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quinta-feira, janeiro 23, 2020

A tática da punição mútua

Lembro-me que, na instrução primária, uma tática utilizada pela professora para reforçar o amor mútuo entre alunos era pôr os que acertavam uma pergunta a dar umas reguadazinhas aos colegas que erravam… e o sistema era maquiavélico, porque, se algum não desse a reguada com um mínimo de força, era ele quem levava depois das mãos da professora.
Eu era dos que mais era chamado a dar a reguadazinha, mas, como era boa pessoa, tratava todos os colegas com suavidade, todos ou quase todos. Mas havia uma ou duas meninas da nossa turma que eram terríveis. Uma era a Borda d’Água e outra a menina dos Castelos. Um desgraçado que levasse uma reguada delas já sabia que tinha de pôr a mão de molho durante três ou quatro dias, pois eram impiedosas, batiam com raiva… só lhes faltava pôr pregos na extremidade da régua.
E um dia calhou-me levar três reguadas dadas pela Borda d’Água. Tinha errado uma pergunta sobre os rios de Portugal e, no entretanto, ela tinha visto a resposta no livro e oferecera-se para responder ganhando o direito de me punir.
Vi-a chegar junto de mim com a régua na mão…
- Estende a mão…
Que me iria acontecer? Olhei para ela e o ar dela não denunciava um mínimo de piedade…
- Leninha, sê suave!!!
- Eu te digo… ainda há dias me torturaste com cinco reguadas.
Eu já nem me lembrava…
Lá estendi a mão, ela levantou o braço, fez a régua ficar quase perpendicular ao chão, cabeça para trás quase em posição de mortal e aplicou o primeiro golpe.
-Ai!!!!!!
Todos a contemplarem o belo espetáculo, inclusivamente a professora que, assim, nem tinha o trabalho de nos castigar. Acho que alguns até se arrepiaram.
- Malvada! Se te apanho a jeito…
Segunda reguada ainda com mais força. A menina dos Castelos ria que nem uma perdida, cheia de pena por não ser ela a aplicar o castigo.
Até que chegámos à última reguada…
- Agora é que vais ver – dizia a Lena entre dentes.
Vi que o seu olhar não estava para brincadeiras. Ela repetiu os gestos anteriores, trouxe o braço até mais atrás e desferiu sobre a minha mão.
Desferiu…
… só que a mão já lá não estava. E, sem algo para lhe amparar o movimento, a Lena estatelou-se no chão e a régua fez-se em mil pedaços. Os minutos seguintes foram passados a dar-lhe assistência. Que coisa estranha se passara para ela cair no chão se eu nem me mexera?
Acho que ela aprendeu. A partir de então tornou-se a pessoa mais suave a aplicar os castigos que, pelo direito vigente, caberiam à professora.

quinta-feira, dezembro 12, 2019

A Gala do CFL

No mês de Março de um dos primeiros anos da década de sessenta, foram chamados ao gabinete do diretor do CFL os seguintes alunos com o objetivo de colaborarem na organização da primeira gala do colégio: Lena Borda d’Água, Céu Vieira, Maria Emília, Luís Cúrdia, Amândio Lopes, Rui Leitão e Jó rodrigues.
Depois de lhes apelar aos mais profundos, pedagógicos e patrióticos sentimentos, ficou combinado que as duas primeiras se encarregariam de confecionar os bolos para a gala, a Maria Emília forneceria, abateria e depenaria 50 frangos, o Luís Cúrdia traria 250 litros de vinho da taberna do Manel Raul bem como uma centena de pirolitos e laranjadas, o Amândio traria 50 kilos de batatas cortadas em palitos para fritar, o Rui Leitão encarregar-se-ia de distribuir pastilhas Reny para apoiar a digestão e o Jó Rodrigues assaria os frangos.
A Lena e a Céu deveriam também servir às mesas vestidas de coelhinhas e de patins.
Conseguido o acordo dos colaboradores, o diretor produziu imediatamente intensa ação de propaganda relativamente à gala. Só existiriam vinte mesas para os familiares dos alunos à razão de 300 euros por mesa (1)… Desta maneira, conseguia-se estabelecer um apertado filtro à entrada já que Ourém era habitada por gente tesa, rude, sem princípios, capaz das piores zaragatas…
Algumas dessas mesas ficaram de imediato reservadas para o Presidente da Câmara e sua comitiva, para o diretor do colégio e para o pároco da Igreja.
Ficou ainda clara a proibição de o João Passarinho entrar no espaço reservado à gala devido ao seu comportamento desnaturado.
A gala contaria ainda com um baile abrilhantado por um conjunto da região e previa-se uma curta atuação de quatro elementos que viriam a integrar o quarteto 1111.
***

E o dia da gala chegou.
Os participantes foram estacionando os belos automóveis ao longo da estrada que servia o colégio. As damas da elite de Ourém, muito perfumadas, resplandeciam nos seus vestidos de tecidos comprados para o efeito na loja do sr. Pina e elaborados pelas melhores modistas da terra. O senhor prior também não faltou para abençoar aquelas almas tão gentis. As meninas, oh!, aquelas flores… como vinham bem vestidas para o baile…
A gala iniciou-se com um discurso do Dr. Armando:
- Esta é a primeira gala do nosso Colégio Fernão Lopes e espero que não seja a última. Com ela queremos cimentar a união entre pais, alunos e professores num ambiente de mútuo respeito. O nosso programa para hoje é longo. Um antigo aluno proferirá a oração de sapiência. Alguns dos melhores alunos vão ler alguns poemas que mostram a qualidade das leituras que temos no nosso espaço de ensino. Depois, veremos uma breve atuação de quatro rapazes que virão a formar o quarteto 1111 que, daqui a algum tempo, lançará a Lenda de El-rei D. Sebastião e a Balada para Dona Dinis. O José Cid ainda não tem o nível do nosso Fernão Lopes, mas garanto que chegará longe e que em 2019 lhe será atribuído um prémio musical.
Terminado o discurso do diretor, em nome dos antigos alunos do Colégio, a Florência proferiu uma oração de sapiência na qual enaltecia o papel do grande cronista na divulgação da História do nosso país. Terminou pedindo ao Ministro da Câmara (o Presidente) que nunca deixasse definhar aquele espaço para ali poderem voltar com prazer todos o que o tinham frequentado.
O Presidente da Câmara agradeceu as palavras da antiga aluna, acenou afirmativamente ao pedido, garantindo que a autarquia tudo faria para manter aquele espaço nas melhores condições. Em seguida, propôs um brinde, augurando um excelente futuro aos alunos a servir a Pátria na Guerra Colonial e, aos que escapassem, a trabalhar para engrandecer o país. Todos de pé, de copo na mão bem cheio, seguiram as suas palavras:
- Vai acima, vai abaixo, pela goela abaixo…
Em seguida, três alunos foram ler poemas, originando significativos aplausos. Eram os três Luíses nascidos nas imediações da Rua de Castela ali a trazerem os versos de Pessoa e António Gedeão(2).


Finalmente, o futuro quarteto 1111 interpretou três canções que entusiasmaram novos e velhos:
João Nada
Entretanto, o belo cheirinho do frango assado já entrava pela sala improvisada no ginásio. Lá fora, o Jó Rodrigues rogava pragas àquela gente toda e ao trabalho que lhe tinha calhado e resolveu participar na festa carregando a assadura com piri-piri. E não tardou muito, procedeu-se ao início da refeição. As meninas vinham de patins trazer frangos e batata frita às mesas. Comia-se e bebia-se a valer e, com o tempero do frango, bebia-se ainda mais… Tudo parecia correr às mil maravilhas.
O João não estava nada contente e, quando uma das meninas passou à frente da porta onde se escondia e como já estavam todos com os copos e não davam por ele, rasteirou-a. A pobre caiu em cima da mesa onde estava o diretor do colégio e família e o frango caiu na cabeça do Presidente da Câmara enquanto uma asa acertava em cheio numa bochecha da Aninhas…
A patinadora foi de imediato socorrida. Era a Céu. Coitadinha, estava cheia de nódoas negras, mas foi amparada por vários rapazes gentis e, em breve, recuperou a boa disposição.
Confusão ultrapassada, foi servida a sobremesa. Um belo bolo de ovos feito pela Lena, coberto de chantilly. O problema é que, mal aproximaram o nariz do bolo, as pessoas fizeram um esgar de desconfiança. Levantou-se o dr. Laranjeira:
- É curioso, este bolo está muito bonito, mas cheira mal…
A Lena ficou logo nervosa.
- O quê?
- Cheira a ovos podres…
Mal sabiam que o malvado do João um dia antes tinha trocado os ovos que a Lena tinha comprado, ovos fresquinhos da melhor criadora de Ourém, por ovos podres que já guardava há vários meses em casa.
- Mas não pode ser… Kakakakakakaka – dizia a pobre Lena.
Contudo, teve de render-se à evidência e, em total descontrolo, pegou no bolo e espetou com ele na cabeça do padre.
- A culpa foi sua que me recomendou a Eulália dos ovos…
Foi o sinal que faltava. De festa, a gala transformou-se em guerra com todos a despejarem os bolos na cabeça uns dos outros. Verdadeira batalha campal com as damas a fugirem para não lhes estragarem os fatos elaborados exclusivamente para aquele efeito. E, cá fora, o João e o Jó gozavam todo aquele espetáculo deprimente enquanto se deliciavam com os frangos que tinham escapado à gula dos participantes.
Escusado será dizer que nunca mais houve galas no CFL.


(1) 60 contos na moeda da altura.
(2) O Luís Filipe, o Luís Manuel e o Luís Nuno. Três Luíses que nasceram com uns oito dias de diferença uns dos outros.

quarta-feira, novembro 06, 2019

O primeiro casting no CFL

Quando a Lena regressou da reunião com o diretor, trazia um sorriso a iluminar-lhe a face. Todos ficaram admirados uma vez que as visitas àquela santa criatura acabavam sempre em sova.
- Então, Lena, tem alguma coisa para nos dizer? – perguntou a professora.
- Sim – respondeu a Lena – O Dr. Armando também quer falar com outra menina. Parece que há um grande desenhador de nome Garcês que vai criar a História de Ourém em BD. Ele pretende encontrar duas meninas que sirvam de modelo para as figuras da moura Fátima e da rainha D. Mécia. Será feito um casting aqui no Colégio, mas para já seremos as indicadas…
Claro que as outras miúdas ficaram todas ciumentas por aquela já ter sido escolhida e por suspeitarem de quem seria a outra. Havia lá raparigas tão bonitas: a Gracelinda, a Nicha, a Manuela, a Luísa… e aquelas já pareciam escolhidas… decerto alguém tinha praticado tráfico de influências.
- Já sabia disso – afirmou a professora. – Não calculava que o sr. Diretor o revelasse já. A verdade é que esperamos a visita do grande desenhador na próxima semana.
Mas, quando Garcês chegou ao CFL, pretendeu ser ele a escolher as meninas modelo. Assim, um dia vieram para o colégio todas bonitas, perfumadas, com um saiote até aos pés e uma blusa branca vaporosa para se proceder ao Casting. Não vos vou dizer quem o grande desenhador escolheu para seu modelo, quem assistiu lembra-se muito bem.
E a aula em que Garcês desenhou aquelas duas meninas processou-se à nossa frente e apreciámos os seus gestos, a maneira como olhava para as que desenhava, o modo como esboçava, o modo como sombreava as suas curvas. Era mesmo bom, o desenhador…
Do resultado deste trabalho vamos dar conta aos amigos desta página, publicando por inteiro a História de Ourém desenhada por Garcês. Avisamos desde já que alguns problemas com a legendagem a qual está muito esbatida na origem tornam por vezes as palavras difíceis de serem lidas. Não percebemos como uma edição que se pretendia de qualidade, patrocinada pela própria Câmara, tem legendas que mal se veem.
Quanto às meninas, deixo um desafio: quem acham que foram as escolhidas?

terça-feira, novembro 05, 2019

A aula de desenho no CFL

A verdade é que nunca tive jeito para desenho, mas recordo que as aulas não eram de todo desagradáveis. As cores, os instrumentos, o cheirinho dos materiais dava ao tempo ocupado nas mesmas um ar lúdico e relaxante.
Apesar dos dissabores, eu achava um piadão ao compasso e ao tira-linhas pelo menos na fase de esboço. E as magníficas retas que conseguia desenhar com o auxílio de uma régua estimulavam a autoconfiança. Quando era para passar a tinta é que borrava a pintura toda. As pobres circunferências que desenhava nunca acabavam no ponto em que começavam, não sei por que motivo havia sempre um desvio e o que aparecia era uma espécie de caracol.
Também gostava muito de colorir com guaches e as cores mais simpáticas eram o vermelho e o amarelo que utilizava abundantemente em livrecos para colorir. Mas mesmo as cores que usava eram geralmente tremendo borrão. Enfim, total falta de jeito.
Um dia, surgiu algo de novo, uma surpresa agradável. A Dra. Nazaré apareceu com uma garrafa e um banquinho. Pôs o banquinho em cima da secretária e aproveitou para colocar a garrafa sobre o mesmo, ficando assim à vista de todos nós embora em perspetivas diferentes.
- Vamos fazer o primeiro desenho à vista. Da posição em que estão, olhem na direção da garrafa e tentem passar a sua imagem para o papel. Reparem que há zonas mais e menos sombreadas. Experimentem sombrear de acordo com que veem.
E eu passei quase uma hora a sombrear, sombrear, sombrear. Como estava lindo o meu desenho e eu estava quase a dá-lo por acabado após alguma ajuda da professora.
Mas eis que um elemento novo veio perturbar a aula que tão bem estava a correr. Era o Sr. Nunes.
- A menina Borda d’Água é chamada ao Sr. Diretor.
A Lena tremeu como varas verdes. É que tinham passado poucos dias sobre o famoso assalto ao CFL em que uma loira de meias negras quase tinha enfeitiçado o simpático contínuo. Será que alguém desconfiava de alguma coisa em relação à Lena? A verdade é que ela nunca mais tinha usado as suas fantásticas meias, mas desde pequenino nos andavam a dizer que «todas as maldades que fizéssemos cá na terra, seriam pagas cá na terra» e ela pensou que era o dia em que iria pagar tudo…
O certo é que ficou aterrorizada e, quando passou junto ao banquinho, com um movimento involuntário, derrubou-o. A garrafinha partiu-se em mil bocados, espalhando-se completamente pelo chão.
E assim ficou estragada a minha aula de desenho. Não consegui concluir o gargalo da garrafa e a nota acabou por não premiar o meu esforço e apego. Tudo por causa de uma colega que um dia se disfarçou de loira com meias negras e ficou aterrorizada por ser chamada ao diretor…

domingo, fevereiro 05, 2006

Também eu me perdi....



Em Leiria...
Mas não foi por aquilo que estão a pensar... desta vez...
Era a época de exames, já não me lembro se do segundo, se do quinto ano.
A deslocação de Ourém para o Liceu tinha tido o seu quê de histórico no célebre NSU Prinz do meu irmão de cor avermelhada, aquela mais perto da cor do palhete.
Lembro-me do Dr. Armando, no seu Peugeut, da Borda de Água, ali íamos todos à conquista de mais um grau.
Chegados ao velho Liceu, ultrapassados os procedimentos de estacionamento, começaram as provas.
A primeira decorreu normalmente. Depois, houve um pequeno intervalo e aproveitámos para relaxar e outras coisas que todos conhecem, tanto mais em ambiente de nervos.
Tocou a campainha, tentei voltar para a sala e apercebi-me que não sabia onde estava...
Depois de ter tentado uma ou duas onde me recusaram a entrada lé descobri, com algum alvoroço aquela onde seria o me lugar (tudo bem controladinho, à antiga) e imaginem a atrapalhação a entrar num ambiente onde já estavam todos com (de novo) todos a olhar para mim.
Dirigi-me ao professor:
- Perdi-me...
E não é que aquela alimária, em vez de me confortar, ali, promovido a pastor alemão, me atira com esta:
- E achou-se...?...
Percebi logo que a minha futura estadia em Leiria não seria muito proveitosa com bestas daquelas à mistura.

quinta-feira, novembro 10, 2005

A «aula» de Físico-Química



Hoje, deu-me para voltar ao saudoso Fernão Lopes.
Uma tarde, talvez o primeiro ano em que estudávamos Química, estávamos reunidos no ginásio. 
Em Ourém, o banho diário ainda não estava definitivamente instituído. Talvez uma vez por semana, com aqueles chuveiros de roldana e já era uma sorte.
Repentinamente, ouviu-se a Lena:
- Ó,..., sabes qual é a fórmula do Sulfato de Peúga. Talvez SO4PE2, não...?
Eu não queria estar na pele daquele distinto...

sábado, setembro 17, 2005

O retrato de Françoise Hardy



Pensamos que ninguém nos conhece.
Andamos descontraídos por Ourém e, de repente, alguém pára ostensivamente à nossa frente.
- Não me conheces?
Claro que a conheci logo.
A Lena. A miúda mais espevitada do Fernão Lopes, cujo pai, com uns 80 anos, ainda se deslocava por Ourém numa espécie de bicicleta com um pequeno motor.
Sempre sentadinha na primeira fila com muita atenção às aulas. Mas...
Um dia, teve o arrojo de interromper uma aula, virar-se para a turma com um disco na mão e...
- Sabem quem é? A Françoise Hardy... Gira, não é?
Sempre irreverente, ela prosseguiu:
- Este retrato tem um segredo: todos os que o viram neste momento manterão o mesmo espírito e forma e todos os seus pecados e dislates serão absorvidos por ele. Assim, quem envelhecerá será o retrato e nós ficaremos eternamente jovens...
Perante isto, só podemos dizer: Lena, mostra-nos o retrato da Françoise. Ou será que já o perdeste? É que eu sinto-me cada vez mais velho...
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