sábado, setembro 19, 2020

El Cisco e el Panchito: a ruptura

O regresso para a habitual feira

El Cisco e Juanico, el Panchito chegaram a Ourém com o objetivo de participar na famosa feira anual. El Cisco pensava em Lucy e Flor Vermelha. Cada vez mais sentia a necessidade da sua presença e da sua companhia. Já Juanico só pensava em comidinha, no magnífico borrego do Bengala e nos cozinhados de Dona Estefânia. El Cisco trazia um ar de sonhador, Juanico parecia esfomeado…

sexta-feira, setembro 18, 2020

El Cisco, a figura de ficção que desejavas ser

 

1. A jovem dos cabelos de ouro

Houve um momento em que o Estorietas se julgava essa figura lendária do Oeste que foi el Cisco Kid. Ele imaginava-se a atravessar os locais visitáveis de Ourém no seu corcel Diabo, acompanhado dessa figurinha balofa e hilariante que era Juanico, el Panchito. Enquanto el Cisco pensava nas lindas garotas que poderia encontrar nos subúrbios, el Panchito sonhava com a boa comidinha que encontraria nas casas de pasto.
Um dia, foram passear para os lados do Castelo e os pensamentos deles cumpriam o costumeiro ritual. De repente, el Cisco olhou do alto do seu corcel na direção de um jardim e chamou a atenção do amigo.
- Olha, Panchito, é ouro, verdadeiro ouro… - e apontou na direção do jardim.

sexta-feira, junho 19, 2020

Um encontro casual

No sábado seguinte, na cabana na Urqueira, a Deolinda procurou o João.
- O meu irmão quer que o acompanhes às compras para os ajudar a trazer as coisas. Vai tomar banho para não chamares demasiado a atenção e tem cuidado durante a deslocação, pois, se fizeres algum movimento em falso, eles não são meigos.
- Não me obrigues a ir. Não me apetece sair daqui.
A rapariga ficou irritada.
- Faz o que te digo. Olha que te arrependes.
Nesse momento, apareceu o pai da rapariga.
- Então, isso está demorado?
- Ele diz que não quer ir convosco.
- O quê? – avançou rapidamente para o João e enfiou-lhe um murro no olho esquerdo.
O rapaz caiu no chão e, quando esboçou o gesto de se levantar, viu que o indivíduo se preparava para o pontapear. No entanto, a rapariga interpôs-se.
- Pai, não precisas ser tão violento. Eu tenho a certeza que ele vai convosco.
- Então que se despache.
Daí a pouco, um estranho trio circulava pela Urqueira a adquirir alguns bens essenciais para a sua subsistência. Quando entraram na loja do ti’Alberto, o Amândio ia a sair e reparou neles. Ele não conhecia o João, mas a sua cara fez-lhe lembrar alguma coisa.
«É estranho. Aquele rapaz nada tem a ver com aqueles indivíduos. Acho que já o vi em qualquer sítio.»
Esperou que eles saíssem da loja e reparou então que tratavam o João como um criado sem direitos dirigindo-se para uma azinhaga e pouco depois desaparecendo da sua vista.
«Já sei, é a ciganada que construiu a cabana de madeira lá atrás. Mas o rapaz parece contrariado.»
E, de repente, fez-se luz.
«Já sei, é o miúdo pelo qual oferecem uma recompensa em Ourém Tenho de avisar o Estorietas.»
Foi buscar a bicicleta e pôs-se a caminho de Ourém, pedalando a toda a velocidade. Demorou cerca de meia-hora a chegar à casa rosa da Rua de Castela onde pôs o seu amigo ao corrente do que se passava.
- Vamos falar com o Dr. Preto para ele decidir.
Pouco depois, o Dr. Preto e a GNR estavam ao corrente da localização do João e seus sequestradores e uma força policial pôs-se a caminho da Urqueira tendo procedido à libertação do João e efetuado a prisão da Deolinda e seus familiares.
O Estorietas e o Amândio recusaram a recompensa, mas aceitaram um lauto banquete no restaurante do café Avenida na companhia do Dr. Preto. Ainda estavam a meio da refeição quando viram o João entrar e saudaram-no.
O Estorietas levantou o seu copo e afirmou:
- Bebo à tua saúde, amigo João. Não te esqueças de fazer outro disparate para termos recompensas como estas…
- Não haverá mais disparates – garantiu o Dr. Preto. – Vou cortar-lhe a mesada e as saídas. E, para o acalmar, vou receitar-lhe uma coisa que ele próprio sugeriu há uns dias: um clister diário com sedativo. De certeza, não terá vontade de fazer mais disparates.




FIM

quinta-feira, junho 18, 2020

Recompensa por um pirata

Três dias depois, sem qualquer notícia do João apesar das diligências da GNR, o Dr. Preto dirigiu-se ao posto com o objetivo de falar com o comandante que o recebeu imediatamente.
- É verdade, doutor. Apesar dos nossos esforços, não consigo transmitir-lhe qualquer boa notícia. Até parece que se evaporaram.
- Mas não seria possível fazer uma busca sistemática pelo concelho utilizando em simultâneo um grande número de agentes?
- Doutor, deixe-nos proceder às investigações. Em breve, teremos notícias, tenho quase a certeza. Eu respeito a sua ansiedade, mas deixe-nos trabalhar. Pelo menos até agora, não teve nenhuma má notícia e estas chegam sempre depressa.
- Grande consolação… mas informo-o que decidi fazer uma coisa.
- O quê, posso saber? Tenha cuidado, olhe que este caso só o é devido a todos os disparates feitos.
- Sou suficientemente maduro para determinar o que posso ou não fazer – respondeu secamente o Dr. Preto. -  Vou oferecer uma recompensa de 100 mil escudos a quem der informações fidedignas e que nos conduzam a encontrá-lo.
- Cuidado, doutor, há muitos aldrabões que podem tentar aproveitar-se da oferta. É uma quantia bastante elevada…
- Deixe lá, ele pagará em duplicado, porque o deixarei sem mesada até me sentir compensado.
Nessa mesma tarde, o Dr. Preto foi ter com o Melo à tipografia e, ao fim da tarde, estavam feitos cartazes oferecendo uma recompensa a quem desse informações sobre o João que levassem ao seu retorno são e salvo.
Mais uma vez, o grupo de amigos do João, agora incluindo o Estorietas, participaram na distribuição do cartaz, colando-o em pontos chave da vila desde o CFL até ao Regato e à Melroeira.
E foi exatamente no CFL que o Amândio teve conhecimento de que o João era procurado, depois de uma fuga com uma rapariga muito bonita e dois indivíduos mal encarados com um aspecto que fazia lembrar ciganos, sendo oferecida uma recompensa de 100 mil escudos a quem desse informação que ajudasse a encontrá-lo.

quarta-feira, junho 17, 2020

Caminho para a escravidão

O carro em que seguiam o João, a Deolinda e os familiares desta saiu de Ourém a toda a velocidade e com os seus ocupantes muito nervosos.
- Eu logo vi que este gajo nos ia arranjar algum problema – dizia o irmão da rapariga, olhando significativamente para o João.
- Cala-te – respondeu ela. – Vocês é que são uns atrapalhados, pois não perceberam que os cartazes eram uma armadilha para nos atrair a Ourém. Caíram que nem uns patinhos…
- Agora, não podes ficar naquela casa. Se te apanham acabas por nos denunciar.
Chegaram à cabana e começaram a levar todo o recheio para dentro do carro. O João olhava tudo aquilo como se fosse um sonho, não acreditando no sarilho em que se tinha metido.
- Esperem. Eu posso voltar a Ourém e assumir o que fiz…
- Para nos denunciares? Não! Vais connosco e não voltarás a ver os teus amiguinhos. Vamos, salta para o carro, pois ainda temos de voltar para levar mais coisas.
Arrancaram na direção de Caxarias. Passaram a povoação e, pouco depois, chegaram à Urqueira. Aí, meteram-se por um caminho não alcatroado e, pouco depois, chegavam a nova casa construída em madeira. Era bem maior que a da rapariga, mas notava-se que estava pouco cuidada.
- Esta é a tua nova casa. Só sairás daqui na companhia de um de nós. Para já, não irás a Ourém, nem temos necessidade, pois há uma ou duas lojas aqui na Urqueira onde nos podemos abastecer da maior parte das coisas.
- Mas porque não me deixam regressar? Eu juro que não digo nada…
- Para já, vais trabalhar um pouco para nós. A Deolinda mostra-te o local onde vais dormir e ficas encarregado de tratar das galinhas e dos porcos. Ai de ti se deixas os bichos com fome.
- Eu a tratar de gado? Não sei, nunca fiz uma coisa dessas.
- A Deolinda ensina-te. Vá, rapariga, não querias escolher o teu noivo? Ensina-o a trabalhar. Já… - e deu um tal piparote na filha que ela movimentou-se imediatamente.
- Anda, João. Vem comigo.
Saíram os dois e ela conduziu-o aos currais e capoeiras ao lado dos quais havia uma pequena casota.
- Aqui encontras tudo para tratar da bicharada. Tens água naquela torneira e todas as manhãs limpas o curral dos porcos. Tens ali palha seca para substituir a que retiraste. Em relação às galinhas tens que lhe dar milho duas vezes por dia, deixa-as andar pelo campo e, depois, recolhe-as…
- Eu… eu… eu…
- Anda, agora vou mostrar-te onde vais dormir.
E conduziu-o a um casebre onde existia uma cama andrajosa.
- Podes dormir ali. Depois de jantar, vens para o teu quarto e o meu irmão virá trancar-te a porta. De manhã, tirará a tranca e podes cumprir o teu trabalho.
- Mas… mas… então não vou ficar contigo?
- Tudo passa, João, tudo passa… Apoiaste-me contra o Estorietas, mas algo estragou tudo. Desculpa, mas já não tenho qualquer interesse em ti.
- Mas tu juraste…
- Nunca acredites nas promessas de uma mulher. Têm sempre validade limitada.
O João sentiu-se desesperado. De um momento para o outro ficará sem os amigos, sem a rapariga e podia considerar-se numa situação de quase escravatura.

terça-feira, junho 16, 2020

A libertação do Estorietas

Após entregar o busto a mestre Bernardino, o primeiro acto do comandante foi voltar ao posto e abrir a porta da cela onde estava o Estorietas. Foi acompanhado por grande grupo de miúdos que, mal ele saiu, o saudou com uma salva de palmas.
- Caro Estorietas, – disse o comandante. – lamento o tempo que aqui passou o que foi motivado por uma prova forjada contra si pelo João e pela Deolinda.
- Já tinha pensado nisso, mas confesso que fiquei muito desiludido com o João. Que lhe vai acontecer?
- Ainda não sabemos. No fundo o delito que cometeu nem é muito grave. Foram piores as consequências da prova forjada que o fizeram passar este mau bocado. Tenho de falar mais uma vez com o Dr. Preto. Possivelmente, será enviado para uma casa de correcção.
- Não, não façam isso ao meu querido irmão – suplicou a Luzinha. – Eu ajudarei a fazê-lo voltar ao bom caminho.
- Todos nós ajudaremos, comandante – garantiu a Teresinha. – No fundo, a culpa disto foi toda minha ao atirar-lhe um saco de farinha à cabeça.
- Não se culpe, menina, nem culpe o saco. A culpa foi toda dele e da rapariga com quem se relacionou. Mas ainda não o apanhámos, vamos ter de o procurar e, antes de qualquer decisão, terei de falar, mais uma vez, com o Dr. Preto.
Os miúdos foram embora, agora acompanhados pelo Estorietas, e o comandante preparou-se para mais uma missão:
- Guarde Ernesto, prepare o jeep e mobilize o Elias. Vamos fazer uma investigação à zona do Olival.
Pouco depois, partiam na direção da cabana da Deolinda. Encontraram-na completamente abandonada como se ninguém a habitasse.
- Fugiram – dizia o comandante, afagando queixo. – Vou ter de falar ao Dr. Preto para lhe contar a situação do neto. É uma pessoa tão boa que não merecia um pirata destes lá em casa.
Pouco depois, o prestigiado médico era posto ao corrente da situação e ficou bastante incomodado.
- Faremos tudo para o encontrar, doutor.
- Conto convosco. Se não o encontrarem no prazo de três dias, eu próprio tomarei a iniciativa de fazer algo.
- Espero que não seja necessário. Envidaremos todos os esforços.

segunda-feira, junho 15, 2020

O busto volta a casa do legítimo dono

Depois de sair do Avenida, triste por não encontrar os amigos, o João voltou à cabana da Deolinda.
- Então o meu gatinho já voltou? Não encontrou os seus amigos?
- Penso que eles suspeitam que eu fiz uma partida ao Estorietas e estão a pôr-me de lado.
- Olha, há sempre um momento em que temos de optar. Se te puserem de lado, é porque não te merecem…
- Mas o Estorietas era meu amigo, a sério. Sempre o considerei um indivíduo ponderado, amistoso…
- Meu querido, estás no mesmo barco que eu. Aquilo que já lhe fizeste com certeza não tem perdão. Mas vem, vem aos meus braços, eu consolo-te…
O João deixou-se envolver no quente abraço da rapariga. Mas não lhe correspondia o que começou a irritá-la.
De repente, ouviu-se uma travagem no exterior e, pouco depois, uns passos aproximavam-se da cabana.
- Deolinda, Deolinda…
- Eles, outra vez… - murmurou o João.
Efetivamente, eram os familiares da rapariga que chegavam com um significativo ar de aflição. A rapariga ficou apreensiva.
- Que se passa?
- Deolinda, temos de devolver imediatamente o busto. Parece que contém um dispositivo que, se rebentar, pode libertar um gás tóxico e destruir a cabana…
- Não acredito, isso é uma brincadeira…
- E como ter a certeza? Vamos é libertar-nos dessa porcaria. Diz ao teu namoradinho para pegar nele e o trazer. Nós levamo-lo a Ourém e vai ser ele quem deixará o diabo do busto à porta do Bernardino.
O João apressou-se a obedecer. Ocupou lugar na parte de trás do carro ao lado da rapariga e partiram todos para Ourém, chegando pouco depois junto do ringue de patinagem da Juventude onde estacionaram.
Só o João saiu do carro para deixar o busto. Entrou pela pequena vereda que conduzia ao portão de entrada no campo, ali mesmo ao lado da farmácia Verdasca, e, pouco depois, deixou o busto voltando a correr para o carro, sem notar que era seguido por muitos olhos.
Ainda vinha a correr quando alguém gritou:
- Pare! Pare imediatamente!
Mas não obedeceu. Atirou-se para dentro do carro que arrancou logo de seguida. Ninguém os apanhou, mas, a partir daquele momento, o João era um «homem mau».

sexta-feira, junho 12, 2020

Um cartaz atrai a atenção de dois sujeitos suspeitos

Ainda não tinham passado cinco minutos sobre o momento em que o João saíra do Avenida, quando um grupo de miúdos chegou ao café e colou um pequeno cartaz. Que seria aquilo? Uma pequena aproximação ao mesmo, permitiria ler:


«Há uns dias, desapareceu do atelier de mestre Bernardino um busto que era a sua representação em madeira. Informa-se quem o retirou do local que deve proceder à sua devolução imediata sob pena de correr perigo de morte. Efetivamente, o busto contem um sistema de auto-destruição propulsor de um gás tóxico que carece de ser desativado em ordem a não provocar as consequências funestas inerentes ao gás e ao próprio processo de deflagração. Por favor, façam circular esta informação.»


E quem havia de ler tal informação?
Dois indivíduos, com aspeto de ciganos e que já conhecemos de casa da Deolinda, rondavam as instalações da Caixa Geral de Depósitos.
- Então, o que é que achas?
- Podemos entrar, mas estes táxis aqui à volta da praça vão ser um problema para estacionar o nosso.
- Também penso que não é um local muito bom.
Continuaram a olhar e, de repente, um deles viu o cartaz.
- Olha, o que é aquilo?
Foram ler e ficaram apreensivos.
- É o busto que está em casa da Deolinda. Vai explodir e pode-lhe acontecer alguma coisa. Temos de a avisar.
- Eu logo vi que a ligação com aquele papa-açorda só ia trazer chatices. Vamos…
- Esse Bernardino é um sacana sempre com invenções.
Foram a correr na direção de um automóvel e entraram no mesmo, ligando-o imediatamente. Nem notaram que os seus movimentos estavam a ser seguidos por uma miúda que contatou imediatamente os amigos.
- Uns indivíduos com ar de ciganos viram o cartaz e ficaram apreensivos. Partiram na direção do Olival.
- Era o que eu pensava – disse a Teresinha. – Devem ser familiares da Deolinda. Vou já avisar a GNR e preparar-lhes uma surpresa.
Pouco depois, muito disfarçadamente, um dispositivo policial ocupava posições perto do atelier de mestre Bernardino.

quinta-feira, junho 11, 2020

Uma noite de pesadelos

Nessa noite, o encontro do João com os amigos no Avenida foi um pouco problemático. Ficou surpreendido quando viu a Teresinha, a sua Teresinha… que foi a primeira a atacá-lo.
- João, tu fizeste alguma coisa para incriminar o Estorietas?
- Ouve lá, menina, antes de te pores com ar de investigadora, explica-me porque me atiraste com vinte quilos de farinha para cima. Puseste-me em risco de vida.
A miúda não se atrapalhou com a questão.
- E parece-me que não se perderia nada de bom. Acredita que estou arrependida de te ter agredido com o saco, mas era o que estavas a pedir tão inconveniente estavas a ser.
- Era o meu coração a falar. Jjejjjjjejjjjjejeje.
- Não gozes e responde-nos. Fizeste alguma coisa para incriminar o Estorietas?
- Claro que não…
- João, o nosso amigo possivelmente está a ser torturado, a fazer «estátua» toda a noite. Se o culpado és tu, acredita que nunca mais te queremos no nosso grupo.
O rapaz ficou sentido. Retirou-se um pouco mais cedo para casa, deitou-se, mas teve uma noite horrorosa, cheia de pesadelos. Imaginava-se a ser perseguido por aquelas miúdas: A Leninha dava-lhe com um chicote, a Livinha levava um açaime e uma trela para o dominar, as castelinhas abriam as masmorras do castelo para o enfiar no local mais escuro e a Teresina fazia sacos ainda mais pesados para lhe atirar para cima. E lá longe, no convento, a Gracelinda preparava ferros em brasa para lhe chagar o corpo. Para cúmulo, o ar de censura que notava na sua própria irmã causava-lhe arrepios.
«Não posso, não posso viver assim…»
Pela manhã, com muitas olheiras, foi até ao Avenida, mas curiosamente nenhum dos amigos apareceu.
«Onde estarão todos? Já não me dizem por onde andam. Sinto-me cada vez mais isolado.»
Efetivamente, se soubesse onde as miúdas estavam, não ficaria nada tranquilo. É que um plano começava a desenhar-se para seguir os seus passos e desencadear uma provocação que obrigasse os culpados a denunciar-se.

quarta-feira, junho 10, 2020

A família da beldade

Na cabana, o João e a Deolinda consumavam o amor que os unia e faziam juras de fidelidade eterna.
Faziam…
… a rapariga era tão sufocante que o João já parecia um bocadinho farto.
- Pronto, pequena, para um bocadinho.
- Oh! O meu gatinho não pode estar farto da sua gatinha…
A certa altura, ouviram um carro parar junto à cabana.
- Que é isto? – perguntou o João. – Ouvi um carro parar.
- Deve ser a minha família.
Efetivamente, pouco depois, alguém batia à porta e chamava.
- Deolinda… Deolinda…
Ela foi abrir e o João viu entrar em casa dois indivíduos vestidos de negro com ar de ciganos.
- Quem é este? – perguntou o mais novo com maus modos.
- É o meu namorado. João, apresento-te o meu irmão e o meu pai.
O João sentiu-se aterrorizado com o olhar deles. Examinaram-no de cima a baixo sem qualquer respeito.
- É um lingrinhas. – disse o mais velho – Não serve para ti…
«Ai se o Ventura me visse agora – pensava o João». Tentou armar-se em valente.
- Sou magro, mas não tenho medo de nada e ninguém. Que o diga a sua filha.
- Pfffff! Os meninos Yé-Yé de Ourém são uns queques que não prestam para nada – ladrou o mais novo e cuspiu para o chão.
- Não cuspas para a minha casa, labrego – gritou a rapariga para o irmão.
- Olha, menina, nós é que te reconstruímos a cabana. Em certa medida é nossa. E trata de te deixares de engatar miúdos de Ourém que não servem para nada. Já temos noivo para ti e oportunamente terás o teu casamento cigano.
- Cala-te. Eu é que escolho com quem caso… E o João é um valente. Já fizemos um assalto.
- O quê? Já o levaste para o bom caminho? E que conseguiram com esse assalto?
- O busto do Bernardino…
- Bah! Isso não serve para nada. Ainda vais pôr todos a perseguir-nos por causa do diabo do busto.
- Mas servirá para me vingar daquele crápula. Ele tem de pagar pela humilhação que me fez…
- Cospe, menina, cospe para cima dele. Nós podíamos tratar-lhe da saúde.
O João ouvia tudo aquilo e começou a sentir-se mal. Pouco depois, regressou a Ourém, mas a imagem daquela família horrorosa não lhe saía da cabeça. E comoveu-se ao lembrar-se do seu amigo Estorietas na prisão.

terça-feira, junho 09, 2020

A inspetora Teresinha

Um dia, pela manhã, a Teresinha fez uma paragem nos estudos e foi até ao Avenida falar com os amigos. Ficou abismada com as novidades.
- Mas… mas eu fiz isso ao João?
- Sim – respondeu a Leninha. – Ele ficou muito maltratado e só foi salvo por essa rapariga…
- … e agora passa o tempo com ela.
- Mas o mais admirável é que o Estorietas foi preso acusado de roubar o busto do atelier do Bernardino.
- Ah! Não posso crer? Aparece a Deolinda, cativa o João e o Estorietas vai preso?... Parecem-me coincidências a mais.
Admirável Teresinha! A única que não se deixava levar pelas aparências. Se o Estorietas a ouvisse, até pensava:
«Sob a aparência das coisas, esconde-se a sua essência.»
- Sabem? – insistiu a Teresinha. – Não acredito em nada disso. Esta tarde, vou ao posto da GNR e vejo se consigo apurar alguma coisa…
A Ceuzinha também não se deixava convencer.
- Essa prova não faz sentido. Qualquer pessoa de normal inteligência vê que é uma coisa forjada. Esse comandante da GNR não tem massa cinzenta...
À tarde, a Teresinha dirigiu-se ao posto da GNR e pediu ao comandante para falar com o Estorietas.
- Eu não devia consentir, mas, como é a menina…
Pouco depois, ela estava perante o rapaz…
- Teresinha – eu não fiz nada daquilo. Alguém deixou lá aquele pedaço de tela para me inculpar…
- Mas quem…?
- Não faço ideia. De qualquer forma suspeito muito da amizade do João com a Deolinda… ela é uma impostora, possivelmente, conseguiu levá-lo a ajudar no roubo.
- Não me admiro. Esse João é mesmo parvo. Diz que é muito cuidadoso, mas fica todo babado quando vê um rabo de saias.
A Teresinha saiu dali convencida da inocência do Estorietas. À saída, o comandante perguntou-lhe:
- Conseguiu apurar alguma coisa? Nós não lhe arrancámos nada.
- Pois não, comandante, não arrancaram, porque ele está inocente, mas, se os senhores não descobrirem os culpados, eu e os meus amigos entraremos em ação.
- A menina não se meta em mais nenhum sarilho, deixe a investigação seguir o seu rumo…
- Investigação? Não os vejo fazer nada…
- Não diga isso. E não se convença da inocência dele. Vai ver que depois de umas horas em «estátua» e de uns torcegões nos dedos, ele acaba por confessar.
Ela não respondeu, abismada e, num instante, chegou ao Avenida.
- Meninos e meninas, passa-se uma coisa muito grave. Eles estão a preparar-se para torturar o Estorietas…

segunda-feira, junho 08, 2020

A tela delatora

Quando o Bernardino deu pela falta do busto, chamou de imediato o comandante da GNR e um elemento da polícia local. As investigações começaram imediatamente e em breve chegaram a uma conclusão:
- Apenas estavam interessados no busto, pois não levaram mais nada. Com certeza obra de alguém ligado à arte.
- Mas reparem neste pedaço de tela… - disse o elemento policial.
Desdobraram o papel e conseguiram ler.
- Esquisito… isto é de uma tela do Estorietas.
- O safado – urrou o comandante. – Quis o busto para fazer alguma coisa com ele. Também tem a mania que é um grande artista, mas não irá longe.
- Não compreendo – dizia o Bernardino. – Se mo tivesse pedido, eu tinha-lho emprestado o tempo que fosse preciso.
- Ele é um malandro – bradou o comandante. – Sempre o foi. Há tempos denunciou uns amigos a dizer que estavam a realizar uma manifestação para libertar uma perigosa comunista.
- Não posso crer. Eu a pensar que tinha alma de artista…
- Artista da aldrabice… Bom, temos aqui uma prova, eu vou tratar de o mandar prender e fazê-lo confessar o que fez com o busto. Mantê-lo-ei informado, senhor Bernardino.
- Agradeço-lhe, comandante. Mas veja bem, ainda me custa a crer que esse rapaz tão calmo, tão compenetrado, tão bom estudante tenha feito isso.
E, no mesmo dia, para vergonha de toda a Rua de Castela, o Estorietas era preso, algemado e conduzido sob escolta à prisão da GNR. Mais abaixo, o João e a Deolinda gozavam o prato…

sexta-feira, junho 05, 2020

Uma equipa que ganha / um busto que desaparece

O jogo contra o Tomar, «os da ponta do rabo branco», mais uma vez foi épico. O Atlético alinhou com o Mário que alternou na baliza com o Fonseca, o Abel, o Rui Costa, o Piriquito e o Rui Prego. A famosa «Equipa Maravilha» que se dava ao luxo de ter um Pintassilgo a suplente. Ao princípio estavam nervosos e os outros muito rápidos, tanto que, em determinada altura, o Carreira atirou o Abel contra a cercadura do campo que se partiu e caíram os dois cá para fora.
A multidão puxava pela sua equipa.
- A-tlé-ti-cu! A-tlé-ti-cu!! A-tlé-ti-cu!!!
Sentados na bancada lateral, o João e a Deolinda, de mão dada, quase não davam pelo jogo, tão concentrados estavam um no outro. O Estorietas estava mais para a esquerda, perto dos balneários com outro grupo de amigos.
 Certa altura, a Deolinda apontou o atelier do Bernardino.
- Estás a ver, João?
- A ver o quê?
- Do outro lado. O busto…
Efectivamente do outro lado do campo, na varanda do atelier, o busto do Bernardino, uma representação perfeita do autor, quase parecia assistir ao jogo.
- João, aquele homem é que é o verdadeiro artista. Quero aquele busto para mim, para a minha cabana…
- O quê? Estás louca?
- Nem por sombras. Nunca estive tão lúcida. E já sei quem vai ser responsabilizado pelo desaparecimento do busto. João, tu vais ajudar-me.
Estava tão chegadinha a ele, tão entrelaçada, tão doce que ele não pôde recusar.
- Está bem. O que queres que faça?
Foram interrompidos por formidável manifestação de júbilo. O Abel, o grande defesa do Atlético, acabava de marcar um golo que virava o resultado. Pela primeira vez na partida, o Atlético estava a ganhar.
O João levantou-se a gritar a apoiar a equipa. Nessa altura jurou que, toda a vida, apoiaria qualquer equipa cuja designação fosse Atlético. Mas a rapariga não o deixou embriagar-se na comemoração. Puxou-o para ela e segredou-lhe:
- Quando isto acabar, deixamos sair todos, tu saltas lá acima, tiras o busto e levamo-lo no carro para a cabana. E eu deixo algo a incriminar o Estorietas…
- JJjjjejjejjjjejjjj. O busto pesa muito.
- Não sejas maricas. Eu ajudo a transportá-lo.
Pouco depois, o jogo acabava com uma gloriosa vitória do Atlético. A multidão saiu satisfeita. Encolhidos, a um canto do campo, o João e a Deolinda esperaram que o campo ficasse vazio, que saíssem os jogadores e dirigentes, que alguém fechasse a luz. Depois ele saltou ao atelier do Bernardino, retirou o busto que pesava a valer, pois era de madeira maciça, saltou com a rapariga o muro que os separava do exterior e enfiou-se com ela dentro de um carro que, pouco depois, os conduziu para fora de Ourém. No local do busto, ficava uma coisa estranha, parecia um pedacito de madeira com papel, mas neste podia ler-se claramente um nome: «Estorietas».

quinta-feira, junho 04, 2020

Planos para uma noite em Ourém

A cabana reconstruída estava uma maravilha. Situada no meio da natureza, transformava qualquer momento em algo muito especial.
Enquanto se dirigia para lá, o João, recordando a imagem da linda rapariga, cantarolava:


Tenho fome tenho sede, não é de pão nem é de vinho, tenho fome de um abraço, tenho sede de um beijinho.


O João adorou a cabana, adorou o almoço e adorou a companhia.
Depois de comerem, sentaram-se no exterior em cadeiras que baloiçavam e o rapaz sentiu a tentação de lhe pegar na mão, mas conteve-se.
- Estás a gostar deste dia, João?
- Sem dúvida, nunca pensei desfrutar de um momento tão bom e numa companhia tão doce.
Foi ela quem lhe tocou na mão e, pouco depois, estavam de mão dada.
- Achas que sou uma companhia doce?
- Doce, bela, um encanto…
- E como interpretas que alguém me recuse?
- Mas… eu não recuso a tua companhia.
- Tu não, mas aquele teu amigo…
- É um parvalhão. Não sabe o que perde, Jejjjejjjjjejje
- Mas fez com que me sinta muito magoada.
- Ele magoou-te?
- Tanto! Tanto! Tanto!
E levantou-se de um salto que até assustou o rapaz.
- Anda comigo. Vou mostrar-te…
Levou-o para o interior da cabana e mostrou-lhe duas ou três telas. Todas com animais horríveis com dentes ameaçadores.
- Olha o que ele me fez. Pedi-lhe várias vezes para me desenhar e fez estes animais horríveis. Não achas que tenho razão para o odiar?
- Que horror! Como é que alguém pode fazer uma desfeita como essa a uma miúda linda como tu?
Ela encostou-se-lhe ao peito e aproximou a cara da dele.
- Não me farias isso, pois não, João?
O rapaz sentiu-se fraquejar, sentiu que começava a ser dominado por aquele encanto soberbo.
- Deolinda, eu não sei desenhar – foi o que conseguiu articular.
- Mas felizmente não me rejeitas…
E o João sentiu a força do amor daquela linda miúda. Estava encantado.
- Deolinda, temos de encontrar-nos muitas vezes.
- Sempre que quiseres, meu amor. Mas temos de ter cuidado com o Estorietas…
- É um cretino. Não conseguirá fazer nada – garantiu o João.
- Se calhar, devíamos preparar-lhe uma partida…
- Ouve, não vais fazer mal ao meu amigo…
- Só uma pequena partida…
- Mas o quê?
- Ainda não sei. Depois pensaremos. Agora, diz-me uma coisa: gostas de ver hóquei em patins?
- Gosto, porquê?
- Eu aprecio muito e vai começar o campeonato. O Atlético agora joga no antigo campo do Juventude donde se avista o atelier do Bernardino. Hoje é contra os de Tomar. Queres ir ver o jogo comigo?
- Claro…
- Então, encontramo-nos em Ourém logo à noite antes do jogo.


O João, pateta como sempre, vai cair no jogo da beldade? Trairá a sua amizade com o Estorietas? 

quarta-feira, junho 03, 2020

A integração no grupo

Viu que a rapariga lhe sorria.
«Parece um anjo. Quem diria que me espetou a forquilha no traseiro?»
- Ansiava por poder desculpar-me daquele dia na minha cabana…
- Mas está viva? Como escapou?
- Naquele dia, apenas desmaiei. Quando voltei a mim, fui ter com os meus familiares que me socorreram. Somos um grupo muito unido. Tanto que já reconstruímos a cabana…
- Mas a polícia não voltou a procurá-la?
- Não houve queixa contra mim. No fundo que mal fiz eu? Era apenas um momento de paixão louca a que o Estorietas não conseguia corresponder.
- Vejo que ele não a merecia.
Ela colocou a mão no braço dele.
- Esqueçamos isso. Felizmente você está bem e já esqueceu a agressão a que o sujeitei…
- Tudo esquecido – disse o João sorridente. – Estou encantado por a conhecer. Aliás, acabou de me salvar a vida. Quer vir até ao café?
- Hoje não posso. Tenho de regressar a casa…
- E amanhã? Por que não aparece amanhã no Avenida? Apresentava-a a todos os meus amigos…
Combinaram encontrar-se no dia seguinte na esplanada do Avenida. E, pelas onze horas, um pequeno grupo falava animadamente quando ela ali chegou. O João levantou-se, pegou-lhe delicadamente na mão e anunciou:
- Meninos e meninas, esta é a Deolinda uma amiga que ontem me salvou e vida…
E contou rapidamente o que lhe acontecera na noite anterior. Todos ficaram muito admirados com a agressão da Teresinha.
- Não consigo acreditar – dizia a Livinha. – A Teresinha não é pessoa para maltratar ninguém…
- Possivelmente excedeste-te. Ela anda atrapalhada a estudar para exames – informou a Leninha. – Também me custa a crer nessa agressão por parte dela…
- A verdade é que o encontrei num estado lastimoso – afirmou a Deolinda. – Mas ela já não estava à janela. Acredito que não se tenha apercebido das consequências…
- Olha, Deolinda, não interessa. Oportunamente ela esclarecerá tudo. Agora, és nossa amiga. Queres vir ao nosso bailarico desta noite no sótão do Luís Filipe?
Ela ficou encantada com o convite.
- Ainda agora os conheci. Não sei se deva aceitar…
- Tens de vir – acrescentou o João. – Vais ver que todos te tratam bem.
Ela sorriu, mas de repente ficou tensa a olhar na direção dos Correios. Pelo passeio, vinha uma figura conhecida.
O Estorietas começou a atravessar a rua. Ainda não a tinha visto, mas, mal olhou para a esplanada, virou a cara, fez um esgar de desprezo e mudou de direção como se fosse para o Central.
«Será que perderam um amigo? – pensou a Deolinda».
À noite, a rapariga foi uma espécie de rainha do baile. Todas as atenções dos rapazes eram para ela e o João foi a pessoa que mais tempo passou a dançar com ela. Estranhamente, O Estorietas não apareceu no bailarico, mas pouco pensaram nisso.
Já eram onze da noite quando a rapariga disse para o João.
- Devo ir-me embora. Amanhã não queres visitar a minha cabana? Podemos almoçar por lá…
- Lá estarei – respondeu o João ansioso por avançar.


E agora? Estará o João em perigo? Terá a Deolinda alguma ideia em mente?

terça-feira, junho 02, 2020

Aparição

Mal o Zé Manel sentiu que a Teresinha estava incomodada, deixou de tocar e foi direito ao Avenida, deixando o João sozinho. Este continuou a cantar mesmo sem acompanhamento e, de repente, sentiu que um corpo pesado, mas não muito duro, lhe caía em cima.
O problema é que algo se rasgou e começou a sentir-se envolvido por uma massa branca totalmente pulverizada.
- Pffffff! Que porcaria é esta?
Tentou afastar aquilo de cima, mas não foi capaz. O nariz começou a ficar tapado e a não conseguir respirar, a boca ficou cheia de uma massa branca pulverulenta, os olhos estavam incapazes de ser abertos já que cobertos daquele pó horroroso.
Começou a sentir-se atrapalhado e batia com toda a força com a mão na cara para sacudir a massa horrorosa que parecia sufocá-lo. No entanto, a impotência começou a dominá-lo.
O João desesperava.
«Parece que não escapo desta. O que aquela malvada me fez… a minha doce Teresinha».
A pobre rapariga, alheia a tudo aquilo, continuava a preparar-se para os exames.
E foi quando o João já pensava que ia morrer calçado que uma voz muito doce soou ao seu lado:
- Precisa de ajuda?
Arfou, fez todo o possível para mostrar que estava o pior possível. A dona da voz doce puxou um lenço e começou a limpar-lhe o rosto. Mas os progressos eram lentos e o rapaz sentia-se cada vez mais com falta de ar.
Ela sugeriu:
- Vamos ao chafariz e eu retiro-lhe a farinha com água.
Farinha… então a malvada da Teresinha tinha-lhe atirado com um saco de farinha acima…
A providencial ajuda serviu-lhe de apoio para irem até ao largo do chafariz frente à casa do Administrador onde ainda funcionava a alfaiataria do Sabino e a Anita pôde assistir ao estranho espetáculo de uma rapariga muito bonita a lavar a cara do João e a retirar-lhe a farinha que tinha enfiado por todos os buracos da cara.
«Se calhar meteu-se nos copos – pensou e não ligou mais ao assunto.»
Entretanto, o João começou a respirar com mais facilidade e a sentir-se melhor. E houve um momento que pôde ver a sua salvadora… e teve um arrepio.
«É ela… é ela.»

segunda-feira, junho 01, 2020

Serenata numa noite de quase Verão

Era uma noite quente de quase Verão. A miudagem de Ourém encontrava-se no café e dava longos passeios pela Avenida e até ao jardim frente à Câmara. Entre eles estava o João, mas um João um pouco triste, pois, havia uma série de dias que a Teresinha não se juntava ao grupo, passando todo o tempo a estudar para exames.
Nessa noite, o Zé Manel trouxe a sua viola e uma ideia mirabolante ocorreu de imediato ao João.
- Zé, anda comigo vamos fazer uma serenata a uma miúda…
- Pá, eu não te consigo acompanhar. Só posso tocar «A brasileirinha».
- Não faz mal, dás uns acordos espaçados e eu canto. Basta que sigas o mesmo ritmo.
O Zé Manel lá se dispôs e, com o seu ar sonolento que fazia lembrar o Bob Dylan, acompanhou o João.
- Espera, ao menos ensaia um pouco…
- Pá, não me vou pôr a cantar no meio desta malta toda. Pensam que estou maluco.
- Então, vamos até ao pé da escola das meninas e, lá, podes erguer a tua voz.
Assim fizeram. Afastaram-se do grupo com uma pequena desculpa e, pouco depois, o João cantava:
«O meu desejo / é dar-te um beijo / é ter desejo / de te beijar…»
O rapaz nem cantava mal, pode-se garantir, mas nunca sentira aquele chamamento para a arte de cantar. A verdade é que, com tanta afinação, o Zé Manel em pouco tempo acertou o acompanhamento e, pouco depois, dizia:
- Bom, parece que funciona. Aonde vamos então?
- Frente à casa da Teresinha…
- Ena. Perdeste o juízo ou quê? Olha que ela tem uns irmãos mais velhos e a Céu também não me parece para brincadeiras.
- Que é que pensavas? Querias que te acompanhasse a Alcanena, não?
- Essa história da miúda de Alcanena é invenção tua. Nunca existiu tal miúda. Olha que, se a coisa der para o torto, piro-me logo. Não quero nada com o Luís ou o Taito.
- Vamos lá, vá… - dizia o João já agitado.
E dirigiram-se para a frente da pensão Simões que ficava na Avenida quase em frente ao cineteatro. Nesse dia, não havia sessão de cinema pelo que praticamente não se via ninguém na rua.
E, pouco depois, o João satisfazia o frémito do seu coração e elevava a sua voz numa canção lancinante procurando que a Teresinha aparecesse à janela.
Lá dentro, a pequena esforçava-se por estudar.
«Bolas! Isto está difícil. Por que hei de ter exames e os outros todos a passear?»
De repente, ouviu aquilo…
«Estranho! Alguém parece estar a cantar na rua. E tem acompanhamento. Que se passará?»
Foi até à janela e abriu-a. E foi então que viu o cantor e acompanhante e quase se sentiu sufocar. Lá fora, estava o seu amigo João, um verdadeiro pinga-amor, a cantar uma balada conhecida, sendo acompanhado pelo Zé Manel.
Ao princípio, não conseguiu balbuciar palavra. Depois, pensamentos preocupantes começaram a invadi-la: que iria pensar a família? Os vizinhos? Os outros amigos? E arranjou força para falar:
- João, o que é que te deu?
Ele nem respondeu. Continuou a cantar e a Teresinha notou que já outras pessoas chegavam à janela.
«Que irão pensar de mim? Eu, uma menina sempre ajuizada…»
E gritou lá para baixo:
- João, para com isso ou chamo a polícia.
Mas ele não se calava. A balada parecia ser interminável e ele arranjava sempre forma de repetir, repetir…
A miúda sentiu-se afogueada. Como poderia acabar com aquilo?
Olhou para o lado e viu um saco de farinha que devia pesar uns vinte quilos. Ainda avisou:
- João, para com isso ou arrependes-te.
Foi inútil. Ela não encontrou outra solução. Pegou no saco e atirou-o para cima do João, fechando de imediato a janela. Como por encanto, o silêncio voltou a Ourém

sábado, maio 30, 2020

A inevitável paragem

Queridos amigos, chegou a hora de anunciar a efetiva suspensão de produção de novos conteúdos para o Estórias de Ourém. A próxima estória, a mais longa, se a conseguir terminar, marca o fim de um período que, para o autor, foi desafiador, divertido e gratificante pela quantidade de amigos que reuniu.
Se, por qualquer motivo imprevisto, ela não surgir no Facebook, ficam a saber que o seu conteúdo está agendado para o blog Ourem ao longo das próximas três semanas. O autor também não pode garantir a inclusão de ilustrações e a formatação final com que eram produzidos os conteúdos antes. De qualquer forma, o texto estará disponível para vos contar mais uma maravilhosa aventura do terrível João Passarinho e da fera Deolinda.
Foi pena outros amigos não se terem juntado ao grupo, pode ser que numa próxima série de estórias isso aconteça.
As razões para esta paragem têm a ver com um certo cansaço e a necessidade de sair do local onde é mais fácil e viável proceder à elaboração de posts.
O Estórias permanecerá aberto para todos postarem o que muito bem entenderem. Podemos continuar a falar uns com os outros, podemos inclusivamente discutir como poderemos prosseguir daqui a uns tempos. É preciso ter consciência que o caminho por onde viemos já estava um pouco saturado, há que mudar a abordagem.
E agora um grande abraço para todos pelo apoio que deram ao Estorietas e pelo imenso gozo que algumas horas proporcionaram.

sexta-feira, maio 29, 2020

Um braço ergue-se acima dos destroços

Noite cerrada.
O silêncio abateu-se sobre o local onde existira uma cabana.
Agora, não passava de um monte de destroços, depois de ter sido o cenário de um estranho caso passional.
Tudo parecia parado, morto…
Parecia que os ventos, as aves e a restante bicharada se tinham posto de acordo para se calar.
Mas eis que no meio desse silêncio tétrico, algo parece ganhar vida.
Naquele escuro tenebroso, uma ou duas telhas começam a mover-se. E, de repente, uma mão, um braço aparecem. A vida voltava à cabana…
Pouco a pouco, uma figura começou a movimentar-se, a levantar-se lentamente. E o corpo da Deolinda surgiu do meio dos destroços.
«- Malvados! Destruíram tudo! Malvado Estorietas…»
Procurou algumas coisas suscetíveis de recuperar.
«Ainda me aparecem aí com a polícia. Tenho de me pirar. Mas voltarei… juro que voltarei para me vingar. Aquele Passarinho duma figa vai pagar-mas todas. E a lascarina do Castelo…

*

Rompia a manhã quando o jeep da GNR chegou às imediações da casa da Deolinda a qual tinha sido cercada por um cordão policial.
- Guarda Ernesto, procure se existe algum corpo no meio dos destroços…
A busca foi infrutífera.
- Ninguém, não há ninguém, meu comandante.
- Então, essa rapariga selvagem fugiu. Esperemos que não volte.
E os guardas voltaram para Ourém onde deram notícia dos resultados da busca aos nossos amigos…
«-Talvez a volte a encontrar – pensou o João. – E então não me escapará. Jejjjejjjjjjejjjejejej»





FIM

quinta-feira, maio 28, 2020

A força do prisioneiro

Conheceram então a fúria selvagem da rapariga. O João foi o primeiro. A forquilha acertou-lhe no traseiro, ele sentiu uma dor lancinante e só pensou em se pirar dali para fora. Em seguida, a rapariga atacou a Mari’mília acertando-lhe na cabeça com uma pancada fenomenal. Vendo isto, as outras desataram a fugir.
Lá dentro, o Estorietas ouviu as vozes e o ruído da luta.
«Os meus amigos… – murmurou – Ela está a maltratar os meus amigos…»
Como por encanto, sentiu-se a recuperar as forças. E fez monumental esforço para se libertar enquanto os gritos continuavam lá fora. Não podia consentir que os seus amigos fossem maltratados.
Naquele momento, o Estorietas faria inveja ao Sansão quando derrubava o templo. Com monumental força, conseguiu que a coluna desse de si, e o telhado começou a inclinar.
Lá fora cessara a luta. A Mari’mília estava caída no chão e os outros corriam para as bicicletas para se porem a caminho de Ourém com o João a sangrar do traseiro. Tinha-lhe saído cara a tentativa de conhecer a Deolinda.
Esta entrou em casa no momento em que o Estorietas atingia o seu objetivo. De um momento para o outro, a coluna deu de si, o telhado caiu com estrépito e uma telha atingiu a Deolinda que desmaiou. O Estorietas refugiou-se debaixo de uma mesa, depois, quando tudo terminou saiu de casa.
Viu a Mari’mília caída e amparou-a.
- Vamos, fujamos daqui.
Ela deixou-se envolver e ele conduziu-a à bicicleta. Depois, montou-a à sua frente e foi conduzindo com alguma dificuldade até Ourém. Mas sentia-se compensado sentindo o perfume dela.
Pouco depois encontravam-se com os amigos e o jeep da GNR.
- Eles estão salvos – gritou a Ciete.
- Mas precisam de assistência hospitalar. Vamos regressar a Ourém. Estes três jovens feridos vão no jeep e vamos trazer reforços para ver o que se passou na cabana.
- A cabana está derrubada e a Deolinda sepultada com ela – disse o Estorietas.
- Estabeleceremos uma cerca ao local e, amanhã, veremos como tudo está. Agora é o momento de descansar e tratar dos feridos.
E assim o Estorietas pôde voltar à sua terra e ao convívio com os seus amigos de sempre…


E a fera? Teria perecido sob o telhado caído?
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