(Crónica sobre os novos destinos da freguesia de Seiça)
Por um modesto observador dos costumes políticos da nossa terra, que ainda acredita que o progresso começa por chegar a horas e acaba por cumprir o prometido.
Há em Portugal uma extraordinária abundância de criaturas que, mal se sentam numa cadeira de autoridade, descobrem imediatamente a necessidade de transformar o mundo. Algumas começam pela Humanidade, outras pela Europa, outras ainda pelo município. A senhora Ângela Marques, presidente da Junta de Freguesia de Seiça, contenta-se, por enquanto, com transformar a sua freguesia — o que, convenhamos, já constitui empresa suficientemente grandiosa para ocupar uma existência e consumir três orçamentos.
Numa entrevista concedida ao Jornal de Leiria, a ilustre autarca revelou-nos os seus pensamentos, as suas inquietações, os seus sonhos e até as suas preferências televisivas. E fê-lo com aquela serena confiança de quem contempla o futuro como uma vasta avenida, convenientemente iluminada, por onde o progresso há de chegar, de preferência, em fibra óptica.
Porque, meus senhores, o grande drama de Seiça já não é a estrada esburacada, a valeta entupida ou a berma tomada pelas ervas. É a internet!
A senhora presidente declarou, com uma convicção digna dos grandes estadistas, que, se dispusesse de orçamento ilimitado, levaria fibra óptica a toda a freguesia.
Não construiria um hospital, não multiplicaria habitações, não criaria uma fábrica que desse trabalho aos jovens, não resolveria de uma assentada os males da velhice e da solidão. Não! Mandaria instalar fibra óptica.
E eu, que sou homem de pouca ciência e ainda menos familiaridade com os mistérios da tecnologia, confesso que fiquei impressionado.
Imagine-se o velho Joaquim, sentado à porta de casa, contemplando os campos abandonados e recordando os filhos que partiram para Lisboa ou para o estrangeiro. Até aqui, o pobre homem tinha apenas a tristeza, o silêncio e as recordações. Mas, com a fibra óptica, poderá continuar triste, silencioso e abandonado — só que a uma velocidade extraordinária!
Eis o progresso!
A solidão, que antigamente se arrastava penosamente pelas tardes de inverno, passará agora a circular a centenas de megabits por segundo.
Mas não sejamos injustos. A senhora presidente preocupa-se igualmente com a habitação, com os idosos e com a juventude. Preocupa-se, aliás, com tudo. E é precisamente esta abundância de preocupações que me inquieta. Porque, na nossa querida pátria, as preocupações dos governantes têm frequentemente uma particularidade admirável: são tão numerosas que não lhes sobra tempo para as resolver.
A senhora Ângela deseja uma freguesia «mais dinâmica, mais moderna e onde as pessoas sintam que contam».
Magnífica aspiração!
Fiquei, todavia, a pensar se os habitantes de Seiça pretendem apenas sentir que contam ou se gostariam, eventualmente, de contar mesmo.
Porque há uma diferença considerável entre ser ouvido e ser atendido. O primeiro exercício exige uma cadeira, um sorriso e alguma paciência. O segundo requer trabalho, recursos, decisões e, por vezes, a desagradável necessidade de contrariar alguém.
Mas a frase verdadeiramente memorável da entrevista, aquela que merece ser gravada em bronze e colocada à entrada da sede da Junta, é esta:
«Não sou uma presidente de bermas e valeta!»
Ah! Que declaração! Que arrojo! Que emancipação política!
Durante gerações, o humilde presidente de junta foi uma criatura condenada a conviver com caminhos, sarjetas, ervas daninhas, fontes públicas e pequenos buracos que, depois de cada inverno, adquiriam a profundidade de uma questão nacional.
Eis que surge agora uma nova escola de administração local, decidida a elevar-se acima dessas misérias terrestres.
A berma é coisa mesquinha. A valeta é uma indignidade. O buraco na estrada pertence à arqueologia administrativa. A verdadeira política deve ocupar-se de horizontes, de sinergias, de dinamismos, de comunidades participativas e, naturalmente, de redes digitais.
O problema é que, enquanto a presidente contempla os grandes horizontes, o freguês continua a precisar de passar pela estrada.
E, se a valeta estiver obstruída, a água não se impressionará com a modernidade do discurso: entrará pela propriedade adentro com a mesma brutalidade democrática de sempre.
É certo que a autarca esclarece considerar importantes as infraestruturas e os acessos. Apenas não deseja que constituam a sua única prioridade. Justíssima distinção, que o nosso espírito satírico não deve esquecer. Mas há declarações que, pela felicidade da expressão, adquirem vida própria. E esta, receio bem, acompanhará a senhora presidente durante todo o mandato.
Bastará que uma sarjeta transborde para que algum espírito malicioso exclame:
— Naturalmente! A senhora presidente já avisou que não é de valetas!
Entretanto, a nossa ilustre governante tem ambições literárias.
Interrogada sobre o título que daria a um livro dedicado à sua freguesia, respondeu:
«Seiça: raízes firmes, páginas em aberto».
Confesso que achei o título encantador. Tem raízes, tem páginas e tem uma abertura suficientemente ampla para nela caberem todas as promessas eleitorais que ainda não encontraram destino.
Mais interessante é a declaração de que a própria presidente gostaria de ser uma das escritoras dessa história.
Ora aqui está uma ideia que merece reflexão.
Sempre suspeitei de que a política portuguesa se aproximava mais da literatura de ficção do que da contabilidade pública. Mas raramente encontrei quem o reconhecesse com tamanha espontaneidade.
Esperemos, pois, que a obra não se transforme num daqueles romances intermináveis em que os protagonistas anunciam grandes acontecimentos durante centenas de páginas e, chegando ao último capítulo, descobrimos que nada aconteceu.
E que as raízes, de tão firmes, não acabem por impedir qualquer crescimento.
A entrevista reserva-nos ainda uma revelação deliciosa.
Se pudesse escolher uma personalidade para exercer, durante um dia, a presidência honorária da Junta, a senhora Ângela Marques convidaria Catarina Furtado.
Compreende-se perfeitamente.
A distinta apresentadora possui simpatia, sensibilidade social e uma longa experiência em conversar com pessoas diante das câmaras. Seria, portanto, uma presença agradável numa freguesia onde, segundo a própria presidente, importa sobretudo ouvir os habitantes.
Imagino já o acontecimento.
Catarina chega a Seiça, percorre as localidades, visita associações, escuta os idosos, sorri às crianças e emociona-se com as histórias de vida. A senhora presidente acompanha-a, naturalmente, com aquele ar satisfeito de quem vê finalmente a sua terra reconhecida pelas altas esferas da civilização televisiva.
Haverá fotografias, abraços, talvez um pequeno lanche e seguramente palavras muito bonitas sobre a solidariedade.
No fim do dia, Catarina regressará a Lisboa, levando consigo a memória de uma comunidade acolhedora.
Os habitantes regressarão às suas casas.
E as valetas, essas criaturas obstinadas e insensíveis ao prestígio mediático, continuarão onde sempre estiveram.
Mas há ainda a questão do turismo.
A senhora presidente recomenda três maravilhas locais: a Ribeira de Seiça, a Casa-Museu e uma rota pelas fontes da freguesia.
É uma escolha que revela apreço pelo património natural e histórico. E faz muito bem. Uma terra sem memória é como um homem sem passado: pode ter internet, mas não sabe quem é.
A Ribeira, infelizmente, ainda acusa os efeitos da tempestade Kristin. As fontes, essas, aguardam os visitantes que desejem descobrir as histórias dispersas pela freguesia.
E eu imagino um turista estrangeiro, atraído pelas promessas de modernidade, a perguntar:
— E como posso conhecer todas essas maravilhas?
— Muito facilmente, meu caro senhor! Basta seguir a rota das fontes!
— Existe alguma aplicação digital?
— Ainda não sabemos. Mas, quando a fibra óptica chegar, será certamente uma possibilidade!
O turista, encantado, parte à descoberta das fontes, das raízes e das páginas em aberto, levando no coração a certeza de que visitou uma terra onde o futuro está sempre prestes a começar.
E é justamente aqui que reside o encanto desta entrevista.
A senhora Ângela Marques parece sinceramente desejosa de melhorar a vida da freguesia. Não há razão para duvidar da sua boa vontade. Mas a boa vontade, esse sentimento tão abundante na administração portuguesa, possui um defeito terrível: não substitui a obra feita.
Uma freguesia não se torna moderna porque alguém a deseja moderna. Não se torna dinâmica porque alguém pronuncia a palavra dinamismo. Não ganha oportunidades porque estas aparecem numa entrevista, devidamente acompanhadas de intenções generosas.
É necessário explicar o que se fará, quando se fará, com que dinheiro se fará e quem responderá se não for feito.
A fibra óptica é importante, sem dúvida. Mas importa saber que diligências serão desenvolvidas junto dos operadores e das entidades competentes. A habitação é uma preocupação legítima. Mas importa conhecer as soluções possíveis. O envelhecimento da população merece atenção. Mas importa perceber que respostas concretas se pretendem criar.
Tudo o resto pertence à nobre arte da esperança administrativa, essa maravilhosa disciplina em que Portugal conquistou, desde há séculos, uma supremacia incontestável.
E assim, depois de ler atentamente a entrevista, fiquei com uma impressão curiosa.
Seiça tem uma presidente que deseja escrever o futuro, ouvir os habitantes, unir as associações, acolher celebridades, proteger as raízes, abrir páginas e cobrir a freguesia de fibra óptica.
É um programa vastíssimo, digno de uma pequena nação.
Falta-nos apenas conhecer o capítulo dedicado à execução.
Porque, minha senhora, permita-me uma derradeira observação: as bermas e as valetas podem não fazer a grandeza de uma presidência, mas o estado em que se encontram pode muito bem revelar a qualidade da sua administração.
E, quando chegar o fim do mandato, talvez os habitantes de Seiça não perguntem quantas páginas foram abertas, quantas personalidades foram convidadas ou quantas vezes se pronunciou a palavra «futuro».
Perguntarão, mais simplesmente:
— Então, senhora presidente, que foi feito?
E seria lamentável que a resposta, transmitida através de uma esplêndida ligação de fibra óptica, fosse apenas:
— Meus amigos, continuamos a trabalhar para uma freguesia mais dinâmica!
Porque, nesse caso, Seiça terá finalmente entrado na modernidade.
Poderá receber as promessas à velocidade da luz, embora as realizações continuem a chegar à velocidade de uma carroça.

















































