quarta-feira, outubro 14, 2026

O Certificado dos que Caminham

 Escrito apócrifo — Ricardo Reis visita o Santuário de Fátima

Ficção literária original, em homenagem ao universo de José Saramago, à sua ironia filosófica e à personagem de Ricardo Reis.


Ricardo Reis chegou a Fátima numa manhã de outubro, dessas em que o nevoeiro parece não saber se deve levantar-se da terra ou permanecer sobre ela como um pensamento que não encontra conclusão, havia peregrinos por toda a parte, alguns de joelhos, outros de pés ensanguentados, muitos carregando promessas, que são uma espécie de dívida contraída com o invisível, e outros ainda trazendo consigo a esperança de que a Virgem lhes reconhecesse os sacrifícios, embora não estivesse esclarecido por que razão haveria o sofrimento humano de servir de moeda nas transações com o divino.

Ricardo Reis não viera por promessa, nem por fé, nem sequer por curiosidade religiosa, viera porque lhe tinham dito que ali os homens caminhavam para encontrar uma resposta e ele, que durante a vida procurara sobretudo evitar perguntas demasiado comprometedoras, quis saber se era verdade que uma resposta podia esperar por alguém no fim de uma estrada.

Sentou-se num banco de pedra, diante da grande praça, e ficou a observar aquela multidão que avançava lentamente para a Capelinha das Aparições, como se o movimento dos corpos pudesse aproximar as almas de alguma certeza.

Ao seu lado sentou-se um homem de idade avançada, trazendo ao peito uma medalha da Virgem e na mão um papel cuidadosamente protegido por uma capa de plástico.

É o meu certificado de peregrino, disse o homem, mostrando-o com o orgulho de quem apresenta um diploma universitário ou uma escritura de propriedade, fiz o caminho todo a pé, muitos quilómetros, e agora tenho aqui a prova.

Ricardo Reis olhou para o documento, onde se encontravam inscritos um nome, uma data, talvez um carimbo, essa pequena invenção administrativa pela qual os homens procuram dar existência oficial àquilo que já aconteceu.

A prova de quê, perguntou.

De que fiz a peregrinação, respondeu o homem, surpreendido com a pergunta.

Mas os seus pés não sabem que caminharam.

Sabem, e bem, ainda me doem.

Então por que precisa do papel.

Para ficar a recordação, para mostrar aos meus filhos, para que saibam que aqui estive.

Ricardo Reis permaneceu em silêncio, porque há perguntas que não devem ser imediatamente respondidas, sobretudo quando a resposta ameaça retirar ao outro uma alegria que, embora ilusória, é a única que possui.

Depois disse, Talvez os seus filhos acreditassem mais nos seus pés do que no certificado, mas vivemos num tempo em que a palavra de um homem vale menos do que a assinatura de outro, e até a fé, que sempre se disse invisível, parece agora necessitar de papel timbrado.

O velho não compreendeu inteiramente, ou compreendeu demasiado, que por vezes é a mesma coisa.

O senhor não é crente, perguntou.

Não sei se a questão é acreditar, respondeu Reis, talvez seja antes saber em que momento o caminho deixa de pertencer ao caminhante e passa a pertencer à instituição que o certifica.

O homem levantou-se, incomodado, e afastou-se em direção ao Santuário, levando consigo o seu documento, que apertava agora com maior firmeza, como se temesse que as palavras daquele desconhecido pudessem invalidar o carimbo.

Ricardo Reis ficou a pensar que os homens sempre tiveram necessidade de testemunhas, primeiro foram os deuses, depois os reis, depois os funcionários, e que talvez a história da civilização pudesse resumir-se à passagem da bênção ao selo branco.

Mais tarde aproximou-se de um pequeno balcão onde se distribuíam informações aos peregrinos.

Disseram-lhe que também poderia obter um certificado, desde que cumprisse as condições estabelecidas.

E quais são essas condições, perguntou.

Ter realizado o percurso e apresentar os elementos necessários à sua confirmação.

E se alguém tiver caminhado sem testemunhas.

Será mais difícil comprovar.

E se alguém tiver vindo de longe apenas em pensamento.

Isso não conta como peregrinação.

Ricardo Reis sorriu discretamente, pois acabava de descobrir que a alma, apesar de imortal segundo alguns, continuava a não dispor de reconhecimento administrativo.

Então o que aqui se certifica não é a peregrinação, disse, mas a sua conformidade com um regulamento.

A pessoa que o atendia olhou-o com a paciência profissional de quem já encontrara muitos visitantes difíceis.

O certificado é apenas uma recordação, senhor.

As recordações, respondeu Reis, costumavam viver na memória, mas talvez a memória humana tenha perdido a confiança em si própria e necessite agora de uma autoridade que lhe diga aquilo que viveu.

Afastou-se sem pedir o documento.

Na praça, uma mulher avançava de joelhos sobre a pedra, apoiada por duas familiares. O rosto contraído pela dor revelava uma determinação que nenhum certificado poderia medir. Ricardo Reis observou-a demoradamente e pensou que seria injusto confundir aquela mulher com o mecanismo que pretendia transformar a sua experiência em reconhecimento oficial. Não era a fé daquela peregrina que o perturbava, nem a sua esperança, por mais incompreensível que lhe parecesse, era antes a possibilidade de que alguém viesse um dia dizer-lhe que o seu sofrimento só adquiriria pleno significado depois de autenticado.

Porque a alienação, pensou Reis, não começa quando o homem acredita em Deus, começa quando entrega a outros a autoridade de lhe dizer se aquilo que sentiu foi verdadeiro.

O certificado era, nesse sentido, um objeto pequeno e uma renúncia imensa, um pedaço de papel pelo qual o peregrino, tendo percorrido livremente a estrada, aceitava que o sentido da sua caminhada lhe fosse devolvido por uma entidade exterior. Caminhara com as próprias pernas, sofrera com o próprio corpo, esperara com o próprio coração, mas no fim parecia precisar que alguém lhe declarasse, oficialmente, que tinha sido peregrino.

E assim o caminho, que poderia ter sido uma experiência de libertação, convertia-se numa cerimónia de obediência, não porque todos os que o percorriam fossem obedientes, mas porque a instituição aprendera a apresentar como dádiva aquilo que ao homem já pertencia.

Foi então que lhe pareceu ouvir uma voz conhecida, vinda de algum lugar entre a memória e a sombra.

Está muito preocupado com os papéis, Ricardo Reis.

Era Fernando Pessoa, ou a sua lembrança, que para o caso pouco importava, porque os mortos têm a vantagem de aparecer quando lhes convém e desaparecer antes de serem obrigados a explicar-se.

Não são os papéis que me preocupam, respondeu Reis, é a facilidade com que os homens lhes entregam a sua liberdade.

E pensa que a liberdade se perde assim tão facilmente.

Não se perde de uma vez, vai-se depositando em pequenas coisas, numa assinatura, num carimbo, numa autorização, até que um dia o homem já não sabe dizer quem é sem apresentar um documento.

Também os poetas precisam de livros para provar que escreveram.

Os livros não provam que fomos poetas, apenas que escrevemos palavras.

E os certificados não provam que fomos peregrinos, apenas que percorremos caminhos.

Nem isso, Fernando, provam sobretudo que alguém aceitou certificar-nos.

Pessoa sorriu, ou Reis imaginou que sorria, porque não há maneira segura de distinguir uma aparição de uma ideia quando ambas nos falam com a mesma voz.

Talvez esteja a exigir demasiado de um simples papel, disse Pessoa.

Talvez, respondeu Reis, mas é precisamente das coisas simples que se fazem as grandes submissões.

Ao cair da tarde, o Santuário encheu-se de luzes. Os peregrinos reuniram-se em oração e milhares de pequenas chamas começaram a mover-se na escuridão, frágeis e obstinadas como as esperanças humanas.

Ricardo Reis contemplou-as sem desprezo. Havia naquela multidão uma dignidade que nenhuma crítica à religião poderia honestamente apagar, porque cada rosto trazia consigo uma história de perda, de doença, de gratidão ou de medo, e seria uma crueldade intelectual reduzir todas essas vidas a um único erro.

Mas também seria outra crueldade, pensou, convencer os homens de que necessitam de autorização para reconhecer a sua própria experiência.

Não recusava ao peregrino o direito de guardar o certificado, recusava ao certificado o direito de definir o peregrino.

Porque quem caminha não se torna mais verdadeiro por receber uma declaração, assim como quem ama não ama mais por possuir uma certidão, nem quem sofre sofre menos por lhe reconhecerem oficialmente a dor.

Quando abandonou Fátima, Ricardo Reis levava consigo apenas o casaco, o chapéu e a memória daquela mulher que avançava de joelhos.

Não tinha certificado, não tinha carimbo, não tinha prova de haver estado ali.

E, contudo, estivera.

Talvez fosse essa a única peregrinação que ainda lhe interessava, aquela em que o homem, depois de atravessar o território das crenças, das promessas e das autoridades, regressasse a si próprio sem pedir a ninguém licença para existir.

Antes de partir, voltou-se uma última vez para o Santuário e pensou que Deus, se existe, não deverá necessitar de certificados, e que, se os exige, então se parece demasiado com os homens que o inventaram.

Depois continuou a caminhar.

Sem testemunhas.

Sem diploma.

Sem absolvição.

E sem que lhe ocorresse, uma única vez, pedir a alguém que lhe certificasse a liberdade.

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