segunda-feira, março 23, 2020

O nascimento de uma futura artista


Naquele dia, a Cietezinha estava muito triste no quintal da sua casa na vila medieval de Ourém. Sentou-se num banco com um ar sonhador…
«Oh! Quem me dera um cavaleiro andante para me levar com ele e distrair a minha alma! Nesta terra não acontece nada de interessante.»
Pegou num pequeno livro de poesia e sentiu o seu coração pulsar ao ler:


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

«Oh! Como tudo isto é triste nesta Ourém tão isolada. Preciso de algo que me devolva a vida».
Procurava alguma coisa que fazer uma vez que já tinha estudado toda a matéria das aulas. Em cima de uma mesa, viu uma pequena revista.
«Olha! A Crónica Feminina… tão giro…».
Voltou ao banco do quintal e pôs-se a folhear a pequena revista.
«Que conselhos tão úteis! Ainda vou aprender a fazer bolos à conta desta revistinha…».
Mais à frente, viu a fotonovela da revista.
«Que maravilha! Como eu gostava de participar numa fotonovela!... Deve ser tão fácil e interessante. Pomo-nos na posição, eles tiram a fotografia e passa-se à próxima cena. Quem diria que daqui a uns sessenta anos há as telenovelas horrorosas em que têm de filmar tudo».
Foi ter com a Ceuzinha.
- Sabes o que me lembrei que nós podíamos fazer? Uma fotonovela…
A Ceuzinha ficou admiradíssima.
- Repete lá que não percebi…
- Podemos fazer uma fotonovela. Arranjamos um argumento e um ou dois daqueles rapazes estúpidos de Ourém, contratamos o fotógrafo e depois é só juntar uma legenda. Publicamos e pomos à venda no Central…
- Minha irmãzinha está louca. Passou-te alguma coisa pela cabeça à hora de almoço?
- Não. Estive a ler a Crónica Feminina que traz uma fotonovela muito gira. Nós podemos fazer melhor…
- Mostra cá…
A Céuzinha pôs-se a consultar a Crónica Feminina e, no final, afirmou:
- Na realidade, é uma ideia interessante. E já pensaste no argumento, no elenco…?
- Contratamos o Estorietas para o argumento…
- Huuummmm…. Não serve. É demasiado meloso…
- Então, quem? O João?....
- Esse não larga o cão. Estragava as fotos todas…
A Ceuzinha continuou a folhear a Crónica e, de repente, pareceu ter uma ideia fantástica.
- Olha aqui. Este anúncio…
«Procuram-se artistas para as fotonovelas da Crónica Feminina
Se gostas das nossas fotonovelas e queres participar em alguma, envia-nos uma foto tua para a redação desta revista. Não precisas de sair da tua terra, a nossa equipa procurar-te-á e escolherá os cenários mais idílicos».
A Ciete ficou extasiada.
- Ena! Posso vir a ser uma grande artista… e nem é preciso sair da terra.
- Antes isso que andar a dar aulas de Matemática a burros…
- Mas eu estou ansiosa por viajar. Apesar de tudo, vou já inscrever-me.
E, no dia seguinte, o seu primeiro passo foi ir aos correios da vila para enviar uma carta de candidatura a artista de fotonovelas da Crónica Feminina…

sexta-feira, março 20, 2020

Alma de abutre

Os meses foram passando.
O CFL parecia ter recuperado a estabilidade. Os professores andavam satisfeitos com os seus salários pagos a tempo e horas. O Diretor já pensava em alargar o espaço de ensino, em novos investimentos.
Um dia, num recreio, o Estorietas viu chegar um miúdo com um aspeto andrajoso:
- Olha, Amândio, olha o aspeto do Zé da Mula…
- Que esquisito! Que se passará?
Efetivamente, o rapaz nem os sapatos trazia calçados. Ostentava um ar de extrema pobreza.
Chegaram ao pé dele e perguntaram-lhe:
- Mas que se passa para estares assim?
- Que se passa? – respondeu o miúdo com outra pergunta – Essa malvada Floribela ficou-nos com tudo. O meu pai esqueceu-se de pagar uma mensalidade e ela nem nos deu tempo. Ficou-nos com uma fazenda, o automóvel e até me roubou o diabo das botas que eram novas e tinham sido feitas pelo sapateiro Mário, ali ao pé do Sabino… Não pudemos fazer nada. Chegou lá com um agente de execução e dois GNR e levou tudo.
Ficaram impressionados com aquela descrição.
- Eu bem dizia que, por baixo daquela carinha bonita, se escondia uma alma de abutre.
- Esta gente do Capital não tem dó nem piedade. E nós estamos entalados com ela mais uns dez anos…
- Miséria de sociedade esta! Aproveitam a desgraça de uma pessoa para a afundar ainda mais…

quinta-feira, março 19, 2020

Uma azinheira viabilizadora

Passou cerca de um mês até o telefone do CFL retinir e, após atender, o diretor ouviu do outro lado a maravilhosa voz de Floribela da Azinheira.
- Doutor, julgo que tenho uma boa proposta para o CFL. Quando podemos reunir?
Alguns dias depois, a beldade entrava no CFL para efetuar a reunião com o diretor. Mais uma vez foi vista pelo Estorietas:
- Olha . - dizia ele para o Amândio – está ali a abutrinha qu
e foi lá a casa.
- É curioso. Também esteve na Urqueira há uns dias. E dizias tu que vinha substituir a Boazinha
- Encantou-me o aspeto dela. Nem sempre aparecem por aqui joiazinhas tão lindas. Mas esta é uma fera.
Entretanto, no gabinete do Diretor do CFL, a financeira dava conta da solução preconizada.
- Consegui chegar a acordo com 90% dos devedores. Resta, portanto, uma margem que fica à sua responsabilidade: ou desiste deles ou processa-os.
- Eu penso que vou corrê-los do Colégio. No fundo estão a demonstrar que não querem nenhuma solução. Portanto, quais serão os nossos valores?
- Tem aqui a lista dos devedores que aceitaram integrar-se no plano de pagamento. A sua dívida assume o montante de 243 mil escudos e podemos comprar-lha por 145800$. Relativamente a estes, responsabilizamo-nos pelo pagamento das suas mensalidades neste e no próximo ano.
O diretor esfregou as mãos.
- Doutora, não me tinha apercebido desse aspeto do nosso contrato.
- Não pude falar nele enquanto não tive o acordo dos devedores.
- Desse modo, tenho praticamente garantida 92% da receita se considerar os próximos dois anos, embora este ano só consiga 77%. Doutora, a sua vinda a este colégio é quase uma aparição de Nossa Senhora de Fátima.
- Ah! Ah! Por alguma razão me chamam Floribela da Azinheira…



Afinal, parece que a ação da bonita financeira foi extremamente positiva para o CFL e seus alunos. O colégio recuperou a sua viabilidade e muitos alunos conseguiram uma mensalidade mais barata embora num compromisso temporal mais longo.
Mas seria a Floribela assim tão boazinha?
Terão todos melhorado de vida com a sua ação?

quarta-feira, março 18, 2020

A corda no pescoço do devedor

Em casa do Estorietas, reinava uma certa agitação. Tinha chegado uma carta do CFL a anunciar a visita da representante de uma empresa financeira com o objetivo de regularizar as mensalidades em dívida.
O pai do Estorietas já tinha feito todas as ameaças possíveis:
- Vou buscar a minha espingarda e corro logo com esses abutres.
- Pai, tenha calma – dizia o irmão do Estorietas – A carta afirma que procuram uma solução. Vai ver que tudo se resolve.
- Resolve, resolve… ele vai trabalhar para a oficina e deixa de andar em colégios de mariquinhas.
E ali estiveram a fumar esperando a visita da enviada da empresa. Pouco depois, bateram à porta e a jovem financeira entrou e sentou-se no lugar destinado.
- Senhor Vieira, estão em causa 3000$00 que o ano passado devia ter pago ao CFL e o senhor não o fez.
- Como queria que o fizesse? Os meus clientes também não me pagam…
Ela sorriu.
- Isto parece uma economia em que ninguém paga a ninguém.
- Devem-me dezenas de contos de arranjos em automóveis. Tenho de pagar o material e, no final, não consigo cobrar. Como quer que pague uma mensalidade tão alta?
- Acha alta a mensalidade do colégio?
- Muito. Em dois anos quase passaram para o dobro. Antes aguentava e agora não…
- Quer dizer que, se passasse para uma mensalidade que fosse metade da anterior, o senhor teria capacidade de pagamento?
- Sem dúvida. Metade já conseguiria pagar.
-Tenho uma proposta para si.
O senhor Vieira abriu os olhos cheios de esperança. No fundo, não queria que o filho deixasse de estudar e uma mensalidade mais suave tornaria tudo mais viável.
- Sim. Tenho uma proposta – repetiu ela. – Eu proponho-lhe uma mensalidade de 125$00 para um período de dez anos acrescida de 1500$00 para satisfazer a dívida atual e, em contrapartida, garanto a satisfação da dívida atual e a frequência do CFL sem qualquer pagamento durante este ano e o próximo.
- Quer dizer que a mensalidade passará para metade… mas durante dez anos… E se ele quiser continuar a estudar?
- No final destes dois anos reanalisaremos a situação e com certeza não haverá interrupção nos estudos. Os senhores têm bens?
- Bens?...
- Sim, imóveis, fazendas, automóveis, jóias, coisas com valor…?
- Tenho umas fazendas, uma oficina, um carro com certa idade.
- Então podemos usar esses bens como garantia do nosso empréstimo. Vou redigir um documento para estabelecermos um acordo e oportunamente estarei cá para o assinarmos…
Despediu-se e saiu toda sorridente deixando aquela família um pouco perplexa.
- É um alívio o desaparecimento dessa dívida, mas… dez anos…
A mãe do Estorietas apareceu:
- Era muito bonita essa menina. Trouxe alguma coisa de bom?
- Nem sabemos. Tenho a impressão que nos está a pôr a corda ao pescoço para os próximos dez anos…

terça-feira, março 17, 2020

Assistência para o colégio

Antes de ir para as aulas, o diretor do CFL passou pelo seu gabinete e deu uma vista de olhos pelo jornal.
«Só conversa, só conversa… nada que interesse…».
Mas, de súbito, os seus olhos detiveram-se numa página com um anúncio que se destacava e achou extremamente interessante.
«Reabilitação financeira de empresas e particulares… o que será isto?».
Leu o anúncio uma ou duas vezes e cada vez lhe parecia mais adaptável ao caso do colégio e dos seus utentes.
«Será que levam muito dinheiro? Será que chegam a resultados?»
Resolveu telefonar para o número que constava no anúncio. Do outro lado, apareceu uma voz bastante melosa.
- Está? Fala Floribela da Azinheira, a sua assistente financeira. Qual o assunto posso saber?
- Sou diretor do CFL em Ourém. Temos problemas muito graves com a cobrança das mensalidades. Será que nos pode ajudar?
- Nós não somos uma empresa de cobranças, mas podemos examinar a situação e ver se há viabilidade para alguma ação. Qual o montante da cobrança em falta?
- São 270 mil escudos e o número de famílias envolvidas é de 90…
- Um número bastante elevado para uma solução imediata…
- Temos margem de manobra para esperar um ou dois meses.
- Então, o melhor é agendarmos uma reunião para vermos as coisas mais detalhadamente…
A reunião foi agendada e, três dias depois, uma jovem escultural, muito bonita, chegou ao colégio para falar com o diretor.
O Estorietas, que andava pelos corredores, viu-a e ficou entusiasmado. Disse logo para o seu amigo Amândio:
- Acabou de entrar uma professora muito gira. Se calhar vem para o lugar da Boazinha
- Não acredito. Diz-se que para o lugar dessa vem um professor chamado Laranjeira.
- Esta deve ensinar muito melhor
Entretanto, o diretor do CFL punha a jovem financeira ao corrente da situação. Ao fim de algum tempo, esta disse:
- Vou pensar numa solução, mas para isso preciso de realizar reuniões individualmente com as famílias em causa. De qualquer modo, informo-o que isto não lhe irá ficar barato…
- Mas pode dar-me um número para já?
- A percentagem mais alta que atribuímos até ao momento à compra de dívida é de 60%.
- Que quer isso dizer?
- Quer dizer que, se virmos viabilidade do lado das famílias, ficamos com o seu direito à cobrança entregando-lhe imediatamente 162000$00 e nos encarregaremos nós de cobrar às famílias…
- Mas isso é um valor muito exagerado… está a cobrar-nos mais de 100000$00.
Ela teve um sorriso encantador.
- Não se esqueça que temos um risco muito elevado. E só lhe daremos a certeza depois de falar com as famílias. De qualquer forma, se tiver uma solução melhor, está sempre a tempo de desistir enquanto não nos comprometermos com uma solução.
Nessa noite, o diretor do CFL voltou a não dormir. Por um lado, irritava-o o facto de ter de entregar tanto dinheiro àquele diabinho financeiro. Por outro, entendia que ela podia representar a viabilização do seu negócio.
Assim, no dia seguinte, logo pela manhã, pegou no telefone. As suas primeiras palavras foram:
- Estou a ligar-lhe para lhe dizer que aceito as suas condições. Por favor, faça um estudo da situação e apresente-me um plano de viabilização dos nossos recebimentos

segunda-feira, março 16, 2020

Uma situação preocupante

No início do ano de 1963, o diretor do CFL realizou uma reunião com o seu contabilista que lhe mostrou uma situação preocupante.

Despesa
Escudos
Salários e SS
Professores
210000
Contínuo
14000
Gastos
Água
1000
Eletricidade
2000
Limpeza
20000
Seguros
8000
255000
Receita
Mensalidades
540000
das quais
Mensalidades em atraso
270000

- Sabe, doutor, o colégio poderia ter uma excelente saúde financeira. No entanto, começa a manifestar-se um problema muito grave e que consiste no facto de 50% dos utentes não pagar as mensalidades. Se o problema se agravar, no próximo ano, os recebimentos não cobrirão os pagamentos…
- Não percebo. Então não tivemos uma receita de mais de 500 mil escudos?
- Devia ter tido uma receita de 540 mil escudos, mas, como 50% das pessoas não pagaram, o que recebeu foi apenas 270 mil escudos pouco mais do que os seus pagamentos.
- Já percebi. Mas por que não pagam as pessoas?
- Possivelmente, não têm dinheiro. No último aumento, disse-lhe imediatamente que me parecia excessivo, mas o doutor insistiu, parecia que queria ganhar tudo de uma vez…
- Não diga isso. Se reparar nos preços dos outros colégios, o nosso nem é o que é o mais elevado e, mesmo que os alunos vão para o liceu, a sua estadia num quarto levá-los-á a custos bem superiores.
O doutor saiu da reunião muito preocupado. Andava cansado por aquele negócio lhe trazer imensas preocupações de natureza financeira. E a perspetiva de não conseguir concretizar os pagamentos de salários e outros gastos era aviltante para a sua formação.
«Que hei de fazer? Mas que posso fazer?»
Nem dormiu durante a noite a pensar numa solução.
«Mandar os alunos embora não resolve. Estamos no limite mínimo de atividade».
Efetivamente, o colégio tinha 180 alunos que pagavam uma mensalidade média de 250$00. Esses alunos repartiam-se pela primária e por cinco anos do secundário com turmas que não ultrapassavam o número de 30 elementos.
«Também não posso despedir professores e concentrar as aulas noutros. Já estão sobrecarregados».
O número de professores era de 10, recebendo cada um 1500$00 ao mês num total de 14 prestações.
«Se calhar, tenho de lhes cortar nas férias ou no subsídio de Natal. Mas, coitados, isso será tão injusto».
E, depois de uma noite sem dormir, levantou-se e foi para as aulas de mau humor.


Calculam o que aconteceu, não?...

domingo, março 15, 2020

Um monge no convento

Os dias foram passando, mas a irmã Sandrine não conseguia libertar-se da imagem que tinha visto na cela da Gracelinda. Um dia, encontrou-se com a madre diretora.
- Eu tenho a certeza que vi um homem horrível a apontar. Vi isso e mais uma série de desenhos com motivos de guerra. Mas ela continua a negar e a dizer que preciso de me confessar. Não sei que hei de fazer, madre…
- Dentro em breve virá ao nosso convento um monge muito experiente em possessões diabólicas. Farei com que ele se encontre com essa menina.
E um dia a madre chamou todas as freiras e anunciou:
- Vamos ter uma visita muito importante: o monge Passarinho. Ele, com certeza, quererá falar com algumas de vós e eu só peço que lhe deem a vossa melhor atenção já que ele vai retirar-se para Madrid e só daqui a uns meses nos voltará a visitar.
A irmã Sandrine ficou excitadíssima:
- É tão lindo o monge Passarinho!...
- Irmã – redarguiu a madre com um ar muito sério. – não é momento para tais manifestações. Recomendo-lhe toda a contenção agora e durante a visita.
Mas a Gracelinda notou que todas aquelas mulheres parecia que tinham ganho nova vida.
«Que entusiasmo! Quem diria?... Pobre monge!... como vai resistir a 18 freirinhas carentes?».
Notou que, no dia da visita, todas estavam perfumadas e vestidas com as melhores vestes. No refeitório, trabalhava-se afincadamente para obsequiar o monge com uma suculenta refeição. Pelas dez horas, a madre mandou reunir as freiras num átrio perto da biblioteca e, pouco depois, aparecia acompanhada pelo monge.
Este vestia como tradicionalmente os monges o faziam. Mas era possível notar os traços do seu rosto. E a Gracelinda ficou admiradíssima.
«Mas é um jovem. Não tem mais de 18 anos. Como pode andar nesta vida?»
O monge foi cumprimentando uma a uma todas as freiras residentes no convento e parou em frente à Gracelinda.
- Como te chamas? Não te conheço…
- Chamo-me Gracelinda. Não me conhece porque só aqui estou há três meses…
- A madre superiora disse-me que trouxeste o teu cãozinho…
- Sim, ele não me abandona por nada deste mundo.
- Quando eu terminar esta sessão, tens de mo mostrar.
O monge proferiu uma palestra que entusiasmou as irmãs e, no final, disse:
- Vamos lá ver o teu cãozinho…
E dirigiram-se à cela da Gracelinda onde encontraram o Pepe a dormir em cima da cama.
- Pepe, vem conhecer o monge Passarinho…
O Pepe aproximou-se a dar à cauda, mas, mal chegou junto do monge, começou a rosnar fortemente.
- GRRRRRRRR!!!!!!!!!
Instintivamente, o monge recuou:
- Que é isto? Este cão é uma fera. Por que está a rosnar?
- Ele assustou-se com o seu aspeto. Mas é um cãozinho muito meigo e amigo do seu amigo.
- Não me parece. Vou ter de fazer uma experiência com ele. Por favor, retira-te e fecha a porta da cela.
- Mas que vai fazer ao meu cão? Não lhe faça mal…
- Está descansada. Vai lá…
A Gracelinda saiu e o monge ficou ante o Pepe.
- Agora nós, cãozinho rebelde – disse ele puxando de um frasco que abriu e deu a cheirar ao cão.
O cão adormeceu imediatamente e o monge Passarinho começou a revistar todos os locais onde a Gracelinda podia guardar coisas e, ao fim de pouco tempo, descobriu os desenhos que esta tinha feito.
- Oh! Que coisa interessante. Esta miúda tem alma de revolucionária. Não admira que deteste GNRs. A irmã Sandrine afinal tinha razão.
Rapidamente pensou como poderia aproveitar a situação, mandando a Gracelinda entrar.
- Que fez ao Pepe? – perguntou ela assustada.
- Nada de grave – respondeu ele, sorrindo – Gostou tanto de mim que acalmou e ficou a dormir…
- Ah…
- Mas há umas coisas que tens de me explicar…
Ela ficou admiradíssima e não respondeu. O monge foi ao local onde ela guardava os desenhos e mostrou-lhe o que descobrira.
- Tens de explicar porque fizeste estes desenhos…
- Mas…
- Eu sei bem o significado deles. Basta uma palavra minha para ires daqui para a prisão…
- Mas… são só uns desenhos. Não sei por que os fiz, foi uma espécie de inspiração divina.
- Inspiração divina? Não digas blasfémias… Esses são os maiores mentores dos ideais comunistas, pessoas que nada querem com Deus, materialistas irrecuperáveis.
- Mas eu não sabia…
- Menina, como explicas esses desenhos?
- Foi algo que tinha no meu subconsciente, parecia que uma força superior guiava a minha mão…
- Então, algo estará errado no teu subconsciente. Possivelmente, estás possuída pelo espírito de algum desses homens e és um joguete nas mãos deles.
- Mas…
- … e o mesmo se passa com o teu cão, senão não teria sido tão agressivo com a minha pessoa. Vejo-me obrigado a fazê-los abandonar o convento.
- Como? Por favor, não faça isso…
- É necessário libertá-los desses pensamentos perigosos. Ou saem do convento…
- Não, não posso sair. – e a Gracelinda contou ao monge Passarinho a tenebrosa perseguição de que era alvo na sua terra.
O monge pareceu apiedar-se da sua situação. Simbolicamente, puxou um crucifixo e disse para ela:
- Jura perante a Cruz que tudo o que dizes é verdade.
- Juro que é verdade tudo o que lhe contei.
- Então, vamos procurar outra solução. O mal não está em ti. O mal está neste cãozinho de que tanto gostas.
- Mas eu não o dou a ninguém. Eu não quero separar-me dele…
- A separação não será longa. Apenas o tempo suficiente para o curar dos males da alma… três meses… E, no convento, ninguém saberá dos desenhos, eu acalmarei a irmã Sandrine.
- Três meses… três meses sem o Pepe?
- Ou isso ou abandonam ambos o convento…
Perante aquela alternativa, a Gracelinda não hesitou. Ia ficar três meses sem o Pepe o qual acompanharia o monge Passarinho até Madrid para ser reeducado, comprometendo-se este a devolvê-lo ao convento no final desse período.
No fim da tarde desse dia, a Gracelinda deu os últimos beijinhos ao Pepe e disse afagando-lhe a carinha:
- Porta-te bem! Em breve quero ver-te de novo junto de mim.
Já cá fora, o monge Passarinho despiu a sua falsa indumentária de monge, entrou no seu belo BMW e, pouco depois, conduzia com o Pepe ainda meio adormecido, a seu lado:
- Vamos até Madrid. Sei que és muito rápido e vais treinar o meu Baloo nas corridas. Ah! Ah! Como são parvas estas freiras todas. Jejejejjjejeje!!!!!



FIM

sábado, março 14, 2020

A arte que trouxe o demónio ao convento

Naquela manhã, cumpridas as obrigações religiosas, a Gracelinda sentia-se maravilhada. Já havia passado um mês sobre a sua entrada no convento e tudo lhe parecia diferente da sua primeira e falhada experiência.
«Será da companhia do Pepe? Estas irmãs são muito tolerantes…».
Efetivamente, o cãozinho partilhava a cela com ela e todos os dias davam enormes passeios nos frondosos jardins do convento.
«Mas falta-me qualquer coisa. O que será?».
Nesse momento, o Pepe farejava por todo o lado na sua cela de 20 metros quadrados e, a certa altura deteve-se diante um móvel.
- Béu, béu…
- Que queres tu, lindo menino?
O cãozito apontava para uma gaveta como que a dizer-lhe para a abrir. Ainda hesitou, mas, pouco depois, como que levada por uma inspiração divina, abriu a gaveta e deparou com algo que a maravilhou.
- Material para desenhar. Que maravilha!!!
Imediatamente se sentou e começou a fazer alguns rabiscos. Ao lado dela, o cãozito contemplava-a embevecido. É que alguém parecia conduzir a mão dela.
«Estas paredes são demasiado tristes. Vou cobri-las com os desenhos que a inspiração deste convento me traz».
E desenhou, desenhou, desenhou… Depois sombreou.
Ao fim de três horas, tinha produzido sete magníficas obras. Contemplou-as encantada.
«Nunca me julguei capaz de fazer coisa tão bela. É sem dúvida o sagrado na sua mais pura expressão».
Decidiu pendurar os desenhos na parede para a cela ficar mais alegre.
«Vão acompanhar-me nas minhas orações do dia a dia. Nunca me senti tão bem».
Naquele momento, a irmã Sandrine veio chamá-la para o almoço e, para isso, abriu a porta da cela.
- Irmã Gracelinda, está na ho…
Não disse mais nada. Levou a mão à boca, proferiu algo ininteligível apontando os desenhos e caiu no chão desmaiada.
A Gracelinda ficou assustadíssima.
- Que se passa? Dir-se-ia que não gostou dos meus desenhos. O melhor é guardá-los.
E apressadamente recolheu os desenhos e escondeu-os. Depois, prestou assistência à irmã Sandrine. O Pepe já lhe lambia a cara e ela abriu os olhos, espantada.
- Aquele homem… Aquele homem a apontar… Eu vi o diabo naquela parede.
E desatou a fugir pelo convento fora. A Gracelinda resolveu calar-se e não mostrar mais a sua arte. Sorrateiramente, dirigiu-se ao refeitório e, pouco depois, tentava acalmar a irmã Sandrine sugerindo-lhe que ela tinha tido uma alucinação demoníaca por já não se confessar há muito tempo….


Vejam... vejam só os desenhos que a Gracelinda fez depois de entrar no convento. Que apelo seria este?



sexta-feira, março 13, 2020

Dois olhares

O comboio rodava entre árvores frondosas e os sinais das patas de um ou outro animal extraviado nos campos que rodeavam Ourém.
Balouçado pelos solavancos da carruagem, alheio às conversas de outros passageiros e ao barulho das portinholas desengonçadas, o senhor Marques dormitava a um canto, deixando que a poeira que entrava pela janela fosse formando nas pregas do seu melhor fato pequenos sulcos amarelos.
No banco em frente da velhíssima carruagem, cujos forros interiores estavam comidos pelo Sol, pelo vento e pela poeira, a Gracelinda pousava os lindos olhos azuis na figura de seu pai.
A posição que cada um ocupava poderia ser tomada como símbolo dos seus estados de espírito: a Gracelinda ia sentado na direção da marcha do veículo, de frente para as terras que pareciam vir ao seu encontro – quer dizer, para o futuro; ia entrar secretamente num convento como forma de escapar a uma perseguição implacável do comandante do posto da GNR de Ourém. Ao seu lado, o seu cãozinho Pepe dormia e jurava que nunca largaria aquela menina que era tão boa para ele.
O senhor Marques contemplava a longínqua linha do horizonte que ia ficando para trás – dir-se-ia que olhava para o passado para as horas maravilhosas que aquela filha lhe proporcionara. De futuro, já não a levaria ao Café Central aos domingos para ela se distrair com a televisão, parecia que uma parte da sua vida tinha acabado naquele momento…
E a reclusão da Gracelinda durou cerca de um ano.



quinta-feira, março 12, 2020

Flores que abrem e embriagam

Os guardas chegaram a Peras Ruivas quando o Sol já se escondera atrás do horizonte e as estrelas começavam a pestanejar no céu. A lua ficou só no azul celeste ornado de estrelas e a sua luminosidade cada vez mais dominava a paisagem. Era noite de Lua cheia.
O Estorietas e a sua amiga Mari’mília viram-nos passar a pé e dirigir-se a uma taberna perto da Igreja.
- Que engraçado! Temos vigilância policial. Daqui a uns cinquenta anos vamos ter saudades destes tempos.
Sem entrarem na taberna, ouviram, cá fora, tudo o que se tinha passado. E, quando eles conseguiram uma boleia para Ourém, resolveram ir até ao sítio onde tinha ficado o comandante e o outro guarda.
 Passaram sobre um outeiro. Aqui e além, os «saguaros»(1) abriam os seus braços como enormes e grotescos seres humanos.
- Olha, Estorietas! – exclamou a rapariga. – As flores começam a abrir.
Assim era, com efeito. Como se obedecessem a uma misteriosa ordem, os «saguaros» abriam as suas lindas flores brancas. O silêncio do bosque parecia invadido por um crepitar ténue, produzido por milhares de flores que se abriam sem interrupção. Sob a difusa claridade da Lua, o bosque de «saguaros» parecia cobrir-se com rapidez de grandes e aromáticos flocos de neve. A brisa vinha impregnada de um perfume embriagador que, por vezes, se tornava mais denso e sufocante.
- Oh! Estorietas! – exclamou a rapariga – Que maravilhoso espetáculo.
Ele não respondeu. Os seus olhos luziam como duas brasas, perturbando a rapariga. Esta afastou os seus e deixou-os vaguear sobre o bosque que continuava a cobrir-se de um manto de lindas e níveas flores. O perfume era cada vez mais forte. Uma doce embriaguez invadia a rapariga, provocando-lhe um torpor voluptuoso.
- Ai, Estorietas! – disse ela, a rir. – Tenho a impressão de que me estou a embriagar. Não haverá perigo de morrermos asfixiados?
- Não. Já presenciei muitas vezes o florescimento dos «saguaros» e nunca ouvi dizer que alguém morresse asfixiado.
-Vou ver.
Ela avançou na direção das plantas, mas uma cova no caminho fez com que se estatelasse. Ele ajudou-a a levantar-se. As suas mãos fecharam-se sobre a graciosa cintura da rapariga e, através das roupas, o Estorietas percebeu um estremecimento nervoso do corpo da jovem.
E foi nesse momento crucial que o Estorietas viu os dois guardas sentados a serem ameaçados pela serpente a uma distância de uns vinte metros.
- Olha! Ali!
Ela olhou na direção apontada. Rapidamente puxou a saia, mostrando a sua perna bem torneada e retirou uma faca longa de uma funda que trazia colada à perna. Num instante apontou e atirou a faca. A cabeça da serpente foi pelos ares e puderam ver como os dois guardas respiravam aliviados…


(1)«saguaros» - O saguaro faz parte da família Cactaceae, sendo nativo da região do Deserto de Sonora, que abrange parte do México e Estados Unidos. Trata-se de um cacto colunar, com ramificações em forma de candelabro, espinhos curtos e grandes flores brancas e tubulares, com antese noturna. As flores abrem durante a noite produzindo um perfume inebriante. Foram trazidas para a região de Peras Ruivas pelo Estorietas depois de uma viagem virtual àquele deserto, mas a ação do homem fez que, pouco a pouco, fossem desaparecendo. Os campos de Peras Ruivas já não são inebriantes…

quarta-feira, março 11, 2020

O despiste

Os guardas partiram para Ourém fulos e o comandante ameaçava com os mais tenebrosos projetos de vingança.
- Esse cão vai para o canil municipal e todos os dias vou lá picá-lo com uma vara. Será torturado até à última. Vai arrepender-se de ter nascido.
Mas o azar dos GNR ainda não tinha acabado naquele dia. Ao passarem perto de um campo de «saguaros», junto à povoação de Peras Ruivas, o condutor sentiu que o carro lhe fugia ao mesmo tempo que ouvia o estoiro de um pneu. De um momento para o outro, o jeep enfeixou-se numa árvore, tendo-lhes valido o facto de não irem muito depressa. Mesmo assim, o comandante, que viajava ao lado do condutor, foi cuspido e as suas calças ficaram desfeitas.
Quando saíram do jeep, contemplaram os estragos.
- E agora? Que vamos fazer? – perguntava o guarda Lourenço.
- Temos de ir para Ourém a pé – respondeu o comandante sem se aperceber da figura ridícula em que estava.
- Nesta figura? – perguntou o guarda que tinha os fundilhos das calças rotos. – Não podemos aparecer assim em Ourém. Todos se ririam de nós.
O comandante olhou para o guarda Lourenço e para o outro que não tinha qualquer mazela.
- Vão vocês. Está a fazer-se noite. Por hoje esquecemos a miúda e o cão. Eu e o guarda Ernesto ficamos aqui, enquanto vocês chegam a Peras Ruivas a pé e pedem a alguém que os leve a Ourém. Mobilizam dois guardas para nos trazerem roupas e virem buscar.
Os dois soldados partiram, o comandante e o outro soldado dispuseram-se a esperar e sentaram-se no chão junto do carro à espera de ajuda. O tempo, que parecia infinito, foi passando. A noite caiu…

*

Junto a um cato, os dois guardas esperavam pacientemente que chegasse ajuda. Custava-lhes saber o modo como estavam vestidos, pois iam ser, com certeza, o objeto da risota dos seus camaradas. Porém, estava em causa o prestígio dos homens daquela corporação e dar uma lição à menina e ao cão era o objetivo mais importante. Desta maneira se esqueceria aquele incidente.
De repente, os dois guardas ouviram um assobio pouco familiar, acompanhado de um estranho rastejar. Assustados, olharam em volta, descobrindo uma enorme serpente cascavel que se aproximava. Os dois homens olharam-se receosos. Encontravam-se indefesos, sem armas, sentados no chão quase sem se mexerem. A serpente ia avançando, lentamente…. De repente, parou, ergueu-se e repetiu o assobio, pronta a atacar. A língua agitava-se ameaçadora.
Os dois homens continuavam imóveis. A serpente abanava a cabeça, contemplando-os e repetindo os seus ameaçadores assobios. Ia atacar. Os dois guardas morreriam ali, entre horríveis dores, sem que ninguém soubesse jamais o que fora feito deles.
De repente um silvo feriu os ares, ouviu-se um pequeno ruído e o réptil caiu, torcendo-se, com a cabeça cortada. À frente deles, apareceram o Estorietas e a sua amiga Mari’mília. Ela apressou-se a recolher a faca com que abatera a serpente. Terrível aquela mulher…
- Creio que chegámos a tempo.
O comandante e o guarda concordaram reconhecidos…


Mas o que se passara para estes nossos amigos se passearem por ali?

terça-feira, março 10, 2020

O cão que parecia um leão

A Gracelinda e o Pepe chegaram a casa já passava das cinco da tarde. Ela estava felícissima com o seu cãozinho por este a ter ajudado a libertar o João e a Teresinha.
- Hoje, vais ter ração melhorada, Pepinho. A ação que fizeste foi maravilhosa.
E o Pepe teve uma das melhores refeições da sua vida. Comeu e enfiou-se numa casota que tinha lá dentro um pequeno colchão para se deitar. Daí a pouco estava a dormir.
Por sua vez, a Gracelinda entrou em casa, foi guardar o traje de freira que tinha usado no posto da Guarda, os elementos de estudo que tinha levado para o CFL e foi ver a mãe.
- Então, minha filha, correu bem o teu dia de aulas?
- Sim, mãezinha. Até fomos assistir à saída da prisão da Teresinha e do João…
- Então, já libertaram esses miúdos… espero que eles não façam mais disparates. Olha, menina, vai lanchar, estive a fazer-te uma torta de chocolate.
- Que delícia, mãezinha.
E a Gracelinda foi para a sua salinha de refeições e iniciou o lanche. A sua face estava iluminada num sorriso devido à recordação da ação do Pepe.
«É incrível este cãozinho. Corre tanto que ninguém o vê. E como percebeu que aquelas eram as chaves das celas… Amanhã quero ouvir o que se vai dizer no CFL».
Comia vagarosamente, saboreando os alimentos ao mesmo tempo que se deixava levar pelos pensamentos.
«Se ele participasse numa corrida de cachorros, com certeza ganhava. Podemos vir a ser famosos».
De repente, os seus pensamentos foram interrompidos por uma travagem brusca e por passos rápidos no exterior. Levantou-se assustada e foi espreitar à janela…
E lançou uma exclamação de terror…
Lá fora, com cara de poucos amigos estava o comandante do posto acompanhado de três guardas. A mãe dela veio ver o que se passava.
- O que é isto, Gracelinda? O que faz aqui a GNR?
- Depois explico-lhe, mãe. Agora veja o que eles querem…
A senhora abriu a porta e a Gracelinda ouviu o comandante dizer:
- Minha senhora, vimos à procura da sua filha e do cão para os prender.
- Mas o que fez a minha pobrezinha?
- Ela e o cão ajudaram dois presos a evadir-se da prisão. É um crime muito grave.
- Não posso acreditar nisso. Gracelinda, diz-me que é mentira…
Mas a miúda já estava na rua perto da casota do cão.
- Os senhores não me levam daqui nem ao meu cão. Era injusto o que estavam a fazer ao João e à Teresinha.
Mas o comandante não lhe deu ouvidos.
- Guardas, prendam-na e enfiem-na no jeep. Depois, procuraremos o cão.
De um momento para o outro, a Gracelinda viu-se no jeep, enquanto a mãe contemplava tudo com terror. E foi nesse instante que a grande amizade do Pepe por ela se manifestou.
O cãozinho tinha acordado assustado, mas num instante apercebeu-se da situação. Saltou da casota e mordeu a mão do comandante, depois agarrou-se aos fundilhos das calças de um dos guardas e deixou-lhe o rabo à mostra. Não contente com isso, atirou-se ao outro, bastante barrigudo, e puxou-lhe as calças deixando-o numa figura ridícula em trajes menores. O Pepe mais parecia um leão e o soldado um vulgar vagabundo sem formação.
A Gracelinda estava entusiasmada.
- Força, Pepe, não tenhas pena deles…
O guarda que estava ileso apercebeu-se da situação e gritou:
- Vamos, voltemos ao posto para procurar reforços. Este cão é uma fera.
Saltaram todos para dentro do jeep. O comandante, de braço ao peito, proferia ameaças enquanto arrancavam:
- Hão de pagá-las…
E partiram em direção a Ourém.
A Gracelinda explicou rapidamente à mãe o que se tinha passado e este tomou uma decisão.
- Vamos chamar o teu pai. Tu e o cão não podem ficar nesta casa, senão esses guardas não vos deixam em paz.
Pouco depois, o senhor Marques chegou a casa no seu carro. A Gracelinda e o Pepe entraram no mesmo e, daí a pouco, partiam para casa duma sua tia numa terreola a uns dez quilómetros de distância.
A verdade é que os pais estavam preocupadíssimos. E, à noite, o senhor Marques comunicou a sua decisão à esposa.
- Este caso não tem solução se ela não sair daqui. Ela tem andado a dizer que queria voltar ao convento. É a hora. Vou tratar de tudo para a enviar para Abrantes e espero que, desta vez, se aguente por lá mais tempo.

segunda-feira, março 09, 2020

Um vulto estranho

Quando o graduado viu a Gracelinda passar à frente do posto com o Pepe, ficou intrigado.
«Dir-se-ia que já vi aquele vulto em qualquer sítio».
De repente, percebeu. Levantou-se de um salto e exclamou:
- Guarda Lourenço, prepare o jeep. Temos de ir fazer nova detenção.
O guarda apareceu um pouco estremunhado. Notava-se que tinha estado a dormitar.
- Que se passa, meu comandante?
- Fomos enganados pela Gracelinda, a filha do sr. Marques. Ensinou o cão para nos roubar as chaves das diversas celas. Não podemos permitir que ande por aí impunemente. Vamos partir imediatamente para casa dela para os deter. Já viu a insegurança em que ficamos relativamente aos outros presos.
- É incrível. Esta juventude está perdida. Vou já tratar de mobilizar mais dois soldados. Nunca sabemos do que é capaz um cão ensinado.
Rapidamente, foram chamados mais dois guardas e, dez minutos depois, saltaram para dentro do jeep e puseram-se a caminho.


E agora?
O que vai acontecer à Gracelinda e ao Pepe?
A situação é muito grave pois o comandante pensa que o Pepe está treinado para cometer outras partidas na prisão.
Como podemos salvar os nossos amigos?
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