sexta-feira, maio 22, 2020

Encontro com uma lenda do comércio de Ourém

Deixemos o João e a Teresinha e sigamos as três miúdas que ficaram junto ao Central. O primeiro local onde se dirigiram foi à Farmácia Leitão onde colocaram o cartaz na parede de entrada. Depois prosseguiram para a tipografia do Melo, passaram à taberna do Manuel do Raul e dali atravessaram na direção da loja do senhor Pina. Pouco depois entravam na loja do sr. Oliveira e a primeira pessoa que se lhes deparou foi o sr. Manuel Cartuxo.
- Olha que lindas flores aqui estão! Hoje é o meu dia de sorte…
- Meninas, apresento-vos o sr. Manuel Cartuxo, o comercial mais falador e simpático de Ourém – começou por dizer a Mari’mília. – Senhor Manuel, o seu nome escreve-se com “x” ou “ch”.
O sr. Manuel pôs um ar muito sério e a resposta não desiludiu.
- Com “x”, com “ch” é de polvora e não quero cá cartuchos de pólvora…
Riram com gosto e a Mari’mília fez a apresentação das amigas ao sr. Manuel. Ele virou-se para a Ciete e propôs-lhe uma charada:
- Ah! A menina é filha do Bragança e vai estudar Matemática. Então, veja lá se me ajuda a resolver um problema como este: há doze casas para distribuir a treze pessoas, como é que vamos reparti-las de modo que todos fiquem satisfeitos?
A Ciete ficou boquiaberta e ele continuou.
- Sabe? O que economistas e matemáticos aprendem é o modo de enganar o povo. Eu vou-lhe dizer.
E desenhou doze quadrados que preencheu com números: 1 – 2 – 3 – 4 – 5 – 6 – 7 – 8 – 9 – 10 - 11 – 12. Depois disse:
- Para a primeira casa, vão dois. Depois o terceiro vai para a segunda e por aí fora. Quando uma das casas vagar, o que está a mais na primeira passa para essa.
Continuaram a rir, mas a Mari’mília interrompeu:
- Senhor Manuel, vimos pedir-lhe uma coisa. Deixe-nos colocar este cartaz na loja.
Ele olhou para o cartaz e lembrou-se da visita que tinha tido.
- É curioso… muito curioso…
Elas ficaram ansiosas.
- O quê, sr. Manuel?
- Hoje, esteve cá aquela menina muito bonita que teve um caso com ele na banda. Levava material de desenho num saco e comprou comida para um batalhão o que não era habitual nela.
- Isso é muito suspeito – afirmou a Luzinha.
- Eu diria mais – respondeu a Ciete. – Isso é muito suspeito.
- Sr. Manuel, ajudou-nos muito. Vamos colar o cartaz e combinar novas ações.
Voltaram à zona do Central, esperando os que tinham ido à parte de cima da vila e, pouco depois, combinavam.
- Amanhã, eu e a Ciete vamos de bicicleta até à cabana da Deolinda e tentaremos falar com ela. Logo veremos a reação. Encontramo-nos aqui às quatro da tarde…



Que irão encontrar as duas miúdas? Correrão perigo com a sua ação aventureira?

Continua na próxima segunda-feira

quinta-feira, maio 21, 2020

A ajuda dum interesseiro

No CFL, trabalhava-se afincadamente para produzir os cartazes de procura do Estorietas. O Dr. Armando cedera o equipamento de reprografia e três meninas dedicavam-se a redigir o texto que iria acompanhar a fotografia do desaparecido.
- Vejam lá se fica bem – dizia a Teresinha. – “Procura-se rapaz de 13 anos conhecido por Estorietas. Residia na Rua de Castela e já não é visto há uma semana, sendo referenciado, pela última vez, na zona dos moinhos. Por favor, informe para o CFL ou para o telefone 42402”
- Acho bem – dizia a Mari’mília.
- Eu acho que devias referir que o indivíduo está louco – acrescentou a Ciete. – As pessoas precisam de ser protegidas dos excessos dele, não vá fazer alguma maluqueira.
- Não sejas revanchista – respondeu a Teresinha. – Compreendo que tenhas ficado marcada pelos actos dele, mas conhecemo-lo desde pequeno.
- Sempre foi meu amigo – reconheceu a Mari’mília. – Não vamos enxovalhá-lo num momento difícil para todos.
Chegaram a acordo e, pouco depois, dispunham de 50 exemplares do cartaz. Olharam umas para as outras felizes com a obra. A Terezinha ainda disse:
- E se a gente visse o que está naquela gaveta? Pode ser o próximo teste de Matemática…
- Nem penses  - respondeu a Ciete. – Se descobrirem a fuga de informação, o Dr. Armando perceberá que fomos nós as autoras. Tens sempre ideias suicidas.
- Então vamos planear a distribuição de cartazes…
Pouco depois, andavam pela vila a colar cartazes nas árvores e nas paredes. Começaram pelo Central e, à saída, depararam com o João e a Luzinha.
- Oh! Oh! Oh! Oh! – fez o João – Que lindas meninas aqui estão. Que andam a fazer?
- Andamos a afixar cartazes relativos ao desaparecimento do Estorietas. Precisamos de informação para o encontrar – respondeu a Terezinha.
- Esse facínora devia era estar preso. Jejejjjejjjjje. Não achas, Cietezinha?
- Eu acho, mas, para isso, temos de saber onde ele está…
- João – disse a Mari’mília. – toma vinte cartazes e vai colá-los com a Luzinha na zona da tua morada, do Zé Domingos e do Estorietas. Passa também pela Câmara e pelo Bairro. Nós ficamos na parte de baixo.
- Só vou se a Teresinha for comigo…
- Farsante. Chantagista! – berrou a Mari’mília.
- Deixa lá – disse a Teresinha. – Eu vou com ele.
- Não digam que eu sou mau – respondeu o João. – Agora, cedo-vos a minha irmã para ir convosco.
E assim o João aproveitou a busca ao Estorietas para passar o resto da tarde com a Teresinha…
- Encontramo-nos aqui às seis da tarde… - combinaram.

quarta-feira, maio 20, 2020

Uma jovem faz compras em Ourém

Ainda no mesmo dia, uma bela figura de mulher de cabelos loiros saracoteava-se por Ourém. A primeira visita que fez foi à Marina.
- Bom dia, Fernando. Está bom?
- Bom dia, menina Deolinda. Em que posso servi-la?
Ela sorriu encantadora.
- Eu queria duas telas grandes e material para pintar…
O Vieira sorriu todo solícito.
- Vai dedicar-se à arte? Olhe que é muito difícil encontrar esse material em Ourém. Por acaso, tenho algum que tinha encomendado para o Estorietas, mas, como ele desapareceu, posso dispensar-lho.
- Ainda bem. Sabe, resolvi pintar. Tenho um retrato meu, mas acho que tenho mãos para fazer melhor. Que acha? Ficarei bem?
E sorriu toda coquete.
- Eu acho que ficará maravilhosa. E, se precisar de modelo…
Aviou o que a rapariga pretendia e ela, depois de pagar, saiu, passou junto ao Central e dirigiu-se a uma loja junto da “Loja do Povo”.
- Bom-dia, senhor Manuel. Precisava que me aviasse esta lista de coisas.
- Bom-dia, menina. Vou já tratar disso.
Consultou a lista e olhou para a rapariga.
- São muitas coisas. É tudo para a menina?
- Claro. Neste momento, eu vivo sozinha…
- A menina era a namorada do Estorietas, não era?
- Eu? Por que pergunta isso? Mal o conheço…
- Custa-me a crer. Sabe?....
E durante mais de meia-hora desbobinou tudo o que sabia acerca do Estorietas, do seu caso na banda com uma miúda encantadora e o caso dos quadros. Rematou dizendo que ele fugira e ninguém sabia dele.
A rapariga já bufava quando ele terminou e só disse:
- Não sei para que me conta isso tudo. Como lhe disse, mal o conheço…
- Não me leve a mal, mas não é isso que consta por aí. Dizem que ele gostou muito dos seus encantos. E a menina tenha cuidado. Há muito malandro nesta terra. Já ouviu falar no neto mais novo do Dr. Preto? Anda a dizer que tem de a conhecer.
- Bahhh! Depenava esse passarito com água fria em três segundos. O Estorietas é bem mais estimulante.
- Mas olhe que o menino João tem cada história de encantamento…
- Nããããooooo. Nem quero ouvir…
- Tenha paciência, menina. São muitas coisas para aviar e eu preciso de me distrair com qualquer coisa. Pronto, já está…
Preparou um saco enorme com as coisas, ela pagou e saiu.
«- Bem engraçada o diabo da rapariga. Há estorietas com muita sorte.»

terça-feira, maio 19, 2020

O início do cerco

Os dias foram passando e os verdadeiros amigos do Estorietas começaram a preocupar-se com a sua ausência.
- Onde andará essa alma do diabo? Raios o partam – dizia a Mari’mília para a Cietezinha.
- Já quase estou arrependida de lhe partir os quadros na cabeça. Mas ele mereceu. Estava louco de todo.
Continuaram a passear lado a lado no recreio do CFL e a Mari’mília disse:
- Eu acho que devíamos fazer qualquer coisa para o procurar. Estou preocupada.
- Não sejas assim. Ele tem sete vidas como os gatos. Se nos encontra, ainda faz alguma partida das dele.
- Cietezinha, de certeza não é o teu coração que fala. Ele nem é mau rapaz. Passa-se de vez em quando.
- Olha, vem aí a Teresinha. Vamos falar com ela.
Efetivamente, a Teresinha aproximava-se e elas puseram-na ao corrente da sua preocupação. Ela teve logo uma ideia.
- Eu hoje vou fazer bolinhos para os presos. Vocês podem vir comigo e falamos com o comandante. Ele pode saber mais qualquer coisa.
E, terminadas as aulas, as três meninas dirigiram-se ao posto da GNR onde foram recebidas pelo comandante a quem puseram a par da sua preocupação.
- Todos os dias mandamos um jeep à procura dele. Sabemos que não está em casa e parece que andou nos moinhos. Há quem afirme que ele tinha a mania que estava a voar e a ir para Peras Ruivas ou para os Castelos. Em Ourém, houve quem ouvisse o Flying dos Beatles parecendo que o som vinha dos moinhos.
- Que horror! Estás a ver? – dizia a Ciete – Continua maluco de todo…
- Nós vamos continuar a procurá-lo – rematou o comandante. – Tem de pagar pelo que fez e, para além disso, é um perigo para a sociedade.
- Acha que podemos pôr uns cartazes pela vila a pedir que nos informem se o virem.
- Apesar de não gostar muito de jornais murais, por esta vez, não me oponho.
E as ruas de Ourém encheram-se de cartazes a pedir que informassem uma das três meninas se alguém deparasse com o Estorietas. O contacto podia ser para o CFL ou para um telefone.
Estava iniciado o cerco…

segunda-feira, maio 18, 2020

O desaparecimento do promissor artista

Naquela noite escura, junto aos moinhos, enquanto o vento sibilava quase gelado, o Estorietas, evidenciando formidável desorientação, caminhava sem rumo.
«Oh! O que aquela malvada me fez… nunca mais lhe perdoo.»
A sua cabeça não conseguia concentrar-se num rumo.
«Isto já me parece O Vendaval:
Para onde vou, não sei
O que farei, sei lá…
Ah! Mas não me consigo encontrar
Eu já não sou eu… sou um farrapo»
Levava consigo alguns parcos haveres, os necessários para mudar de roupa de quando em quando e alguma comida. Mas tinha largado tudo… tudo o que desfrutava na sua boa vida.
As árvores escuras com os seus ramos abertos pareciam-lhe fantasmas.
- Olha aquele… parece que está a olhar para mim… que me vai a engolir.
Atravessou uma estrada para o outro lado. De repente, as luzes dum automóvel iluminaram o caminho.
«Não posso ser visto.»
E saltou para a berma.
Mas as coisas não correram bem. Havia um buraco e estatelou-se ficando inconsciente e à mercê do que desse e viesse.
O carro parou um pouco mais à frente e dele saiu uma figura escultural.
«É ele… calculei logo que andava por aqui.»
A muito custo levantou o Estorietas e pô-lo dentro do carro. Fez inversão de marcha e voltou pelo caminho por onde viera.



Quem seria a misteriosa figura?

sábado, maio 16, 2020

De regresso a casa

Quando o carro dos bandidos passou perto da farmácia, o Rui Leitão estava à porta e pareceu reconhecer o carro.
«É curioso. Parece o carro de ontem.»
Chegou à Teófilo Braga e reparou que o carro parava junto ao hospital.
«Não perco nada se telefonar à polícia ou a GNR. Eles sabem o que podem fazer.»
O carro dos bandidos parou frente ao hospital e eles começaram a transportar o cúmplice ferido para o mesmo. Um pouco à frente, perto da casa do Dr. Durão, parou o carro das maninhas que começaram a abrir a porta para retirar o cãozito.
Nesse momento, ele reconheceu os assaltantes da farmácia e, como se sentia protegido, atirou-se a eles, mordendo-os furiosamente.
- Agarrem esse cão – gritava um dos meliantes.
Entretanto, dois jeeps da GNR vinham a toda a velocidade na direção do hospital, mas em sentidos opostos de forma a não deixarem escapatória possível.
O Rui Leitão tinha avisado a Livinha e corriam ambos na direção do hospital.
E todos puderam assistir ao modo como o Ferraunha dominou os assaltantes da farmácia. Eram três, mas o facto de estarem a apoiar o mais ferido e não terem armas fez com que, a breve trecho, estivessem dominados.
- Meu Ferraunha… - gritava a Livinha.
O cãozinho já tinha recuperado a sua doçura e lambeu-lhe a cara. Depois, conduziu-a às maninhas.
- Foi ter a nossa casa muito magoado – explicou a Céu – e vínhamos trazê-lo ao Dr. Durão.
- Nem sabem como estou grata. O Ferraunha é único. Agora, pode voltar a casa para abraçar os seus filhotes...
- Ferraunha? Chama-se Ferraunha? Nós íamos chamar-lhe Tejo, mas pelo que vemos era mais apropriado chamar-lhe Ferra-o-Dente.
- Eu cá gostava mais de Pestaninhas - respondeu a Céuzinha à irmã.
- Não se zanguem - disse a Livinha - Há mais dois cachorrinhos, filhotes do Ferraunha e iguais a ele. Posso oferecer um a cada uma e assim escolhem os nomes à vossa vontade. Terei todo o prazer nisso.
A Céuzinha e a Cietezinha ficaram todas contentes e louvaram o dia em que o Ferraunha tinha desmaiado à porta delas.
Entretanto, os bandidos, já presos pela GNR, teciam ameaças.
- A culpa foi toda desse malvado cão.
- Se fossem honestos, não vos acontecia nada de mal – respondeu a Livinha. – E agora quero saber onde está o que roubaram, pois levaram o meu dinheiro para medicamentos.
- Nós vamos encarregar-nos disso – prometeu o guarda Ernesto – O que tiverem será devolvido aos legítimos donos.





FIM


Nota Final: os cãezinhos da juventude do autor foram o Tejo, o Mondego, o Nero, o Ferraunha e o Faro. O Tejo era supermeigo e há uma foto do autor a lavá-lo. O Mondego era um belo exemplar em castanho escuro. O Nero era velhote, mal disposto, e um dia mordeu a mão do autor (que lhe terá feito?). O Ferraunha era o mais brincalhão. E o Faro era branquinho, superdivertido.



sexta-feira, maio 15, 2020

Novos donos para o Ferraunha

A Ceuzinha e a Ciete recolheram o Ferraunha e trataram-no o melhor possível. O cãozito foi recuperando. De qualquer modo, elas combinaram:
- Pedimos ao pai para nos levar mais cedo para Ourém e passamos pelo Dr. Durão para ele o observar.
No dia seguinte, a excitação era grande lá em casa.
- Eu é que lhe vou dar o nome – dizia a Ceuzinha – Ele tem ar de imperador. Vou chamar-lhe Nero.
- Eu acho que ele tem um ar que me faz lembrar um rio. E se fosse Tejo?
Falaram mais algum tempo sem chegarem a acordo. O pai veio chamá-las para irem para o CFL. Pegaram no Ferraunha com todo o cuidado e puseram-no no carro. Pouco depois, estavam a caminho de Ourém.
Entretanto, o meliante que tinha sido mordido na perna não estava nada bem. Os dentes do cão tinham entrado profundamente na massa muscular e ele não se conseguia mexer. Telefonou por isso aos cúmplices.
- Rapazes, têm de me levar ao hospital de Ourém. Não consigo mexer a perna por causa daquele malvado cão. Um de vocês tem de conduzir o carro.
Apesar de serem uns bandidos, aqueles homens eram solidários entre si. Pouco depois, estavam a caminho do hospital e, curiosamente, após passarem pela Carapita, o carro das maninhas seguia atrás deles. No seu interior, o Ferraunha começava a alegrar-se por estar em tão boa companhia, embora não conseguisse esquecer a sua querida Livinha o que lhe conferia uma certa tristeza. Mas ficou um pouco agitado ao reconhecer o carro à sua frente.

quinta-feira, maio 14, 2020

Fuga audaciosa

Entretanto, dentro do carro, o Ferraunha continuava a esperar uma ocasião para se pirar.
«Não podem perceber que eu estou aqui – pensava – mal abram a parto, zarpo…».
Continuava muito encolhido atrás do banco dianteiro o que lhe provocava uma dor acentuada no local onde tinha sido pontapeado.
«O malvado que me deu o pontapé há de pagá-las. Os meus dentes vão-lhe ficar marcados na barriga da perna».
Pensou na sua dona, a Livinha. Que doçura de pessoa! Que sorte tinha tido ao ser adotado por ela. Comidinha a horas, uma casota e uma caminha especial para as sonecas. Claro que abusavam um pouco ao mandá-lo fazer tantos recados, mas era imperioso pagar os bons cuidados com que o brindavam. Será que algum dia conseguiria voltar para junto dela?
De repente, sentiu que a porta da casa se abria e que alguém se aproximava do carro. Passos de uma só pessoa…
«É agora – pensou».
Mas não. O indivíduo limitou-se a abrir a bagageira e tirar qualquer coisa, voltando depois para casa.
E o tempo foi passando. Desesperadamente… muito lentamente…
O dia começava a escurecer.
«Já não vou ficar hoje na minha caminha. Estes malvados nunca mais abrem a porta do carro».
A certa altura, ouviu a porta da casa abrir-se e uma voz dizer para o interior.
- Foi um bom golpe rapazes. Amanhã, às dez da manhã, encontramo-nos no Central.
O indivíduo vinha sozinho para o carro, decerto para tomar lugar ao volante e dirigir-se a qualquer outro sítio. O cão preparou-se para saltar.
«Já não me levas para mais nenhum sítio hoje, não…».
A porta esquerda dianteira abriu-se e o meliante iniciou o procedimento de entrada. Nisto, sentiu que alguém passava por ele como uma flecha, cravando-lhe com muita força os dentes na perna.
- Ai…
O Ferraunha escapou a toda a velocidade. Num instante percebeu que estava na zona de Santo Amaro, perto do Castelo, onde tantas vezes a Livinha o levava a passear e tomou a direção de Ourém. Ao fim de correr uns dois quilómetros, sentiu que não estava nas melhores condições. As dores do pontapé que tinha levado eram lancinantes…
«Não consigo… não consigo lá chegar…».
Ainda logrou atingir a Carapita. Muito cansado, titubeante, encostou-se à porta de uma casa. E desmaiou. Já não ouviu uma voz muito doce a dizer:
- É um cãozito, parece doente. Vamos recolhê-lo.
Era a Ceuzinha…

quarta-feira, maio 13, 2020

Uma notícia desagradável

O tempo foi passando e, em casa da Livinha, esta começava a preocupar-se.
- Que estranho! Nunca demorou tanto tempo. Que terá acontecido?
Esperou mais um pouco e, como o cão não aparecesse, decidiu ir ver o que se passava. Vestiu rapidamente um casaco, avisou a mãe e partiu na direção da farmácia.
Já na Silva Carvalho, notou que havia algo de estranho no ambiente, uma agitação nada habitual na vila. Ao chegar junto à farmácia, notou que havia um cordão policial e algumas pessoas a ver o que se passava. Viu então o Rui Leitão:
- Que se passou aqui?
- Assaltaram-nos a farmácia. Três indivíduos mascarados – respondeu ele passando a mão pela cabeça, um pouco agitado.
- Tinha enviado cá o meu cão para levar uns medicamentos…
- Sei que eles lhe deram um pontapé e ele fugiu. Mas não o vi mais. Há quem diga que foi no carro com eles.
- O quê?...
E sentiu-se sufocar…
O seu Ferraunha… o seu cãozinho mais amigo de todos os tempos… como iria agora voltar a vê-lo?
Desesperada, ainda olhou para todos os locais da praça procurando vislumbrá-lo e voltou para casa a soluçar. Pobre coração daquela menina que tanto gostava do cãozinho.
Será que o voltaria a ver?

terça-feira, maio 12, 2020

No carro com os bandidos

À porta da farmácia estavam três homens mascarados e armados que não deixavam a menor dúvida relativamente àquilo a que vinham.
O empregado ficou petrificado ainda com o dinheiro na mão. Um dos assaltantes chegou-se a ele com um saco:
- Vamos, põe aqui tudo o que tens em caixa.
O outro assaltante ia roubando medicamentos enquanto o terceiro ficava à porta de arma em punho, ameaçador.
O empregado hesitou.
- Mas este dinheiro é para o cão…
- Qual cão? – e olhou o Ferraunha ameaçador.
O cãozito não gostou da sua expressão e respondeu mostrando os dentes bem desenvolvidos e rosnando:
- GRRRRR!!!!!!!!...
O homem não se conteve. Tentou dar-lhe um pontapé, mas o cão escapou e atirou-se-lhe à mão, mordendo-a.
- Ai! Malvado…
O que estava a roubar os medicamentos conseguiu pontapear furiosamente o cão e este desatou a fugir, passando para o exterior, sem que o que estava armado criasse qualquer obstáculo.
Mas o Ferraunha, escapando daquele horroroso ambiente, não estava satisfeito. Ele tinha de cumprir a sua missão. Por isso, resolveu esperar escondido. Cá fora, viu um carro com a porta vazia. Refugiou-se lá dentro à espera que tudo passasse.
Nem foi preciso mais um minuto. Os assaltantes saíram da farmácia com o produto do roubo e enfiaram-se no mesmo carro onde o Ferraunha já estava escondido atrás do banco dianteiro do lado esquerdo. Percebeu logo que estava metido num grande sarilho pelo que encolheu-se o mais que pôde, tentando não ser visto pelos bandidos.
Pouco depois, o carro arrancava a grande velocidade. Os assaltantes estavam excitados e pareciam satisfeitos.
- Grande colheita! Felizmente, não tinham depositado o dinheiro. Aqui em Ourém são muito descuidados.
O carro andou cerca de um quarto de hora. Nessa altura, abrandou e entrou num caminho estreito que os levou junto de uma casa que parecia abandonada. Os assaltantes saíram do carro e levaram o produto do roubo para a casa. Estavam muito satisfeitos.
Dentro do carro, o Ferraunha analisou a situação. Não podia sair, pois não tinham deixado nenhuma janela aberta. Tinha de esperar pela ocasião propícia…
E refugiou-se o melhor possível para não ser visto por aqueles malvados.


segunda-feira, maio 11, 2020

Meu nome é Ferraunha

O Ferraunha era um cãozito super afável e esperto adotado pela Livinha. Tinha sido ensinado a ir fazer algumas compras aos donos e todos ficavam encantados com a sua eficácia a satisfazer os seus desejos.
Naquela manhã, o sr. Lains levantou-se, deu-lhe a ração matinal e disse-lhe:
- Ferraunha, vai buscar o jornal ao Café Central.
O cãozito partiu em alta velocidade. Subiu aquela que é agora a Rua 25 de Abril, virou à direita na 5 de Outubro e prosseguiu pela Silva Carvalho até chegar à praça dos carros. Pouco depois, entrava no Café Central e pôs-se em pé, apoiando as patitas dianteiras no balcão.
Um cliente pouco amistoso refilou:
- Está aqui um cão. Vou correr com ele.
Mas o sr. Joaquim Espada deteve-o.
- Não faça isso. Sabemos o que ele pretende.
E o brutamontes ficou banzado a ver o dono do café a pôr o jornal na boca do cãozito e este a partir a toda a velocidade de regresso a casa.
- Formidável. Nunca tinha visto uma coisa destas.
- Há muitos animais que são mais espertos que os humanos – replicou o sr. Espada, olhando significativamente para o cliente.
O homem não percebeu e abandonou o café.
Entretanto, o Ferraunha chegava a casa, depois de fazer o caminho inverso, e preparava-se para fazer novo recado agora à Livinha.
- Ferraunha, vai à farmácia aviar estes medicamentos.
E pôs-lhe um saquinho à volta do pescoço que no interior levava a receita médica e uma nota de mil escudos para pagar os medicamentos.
Mais uma vez, o Ferraunha saiu a toda a velocidade e, pouco depois, estava na farmácia Leitão, aguardando a sua vez de ser atendido.
- Olha o Ferraunha – dizia o empregado. – Que é que te traz por cá?
O cãozito pôs-se a jeito e ele retirou-lhe o saco com a receita e dinheiro.
- Hum… bactrim…paracetamol… ibuprofeno… umas injeções. O Dr, Preto está a receitar muita coisa.
- Béu.. béu… – respondeu o cãozito.
A farmácia quase não tinha clientes e o empregado pôs-se a aviar calmamente a receita. Depois, pegou no dinheiro e começou a fazer o troco.
De repente, o sossego deste quase bucólico espaço foi quebrado por uma voz ameaçadora:
- Todos quietos! Mãos ao ar! Isto é um assalto…

sábado, maio 09, 2020

O banquete do crocodilo

Um agricultor alentejano, já entrado nos anos, tinha uma bela barragem na sua  herdade.
Depois de algum tempo sem ir ao local, decidiu naquele dia ir dar uma olhadela geral para ver se estava tudo em ordem.
Pegou num balde para aproveitar o passeio e trazer fruta do pomar e, ao aproximar-se do lago, ouviu vozes femininas, animadas e divertidas. Então viu um grupo de jovens a tomar banho no lago, completamente nuas.
«Oh! Que seres tão belos e virginais!...».
Chegou mais perto e, com isso, todas elas, ao verem-no, fugiram para a parte mais funda do lago, deixando apenas a cabeça fora de água.
Uma delas gritou:
- Não saímos daqui enquanto o senhor não se for embora.
O alentejano, que não era burro, respondeu:
- Calma meninas, eu não vim até aqui para as ver a nadar ou para as ver sair nuas do lago... 
E, levantando o balde, acrescentou:
- Eu só vim dar comida ao crocodilo...




Nota: autor desconhecido. Enviado por mão amiga...

sexta-feira, maio 08, 2020

A fuga do grande artista

Na casa do Largo de Castela, o Estorietas andava de um lado para o outro desesperado.
- Destruiu, aquela malvada destruiu tudo. Nunca devia ter confiado nela.
Contemplou os seus quadros completamente desfeitos.
- Como pode ter feito isto à minha magnífica arte? Ah! Não aguento isto. Não consigo respirar. Vou-me embora.
Encheu apressadamente uma mala e saiu de casa, partindo na direção da encosta do moinho. Fez a escalada em pouco mais de dez minutos, depois, lá de cima,
contemplou Ourém…
Ali se deixou ficar em contemplação, sentindo-se cada vez mais calmo.
A certa altura, viu o jeep ir na direção da sua casa.
- Ah! Pensam que vão prender-me, mas nunca mais me encontrarão. Vou-me embora, vou partir, vou para bem longe. Uma nova vida me espera.

Há quem diga que, considerando aquele momento, o Estorietas e a Ciete estiveram mais de 50 anos sem voltar a encontrar-se… mas, na ficção, tudo pode ser diferente.

quinta-feira, maio 07, 2020

O esfumar da Arte

Entretanto, na casa roxa do início da Rua de Castela, travava-se uma intensa batalha de palavras entre a Cietezinha e o Estorietas:
- Tens de me deixar sair, Estorietas. Isto está a ir demasiado longe.
- Anda, anda ver os nossos quadros e diz-me que queres sair, diz-me que não é Arte. Será que não sentes a intensidade da criação?
Puxou-a por um braço, arrastando-a para junto dos quadros.
- Olha esta maravilha. Até te pus loira, mais bela que a Deolinda…
Ela ficou furiosa.
- Não me compares com essa serigaita. Não vale nada comparada comigo…
- Então, vê este outro em que apareces como mulher com máscara de tigre…
- Não me interessa…
- Mas vê! – e passou-lhe o quadro para as mãos.
Ela não aguentou mais. Pegou no quadro e desfechou com ele na cabeça do Estorietas. Ele ficou atordoado e ela aproveitou para lhe enfiar com outro em volta do pescoço.
- Vê, vê o que eu faço aos teus malditos quadros – e destruiu tudo em cima dele sem que o Estorietas pudesse reagir.
Pobre Estorietas! A ver a sua arte de que tanto esperava a esfumar-se numa tarde de tragédia.
- Os meus quadros… - balbuciava.
Ela aproveitou a sua falta de discernimento para correr para a porta e fugir.
«Vou já para o posto da GNR ver o que se passa com os outros».
Ainda não tinha percorrido metade da distância que a separava da esquadra quando o comandante e o guarda Ernesto chegaram junto dela.
- Como conseguiu chegar aqui?
- Atordoei-o com os próprios quadros. Agora quero ver com estão os meus amigos.
- Nós acompanhamo-la. Depois vimos prendê-lo…
E, ao fim da tarde, para grande desgosto do João, as vinte miúdas foram postas em liberdade e puderam regressar a casa, depois de terem aceitado as desculpas do comandante e perante o olhar desconfiado do Dr. Armando.
- De futuro, em vez de fazerem uma manifestação, venham avisar-nos primeiro… E amanhã esperamos pela Teresinha para mais uns bolinhos…
Lá foram todas a rir da situação já esquecidas do Estorietas, enquanto o João chuchava no dedo por deixar de estar no meio de tanta menina.

quarta-feira, maio 06, 2020

Equívoco esclarecido

No interior da esquadra, o ambiente era carregado. O comandante passeava-se diante dos miúdos com um cassetete nas mãos e ia dizendo:
- Mas que foi que vos deu na cabeça para fazerem uma manifestação de apoio a um preso político?
Eles parecia não perceberem o que se estava passando até que a Teresinha avançou e respondeu:
- O comandante permite-me que fale?
Ele olhou para ela e só então a reconheceu:
- A Teresinha? Mas que faz no meio destes arruaceiros? A menina ainda ontem esteve aqui a cozinhar para nós…
- Julgo que há uma confusão, comandante. Nós não estávamos a fazer qualquer manifestação politica…
O João começou a ver o caso mal-parado.
«Bolas. Estava aqui tão bem. Esta vai estragar tudo. Já não passamos aqui a noite».
- Mas vocês até tinham um cartaz: “Liberdade para a Ciete”.
- Esse cartaz era dirigido ao Estorietas, comandante. Ele sequestrou a Cietezinha…
Naquele momento, a Ceuzinha desatou num pranto clamoroso:
- A minha irmã, comandante, a minha irmã…
O Comandante só então percebeu:
- Então, fui enganado pelo Estorietas. Ele telefonou a avisar que era uma manifestação para libertar uma perigosa comunista.
- É isso, comandante, o Estorietas está louco com a mania que é o maior pintor do Universo e sequestrou a minha irmã para lhe servir como modelo. A pobre nem come devidamente.
- Mas isso não pode acontecer. Guarda Ernesto!
- Aqui estou, meu comandante.
- Prepare-se para irmos a casa do Estorietas. Ele é o culpado de toda esta situação – virou-se para os miúdos: - Por agora, ficam aqui, pois vou precisar do vosso testemunho, mas podem ficar tranquilos que nada lhes irá acontecer.
«Pronto. Tudo estragado – pensava o João».

terça-feira, maio 05, 2020

O CFL, um antro de comunas

Pouco depois, no CFL, a Florência relatou ao Dr. Armando tudo o que tinha visto passar-se na Rua de Castela.
- Não pode ser – gritou. – O meu colégio está perdido. Que pensará lá no Céu o Fernão Lopes e todos os que contribuíram para a maravilhosa cultura do nosso país. Vou apurar tudo e expulsar essas miúdas.
Pegou no sobretudo e dirigiu-se para o seu Peugeot.
«Quem diria? O meu colégio a formar células de comunas… ainda vou preso também».
Atirou-se para dentro do carro e arrancou com toda a velocidade. O seu coração estava acelerado. A sua mente não tinha um momento de descanso.
Frente à taberna do Frazão, teve de travar com toda a força, senão tinha batido no carro da Dra. Lurdes Moreira que, naquele momento, se dirigia ao CFL para dar uma aula. Valeu-lhe o apitar constante da professora.
Um pouco mais à frente, só a intervenção dum anjo guardião fez com que não atropelasse um rapaz que atravessava distraidamente a Avenida.
Continuou a acelerar e, pouco depois, travava frente ao posto da GNR. Saiu do carro e tentou entrar, mas um guarda não lho permitiu.
- O que pretende? – perguntou um guarda. – Neste momento, não pode entrar…
- Fui informado que tinham prendido alunos do CFL. Pretendo saber o que se passa.
- Neste momento estão a ser interrogados pelo comandante. Tem de esperar aqui.
- Mas eu quero saber o que se passa. – e tentou forçar a entrada.
Mas o guarda manteve-se firme no posto.
- O senhor espera aqui, senão vejo-me obrigado a detê-lo.
E o Dr. Armando teve de esperar. Mesmo assim, não deixou de profetizar umas ameaças.
- Ah! Esses miúdos não sabem o que os espera quando os apanhar a jeito!!!
Estava muito longe de perceber que a situação estava quase a esclarecer-se.

segunda-feira, maio 04, 2020

Danos colaterais, um testemunho

Naquele dia, àquela hora, a Florência descia a Rua de Castela acompanhada da sua amiga Luísa. Nas suas memórias de Ourém, ela relata que iam carregadas com material de desenho comprado na papelaria Godinho ou na papelaria Joaquim da Cruz: Uma pasta de cartão com papel almaço, papel cavalinho, régua T, estojo com compasso e tira-linhas, esquadro, transferidor, ´´punaises´´, lápis 1 e 2, borracha, tinta da china, guaches,  pincéis, afiadeira, godés, vidro para preparar as tintas, pano para limpar os pincéis.....
A rua tinha uma ligeira descida e ao chegarem quase ao fim, um dos cavalos da GNR levantou-se nas patas traseiras e ameaçou-as. Escorregaram e caíram na calçada. Os elásticos, já sem força, não deram conta da situação e o material de desenho espalhou-se para todos os lados. 
A Florência nem sabia explicar o que tinha visto.
- Parecia um cow-boy em cima de um cavalo com as patas no ar. Que medo!
O GNR, com o bastão, apontava-lhes uma certa direção. 
- Para casa! Já para casa!
Não sabiam se deviam rir ou chorar tão insólita era a situação. A régua T, que era maior do que a pasta, molhou-se e nunca mais conseguiu desempená-la.
Mas, dali, conseguiram aperceber-se de que a miudagem era levada para a esquadra da GNR. E, daí a pouco, todo o CFL estava avisado do que acontecera.

sábado, maio 02, 2020

A grande manifestação

Mas era tarde demais.
Naquele momento, começou a ouvir-se no largo frente à casa roxa um grande ruído.
- Liberta a Ciete! – parecia que um grande grupo gritava.
O Estorietas ficou admirado. Chegou à janela que abriu, e deparou-se com uma manifestação de cerca de 20 miúdas: a Ceuzinha, a Mari’mília, a Teresinha, a Livinha, todas com um ar de poucos amigos. E, no meio delas, como sempre, o famigerado linguiça de Madrid.
«Foi ele! Foi aquele sacana! – pensou o Estorietas».
- Que é que vocês querem? – gritou lá para fora.
- Liberta a Ciete. Sabemos que está sequestrada por ti…
- É mentira. Estamos num projeto de pintura que levará a nossa terra à Glória…
- Estorietas, liberta a minha irmã, senão invadimos a tua casa.
- Nem pensem. Sumam-se ou chamo a GNR.
Fechou a janela e pegou no telefone enquanto a Ciete contemplava aterrorizada os seus gestos de louco. Do outro lado, ouviu-se:
- Aqui, posto da GNR de Vila Nova de Ourém. Diga em que podemos servi-lo.
- Fala o Estorietas. Por favor, ligue-me ao comandante. É muito importante.
A ligação não tardou a estabelecer-se. Do outro lado, ouviu a voz do comandante do posto.
- Então, meu caro Estorietas? Como passa? Há muito tempo que não falamos.
- Não há tempo a perder, comandante. Há uma manifestação contra o regime no largo em que se inicia a Rua de Castela. Exigem a libertação de uma tal Ciete, com certeza, uma perigosa comunista.
- Uma manifestação? Em Ourém? Não posso crer…
- Venha imediatamente, comandante. Oiça os urros deles…
E levou o telefone à janela abrindo-a para ele ouvir melhor.
O comandante compreendeu e imediatamente deu uma ordem.
- Guarda Ernesto, mobilize imediatamente vinte guardas e mande aparelhar os cavalos. Temos de intervir na Rua de Castela frente à casa do Estorietas.
- Às suas ordens, meu comandante.
No “atelier”, o Estorietas dizia para a Ciete:
- Não saias daí. Isto vai dar para o torto.
Voltou a abrir a janela e gritou lá para fora.
- Vão embora. Olhem que vão arrepender-se.
Mas a multidão de miúdos não desistia:
- Liberdade para a Ciete! Liberdade para a Ciete!
Pouco depois, os manifestantes ouviram um tropel ruidoso e, pelo largo, viram irromper um grupo de guardas da GNR, a cavalo, e com o comandante à frente que se apercebeu logo da situação.
«Mas não é possível! São miúdos. Aquele Estorietas em que estaria a pensar para falar numa manifestação contra o regime? O melhor é prendê-los e esclarecer tudo».
- Guardas, cerquem os manifestantes e conduzam-nos à prisão, sem violência.
Num instante, os miúdos com a Céu à frente, ficaram cercados pelos guardas e foram conduzidos à força para a prisão da GNR. Aos mais renitentes, os guardas forçavam com uma cabeçada dos cavalos, mas, garante-se, não houve qualquer violência naquela manhã.
No posto, o comandante desmontou, mandou abrir uma cela e ordenou:
- Vamos, entrem todos para aqui! Vamos ter de esclarecer o que se passou.
E mais uma vez, o João e a Teresinha foram parar à prisão da GNR. Desta vez, ele estava no meio de vinte miúdas aterrorizadas.
«Jejjjejjjjjejje. Nunca estive tão bem como neste momento. Espero que o comandante não as mande embora e eu possa consolá-las toda a noite».



Continua na próxima segunda-feira
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