda a velocidade, sem eu perceber porquê tanta irritação.
Oh! Como ela ia triste. Como a fiz sofrer…
Nunca mais a vi.


segunda-feira, outubro 21, 2019

Oração do desastre anunciado

O primeiro ano em Económicas foi uma espécie de anúncio do desastre.
A passagem por Leiria já não tinha sido famosa com as notas a caírem de forma abrupta, alguns disparates pouco significativos e uma intensa fixação numa garota, o que terá levado um dia o Dr. Armando a afirmar: «Ele tinha obrigação de ter notas muito melhores».
Em Lisboa, enfiado num local onde ao princípio não conhecia ninguém, sem gostar da primeira imagem colhida do curso escolhido, surgiu de imediato a questão: «o que é que hei de fazer para isto passar o mais depressa possível?». 
E em breve encontrei a solução: de manhã as aulas e, à tarde, uma passagem alternada por dois históricos lugares de projeção de filmes: O Jardim Cinema, a meio caminho entre a Estrela e o Rato, que se tornava notado por umas magníficas e enormes cadeiras de verga que rangiam após qualquer movimento e o Cinearte em Santos. Qualquer dessas duas salas passava sempre dois filmes. Claro que as fitas não eram grande coisa: escaramuças do Kirk Douglas, melodramas do Elvis e coisas para rir do Jerry Lewis; com um bocadinho de sorte, uma fita de cow-boys com o John Wayne ou o Gary Cooper.
À noite, ida ao café e estudar um pouco, mas o pensamento em Leiria ou em Ourém não permitia que o aproveitamento fosse satisfatório. De vez em quando, compensava a solidão com a escrita de cartas. Mas a verdade é que a coisa foi resultando, a vinda nas férias a Ourém atenuava o sentimento de perda provocado pela ausência, novos conhecimentos surgiram e no final do ano passei ao seguinte com duas cadeiras em atraso, entre as quais a famosa Matemática.
Admiro as pessoas que tiraram cursos de Matemática ou Engenharia, porque as dificuldades que senti naquela cadeira e o que eu os via estudar em mesas de café me transmitiam sempre um sentimento de incapacidade. Oh! Como estavam longe os tempos do Fernão Lopes em que me sentia o às do pedal.
Pergunto-me se este percurso terá sido exclusivamente meu ou se as pessoas que leem isto terão sentido algo de semelhante? Como terá sido o seu primeiro ano na Universidade ou a sua primeira experiência bem afastada da proteção dos pais…

domingo, outubro 20, 2019

Vejam o que eles fizeram ao nosso CFL


Recordar os tempos do CFL é um gosto, passar junto dele e examinar o que dele resta é uma tristeza, mais, posso dizer, uma vergonha para os autarcas que têm conduzido os destinos da nossa terra. Será possível que algo que marcou tantas gerações de oureenses esteja naquele estado? Que falta de brio!
Em 2008, segundo o NO, a autarquia, a troco da cedência de algumas facilidades na construção de moradias unifamiliares, era nesse momento detentora do edifício do estórico Colégio Fernão Lopes e projetava requalificá-lo bem como a sua envolvente com o objetivo de ali instalar um local de formação.
Os edifícios em torno surgiram, mas o edifício do CFL é que não foi requalificado. Nem percebo como alguns dos novos edifícios conseguiram ser comercializados com sucesso com esta porcaria em frente. É que nem o diabo das paredes em tijolo totalmente inúteis deitaram abaixo e limparam.
Que se terá passado de 2008 para cá? Nem me atrevo a perguntar quem beneficiou com as facilidades concedidas…

sábado, outubro 19, 2019

Catecismo em 25 lições


Estava muito descansado a ler as aventuras do Buck Jones no Condor Popular quando alguém bateu à porta. Sorrateiramente, pus-me à escuta.
- Sabe, Dona Maria, o seu menino tem de ir para a catequese. O diabo pode tomar conta dele se passar o tempo a ler os livros que lê.
Espreitei melhor. Era uma daquelas senhoras que andavam sempre enfiadas na sacristia a fazer favores ao padre. Sem ofensa, não me recordo do nome dele, mas todos o tratávamos por «tomate saloio» por ser muito coradinho. Mas era boa pessoa e o Manel do Tenente, sempre que o via, tinha um jeito especial para lhe pedir a bênção.
Eu é que não me apetecia nada mudar de leituras e, ao primeiro impacto, recusei-me a ir. Mas a minha mãe não se deixou levar.
- Vais, vais duas vezes por semana, senão ficas sem semanada.
Meu Deus! Ficar sem dinheiro para as minhas revistas… e logo por Tua causa. Não podia ser.
E lá fui. A entrada era pela porta do lado da Igreja, a porta virada ao Castelo e por aí me enfiei. Tinha de passar várias salas para alcançar o lugar das sessões. Numa deles ficava sempre atrapalhado, pois estava lá uma enorme cruz com o Cristo Crucificado. Aquela imagem causava-me medo, respeito, fazia-me tremer mais que o Dr. Armando.
Na sala, encontravam-se alguns conhecidos. A senhora distribuiu um pequeno caderno a todos e depois disse:
- Vamos, aula a aula, aprender a rezar. Depois, devem ir à Missa todos os domingos e participar na mesma com todo o respeito.
Que sofrimento atroz. O livro até era engraçado, as ilustrações dignas de qualquer bom livro de BD e eu deixo aqui uma cópia para os amigos do Ourém consultarem… mas ir à Missa…
Com o tempo, o ritual da ida à Missa Dominical começou a ter uma pequena mudança. O Jó Rodrigues convenceu-me a ir ao Santo Sacrifício da Entrada, depois, ir jogar uma partida de bilhar ao Avenida e voltar para o Santo Sacrifício da Saída.
Enganámos todos muito bem. E assim foi a minha aprendizagem do Catecismo… hoje, quando, com todo o respeito assisto a uma Missa, nunca sei o que hei de fazer, por isso, ponho-me tipo estátua sem mexer, sempre a olhar em frente.

sexta-feira, outubro 18, 2019

Nota de culpa


Faz-se saber que, nesta data, foi dada entrada no Tribunal Cível de Vila Nova de Ourém a um processo em que as nomeadas Maria Lopes, Maria Emília Graça e Maria Teresa Roda, mais conhecidas por Céu, Nicha e Teresa Simões, são acusadas como presumíveis infratores dos regulamentos de educação vigentes no Colégio Fernão Lopes. 
Elas terão por diversas vezes utilizado a técnica da cana de pesca com fita-cola na ponta com o objetivo de surripiar da reprografia do referido colégio exemplares dos testes a realizar em várias disciplinas, disso recolhendo benefícios ilegítimos. 
Como relata uma das implicadas, «o acesso à reprografia, com a dita cana, era feito pela sala das alunas. Chegava-se a mesa grande para junto da parede da reprografia, que era aberta em cima, cadeira, biquinhos de pés e arte de pesca».
Desconhece-se se algum rapaz terá estado envolvido neste esquema, embora por vezes seja citado o nome de Ramiro Arquimedes, também conhecido por Kansas. Investigações futuras determinarão o seu grau de implicação que não deverá ser elevado, pois, à hora do furto, devia estar a jogar King no Café Avenida.
Mais se informa que, como pena por tão vil acto, deverão ser condenadas a ficar sem as habilitações que obtiveram dessa forma ilegal bem como das que obtiveram posteriormente e deverão ser obrigadas a devolver todos os rendimentos que usufruíram do erário público na parte em que são superiores ao salário mínimo nacional. 
Tal pena pode ser substituída por trabalho comunitário: assim poderão optar por todos os dias vir a este espaço e abrilhantar com três comentários diários por acusado o seu conteúdo para além de colocarem «gostos» em todos os textos do mentor do Estórias e não manterem conversas com o famigerado João Passarinho, outro famoso gangster do nosso concelho.






Vila Nova de Ourém, 18/10/2019






O promotor do Estórias de Ourém






(assinatura irreconhecível)




quinta-feira, outubro 17, 2019

O caso do cruzamento frente à morada do Padre Doutor

Na década de 60, a mobilidade urbana em Ourém era um facto. Ciclistas, automóveis e peões circulavam pelas ruas da vila com toda a confiança. Por um lado, circulava-se devagar, por outro o silêncio era tal que, se um carro se aproximava, ouvia-se o seu ruído a longa distância. Além disso, a polícia era um elemento presente por todo o lado sempre no objetivo de “proteger o cidadão”.
Um dos grandes ciclistas da nossa terra, para além de nós todos os outros, era o Manel do Tenente, insigne oureense de quem já falei algumas vezes, mas a quem nunca tive o prazer de dedicar uma crónica.

Pois, um dia, o Manel dirigia-se, pela rua Augusto Castilho, de bicicleta e a toda a velocidade, de casa do Luís Nuno para a casa do Dr. Preto, onde, como sabem, também habitava o famigerado João Passarinho.
Da parte de cima, proveniente da rua António Leitão, onde morava o César, vinha, no seu carro, o sr. Félix, magnífico representante da classe comerciante e da marca de máquinas de costura Oliva, pessoa que também vendia seguros. O sr. Félix não vinha muito depressa, mas tinha uma maneira estranha de olhar, dava a impressão que não via bem os que se cruzavam com ele. E, naquele dia, deveria vir a pensar na maneira como havia de empandeirar mais alguma apólice de seguro a algum descuidado oureense.
Claro que o choque inevitável deu-se…
… melhor dizendo, quase que se deu. O Manel travou a bicicleta e, para afastar aquele monstro do seu caminho, não descobriu melhor remédio do que mandar uns murros ao vidro do automóvel. Aí, o sr. Félix travou e o incidente ficou sem consequências de maior. Mas o homem ficou transtornado. Quase que oiço a voz dele:
- Ó Manel, então está a dar murros ao meu automóvel? Eu vinha da direita, eu tinha prioridade…
- Cale-se e tire esse monstro da minha frente – berrou o Manel.
Imaginem o que poderá ser agora com 15 lombas na Avenida e com a eventual chegada de trotinetes, skates, bicicletas elétricas, segways… Pobre peão que se quer deslocar em Ourém, pobre automobilista… e o Manel do Tenente ainda anda por aí.

quarta-feira, outubro 16, 2019

Garmpeiro musical

Voltemos ao Jó Rodrigues, presença assídua na minha casa, num pequeno morro na rua Santa Teresinha, frente à do Zé Quim e ao lado da dos padrinhos do Rui Temido.
O seu sentido de audição musical era notável: ele conseguia descobrir no meio das músicas, escondidas sob as vozes, os solos, as baterias, pequenas pérolas que, sem o seu apoio, a nós, sempre com um ouvido para o mais comercial com certeza escapariam. Era um autêntico songs mining. Isto fazia com que, muitas vezes, conseguisse transformar uma canção insuportável em algo em que nós abstraíamos daquelas partes fastidiosas para esperarmos pacientemente pela passagem maravilha.
Parece-me que estou a vê-lo. Um dia entra pela casa, sem bater como era nosso apanágio, sentamo-nos na sala interior e eis-me a ser objeto de revelação: estive a ouvir o Tell me you are coming back dos Stones e aquilo tem um solo que é um tratado. E lá íamos nós a procura do solo e ficávamos a adorar o disco. E se era difícil na época gostar dos Rolling Stones
Noutra ocasião, referiu-se a um conjunto que teve um êxito retumbante com apenas uma música: os Turtles e o Happy Together. Sabes, Luís, lá pelo meio, depois daquela parte mais rápida, quando eles começam de novo “Me and You...” aparece uma música de fundo tão linda como eu nunca ouvi. Hás-de ouvir.
E era bem verdade, tão verdade que nunca consegui esquecer esses pequenos pedacinhos da nossa maravilhosa vivência nem quem me ajudou a descobri-los.


terça-feira, outubro 15, 2019

O cantinho dos doutores


Numa sociedade marcada pela desigualdade social, é natural a existência de um espaço nobre para as elites. E, no Central, um café bem mais popular que o Avenida, também existia o cantinho dos doutores.
Situava-se numa reentrância do balcão, talvez com uns 50 centímetros de profundidade e uma extensão de pouco mais de um metro, a suficiente para colocar umas três cadeiras destinadas aos Dr. Armando, Dr. Nini e Dr. Oliveira.

Imagine-se o que era passar por ali com as três personagens apontadas ao corredor para o bilhar mesmo à sua frente. O mais fácil era passar sem olhar, “evitando” saber quem lá estava e tentando não ser visto.
O Dr. Nini e o Dr. Oliveira eram bastante afáveis, mas...

***

Tinha levado uma sova das antigas. Claro está, do Dr. Armando. Não me lembra a razão, mas, com certeza, existiu e terá sido bastante forte para irritar a pedagógica criatura. Sei que estive ali a ser uma espécie de saco de box, a levar, levar, levar… mas olhava para ele, não baixava a cabeça, não me defendia e isso parece que o irritou mais. De maneira que foi dando…
Claro que fiquei sentido com a pessoa. E um dia tive de passar à frente do “cantinho dos doutores”. Executei o procedimento de aceleração e fui por ali fora, tentando não ver nada.  Já tinha percorrido uns três metros quando senti uma mão cair-me em cima…
Era ele…
Afastou-me dos outros doutores, mais para junto da máquina do café, e encarou-me.
- Olha, já me desculpaste não é verdade?
Claro que só uma grande pessoa faria aquilo. E a despedida foi com um aperto de mão e um sorriso na chegada à sala de bilhar.

domingo, outubro 13, 2019

O síndroma Joacine

Várias pessoas já se afirmarem admiradas com as incríveis revelações do Estórias dado que julgavam que o seu responsável nem um prato conseguiria partir.
Têm toda a razão.
Aquele ser um pouco autista, triste, ausente mantem-se. Mas isso não significa que a sua mente esteja parada. Tal como dizia a Joacine, «gagueja quando fala, mas não gagueja quando pensa»… embora algumas vezes o “órgão de pensamento” não funcione.
Era um ser terrível, muito criativo, sempre com profunda reflexões e criações que só a sua intolerável incapacidade para pôr em ação fazia que parecesse inativo. Uma permanente contradição entre o pensamento e o ser…
E que o diga a Dra. Helena Carvalhão do Liceu de Leiria que, nas suas aulas de filosofia, não conseguia tirar uma palavra de tão insigne pensador, apesar da sua reconhecida queda para o tema. Razão: bloqueio total…
Bloqueio total que não foi corrigido com os anos, apesar de muitas vezes ser posto à prova em aulas bem difíceis. Ainda há pouco, na inspeção ao calhambeque, quando o técnico lhe disse para ligar os faróis nevoeiro, não sabia onde estavam… Outra vez, na renovação da carta de condução, não se lembrava do nome da freguesia onde tinha nascido… Piedade, meus amigos, piedade…
Por isso, não se admirem se muitas outras revelações aqui surgirem.
«Have you heard?»



sábado, outubro 12, 2019

Aforismos de Tolentino Mendonça

Aforismo é um gênero textual ou uma obra deste gênero caracterizado por sentenças breves que possuem uma definição de um preceito moral ou prático.
Quando deparei com esta obra de Tolentino Mendonça senti uma certa curiosidade por conhecer um pouco melhor o seu pensamento. Já tinha passado por alguns artigos com um caráter simpático e a recente nomeação como bibliotecário do Papa, em particular deste Papa mais progressista do que 90% dos políticos que reivindicam essa qualidade, aguçou a curiosidade.
O primeiro aspeto do livro foi-me simpático: letras grandes, ideias aparentemente bem formuladas, alguns pensamentos interessantes.
Depois, veio uma certa desilusão, não pela pessoa evidentemente, mas pelo meu desconhecimento destes temas e pelo facto de não ser muito permeável a questões de fé.
As frases pareciam-me desligadas apesar de associadas a um tema.
E de repente pequei e não resisti a fazer a provocação: abstraindo do conteúdo doutrinário, qual a diferença entre esta obra e as «Citações do presidente Mao Tsé Toung» que devorámos na década de 70? Também este documento é um conjunto de frases que pretendem ser a orientação para um determinado tema. Há, no entanto, uma diferença, a obra de Tolentino é organizada, escrita para ser assim, o outro texto é um conjunto de frases retiradas do contexto… O primeiro é difícil de ler, o segundo tem por objetivo cair no seio das massas para as orientar para a ação.
Ainda a propósito disto, lembrei-me de mais um documento com uma natureza semelhante: «As teses sobre Fuerbach» de Karl Marx e é curioso que a sua estrutura está mais perto de um conjunto de aforismos organizados para uma conclusão bem definida do que um conjunto de citações despidas de contexto. E no final destas, a formulação do preceito: «Até agora, os filósofos não fizeram mais do que interpretar o mundo, quando o que interessa é transformá-lo»…
Mas para o transformar há que promover um acordo significativo e não levar aos disparates cometidos até ao presente.

Coitado do pato

Levantei-me cedo e pus-me a caminho de Ourém e do Central para levantar a imprensa do dia.
Aparece-me a Paulinha. em plena actividade radiofónica:
- Bom dia, Paulinha
- Bom dia, Dona Gertrudes. Então como está?
- Estou bem e a menina Paulinha?
- Também estou bem. Então que vai fazer para o almoço...
- Um pato no forno...
- Coitadinho do pato...
- Tenho mais de dez, comem demasiado, gasto muito com eles...
- Mas fazem-lhe companhia.
- É só trabalho. E o mais difícil é depená-los.
- Pois, é muito mais fácil depenar um frango do que um pato...
Pobres bichos...

Bibliotecário do Papa


Quem é que de entre nós teria jeito para bibliotecário? Eu digo teria, pois, afastados que estamos da vida profissional, na nossa bela idade, ninguém nos concederia o job.
Eu decerto teria algumas qualidades para a função. Sou organizado, metódico, gosto de livros, mas teria um senão muito grande. É que havia o perigo de me perder na leitura e, ao fim de algum tempo, estar tudo fora do sítio.
Por outro lado, abuso da superficialidade. Passei dezenas de anos a ler livros com títulos como: «Introdução à Economia…», «Introdução à Estatística…». Ora, quem se fica pela introdução, nunca obtém o rendimento das ações em que se insere.
Por isso, nunca conseguiria desempenhar condignamente uma função como a que desempenha Tolentino Mendonça. Para além disso, há a questão do conhecimento da área e esta é uma daquelas em que sofro de total ignorância.
Mas aquela Vaticana…
… provoca algum respeito. Já repararam no magnífico ambiente que este espaço encerra? Porventura estará envolvido em música celestial?
Imaginem este ambiente transposto para a Biblioteca de Ourém. Sim, aquela mesmo em que andámos à procura do livro «O último moicano». Acho que nos perderíamos na contemplação das imagens, das luzes, das cores...

sexta-feira, outubro 11, 2019

A mudança

Claro que em todas as mudanças surgem complicações e eu fui actor numa delas.
Revejo-me a descer do largo de Castela para a Avenida. Levo um saco grande na mão, talvez com um metro de altura e uns trinta centímetros de diâmetro. É castanho, feito de uma matéria que me parece linhaça ou sarja, mas a minha santa ignorância não consegue classifica-lo. 
Lá dentro sente-se que algo mexe. É a minha gatinha de cor branca e preta, vai dentro do saco para não reconhecer o caminho e não ter tentações de voltar à origem. Pobre bicho que tem de aturar as loucuras dos humanos...
Atravesso a Avenida e viro à esquerda. Frente ao edifício do cineteatro, viro à direita e inicio a descida. Passo em frente à casa onde conheci distinto oureense que há uns anos me ofertou saboroso arroz de cabidela na Gondemaria e que, como saberão daqui a uns dias, enfrentava os cruzamentos dando um murro no automóvel concorrente à prioridade... 
Um pouco mais abaixo, frente à morgue, acelero o passo. Sempre que ali passava tinha receio que algum defunto me perseguisse. 
Num instante chego à estrada, passo frente à alfaiataria do Zé Canoa e inicio o pequeno morro que me leva à nova casinha.
Ali, faço as apresentações à gatinha. Vê o quintal, vê os quartos, enfim tudo parece em ordem, a adaptação parece não trazer problemas. 

***



Passaram um ou dois dias. Oiço a minha mãe: 
- Luís, não sei da gata...
Foi o desespero. E se ela era engraçada e brincalhona.
Mas eis que chega a salvação. Alguém da rua de Castela traz a notícia. 
- Sabem, a V. gata não sai de ao pé da antiga casa.
É verdade, apesar da nossa tentativa, o bicho tinha conseguido reconhecer o caminho e voltar. Com maiores cuidados, fomos buscá-la e, como o sítio para onde mudámos, era idílico, ela acabou por se adaptar.
Foram precisos muitos anos para distinto oureense compreender, aceitar e acabar por sentir esta fixação na casa do Largo de Castela.

quinta-feira, outubro 10, 2019

Adeus ao Largo de Castela


Claro que um dia aconteceu a inevitável mudança. Não sei o que deu na cabeça aos meus pais, resolveram mudar-se para uma casa hoje sepultada pela EPO.
Na altura, não me apercebi das terríveis consequências nem imaginava que Ourém poderia vir a cair sob o domínio da cambada de brutos, pouco civilizada e sem amor à terra, que a tem vindo a destruir.
A verdade é que nunca mais vi algumas das simpáticas pessoas que lá conheci. Mariana, a lavadeira, que vivia numa casa junto ao Guerra dos leitões, o Nicolau, a Rosalina, o Peru, o Queimado, o Boas-falas...
Ainda voltei à casa do Largo de Castela. Ela foi habitada, após obras de renovação, pela Aurorita e pelo João do Maquitan e um dia convidaram-me para lá ir ver a magnífica colecção de Búfalos e Bisontes que ele tinha. Claro que não me fiz rogado e actualizei as minhas recordações e as minhas leituras.
Depois, não houve mais qualquer visita.
So long é uma expressão que exprime este adeus, um pouco doloroso e que dura há tanto tempo.
Alguns anos depois, Cohen trouxe-o na forma de canção e numa pessoa de nome Marianne...

Nesses falaremos mais logo.



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