terça-feira, outubro 13, 2026

A SALVAÇÃO DA ALMA, AGORA COM CARIMBO

Houve um tempo, meus caros senhores, em que um cristão, atormentado pelos seus pecados, metia ao ombro uma sacola com pão e azeitonas, agarrava-se a um bordão e partia, humilde e contrito, em direção a Fátima.

Chegava esfalfado, com os pés em sangue, ajoelhava-se diante da Virgem, rezava três ave-marias e regressava a casa convencido de que o Céu tomara boa nota da sua devoção.

Pois bem! Acabou-se essa desordem!

O Santuário de Fátima, acompanhando os luminosos progressos da civilização administrativa, resolveu introduzir na peregrinação aquilo que há muito faltava à religião portuguesa: o formulário, o código de registo, a credencial, o carimbo e o certificado!

Doravante, não bastará ao devoto ter fé, penitência e calos nos pés. Será necessário demonstrar, por meios documentalmente aceitáveis, que esses calos foram adquiridos no cumprimento de uma caminhada regulamentar.

A Providência, que até aqui tudo via, parece necessitar agora de um pequeno auxílio da secretaria.

Para começar, o peregrino deverá inscrever-se pela Internet, obtendo um código de registo. Imagino Nossa Senhora, sentada numa nuvem, a consultar um computador portátil:

— São Pedro, quem é aquele sujeito que vem ali de joelhos?

— É o senhor Joaquim da Silva, minha Senhora. Vem de Alcanena. Traz os joelhos num estado lastimoso.

— E tem código?

— Não consta, minha Senhora.

— Então que espere. Sem código não há certificado!

Depois, surge uma exigência verdadeiramente admirável: treze quilómetros!

Porquê treze? Não doze, não catorze, mas treze!

Imagino um pobre lavrador que, depois de percorrer doze quilómetros e novecentos metros, se apresenta, transido de emoção, diante do balcão.

— Venho cumprir uma promessa a Nossa Senhora!

— Quantos quilómetros fez?

— Doze e novecentos, senhor doutor.

— Lamento. Faltam-lhe cem metros.

— Mas venho descalço! Tenho os pés em ferida!

— Isso é assunto da enfermaria. Aqui tratamos de certificados.

E o desgraçado lá terá de dar mais umas voltas ao parque de estacionamento, para completar a quilometragem da salvação documental.

Mas não termina aqui o esplendor da modernidade!

Ao longo do caminho, o peregrino deverá recolher carimbos. Carimbos, meus senhores! Esses pequenos instrumentos de borracha e tinta que constituem, desde tempos imemoriais, o verdadeiro fundamento da autoridade portuguesa.

Em Portugal, um documento sem carimbo é uma folha de papel; um documento com carimbo é uma verdade oficial.

Cristo percorreu os caminhos da Galileia sem uma única credencial. São Francisco vagueou descalço pelas estradas de Itália sem solicitar comprovativos. E os pastorinhos de Fátima, coitados, tiveram a imprudência de assistir às aparições sem preencher previamente qualquer formulário eletrónico!

Felizmente, os tempos mudaram.

Agora, a fé pode ser organizada, registada, contabilizada e, sobretudo, certificada.

É verdade que parte das receitas das credenciais se destina a instituições de solidariedade, propósito meritório que até o mais rabugento dos anticlericais deve reconhecer.

Mas não deixa de ser deliciosa esta inclinação nacional para converter todos os atos humanos em processos administrativos.

O português nasce e recebe uma certidão. Estuda e recebe um diploma. Casa e recebe outra certidão. Morre e recebe mais uma.

Faltava-lhe apenas receber um certificado por ter caminhado em direção a Deus.

Eis a lacuna finalmente preenchida!

Vejo já, num futuro próximo, o aparecimento de novas especialidades burocrático-religiosas: o certificado de contrição, o diploma de arrependimento e a declaração de humildade, acompanhada de fotografia tipo passe.

Não me espantaria que, um dia, à entrada do Paraíso, São Pedro abandonasse definitivamente as suas tradicionais chaves e instalasse um balcão de atendimento.

— Nome completo?

— Manuel António Pereira.

— Número de contribuinte?

— Mas eu venho para o Céu!

— Compreendo. Tem marcação?

— Morri ontem!

— Isso não dispensa a marcação, meu caro senhor.

E, perante os protestos do pobre Manuel, o santo apontaria para um aviso afixado na porta:

«A ENTRADA NO REINO DOS CÉUS NÃO DISPENSA A APRESENTAÇÃO DOS DOCUMENTOS LEGALMENTE EXIGIDOS.»

Não pretendo negar a utilidade de uma credencial que recorde o esforço do peregrino, valorize os caminhos e contribua para uma boa causa.

Mas confesso que me enternece esta irresistível necessidade de passar a vida a provar aquilo que vivemos.

Já não basta caminhar: é preciso documentar a caminhada. Já não basta sofrer: é conveniente que o sofrimento seja verificável. Já não basta acreditar: importa conservar a prova de que acreditámos durante, pelo menos, treze quilómetros.

E assim, quando o peregrino regressar a casa, trazendo o certificado cuidadosamente emoldurado, poderá exibi-lo aos vizinhos:

— Vejam! Fui a Fátima a pé! Tenho aqui o documento!

Os vizinhos admirarão o papel, elogiarão a moldura e perguntarão quantos quilómetros percorreu.

Ninguém lhe perguntará se encontrou Deus.

Porque, meus caros senhores, Deus pode continuar a ser um mistério. Mas a peregrinação, essa, já tem certificado!

Assim progride a civilização portuguesa: de joelhos perante o Céu e de senha na mão perante o balcão.

 

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