Escrito apócrifo — Ricardo Reis visita o Santuário de Fátima
Ficção literária original, em homenagem ao universo de José
Saramago, à sua ironia filosófica e à personagem de Ricardo Reis.
Ricardo Reis chegou a Fátima numa manhã de outubro, dessas em que o nevoeiro parece não saber se deve levantar-se da terra ou permanecer sobre ela como um pensamento que não encontra conclusão, havia peregrinos por toda a parte, alguns de joelhos, outros de pés ensanguentados, muitos carregando promessas, que são uma espécie de dívida contraída com o invisível, e outros ainda trazendo consigo a esperança de que a Virgem lhes reconhecesse os sacrifícios, embora não estivesse esclarecido por que razão haveria o sofrimento humano de servir de moeda nas transações com o divino.
Ricardo Reis não viera por promessa, nem por fé, nem sequer
por curiosidade religiosa, viera porque lhe tinham dito que ali os homens
caminhavam para encontrar uma resposta e ele, que durante a vida procurara
sobretudo evitar perguntas demasiado comprometedoras, quis saber se era verdade
que uma resposta podia esperar por alguém no fim de uma estrada.
Sentou-se num banco de pedra, diante da grande praça, e
ficou a observar aquela multidão que avançava lentamente para a Capelinha das
Aparições, como se o movimento dos corpos pudesse aproximar as almas de alguma
certeza.
Ao seu lado sentou-se um homem de idade avançada, trazendo
ao peito uma medalha da Virgem e na mão um papel cuidadosamente protegido por
uma capa de plástico.
É o meu certificado de peregrino, disse o homem, mostrando-o
com o orgulho de quem apresenta um diploma universitário ou uma escritura de
propriedade, fiz o caminho todo a pé, muitos quilómetros, e agora tenho aqui a
prova.
Ricardo Reis olhou para o documento, onde se encontravam
inscritos um nome, uma data, talvez um carimbo, essa pequena invenção
administrativa pela qual os homens procuram dar existência oficial àquilo que
já aconteceu.
A prova de quê, perguntou.
De que fiz a peregrinação, respondeu o homem, surpreendido
com a pergunta.
Mas os seus pés não sabem que caminharam.
Sabem, e bem, ainda me doem.
Então por que precisa do papel.
Para ficar a recordação, para mostrar aos meus filhos, para
que saibam que aqui estive.
Ricardo Reis permaneceu em silêncio, porque há perguntas que
não devem ser imediatamente respondidas, sobretudo quando a resposta ameaça
retirar ao outro uma alegria que, embora ilusória, é a única que possui.
Depois disse, Talvez os seus filhos acreditassem mais nos
seus pés do que no certificado, mas vivemos num tempo em que a palavra de um
homem vale menos do que a assinatura de outro, e até a fé, que sempre se disse
invisível, parece agora necessitar de papel timbrado.
O velho não compreendeu inteiramente, ou compreendeu
demasiado, que por vezes é a mesma coisa.
O senhor não é crente, perguntou.
Não sei se a questão é acreditar, respondeu Reis, talvez
seja antes saber em que momento o caminho deixa de pertencer ao caminhante e
passa a pertencer à instituição que o certifica.
O homem levantou-se, incomodado, e afastou-se em direção ao
Santuário, levando consigo o seu documento, que apertava agora com maior
firmeza, como se temesse que as palavras daquele desconhecido pudessem
invalidar o carimbo.
Ricardo Reis ficou a pensar que os homens sempre tiveram
necessidade de testemunhas, primeiro foram os deuses, depois os reis, depois os
funcionários, e que talvez a história da civilização pudesse resumir-se à
passagem da bênção ao selo branco.
Mais tarde aproximou-se de um pequeno balcão onde se
distribuíam informações aos peregrinos.
Disseram-lhe que também poderia obter um certificado, desde
que cumprisse as condições estabelecidas.
E quais são essas condições, perguntou.
Ter realizado o percurso e apresentar os elementos
necessários à sua confirmação.
E se alguém tiver caminhado sem testemunhas.
Será mais difícil comprovar.
E se alguém tiver vindo de longe apenas em pensamento.
Isso não conta como peregrinação.
Ricardo Reis sorriu discretamente, pois acabava de descobrir
que a alma, apesar de imortal segundo alguns, continuava a não dispor de
reconhecimento administrativo.
Então o que aqui se certifica não é a peregrinação, disse,
mas a sua conformidade com um regulamento.
A pessoa que o atendia olhou-o com a paciência profissional
de quem já encontrara muitos visitantes difíceis.
O certificado é apenas uma recordação, senhor.
As recordações, respondeu Reis, costumavam viver na memória,
mas talvez a memória humana tenha perdido a confiança em si própria e necessite
agora de uma autoridade que lhe diga aquilo que viveu.
Afastou-se sem pedir o documento.
Na praça, uma mulher avançava de joelhos sobre a pedra,
apoiada por duas familiares. O rosto contraído pela dor revelava uma
determinação que nenhum certificado poderia medir. Ricardo Reis observou-a
demoradamente e pensou que seria injusto confundir aquela mulher com o
mecanismo que pretendia transformar a sua experiência em reconhecimento
oficial. Não era a fé daquela peregrina que o perturbava, nem a sua esperança,
por mais incompreensível que lhe parecesse, era antes a possibilidade de que
alguém viesse um dia dizer-lhe que o seu sofrimento só adquiriria pleno
significado depois de autenticado.
Porque a alienação, pensou Reis, não começa quando o homem
acredita em Deus, começa quando entrega a outros a autoridade de lhe dizer se
aquilo que sentiu foi verdadeiro.
O certificado era, nesse sentido, um objeto pequeno e uma
renúncia imensa, um pedaço de papel pelo qual o peregrino, tendo percorrido
livremente a estrada, aceitava que o sentido da sua caminhada lhe fosse
devolvido por uma entidade exterior. Caminhara com as próprias pernas, sofrera
com o próprio corpo, esperara com o próprio coração, mas no fim parecia
precisar que alguém lhe declarasse, oficialmente, que tinha sido peregrino.
E assim o caminho, que poderia ter sido uma experiência de
libertação, convertia-se numa cerimónia de obediência, não porque todos os que
o percorriam fossem obedientes, mas porque a instituição aprendera a apresentar
como dádiva aquilo que ao homem já pertencia.
Foi então que lhe pareceu ouvir uma voz conhecida, vinda de
algum lugar entre a memória e a sombra.
Está muito preocupado com os papéis, Ricardo Reis.
Era Fernando Pessoa, ou a sua lembrança, que para o caso
pouco importava, porque os mortos têm a vantagem de aparecer quando lhes convém
e desaparecer antes de serem obrigados a explicar-se.
Não são os papéis que me preocupam, respondeu Reis, é a
facilidade com que os homens lhes entregam a sua liberdade.
E pensa que a liberdade se perde assim tão facilmente.
Não se perde de uma vez, vai-se depositando em pequenas
coisas, numa assinatura, num carimbo, numa autorização, até que um dia o homem
já não sabe dizer quem é sem apresentar um documento.
Também os poetas precisam de livros para provar que
escreveram.
Os livros não provam que fomos poetas, apenas que escrevemos
palavras.
E os certificados não provam que fomos peregrinos, apenas
que percorremos caminhos.
Nem isso, Fernando, provam sobretudo que alguém aceitou
certificar-nos.
Pessoa sorriu, ou Reis imaginou que sorria, porque não há
maneira segura de distinguir uma aparição de uma ideia quando ambas nos falam
com a mesma voz.
Talvez esteja a exigir demasiado de um simples papel, disse
Pessoa.
Talvez, respondeu Reis, mas é precisamente das coisas
simples que se fazem as grandes submissões.
Ao cair da tarde, o Santuário encheu-se de luzes. Os
peregrinos reuniram-se em oração e milhares de pequenas chamas começaram a
mover-se na escuridão, frágeis e obstinadas como as esperanças humanas.
Ricardo Reis contemplou-as sem desprezo. Havia naquela
multidão uma dignidade que nenhuma crítica à religião poderia honestamente
apagar, porque cada rosto trazia consigo uma história de perda, de doença, de
gratidão ou de medo, e seria uma crueldade intelectual reduzir todas essas
vidas a um único erro.
Mas também seria outra crueldade, pensou, convencer os
homens de que necessitam de autorização para reconhecer a sua própria
experiência.
Não recusava ao peregrino o direito de guardar o
certificado, recusava ao certificado o direito de definir o peregrino.
Porque quem caminha não se torna mais verdadeiro por receber
uma declaração, assim como quem ama não ama mais por possuir uma certidão, nem
quem sofre sofre menos por lhe reconhecerem oficialmente a dor.
Quando abandonou Fátima, Ricardo Reis levava consigo apenas
o casaco, o chapéu e a memória daquela mulher que avançava de joelhos.
Não tinha certificado, não tinha carimbo, não tinha prova de
haver estado ali.
E, contudo, estivera.
Talvez fosse essa a única peregrinação que ainda lhe
interessava, aquela em que o homem, depois de atravessar o território das
crenças, das promessas e das autoridades, regressasse a si próprio sem pedir a
ninguém licença para existir.
Antes de partir, voltou-se uma última vez para o Santuário e
pensou que Deus, se existe, não deverá necessitar de certificados, e que, se os
exige, então se parece demasiado com os homens que o inventaram.
Depois continuou a caminhar.
Sem testemunhas.
Sem diploma.
Sem absolvição.
E sem que lhe ocorresse, uma única vez, pedir a alguém que
lhe certificasse a liberdade.

















































