quarta-feira, outubro 14, 2026

O Certificado dos que Caminham

 Escrito apócrifo — Ricardo Reis visita o Santuário de Fátima

Ficção literária original, em homenagem ao universo de José Saramago, à sua ironia filosófica e à personagem de Ricardo Reis.


Ricardo Reis chegou a Fátima numa manhã de outubro, dessas em que o nevoeiro parece não saber se deve levantar-se da terra ou permanecer sobre ela como um pensamento que não encontra conclusão, havia peregrinos por toda a parte, alguns de joelhos, outros de pés ensanguentados, muitos carregando promessas, que são uma espécie de dívida contraída com o invisível, e outros ainda trazendo consigo a esperança de que a Virgem lhes reconhecesse os sacrifícios, embora não estivesse esclarecido por que razão haveria o sofrimento humano de servir de moeda nas transações com o divino.

Ricardo Reis não viera por promessa, nem por fé, nem sequer por curiosidade religiosa, viera porque lhe tinham dito que ali os homens caminhavam para encontrar uma resposta e ele, que durante a vida procurara sobretudo evitar perguntas demasiado comprometedoras, quis saber se era verdade que uma resposta podia esperar por alguém no fim de uma estrada.

Sentou-se num banco de pedra, diante da grande praça, e ficou a observar aquela multidão que avançava lentamente para a Capelinha das Aparições, como se o movimento dos corpos pudesse aproximar as almas de alguma certeza.

Ao seu lado sentou-se um homem de idade avançada, trazendo ao peito uma medalha da Virgem e na mão um papel cuidadosamente protegido por uma capa de plástico.

É o meu certificado de peregrino, disse o homem, mostrando-o com o orgulho de quem apresenta um diploma universitário ou uma escritura de propriedade, fiz o caminho todo a pé, muitos quilómetros, e agora tenho aqui a prova.

Ricardo Reis olhou para o documento, onde se encontravam inscritos um nome, uma data, talvez um carimbo, essa pequena invenção administrativa pela qual os homens procuram dar existência oficial àquilo que já aconteceu.

A prova de quê, perguntou.

De que fiz a peregrinação, respondeu o homem, surpreendido com a pergunta.

Mas os seus pés não sabem que caminharam.

Sabem, e bem, ainda me doem.

Então por que precisa do papel.

Para ficar a recordação, para mostrar aos meus filhos, para que saibam que aqui estive.

Ricardo Reis permaneceu em silêncio, porque há perguntas que não devem ser imediatamente respondidas, sobretudo quando a resposta ameaça retirar ao outro uma alegria que, embora ilusória, é a única que possui.

Depois disse, Talvez os seus filhos acreditassem mais nos seus pés do que no certificado, mas vivemos num tempo em que a palavra de um homem vale menos do que a assinatura de outro, e até a fé, que sempre se disse invisível, parece agora necessitar de papel timbrado.

O velho não compreendeu inteiramente, ou compreendeu demasiado, que por vezes é a mesma coisa.

O senhor não é crente, perguntou.

Não sei se a questão é acreditar, respondeu Reis, talvez seja antes saber em que momento o caminho deixa de pertencer ao caminhante e passa a pertencer à instituição que o certifica.

O homem levantou-se, incomodado, e afastou-se em direção ao Santuário, levando consigo o seu documento, que apertava agora com maior firmeza, como se temesse que as palavras daquele desconhecido pudessem invalidar o carimbo.

Ricardo Reis ficou a pensar que os homens sempre tiveram necessidade de testemunhas, primeiro foram os deuses, depois os reis, depois os funcionários, e que talvez a história da civilização pudesse resumir-se à passagem da bênção ao selo branco.

Mais tarde aproximou-se de um pequeno balcão onde se distribuíam informações aos peregrinos.

Disseram-lhe que também poderia obter um certificado, desde que cumprisse as condições estabelecidas.

E quais são essas condições, perguntou.

Ter realizado o percurso e apresentar os elementos necessários à sua confirmação.

E se alguém tiver caminhado sem testemunhas.

Será mais difícil comprovar.

E se alguém tiver vindo de longe apenas em pensamento.

Isso não conta como peregrinação.

Ricardo Reis sorriu discretamente, pois acabava de descobrir que a alma, apesar de imortal segundo alguns, continuava a não dispor de reconhecimento administrativo.

Então o que aqui se certifica não é a peregrinação, disse, mas a sua conformidade com um regulamento.

A pessoa que o atendia olhou-o com a paciência profissional de quem já encontrara muitos visitantes difíceis.

O certificado é apenas uma recordação, senhor.

As recordações, respondeu Reis, costumavam viver na memória, mas talvez a memória humana tenha perdido a confiança em si própria e necessite agora de uma autoridade que lhe diga aquilo que viveu.

Afastou-se sem pedir o documento.

Na praça, uma mulher avançava de joelhos sobre a pedra, apoiada por duas familiares. O rosto contraído pela dor revelava uma determinação que nenhum certificado poderia medir. Ricardo Reis observou-a demoradamente e pensou que seria injusto confundir aquela mulher com o mecanismo que pretendia transformar a sua experiência em reconhecimento oficial. Não era a fé daquela peregrina que o perturbava, nem a sua esperança, por mais incompreensível que lhe parecesse, era antes a possibilidade de que alguém viesse um dia dizer-lhe que o seu sofrimento só adquiriria pleno significado depois de autenticado.

Porque a alienação, pensou Reis, não começa quando o homem acredita em Deus, começa quando entrega a outros a autoridade de lhe dizer se aquilo que sentiu foi verdadeiro.

O certificado era, nesse sentido, um objeto pequeno e uma renúncia imensa, um pedaço de papel pelo qual o peregrino, tendo percorrido livremente a estrada, aceitava que o sentido da sua caminhada lhe fosse devolvido por uma entidade exterior. Caminhara com as próprias pernas, sofrera com o próprio corpo, esperara com o próprio coração, mas no fim parecia precisar que alguém lhe declarasse, oficialmente, que tinha sido peregrino.

E assim o caminho, que poderia ter sido uma experiência de libertação, convertia-se numa cerimónia de obediência, não porque todos os que o percorriam fossem obedientes, mas porque a instituição aprendera a apresentar como dádiva aquilo que ao homem já pertencia.

Foi então que lhe pareceu ouvir uma voz conhecida, vinda de algum lugar entre a memória e a sombra.

Está muito preocupado com os papéis, Ricardo Reis.

Era Fernando Pessoa, ou a sua lembrança, que para o caso pouco importava, porque os mortos têm a vantagem de aparecer quando lhes convém e desaparecer antes de serem obrigados a explicar-se.

Não são os papéis que me preocupam, respondeu Reis, é a facilidade com que os homens lhes entregam a sua liberdade.

E pensa que a liberdade se perde assim tão facilmente.

Não se perde de uma vez, vai-se depositando em pequenas coisas, numa assinatura, num carimbo, numa autorização, até que um dia o homem já não sabe dizer quem é sem apresentar um documento.

Também os poetas precisam de livros para provar que escreveram.

Os livros não provam que fomos poetas, apenas que escrevemos palavras.

E os certificados não provam que fomos peregrinos, apenas que percorremos caminhos.

Nem isso, Fernando, provam sobretudo que alguém aceitou certificar-nos.

Pessoa sorriu, ou Reis imaginou que sorria, porque não há maneira segura de distinguir uma aparição de uma ideia quando ambas nos falam com a mesma voz.

Talvez esteja a exigir demasiado de um simples papel, disse Pessoa.

Talvez, respondeu Reis, mas é precisamente das coisas simples que se fazem as grandes submissões.

Ao cair da tarde, o Santuário encheu-se de luzes. Os peregrinos reuniram-se em oração e milhares de pequenas chamas começaram a mover-se na escuridão, frágeis e obstinadas como as esperanças humanas.

Ricardo Reis contemplou-as sem desprezo. Havia naquela multidão uma dignidade que nenhuma crítica à religião poderia honestamente apagar, porque cada rosto trazia consigo uma história de perda, de doença, de gratidão ou de medo, e seria uma crueldade intelectual reduzir todas essas vidas a um único erro.

Mas também seria outra crueldade, pensou, convencer os homens de que necessitam de autorização para reconhecer a sua própria experiência.

Não recusava ao peregrino o direito de guardar o certificado, recusava ao certificado o direito de definir o peregrino.

Porque quem caminha não se torna mais verdadeiro por receber uma declaração, assim como quem ama não ama mais por possuir uma certidão, nem quem sofre sofre menos por lhe reconhecerem oficialmente a dor.

Quando abandonou Fátima, Ricardo Reis levava consigo apenas o casaco, o chapéu e a memória daquela mulher que avançava de joelhos.

Não tinha certificado, não tinha carimbo, não tinha prova de haver estado ali.

E, contudo, estivera.

Talvez fosse essa a única peregrinação que ainda lhe interessava, aquela em que o homem, depois de atravessar o território das crenças, das promessas e das autoridades, regressasse a si próprio sem pedir a ninguém licença para existir.

Antes de partir, voltou-se uma última vez para o Santuário e pensou que Deus, se existe, não deverá necessitar de certificados, e que, se os exige, então se parece demasiado com os homens que o inventaram.

Depois continuou a caminhar.

Sem testemunhas.

Sem diploma.

Sem absolvição.

E sem que lhe ocorresse, uma única vez, pedir a alguém que lhe certificasse a liberdade.

terça-feira, outubro 13, 2026

A SALVAÇÃO DA ALMA, AGORA COM CARIMBO

Houve um tempo, meus caros senhores, em que um cristão, atormentado pelos seus pecados, metia ao ombro uma sacola com pão e azeitonas, agarrava-se a um bordão e partia, humilde e contrito, em direção a Fátima.

Chegava esfalfado, com os pés em sangue, ajoelhava-se diante da Virgem, rezava três ave-marias e regressava a casa convencido de que o Céu tomara boa nota da sua devoção.

Pois bem! Acabou-se essa desordem!

O Santuário de Fátima, acompanhando os luminosos progressos da civilização administrativa, resolveu introduzir na peregrinação aquilo que há muito faltava à religião portuguesa: o formulário, o código de registo, a credencial, o carimbo e o certificado!

Doravante, não bastará ao devoto ter fé, penitência e calos nos pés. Será necessário demonstrar, por meios documentalmente aceitáveis, que esses calos foram adquiridos no cumprimento de uma caminhada regulamentar.

A Providência, que até aqui tudo via, parece necessitar agora de um pequeno auxílio da secretaria.

Para começar, o peregrino deverá inscrever-se pela Internet, obtendo um código de registo. Imagino Nossa Senhora, sentada numa nuvem, a consultar um computador portátil:

— São Pedro, quem é aquele sujeito que vem ali de joelhos?

— É o senhor Joaquim da Silva, minha Senhora. Vem de Alcanena. Traz os joelhos num estado lastimoso.

— E tem código?

— Não consta, minha Senhora.

— Então que espere. Sem código não há certificado!

Depois, surge uma exigência verdadeiramente admirável: treze quilómetros!

Porquê treze? Não doze, não catorze, mas treze!

Imagino um pobre lavrador que, depois de percorrer doze quilómetros e novecentos metros, se apresenta, transido de emoção, diante do balcão.

— Venho cumprir uma promessa a Nossa Senhora!

— Quantos quilómetros fez?

— Doze e novecentos, senhor doutor.

— Lamento. Faltam-lhe cem metros.

— Mas venho descalço! Tenho os pés em ferida!

— Isso é assunto da enfermaria. Aqui tratamos de certificados.

E o desgraçado lá terá de dar mais umas voltas ao parque de estacionamento, para completar a quilometragem da salvação documental.

Mas não termina aqui o esplendor da modernidade!

Ao longo do caminho, o peregrino deverá recolher carimbos. Carimbos, meus senhores! Esses pequenos instrumentos de borracha e tinta que constituem, desde tempos imemoriais, o verdadeiro fundamento da autoridade portuguesa.

Em Portugal, um documento sem carimbo é uma folha de papel; um documento com carimbo é uma verdade oficial.

Cristo percorreu os caminhos da Galileia sem uma única credencial. São Francisco vagueou descalço pelas estradas de Itália sem solicitar comprovativos. E os pastorinhos de Fátima, coitados, tiveram a imprudência de assistir às aparições sem preencher previamente qualquer formulário eletrónico!

Felizmente, os tempos mudaram.

Agora, a fé pode ser organizada, registada, contabilizada e, sobretudo, certificada.

É verdade que parte das receitas das credenciais se destina a instituições de solidariedade, propósito meritório que até o mais rabugento dos anticlericais deve reconhecer.

Mas não deixa de ser deliciosa esta inclinação nacional para converter todos os atos humanos em processos administrativos.

O português nasce e recebe uma certidão. Estuda e recebe um diploma. Casa e recebe outra certidão. Morre e recebe mais uma.

Faltava-lhe apenas receber um certificado por ter caminhado em direção a Deus.

Eis a lacuna finalmente preenchida!

Vejo já, num futuro próximo, o aparecimento de novas especialidades burocrático-religiosas: o certificado de contrição, o diploma de arrependimento e a declaração de humildade, acompanhada de fotografia tipo passe.

Não me espantaria que, um dia, à entrada do Paraíso, São Pedro abandonasse definitivamente as suas tradicionais chaves e instalasse um balcão de atendimento.

— Nome completo?

— Manuel António Pereira.

— Número de contribuinte?

— Mas eu venho para o Céu!

— Compreendo. Tem marcação?

— Morri ontem!

— Isso não dispensa a marcação, meu caro senhor.

E, perante os protestos do pobre Manuel, o santo apontaria para um aviso afixado na porta:

«A ENTRADA NO REINO DOS CÉUS NÃO DISPENSA A APRESENTAÇÃO DOS DOCUMENTOS LEGALMENTE EXIGIDOS.»

Não pretendo negar a utilidade de uma credencial que recorde o esforço do peregrino, valorize os caminhos e contribua para uma boa causa.

Mas confesso que me enternece esta irresistível necessidade de passar a vida a provar aquilo que vivemos.

Já não basta caminhar: é preciso documentar a caminhada. Já não basta sofrer: é conveniente que o sofrimento seja verificável. Já não basta acreditar: importa conservar a prova de que acreditámos durante, pelo menos, treze quilómetros.

E assim, quando o peregrino regressar a casa, trazendo o certificado cuidadosamente emoldurado, poderá exibi-lo aos vizinhos:

— Vejam! Fui a Fátima a pé! Tenho aqui o documento!

Os vizinhos admirarão o papel, elogiarão a moldura e perguntarão quantos quilómetros percorreu.

Ninguém lhe perguntará se encontrou Deus.

Porque, meus caros senhores, Deus pode continuar a ser um mistério. Mas a peregrinação, essa, já tem certificado!

Assim progride a civilização portuguesa: de joelhos perante o Céu e de senha na mão perante o balcão.

 

segunda-feira, outubro 12, 2026

A ILUSTRE PRESIDENTE QUE NÃO QUERIA SER DE BERMAS E VALETAS

(Crónica sobre os novos destinos da freguesia de Seiça)

Por um modesto observador dos costumes políticos da nossa terra, que ainda acredita que o progresso começa por chegar a horas e acaba por cumprir o prometido.

Há em Portugal uma extraordinária abundância de criaturas que, mal se sentam numa cadeira de autoridade, descobrem imediatamente a necessidade de transformar o mundo. Algumas começam pela Humanidade, outras pela Europa, outras ainda pelo município. A senhora Ângela Marques, presidente da Junta de Freguesia de Seiça, contenta-se, por enquanto, com transformar a sua freguesia — o que, convenhamos, já constitui empresa suficientemente grandiosa para ocupar uma existência e consumir três orçamentos.

Numa entrevista concedida ao Jornal de Leiria, a ilustre autarca revelou-nos os seus pensamentos, as suas inquietações, os seus sonhos e até as suas preferências televisivas. E fê-lo com aquela serena confiança de quem contempla o futuro como uma vasta avenida, convenientemente iluminada, por onde o progresso há de chegar, de preferência, em fibra óptica.

Porque, meus senhores, o grande drama de Seiça já não é a estrada esburacada, a valeta entupida ou a berma tomada pelas ervas. É a internet!

A senhora presidente declarou, com uma convicção digna dos grandes estadistas, que, se dispusesse de orçamento ilimitado, levaria fibra óptica a toda a freguesia.

Não construiria um hospital, não multiplicaria habitações, não criaria uma fábrica que desse trabalho aos jovens, não resolveria de uma assentada os males da velhice e da solidão. Não! Mandaria instalar fibra óptica.

E eu, que sou homem de pouca ciência e ainda menos familiaridade com os mistérios da tecnologia, confesso que fiquei impressionado.

Imagine-se o velho Joaquim, sentado à porta de casa, contemplando os campos abandonados e recordando os filhos que partiram para Lisboa ou para o estrangeiro. Até aqui, o pobre homem tinha apenas a tristeza, o silêncio e as recordações. Mas, com a fibra óptica, poderá continuar triste, silencioso e abandonado — só que a uma velocidade extraordinária!

Eis o progresso!

A solidão, que antigamente se arrastava penosamente pelas tardes de inverno, passará agora a circular a centenas de megabits por segundo.

Mas não sejamos injustos. A senhora presidente preocupa-se igualmente com a habitação, com os idosos e com a juventude. Preocupa-se, aliás, com tudo. E é precisamente esta abundância de preocupações que me inquieta. Porque, na nossa querida pátria, as preocupações dos governantes têm frequentemente uma particularidade admirável: são tão numerosas que não lhes sobra tempo para as resolver.

A senhora Ângela deseja uma freguesia «mais dinâmica, mais moderna e onde as pessoas sintam que contam».

Magnífica aspiração!

Fiquei, todavia, a pensar se os habitantes de Seiça pretendem apenas sentir que contam ou se gostariam, eventualmente, de contar mesmo.

Porque há uma diferença considerável entre ser ouvido e ser atendido. O primeiro exercício exige uma cadeira, um sorriso e alguma paciência. O segundo requer trabalho, recursos, decisões e, por vezes, a desagradável necessidade de contrariar alguém.

Mas a frase verdadeiramente memorável da entrevista, aquela que merece ser gravada em bronze e colocada à entrada da sede da Junta, é esta:

«Não sou uma presidente de bermas e valeta!»

Ah! Que declaração! Que arrojo! Que emancipação política!

Durante gerações, o humilde presidente de junta foi uma criatura condenada a conviver com caminhos, sarjetas, ervas daninhas, fontes públicas e pequenos buracos que, depois de cada inverno, adquiriam a profundidade de uma questão nacional.

Eis que surge agora uma nova escola de administração local, decidida a elevar-se acima dessas misérias terrestres.

A berma é coisa mesquinha. A valeta é uma indignidade. O buraco na estrada pertence à arqueologia administrativa. A verdadeira política deve ocupar-se de horizontes, de sinergias, de dinamismos, de comunidades participativas e, naturalmente, de redes digitais.

O problema é que, enquanto a presidente contempla os grandes horizontes, o freguês continua a precisar de passar pela estrada.

E, se a valeta estiver obstruída, a água não se impressionará com a modernidade do discurso: entrará pela propriedade adentro com a mesma brutalidade democrática de sempre.

É certo que a autarca esclarece considerar importantes as infraestruturas e os acessos. Apenas não deseja que constituam a sua única prioridade. Justíssima distinção, que o nosso espírito satírico não deve esquecer. Mas há declarações que, pela felicidade da expressão, adquirem vida própria. E esta, receio bem, acompanhará a senhora presidente durante todo o mandato.

Bastará que uma sarjeta transborde para que algum espírito malicioso exclame:

— Naturalmente! A senhora presidente já avisou que não é de valetas!

Entretanto, a nossa ilustre governante tem ambições literárias.

Interrogada sobre o título que daria a um livro dedicado à sua freguesia, respondeu:

«Seiça: raízes firmes, páginas em aberto».

Confesso que achei o título encantador. Tem raízes, tem páginas e tem uma abertura suficientemente ampla para nela caberem todas as promessas eleitorais que ainda não encontraram destino.

Mais interessante é a declaração de que a própria presidente gostaria de ser uma das escritoras dessa história.

Ora aqui está uma ideia que merece reflexão.

Sempre suspeitei de que a política portuguesa se aproximava mais da literatura de ficção do que da contabilidade pública. Mas raramente encontrei quem o reconhecesse com tamanha espontaneidade.

Esperemos, pois, que a obra não se transforme num daqueles romances intermináveis em que os protagonistas anunciam grandes acontecimentos durante centenas de páginas e, chegando ao último capítulo, descobrimos que nada aconteceu.

E que as raízes, de tão firmes, não acabem por impedir qualquer crescimento.

A entrevista reserva-nos ainda uma revelação deliciosa.

Se pudesse escolher uma personalidade para exercer, durante um dia, a presidência honorária da Junta, a senhora Ângela Marques convidaria Catarina Furtado.

Compreende-se perfeitamente.

A distinta apresentadora possui simpatia, sensibilidade social e uma longa experiência em conversar com pessoas diante das câmaras. Seria, portanto, uma presença agradável numa freguesia onde, segundo a própria presidente, importa sobretudo ouvir os habitantes.

Imagino já o acontecimento.

Catarina chega a Seiça, percorre as localidades, visita associações, escuta os idosos, sorri às crianças e emociona-se com as histórias de vida. A senhora presidente acompanha-a, naturalmente, com aquele ar satisfeito de quem vê finalmente a sua terra reconhecida pelas altas esferas da civilização televisiva.

Haverá fotografias, abraços, talvez um pequeno lanche e seguramente palavras muito bonitas sobre a solidariedade.

No fim do dia, Catarina regressará a Lisboa, levando consigo a memória de uma comunidade acolhedora.

Os habitantes regressarão às suas casas.

E as valetas, essas criaturas obstinadas e insensíveis ao prestígio mediático, continuarão onde sempre estiveram.

Mas há ainda a questão do turismo.

A senhora presidente recomenda três maravilhas locais: a Ribeira de Seiça, a Casa-Museu e uma rota pelas fontes da freguesia.

É uma escolha que revela apreço pelo património natural e histórico. E faz muito bem. Uma terra sem memória é como um homem sem passado: pode ter internet, mas não sabe quem é.

A Ribeira, infelizmente, ainda acusa os efeitos da tempestade Kristin. As fontes, essas, aguardam os visitantes que desejem descobrir as histórias dispersas pela freguesia.

E eu imagino um turista estrangeiro, atraído pelas promessas de modernidade, a perguntar:

— E como posso conhecer todas essas maravilhas?

— Muito facilmente, meu caro senhor! Basta seguir a rota das fontes!

— Existe alguma aplicação digital?

— Ainda não sabemos. Mas, quando a fibra óptica chegar, será certamente uma possibilidade!

O turista, encantado, parte à descoberta das fontes, das raízes e das páginas em aberto, levando no coração a certeza de que visitou uma terra onde o futuro está sempre prestes a começar.

E é justamente aqui que reside o encanto desta entrevista.

A senhora Ângela Marques parece sinceramente desejosa de melhorar a vida da freguesia. Não há razão para duvidar da sua boa vontade. Mas a boa vontade, esse sentimento tão abundante na administração portuguesa, possui um defeito terrível: não substitui a obra feita.

Uma freguesia não se torna moderna porque alguém a deseja moderna. Não se torna dinâmica porque alguém pronuncia a palavra dinamismo. Não ganha oportunidades porque estas aparecem numa entrevista, devidamente acompanhadas de intenções generosas.

É necessário explicar o que se fará, quando se fará, com que dinheiro se fará e quem responderá se não for feito.

A fibra óptica é importante, sem dúvida. Mas importa saber que diligências serão desenvolvidas junto dos operadores e das entidades competentes. A habitação é uma preocupação legítima. Mas importa conhecer as soluções possíveis. O envelhecimento da população merece atenção. Mas importa perceber que respostas concretas se pretendem criar.

Tudo o resto pertence à nobre arte da esperança administrativa, essa maravilhosa disciplina em que Portugal conquistou, desde há séculos, uma supremacia incontestável.

E assim, depois de ler atentamente a entrevista, fiquei com uma impressão curiosa.

Seiça tem uma presidente que deseja escrever o futuro, ouvir os habitantes, unir as associações, acolher celebridades, proteger as raízes, abrir páginas e cobrir a freguesia de fibra óptica.

É um programa vastíssimo, digno de uma pequena nação.

Falta-nos apenas conhecer o capítulo dedicado à execução.

Porque, minha senhora, permita-me uma derradeira observação: as bermas e as valetas podem não fazer a grandeza de uma presidência, mas o estado em que se encontram pode muito bem revelar a qualidade da sua administração.

E, quando chegar o fim do mandato, talvez os habitantes de Seiça não perguntem quantas páginas foram abertas, quantas personalidades foram convidadas ou quantas vezes se pronunciou a palavra «futuro».

Perguntarão, mais simplesmente:

— Então, senhora presidente, que foi feito?

E seria lamentável que a resposta, transmitida através de uma esplêndida ligação de fibra óptica, fosse apenas:

— Meus amigos, continuamos a trabalhar para uma freguesia mais dinâmica!

Porque, nesse caso, Seiça terá finalmente entrado na modernidade.

Poderá receber as promessas à velocidade da luz, embora as realizações continuem a chegar à velocidade de uma carroça.

sábado, dezembro 20, 2025

Neve na fronteira

A neve começara a cair antes do previsto, cobrindo a pradaria de um branco traiçoeiro. O vento empurrava a neblina como se quisesse apagar o mundo, e a criança, um rapaz de uns dez anos, habituado mais à dureza do que à ternura, caminhava com passos firmes, apesar do frio que lhe mordia os ossos.

O rancho ficava longe. Mais longe do que deveria estar, agora que a tempestade apertava.Mas ele tinha saído para recolher lenha, e o dever, ensinara-lhe o pai, era coisa que se cumpria mesmo quando o céu desabava.

Quando o rapaz parou para recuperar o fôlego, ouviu um som leve, quase um murmúrio. Um rosnado baixo. Voltou-se devagar, a mão aproximando-se instintivamente do pequeno canivete que trazia no cinto, arma simbólica, mas ainda assim arma.

Dos arbustos surgiu uma raposa magra, o pelo eriçado pela luta contra o inverno. Os olhos, porém, brilhavam com a esperteza típica dos que sobreviveram demasiado tempo à beira da morte.

O rapaz não recuou. A raposa também não.

Entre os dois pairou um silêncio feito de gelo e desconfiança, o tipo de silêncio que antecede sempre uma decisão importante, mesmo para os pequenos.

O vento uivou. A criança tremeu.
A raposa avançou um passo.

Não para atacar.
Mas para se encostar ao rapaz, encostando o corpo quente à perna dele como se soubesse que só juntos iriam sobreviver.

— Não me mordas, ouviste? — resmungou o rapaz.
A raposa levantou o focinho, como se o desafiasse a duvidar da sua intenção.

Ali, no meio da pradaria branca, dois sobreviventes entenderam-se.
O frio tornava-se mais forte, mas o calor do animal era inesperadamente firme, quase teimoso.

Continuaram o caminho, o rapaz apoiado na coragem que aprendera nas histórias do pai, a raposa movida pelo instinto feroz dos que não se rendem ao inverno.

Quando finalmente avistaram a luz distante do rancho, o rapaz sentiu algo que não sabia pôr em palavras, uma espécie de respeito. Duro. Seco. O tipo de respeito que nasce apenas quando dois seres atravessam juntos o perigo da fronteira.

Parou à porta, olhou para a raposa e disse:

— És livre. Sabes disso.
A raposa ergueu as orelhas, como que pesando a decisão. Depois deu meia-volta e desapareceu na noite branca, tão silenciosa quanto surgira.

O rapaz entrou em casa, sacudindo a neve.
Sabia que, lá fora, num mundo onde poucos sobreviviam, tinha encontrado um aliado improvável.
E que, naquelas terras selvagens, alianças assim valiam mais do que ouro.

terça-feira, dezembro 16, 2025

A sombra altiva


Há gente assim:
não sabe receber um gesto simples,
uma palavra boa,
como se a ternura viesse sempre
com segunda intenção.

Recolhem-se.
Respondem seco, duros,
como pedra que não quer ser tocada.
Guardam da vida um orgulho agreste,
feito de serras interiores
onde ninguém sobe.

Sentem-se superiores
ou fingem que sentem
e por isso rejeitam a proximidade,
como lobos que não admitem
qualquer rasto de afeto no território.

Mas são, no fundo,
florestas cansadas
que recusam a água que as salva,
e desprezam o sol
pensando que não precisam dele.
E é nessa teimosia antiga
que se vão secando devagar,
ramo a ramo,
até restar apenas o silêncio
de uma sombra altiva.

domingo, dezembro 14, 2025

A menina e os pirilampos

A Menina e os Pirilampos

Numa aldeia rodeada de árvores altas, vivia uma menina chamada Lia. Todas as noites, depois do jantar, ela gostava de caminhar até ao quintal para ouvir o vento conversar com as folhas. Era o seu momento preferido do dia.

Uma noite, enquanto Lia seguia o caminho de sempre, viu pequenos brilhos a dançar no ar. No início pensou que fosse magia — e, na verdade, era mesmo. Eram pirilampos! Pequenos pontinhos verdes que acendiam e apagavam como se piscassem para ela.

Lia abriu um sorriso tão grande que parecia outra estrela no meio da noite.

Mas, de repente, ouviu um som rápido:

— Mrrrrr… tchac!

Era o Gato Neco, o gato da casa do vizinho. Tinha olhos amarelos, cheios de curiosidade, e achou que aqueles pirilampos brilhantes eram brinquedos perfeitos para caçar. Deu um salto, depois outro, tentando apanhar um deles com a pata esticada.

Os pirilampos assustaram-se e começaram a subir mais alto.

Lia deu um passo à frente e abriu os braços como quem protege um tesouro.

— Neco, não! — disse ela num tom firme, mas gentil —. Os pirilampos não são para apanhar. São nossos amigos.

O gato parou, abanou a cauda, e miou como se desculpasse a brincadeira. Depois, sentou-se a observar, ainda intrigado, mas sem voltar ao ataque.

Os pirilampos ficaram tão admirados com a coragem da menina que voltaram a descer devagarinho, iluminando o seu rosto. Durante alguns segundos, Lia parecia rodeada por pequenas lanternas vivas.

E foi assim que tudo começou.

Na noite seguinte, os pirilampos voltaram. E na outra. E na outra ainda.

Passaram a visitar Lia todos os dias, chegando sempre ao cair da noite, como amigos que nunca se esquecem de aparecer. Dançavam à volta dela, pousavam-lhe nas mãos, e até faziam desenhos de luz no ar, só para a fazer rir.

O Gato Neco, agora mais bem-comportado, limitava-se a vê-los de longe, sentado como um guarda elegante. Afinal, também ele percebera que aqueles pequenos brilhos eram especiais.

E assim, entre risos, luzinhas e noites estreladas, Lia descobriu que proteger os mais pequenos era uma forma de magia, a mais bonita de todas.


quinta-feira, dezembro 11, 2025

A barca da salvação

O rio corria fundo, com a transparência antiga das coisas que não mentem.
Na outra margem, um bando de pequenos jacarés inquietava-se,
filhos da aventura antes do tempo.
Queriam atravessar. Queriam o mundo.
E foi então que a raposa vermelha apareceu, silenciosa,
como quem sabe o ofício de viver.

Olharam-na com ousadia.
Pediram-lhe passagem, sem cerimónias nem temor.
A raposa, que conhecia as sombras da mata e o coração das mães,
percebeu logo que não havia ali malícia,
apenas o ímpeto natural de crescer.

Sem alarde, ofereceu o lombo.
Fez-se barca.
Deixou que seis destinos miúdos se ajeitassem nas suas costas.
E lançou-se ao rio, remando com as patas
como quem abre caminho no próprio fado.

A corrente levou-os, mansa,
e nenhum perigo se levantou contra aquela estranha confraria.
Na outra margem, a raposa inclinou-se,
e os pequenos saltaram para a terra firme
com a gratidão muda dos bichos que entendem a dádiva.

Missão cumprida.
A raposa seguiu adiante,
sem pedir louvores,
porque, na natureza,
ser justo basta.

terça-feira, dezembro 09, 2025

A Lenda do Guardião dos Moinhos de Ourém

 

Dizem os mais antigos que, muito antes de as pedras do castelo se tornarem ruínas e de os moinhos pararem de rodar ao vento, a Colina de Ourém era vigiada por um homem solitário e por um companheiro que não era menos do que a alma selvagem da própria serra: o Lobo Velho.

Nessa altura, os moinhos cantavam noite e dia, movidos por ventos caprichosos que vinham do vale. O barulho das pás misturava-se com o som dos pinhais, criando um hino estranho, como se a colina respirasse vida própria.

Conta-se que Jonas Rocha — ninguém sabia donde viera — subiu a colina num inverno em que a neve caía mais branca do que pão de missa. Trouxe consigo pouca coisa: uma espingarda, um casaco gasto e um olhar de homem que já vira demasiado. Mas trouxe também algo que ninguém viu logo: o peso de uma promessa feita a um lobo ferido.

O Lobo Velho, diziam, não era apenas animal. Era espírito guardião. Quem se perdia na noite encontrava-o às vezes, a caminhar entre as sombras, olhos a brilhar como carvões acesos. E quem o via saía ileso, desde que trouxesse o coração limpo.

E assim se mantiveram, homem e lobo, guardando os moinhos, afastando ladrões que tentavam roubar o trigo, ajudando viajantes perdidos, e enfrentando tempestades que faziam as pás dos moinhos rodarem como gigantes enlouquecidos.

Mas um dia chegaram homens maus à colina. Gente que não respeitava nada nem ninguém. Reza a lenda que foi nessa noite que o Lobo Velho caiu, defendendo o seu companheiro como se defendesse a própria terra.

Jonas vingou o lobo, dizem, e a colina tremeu de tal maneira que uma pedra gigante rolou sozinha, esmagando os intrusos. Os velhos costumam acrescentar:
— Foi a colina que decidiu. Jonas só segurou o destino.

Depois disso, o homem ficou sozinho. Cuidou do túmulo do seu amigo junto ao moinho mais antigo, aquele que hoje só tem a base em pedra. E quando terminou a sua vigília, desceu a colina e nunca mais foi visto.

Mas a lenda não acaba aí.

Dizem que, em certas noites de vento forte, quando as nuvens cobrem a lua, ainda se ouve o rodar das pás dos moinhos antigos, mesmo que já nada haja para rodar.

E quem caminha pela colina jura ouvir dois passos:
um passo de homem…
e outro, leve e firme, de animal.

Alguns afirmam ter visto uma sombra grande passar entre as árvores. Outros dizem ter ouvido um uivo profundo, que não é de cão nem de lobo moderno. Um uivo antigo, cheio de saudade.

Os habitantes de Ourém chamam-lhe hoje:

A Lenda do Guardião dos Moinhos.

E todos sabem que a colina, embora silenciosa, nunca está verdadeiramente sozinha.


segunda-feira, dezembro 08, 2025

A Criança e o Grilo

 

Perto da sua pequena toca de terra,
um grilo cantava baixinho, escondido entre as folhas.
Era o seu costume, cantar para sentir que o mundo existia com ele.

Uma criança vinha a passar.
Trazia uma pedra na mão, não por maldade,
mas porque as crianças às vezes carregam coisas
sem pensar muito porquê.

De repente, ouviu o canto.
Chegou-se mais perto, pé ante pé,
até descobrir o grilo, frágil e brilhante como um pedacinho de música.

O grilo olhou para ela.
E naquele olhar minúsculo havia uma doçura antiga,
uma confiança de quem não sabe que o mundo pode ser cruel.
Era um olhar que parecia dizer:
“Eu só sou. Nada mais.”

A criança levantou a mão com a pedra…
Mas ficou parada.
Algo no peito apertou como um nó,
uma coisa estranha entre o querer e o entender.

Ela percebeu, de repente,
que podia destruir uma coisa pequena e bela
sem razão nenhuma.
E essa ideia ficou tão pesada
que os seus dedos desceram devagar.

Largou a pedra.
Não por pena, mas porque aprendeu alguma coisa nova
bem ali, naquele instante silencioso.

Com cuidado, afastou-se para não assustar o grilo,
como quem não quer rasgar um segredo.
O canto voltou, suave,
e por um breve momento
pareceu que o mundo sorria para ela,
orgulhoso da escolha que fizera.

Sermão aos Ungidos do Estado

Ó excelentíssimos ressuscitados por milagre elétrico,
vós que saís do hospital a chiar gratidão
como papagaios em discurso oficial,
claro que agradeceis!
Quem não agradeceria ao privilégio
de ter a fila acordada de madrugada
só para vos abrir caminho?

 

Enquanto isso eu, reles cidadão sem pedigree,
conto as horas como quem conta migalhas:
a minha vez vem sempre depois
do fim do mundo.

 

Que prodígio é esse, senhores,
que faz da saúde um cabaré de convidados
onde só entra quem tem cartão dourado?
O meu corpo não vos serve de metáfora?
Pois aqui estou: carne e osso,
mas sem direito ao vosso milagre de primeira classe.

 

Que se rasgue o pano deste teatro farsante!
Ao povo deixam o aplauso e a dor,
aos políticos, o camarim climatizado.

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