
Fonte:A grande fauna



Por vezes, junto ao Central, estacionava uma furgoneta carregada de livros. Era uma biblioteca itinerante. Entrávamos por ali dentro com sofreguidão em busca de umas horas de evasão. O mais simpático é que, já naquele tempo, podíamos levar os livros para casa e tê-los connosco durante um mês até nova visita.
Tornei-me um frequentador assíduo daquele espaço, até que um dia me disseram: A partir de agora, existirá uma biblioteca em Ourém, serás o sócio número 2.
Que honra! O Dr. Durão era o número 1. A nova biblioteca era perto da casa do Administrador, frente àquele chafariz que ainda resiste à sanha destruidora. Para lá me dirigi e lá continuei a procurar livros para me transportar para outras paragens.
Há dias voltei a encontrar uma daquelas furgonetas estacionada ao fundo da rua D. Carlos. Foi como que um reencontro com a Ourém do meu tempo.
Será legítimo o presidente de uma junta de freguesia atribuir as instalações de uma escola desactivada a uma associação de caçadores? Sem dúvida que sim.
Mas será isso legítimo quando a população que essa mesma escola servia tinha outra finalidade a dar-lhe e disso se conhece hoje documentação?
E quando os caçadores nem sequer são dessa localidade?
E será legítimo que os caçadores imponham os direitos conferidos pelo presidente da junta pela força das armas, como pode deduzir-se do comunicado da Associação de Cultura da Amieira?
Tenho as minhas reservas: o poder não faz sentido sem uma população a quem servir. Ora, o poder instalado em Ourém e em algumas freguesias da mesma começa a manifestar-se como totalitário, despótico.
As suas atitudes são exemplos de quem não liga nenhuma à população de determinado local, impondo-lhe o que melhor serve os seus fins e da sua clientela. Por vezes não respeitam a própria lei que elaboraram ou para a qual contribuiram de que é exemplo o PDM.
Estão em maioria e utilizam o poder para decidir o que melhor lhes convém. Isto pode parecer democrático, mas é o contrário da democracia, parecendo dar razão aos que afirmam que, nas eleições, o povo escolhe quem o vai espezinhar e oprimir.
A Amieira está a conhecer aquilo que vimos denunciando em Ourém há cerca de um ano: fazem o que querem, utilizando o poder que o voto lhes deu.
Eles estiveram reunidos nas Matas e atribuiram interesse público ao projecto. Como se isso afastasse todos os riscos associados ao mesmo, como se a natureza pudesse ser ultrapassada por uma votação baseada na fidelidade partidária. Como se não fosse possível afastar a sinistralidade de um local sem beneficiar um privado interessado numa obra na zona.
O que isto prova é que por vezes as estruturas democráticas podem ser utilizadas de uma forma preversa.
A oposição votou contra, fez o seu dever. A Quercus continuou a avisar.
Nada serviu para contrariar os desígnios daquela gente ali reunida. São verdadeiros Servos de David.
É tudo por causa desta linda casinha que tem inúmeras recordações para as pessoas da Amieira. O que eu vejo no comunicado que se segue é um caso de polícia. Será que agora os caçadores têm direito a humilhar as populações dada a força das armas?
Para que serve a junta de freguesia?
Para que serve o Presidente da Câmara?
Para que serve a GNR?
Eis o comunicado:
ASSOCIAÇÃO CULTURAL ESCOLA DA AMIEIRA
Comunicado
Graves provocações e humilhações dirigidas pelos caçadores de Urqueira à população da Amieira na sua antiga escola
No dia 6 de Fevereiro de 2005 cerca das 08:00 ocorreram os seguintes factos:
Aproveitando a realização da concentração para a batida de caça às raposas pela direcção dos caçadores de Urqueira, população da Amieira reuniu-se antes da chegada dos caçadores, para uma visita à escola que tinham frequentado e onde está parte das alegrias e saberes compartilhados no passado recente de todos.
À chegada dos caçadores todos os Amieirenses presentes se encontravam em plena confraternização, pacificamente e com urbanidade recordando os tempos e experiências ali vividas.
Surgiram então caçadores com arrogância auto-afirmando-se donos e senhores daquele espaço público, com provocações, procurando o confronto com a população ali presente proferindo termos ofensivos e injuriosos.
Os Amieirenses formam impedidos de entrar dentro do edifício da escola que frequentaram. O presidente dos caçadores alertado para o sucedido, pelo presidente da Associação Cultural da Amieira nada fez.
A Associação Cultural Escola da Amieira manifesta publicamente o seu repúdio pelos factos, os quais indignaram e ofenderam profundamente a população do lugar.
A Associação tinha solicitado por carta enviada em 1 de Fevereiro ao presidente dos caçadores de Urqueira para não violar a sala de aulas conforme tinha ocorrido a 30 de Janeiro.
A Associação Cultural Escola da Amieira apelou na carta à auto-reflexão e bom senso dos caçadores, sensibilizando-os para locais próprios e melhor adequados para actos que o grupo de caçadores pratica ou pretende vir a praticar.
Foram ainda os caçadores informados dos sentimentos e ligações que os Amieirenses têm com a antiga escola da Amieira.
A ocupação do local emblemático dos Amieirenses pelos caçadores irá ser sempre um elemento de desestabilização e perturbação no bom relacionamento, da boa convivência e urbanidade existente.
A Associação Escola da Amieira interroga-se sobre a negligência do Sr. Presidente da Junta de Urqueira em responder a uma audiência pedida no dia 30 de Dezembro de 2004.
A Direcção,
Amieira, 07 de Fevereiro de 2005
O Eng. Sócrates tem razão. São precisos canais de rega para aproveitar o Alqueva, não o podemos deixar esquecer a promessa, mesmo que vá contra alguns interesses baseados no lucro.
É claro que vi o debate.
Santana, um verdadeiro vendedor de banha da cobra que não hesita em recorrer aos mais vis meios para sujar o seu adversário.
Sócrates, mais hirto, mais verde, menos à vontade mas com a lição bem estudada, dando algumas garantias de poder ser um melhor primeiro ministro do que o seu adversário.
Teve algumas partes engraçadas embora em nenhuma me risse tanto como aquela imagem do Santana, fora dali, em comício, a dizer que ia ao terceiro andar e encontrava o Jorge Coelho, ia ao rés do chão esquerdo e cruzava-se com o Vitorino...
Boa, boa foi uma situação em que Sócrates falava na terceira idade e Santana retorquiu que iria oferecer alguns estágios profissionais. "Eh, pá! Caro PSL, já me chega...".
De resto, ficou claro que os programas dos dois partidos não são substancialmente diferentes, que há coisas no programa do PSD que até poderiam ser engraçadas se não tivessem um Santana à frente, que nenhum esclareceu como vai implementar as promessas feitas e que é preciso uma votação muito forte à esquerda destes senhores que faça com que eles não tenham a veleidade de pensar que podem fazer tudo o que lhes apetecer...