Houve um tempo, meus caros senhores, em que um cristão, atormentado pelos seus pecados, metia ao ombro uma sacola com pão e azeitonas, agarrava-se a um bordão e partia, humilde e contrito, em direção a Fátima.
Chegava esfalfado, com os pés em sangue, ajoelhava-se diante
da Virgem, rezava três ave-marias e regressava a casa convencido de que o Céu
tomara boa nota da sua devoção.
Pois bem! Acabou-se essa desordem!
O Santuário de Fátima, acompanhando os luminosos progressos
da civilização administrativa, resolveu introduzir na peregrinação aquilo que
há muito faltava à religião portuguesa: o formulário, o código de registo, a
credencial, o carimbo e o certificado!
Doravante, não bastará ao devoto ter fé, penitência e calos
nos pés. Será necessário demonstrar, por meios documentalmente aceitáveis, que
esses calos foram adquiridos no cumprimento de uma caminhada regulamentar.
A Providência, que até aqui tudo via, parece necessitar
agora de um pequeno auxílio da secretaria.
Para começar, o peregrino deverá inscrever-se pela Internet,
obtendo um código de registo. Imagino Nossa Senhora, sentada numa nuvem, a
consultar um computador portátil:
— São Pedro, quem é aquele sujeito que vem ali de joelhos?
— É o senhor Joaquim da Silva, minha Senhora. Vem de
Alcanena. Traz os joelhos num estado lastimoso.
— E tem código?
— Não consta, minha Senhora.
— Então que espere. Sem código não há certificado!
Depois, surge uma exigência verdadeiramente admirável: treze
quilómetros!
Porquê treze? Não doze, não catorze, mas treze!
Imagino um pobre lavrador que, depois de percorrer doze
quilómetros e novecentos metros, se apresenta, transido de emoção, diante do
balcão.
— Venho cumprir uma promessa a Nossa Senhora!
— Quantos quilómetros fez?
— Doze e novecentos, senhor doutor.
— Lamento. Faltam-lhe cem metros.
— Mas venho descalço! Tenho os pés em ferida!
— Isso é assunto da enfermaria. Aqui tratamos de
certificados.
E o desgraçado lá terá de dar mais umas voltas ao parque de
estacionamento, para completar a quilometragem da salvação documental.
Mas não termina aqui o esplendor da modernidade!
Ao longo do caminho, o peregrino deverá recolher carimbos.
Carimbos, meus senhores! Esses pequenos instrumentos de borracha e tinta que
constituem, desde tempos imemoriais, o verdadeiro fundamento da autoridade
portuguesa.
Em Portugal, um documento sem carimbo é uma folha de papel;
um documento com carimbo é uma verdade oficial.
Cristo percorreu os caminhos da Galileia sem uma única
credencial. São Francisco vagueou descalço pelas estradas de Itália sem
solicitar comprovativos. E os pastorinhos de Fátima, coitados, tiveram a
imprudência de assistir às aparições sem preencher previamente qualquer
formulário eletrónico!
Felizmente, os tempos mudaram.
Agora, a fé pode ser organizada, registada, contabilizada e,
sobretudo, certificada.
É verdade que parte das receitas das credenciais se destina
a instituições de solidariedade, propósito meritório que até o mais rabugento
dos anticlericais deve reconhecer.
Mas não deixa de ser deliciosa esta inclinação nacional para
converter todos os atos humanos em processos administrativos.
O português nasce e recebe uma certidão. Estuda e recebe um
diploma. Casa e recebe outra certidão. Morre e recebe mais uma.
Faltava-lhe apenas receber um certificado por ter caminhado
em direção a Deus.
Eis a lacuna finalmente preenchida!
Vejo já, num futuro próximo, o aparecimento de novas
especialidades burocrático-religiosas: o certificado de contrição, o diploma de
arrependimento e a declaração de humildade, acompanhada de fotografia tipo
passe.
Não me espantaria que, um dia, à entrada do Paraíso, São
Pedro abandonasse definitivamente as suas tradicionais chaves e instalasse um
balcão de atendimento.
— Nome completo?
— Manuel António Pereira.
— Número de contribuinte?
— Mas eu venho para o Céu!
— Compreendo. Tem marcação?
— Morri ontem!
— Isso não dispensa a marcação, meu caro senhor.
E, perante os protestos do pobre Manuel, o santo apontaria
para um aviso afixado na porta:
«A ENTRADA NO REINO DOS CÉUS NÃO DISPENSA A APRESENTAÇÃO
DOS DOCUMENTOS LEGALMENTE EXIGIDOS.»
Não pretendo negar a utilidade de uma credencial que recorde
o esforço do peregrino, valorize os caminhos e contribua para uma boa causa.
Mas confesso que me enternece esta irresistível necessidade
de passar a vida a provar aquilo que vivemos.
Já não basta caminhar: é preciso documentar a caminhada. Já
não basta sofrer: é conveniente que o sofrimento seja verificável. Já não basta
acreditar: importa conservar a prova de que acreditámos durante, pelo menos,
treze quilómetros.
E assim, quando o peregrino regressar a casa, trazendo o
certificado cuidadosamente emoldurado, poderá exibi-lo aos vizinhos:
— Vejam! Fui a Fátima a pé! Tenho aqui o documento!
Os vizinhos admirarão o papel, elogiarão a moldura e
perguntarão quantos quilómetros percorreu.
Ninguém lhe perguntará se encontrou Deus.
Porque, meus caros senhores, Deus pode continuar a ser um
mistério. Mas a peregrinação, essa, já tem certificado!
Assim progride a civilização portuguesa: de joelhos
perante o Céu e de senha na mão perante o balcão.

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