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sexta-feira, julho 01, 2005

Alvorada no campo

No remoto casal, do cimo da colina
O galo solta a voz vibrante e cristalina.

A calhandra a cantar, da abóbada isolada
Anuncia também a próxima alvorada.

Vivo, mas criador, o límpido nordeste,
Meneia a ramaria ao pinheiral agreste.

Na aldeia, aqui e além, metem o pão tendido –
Remédio da semana – aos fornos em brasido.

Aguilhada na mão, o tardo lavrador
Leva pela azinhaga o carro gemedor.

As ovelhas do bardo, e as cabras do curral
Rompem a tilintar coleando pelo val.

Ao monte, enxada ao ombro, o cavador fragueiro,
A cachopa a bater as pedras do ribeiro,

E o destro naioral, co’a boiada bravia
Lá vão a labutar por todo o santo dia

Inda estrelas no céu. Lá vão. Clareia agora:
As sombras a tremer refogem com a aurora

Bulhão Pato
Epigrama

Um rico velho avarento,
Jé bem perto de expirar,
Para fazer testamento,
Manda o tabelião chamar.

Com timbre de voz roufenho
Diz o velho a suspirar:
- “Deixo tudo quanto tenho...”
E não podia acabar.

O tabelião, cansado
Do seu tempo em vão gastar,
- “Tenho escrito”, diz zangado,
“O resto? – queira ditar.”

- “Deixo tudo quanto tenho...”
O velho torna a chorar.
Pára um pouco e diz roufenho:
- “Porque o não posso levar.”

F. Xavier de Novais
A raposa e as uvas

Contam que certa raposa
Andando muito esfaimada,
Viu roxos maduros cachos
Pendentes de alta latada.

De bom grado os trincaria,
Mas, sem lhes poder chegar,
Disse: estão verdes, não prestam,
Só cães os podem tragar.

Eis cai uma parra, quando
Prosseguia o seu caminho;
E, crendo que era algum bago,
Volta depressa o focinho

Bocage
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