quinta-feira, março 05, 2020

O poder é quem vence

No regresso para Ourém, o Avião lembrou-se de um pormenor:
- Esperem, há pouco passei pelo João que parecia ir a pé para Ourém. E ele mentiu-me dizendo que os miúdos foram na direção do Vilar. Será que tinha alguma coisa a ver com o desaparecimento do jeep e me quis despistar?
- Mas, se isso é verdade, e ele ia a pé, só podia vir da estrada do Carregal.
- O melhor é irmos por lá antes de regressar ao quartel.
Não tardou estavam junto ao jeep abandonado.
- Foi isso mesmo. Ele não quis assumir. É maluco de todo…
Pararam junto do carro abandonado e tentaram ligá-lo, mas o motor não dava sinal.
- Avariou ou não tem gasolina.
Entretanto, o João, num rebate de consciência, tinha avisado o quartel do local onde estava o jeep e um reboque chegou ali naquele preciso momento.
O Avião ia-se atirando ao filho do comandante, mas este tinha uns anitos a mais e obrigou-o a ter juízo.
- Por que é me mentiste quando passei por ti? Ia sendo agredido por um velhote estúpido à entrada do Vilar.
- Não leves a mal. Fiz confusão com as duas estradas. Quanto ao resto, já informei o comandante do que tinha a informar. Não armes em investigador.
As coisas estiveram um pouco tensas. Os próprios bombeiros não gostarem do que estavam a assistir, mas… quem tem o poder é quem o pode exercer e todos se vergaram ao peso da estratificação social.
- E os miúdos?
- Já devem estar em Peras Ruivas. A rapariga estava com pressa de chegar a casa para almoçar e regressar a Ourém na camioneta.
- Então, podemos voltar ao quartel.
E todos regressaram a Ourém nos carros dos bombeiros acompanhando o reboque que levava consigo o jeep abandonado…

quarta-feira, março 04, 2020

Um avião em apuros

O condutor do jeep chegou a pé ao quartel e o comandante foi logo ter com ele.
- Que se passa? Onde está o carro? E os miúdos?
- Desapareceram – respondeu ele em pânico. – Fui comprar cigarros ao Central e abandonei-os por uns instantes. Quando voltei, já não os encontrei. Alguém os levou mais ao jeep pela estrada do regato.
O comandante ficou fulo.
- Incompetente! Não se abandonam três miúdos quando os conduzimos.
Entretanto, chegou o Dr. Armando que deitou logo as mãos ao pescoço do bombeiro.
- Malvado! Sabes o que fizeste? Vou dar-te uma sova…
Os miúdos estavam em pânico pela falta dos colegas. Que lhes teria acontecido? O comandante dirigiu-se ao diretor do colégio.
- Por favor, doutor, tenha calma. Esse homem depende de mim, terei de ser eu a aplicar-lhe o castigo merecido. Agora, temos de encontrar o jeep e os miúdos.
O Zé Rito (Avião) ouviu aquilo e disse logo:
- Vou já iniciar as buscas pela estrada do regato.
Ligou a mota, acelerou e partiu por ali abaixo.
- Trrrrrroooooooo…to…to…to….to
O comandante virou-se para os outros e disse:
- Os meninos e as meninas vão para o refeitório onde temos uma refeição preparada. Esperem lá por nós enquanto procuramos os vossos colegas. – virou-se para o doutor Armando. – Por favor, doutor, pegue no seu carro e procure-os na direção do Castelo. Eu e outros bombeiros vamos dividir-nos por outras estradas de Ourém.
Num instante, a busca foi organizada e os alunos do CFL do segundo ano sentaram-se apreensivos no refeitório à espera dos colegas.
Entretanto, o Avião ia a toda a velocidade pela estrada do Regato na sua mota virtual.
«Vou ficar famoso. Hei de ser eu a encontrá-los».
- Zzzzzzzzz
Ao chegar à cruz do Regato parou.
«E agora? Para onde terão ido? Castelos ou Vilar?».
Foi na direção do Vilar. Pouco depois, cruzou-se com o João que ia a pé para Ourém e perguntou-lhe:
- Viste um jeep com três miúdos?
O João resolveu gozar:
- Vi, sim. Iam na direção do Vilar.
E o pobre do Avião lá se enfiou pela estrada do Vilar dos Prazeres numa busca infrutífera. Depois de correr mais de dois quilómetros encontrou uma loja de móveis. À frente dela, estava um velhote sentado num banco com um pau na mão e resolveu perguntar-lhe:
- O senhor viu passar aqui o jeep dos bombeiros com três miúdos lá dentro?
O velhote olhou-o irritado e respondeu:
- Meu amigo, não vi ninguém, garanto que não vi ninguém. E nunca lhe ensinaram que antes de dirigir-se a uma pessoa mais velha deve dizer bom-dia ou boa-tarde?
- Custa-me a crer que não os tivesse visto. O João, filho do comandante, disse que os viu nesta direção.
- Está a duvidar de mim? Vou ensiná-lo a ser um rapaz mais educado.
Levantou o pau e desfechou em cima do Zé Rito. O que lhe valeu foi que o Zé saltou de lado e evitou o golpe que podia ser fatal. Mas estava em maus lençóis. O velhote parecia doido. Espumava de raiva, não compreendendo que a sua chegada apressada não lhe tinha permitido ser absolutamente correto.
Mas o nosso Avião era muito rápido, muito mais do que uma pessoa de idade. Com um salto afastou-se enquanto ouvia um carro a fazer uma travagem. Lá dentro, vinham dois bombeiros:
- É o Zé Rito. Que fará aqui?
Num instante correram e detiveram o homem de idade.
- Tenha calma, ti’Alberto. Andamos à procura de três miúdos e um jeep roubado em Ourém.
Num instante, o velhote acalmou e voltou a garantir:
- Estive aqui toda a tarde. Eles não passaram por aqui. Só vi esse arruaceiro que duvidou de mim.
E o carro dos bombeiros, onde agora seguia o nosso querido Avião ainda surpreso com o desfecho da sua aventura, regressou a Ourém depois de uma busca falhada.

terça-feira, março 03, 2020

O desvio do jeep

Quando chegaram junto dos carros dos bombeiros, os miúdos ficaram encantados.
- Olha que carro tão giro – dizia a Ciete apontando o autotanque.
- E aquela é a ambulância conduzida pelo ti’ Júlio – respondeu o Julito, apontando outro carro – Tem ajudado a salvar centenas de vidas.
O comandante decidiu então uma coisa que alegrou muito toda a miudagem.
- Vamos dar uma volta com vocês pela vila. Tomem lugar nos carros.
Havia um jeep e um carro maior com muitos lugares disponíveis para o passeio ambos já com os respetivos motoristas a postos. A ideia era dar uma volta à vila indo na direção de Tomar e, junto à bomba de gasolina, virar para a rua de Santa Teresinha e regressar pela parte debaixo da vila. Claro que as famílias estariam a ver o que seria uma grande alegria para todos.
O Estorietas, o Amândio e a Mari’mília tomaram lugar no jeep, os outros estudantes foram para o carro maior. E o cortejo da turma do segundo ano do CFL em carro de bombeiros iniciou-se pelas ruas de Ourém.
- Olhem, – dizia a Ciete para os amigos – está ali o meu pai.
Efetivamente, com cara de poucos amigos, o sr. Bragança contemplava aquela cena pensando como era possível tal desvario, tanta insegurança entre a miudagem. Mas os carros lá seguiam pela Avenida indiferentes a tudo. O carro maior à frente, atrás o jeep com o Estorietas ao lado do motorista em pé como via fazer aos bombeiros, mas bem agarrado ao painel frontal. E assim foram percorrendo Ourém.
Mais à frente, o pai da Leninha mostrava as suas habilidades em cima da bicicleta, conduzindo com as pernas viradas para a faixa central da estrada, enquanto lá atrás se ouvia o ruído das sirenes dos carros. Um equilíbrio notável.
Frente à tipografia do Melo, o bombeiro que conduzia o jeep e, quando o outro carro já não se via, parou e disse:
- Vou ali ao Central comprar tabaco. Esperem por mim, é um instantinho.
E abandonou o jeep, deixando as chaves no interior do mesmo.
- Estou farta disto – dizia a Nicha – precisava de ir a casa a Peras Ruivas almoçar e nunca mais nos despacham. Vou perder a camioneta da uma.
Como o Amândio tinha mais uns anitos, o Estorietas perguntou-lhe:
- Não eras capaz de conduzir isto? Podíamos ir pôr a Nicha a casa e voltar…
O Amândio, que já tinha feito a partida do dia, retraiu-se:
- É melhor não. O dr. Armando ainda nos dá uma sova.
Nesse momento, chegou um rapaz um pouco mais velho, louro, com bom aspeto junto deles.
- Olá. O que estão a fazer aqui?
O Estorietas já o conhecia. Era o João, filho do comandante dos bombeiros, e passava muitas vezes na rua de Castela a conduzir um automóvel em alta velocidade.
- Estamos à espera do bombeiro. Mas demora-se tanto e aqui a nossa colega precisava de chegar a Peras Ruivas para almoçar.
- Ah! Eu levo-os lá.
Saltou para dentro do carro, ligou-o e logo acelerou fortemente fazendo o carro saltar e arrancar com tal velocidade, depois de as rodas chiarem como umas loucas, que o Estorietas ficou logo sentado a seu lado.
- Aiiiôôô, Silver!!! – gritava o João.
Pouco depois, desciam na direção do regato.
Numa passadeira, uma senhora de mais idade ia a atravessar.
- Ah! Ah! Vou passar-lhe por cima.
Mas era só a gozar. Travou com força um metro antes da passadeira e o Estorietas ia sendo cuspido. O indivíduo era meio louco e fazia seguir o carro com elevada velocidade pelo que começavam a ter algum receio. Pelo caminho, ia rosnando:
- Eu sou o melhor condutor de Ourém. Vão ver como eu conduzo.
- Vai com mais calma, senão ficamos aqui…
Viraram na direção do Vilar, mas, uns cem metros à frente, tomaram a direção do Carregal. Aí ele virou-se para trás e olhou o Amândio, enquanto o carro continuava em frente:
- E tu, donde és? Não te conheço.
- Sou da Urqueira…
- Da Urqueira? E como vens para o colégio?
- Venho todos os dias de bicicleta…
Continuou a olhar para trás enquanto o Estorietas ao seu lado de vez em quando fazia o gesto de travar.
- E tu? És bem bonita. Também andas no colégio?
- Sim, sou colega do Luís e do Amândio…
- Tenho a impressão que vou passar a visitar o colégio mais vezes.
- Tem cuidado – disse o Estorietas. – Olha que o sr. Nunes não é para brincadeiras está sempre de atalaia.
- Pensas… aquele pinhal esconde muitos segredos que ele nunca desvendou.
O carro seguia agora mais devagar. O João parecia bem mais calmo, mas de repente sentiu-se que algo não estava bem. O jeep começou a soluçar e pouco depois parou junto à quinta de Santa Bárbara.
- Bolas! Há qualquer coisa que não está bem. Não deve ter gasolina.
Saltou do carro e disse para os miúdos:
- Têm de seguir a pé. Peras Ruivas já não é longe. Eu regresso a Ourém para pedir um reboque.
Entretanto, em Ourém, quando o legítimo condutor do jeep chegou ao local onde tinha deixado o carro notou que o mesmo já ali não estava e lançou as mãos à cabeça.
- Ai! Agora é que estou tramado…

segunda-feira, março 02, 2020

O toque da sirene

Já passava das 11 horas quando a porta do salão se abriu e o Julito convidou os outros miúdos a seguirem-no ao piso inferior.
Depois de um lanço de escadas pararam junto de um botão vermelho.
- O que estão a ver é o comando da nossa sirene. Sempre que necessitamos de bombeiros para algum problema é com ela que os avisamos.
- E os toques têm algum significado? – perguntou o Estorietas.
- Neste momento, está mais ou menos convencionado para todo o país o seguinte:
1 Toque: Necessidade de Bombeiros para Intervenção em Acidente de Viação
2 Toques: Necessidade de Bombeiros para Intervenção em Acidente de Viação com Encarcerados
3 Toques: Necessidade de Bombeiros para Intervenção em Incêndio Florestal ou Inculto (rural)
4 Toques: Necessidade de Bombeiros para Intervenção em Incêndio Urbano
- Não podemos ouvir um toque? – perguntou o Amândio
- Não convém. Isso iria chamar escusadamente outros bombeiros ao quartel. Agora vamos ver o nosso pátio onde por vezes se desenrolam alguns dos nossos exercícios.
E avançaram todos, atrás do Julito, para o pátio do quartel.
Sem ninguém dar por isso, o Amândio deixou-se ficar para trás e, quando ninguém o via, pressionou o botão da sirene.
- Uma… duas… três… quatro – murmurou. – Toque para incêndio urbano. Vamos ver o que acontece.
E escapuliu-se.
No pátio, os miúdos ouviram a sirene e ficaram excitados.
- Olha a sirene a tocar. Vamos ver...
- Tenham cuidado – disse o Julito. – Não se metam à frente dos carros.
Pouco depois, começaram a ver chegar esbaforidos algumas pessoas que começavam logo a fardar-se e a saltar para dentro dos carros.
- Então, onde é o fogo? – perguntou o Joia.
Nesse momento, apareceram o comandante, o Dr. Albano e o Dr. Armando.
- Quem é que tocou a sirene de incêndio?
Foi um silêncio abissal. O Amândio já se tinha juntado ao resto do grupo sem ninguém ter dado pela sua ausência e permaneceu calado como se não fosse nada com ele.
Os voluntários que tinham comparecido perceberam logo.
- Deve ter havido um engraçadinho. – disse o Joia – Mas deviam calcular que estávamos no trabalho.
O malandro do Amândio, esse, ria-se à socapa e deu um toque ao Estorietas.
- Pensavam que passavam a manhã a torturarem-nos e a gozar connosco. Foi bem feita…
Do outro lado, o Dr. Armando prometia-as:
- Se sei que foi algum de vocês, vai ficar com o traseiro bem quente…
Mas o comandante acalmou-o:
- Tenha calma, doutor, não há problema. Foi qualquer distração que não se repetirá. E ainda bem que não houve nada, pois assim os miúdos podem ver e experimentar os nossos carros.

sábado, fevereiro 29, 2020

Como fazer amigos fora do FB em estilo Facebook

Actualmente, estou a tentar fazer amigos fora do Facebook, mas usando os mesmos princípios.
Todos os dias saio à rua e durante alguns metros acompanho as pessoas que passam por mim e explico-lhes o que comi, como me sinto, o que fiz ontem, o que vou fazer mais tarde, o que vou comer esta noite e mais coisas.
Entrego-lhes fotos dos meus filhos, dos meus netos, do meu cão, fotografias minhas no jardim, na piscina, e fotos do que fizemos no fim de semana e nas férias.
Também caminho atrás das pessoas, a curta distância, ouço as suas conversas e depois aproximo-me delas e digo-lhes que “gosto” ou que "adoro" o que ouvi. Peço-lhes para sermos amigos a partir desse momento e faço todo o tipo de comentários sobre tudo o que li e ouvi nesse dia, quer em notícias, revistas ou internet, bem como tudo o que falam as outras pessoas.
Mais tarde, partilho tudo quando falo com outras pessoas.

E funciona : já tenho 3 pessoas que me seguem…

São dois polícias e um psiquiatra.

quarta-feira, fevereiro 26, 2020

Uma visita aos bombeiros

Uma manhã, no final de uma aula de Ginástica, o dr. Albano anunciou a realização de uma visita de estudo dos alunos do segundo ano do CFL ao quartel dos bombeiros.
- E posso tocar a sirene? – perguntou a Leninha.
- Têm que comportar-se com civismo. Não se esqueçam que estão num local muito importante para todos os que vivem na nossa terra que importa ter a funcionar com o toda a eficácia. Não pode haver manobras de diversão.
- Um dia, tentei deitar fogo às carumas que tinha lá em casa na Rua de Castela para ouvir a sirene e os ver chegar a apitar – disse o Estorietas.
- Espero que os teus pais te tenham dado a devida lição. Se não o fizeram, fá-lo-ei eu.
E o professor de Ginástica continuou a dar algumas instruções a toda a turma. Era uma pessoa muito rigorosa.
- Amanhã, apresentamo-nos todos aqui em frente ao Colégio pelas 10 horas, vamos formar a três e ir em passo comandado por mim até ao quartel.
Imaginem o gozo que foi, no dia seguinte, numa manhã primaveril, ver os miúdos do segundo ano do CFL irem em formação até ao quartel dos bombeiros com o Dr. Albano muito perfilado ao seu lado a dar a voz de comando:
- Em frente. Muarche…
O grupo arrancou bem alinhado, não fosse a mão pesada do diretor cair-lhes em cima, e foi caminhando, braços direitos para a frente e para trás, sempre ao som de:
- Esquerdo… Esquerdo…
Os miúdos já bufavam em frente à tasca do Frazão, mas a voz do médico continuava sem hesitações:
- Esquerdo… esquerdo… esquerdo…
Na rua, todos paravam para ver aquele singular espetáculo e muitos desatavam a rir. Atrás dos miúdos, começou a formar-se uma pequena fila de automóveis que, sem apitar, respeitava o seu andamento. Outros miúdos apontavam para eles e riam-se. Um deles, o Julito, resolveu seguir aquele estranho grupo.
«Que irão fazer? Parece que vão na direção dos bombeiros…».
Pouco depois, paravam em frente aos bombeiros e o Dr. Albano deu mais uma ordem:
- Marcaaaaar passo…
E aqueles pesitos a bater no chão, todos ao mesmo tempo, produziram o caraterístico ruído. Encantado, junto ao comandante dos bombeiros, o Dr. Armando comprazia-se com a lição de civismo que estava a propiciar a tantos meninos.
«Ainda um dia, vamos ter aqui a Mocidade Portuguesa. Dessa maneira, é que ficariam bem educados.».
O Dr. Albano trocou umas palavras com o comandante e, depois, virou-se para os miúdos que continuavam a marcar passo.
- Podem parar. O sr. Comandante dos bombeiros vai dar início à visita de estudo.
Quando começaram a dispersar da formatura, o Julito aproximou-se do Estorietas:
- O que é que estão aqui a fazer?
- É uma visita de estudo da nossa turma organizada pelo Dr. Albano.
- Engraçado. Ainda um dia hei de ser comandante disto…
- Brincas…
Nesse momento, o comandante viu o Julito e disse para ele:
- Dá-nos aqui uma ajuda para mostrar as instalações aos alunos do CFL.
E, naquele dia, o Julito, uns anitos mais novo que os alunos da turma, foi o nosso guia numa visita às instalações dos bombeiros. É que ele já conhecia muito melhor o quartel do que a gente crescida pois, desde pequenino, era voluntário e acompanhava aquela maravilhosa equipa.


terça-feira, fevereiro 25, 2020

Pensamentos profundos


Quando Galileu demonstrou que a Terra girava… já os bêbados sabiam disso há séculos! ”

“As nuvens são como os chefes… quando desaparecem fica um dia lindo…”
  “ 97% da população não acredita nos políticos, os outros 3% são os políticos.”
 “ A hierarquia é como uma prateleira: quanto mais no alto, mais inútil.” 

 “ Alguns homens gostam tanto das suas mulheres que, para não as gastarem, preferem usar as dos outros.”

“ Por maior que seja o buraco em que te encontras, sorri, porque por enquanto ainda não há terra por cima.”

“ Se te estás a sentir sozinho, abandonado, a achar que ninguém te liga… atrasa um pagamento.”

 “ Se não puderes ajudar, então atrapalha, afinal o importante é participar.”

" Errar é humano... colocar a culpa em alguém é estratégico.”

“ Antes, eu tinha amnésia, hoje não me lembro.”

“ Não bebas enquanto conduzes! Porque podes entornar a cerveja.”

“ Bebo porque sou egocêntrico… gosto quando o mundo gira à minha volta.”
 “ Vivemos tempos em que o fim do mundo não assusta tanto quanto o fim do mês.”

“ Eu não sou contra nem a favor, muito pelo contrário!”

 “ O pára-quedas é o único meio de transporte que, quando avaria, chegas mais depressa ao destino.

Texto enviado por mão amiga ao Estorietas com expresso pedido de publicação

Uma cena antológica


Mas voltemos à nossa Ourém de 1966. Na casa do Dr. Pera, ninguém se preocupava com as funestas consequências do corona vírus 54 anos depois. Pelo contrário, brincava-se, ria-se, ouvia-se música e dançava-se com sofreguidão.
Dois jovens oureenses decidiram protagonizar uma cena antológica. Eu até julgo que eles não conheciam aquelas figuras que me fazem lembrar. Mas, num momento mágico, parece que o Rui e o Jó nos trazem o Goucho e o Harpo. Atrás deles, o Estorietas e o All Simon vigiam o decorrer da cena. Ao lado, a Lili, a Teresinha e a Isabel, mais alguém que não reconheço, também mostram estar presentes.
E há aquele miúdo. Muito mais novo que nós todos. Lembro-me da cara dele como se fosse ontem, associo-o ao sr. David e à Fafá, mas não me lembro do nome dele.
Por que é que em todas estas fotos aparece um miúdo a rir, a apontar…?

segunda-feira, fevereiro 24, 2020

As citações de um marxiano

Estas são um exclusivo do Groucho: 
„Não entro para clubes que me aceitam como sócio.“
“Um gato preto a atravessar o meu caminho significa que o animal está a ir para algum lado.“
“Se acredito na vida após a morte? Não sei nem se acredito na vida antes da morte! Acho que acredito na morte durante a vida“
“Eu nunca esqueço uma cara, mas no teu caso ficarei satisfeito em abrir uma excepção.“
“Eu bebo para fazer as outras pessoas interessantes.“
“A sinceridade e a honestidade são as chaves do sucesso. Se puderes falsificá-las, estás garantido.“
“Eu tenho princípios. Se você não gosta desses, eu tenho outros.“
“Há muitas coisas na vida mais importantes que o dinheiro, mas custam tanto…“
“Acho a televisão muito educativa. Todas as vezes que alguém liga o aparelho, vou para outra sala e leio um livro.“
“A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los em todos os lados, diagnosticá-los incorretamente e aplicar as piores soluções.“
“Se já ouviste esta história antes, não me pares, porque eu gostaria de a ouvir outra vez.“
“Eu não sou vegetariano, mas como animais que são.“
“Atrás de todo homem bem-sucedido, existe uma mulher. E, atrás desta, existe a mulher dele.“
“O matrimônio é uma grande instituição. Naturalmente, se você gostar de viver numa instituição.“
Só há uma forma de saber se um homem é honesto… pergunte-o. Se ele disser 'sim', então você sabe que ele é corrupto.“

Recordando os irmãos Marx

Os Irmãos Marx foram um grupo de irmãos comediantes que fizeram teatro, cinema e televisão.
Eram eles: Chico (Leonard Marx, 22 de março de 1887 - 11 de outubro de 1961), Harpo (Adolph Arthur Marx, 23 de novembro de 1888 - 28 de setembro de 1964), Groucho (Julius Henry Marx, 2 de outubro de 1890 - 19 de agosto de 1977), Gummo (Milton Marx, 23 de outubro de 1893[1] - 21 de abril de 1977), e Zeppo, (Herbert Marx, 25 de fevereiro de 1901 - 30 de novembro de 1979). Outro irmão, Manfred, nasceu em janeiro de 1886 mas morreu na infância em 17 de julho de 1886.
Nascidos em Nova Iorque, os Irmãos Marx eram filhos de imigrantes judeus. A mãe, Minnie Schoenberg, da cidade Dornum na Alemanha, e o pai, Samuel "Frenchie" Marx (nascido Simon Marrix), vindo da Alsácia, região da França.
Mostraram talento musical desde a infância. Harpo, especialmente, podia tocar vários instrumentos, inclusive a harpa, o que fez com frequência em filmes. Chico foi um excelente e histriônico pianista, e Groucho tocava o violão.
Começaram no vaudeville, quando seu tio Al Shean já atuava, como parte da dupla Gallagher and Shean. A estreia de Groucho foi em 1905, como cantor. Em 1907 ele e Gummo cantavam juntos com Mabel O'Donnell no trio The Three Nightingales. No ano seguinte Harpo se tornou o quarto Nightingale (rouxinol em português). Em 1910 o grupo incluiu a mãe dos Marx e uma tia, Hannah, e mudou para The Six Mascots.
Certa noite, em um teatro de Nacogdoches, Texas a apresentação foi interrompida pelos gritos vindos de fora por causa de uma mula descontrolada. A plateia correu para fora a fim de ver o que estava acontecendo e, quando retornou, Groucho, enfurecido com a interrupção, disse que "Nacogdoches está cheia de baratas" e outras coisas. Em vez de se enfurecer, a plateia gargalhou e depois a família considerou a possibilidade de investir no potencial cômico da trupe.
Progressivamente, as ações desenvolveram-se do canto com comédia incidental ao esquete passado em uma sala de aula, com Groucho como professor e os outros como alunos. Gummo lutaria na Primeira Guerra Mundial ("Qualquer coisa é melhor que ser ator!"), Zeppo substitui-lo-ia nos anos finais do vaudeville, até a Broadway e depois nos filmes na Paramount.
Nesta época, os irmãos, agora The Four Marx Brothers, começaram a desenvolver o seu peculiar tipo de comédia e a desenvolver seus personagens. Groucho começou a usar seu bigode pintado; Harpo, a usar buzinas de bicicleta e nunca falar (Harpo não era mudo), Chico, a falar com um falso sotaque italiano, desenvolvido em campo com os desordeiros da vizinhança.

Fonte: Wikipedia

domingo, fevereiro 23, 2020

O assalto à mansão

Mas houve um ano, se não estou em erro 1966, que o marasmo foi completamente quebrado. Pelo fim da tarde, no Avenida alguém se lembrou:
- Tenho umas roupas lá em casa. Podemos disfarçar-nos e fazer um Carnaval a sério.
- E fazemos um assalto à casa do Zé Augusto.
Apesar de não me lembrar muito bem, a foto documenta que também lá estava.
Enquanto se vestia, o Jó ia recordando:
- Fora o Toná e o Chico César, ninguém se veste para celebrar o Carnaval. Houve um ano que uma cana de foguete atravessou uma perna do César. No fundo, até teve sorte.
E, pela noite, um enorme grupo, bem disfarçado, aproximou-se das bombas de gasolina da Galp no extremo da Avenida do lado de Tomar e tocou à porta de uma das pessoas mais influentes de Ourém.
- Quem são? O que pretendem?
Não foi preciso muito para o Zé Augusto nos reconhecer e, pouco depois, todos estavam a confraternizar no interior da habitação. O próprio anfitrião, embora um pouco tenso, participou na foto de grupo. E agora, o grande desafio:
Quem conhece os participantes no assalto? Reconheço a Lili, a Mena Porto, a Guida, a Isabel Simões, a Teresinha… mas a rapariga de barbas e chapéu negro escapa-se-me, bem como as restantes. Quanto aos foliões, reconhece-se facilmente o Jó Alho e o Rui Themido à frente e, lá atrás, o Alfredo, o Jó Rodrigues, o Estorietas, e o Zé Quim com um ar cândido que nunca julguei possível nele.

sábado, fevereiro 22, 2020

Parecenças assumidas



E vejam aqui por que razão o João se achava parecido com o Pequeno Castor.
O simpático Pequeno Castor acompanhava para todo o lado o terrível Red Ryder, também conhecido por Cavaleiro Ruivo, uma figura criada por Fred Harman (visite aqui o museu de arte deste criador em Pagosa Springs, Colorado).
O Pequeno Castor era um mouro de trabalho, era um miúdo valente e salvou por diversas vezes a vida do seu amigo. Mas não gostava muito de tomar banho. Aliás, com a pouca roupa que vestia, bastavam umas borrifadelas de chuva para sacudir as montanhas de pó que o cobriam.
O Pequeno Castor tinha também uma namorada. Um dia, ela disse-lhe:
- Sabes? Vou realizar uma grande viagem para fazer as compras de Natal. Que prenda queres que te traga?
Ele pensou um bocadinho e, depois, com o seu sorriso matreiro, respondeu:
- Traz-me água de Colónia...

Um índio chegou ao Carnaval de Ourém

Era um Carnaval triste e cinzento. Em Ourém, o João procurava motivos para alegrar os seus amigos.
«Que falta de ideias nesta malta! Parece uma terra de mortos. Que hei-de fazer?»
Teve então uma excelente ideia.
«Vou disfarçar-me de índio. Eu sei que sou parecido com o Pequeno Castor e vou surpreender toda a gente no Avenida».
E não foi preciso muito para estar disfarçado. Para dar maior rigor à sua vestimenta, não esqueceu de munir-se de uma boneca, o seu brinquedo predileto.
Saiu de casa do avô, o Dr. Preto, pela porta do quintal para os familiares não o verem e encaminhou-se para o Café Avenida.
Lá dentro, reinava a pasmaceira do costume. Uns jogavam King, outros faziam as bolas do bilhar saltar e quase partir os vidros, o Ezequiel já estava com a cabeça doida… Imaginem o que foi quando o João entrou disfarçado de índio, embora em pleno Carnaval.
Ninguém o reconheceu.
- Olha um índio – dizia o Kansas. - Vou já buscar a minha pistola.
Naquela altura, para além do Ezequiel, o Avenida tinha um empregado novo que ainda nem conhecia bem a terra, mas queria mostrar-se um grande defensor do espaço. Não se lembrando que era Carnaval, foi logo na direção dele e não teve receio de mandar uma tirada xenófoba para proteger o negócio dos patrões.
- Rua! Cães, índios, pretos, ciganos e comunas não se toleram neste espaço…
O João pensou que ele estava a brincar e mostrou-lhe a boneca:
- Olha, tenho um tesouro aqui dentro. Queres ver? Jejjejjejjjeje…
Carregou num botão da boneca e ela fez xixi para a cara dele.
O empregado ficou danado, levantou a bandeja e desfechou com ela na cabeça do João que se estatelou imediatamente no chão. O Ezequiel veio a correr e, com o seu bom coração, ajudou-o a levantar.
- Oh! É o neto do Dr. Preto. Não sabes o que fizeste, alimária…
Todos estavam boquiabertos e admirados com o desfecho daquela cena. No dia seguinte, o malvado empregado que deu com a bandeja na cabeça do João já não se apresentou ao serviço. Tinha sido despedido… Ourém sempre respeitou as diferenças.

sexta-feira, fevereiro 21, 2020

O sofisma da Economia Liberal

Não era fácil a alguém com a formação do ISEG frequentar um curso na Nova dado o seu pendor para a Economia liberal.
Ainda me lembro de uma passagem de uma aula de Economia com o inenarrável Pedro Arroja. Dizia ele depois de muitos ataques àquelas pessoas que eu gostava:
- O mercado é o melhor regulador para a Economia. É ele que permite determinar o que as empresas devem produzir…
Já estava irritado e levantei a mão. O senhor foi delicado e deixou-me falar.
- O mercado não pode ser o melhor regulador enquanto houver consumidores que não podem exprimir as suas preferências, pois não têm dinheiro para o fazer. Só o seria se houvesse uma justa política de redistribuição de rendimento o que me parece impossível nesta sociedade.
O homem respirou fundo, mas não levou a mal.
- Há muito tempo que oiço esses argumentos, mas não tem razão. O plano económico anual ou quinquenal só pode conduzir a uma ditadura dos dirigentes políticos.
E assim me calou este homem que prefere a ditadura do mercado e da propriedade à dos dirigentes que procuram um pouco de justiça social… Ele também tinha a sua razão já que a experiência histórica demonstrava que muitos destes se tinham transformado em verdadeira burguesia de Estado e outras em caricaturas que seriam abominadas por Marx e Engels.

quinta-feira, fevereiro 20, 2020

Na hora de enriquecer à força

Penso que conseguem avaliar o sacrifício de alguém que trabalha numa empresa multinacional e, em simultâneo, frequenta um curso. No caso do Estorietas, isto era elevado ao expoente máximo. Nem sei como foi possível, olho para trás e compreendo os colegas que me chamavam louco. Imaginem esta rotina diária:

-Levantar pelas 5.30
- Às 7, apanhar o comboio, sair em Alcântara, apanhar o autocarro, atravessar o Casal Ventoso em deprimente espetáculo, sair perto da Penitenciária.
- Pelas 8, junto ao Palácio da Justiça, descer umas escadas de acesso à Nova, atravessar o edifício e entrar no Instituto de Estatística e Gestão da informação. Assistir a aulas.
- Pelas 11, sair, subir as escadas, descer o parque Eduardo Sétimo e pouco depois entrar na Shell, na Avenida da Liberdade.
- Despachar coisas, almoçar
- Pelas 14, apanhar o autocarro 6, ir dar uma aula ao ISEG e retornar
- Trabalhar mais um bocadinho
- Pelas 18.30, sair para o ISEG para frequentar outro Mestrado
- Chegar a casa e cair na cama como morto.

Isto ocorreu muitas vezes no ano letivo de 1996/97. Claro que havia um local onde alguém me observava e não estava satisfeito. E, apesar de uns dias antes, me ter sido atribuído um prémio de desempenho, não tiveram o menor problema em me chamar a uma sala e aplicar-me o castigo dos castigos para os que trabalhem por conta de outrem. Ainda recordo a cara do cínico:
- Luís, vais ter oportunidade de fazer o que quiseres.
Eu não entendi muito bem, mas ele explicitou:
- Levas umas brasas e vais bazar daqui para fora. Assim, podes frequentar mestrados à vontade…
Fizeram as contas. Eu também não me ralei muito apesar do choque momentâneo e do choque na família. Até pedi para me deixarem sair mais cedo. Estava farto deles porque aquela subjugação era exasperante. Não se fazia o que era lógico. Quem mandava era o grupo que, sistematicamente, tirava o tapete a quem pensava estar mais ou menos tranquilo. Eram todos uns cagados que não alinhavam nos magníficos ensinamentos do Estorietas.
Os colegas também eram uns cínicos, sempre a chamar a atenção para o facto de não estar presente por ter ido para o Mestrado. Resta acrescentar que só entrei naquela empresa com uma autorização expressa da administração da mesma para dar aulas… a qual foi em breve esquecida apesar dos meus magníficos serviços.
E, cheio de massas, dediquei-me ao ensino… nunca mais lá pus os pés…

quarta-feira, fevereiro 19, 2020

Tempestade sobre Ourém

Era uma quinta-feira, dia de mercado em Ourém. O mês era o de Maio de um ano da década de 50. Depois de uma manhã de muito Sol, eu e minha mãe dirigimo-nos a casa da tia Elvira que ficava numa pequena elevação frente à casa dos pais do Zé Quim. Ao lado, era a casa dos padrinhos do Rui Themido e as traseiras davam para quintais.
Ao longo da tarde, as iguarias do mercado foram surgindo e provadas. Pevides, tremoços, amendoins, nozes e amena cavaqueira numa luminosidade que entrava pelas largas janelas das traseiras enquanto um chouriço derretia a sua gordura numa chama de álcool.
Pouco a pouco, a luminosidade foi desaparecendo, o ar ganhou como que uma sensação de eletricidade.
- Está a escurecer. - dizia a tia Elvira
- Deve ser uma nuvenzita – respondeu a Julita, uma empregada que acompanhou os meus tios até ao fim da vida.
Ela dizia isto para nós não desmobilizarmos, porque adorava a companhia e a conversa.
De repente, apareceu um relâmpago e, pouco depois, ouviu-se qualquer coisa parecida a pedras da calçada a rolarem umas sobre as outras.
- TTRRRRROOOOOTUMTUM.
- Olha, já está a trovejar. O melhor é irmos embora, Luís.
- Nem pensar. As pevides são excelentes.
Novo relâmpago. Pus-me a contar os segundos que passavam. Quando se ouviu o trovão, disse:
- Passaram 10 segundos. Ainda está longe, a mais de três quilómetros e meio.
Todos olharam para mim com uma certa estranheza, mas voltámos ao petisco e já começámos a sentir o cheirinho do chouriço assado…
- Hum! Já deve estar bom. Vamos provar…
Ainda não tinha acabado de falar quando tudo aconteceu.
- PUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!
Uma formidável detonação abrasou os nossos ouvidos ao mesmo tempo que uma bola de fogo parecia dançar frente à janela das traseiras. Foi o terror… decerto Nosso Senhor estava a castigar-nos por não o respeitarmos quando ralhava com os oureenses.
Desatámos a correr para a porta. Infelizmente, esta era estreita pelo que ficamos presos uns contra os outros e contra ela. Espalhámo-nos pelo chão em três tempos, mas breve vimos que estávamos vivos.
- Que coisa horrível! – dizia a tia Elvira.
- O raio deve ter caído muito perto daqui - - respondeu a Julita.
Uma enorme chuvada abateu-se sobre Ourém. O trovão seguinte já ecoou bastante longe e, pouco depois, o Sol voltava a brilhar. Mais tarde, viemos a saber que uma árvore tinha sido atingida pelo raio e estava caída na estrada.
Nunca mais houve trovoadas destas em Ourém…

terça-feira, fevereiro 18, 2020

Recordação da "Maioria Silenciosa"

Na tarde de 27 de Setembro de 1974, fomos chamados ao comando operacional.
- Prepara-se uma manifestação dita da «Maioria Silenciosa». Trata-se de um golpe encapotado em que podem estar implicadas figuras do antigo regime. Vocês ficam encarregues de ir prender X…
E as operações foram sendo distribuídos pelos diferentes elementos. Fiquei num grupo com dois bons amigos, o Albino e o Jorge. O primeiro era extremamente delicado, muito sensível que não fazia mal a uma mosca. O Jorge era um bocadinho mais perigoso. Madeirense, ultra inteligente e um fanático pelo PCP que tinha passado as noites a seguir ao 25 de Abril nos estúdios da RTP do Lumiar carregado de granadas à cintura.
O plano era simples. Levar as armas (G3) para minha casa na Morais Soares, por volta das 22 sair, fardados, colocá-las no carro e ir à zona do Apolo 70, esperando até à meia-noite para proceder à detenção.
Tudo foi decorrendo na maior das calmas. Até visitámos o Apolo 70, claro, fardados, mas sem as armas. E, à meia-noite, dirigimo-nos à casa de X. Batemos à porta e logo se ouviu uma voz:
- Quem é?
- Somos do COPCON. Procuramos X. Ele está?
- Não, não está cá…
- Abra a porta por favor. Temos de verificar.
Quem estava do outro lado não abriu a porta pelo que a única solução foi deitá-la abaixo. O Jorge foi buscar um machado e, daí a pouco, uma pancada avisou as pessoas que não estávamos a brincar. Não foi preciso mais nada. A porta abriu-se e apareceram três senhoras aterrorizadas à nossa frente.
- Onde está X?
- Não sabemos, não está cá…
Em vão o procurámos pela casa e pela escada de salvação enquanto o Albino pedia desculpa às senhoras. O Jorge até o procurou no guarda-vestidos. E acabámos por desistir…
No regresso ao posto de comando, soubemos que as coisas estavam a correr bem, algumas detenções de figuras do fascismo tinham sido processadas e que a nossa era uma das poucas mal sucedidas. Alguém sugeriu:
- Ele tem uma quinta na zona de Setúbal.
E nem olhámos para trás. O carro do Jorge era um Ford Escort muito parecido ao famoso Datsun 1200 que galgou a distância até à quinta em pouco mais de meia-hora. Seguiam-nos mais dois ou três carros carregados de milicianos armados entre os quais o maluco do Rodrigues.
Finalmente, fomos melhor sucedidos. Dai a pouco, a figura de X era detida e o grande Rodrigues exibia uma pressão de ar como troféu:
- Olhem, até tinha armas em casa…
Bolas! O pessoal até tinha razão. Mas não precisávamos de exagerar tanto…


segunda-feira, fevereiro 17, 2020

Amigos por correspondência

Um dia, o Jó Rodrigues chegou todo acelerado ao Café Avenida com um exemplar da revista Plateia.
- Olhem o que vem aqui. Podemos publicar pedidos de correspondência e conhecer novas miúdas…
- Boa ideia – disse o João – Já estava a ficar um pouco farto destas.
Passaram a tarde a redigir a nota de pedido de correspondência para enviar à revista, considerando-o perfeito ao fim de algumas horas.


Jovem dinâmico que gosta de leitura, de praticar desporto, de ouvir música e viajar procura corresponder-se com menina com excelentes qualidades morais e gostos semelhantes. Por favor, envie fotografia.

Claro que as qualidades evidenciadas estavam um pouco exageradas. O Jó gostava de ler livros do Vilhena embora tivesse numa estante em casa as obras completas do Aquilino Ribeiro. Em termos de desporto, era enorme preguiçoso, gostando de andar à caça com uma pressão de ar e abater inocentes pardalitos. Claro que era excelente ouvinte de música como já testemunhei várias vezes e, quanto a viagens, Lisboa e Nazaré eram os seus destinos favoritos.
Com a nota redigida, começaram as invejas:
- As respostas vêm para mim, para minha casa – dizia o Jó.
- Não, não. Vêm para casa do meu avô – respondeu o João – Eu também ajudei a redigir isto.
- Mas se o teu avô ou a tua tia apanham as cartas não tas dão…
Lá se entenderam em repartir as cartas que o Jó recebesse na sua morada.
- E agora para onde mandamos isto?
- Para a revista Plateia da Agência Portuguesa de Revistas, na Rua Saraiva de Carvalho – respondeu o João, já a bufar. – Está tudo aqui.
Passados dias, o anúncio apareceu publicado na revista e não foi preciso esperar muito para começarem a chegar as cartas. Eu e o Rui fomos até casa do Jó e ele deu-nos a novidade:
- Já recebi cartas de miúdas. Há aqui uma fotografia muito gira. As outras vou dar ao João…
E efetivamente uma das miúdas era bem bonita, bastante dotada, fazendo lembrar uma artista do cinema francês. Na carta, evidenciava excelentes qualidades e pedia uma foto ao Jó. Este não se fez esperar e, pouco depois, estava a responder-lhe e a convidá-la para visitar Ourém. Queria mostrar-lhe os pontos de interesse da terra: os Castelos, o Café Avenida, o jardim frente à Câmara… a enumeração não é exaustiva, tantos os pontos de interesse da nossa terra naquele tempo.
Um dia, vimos o Jó chegar ao Avenida todo aperaltado. Nunca disse porque estava assim, mas, pouco depois, dirigiu-se até à garagem das camionetes dos Claras e aí ficou à espera. Uma camioneta parou e uma jovem saiu lá de dentro:
- Olá! És o Jorge? Eu sou a Mariana…
O Jó olhou-a surpreso. O aspeto da miúda não coincidia com a da fotografia. Era feiota, usava óculos de aros negros e tinha uns grandes dentes de coelho…
- Mas tu não és a rapariga da foto que enviaste.
- Jó, decerto não leste bem a minha carta. Eu disse que apreciava muito a BB e que queria ser como ela, bonita como ela… não te mandei nenhuma foto minha. Mas que tens? Não vás embora. Eu prometo que vou ser como ela…
O Jó já nem a ouvia. Cerrou os dentes e disparou em direção ao Avenida, deixando-a sozinha na estação de camionagem. Pelo caminho ia remoendo:
- Nunca mais vou em conhecimentos por correspondência.
Um pouco afastado, o João assistiu a toda aquela cena e ria-se da partida pregada ao amigo. Pouco depois, chegou junto da miúda, passou-lhe o braço pelos ombros e disse:
- Pronto, não fiques triste. Fizeste o que tínhamos combinado, eu levo-te de volta a casa e ainda podemos divertir-nos na feira de Leiria.

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