quinta-feira, abril 02, 2020

Uma época gloriosa da Joalharia Portuguesa

O século XVIII foi uma época gloriosa para a Joalharia Portuguesa devido à descoberta de ouro e posteriormente, de diamantes no Brasil que veio marcar todas as nossas artes com relevo para a Joalharia.
As tendências dominantes dos séculos anteriores traduziam-se no sentimento religioso, na utilização de esmaltes e coloridas enquanto, que este novo período, deu lugar a joias mais uniformes na sua decoração e design, realçando o brilho e a cor de uma única gema.
Nesta época gloriosa, emergiu a chamada "joia-espetáculo", que fazia transparecer publicamente a posse de riqueza e de poder ou crença religiosa.
Em Portugal, pode-se comprovar tal facto pela profusa exibição de Insígnias das Ordens Militares pelos seus membros.
Alguns grandes senhores possuíam riquíssimas obras de joalharia em diamantes e rubis (Insígnias das ordens de Cristo ou de Santiago) e esmeraldas (Insígnias da ordem de Avis).
Até à data, a lapidação mais apreciada era em "rosa" que constava de várias facetas na superfície visível superior da gema.
Na lapidação em "brilhante" desenvolvida e aperfeiçoada em Veneza, no início do século XVIII, as facetas são dispostas de modo geométrico, de maneira a que a luz aumente o brilho, a cor e o fogo do diamante.
Nesta época, a grande tendência barroca motivou o desenvolvimento da nova lapidação e era considerado mais hábil o ourives que tivesse a capacidade de tornar os suportes para as gemas.
Técnica facilitada com o aparecimento dos diamantes do Brasil, mais fundos que os provenientes da Índia, logo mais adaptáveis às exigências do novo talhe.
A prata era o metal de eleição para estas montagens, já que quando bem polida confundia-se com o brilho dos diamantes.
Foi a partir da segunda metade do século XVIII, que os diamantes brilhantes começaram a ser apreciados, simultaneamente, com o auge das encomendas aos joalheiros e ourives de Paris pela Casa Real Portuguesa.
Na grandiosa "Custódia de Ouro do Cabido da Sé de Lisboa" realizada entre 1755 e 1760, encontramos, entre outras gemas, grandes diamantes lapidados em rosa, facto que permite duvidar de uma utilização significativa, na joalharia nacional, de diamantes lapidados em brilhante anteriores a esta década.
Não são apenas os diamantes e as gemas “tradicionais" como as esmeraldas, rubis, pérolas e as safiras, as pedras utilizadas na Joalharia Portuguesa setecentista. As gemas de baixo valor aquisitivo também foram utilizadas em grande quantidade de joias de modo a ilustrar e preenchê-las de valor decorativo.
Na Joalharia Portuguesa eram utilizados como substitutos de diamantes os topázios, as crisólitas, os citrinos e cristais-de-rocha lapidado em brilhante e forrado de folhas prateados que atualmente, se designa, de modo geral, como "minas- novas".
Pedrarias estas que se encontravam com facilidade no Brasil, sendo o cristal de rocha (quartzo incolor cristalizado) também comum no nosso país.
Os ourives e joalheiros do século XVIII inspiravam-se na fonte naturalista, tal acontecia tanto em Portugal como na Europa.
As joias mais produzidas nesta época eram em forma de flores, estilizadas ou retratadas identicamente conforme os originais que refletiam os jardins barrocos transformando as joias em pequenos e preciosos jardins.
As populares laças em ouro não deixaram de ser influenciadas por este longo naturalismo que chegou aos alvores do século XX.
Durante este período objetos como brincos, alfinetes, anéis), braceletes, vários adornos para os cabelos atingiram um elevado grau de esplendor e apenas no final do século surgiu a tiara.
O último período de esplendor da joalharia ocidental ficou denominado pela elegância das joias dos homens, nomeadamente, alfinetes de chapéus, relógios com correntes, fivelas para mantos e sapatos, botões e insígnias.
Pode dizer-se que este foi o último período de esplendor da joalharia masculina no ocidente.
Na segunda metade do século, destacava-se o laço com pendente, em ouro ou prata encrustado com que podia ser utilizado em roupas, brincos ou pendente no centro do colar.
A ourivesaria portuguesa foi durante o período barroco até movimentos do século XIX influenciado pela produção de ouro do Brasil.
Hoje, são poucas as joias da Família Real ou de alta aristocracia que sobreviveram a esta época, salvo as representadas em pinturas e desenhos, ou registadas em documentação. Contudo, o conjunto do Palácio da Ajuda conhecido por "Joias da Coroa", reunido já durante o Estado Novo, possui algumas peças dos finais do século XVIII, algumas extraordinariamente importantes.
É o caso da grande laça para peitilho para esmeraldas e diamantes lapidados em brilhante, obra executada na transcrição dos reinados de D. José para D. Maria I.
Porém, novas modas e dificuldades económicas obrigaram a transformações das joias ou à sua destruição. Em 1845 ainda se conservava na Casa da Moeda de Lisboa, proveniente da antiga Igreja Patriarcal, o Ceptro em ouro de D. João I que, entre tantas outras preciosidades, acabou por ser fundido para enriquecer os cofres do Estado.
Nos cadinhos da Casa da Moeda) foi igualmente destruído o valioso tesouro das joias da imagem da Nossa Senhora do Carmo, entre as quais duas coroas em ouro e com grandes pedrarias oferecidas por D. João V.
Um dos testemunhos mais vibrantes da joalharia da Corte nos meados do século é uma obra sacra, a chamada "Custódia da Bemposta". Esta custódia, que se encontra no Museu Nacional de Arte Antiga, foi realizada na década de 60, provavelmente segundo um desenho do arquiteto/ourives de D. João I, João Frederico Ludovice.
A sua decoração, com aplicação de inúmeras pedras preciosas, baseou-se na grande joalharia da Corte. Deste modo, encontramos grinaldas em pedras de cor; laços em diamantes e rubis; ou pequenas flores em pedraria recordando o trabalho de caixas de rapé em ouro, tão apreciadas na época.
No decorrer dos setecentos, evidenciou-se a oficina dos Pollet, joalheiros de origem polaca que serviram sobretudo D. Maria I. Adão Gotlieb Pollet, "cravador da Corte", desde 1779, foi o autor de algumas das magníficas obras que esta rainha possuiu.
De sua autoria apenas se conhece hoje um belíssimo alfinete com uma safira de 100 quilates, rodeada de diamantes brilhantes, guardada no Palácio Nacional da Ajuda. O seu filho David Ambrosio Pollet conservou a régia clientela de seu pai após a sua morte. Uma das suas encomendas foi a das joias oferecidas por ocasião do casamento dos Príncipes D. João e D. Carlota Joaquina.
No Palácio Nacional da Ajuda conservam-se algumas joias de grande valor executadas por este ourives. Destas destacam- se a " Placa Insígnia das Três Ordens" e o grande "Tosão de Ouro", todas executadas em 1789. Este último, uma das insígnias mais grandiosas em toda a Europa, já anuncia o neoclassicismo.
É curioso salientar que foram as joias de carácter mais popular que sobreviveram ao século dos "diamantes", obras executadas para a pequena e média fidalguia, ou para abastados burgueses.
As joias mais difundidas na segunda metade do século são, sem dúvida, as "laças", apresentando-se como o próprio nome indica, com a forma de um laço a que se acrescentou um pendente.
 As "laças", em prata ou ouro, enriquecidas em alguns casos por pequenos diamantes, tanto podem ser alfinetes, como brincos ou como pendentes no centro de um colar.
O laço como desenho da joia é tipicamente europeu para todo o século XVIII, se bem que em Portugal tenha um tratamento próprio, facilmente distinguível.
Este motivo serviu simultaneamente na produção de joias em "minas novas", o mais famoso substituto entre nós, ou em outras pedras de cor.
Um outro tipo de pendente, que se designa tradicionalmente de "Sequilé", apresenta uma forma de losango ao alto dividido em duas secções. O "Sequilé", se bem que a origem do seu nome seja francesa, sugere uma forte inspiração da joalharia popular espanhola na sua conceção.
As filigranas, produzidas na região de Gondomar e em pequenas oficinas familiares de trabalhadores rurais simultaneamente ourives, são muito apreciadas. As formas obtidas pela junção de estreitos fios de ouro são esplêndidas manifestações do barroco popular.
Mesmo não se conhecendo exemplares de grandes joias  do mundo barroco e rococó em Portugal, com exceção do núcleo da Ajuda, a profusa produção de joias com ou sem "minas-novas" ou pedras de cor, revela-nos um mundo tão espetacular e exibicionista que, estimulado pela imaginação, tanto tem a ver com o modo de ser português.
Conforme mencionado, objetos de adorno e de culto religioso em ouro e pedras preciosas tiveram grande destaque a partir do século XVIII, objetos sagrados tais como âmbulas, anéis, episcopais, cálices, chaves de sacrário, cruzes peitorais e ostensórios são objetos simbólicos pertencentes às classes de distinção, hierarquia e clero.







Nota: este texto foi adaptado a partir de um texto da New Greenfil com o título «Joalharia portuguesa do século XVIII».


quarta-feira, abril 01, 2020

Uma exposição destinada ao sucesso

No dia marcado para o início da exposição, o Café Avenida apareceu bastante modificado. A zona de refeições era ocupada por um conjunto de escaparates vidrados no interior dos quais era possível observar as diferentes peças artísticas. Algo de fabuloso: coroas das nossas rainhas, sabres de ouro, jóias de toda a forma e espécie. Mesmo à frente e para o lado direito, um pequeno balcão onde o senhor Borda d’Águas apresentava algum material destinado a ser vendido.  A zona de refeições tinha transitado para a zona perto da porta rotativa e as outras mesas estavam disponíveis para os clientes da bica e outras bebidas.
Pelas onze horas, o café estava totalmente cheio e o Dr. Armando iniciou a primeira conferência, fazendo uma completa descrição das jóias expostas e contando alguns factos históricos associados às mesmas. No final, foi vibrantemente aplaudido e as pessoas puderam circular por entre os escaparates. Todos ficaram encantados.
O João murmurava:
- Que maravilha! Como é possível todas estas coisas estarem escondidas.
A seu lado, o Estorietas desvalorizava:
- Coroas para rainhas inúteis e opressoras. Jóias para as damas aristocratas chocalharem…
E o Kansas:
- … com um bocado de pólvora limpava isto tudo.
Entretanto o senhor Borda d’Água ia fazendo negócio no seu pequeno balcão. Se algum potencial cliente procurava algo que no momento não tivesse, indicava-lhe a sua loja de ourives como ponto obrigatório de visita.
«Isto parece correr bem. A Leninha tem grandes ideias, podia dedicar-se à ourivesaria em vez de se dedicar a empresas imobiliárias. Que desperdício…».
E os dias foram passando tudo indicando que a exposição era um sucesso inigualável em termos culturais e em termos financeiros.


Mas nem todos estavam contentes com o sucesso da exposição. Amanhã não deixe de ler a notável descrição de joalharia efetuada pelo Dr. Armando. Mas, por trás desta gente ingénua, alguém se movimentava para criar problemas. Quem seria? Não deixe de ler os próximos capítulos...

terça-feira, março 31, 2020

Fora com os parasitas

Daí a alguns dias, alguns jornais davam a notícia:


GRANDE EXPOSIÇÃO DAS JOIAS DA REALEZA
Em Vila Nova de Ourém vai ter lugar uma grande exposição de joias levada a cabo pelo seu fiel depositário, o ourives senhor Borda d’Água. O evento terá lugar no espaço de restaurante do Café Avenida e contará com a participação do diretor do Colégio Fernão Lopes como conferencista.


Mas não eram só notícias que os jornais traziam. Alguns lançavam uma farpa: «O leitor acha bem que as joias, que são um património coletivo, sejam expostas num café por mais prestigiado que este seja?».
Na vila, o assunto foi muito comentado. Em simultâneo, o espaço começou a ser preparado e os primeiros a sentirem as consequências foram os habituais jogadores de cartas.
Um dia, o Ezequiel chegou junto do Estorietas, do João, do Kansas e do Jó e afirmou:
- Meus amigos, têm de procurar outro espaço para os vossos jogos. Vamos ter uma exposição no café e estas mesas vão ficar reservadas para o serviço de refeições.
- Vou já pedir o livro de reclamações – refilou o João.
- Não faça isso – respondeu o Ezequiel. – Olhe que o menino não tem idade para jogar às cartas no café. Temos sido muito condescendentes…
E tiveram de aceitar a imposição. Pouco a pouco, os habituais clientes foram-se habituando à ideia de que algo de diferente se iria passar ali.

Mas alguém não tinha gostado da ideia de ser corrido das mesas de jogo do café. Quem? O terrível João Passarinho que imediatamente começou a forjar um plano para estragar o negócio àquelas almas tão ingénuas.

segunda-feira, março 30, 2020

Uma exposição original

Em casa da Leninha, o ambiente era um bocado pesado. O senhor Borda d’Água manifestava algumas preocupações sobre o andamento do negócio de ourives.
- Isto está a ficar muito mau. Pouco se vende… qualquer dia, nem dinheiro tenho para pagar a mensalidade do colégio. Tenho falado com todos os comerciantes da nossa rua, o senhor Godinho da tipografia, o senhor Paisana e as vendas deles são mais ou menos normais. Não percebo o que se passa.
A miúda ficou extremamente preocupada. Como podia deixar aquele espaço? Abandonar os seus amigos que conhecia há tantos anos?
- Paizinho, tens de fazer alguma coisa. E pode ser que seja uma conjuntura pouco propícia para o teu negócio.
- Aquilo precisa de uma dinamização qualquer. Mas não sei o quê…
O senhor Borda d’Água era depositário de alguns objetos importantes da nossa realeza e a Leninha logo pensou em tirar algum partido da situação.
- Por que não fazes uma exposição das jóias? Talvez isso atraísse novos compradores.
- Já me lembrei disso. Mas onde fazer a exposição? Há dias falei com o Bragança e ele afastou a ideia de a fazer nalgum espaço da vila medieval, dizendo que era pouco seguro.
- E já falaste com o Dr. Armando? Poderias dar à exposição um cunho cultural, histórico… Ele próprio podia fazer alguma intervenção ao vivo. É tão cativante quando fala em História.
- Boa ideia. Amanhã, vou já tratar disso.
No dia seguinte, no CFL, a Leninha viu o seu pai a entrar no gabinete do Diretor. Estiveram a conversar pouco mais de uma hora e, nessa altura, saíram e entraram no carro do Dr. Armando tendo-se dirigido para o centro da vila.
Que se passaria? Se o professor se tivesse recusado, com certeza não sairiam dali os dois juntos. A curiosidade fez com que não desse mais atenção às aulas do dia, ela só pensava naquilo que propusera ao pai.
À noite, o pai deu-lhe a novidade.
- Olha, a exposição vai realizar-se dentro de quinze dias no restaurante do Café Avenida. O café não terá grandes prejuízos pois é muito limitado o número de almoços que serve e pode mobilizar a zona dos jogadores de king para servir algumas refeições. É sem dúvida o local mais nobre para receber as jóias da coroa, uma verdadeira Vila Galé da nossa terra. Durará duas semanas e o Dr. Armando dará duas conferências. Vamos já tratar de publicitar o evento.

sexta-feira, março 27, 2020

O fim de um sonho

Quando acordou, viu que estava sentada numa cadeira e que alguém fazia movimentos com um abano para a refrescar.
- Sente-se melhor? – perguntou um dos coordenadores.
- Eu estou bem, não percebo o que se passou.
- Já expulsámos os outros dois atores. Decididamente, não serviam ou eram realistas demais. Lamento, mas vamos ter de ir embora e prescindir dos seus serviços. Aproveitaremos, no entanto, as suas fotografias e pagaremos o seu esforço.
- Mas que se passou. Por que chegaram eles àquele ponto?
- Vou-lhe mostrar o argumento para a cena que eles estavam a protagonizar – e entregou-lhe uma pequena folha retirada de uma revista de banda desenhada. – Trata-se de uma passagem do álbum «Arizona Love» da autoria de Giraud. Nós sentíamos que podíamos recriá-la aqui, mas a infantilidade dos outros dois atores estragou tudo. Agora vamos para outra terra testar outros candidatos.
- E eu não sirvo?
- Pretendemos centralizar numa localidade todas as cenas. Para isso, criámos todos estes cenários em que foi fotografada e em que decorreram estes trabalhos. Receio que, noutro local, não lhe dê muito jeito.
- Mas eu posso ir de camioneta…
- Nem pense. Ainda anda a estudar, não pode faltar às aulas…
Nesse momento, ouviu-se uma travagem brusca junto à banda. De dentro de um Peugeot 304 saiu a figura enorme do Dr. Armando. Mas não só…
Pela outra porta, saiu o sr. Bragança, muito direito, com ar de poucos amigos.
- Explica-me lá minha filha, porque faltaste às aulas estas duas tardes…
E assim se frustraram os sonhos da Cietezinha de vir a ser uma grande actriz de fotonovelas.



FIM 

(por enquanto...)

quinta-feira, março 26, 2020

Um argumento perigoso

A Cietezinha passou com sucesso por todas as provas. Ela pôs a mesa na senhorial casa com toda a classe. Limpou o quarto do Estorietas, fez a caminha, sempre com o homem da máquina fotográfica a registar a sua ação. Faltava uma prova para a decisão final…
- Estamos muito contentes consigo – disse um dos coordenadores. – Vamos fazer uma última prova para determinar se usamos as suas fotos e avançamos para um projeto mais elaborado. É importante que comece a manifestar os sinais de uma paixão avassaladora para com o galã e hoje vai ser submetida a uma prova crucial: vai encontrá-lo numa gruta com outra mulher. O argumento é o seguinte: é preciso levar alimentos ao nosso herói que está refugiado numa gruta, pois é perseguido pelos homens de uma comunidade minoritária. Uma mulher dessa comunidade apaixonou-se loucamente por ele. Tem ali uma cesta com os alimentos, pegue nela e caminhe lentamente para a gruta, espreite lá para dentro para ver se pode entrar e, em caso afirmativo, entregue os alimentos ao herói. Sorria, transmita calor ao encontro e, à saída, mantenha a sua mão entre as dele mais do que o normal.
Ela começou a não gostar muito da conversa já que não estava preparada para um encontro romântico, mas pegou na cesta e aproximou-se da gruta enquanto o fotógrafo ia registando os seus passos.
Olhou para o interior da gruta e, de repente, soltou um grito, levou a mão ao peito e caiu redonda no chão.
Que se passaria?
Um dos coordenadores olhou para o interior da gruta e começou a gritar como um louco:
- Parem, parem, dominem-se, não é local para essas coisas…
Efetivamente, no interior da gruta, o Estorietas e a Deolinda consumavam um amor frenético. O ambiente era avassalador. A jovem não tinha resistido a uma paixão louca suscitada pela proximidade de um beijo técnico e todo o ambiente do salão da banda parecia anunciar que algo ia acontecer.
E, de repente, a gruta explodiu.

quarta-feira, março 25, 2020

Uma prova bem sucedida

Na tarde do dia seguinte, à hora marcada, a Cietezinha estava no salão da banda. Viu sair um trio mais ou menos entusiasmado e que, na entrada, estavam o Estorietas e a Deolinda, uma rapariga loira, escultural que vivia em Caxarias. Pouco depois, este estranho grupo era mandado entrar.
O salão da banda estava dividido em vários módulos: à esquerda encontrava-se uma construção em cartão que fazia lembrar um curral de porcos; atrás do mesmo lado, uma espécie de gruta bastante iluminada no interior; mais para a direita e atrás deles, um quarto mobilado também com uma parede de cartão a separá-lo do restante; à frente, à direita uma mesa de refeições com pesadas cadeiras e servida por uma cristaleira bem preenchida.
- Nós estivemos a analisar o vosso perfil e pensamos que poderão participar na nossa fotonovela. Agora precisamos de os ver em ação. A menina Ciete poderá ter um excelente papel como serviçal, a Deolinda pode ser a rapariga meio selvagem que persegue o herói e, claro, este poderá ser o nosso amigo Estorietas. Temos connosco o nosso fotógrafo exclusivo que vos vai acompanhar em algumas ações de treino. Menina Ciete, pegue nesse balde de água que já tem detergente e na esfregona e vá limpar o curral dos porcos.
A Cietezinha engoliu em seco. Nunca esperaria um papel daqueles, mas, uma vez que estava empenhada em conquistar o lugar, obedeceu e iniciou o cumprimento da missão que lhe cabia. Enquanto o fazia, sentia o fotógrafo a seguir todos os seus movimentos e a fazer fotografias. Devia ser um artista tal a rapidez com que cumpria a sua missão.
«Que horror! – pensava ela. – Quando os meus amigos e amigas me virem na Crónica. Eu, uma miúda tão giraça, a limpar um curral de porcos…».
Viu que o curral nem estava muito sujo. Lá dentro, protegido por uma plataforma de papel, estava um porquito que olhava para ela cheio de medo.
«Coitadinho! É tão bonito! Só me apetece dar-lhe beijinhos».
E que cena comovedora se deu então. A Ciete pegou no porquinho ao colo e este encostou a carinha à dela, parecendo dar-lhe um beijinho. O fotógrafo tudo registou.
Ela em breve se arrependeu do acto. Mas, ainda não tinha posto o porquito no chão, já se ouviam os aplausos dos jurados.
- Bravo! Bravo! Que cena comovedora! Nunca nada de tão belo se passou nas nossas fotonovelas. Está contratada…

terça-feira, março 24, 2020

Um papel estranho

Os dias foram passando até que, numa manhã soalheira, uma carta chegou, uma carta dirigida à Cietezinha com o logo da APR.
«A Crónica Feminina agradece a sua disponibilidade para a participação nas suas fotonovelas e solicita que se apresente no salão da banda em Vila Nova de Ourém na tarde da próxima quarta-feira pelas 14 horas».
O coração da Ciete ficou em alta aceleração e engendrou logo um plano para faltar às aulas e comparecer à entrevista.
Chegada à banda, estranhou ver uma fila enorme de rapazes e raparigas de Ourém todos aparentemente com a mesma finalidade. E aquilo que lhe parecera uma tarde de gozo converteu-se numa monumental seca. Havia uns dez à sua frente e notou que cada um demorava pelo menos uns vinte minutos na entrevista. Alguns saiam com um papel nas mãos e entretinham-se a lê-lo enquanto se afastavam.
A certa altura viu passar o seu colega Estorietas também com uns papéis na mão e resolveu perguntar-lhe o que estava ali a fazer.
- Olha, vim a um casting para uma fotonovela de aventuras. O anúncio apareceu no Mundo de Aventuras. Agora, levo aqui um argumento para ler e tentar deixar-me fotografar de acordo com ele. Volto cá amanhã. É giro que também entra aqui uma menina para contracenar comigo…
Contracenar com o Estorietas…
A ideia até não lhe desagradava de todo, mas sempre podiam escolher um galã mais jeitoso. Aquele era muito sisudo, tristonho e olhava-a de um modo estranho.
Daí a pouco viu sair a Mari’mília e ficou intrigada.
- Então também vieste a este casting?
- É verdade, respondi a um anúncio da Crónica. Sempre podia ganhar uns dinheiritos.
- E qual vai ser o teu papel?
Ela sorriu tristemente e deixou que uma lágrima furtiva lhe aparecesse nos olhos.
- Nenhum. Fui excluída. Queria ser a noiva do galã, interagir com o Estorietas ou outro dos rapazes, mas não gostaram de mim…
E foi-se. Cada vez mais curiosa, esperou a sua vez e, algum tempo depois, estava em frente de três jurados que lhe entregaram um papel para as mãos.
- Pegue nesse balde e nessa esfregona e caminhe até àquela janela…
Ela obedeceu.
- Agora, olhe para o exterior e ponha um ar sonhador, um ar romântico.
A Cietezinha pôs o melhor ar que podia pôr de acordo com as instruções e as pessoas pareceram ficar satisfeitas. Pediram-lhe os elementos de identificação e que regressasse na tarde do dia seguinte pelas 15 horas.
- Agradecemos que leia este argumento. É o caso de uma menina que é serviçal na casa de um casal brasonado e o tratamento a que é sujeita não é o melhor. Eles têm um filho simpático, e ela vive na eterna nostalgia de conseguir chegar ao maravilhoso mundo dos ricos. Começa a olhar para o rapaz como uma possibilidade de abandonar o seu mundo de trabalho, mas ele mete-se numa aventura terrível e tem de refugiar-se numa gruta para escapar à perseguição de uma rapariga meio selvagem. Os pais usam essa menina, a serviçal, para lhe fazer chegar mantimentos e os breves contactos de um momento para o outro transformam-se numa grande paixão.
- Mas… mas… o que é que eu tenho de fazer?
- Ainda não sabemos, estamos a avaliar o perfil das candidatas. Segundo nos disse, vive num palácio na vila medieval, por isso, tem experiência destes ambientes mais sofisticados…
Ela não estava muito convencida. Que papel tão estranho o que lhe poderia caber… rapariga semi-selvagem, serviçal e qualquer delas a perseguir a personagem masculina. E se esta fosse o Estorietas? Que horror… tirar fotografias ao lado daquele gato esfolado que parecia estar sempre com fome.
E a verdade é que, nessa noite, permaneceu acordada pelo menos até às duas da manhã.

segunda-feira, março 23, 2020

O nascimento de uma futura artista


Naquele dia, a Cietezinha estava muito triste no quintal da sua casa na vila medieval de Ourém. Sentou-se num banco com um ar sonhador…
«Oh! Quem me dera um cavaleiro andante para me levar com ele e distrair a minha alma! Nesta terra não acontece nada de interessante.»
Pegou num pequeno livro de poesia e sentiu o seu coração pulsar ao ler:


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

«Oh! Como tudo isto é triste nesta Ourém tão isolada. Preciso de algo que me devolva a vida».
Procurava alguma coisa que fazer uma vez que já tinha estudado toda a matéria das aulas. Em cima de uma mesa, viu uma pequena revista.
«Olha! A Crónica Feminina… tão giro…».
Voltou ao banco do quintal e pôs-se a folhear a pequena revista.
«Que conselhos tão úteis! Ainda vou aprender a fazer bolos à conta desta revistinha…».
Mais à frente, viu a fotonovela da revista.
«Que maravilha! Como eu gostava de participar numa fotonovela!... Deve ser tão fácil e interessante. Pomo-nos na posição, eles tiram a fotografia e passa-se à próxima cena. Quem diria que daqui a uns sessenta anos há as telenovelas horrorosas em que têm de filmar tudo».
Foi ter com a Ceuzinha.
- Sabes o que me lembrei que nós podíamos fazer? Uma fotonovela…
A Ceuzinha ficou admiradíssima.
- Repete lá que não percebi…
- Podemos fazer uma fotonovela. Arranjamos um argumento e um ou dois daqueles rapazes estúpidos de Ourém, contratamos o fotógrafo e depois é só juntar uma legenda. Publicamos e pomos à venda no Central…
- Minha irmãzinha está louca. Passou-te alguma coisa pela cabeça à hora de almoço?
- Não. Estive a ler a Crónica Feminina que traz uma fotonovela muito gira. Nós podemos fazer melhor…
- Mostra cá…
A Céuzinha pôs-se a consultar a Crónica Feminina e, no final, afirmou:
- Na realidade, é uma ideia interessante. E já pensaste no argumento, no elenco…?
- Contratamos o Estorietas para o argumento…
- Huuummmm…. Não serve. É demasiado meloso…
- Então, quem? O João?....
- Esse não larga o cão. Estragava as fotos todas…
A Ceuzinha continuou a folhear a Crónica e, de repente, pareceu ter uma ideia fantástica.
- Olha aqui. Este anúncio…
«Procuram-se artistas para as fotonovelas da Crónica Feminina
Se gostas das nossas fotonovelas e queres participar em alguma, envia-nos uma foto tua para a redação desta revista. Não precisas de sair da tua terra, a nossa equipa procurar-te-á e escolherá os cenários mais idílicos».
A Ciete ficou extasiada.
- Ena! Posso vir a ser uma grande artista… e nem é preciso sair da terra.
- Antes isso que andar a dar aulas de Matemática a burros…
- Mas eu estou ansiosa por viajar. Apesar de tudo, vou já inscrever-me.
E, no dia seguinte, o seu primeiro passo foi ir aos correios da vila para enviar uma carta de candidatura a artista de fotonovelas da Crónica Feminina…

sexta-feira, março 20, 2020

Alma de abutre

Os meses foram passando.
O CFL parecia ter recuperado a estabilidade. Os professores andavam satisfeitos com os seus salários pagos a tempo e horas. O Diretor já pensava em alargar o espaço de ensino, em novos investimentos.
Um dia, num recreio, o Estorietas viu chegar um miúdo com um aspeto andrajoso:
- Olha, Amândio, olha o aspeto do Zé da Mula…
- Que esquisito! Que se passará?
Efetivamente, o rapaz nem os sapatos trazia calçados. Ostentava um ar de extrema pobreza.
Chegaram ao pé dele e perguntaram-lhe:
- Mas que se passa para estares assim?
- Que se passa? – respondeu o miúdo com outra pergunta – Essa malvada Floribela ficou-nos com tudo. O meu pai esqueceu-se de pagar uma mensalidade e ela nem nos deu tempo. Ficou-nos com uma fazenda, o automóvel e até me roubou o diabo das botas que eram novas e tinham sido feitas pelo sapateiro Mário, ali ao pé do Sabino… Não pudemos fazer nada. Chegou lá com um agente de execução e dois GNR e levou tudo.
Ficaram impressionados com aquela descrição.
- Eu bem dizia que, por baixo daquela carinha bonita, se escondia uma alma de abutre.
- Esta gente do Capital não tem dó nem piedade. E nós estamos entalados com ela mais uns dez anos…
- Miséria de sociedade esta! Aproveitam a desgraça de uma pessoa para a afundar ainda mais…

quinta-feira, março 19, 2020

Uma azinheira viabilizadora

Passou cerca de um mês até o telefone do CFL retinir e, após atender, o diretor ouviu do outro lado a maravilhosa voz de Floribela da Azinheira.
- Doutor, julgo que tenho uma boa proposta para o CFL. Quando podemos reunir?
Alguns dias depois, a beldade entrava no CFL para efetuar a reunião com o diretor. Mais uma vez foi vista pelo Estorietas:
- Olha . - dizia ele para o Amândio – está ali a abutrinha qu
e foi lá a casa.
- É curioso. Também esteve na Urqueira há uns dias. E dizias tu que vinha substituir a Boazinha
- Encantou-me o aspeto dela. Nem sempre aparecem por aqui joiazinhas tão lindas. Mas esta é uma fera.
Entretanto, no gabinete do Diretor do CFL, a financeira dava conta da solução preconizada.
- Consegui chegar a acordo com 90% dos devedores. Resta, portanto, uma margem que fica à sua responsabilidade: ou desiste deles ou processa-os.
- Eu penso que vou corrê-los do Colégio. No fundo estão a demonstrar que não querem nenhuma solução. Portanto, quais serão os nossos valores?
- Tem aqui a lista dos devedores que aceitaram integrar-se no plano de pagamento. A sua dívida assume o montante de 243 mil escudos e podemos comprar-lha por 145800$. Relativamente a estes, responsabilizamo-nos pelo pagamento das suas mensalidades neste e no próximo ano.
O diretor esfregou as mãos.
- Doutora, não me tinha apercebido desse aspeto do nosso contrato.
- Não pude falar nele enquanto não tive o acordo dos devedores.
- Desse modo, tenho praticamente garantida 92% da receita se considerar os próximos dois anos, embora este ano só consiga 77%. Doutora, a sua vinda a este colégio é quase uma aparição de Nossa Senhora de Fátima.
- Ah! Ah! Por alguma razão me chamam Floribela da Azinheira…



Afinal, parece que a ação da bonita financeira foi extremamente positiva para o CFL e seus alunos. O colégio recuperou a sua viabilidade e muitos alunos conseguiram uma mensalidade mais barata embora num compromisso temporal mais longo.
Mas seria a Floribela assim tão boazinha?
Terão todos melhorado de vida com a sua ação?

quarta-feira, março 18, 2020

A corda no pescoço do devedor

Em casa do Estorietas, reinava uma certa agitação. Tinha chegado uma carta do CFL a anunciar a visita da representante de uma empresa financeira com o objetivo de regularizar as mensalidades em dívida.
O pai do Estorietas já tinha feito todas as ameaças possíveis:
- Vou buscar a minha espingarda e corro logo com esses abutres.
- Pai, tenha calma – dizia o irmão do Estorietas – A carta afirma que procuram uma solução. Vai ver que tudo se resolve.
- Resolve, resolve… ele vai trabalhar para a oficina e deixa de andar em colégios de mariquinhas.
E ali estiveram a fumar esperando a visita da enviada da empresa. Pouco depois, bateram à porta e a jovem financeira entrou e sentou-se no lugar destinado.
- Senhor Vieira, estão em causa 3000$00 que o ano passado devia ter pago ao CFL e o senhor não o fez.
- Como queria que o fizesse? Os meus clientes também não me pagam…
Ela sorriu.
- Isto parece uma economia em que ninguém paga a ninguém.
- Devem-me dezenas de contos de arranjos em automóveis. Tenho de pagar o material e, no final, não consigo cobrar. Como quer que pague uma mensalidade tão alta?
- Acha alta a mensalidade do colégio?
- Muito. Em dois anos quase passaram para o dobro. Antes aguentava e agora não…
- Quer dizer que, se passasse para uma mensalidade que fosse metade da anterior, o senhor teria capacidade de pagamento?
- Sem dúvida. Metade já conseguiria pagar.
-Tenho uma proposta para si.
O senhor Vieira abriu os olhos cheios de esperança. No fundo, não queria que o filho deixasse de estudar e uma mensalidade mais suave tornaria tudo mais viável.
- Sim. Tenho uma proposta – repetiu ela. – Eu proponho-lhe uma mensalidade de 125$00 para um período de dez anos acrescida de 1500$00 para satisfazer a dívida atual e, em contrapartida, garanto a satisfação da dívida atual e a frequência do CFL sem qualquer pagamento durante este ano e o próximo.
- Quer dizer que a mensalidade passará para metade… mas durante dez anos… E se ele quiser continuar a estudar?
- No final destes dois anos reanalisaremos a situação e com certeza não haverá interrupção nos estudos. Os senhores têm bens?
- Bens?...
- Sim, imóveis, fazendas, automóveis, jóias, coisas com valor…?
- Tenho umas fazendas, uma oficina, um carro com certa idade.
- Então podemos usar esses bens como garantia do nosso empréstimo. Vou redigir um documento para estabelecermos um acordo e oportunamente estarei cá para o assinarmos…
Despediu-se e saiu toda sorridente deixando aquela família um pouco perplexa.
- É um alívio o desaparecimento dessa dívida, mas… dez anos…
A mãe do Estorietas apareceu:
- Era muito bonita essa menina. Trouxe alguma coisa de bom?
- Nem sabemos. Tenho a impressão que nos está a pôr a corda ao pescoço para os próximos dez anos…

terça-feira, março 17, 2020

Assistência para o colégio

Antes de ir para as aulas, o diretor do CFL passou pelo seu gabinete e deu uma vista de olhos pelo jornal.
«Só conversa, só conversa… nada que interesse…».
Mas, de súbito, os seus olhos detiveram-se numa página com um anúncio que se destacava e achou extremamente interessante.
«Reabilitação financeira de empresas e particulares… o que será isto?».
Leu o anúncio uma ou duas vezes e cada vez lhe parecia mais adaptável ao caso do colégio e dos seus utentes.
«Será que levam muito dinheiro? Será que chegam a resultados?»
Resolveu telefonar para o número que constava no anúncio. Do outro lado, apareceu uma voz bastante melosa.
- Está? Fala Floribela da Azinheira, a sua assistente financeira. Qual o assunto posso saber?
- Sou diretor do CFL em Ourém. Temos problemas muito graves com a cobrança das mensalidades. Será que nos pode ajudar?
- Nós não somos uma empresa de cobranças, mas podemos examinar a situação e ver se há viabilidade para alguma ação. Qual o montante da cobrança em falta?
- São 270 mil escudos e o número de famílias envolvidas é de 90…
- Um número bastante elevado para uma solução imediata…
- Temos margem de manobra para esperar um ou dois meses.
- Então, o melhor é agendarmos uma reunião para vermos as coisas mais detalhadamente…
A reunião foi agendada e, três dias depois, uma jovem escultural, muito bonita, chegou ao colégio para falar com o diretor.
O Estorietas, que andava pelos corredores, viu-a e ficou entusiasmado. Disse logo para o seu amigo Amândio:
- Acabou de entrar uma professora muito gira. Se calhar vem para o lugar da Boazinha
- Não acredito. Diz-se que para o lugar dessa vem um professor chamado Laranjeira.
- Esta deve ensinar muito melhor
Entretanto, o diretor do CFL punha a jovem financeira ao corrente da situação. Ao fim de algum tempo, esta disse:
- Vou pensar numa solução, mas para isso preciso de realizar reuniões individualmente com as famílias em causa. De qualquer modo, informo-o que isto não lhe irá ficar barato…
- Mas pode dar-me um número para já?
- A percentagem mais alta que atribuímos até ao momento à compra de dívida é de 60%.
- Que quer isso dizer?
- Quer dizer que, se virmos viabilidade do lado das famílias, ficamos com o seu direito à cobrança entregando-lhe imediatamente 162000$00 e nos encarregaremos nós de cobrar às famílias…
- Mas isso é um valor muito exagerado… está a cobrar-nos mais de 100000$00.
Ela teve um sorriso encantador.
- Não se esqueça que temos um risco muito elevado. E só lhe daremos a certeza depois de falar com as famílias. De qualquer forma, se tiver uma solução melhor, está sempre a tempo de desistir enquanto não nos comprometermos com uma solução.
Nessa noite, o diretor do CFL voltou a não dormir. Por um lado, irritava-o o facto de ter de entregar tanto dinheiro àquele diabinho financeiro. Por outro, entendia que ela podia representar a viabilização do seu negócio.
Assim, no dia seguinte, logo pela manhã, pegou no telefone. As suas primeiras palavras foram:
- Estou a ligar-lhe para lhe dizer que aceito as suas condições. Por favor, faça um estudo da situação e apresente-me um plano de viabilização dos nossos recebimentos

segunda-feira, março 16, 2020

Uma situação preocupante

No início do ano de 1963, o diretor do CFL realizou uma reunião com o seu contabilista que lhe mostrou uma situação preocupante.

Despesa
Escudos
Salários e SS
Professores
210000
Contínuo
14000
Gastos
Água
1000
Eletricidade
2000
Limpeza
20000
Seguros
8000
255000
Receita
Mensalidades
540000
das quais
Mensalidades em atraso
270000

- Sabe, doutor, o colégio poderia ter uma excelente saúde financeira. No entanto, começa a manifestar-se um problema muito grave e que consiste no facto de 50% dos utentes não pagar as mensalidades. Se o problema se agravar, no próximo ano, os recebimentos não cobrirão os pagamentos…
- Não percebo. Então não tivemos uma receita de mais de 500 mil escudos?
- Devia ter tido uma receita de 540 mil escudos, mas, como 50% das pessoas não pagaram, o que recebeu foi apenas 270 mil escudos pouco mais do que os seus pagamentos.
- Já percebi. Mas por que não pagam as pessoas?
- Possivelmente, não têm dinheiro. No último aumento, disse-lhe imediatamente que me parecia excessivo, mas o doutor insistiu, parecia que queria ganhar tudo de uma vez…
- Não diga isso. Se reparar nos preços dos outros colégios, o nosso nem é o que é o mais elevado e, mesmo que os alunos vão para o liceu, a sua estadia num quarto levá-los-á a custos bem superiores.
O doutor saiu da reunião muito preocupado. Andava cansado por aquele negócio lhe trazer imensas preocupações de natureza financeira. E a perspetiva de não conseguir concretizar os pagamentos de salários e outros gastos era aviltante para a sua formação.
«Que hei de fazer? Mas que posso fazer?»
Nem dormiu durante a noite a pensar numa solução.
«Mandar os alunos embora não resolve. Estamos no limite mínimo de atividade».
Efetivamente, o colégio tinha 180 alunos que pagavam uma mensalidade média de 250$00. Esses alunos repartiam-se pela primária e por cinco anos do secundário com turmas que não ultrapassavam o número de 30 elementos.
«Também não posso despedir professores e concentrar as aulas noutros. Já estão sobrecarregados».
O número de professores era de 10, recebendo cada um 1500$00 ao mês num total de 14 prestações.
«Se calhar, tenho de lhes cortar nas férias ou no subsídio de Natal. Mas, coitados, isso será tão injusto».
E, depois de uma noite sem dormir, levantou-se e foi para as aulas de mau humor.


Calculam o que aconteceu, não?...

domingo, março 15, 2020

Um monge no convento

Os dias foram passando, mas a irmã Sandrine não conseguia libertar-se da imagem que tinha visto na cela da Gracelinda. Um dia, encontrou-se com a madre diretora.
- Eu tenho a certeza que vi um homem horrível a apontar. Vi isso e mais uma série de desenhos com motivos de guerra. Mas ela continua a negar e a dizer que preciso de me confessar. Não sei que hei de fazer, madre…
- Dentro em breve virá ao nosso convento um monge muito experiente em possessões diabólicas. Farei com que ele se encontre com essa menina.
E um dia a madre chamou todas as freiras e anunciou:
- Vamos ter uma visita muito importante: o monge Passarinho. Ele, com certeza, quererá falar com algumas de vós e eu só peço que lhe deem a vossa melhor atenção já que ele vai retirar-se para Madrid e só daqui a uns meses nos voltará a visitar.
A irmã Sandrine ficou excitadíssima:
- É tão lindo o monge Passarinho!...
- Irmã – redarguiu a madre com um ar muito sério. – não é momento para tais manifestações. Recomendo-lhe toda a contenção agora e durante a visita.
Mas a Gracelinda notou que todas aquelas mulheres parecia que tinham ganho nova vida.
«Que entusiasmo! Quem diria?... Pobre monge!... como vai resistir a 18 freirinhas carentes?».
Notou que, no dia da visita, todas estavam perfumadas e vestidas com as melhores vestes. No refeitório, trabalhava-se afincadamente para obsequiar o monge com uma suculenta refeição. Pelas dez horas, a madre mandou reunir as freiras num átrio perto da biblioteca e, pouco depois, aparecia acompanhada pelo monge.
Este vestia como tradicionalmente os monges o faziam. Mas era possível notar os traços do seu rosto. E a Gracelinda ficou admiradíssima.
«Mas é um jovem. Não tem mais de 18 anos. Como pode andar nesta vida?»
O monge foi cumprimentando uma a uma todas as freiras residentes no convento e parou em frente à Gracelinda.
- Como te chamas? Não te conheço…
- Chamo-me Gracelinda. Não me conhece porque só aqui estou há três meses…
- A madre superiora disse-me que trouxeste o teu cãozinho…
- Sim, ele não me abandona por nada deste mundo.
- Quando eu terminar esta sessão, tens de mo mostrar.
O monge proferiu uma palestra que entusiasmou as irmãs e, no final, disse:
- Vamos lá ver o teu cãozinho…
E dirigiram-se à cela da Gracelinda onde encontraram o Pepe a dormir em cima da cama.
- Pepe, vem conhecer o monge Passarinho…
O Pepe aproximou-se a dar à cauda, mas, mal chegou junto do monge, começou a rosnar fortemente.
- GRRRRRRRR!!!!!!!!!
Instintivamente, o monge recuou:
- Que é isto? Este cão é uma fera. Por que está a rosnar?
- Ele assustou-se com o seu aspeto. Mas é um cãozinho muito meigo e amigo do seu amigo.
- Não me parece. Vou ter de fazer uma experiência com ele. Por favor, retira-te e fecha a porta da cela.
- Mas que vai fazer ao meu cão? Não lhe faça mal…
- Está descansada. Vai lá…
A Gracelinda saiu e o monge ficou ante o Pepe.
- Agora nós, cãozinho rebelde – disse ele puxando de um frasco que abriu e deu a cheirar ao cão.
O cão adormeceu imediatamente e o monge Passarinho começou a revistar todos os locais onde a Gracelinda podia guardar coisas e, ao fim de pouco tempo, descobriu os desenhos que esta tinha feito.
- Oh! Que coisa interessante. Esta miúda tem alma de revolucionária. Não admira que deteste GNRs. A irmã Sandrine afinal tinha razão.
Rapidamente pensou como poderia aproveitar a situação, mandando a Gracelinda entrar.
- Que fez ao Pepe? – perguntou ela assustada.
- Nada de grave – respondeu ele, sorrindo – Gostou tanto de mim que acalmou e ficou a dormir…
- Ah…
- Mas há umas coisas que tens de me explicar…
Ela ficou admiradíssima e não respondeu. O monge foi ao local onde ela guardava os desenhos e mostrou-lhe o que descobrira.
- Tens de explicar porque fizeste estes desenhos…
- Mas…
- Eu sei bem o significado deles. Basta uma palavra minha para ires daqui para a prisão…
- Mas… são só uns desenhos. Não sei por que os fiz, foi uma espécie de inspiração divina.
- Inspiração divina? Não digas blasfémias… Esses são os maiores mentores dos ideais comunistas, pessoas que nada querem com Deus, materialistas irrecuperáveis.
- Mas eu não sabia…
- Menina, como explicas esses desenhos?
- Foi algo que tinha no meu subconsciente, parecia que uma força superior guiava a minha mão…
- Então, algo estará errado no teu subconsciente. Possivelmente, estás possuída pelo espírito de algum desses homens e és um joguete nas mãos deles.
- Mas…
- … e o mesmo se passa com o teu cão, senão não teria sido tão agressivo com a minha pessoa. Vejo-me obrigado a fazê-los abandonar o convento.
- Como? Por favor, não faça isso…
- É necessário libertá-los desses pensamentos perigosos. Ou saem do convento…
- Não, não posso sair. – e a Gracelinda contou ao monge Passarinho a tenebrosa perseguição de que era alvo na sua terra.
O monge pareceu apiedar-se da sua situação. Simbolicamente, puxou um crucifixo e disse para ela:
- Jura perante a Cruz que tudo o que dizes é verdade.
- Juro que é verdade tudo o que lhe contei.
- Então, vamos procurar outra solução. O mal não está em ti. O mal está neste cãozinho de que tanto gostas.
- Mas eu não o dou a ninguém. Eu não quero separar-me dele…
- A separação não será longa. Apenas o tempo suficiente para o curar dos males da alma… três meses… E, no convento, ninguém saberá dos desenhos, eu acalmarei a irmã Sandrine.
- Três meses… três meses sem o Pepe?
- Ou isso ou abandonam ambos o convento…
Perante aquela alternativa, a Gracelinda não hesitou. Ia ficar três meses sem o Pepe o qual acompanharia o monge Passarinho até Madrid para ser reeducado, comprometendo-se este a devolvê-lo ao convento no final desse período.
No fim da tarde desse dia, a Gracelinda deu os últimos beijinhos ao Pepe e disse afagando-lhe a carinha:
- Porta-te bem! Em breve quero ver-te de novo junto de mim.
Já cá fora, o monge Passarinho despiu a sua falsa indumentária de monge, entrou no seu belo BMW e, pouco depois, conduzia com o Pepe ainda meio adormecido, a seu lado:
- Vamos até Madrid. Sei que és muito rápido e vais treinar o meu Baloo nas corridas. Ah! Ah! Como são parvas estas freiras todas. Jejejejjjejeje!!!!!



FIM

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