quarta-feira, dezembro 04, 2019

Será que esta conversa existiu?


Preparem-se.
Faltam poucos dias...
Temos de aproveitar para libertar o Sérgio e o Zé Quim.
Temos de criar condições para o Luís Nuno poder regressar de França.
Maia, parece que tens alguém porreiro para comandar um pelotão quando avançares. É de Ourém e...
Mas que se passa, camarada Luís? Parece triste, nostálgico, pouco confiante...

Não é isso, meu major. Tive uma visão do que vai ser isto daqui a quarenta e tal anos: corrupção, fuga ao fisco, tráfico de droga, insegurança, mentira, terrorismo de Estado… e venturosos gajos fascistas a fingir que assumem o combate a essas barbaridades...
Comparada com isto, a exploração capitalista, aquela em que o patrão paga o salário para obter mais-valia, parece uma santa. Mesmo o meu major vai ser perseguido e acusado de coisas horríveis...

Eu, perseguido? E achas que é a primeira vez? Tu próprio vais escrever sobre uma história um tanto semelhante que ocorreu quase há dois mil anos. O nosso povo padece de um défice, não aquele com que uma tal troika vos vai torturar, mas educacional. Mas eu vou tratar já disso, das perseguições políticas...
Aspirante Sampaio, vá pensando numa lista de homens de confiança porque temos que extinguir a dita...
A verdade é que o Luís Nuno (que aqui representa o português inconformado que resistiu até à última relativamente à integração na tropa colonial) pôde regressar e o Sérgio (o preso político) e o ZéQuim (militar detido por ter participado no golpe que antecedeu e anunciou o 25 de Abril) foram libertados. Um pelotão de Salgueiro Maia que avançou para Lisboa foi comandado por um oureense.
Curiosamente, aquele que preparou tudo isto ao pormenor (e que o fez com o sentido de gerar o que gerou), acabou por ser preso e perseguido. Tantas vezes as revoluções devoram os seus heróis!

terça-feira, dezembro 03, 2019

O anúncio de uma nova era

A chegada à EPAM para cumprir a especialidade fez-se debaixo de intensa chuva. Em breve, descobri que os bons tempos de Mafra tinham passado. O instrutor, não sendo uma besta, não era motivador, não tinha carisma. O frio tinha-se intensificado e a chuva parecia não largar o nosso dia a dia.
A entrada na camarata nada teve de agradável pois estava repleta de cartazes de propaganda ao regime e à Guerra Colonial. «A Pátria não se discute!» e outras frases salazarentas enchiam os nossos olhos. Até que me passei e rasguei um dos cartazes. Fiquei um pouco assustado com o que tinha feito, senti alguns olhos em cima de mim, mas não houve consequências. 
Mais tarde, um amigo fez-me o indispensável aviso: «Tens de ter cuidado. Somos vigiados, nem todos são de confiança…».

A manhã era para preparação física, a tarde para aulas. Mas nada daquilo me seduzia, eu mandava lá o corpo, mas não estava lá. Não estudava, aprendia pouco, em termos desportivos era uma nulidade, por isso consegui um brilhante quase último lugar.
Os cheirinhos a mudança já se faziam sentir. Uma noite, no regresso de uma caminhada, uma voz fez-se ouvir dentro do pelotão:

Não há machado que corte
a raiz ao pensamento
porque é livre com o vento

porque é livre…

Em Março, ninguém pôde sair do quartel, pois ficámos de prevenção sem sabermos o que havia lá fora. Algo de estranho dizia-se…
Pouco depois, algo de magnífico aconteceu…

segunda-feira, dezembro 02, 2019

Um mancebo cheio de sorte

A passagem por Mafra acabou por ser exemplar. O alferes encarregue de conduzir a recruta, de nome Guimarães, era uma excelente pessoa que em todos procurava motivos para ajudar na avaliação. Isso não acontecia noutros pelotões onde a "besta da anedota" acabava por aparecer.
O despertar em geral era agradável e as manhãs na parada com algum nevoeiro e o frio de Outubro, de G3 às costas, até eram engraçadas. Sentia-me um pouco ridículo a marcar passo e na marcha, mas o ambiente do pelotão era saudável.
Politicamente, tive conversas apenas com dois ou três recrutas já que ainda desconfiávamos uns dos outros. Um dos colegas de pelotão era o Amorim, um trotsquista que, um dia, em café, pronunciou severas críticas à atuação de Salvador Allende no Chile, na altura já debaixo da ditadura de Pinochet.  Noutro pelotão, estava o António Reis já muito conotado com a oposição democrática e que andava sempre debaixo de olho. Tinha um ar triste de mártir… E havia ainda malta amiga de Económicas…
Por vezes, o aspirante Guimarães levava-nos pelos campos de Mafra em caminhada ou em suave corrida que terminava algum tempo depois junto a umas sebes. E então apareciam…
Os abutres estavam por trás do muro oferecendo o que tinham para vender numa ânsia que lhes arregalava os olhos, não os deixando pensar em porque estariam ali onde seres esfomeados e necessitados de humanidade procuravam pão e algo como o leite materno para se alimentarem e continuarem numa senda repetitiva que os faria voltar já que o negocio era fabuloso.
Eles teriam assim forma de encontrar na cidade os géneros que necessitavam para a sua auto-subsistência muito embora maldissessem os impostos que pagavam, percebendo que eram para obras coletivas e não das prontas só para eles. Eles, seres cujos filhos também iam a escolas talvez de má vontade, ansiando pela liberdade e desdenhando o tornarem-se úteis e servirem um povo sofredor e amante do trabalho produtivo.
Eram dez minutos e o seu decorrer cheio de palavrões e boca cheia saltitando de vala em vala, do muro para ali e dali para o muro onde estavam os pães, as bebidas e tudo o mais que o esfomeado consumiria pensando estar a fazer algo pelo seu corpo para desenvolver uma formidável musculatura enquanto os olhos arregalados e as vozes livres os procuravam numa confluência de fins que se materializava no exposto.
O dinheiro brilhou e à falta de trocos uma carteira de fósforos serviu para aumentar o negócio.
O abutre tinha na realidade algo de estranho, mas, à noite, um dia que fomos submetidos a fogo simulado para nos habituar ao teatro de guerra, estava completamente esquecido.
Depois, a semana de campo conseguiu ser agradável. Começou com uma caminhada pela parada, uma refeição improvisada com a comidinha em grandes caldeirões e montagem de tendas de campanha. Um acordar harmonioso e bem cheiroso…
Sem chuva, foram três meses exemplares de boa preparação para o físico.

sexta-feira, novembro 29, 2019

Encontros inesperados

Depois da apanha da azeitona, andava a passear pelos campos de Peras Ruivas com uma amiga. O silêncio, avassalador, só era quebrado pelo chilrear dos pássaros e pelas nossas vozes. O ambiente estava maravilhoso, convidativo…
- Que bela tarde para um passeio.
- O Sol brilha com uma intensidade que faz com que a vida pareça mais luminosa…
- Ouvem-se os pássaros a chilrear…
- Oh! Que beleza! Que sítio maravilhoso para os ouvir…


E a conversa prosseguiu naquela significativa toada, prolongando-se o passeio pelo campo entre os raminhos de oliveira entretanto abandonados depois da apanha. A certa altura, baixei-me, apanhei um ramo e virei-me para a garota:

- Ofereço-te este ramo como prova de…
Não pude continuar. De repente, de trás de uma árvore, apareceu o ti’ Guilherme, um sujeito ultra simpático, maroto, mas que gostava de beber o seu copito. Vinha acompanhado da sua mula de estimação, um magnífico exemplar da raça. Às costas trazia uma enxada, e uma cabaça, onde guardava o precioso néctar de Baco, pendia-lhe do cinturão. O seu olhar denunciava que já não estava sozinho.
- Então o que é que os meus amigos fazem por aqui?
A minha amiga não se conteve:
- Ó ti’ Guilherme, já anda a passear duas mulas?

quinta-feira, novembro 28, 2019

A aula de Geografia no CFL

Recordo o encanto das aulas de Geografia com os mapas pendurados e estendidos ao longo da parede da sala em torno do quadro preto.
Naquele dia, o Dr. Armando resolveu fazer uma revisão da matéria e procurou na caderneta alguém para ilustrar a localização de diversas regiões.
- Venha cá o Amadeu…
Amadeu… um nome que me lembra sempre o concerto para piano nº 21 de Mozart. Mas ali não era uma aula de música. Era um interrogatório que o nosso colega, mais conhecido por Trinca-Espinhas, iria sentir na pele.
Cabe dizer que o distintíssimo professor para apontar coisas no mapa utilizava um varão com mais de 2 metros de comprimento que algumas vezes vi descer sobre a cabeça dos alunos com inegável força e irascibilidade.
- Amadeu, localiza-me aí no mapa onde fica a Venezuela…
O Trinca-Espinhas ficou branco como a cal.
- A Venezuela, sôtor? – e olhava com terror para todos os mapas sem notar onde ficava aquele país. Acredito que os próprios nervos suscitados pelo interrogatório o levassem a não ver nada.
De repente, pareceu lembrar-se e apontou para o mapa da Ásia para uma localização muito perto do Paquistão.
- É aqui…
O professor olhou-o furibundo e deu uma cacetada no mapa com o varão.
- Então não vês que é ali? – disse a espumar de raiva, apontando o mapa da América.
A menina do Castelo pediu para falar, esfregando as mãos de tanta sabedoria.
- Eu sei onde é, sôtor.
O varão saiu disparado e bateu com força em cima de uma carteira fazendo a Borda d’Água dar um salto e exclamar:
-Kakakakkakakaka…
- A menina cale-se. Responda quando eu lhe perguntar. – gritou ele para a miuda do Castelo.
A pobre miúda encolheu-se e o Dr. Armando voltou a virar-se para o aluno em avaliação.
- Vê-se que não estudas nada, malandro. Sabes ao menos onde fica Lisboa?
- Sim, sr. Professor, é lá que é o estádio da Luz, não é?
- Grrrrrrrr! O estádio da Luz… esse covil de lampiões. Devia ser banido do cimo da terra. Ah! E localiza-me, no mapa que apontaste antes, as nossas fortalezas de Goa, Damão e Dio…
- Perdão, sr. Professor, isso já não é nosso. Foi ocupado pelas forças indianas.
- Esses malvados… Estás muito informado para quem erra tanto em Geografia… Sim, foram ocupadas por eles, por esse Neruh de uma figa. Mas agora é que eu quero ver quando os chineses lhes caírem em cima. Quero ver como vão ser corajosos e se batem com eles que são milhões.
E ficou a falar sozinho e enervado acerca da ocupação indiana.
- Eramos um país tão grande… e vamos perder tudo o que conquistámos. O nosso império… porque, vocês, coiotes, não querem lutar para o defender. O vosso dever seria DEFENDÊ-LO ATÉ À MORTE!
Deu com o varão em cima da secretária que estranhamente ficou incólume e saiu, afirmando já de costas:
- A aula terminou
Toda a gente respirou aliviada… Que se lixe o Império! Ao menos ficámos vivos…

quarta-feira, novembro 27, 2019

E os livros também ajudam a mudar a História





Um dos locais mais importantes para encontrar os primeiros livros que me ajudaram a formular o pensamento acerca da realidade em que me inseria foi uma cooperativa livreira denominada «Livrelco». 
Há imensa literatura acerca da sua atividade pelo que me limito a enunciar a sua importância tanto mais sentida quanto, em momento de invasão pelos esbirros do sistema, estes apreendiam tudo por mais inocente que fosse, mas muitas vezes não se apercebiam que havia esconderijos no interior da livraria e muitas obras eram salvas. 
Em Fevereiro de 1972, a Livrelco foi encerrada pela PIDE/DGS, mas já tinha cumprido muito bem a sua missão. Todos os que passaram por lá sabiam escolher um autor, procurar um livro, ter uma palavra sobre a sinistra ditadura que nos envolvia...

terça-feira, novembro 26, 2019

E um dia a suversão chegou ao nosso meio

A vida dos amigos do Granada não era apenas estudar e brincar...
O Félix, o ciganito e o Mestre Graça encarregaram-se de nos virar a cabeça para outra realidade bem dura. A presença constante da polícia de choque na escola demonstrava que havia algo de estranho. E os livros que líamos diziam tanto e era tão fácil chegar-lhes!
Um dia, um amigo do Granada encarregou-se de me virar para a subversão. E, depois de um intensa sessão em que me apresentou uma edição clandestina do Capital, ofereceu-me este belo livro: «Poemas de Guerra». Dele, aqui fica um poema.



A MORTE DO SOLDADO

Sento-me na tua cama
vejo-te desmembrado
digo palavras mansas
tu começas a chorar.
Interiormente
as minhas lágrimas
voam em baionetas.
Mas digo palavras mansas
sorrio.

Passa-se uma hora
passa-se um homem.

Morres.

Nada dizes
choras os vinte
que nunca serão vinte e um.

segunda-feira, novembro 25, 2019

Contra a fábrica - Económicas 70



Passeios, farras e patuscadas...
Assim parecia ser a vida dos amigos do Granada. Por vezes, um dos nossos trazia aqueles maravilhosos chouriços que degustávamos no Gordo (se não me engano Conimbricense) com queijo e imperiais à mistura.
Depois, quando chegávamos ao ISCEF, pelos corredores fervilhava intensa actividade contra o sistema. 
E assim ganhávamos forças para a Revolução... porque esta não se faz sem ideias nem com exércitos esfomeados.
Apreciem este belo exemplar que ainda conservo e que, pelos sublinhados, parece que li imensas vezes. 
Faz-me lembrar o Mestre Graça a interromper e interpelar os professores naquelas horrorosas aulas de Direito e Finanças. 
Foi elaborado pela Associação de Estudantes, na altura composta por muitos elementos que mais tarde viriam a juntar-se no MES. Belos tempos...

sexta-feira, novembro 22, 2019

Primeira conferência sobre Banda Desenhada aplicada à História de Portugal no CFL

E, uma manhã, no local onde funcionava habitualmente o ginásio do CFL, teve lugar um acontecimento diferente: uma conferência sobre a utilização de Banda Desenhada na divulgação da História de Portugal.
À nossa frente, com o Dr. Armando ao centro, quatro figuras marcantes da BD portuguesa: Vitor Peon, José Manuel Soares, José Ruy e Garcês, o nosso bem conhecido Garcês. 

De cada lado e um pouco atrás, segurando a nossa gloriosa bandeira, as duas meninas que Garcês tinha escolhido para modelo na sua História de Ourém. Ambas estavam vestidas a rigor, ostentando os maravilhosos fatos de tempos históricos que as cobriam até aos pés. Faziam um enquadramento perfeito à mesa dos conferencistas.
Por trás de todos eles, um grande painel sobra a Batalha de Aljubarrota desenhado por José Manuel Soares. Uma envolvente arrepiante...
- Seria injusto dizer-vos qual o que aprecio mais - afirmou o diretor do CFL - mas reconheço que há trabalhos que me marcaram muito e de cada um destes autores eu poderia selecionar um para vos recomendar a atenção. Viriato, o mítico dirigente do nosso povo, foi objeto de estudo de Garcês. Mas a nossa honra, o sentido da nossa palavra, está bem presente nesse maravilhoso trabalho de Vitor Peon dedicado a Egas Moniz. A nossa luta constante contra Castela e o papel que nela teve a Ala dos Namorados foram retratados por Soares em mais um magnífico trabalho. E José Ruy trouxe-nos uma nota maravilhosa sobre a expansão com a sua maravilhosa Peregrinação.
Depois desta apresentação, os quatro desenhadores apresentaram a sua obra e, num momento em que tanta conversa já poderia parecer um pouco fastidiosa, fomos contemplados com vários exemplares das suas páginas. Vejam só o que eu trouxe para casa oferta de cada um deles. Deixo aqui para consultarem e, se algum link não funcionar, por favor, avisem.


José Ruy:




Garcês




José Manuel Soares




Vitor Peon:


quinta-feira, novembro 21, 2019

A aula de Francês no CFL

Houve um ano em que o João, depois de ter sido expulso de várias escolas do país por mau comportamento, veio fazer os três últimos meses ao CFL, procurando aí o aproveitamento que não conseguira noutras paragens.
Mas o seu comportamento desnaturado continuou e sofria constantemente de prisão de ventre e significativas crises de fígado.
Um dia, estávamos na aula de Francês bem concentrados nas palavras da Dra. Maria Júlia que nos ensinava o verbo «ser».
- Em Francês, o verbo ser diz-se «être» e a conjugação do presente do indicativo é a seguinte:
Je suis…
Não pôde continuar. De repente, o Luís Cúrdia, entrou pela aula esbaforido, a dizer:
- A botija, sôtora, a botija…
Ela olhou-o espantada:
- O quê? Que se passa? Não gosto nada dessa palavra…
- É o João, sôtora. Está deitado na secretária com dores de barriga e suores frios, todo gelado, a pedir a botija.
A professora dirigiu-se imediatamente à sala ao lado. Lá estava o João, lívido como um passarinho, todo estendido em cima da secretária de barriga para o ar.
- Que é que tu tens, meu bichinho, o que é?
Que ternurenta! Ele ergueu os olhos suplicantes e explicou:
- Estou gelado. Dói-me muito a barriga, preciso de uma botija para aquecer…
A Dra. Júlia virou-se para o Sr. Nunes.
- Por favor, prepare um saco de água quente e traga-me um cobertor.
Pouco depois, o João estava todo tapado pelo cobertor e o saquinho de água quente aliviava-lhe os calafrios. Mas mesmo assim não melhorava. Pelo que a professora fez novo pedido ao Sr. Nunes:
- Por favor, Sr. Nunes, desculpe estar a abusar de si, chame o meu pai que está a dar Matemática ao terceiro ano…
O Sr. Nunes lá foi e, pouco depois, o Dr. Preto estava junto de nós na sala. Observou o João e rapidamente fez o diagnóstico:
- Tem de levar um clister. Mandem aviar isto, preparem com água tépida e, com tudo o cuidado para não o magoar, introduzam-lhe o líquido preparado.
Os preparativos para o clister decorreram com aceleração e normalidade. O João permaneceu tapado, a queixar-se com dores e, a certa altura, foi virado de barriga para baixo. A Dra. Maria Júlia preparou-se para lhe dar o clister.
- Agora, preciso de uma auxiliar.
Saltou logo a menina do Castelo.
- Posso ser eu, doutora. Por alguma razão, daqui a alguns anos vou ser auxiliar de enfermagem em França.
O João olhava tudo aquilo não acreditando no que lhe estava a acontecer.
- Mas… mas… mas… jejejejejejjejjeee
A Dra. Maria Júlia continuou:
- À minha ordem, a menina abre suavemente este torniquete para a água sair, percebeu?
- Muito bem – respondeu a improvisada enfermeira.
E esperou pela indicação da professora.
- Agora – ordenou esta no seu estilo magistral.
A auxiliar de enfermagem mexeu o torniquete, mas fê-lo com tanta força que um enorme esguicho percorreu o interior do João, provocando-lhe formidável contração.
De um salto levantou-se, e, de calças na mão, correu para a casa de banho, enquanto gritava:
- Cabronaza! Vais pagá-las todas…
Pouco depois, surgia sorridente.
- Já passou tudo. Que alívio!
Era adorável o João quando bem disposto. E assim se passou esta aula de Francês. Mas não se pense que foi inócua. A entrada intempestiva do Cúrdia na sala onde estava a professora nunca mais a livrou do estigma de «A botija». A improvisada enfermeira não acreditou que não tinha jeito nenhum para aquilo e precisou de passar por cenário de guerra e por experiência conventual em França para concluir que devia procurar outra profissão. E o Jó Rodrigues inventou uns versos dedicados a esta aventura do João que, pelo seu conteúdo, eu não posso aqui transcrever, apesar de nos terem perseguido por muitas noites oureanas. Nem os lancinantes apelos das donzelas do Estórias me levará a mudar de posição...

quarta-feira, novembro 20, 2019

Uma carta de homem mau

Também eu estive quase a ir para a guerra. Mas a incorporação no exército teve o seu quê de anedótico.
Fui levantar um documento à Câmara a requisitar transporte para Mafra. Mas uma distração levou-me a despesas. O documento requisitava à CP um bilhete de autocarro, ou o inverso (aos Claras, um bilhete de comboio...). Claro que não me serviu de nada. E o que eu insisti com o funcionário da CP na estação de Fátima, argumentando que não era eu que queria ir...
Imaginem o Luís em Lisboa todo revoltado a escrever ao presidente da Câmara por tão vil acto, num tom que ainda por cima achincalhava quem o tinha cometido.
Sei que a pessoa ficou magoada quando isso chegou ao seu conhecimento. Que posso dizer agora? Excessos de juventude...

terça-feira, novembro 19, 2019

A loja armadilha

Há tempos tive um pequeno precalço em minha casa que se traduziu na destruição de um mosquiteiro de rede, elemento bem importante para nos livrar de pragas noticiadas.
Recomendaram-me, então, uma pequena loja de venda e arranjo de várias utilidades e, após contacto, ficou combinada
a deslocação de um profissional para se ocupar desse estrago e colocação de uma fechadura.
O trabalho decorreu em dois dias. O primeiro para retirar a estrutura de mosquiteiro e o segundo para as montagens. De qualquer modo, pouco tempo, embora a contagem estabelecida apontasse para umas três horas e meia.
Curiosamente, neste espaço de tempo, foi contabilizado um pormenor com piada: o silicone que o profissional levava consigo estava seco e ele teve de voltar à origem para o trocar ocupando um bom pedaço desse tempo.
No final, com ar matreiro, o patrão apresentou-me a conta:
- São 100 euros...
- Ena...
- Sabe? A mão de obra está muito cara. Começa a contar mal sai daqui para casa do cliente. A gente não sabe se ele aproveita ou não para beber uma cerveja...
- Pronto, está bem...
Lá paguei, pensando naquela estranha cumplicidade do patrão com o tempo ocupado a beber a cerveja pelo empregado...
- Quer papel para a sua contabilidade? Com Iva, sem Iva...
Pirei-me dali, sem vontade de voltar. Aquele espaço é uma verdadeira armadilha. E a imagem que este senhor dá da pequena empresa em nada é abonatória...

segunda-feira, novembro 18, 2019

A execução


Não sei que mal lhe fiz! Talvez tivesse perdido o juízo com a lerpa...
… talvez houvesse alguma miúda que lhe tivesse escapado para os meus braços.
Um dia, o puto Garcia aproveitou uma visita cultural que talvez venha a aparecer neste espaço e tentou executar este vosso amigo, depois de o ter bem amarrado. Não há direito!
Ai se o pessoal de Ourém sabe disto...

sábado, novembro 16, 2019

Aprenda a explorar qualquer indústria





Eis mais um livro do baú.
Não sei qual terá sido o seu ano de edição. É dedicado a "fórmulas práticas para se ganhar dinheiro explorando qualquer indústria, ao alcance de todas as inteligências".
Magnífico legado em que tudo parece fácil perante uma realidade que o desmente ao vermos as dificuldades que as gerações que chegam ao mercado de trabalho têm para organizar as suas vidas.
Mas é curioso: há uma personagem que participa em torneios de Bridge que acho tremendamente parecida com o da capa do livro...

sexta-feira, novembro 15, 2019

Ilustração da vida



Voltei ao baú da casa dos fantasmas
Reparem na ilustração. Não lhe critiquem o mau estado, ela tem mais de cinquenta anos.
Sempre a olhei embevecido. Nela revejo o meu percurso, se calhar semelhante ao de muitos de vós. Recordo o primeiro acordar consciente na casa do largo de Castela, no quarto frente à rua da Olaria, com as unhas a raspar a parede. 
Depois, o arco parece tirado a papel químico daqueles que nós usávamos; faltam talvez os carros de pau que os prisioneiros junto à Câmara nos faziam ou as carretas que inventávamos para descer a rua. 
Recordo o enamoramento, quase paixão, os dias de nascimento dos filhotes, a alegria que eles me transmitiram. O primeiro na tropa em pleno processo revolucionário em curso, o segundo já bem estabelecido como técnico de informática.
Nunca fui grande caçador embora tivesse cometido algumas malfeitorias de que logo me arrependi e, é verdade, até já tentei o discurso político sem qualquer êxito. Ainda bem que não me ligaram nenhuma, pois não teria jeito para o exercício de funções.
Agora, parece que me sinto naquela fase descendente que culmina no velhinho que já não dá acordo de si e que tem à sua frente o paraíso. Já falta pouco tempo, ainda bem porque a adaptação é cada vez mais difícil.
Olho aqueles animais, de certeza a Pipoca não poderá estar lá, tão má que era, tão disponível que estava sempre para a mordidela ou para espetar as unhas. 
A ilustração mostra assim a sequência do nosso percurso na unidade de contrários vida e morte...

quinta-feira, novembro 14, 2019

A aula de História

Da Divina Comédia...


Naquela manhã, o Dr. Armando estava visivelmente bem disposto. Envolto em enorme sobretudo cinzento, entrou pela sala de aula, exibindo as baforadas do seu cachimbo.
Nós esperávamos em pé, sentindo o desconforto do assento das carteiras nas pernas, por trás dos joelhos, fazendo-as dobrar-se.
- Podem sentar-se – disse ele.
Enquanto nos sentávamos, ele inspirou intensamente a partir do seu objecto de fumo e lançou-o pelos ares.
- Sumário: A Divina Comédia.
(Lembro-me que quando chegava a casa e o meu irmão me perguntava “então o que fizeram hoje?”, eu respondia “fizemos o sumário...” e ele retorquia “isso é o resumo das coisas que se vão dar...”)
Aquele excelente professor fitou-nos e começou:
- Hoje vamos falar de um vulto incontornável da litereatura medieval: Dante. Foi autor de uma obra que, em crítica à religião católica, nos traz a sua caminhada pelo Inferno, pelo purgatório, pelo céu...
Nós começávamos a ser levados para o ambiente que ele criava com a sua descrição. O fumo proveniente do cachimbo conferia-lhe ainda uma certa distância e, apesar de, de quando em quando, aquela mão descer sobre a secretária com incomensurável força e ruído, iamo-lo seguindo dando por bem aproveitada aquela disponibilidade que ele conseguira para estar connosco... 
- Dante nasceu em Florença em 1265... - continuem a ler a narrativa aqui - A sua obra fundamental chamou-se «A Divina Comédia», um poema com uma estrutura notável que nos faz passar pelo Purgatório, pelo Inferno e pelo Paraíso apoiado no poeta Virgílio e na sua filha Beatrice.
Depois de nos ter falado na obra de Dante, o professor levantou-se e começou a arrumar o material para dar por terminada a aula.
E foi então que tudo aconteceu...
- Tenho mais uma coisa para vos dizer. Como sabem, tem estado entre nós o grande desenhador Garcês que está a fazer o trabalho prévio para a publicação da História de Ourém. Este autor tem muitos episódios da História de Portugal disponíveis em BD. Ele e o grande José Ruy têm contribuído imenso para o conhecimento da nossa História através da sua obra notável. Depois de algumas horas de negociação consegui convencê-los a realizarem no CFL algo que nunca aconteceu em Ourém, exatamente: «A primeira conferência sobre  Banda Desenhada na divulgação da História de Portugal». Claro que todos devem estar presentes, isto é, não serão toleradas faltas sob qualquer pretexto.
Entusiasmado, o Jó Alho levantou-se e perguntou:
- Sr. Doutor, posso vir vestido de Cavaleiro?
O Dr. Armando olhou-o furibundo. Num instante perdeu toda a doçura que tinha mostrado na aula. Abriu a janela que dava para o recreio dos rapazes e berrou:
- Anda cá, malandro!
Pegou no Jó Alho e atirou-o pela janela para fora da sala de aula, fazendo-o passar miraculosamente pelo espaço deixado livre pela caixilharia.
O Jó Alho era bastanre elástico. Mal atingiu o chão, rebolou e pôs-se em pé de um salto. Olhou espantado para o que lhe tinha acontecido e, já refeito, reapareceu à janela:
- Posso entrar por aqui para ir buscar os meus livros?
- Some-te, malvado - gritou-lhe o professor.
E assim terminou aquela brilhante aula de história

quarta-feira, novembro 13, 2019

O arrear da bandeira

No local onde agora é o ISEG, existia uma pequena esquadra de polícia. Todos os dias cumpriam o saudável ritual de hastear e arrear a bandeira.
Do outro lado da rua, ainda existe uma pequena pastelaria, a pastelaria Dâmaso, com uma minúscula esplanada onde por vezes nos sentávamos à espera da hora da jantarada.
Um dia estava lá em amena cavaqueira com o Morgado, um sujeito de Viseu que morava perto da Emissora na célebre Calçada do Pasteleiro.
E,  de repente, aconteceu aquilo…
Do outro lado da rua, começámos a ouvir vozes e movimentos. Era o infalível procedimento do arrear da bandeira. Ciente de que eram sete horas, levantei-me e preparei-me para o regresso a casa, o Morgado permaneceu sentado ainda aguardando o troco.
Mas uma voz gutural impediu as nossas intenções:
- Esse senhor aí…
Virámo-nos admirados.
Um fardadinho com cassetete olhava-nos com ar de poucos amigos.
- Esse senhor aí, venha cá falar connosco.
E fomos os dois a pensar no que aquilo ia dar. Quando chegámos, ele insistiu olhando para mim:
- Não é nada consigo. Vá-se embora.
- Mas nós não fizemos nada… eu estava com o meu amigo.
- Já disse. Retire-se imediatamente.
E apontou-me o cassetete. Bolas! Apressei-me a obedecer e abandonei o meu amigo.
Mal disposto, danado comigo, cheguei a casa e contei aos outros.
- Vão-lhe dar tareia até de manhã – dizia o Morais, o verdadeiro Morais.
Depois do jantar, passámos perto da esquadra, mas ficámos mais tranquilos porque tudo parecia calmo. Não se ouvia qualquer grito.
- Se calhar já está desmaiado. Vamos até ao Granada.
O Granada era o nosso café, perto dos armazéns Conde Barão. O grupo já começava a ser grande devido aos amigos do Morais e aos novos conhecimentos.
O caso do Morgado foi ventilado e todos estavam apreensivos, embora neste momento não houvesse qualquer vestígio de subversão entre nós.
E, de repente, entrou o Morgado. Admirados, vimos que ele não trazia nenhum olho ao peito e vinha todo sorridente, todo inchado por ser o foco das atenções.
- Grandes amigos, hem? – disse olhando para mim.
- Jorgito, estávamos todos preocupados. Que fizeram? Bateram-te?
- Não, apenas me identificaram, fizeram uns telefonemas e mandaram-me logo embora.
- Mas que tinhas feito?
- Aqueles burgessos entenderam que eu tinha desrespeitado a bandeira.
- O que? Tu? Quando?
- Quando foi o arrear… eu estava sentado e não me levantei.
- Mas eu estava contigo…
- Pois estavas, mas levantaste-te exatamente naquela altura para ires embora, inclinaste-te para dizer qualquer coisa e os estúpidos entenderam que isso era um gesto de respeito.
Ditosa sorte a minha! É que sempre tive gestos repentinos salvadores.

terça-feira, novembro 12, 2019

O sequestro do Baloo

O Baloo vivia em Ourém e acompanhava todos os dias uma senhora, a sua dona, Natacha Pigmalião, ao supermercado. Era o cãozinho mais simpático, fiel e brincalhão que se pode imaginar.
Ficava à porta aguardando fielmente a dona. Não ligava a quem passava, olhava fixamente para o interior. Depois, quando ela saia, acompanhava-a a um metro de distância sem a perder de vista. Não consentia qualquer trela porque era fiel ao extremo.
Mas os nossos passos estão sempre a ser seguidos por quem se quer aproveitar de nós, sem nos apercebermos disso.
Houve alguém que viu o seu comportamento e pensou:
-É mesmo o cãozinho que eu precisava. Como farei para o apanhar?
O malvado arquitetou rapidamente um plano. Assim, um dia dirigiu-se ao café Central e comprou uma dúzia de pastéis de nata, carregando-os de soporífero. Na loja do Moreira, comprou “petfood” e no seu interior disfarçou o mesmo produto.
Pelas quatro da tarde, dirigiu-se a casa da dona do Baloo. Era simpático, charmoso, insinuante…
- Olá, minha doce amiga, trago aqui uma oferta para si e para o Baloo.
Ela ficou encantada.
- Oh! João! É tão simpático em ter-se lembrado de mim. Mas entre, entre, eu vou fazer um chá e terei muito prazer na sua companhia.
Na sala, estava o Baloo que ficou todo contente com a visita.
- Trago também estes docinhos para o Baloo.
- É tão simpático. Vou já dar-lhos.
Todo risonho, o simpático burlão ali esteve perto de meia-hora a dar conversa à dona do Baloo. Este já dormia a um canto quando ela disse:
- É curioso. Estou a ficar cheia de sono.
O João aproximou-se, deu-lhe um beijo na testa e confortou-a:
- Então durma, durma, eu retiro-me já de seguida. Deixo a porta aberta, porque o Baloo pode querer ir à rua…
E ela adormeceu profundamente.
Quando acordou, tinham passado umas três horas e reparou que estava sozinha.
- Meu Baloo! Onde está o meu Baloo?
O João já tinha saído e notou então que ele tinha deixado a porta aberta (o que não é de estranhar na Ourém dos bons tempos).
- Se calhar fugiu. Que lhe terá acontecido?
Nunca mais viu o cãozinho. Passaram-se alguns anos.
Um dia, quando consultava o Facebook, viu que ele acompanhava um sujeito muito parecido com o seu amigo João, mas uns anos mais velho, que aparecia todo encapuçado e que, descobriu pouco depois, se dedicava a enganar alunas com falsas promessas de torná-las grandes jogadoras de Bridge. Intrigada pensou:
- Terá sido ele?... Tenho de apurar a verdade.
E pôs-se a caminho de Madrid, procurando a morada que um dia o João lhe tinha fornecido…
Encontrou-os com alguma facilidade, pois o João, julgando ficar impune, não se disfarçava numa Metrópole tão grande.
Quando a viu, o Baloo correu para ela e saltou-lhe para o colo. Foi o primeiro beijo depois de tão longa ausência. Ficou sem dúvidas que era o seu Baloo. Mas o ar do João mostrou-lhe de imediato que não levaria a melhor.
- Cabrönaza!! Voy a dezer qua apoyas la independenza del a Cataluña e serás presa multos anos. Jejejejejeje!!!!!
E assim fez. A pobre senhora foi levada pela Guarda Civil, na sua mala encontraram duas granadas que o João sorrateiramente lá tinha posto e o Baloo ficou com o sequestrador.
Natacha Pigmalião nunca mais voltou a Ourém. Consta que ainda aguarda julgamento por terrorismo…



segunda-feira, novembro 11, 2019

1968: a ida às Sortes




Fomos convocados prá banda
Que é que nos querem fazer?
Contratar carne pra canhão...
Será que isso lhes dá prazer?

Mas onde está o Luís Nuno
Que também é da nossa idade?
Pirou-se para França, oportuno,
Anda preso à saudade...




O que pensam eles de nós
Enquanto aqui esperamos?
Até nos mandaram despir ...
Julgam que são nossos amos?



Olha o papelinho na mão
Contentes por ser perfeitos
Mas no fundo a apreensão:
A que vamos ser sujeitos?

Vamos buscar os instrumentos
E cantar nossa desdita
Toda a gente de Ourém
Merece saber da fita



tum, tum, turum, tum, tum

Ouve lá, ó mãe querida
Querem que eu vá prá guerra
Que abandone a boa vida
E oprima os de outra terra

tum, tum, turum, tum, tum



tum, tum, turum, tum, tum

Vamos direitos à Praça
Para toda a gente ver
Que o pessoal até tem raça
Que é bravo a valer

tum, tum, turum, tum, tum

5 anos vão esperar
Podiam até ser mil
O curso quero tirar
E ser tropa em Abril

tum, tum, turum, tum, tum



Almoçámos no Vilar
Que hoje é vila por sinal
O repasto até foi bom
E partimos pró Agroal



Ai que águas tão bonitas
Aqui viemos encontrar
Mas as guerras são malditas
Há que as fazer acabar




Vamos fazer um bailarico
A banda é um bom lugar
Toma banho, põe a gravata
É toda a noite a dançar


domingo, novembro 10, 2019

O gerico do Clemente



Que mártir, as 5.as feiras,
Quando ia para o mercado
Carregadinho, ajoujado
Com sacas, fardos e ceiras!


Se eu lhes disse que o jumento
Carregava como um macho,
Palavra que nao invento,
Calculo ainda por baixo.


E era tao forte o costume
Que fôsse o peso qual fosse,
No seu olhar triste e doce
Nao se lia um azedume.


Um dia, vendo-lhe as chagas,
Compadecido, o patrao
Resolveu, com muitas pragas,
Melhorar-lhe a situaçao.


E pôs-lhe em cima um carrego.
Tao leve, tao maneirinho,
Que até no dedo mendinho
O levaria um galego!


Pois, nao lhe digo mais nada!
O pacientíssimo bruto,
Ao sentir sôbre a lombada
Um peso tao diminuto,


Pôs-se aos coices a zurrar,
A recusar o serviço
E naquele reboliço
Atirou a carga ao ar!


Conheço muito casmurro
Que, em sendo tratado bem,
Agradece como o burro
De Vila Nova de Ourém.


(Do livro Fábulas e historietas de Acácio de Paiva) in Notícias de Ourém de 07-04-1935

sábado, novembro 09, 2019

Lenda da Capela da Valada

Há uns treze, catorze anos andei a visualizar as páginas das escolas do concelho procurando matéria para publicação. 
Entre as coisas interessantes, encontrei este desenho e este texto relativo a uma lenda do nosso concelho, centrada na Valada. Será verdadeira? Será falsa? Não sei…, mas sei que praticamente o mesmo texto me surgiu na mesma altura para a Atouguia e que há tempos o Mirante o republicou relativamente uma terreola do distrito: Abitureiras.
Pela sua graça, aqui fica omitindo a autoria.




Dizem os meus avós que os avós deles contavam ter ouvido às pessoas mais antigas que quando foi a guerra das invasões francesas, as tropas montadas coma cavalos passaram aqui pela Valada e tentaram entrar na Capela com os cavalos.

Uns tentaram entrar pela porta da frente que tinha dois degraus e outros pela porta de trás que na altura era uma rampa com terra, mas nunca conseguiram entrar na Capela porque os cavalos ajoelhavam-se sempre recusando-se a entrar.

A Capela tem como Padroeira a Imagem da Nossa Senhora da Penha de França em homenagem a este acontecimento.



sexta-feira, novembro 08, 2019

A lenda da Mulher Morta

Ourém foi uma terra de cavaleiros e amazonas desde os mais longínquos tempos. 
Deambulavam por todo o lado subindo e descendo a colina do Castelo. 

Quem os via suspirava. Como seria bom acompanhar, fazer parte da vida daqueles seres tão dotados e abandonar as relações de servidão. 

Eu próprio, um dia me deixei apaixonar por uma amazona e sonhei visitar o seu castelo. Ela fugiu e tudo acabou… 

Mas esta história é mais triste, é-o tanto que o nome de uma terreola é o espelho da desgraça.




Conta-se que, em tempos idos, uma jovem se teria apaixonado por um cavaleiro e o seu amor foi correspondido. Mas o pai não aprovava a relação. Um dia, a filha tentou fugir, para se juntar ao amado. Escapou de casa e pôs-se a correr pela rua fora. 


O pai, completamente enlouquecido, iniciou uma perseguição atrás dela, com uma enxada na mão. Alcançou-a pouco depois, lançando com violência a enxada sobre a cabeça dela, o que a matou instantaneamente.


As pessoas do lugar ficaram tão impressionadas com a tragédia que decidiram prestar homenagem à desafortunada moça, enterrando-a no mesmo sítio onde a vida lhe havia sido retirada. E ergueram o cruzeiro que hoje ali se encontra.







Fonte: página de Facebook de Antonio Verdasca Verdasca
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