segunda-feira, outubro 12, 2026

A ILUSTRE PRESIDENTE QUE NÃO QUERIA SER DE BERMAS E VALETAS

(Crónica sobre os novos destinos da freguesia de Seiça)

Por um modesto observador dos costumes políticos da nossa terra, que ainda acredita que o progresso começa por chegar a horas e acaba por cumprir o prometido.

Há em Portugal uma extraordinária abundância de criaturas que, mal se sentam numa cadeira de autoridade, descobrem imediatamente a necessidade de transformar o mundo. Algumas começam pela Humanidade, outras pela Europa, outras ainda pelo município. A senhora Ângela Marques, presidente da Junta de Freguesia de Seiça, contenta-se, por enquanto, com transformar a sua freguesia — o que, convenhamos, já constitui empresa suficientemente grandiosa para ocupar uma existência e consumir três orçamentos.

Numa entrevista concedida ao Jornal de Leiria, a ilustre autarca revelou-nos os seus pensamentos, as suas inquietações, os seus sonhos e até as suas preferências televisivas. E fê-lo com aquela serena confiança de quem contempla o futuro como uma vasta avenida, convenientemente iluminada, por onde o progresso há de chegar, de preferência, em fibra óptica.

Porque, meus senhores, o grande drama de Seiça já não é a estrada esburacada, a valeta entupida ou a berma tomada pelas ervas. É a internet!

A senhora presidente declarou, com uma convicção digna dos grandes estadistas, que, se dispusesse de orçamento ilimitado, levaria fibra óptica a toda a freguesia.

Não construiria um hospital, não multiplicaria habitações, não criaria uma fábrica que desse trabalho aos jovens, não resolveria de uma assentada os males da velhice e da solidão. Não! Mandaria instalar fibra óptica.

E eu, que sou homem de pouca ciência e ainda menos familiaridade com os mistérios da tecnologia, confesso que fiquei impressionado.

Imagine-se o velho Joaquim, sentado à porta de casa, contemplando os campos abandonados e recordando os filhos que partiram para Lisboa ou para o estrangeiro. Até aqui, o pobre homem tinha apenas a tristeza, o silêncio e as recordações. Mas, com a fibra óptica, poderá continuar triste, silencioso e abandonado — só que a uma velocidade extraordinária!

Eis o progresso!

A solidão, que antigamente se arrastava penosamente pelas tardes de inverno, passará agora a circular a centenas de megabits por segundo.

Mas não sejamos injustos. A senhora presidente preocupa-se igualmente com a habitação, com os idosos e com a juventude. Preocupa-se, aliás, com tudo. E é precisamente esta abundância de preocupações que me inquieta. Porque, na nossa querida pátria, as preocupações dos governantes têm frequentemente uma particularidade admirável: são tão numerosas que não lhes sobra tempo para as resolver.

A senhora Ângela deseja uma freguesia «mais dinâmica, mais moderna e onde as pessoas sintam que contam».

Magnífica aspiração!

Fiquei, todavia, a pensar se os habitantes de Seiça pretendem apenas sentir que contam ou se gostariam, eventualmente, de contar mesmo.

Porque há uma diferença considerável entre ser ouvido e ser atendido. O primeiro exercício exige uma cadeira, um sorriso e alguma paciência. O segundo requer trabalho, recursos, decisões e, por vezes, a desagradável necessidade de contrariar alguém.

Mas a frase verdadeiramente memorável da entrevista, aquela que merece ser gravada em bronze e colocada à entrada da sede da Junta, é esta:

«Não sou uma presidente de bermas e valeta!»

Ah! Que declaração! Que arrojo! Que emancipação política!

Durante gerações, o humilde presidente de junta foi uma criatura condenada a conviver com caminhos, sarjetas, ervas daninhas, fontes públicas e pequenos buracos que, depois de cada inverno, adquiriam a profundidade de uma questão nacional.

Eis que surge agora uma nova escola de administração local, decidida a elevar-se acima dessas misérias terrestres.

A berma é coisa mesquinha. A valeta é uma indignidade. O buraco na estrada pertence à arqueologia administrativa. A verdadeira política deve ocupar-se de horizontes, de sinergias, de dinamismos, de comunidades participativas e, naturalmente, de redes digitais.

O problema é que, enquanto a presidente contempla os grandes horizontes, o freguês continua a precisar de passar pela estrada.

E, se a valeta estiver obstruída, a água não se impressionará com a modernidade do discurso: entrará pela propriedade adentro com a mesma brutalidade democrática de sempre.

É certo que a autarca esclarece considerar importantes as infraestruturas e os acessos. Apenas não deseja que constituam a sua única prioridade. Justíssima distinção, que o nosso espírito satírico não deve esquecer. Mas há declarações que, pela felicidade da expressão, adquirem vida própria. E esta, receio bem, acompanhará a senhora presidente durante todo o mandato.

Bastará que uma sarjeta transborde para que algum espírito malicioso exclame:

— Naturalmente! A senhora presidente já avisou que não é de valetas!

Entretanto, a nossa ilustre governante tem ambições literárias.

Interrogada sobre o título que daria a um livro dedicado à sua freguesia, respondeu:

«Seiça: raízes firmes, páginas em aberto».

Confesso que achei o título encantador. Tem raízes, tem páginas e tem uma abertura suficientemente ampla para nela caberem todas as promessas eleitorais que ainda não encontraram destino.

Mais interessante é a declaração de que a própria presidente gostaria de ser uma das escritoras dessa história.

Ora aqui está uma ideia que merece reflexão.

Sempre suspeitei de que a política portuguesa se aproximava mais da literatura de ficção do que da contabilidade pública. Mas raramente encontrei quem o reconhecesse com tamanha espontaneidade.

Esperemos, pois, que a obra não se transforme num daqueles romances intermináveis em que os protagonistas anunciam grandes acontecimentos durante centenas de páginas e, chegando ao último capítulo, descobrimos que nada aconteceu.

E que as raízes, de tão firmes, não acabem por impedir qualquer crescimento.

A entrevista reserva-nos ainda uma revelação deliciosa.

Se pudesse escolher uma personalidade para exercer, durante um dia, a presidência honorária da Junta, a senhora Ângela Marques convidaria Catarina Furtado.

Compreende-se perfeitamente.

A distinta apresentadora possui simpatia, sensibilidade social e uma longa experiência em conversar com pessoas diante das câmaras. Seria, portanto, uma presença agradável numa freguesia onde, segundo a própria presidente, importa sobretudo ouvir os habitantes.

Imagino já o acontecimento.

Catarina chega a Seiça, percorre as localidades, visita associações, escuta os idosos, sorri às crianças e emociona-se com as histórias de vida. A senhora presidente acompanha-a, naturalmente, com aquele ar satisfeito de quem vê finalmente a sua terra reconhecida pelas altas esferas da civilização televisiva.

Haverá fotografias, abraços, talvez um pequeno lanche e seguramente palavras muito bonitas sobre a solidariedade.

No fim do dia, Catarina regressará a Lisboa, levando consigo a memória de uma comunidade acolhedora.

Os habitantes regressarão às suas casas.

E as valetas, essas criaturas obstinadas e insensíveis ao prestígio mediático, continuarão onde sempre estiveram.

Mas há ainda a questão do turismo.

A senhora presidente recomenda três maravilhas locais: a Ribeira de Seiça, a Casa-Museu e uma rota pelas fontes da freguesia.

É uma escolha que revela apreço pelo património natural e histórico. E faz muito bem. Uma terra sem memória é como um homem sem passado: pode ter internet, mas não sabe quem é.

A Ribeira, infelizmente, ainda acusa os efeitos da tempestade Kristin. As fontes, essas, aguardam os visitantes que desejem descobrir as histórias dispersas pela freguesia.

E eu imagino um turista estrangeiro, atraído pelas promessas de modernidade, a perguntar:

— E como posso conhecer todas essas maravilhas?

— Muito facilmente, meu caro senhor! Basta seguir a rota das fontes!

— Existe alguma aplicação digital?

— Ainda não sabemos. Mas, quando a fibra óptica chegar, será certamente uma possibilidade!

O turista, encantado, parte à descoberta das fontes, das raízes e das páginas em aberto, levando no coração a certeza de que visitou uma terra onde o futuro está sempre prestes a começar.

E é justamente aqui que reside o encanto desta entrevista.

A senhora Ângela Marques parece sinceramente desejosa de melhorar a vida da freguesia. Não há razão para duvidar da sua boa vontade. Mas a boa vontade, esse sentimento tão abundante na administração portuguesa, possui um defeito terrível: não substitui a obra feita.

Uma freguesia não se torna moderna porque alguém a deseja moderna. Não se torna dinâmica porque alguém pronuncia a palavra dinamismo. Não ganha oportunidades porque estas aparecem numa entrevista, devidamente acompanhadas de intenções generosas.

É necessário explicar o que se fará, quando se fará, com que dinheiro se fará e quem responderá se não for feito.

A fibra óptica é importante, sem dúvida. Mas importa saber que diligências serão desenvolvidas junto dos operadores e das entidades competentes. A habitação é uma preocupação legítima. Mas importa conhecer as soluções possíveis. O envelhecimento da população merece atenção. Mas importa perceber que respostas concretas se pretendem criar.

Tudo o resto pertence à nobre arte da esperança administrativa, essa maravilhosa disciplina em que Portugal conquistou, desde há séculos, uma supremacia incontestável.

E assim, depois de ler atentamente a entrevista, fiquei com uma impressão curiosa.

Seiça tem uma presidente que deseja escrever o futuro, ouvir os habitantes, unir as associações, acolher celebridades, proteger as raízes, abrir páginas e cobrir a freguesia de fibra óptica.

É um programa vastíssimo, digno de uma pequena nação.

Falta-nos apenas conhecer o capítulo dedicado à execução.

Porque, minha senhora, permita-me uma derradeira observação: as bermas e as valetas podem não fazer a grandeza de uma presidência, mas o estado em que se encontram pode muito bem revelar a qualidade da sua administração.

E, quando chegar o fim do mandato, talvez os habitantes de Seiça não perguntem quantas páginas foram abertas, quantas personalidades foram convidadas ou quantas vezes se pronunciou a palavra «futuro».

Perguntarão, mais simplesmente:

— Então, senhora presidente, que foi feito?

E seria lamentável que a resposta, transmitida através de uma esplêndida ligação de fibra óptica, fosse apenas:

— Meus amigos, continuamos a trabalhar para uma freguesia mais dinâmica!

Porque, nesse caso, Seiça terá finalmente entrado na modernidade.

Poderá receber as promessas à velocidade da luz, embora as realizações continuem a chegar à velocidade de uma carroça.

sábado, dezembro 20, 2025

Neve na fronteira

A neve começara a cair antes do previsto, cobrindo a pradaria de um branco traiçoeiro. O vento empurrava a neblina como se quisesse apagar o mundo, e a criança, um rapaz de uns dez anos, habituado mais à dureza do que à ternura, caminhava com passos firmes, apesar do frio que lhe mordia os ossos.

O rancho ficava longe. Mais longe do que deveria estar, agora que a tempestade apertava.Mas ele tinha saído para recolher lenha, e o dever, ensinara-lhe o pai, era coisa que se cumpria mesmo quando o céu desabava.

Quando o rapaz parou para recuperar o fôlego, ouviu um som leve, quase um murmúrio. Um rosnado baixo. Voltou-se devagar, a mão aproximando-se instintivamente do pequeno canivete que trazia no cinto, arma simbólica, mas ainda assim arma.

Dos arbustos surgiu uma raposa magra, o pelo eriçado pela luta contra o inverno. Os olhos, porém, brilhavam com a esperteza típica dos que sobreviveram demasiado tempo à beira da morte.

O rapaz não recuou. A raposa também não.

Entre os dois pairou um silêncio feito de gelo e desconfiança, o tipo de silêncio que antecede sempre uma decisão importante, mesmo para os pequenos.

O vento uivou. A criança tremeu.
A raposa avançou um passo.

Não para atacar.
Mas para se encostar ao rapaz, encostando o corpo quente à perna dele como se soubesse que só juntos iriam sobreviver.

— Não me mordas, ouviste? — resmungou o rapaz.
A raposa levantou o focinho, como se o desafiasse a duvidar da sua intenção.

Ali, no meio da pradaria branca, dois sobreviventes entenderam-se.
O frio tornava-se mais forte, mas o calor do animal era inesperadamente firme, quase teimoso.

Continuaram o caminho, o rapaz apoiado na coragem que aprendera nas histórias do pai, a raposa movida pelo instinto feroz dos que não se rendem ao inverno.

Quando finalmente avistaram a luz distante do rancho, o rapaz sentiu algo que não sabia pôr em palavras, uma espécie de respeito. Duro. Seco. O tipo de respeito que nasce apenas quando dois seres atravessam juntos o perigo da fronteira.

Parou à porta, olhou para a raposa e disse:

— És livre. Sabes disso.
A raposa ergueu as orelhas, como que pesando a decisão. Depois deu meia-volta e desapareceu na noite branca, tão silenciosa quanto surgira.

O rapaz entrou em casa, sacudindo a neve.
Sabia que, lá fora, num mundo onde poucos sobreviviam, tinha encontrado um aliado improvável.
E que, naquelas terras selvagens, alianças assim valiam mais do que ouro.

terça-feira, dezembro 16, 2025

A sombra altiva


Há gente assim:
não sabe receber um gesto simples,
uma palavra boa,
como se a ternura viesse sempre
com segunda intenção.

Recolhem-se.
Respondem seco, duros,
como pedra que não quer ser tocada.
Guardam da vida um orgulho agreste,
feito de serras interiores
onde ninguém sobe.

Sentem-se superiores
ou fingem que sentem
e por isso rejeitam a proximidade,
como lobos que não admitem
qualquer rasto de afeto no território.

Mas são, no fundo,
florestas cansadas
que recusam a água que as salva,
e desprezam o sol
pensando que não precisam dele.
E é nessa teimosia antiga
que se vão secando devagar,
ramo a ramo,
até restar apenas o silêncio
de uma sombra altiva.

domingo, dezembro 14, 2025

A menina e os pirilampos

A Menina e os Pirilampos

Numa aldeia rodeada de árvores altas, vivia uma menina chamada Lia. Todas as noites, depois do jantar, ela gostava de caminhar até ao quintal para ouvir o vento conversar com as folhas. Era o seu momento preferido do dia.

Uma noite, enquanto Lia seguia o caminho de sempre, viu pequenos brilhos a dançar no ar. No início pensou que fosse magia — e, na verdade, era mesmo. Eram pirilampos! Pequenos pontinhos verdes que acendiam e apagavam como se piscassem para ela.

Lia abriu um sorriso tão grande que parecia outra estrela no meio da noite.

Mas, de repente, ouviu um som rápido:

— Mrrrrr… tchac!

Era o Gato Neco, o gato da casa do vizinho. Tinha olhos amarelos, cheios de curiosidade, e achou que aqueles pirilampos brilhantes eram brinquedos perfeitos para caçar. Deu um salto, depois outro, tentando apanhar um deles com a pata esticada.

Os pirilampos assustaram-se e começaram a subir mais alto.

Lia deu um passo à frente e abriu os braços como quem protege um tesouro.

— Neco, não! — disse ela num tom firme, mas gentil —. Os pirilampos não são para apanhar. São nossos amigos.

O gato parou, abanou a cauda, e miou como se desculpasse a brincadeira. Depois, sentou-se a observar, ainda intrigado, mas sem voltar ao ataque.

Os pirilampos ficaram tão admirados com a coragem da menina que voltaram a descer devagarinho, iluminando o seu rosto. Durante alguns segundos, Lia parecia rodeada por pequenas lanternas vivas.

E foi assim que tudo começou.

Na noite seguinte, os pirilampos voltaram. E na outra. E na outra ainda.

Passaram a visitar Lia todos os dias, chegando sempre ao cair da noite, como amigos que nunca se esquecem de aparecer. Dançavam à volta dela, pousavam-lhe nas mãos, e até faziam desenhos de luz no ar, só para a fazer rir.

O Gato Neco, agora mais bem-comportado, limitava-se a vê-los de longe, sentado como um guarda elegante. Afinal, também ele percebera que aqueles pequenos brilhos eram especiais.

E assim, entre risos, luzinhas e noites estreladas, Lia descobriu que proteger os mais pequenos era uma forma de magia, a mais bonita de todas.


quinta-feira, dezembro 11, 2025

A barca da salvação

O rio corria fundo, com a transparência antiga das coisas que não mentem.
Na outra margem, um bando de pequenos jacarés inquietava-se,
filhos da aventura antes do tempo.
Queriam atravessar. Queriam o mundo.
E foi então que a raposa vermelha apareceu, silenciosa,
como quem sabe o ofício de viver.

Olharam-na com ousadia.
Pediram-lhe passagem, sem cerimónias nem temor.
A raposa, que conhecia as sombras da mata e o coração das mães,
percebeu logo que não havia ali malícia,
apenas o ímpeto natural de crescer.

Sem alarde, ofereceu o lombo.
Fez-se barca.
Deixou que seis destinos miúdos se ajeitassem nas suas costas.
E lançou-se ao rio, remando com as patas
como quem abre caminho no próprio fado.

A corrente levou-os, mansa,
e nenhum perigo se levantou contra aquela estranha confraria.
Na outra margem, a raposa inclinou-se,
e os pequenos saltaram para a terra firme
com a gratidão muda dos bichos que entendem a dádiva.

Missão cumprida.
A raposa seguiu adiante,
sem pedir louvores,
porque, na natureza,
ser justo basta.

terça-feira, dezembro 09, 2025

A Lenda do Guardião dos Moinhos de Ourém

 

Dizem os mais antigos que, muito antes de as pedras do castelo se tornarem ruínas e de os moinhos pararem de rodar ao vento, a Colina de Ourém era vigiada por um homem solitário e por um companheiro que não era menos do que a alma selvagem da própria serra: o Lobo Velho.

Nessa altura, os moinhos cantavam noite e dia, movidos por ventos caprichosos que vinham do vale. O barulho das pás misturava-se com o som dos pinhais, criando um hino estranho, como se a colina respirasse vida própria.

Conta-se que Jonas Rocha — ninguém sabia donde viera — subiu a colina num inverno em que a neve caía mais branca do que pão de missa. Trouxe consigo pouca coisa: uma espingarda, um casaco gasto e um olhar de homem que já vira demasiado. Mas trouxe também algo que ninguém viu logo: o peso de uma promessa feita a um lobo ferido.

O Lobo Velho, diziam, não era apenas animal. Era espírito guardião. Quem se perdia na noite encontrava-o às vezes, a caminhar entre as sombras, olhos a brilhar como carvões acesos. E quem o via saía ileso, desde que trouxesse o coração limpo.

E assim se mantiveram, homem e lobo, guardando os moinhos, afastando ladrões que tentavam roubar o trigo, ajudando viajantes perdidos, e enfrentando tempestades que faziam as pás dos moinhos rodarem como gigantes enlouquecidos.

Mas um dia chegaram homens maus à colina. Gente que não respeitava nada nem ninguém. Reza a lenda que foi nessa noite que o Lobo Velho caiu, defendendo o seu companheiro como se defendesse a própria terra.

Jonas vingou o lobo, dizem, e a colina tremeu de tal maneira que uma pedra gigante rolou sozinha, esmagando os intrusos. Os velhos costumam acrescentar:
— Foi a colina que decidiu. Jonas só segurou o destino.

Depois disso, o homem ficou sozinho. Cuidou do túmulo do seu amigo junto ao moinho mais antigo, aquele que hoje só tem a base em pedra. E quando terminou a sua vigília, desceu a colina e nunca mais foi visto.

Mas a lenda não acaba aí.

Dizem que, em certas noites de vento forte, quando as nuvens cobrem a lua, ainda se ouve o rodar das pás dos moinhos antigos, mesmo que já nada haja para rodar.

E quem caminha pela colina jura ouvir dois passos:
um passo de homem…
e outro, leve e firme, de animal.

Alguns afirmam ter visto uma sombra grande passar entre as árvores. Outros dizem ter ouvido um uivo profundo, que não é de cão nem de lobo moderno. Um uivo antigo, cheio de saudade.

Os habitantes de Ourém chamam-lhe hoje:

A Lenda do Guardião dos Moinhos.

E todos sabem que a colina, embora silenciosa, nunca está verdadeiramente sozinha.


segunda-feira, dezembro 08, 2025

A Criança e o Grilo

 

Perto da sua pequena toca de terra,
um grilo cantava baixinho, escondido entre as folhas.
Era o seu costume, cantar para sentir que o mundo existia com ele.

Uma criança vinha a passar.
Trazia uma pedra na mão, não por maldade,
mas porque as crianças às vezes carregam coisas
sem pensar muito porquê.

De repente, ouviu o canto.
Chegou-se mais perto, pé ante pé,
até descobrir o grilo, frágil e brilhante como um pedacinho de música.

O grilo olhou para ela.
E naquele olhar minúsculo havia uma doçura antiga,
uma confiança de quem não sabe que o mundo pode ser cruel.
Era um olhar que parecia dizer:
“Eu só sou. Nada mais.”

A criança levantou a mão com a pedra…
Mas ficou parada.
Algo no peito apertou como um nó,
uma coisa estranha entre o querer e o entender.

Ela percebeu, de repente,
que podia destruir uma coisa pequena e bela
sem razão nenhuma.
E essa ideia ficou tão pesada
que os seus dedos desceram devagar.

Largou a pedra.
Não por pena, mas porque aprendeu alguma coisa nova
bem ali, naquele instante silencioso.

Com cuidado, afastou-se para não assustar o grilo,
como quem não quer rasgar um segredo.
O canto voltou, suave,
e por um breve momento
pareceu que o mundo sorria para ela,
orgulhoso da escolha que fizera.

Sermão aos Ungidos do Estado

Ó excelentíssimos ressuscitados por milagre elétrico,
vós que saís do hospital a chiar gratidão
como papagaios em discurso oficial,
claro que agradeceis!
Quem não agradeceria ao privilégio
de ter a fila acordada de madrugada
só para vos abrir caminho?

 

Enquanto isso eu, reles cidadão sem pedigree,
conto as horas como quem conta migalhas:
a minha vez vem sempre depois
do fim do mundo.

 

Que prodígio é esse, senhores,
que faz da saúde um cabaré de convidados
onde só entra quem tem cartão dourado?
O meu corpo não vos serve de metáfora?
Pois aqui estou: carne e osso,
mas sem direito ao vosso milagre de primeira classe.

 

Que se rasgue o pano deste teatro farsante!
Ao povo deixam o aplauso e a dor,
aos políticos, o camarim climatizado.

sábado, agosto 09, 2025

Ainda me lembro da Pipoca

 

Quem abrirá a porta ao gato quando eu morrer?, pergunta o Rómulo,
E o que será do seu corpo redondo, tão gordinho, tão sábio,
com seus olhos sempre à espera da carícia,
do passo que, mesmo após a morte, ainda guardará o eco do meu gesto?
Ah, quem? Quem será capaz de adivinhar
os segredos que ele esconde,
aquela unhada tímida no tornozelo
que, se fosse um abraço, seria o meu último sopro de vida?

 

Ele, o rei da cama, tão discreto,
com seu disfarce de bolinha acolhedora,
não percebe que a sua forma nunca se esconde,
que a barriga cheia de carícias se impõe,
como um eco da minha presença que, no fundo,
ele também conhece sem saber.

 

E quando a porta bater,
será que o vejo correr, sempre rápido,
sempre voltando ao meu lugar,
onde ainda me sinto, onde ainda me ouve,
como se o tempo se recusasse a levá-lo?

 

Ah, quem abrirá a porta ao gato
quando o silêncio se estender sobre a casa?
Ele, que sempre me viu nas sombras da manhã,
sempre foi mais fiel do que qualquer alma,
saberá, ele, o que me resta?


Saberá ele da última resposta
que deixo nas suas patas,
no último olhar que, com os olhos fechados,
também lhe serei?

 

Ele morreu primeiro.
E a casa ficou mais vazia,
não pela ausência do corpo,
mas pela falta daquelas patinhas rápidas,
do seu corpo redondo que, ao procurar refúgio,
tomava o meu lugar,
como se, de algum modo, já soubesse
que o nosso tempo era finito,
e o dele, talvez, mais breve.

 

A porta, que antes se abria ao seu olhar curioso,
agora já não tem os seus olhos a esperá-la.
E onde ele corria, agora é só o eco
do vazio que ele, com sua pequena alma,
deixou. O hábito da unhada carinhosa
não tem mais quem o receba.
Quem serei eu, agora,
se já não sou a mão que o acariciava?

 

Como explicar ao silêncio
que, mesmo o pequeno corpo, redondo e cheio de graça,
era mais forte do que o próprio lamento?
E como contar que, na dor do adeus,
foi ele quem me deixou antes,
me ensinando que a partida de quem amamos
não é um golpe,
mas um suspiro do que, de mais puro,
o amor se torna — um vazio que nos completa,
sem nunca nos deixar.

 

E agora?
Quem abrirá a porta ao gato,
se ele, antes de mim, já a fechou?

quarta-feira, agosto 06, 2025

O verdadeiro crime

 

O fogo, essa besta insaciável,
não brota do nada,
mas da ignorância que se estende,
como o fumo que se espraia sem vergonha.
E não venham com a ladainha
de que o calor é imprevisível,
quando o verdadeiro crime está em quem deixa a terra
à mercê da morte, sem nunca a preparar.

 

Ah, se soubessem que o inverno
é o tempo da guarda, da ação antecipada,
mas não. Preferem esperar pela labareda,
depois que a terra já chora sua cinza,
depois que os bombeiros, esses heróis acidentais,
têm de enfrentar o inferno que poderia ser evitado,
se ao menos alguém tivesse feito a lição antes.

 

Pois que importa a neve que cai,
se a terra queimada não conhece o inverno?
Mas ninguém se importa com isso.
Os que podem prevenir preferem olhar para o lado,
dar o ombro aos esquemas sujos,
e, quando a tragédia chega,
vem com a desculpa de que é impossível evitar.
Mas é apenas falta de vergonha,
de quem aproveita do fogo o que o fogo não pede.

 

Os bombeiros não têm culpa,
eles fazem o que podem,
mas a culpa está em quem não vê
que o inverno é o tempo de fazer
o que a razão exige,
antes que o fogo comece,
antes que a terra clame pela sua alma perdida.
Mas ninguém, claro, se importa com isso.
Deixam arder e depois,
cheios de um falso arrependimento,
dizem que o fogo veio do nada.
E nós, que ficamos,
só temos as cinzas e as farpas da desilusão.

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