sexta-feira, outubro 18, 2019

Nota de culpa


Faz-se saber que, nesta data, foi dada entrada no Tribunal Cível de Vila Nova de Ourém a um processo em que as nomeadas Maria Lopes, Maria Emília Graça e Maria Teresa Roda, mais conhecidas por Céu, Nicha e Teresa Simões, são acusadas como presumíveis infratores dos regulamentos de educação vigentes no Colégio Fernão Lopes. 
Elas terão por diversas vezes utilizado a técnica da cana de pesca com fita-cola na ponta com o objetivo de surripiar da reprografia do referido colégio exemplares dos testes a realizar em várias disciplinas, disso recolhendo benefícios ilegítimos. 
Como relata uma das implicadas, «o acesso à reprografia, com a dita cana, era feito pela sala das alunas. Chegava-se a mesa grande para junto da parede da reprografia, que era aberta em cima, cadeira, biquinhos de pés e arte de pesca».
Desconhece-se se algum rapaz terá estado envolvido neste esquema, embora por vezes seja citado o nome de Ramiro Arquimedes, também conhecido por Kansas. Investigações futuras determinarão o seu grau de implicação que não deverá ser elevado, pois, à hora do furto, devia estar a jogar King no Café Avenida.
Mais se informa que, como pena por tão vil acto, deverão ser condenadas a ficar sem as habilitações que obtiveram dessa forma ilegal bem como das que obtiveram posteriormente e deverão ser obrigadas a devolver todos os rendimentos que usufruíram do erário público na parte em que são superiores ao salário mínimo nacional. 
Tal pena pode ser substituída por trabalho comunitário: assim poderão optar por todos os dias vir a este espaço e abrilhantar com três comentários diários por acusado o seu conteúdo para além de colocarem «gostos» em todos os textos do mentor do Estórias e não manterem conversas com o famigerado João Passarinho, outro famoso gangster do nosso concelho.






Vila Nova de Ourém, 18/10/2019






O promotor do Estórias de Ourém






(assinatura irreconhecível)




quinta-feira, outubro 17, 2019

O caso do cruzamento frente à morada do Padre Doutor

Na década de 60, a mobilidade urbana em Ourém era um facto. Ciclistas, automóveis e peões circulavam pelas ruas da vila com toda a confiança. Por um lado, circulava-se devagar, por outro o silêncio era tal que, se um carro se aproximava, ouvia-se o seu ruído a longa distância. Além disso, a polícia era um elemento presente por todo o lado sempre no objetivo de “proteger o cidadão”.
Um dos grandes ciclistas da nossa terra, para além de nós todos os outros, era o Manel do Tenente, insigne oureense de quem já falei algumas vezes, mas a quem nunca tive o prazer de dedicar uma crónica.

Pois, um dia, o Manel dirigia-se, pela rua Augusto Castilho, de bicicleta e a toda a velocidade, de casa do Luís Nuno para a casa do Dr. Preto, onde, como sabem, também habitava o famigerado João Passarinho.
Da parte de cima, proveniente da rua António Leitão, onde morava o César, vinha, no seu carro, o sr. Félix, magnífico representante da classe comerciante e da marca de máquinas de costura Oliva, pessoa que também vendia seguros. O sr. Félix não vinha muito depressa, mas tinha uma maneira estranha de olhar, dava a impressão que não via bem os que se cruzavam com ele. E, naquele dia, deveria vir a pensar na maneira como havia de empandeirar mais alguma apólice de seguro a algum descuidado oureense.
Claro que o choque inevitável deu-se…
… melhor dizendo, quase que se deu. O Manel travou a bicicleta e, para afastar aquele monstro do seu caminho, não descobriu melhor remédio do que mandar uns murros ao vidro do automóvel. Aí, o sr. Félix travou e o incidente ficou sem consequências de maior. Mas o homem ficou transtornado. Quase que oiço a voz dele:
- Ó Manel, então está a dar murros ao meu automóvel? Eu vinha da direita, eu tinha prioridade…
- Cale-se e tire esse monstro da minha frente – berrou o Manel.
Imaginem o que poderá ser agora com 15 lombas na Avenida e com a eventual chegada de trotinetes, skates, bicicletas elétricas, segways… Pobre peão que se quer deslocar em Ourém, pobre automobilista… e o Manel do Tenente ainda anda por aí.

quarta-feira, outubro 16, 2019

Garmpeiro musical

Voltemos ao Jó Rodrigues, presença assídua na minha casa, num pequeno morro na rua Santa Teresinha, frente à do Zé Quim e ao lado da dos padrinhos do Rui Temido.
O seu sentido de audição musical era notável: ele conseguia descobrir no meio das músicas, escondidas sob as vozes, os solos, as baterias, pequenas pérolas que, sem o seu apoio, a nós, sempre com um ouvido para o mais comercial com certeza escapariam. Era um autêntico songs mining. Isto fazia com que, muitas vezes, conseguisse transformar uma canção insuportável em algo em que nós abstraíamos daquelas partes fastidiosas para esperarmos pacientemente pela passagem maravilha.
Parece-me que estou a vê-lo. Um dia entra pela casa, sem bater como era nosso apanágio, sentamo-nos na sala interior e eis-me a ser objeto de revelação: estive a ouvir o Tell me you are coming back dos Stones e aquilo tem um solo que é um tratado. E lá íamos nós a procura do solo e ficávamos a adorar o disco. E se era difícil na época gostar dos Rolling Stones
Noutra ocasião, referiu-se a um conjunto que teve um êxito retumbante com apenas uma música: os Turtles e o Happy Together. Sabes, Luís, lá pelo meio, depois daquela parte mais rápida, quando eles começam de novo “Me and You...” aparece uma música de fundo tão linda como eu nunca ouvi. Hás-de ouvir.
E era bem verdade, tão verdade que nunca consegui esquecer esses pequenos pedacinhos da nossa maravilhosa vivência nem quem me ajudou a descobri-los.


terça-feira, outubro 15, 2019

O cantinho dos doutores


Numa sociedade marcada pela desigualdade social, é natural a existência de um espaço nobre para as elites. E, no Central, um café bem mais popular que o Avenida, também existia o cantinho dos doutores.
Situava-se numa reentrância do balcão, talvez com uns 50 centímetros de profundidade e uma extensão de pouco mais de um metro, a suficiente para colocar umas três cadeiras destinadas aos Dr. Armando, Dr. Nini e Dr. Oliveira.

Imagine-se o que era passar por ali com as três personagens apontadas ao corredor para o bilhar mesmo à sua frente. O mais fácil era passar sem olhar, “evitando” saber quem lá estava e tentando não ser visto.
O Dr. Nini e o Dr. Oliveira eram bastante afáveis, mas...

***

Tinha levado uma sova das antigas. Claro está, do Dr. Armando. Não me lembra a razão, mas, com certeza, existiu e terá sido bastante forte para irritar a pedagógica criatura. Sei que estive ali a ser uma espécie de saco de box, a levar, levar, levar… mas olhava para ele, não baixava a cabeça, não me defendia e isso parece que o irritou mais. De maneira que foi dando…
Claro que fiquei sentido com a pessoa. E um dia tive de passar à frente do “cantinho dos doutores”. Executei o procedimento de aceleração e fui por ali fora, tentando não ver nada.  Já tinha percorrido uns três metros quando senti uma mão cair-me em cima…
Era ele…
Afastou-me dos outros doutores, mais para junto da máquina do café, e encarou-me.
- Olha, já me desculpaste não é verdade?
Claro que só uma grande pessoa faria aquilo. E a despedida foi com um aperto de mão e um sorriso na chegada à sala de bilhar.

domingo, outubro 13, 2019

O síndroma Joacine

Várias pessoas já se afirmarem admiradas com as incríveis revelações do Estórias dado que julgavam que o seu responsável nem um prato conseguiria partir.
Têm toda a razão.
Aquele ser um pouco autista, triste, ausente mantem-se. Mas isso não significa que a sua mente esteja parada. Tal como dizia a Joacine, «gagueja quando fala, mas não gagueja quando pensa»… embora algumas vezes o “órgão de pensamento” não funcione.
Era um ser terrível, muito criativo, sempre com profunda reflexões e criações que só a sua intolerável incapacidade para pôr em ação fazia que parecesse inativo. Uma permanente contradição entre o pensamento e o ser…
E que o diga a Dra. Helena Carvalhão do Liceu de Leiria que, nas suas aulas de filosofia, não conseguia tirar uma palavra de tão insigne pensador, apesar da sua reconhecida queda para o tema. Razão: bloqueio total…
Bloqueio total que não foi corrigido com os anos, apesar de muitas vezes ser posto à prova em aulas bem difíceis. Ainda há pouco, na inspeção ao calhambeque, quando o técnico lhe disse para ligar os faróis nevoeiro, não sabia onde estavam… Outra vez, na renovação da carta de condução, não se lembrava do nome da freguesia onde tinha nascido… Piedade, meus amigos, piedade…
Por isso, não se admirem se muitas outras revelações aqui surgirem.
«Have you heard?»



sábado, outubro 12, 2019

Aforismos de Tolentino Mendonça

Aforismo é um gênero textual ou uma obra deste gênero caracterizado por sentenças breves que possuem uma definição de um preceito moral ou prático.
Quando deparei com esta obra de Tolentino Mendonça senti uma certa curiosidade por conhecer um pouco melhor o seu pensamento. Já tinha passado por alguns artigos com um caráter simpático e a recente nomeação como bibliotecário do Papa, em particular deste Papa mais progressista do que 90% dos políticos que reivindicam essa qualidade, aguçou a curiosidade.
O primeiro aspeto do livro foi-me simpático: letras grandes, ideias aparentemente bem formuladas, alguns pensamentos interessantes.
Depois, veio uma certa desilusão, não pela pessoa evidentemente, mas pelo meu desconhecimento destes temas e pelo facto de não ser muito permeável a questões de fé.
As frases pareciam-me desligadas apesar de associadas a um tema.
E de repente pequei e não resisti a fazer a provocação: abstraindo do conteúdo doutrinário, qual a diferença entre esta obra e as «Citações do presidente Mao Tsé Toung» que devorámos na década de 70? Também este documento é um conjunto de frases que pretendem ser a orientação para um determinado tema. Há, no entanto, uma diferença, a obra de Tolentino é organizada, escrita para ser assim, o outro texto é um conjunto de frases retiradas do contexto… O primeiro é difícil de ler, o segundo tem por objetivo cair no seio das massas para as orientar para a ação.
Ainda a propósito disto, lembrei-me de mais um documento com uma natureza semelhante: «As teses sobre Fuerbach» de Karl Marx e é curioso que a sua estrutura está mais perto de um conjunto de aforismos organizados para uma conclusão bem definida do que um conjunto de citações despidas de contexto. E no final destas, a formulação do preceito: «Até agora, os filósofos não fizeram mais do que interpretar o mundo, quando o que interessa é transformá-lo»…
Mas para o transformar há que promover um acordo significativo e não levar aos disparates cometidos até ao presente.

Coitado do pato

Levantei-me cedo e pus-me a caminho de Ourém e do Central para levantar a imprensa do dia.
Aparece-me a Paulinha. em plena actividade radiofónica:
- Bom dia, Paulinha
- Bom dia, Dona Gertrudes. Então como está?
- Estou bem e a menina Paulinha?
- Também estou bem. Então que vai fazer para o almoço...
- Um pato no forno...
- Coitadinho do pato...
- Tenho mais de dez, comem demasiado, gasto muito com eles...
- Mas fazem-lhe companhia.
- É só trabalho. E o mais difícil é depená-los.
- Pois, é muito mais fácil depenar um frango do que um pato...
Pobres bichos...

Bibliotecário do Papa


Quem é que de entre nós teria jeito para bibliotecário? Eu digo teria, pois, afastados que estamos da vida profissional, na nossa bela idade, ninguém nos concederia o job.
Eu decerto teria algumas qualidades para a função. Sou organizado, metódico, gosto de livros, mas teria um senão muito grande. É que havia o perigo de me perder na leitura e, ao fim de algum tempo, estar tudo fora do sítio.
Por outro lado, abuso da superficialidade. Passei dezenas de anos a ler livros com títulos como: «Introdução à Economia…», «Introdução à Estatística…». Ora, quem se fica pela introdução, nunca obtém o rendimento das ações em que se insere.
Por isso, nunca conseguiria desempenhar condignamente uma função como a que desempenha Tolentino Mendonça. Para além disso, há a questão do conhecimento da área e esta é uma daquelas em que sofro de total ignorância.
Mas aquela Vaticana…
… provoca algum respeito. Já repararam no magnífico ambiente que este espaço encerra? Porventura estará envolvido em música celestial?
Imaginem este ambiente transposto para a Biblioteca de Ourém. Sim, aquela mesmo em que andámos à procura do livro «O último moicano». Acho que nos perderíamos na contemplação das imagens, das luzes, das cores...

sexta-feira, outubro 11, 2019

A mudança

Claro que em todas as mudanças surgem complicações e eu fui actor numa delas.
Revejo-me a descer do largo de Castela para a Avenida. Levo um saco grande na mão, talvez com um metro de altura e uns trinta centímetros de diâmetro. É castanho, feito de uma matéria que me parece linhaça ou sarja, mas a minha santa ignorância não consegue classifica-lo. 
Lá dentro sente-se que algo mexe. É a minha gatinha de cor branca e preta, vai dentro do saco para não reconhecer o caminho e não ter tentações de voltar à origem. Pobre bicho que tem de aturar as loucuras dos humanos...
Atravesso a Avenida e viro à esquerda. Frente ao edifício do cineteatro, viro à direita e inicio a descida. Passo em frente à casa onde conheci distinto oureense que há uns anos me ofertou saboroso arroz de cabidela na Gondemaria e que, como saberão daqui a uns dias, enfrentava os cruzamentos dando um murro no automóvel concorrente à prioridade... 
Um pouco mais abaixo, frente à morgue, acelero o passo. Sempre que ali passava tinha receio que algum defunto me perseguisse. 
Num instante chego à estrada, passo frente à alfaiataria do Zé Canoa e inicio o pequeno morro que me leva à nova casinha.
Ali, faço as apresentações à gatinha. Vê o quintal, vê os quartos, enfim tudo parece em ordem, a adaptação parece não trazer problemas. 

***



Passaram um ou dois dias. Oiço a minha mãe: 
- Luís, não sei da gata...
Foi o desespero. E se ela era engraçada e brincalhona.
Mas eis que chega a salvação. Alguém da rua de Castela traz a notícia. 
- Sabem, a V. gata não sai de ao pé da antiga casa.
É verdade, apesar da nossa tentativa, o bicho tinha conseguido reconhecer o caminho e voltar. Com maiores cuidados, fomos buscá-la e, como o sítio para onde mudámos, era idílico, ela acabou por se adaptar.
Foram precisos muitos anos para distinto oureense compreender, aceitar e acabar por sentir esta fixação na casa do Largo de Castela.

quinta-feira, outubro 10, 2019

Adeus ao Largo de Castela


Claro que um dia aconteceu a inevitável mudança. Não sei o que deu na cabeça aos meus pais, resolveram mudar-se para uma casa hoje sepultada pela EPO.
Na altura, não me apercebi das terríveis consequências nem imaginava que Ourém poderia vir a cair sob o domínio da cambada de brutos, pouco civilizada e sem amor à terra, que a tem vindo a destruir.
A verdade é que nunca mais vi algumas das simpáticas pessoas que lá conheci. Mariana, a lavadeira, que vivia numa casa junto ao Guerra dos leitões, o Nicolau, a Rosalina, o Peru, o Queimado, o Boas-falas...
Ainda voltei à casa do Largo de Castela. Ela foi habitada, após obras de renovação, pela Aurorita e pelo João do Maquitan e um dia convidaram-me para lá ir ver a magnífica colecção de Búfalos e Bisontes que ele tinha. Claro que não me fiz rogado e actualizei as minhas recordações e as minhas leituras.
Depois, não houve mais qualquer visita.
So long é uma expressão que exprime este adeus, um pouco doloroso e que dura há tanto tempo.
Alguns anos depois, Cohen trouxe-o na forma de canção e numa pessoa de nome Marianne...

Nesses falaremos mais logo.



quarta-feira, outubro 09, 2019

A "Cruela" visita as festas de Peras Ruivas

Lá para 1967, eu e o Zé Quim fomos às festas de Peras Ruivas. Calor tórrido bem no início de Agosto.
Bebemos um palhete no Janeca e subimos aquela rampa que levava à quermesse. Lá, comprámos umas rifas em que não saiu nada.
Continuámos a nossa vigília. A animação começava. Os foguetes estoiravam por todos os lados. No meio da estrada assistia-se a um interessante jogo: um concorrente em cima de uma bicicleta tentava rebentar com um cântaro suspenso no ar. Se o partisse, ganhava. E o povo aplaudia enquanto o António Mafra cantava o Sete e Picos.
De repente, na minha mente fez-se um silêncio impressionante. Estremeci.
Vinda não sei de onde, aparece ela. Linda como sempre. Tal e qual a Silvie Vartan ou a France Gall. Mais bonita que elas...
Já a conhecia. “Olá! Então por aqui?”. “Sim, vim passar estes dias com uma amiga”.
E foi-se. Completamente indiferente à minha pessoa… ali abandonado, de coração partido...
Naquele momento, a festa acabou para mim. 
E era o ZéQuim:”Quem era? Quem era?”.
Claro que nem respondi, pregado que estava naquela aparição. "Cruela" mulher que tanto mal me fazia...

terça-feira, outubro 08, 2019

O caso da manivela impotente

Na década de cinquenta, o meu pai era um dos sócios da Vieira, Graça e Prino, nome de três poderosos capitalistas tesos de Ourém que exploravam uma oficina automóvel que tinha por missão fazer arranjos sem conseguir receber as contas de clientes. Apesar disso, chegava para comer e pagar o Fernão Lopes.
Para se deslocar, possuía um pequeno automóvel comprado em segunda ou terceira mão o qual foi actor de algumas histórias incríveis que nem eu já sei contar.
Mas lembro-me que um dia, estacionado junto à casa do Largo de Castela, o carro não pegou por mais tentativas que ele fizesse. E foi para a oficina a pé…
Pronto para ir para as aulas, saí de casa e deparei-me com o carro. E a brilhante ideia surgiu…
E se eu fosse para o Fernão Lopes de automóvel?
Era só subir a rua de Castela, entrar na estrada que nos leva ao Vale Travesso. Depois passaria em frente ao Colégio lentamente, apitaria, acenaria para o jardim onde estavam as miúdas… sim, onde ela estaria de certeza e seria o oureense mais famoso do dia. Mais para cima, faria inversão de marcha e, depois, era só estacionar… e talvez ela quisesse dar uma volta comigo.
Ansioso entrei no carro e tentei ligá-lo. Acelerei, acelerei, carreguei no botão de arranque e nada…
Não sei se se lembram, mas antigamente também se podia ligar um carro com uma manivela. Peguei na dita e enfiei-a num buraco na parte da frente do carro. Girei com ela, ouviu-se um pequeno ruído, mas nada de o carro pegar.
Nessa altura, passaram o Duarte e o Ferraz.
- Dá à manivela, Luís. Dá à manivela…
Malvados. Sempre a gozar comigo. Hão de ver o que é fazer pegar um carro.
Sou daquele género que «finge que desiste, mas depois volta à carga», pelo que idealizei engatar uma mudança e dar à manivela.
Pensado e feito. Ouviu-se enorme ruído e o carro deu um salto em frente.
«Estou quase a conseguir» - pensei - «O importante é saltar para dentro do carro quando ele vai em frente e aproveitar-lhe o movimento».
Fiz várias tentativas e a verdade é que consegui deslocar o carro para o meio da estrada à entrada da rua de Castela. Ao fim de algum tempo, comecei a ver formar-se uma fila enorme de carros proveniente da parte de cima da rua. A bicha chegou ao Colégio.
- Sai daí, malandro!
Toda a gente estava furibunda comigo e eu já me via de novo nas mãos do polícia Cunha a ser sujeito a mais um interrogatório.
Felizmente, alguns saíram dos carros e ajudaram-me a repô-lo no estacionamento.
Triste, acabrunhado, retirei a manivela e recoloquei-a no seu lugar. Peguei nos livros e fui a pé até ao Fernão Lopes. Divisei-a ao longe no jardim das meninas, indiferente à minha situação, eu que tanto tinha querido levá-la a passear de automóvel…
E não imaginam o ralhete que ouvi à chegada a casa. Nem sei como as orelhas resistiram a tanto torcegão…

segunda-feira, outubro 07, 2019

A apanha da azeitona



E que avistas desse teu local? Posted by Picasa

Já vejo a minha Ourém
Do cimo desta oliveira
Que bom é ser livre um dia
Não estar presa a vida inteira


Começou em Ourém a época da apanha da azeitona. Imaginem o que é chegar a minha casa e deparar com esta miúda de Peras Ruivas a limpar-me a oliveira. Que lhe fariam se estivessem no meu caso?
O problema é que não a reconheço, por isso, peço auxílio aos amigos do Estórias para me ajudarem a identificar quem me invadiu os domínio sem autorização e me ficou com a azeitona toda...



domingo, outubro 06, 2019

A fuga do cabecilha do assalto aos melões

É quarta-feira em Vila Nova de Ourém na década de sessenta do século passado. O Verão está bem maduro. Sabedores que, no dia seguinte, se realiza o famoso mercado da terra, muitos comerciantes estacionam as suas camionetas e outros meios de transporte junto ao adro da Igreja. Lá dentro, guardam os fabulosos produtos com que no dia seguinte obsequiarão os oureenses.
Todos os adoram, todos os respeitam…
Todos?
Não, há um oureense que não quer que os seus conterrâneos tenham o prazer de ver aqueles produtos no mercado. E idealiza o crime perfeito…
- Esta noite – diz a famigerada criatura aos capangas – quando soarem as 24 badaladas do sino da Igreja, pegamos em alguns cestos e, sem ninguém nos ver, vamos sacar os melões aos comerciantes.
E assim fizeram.
Só que não sabiam que estavam a ser vistos. E o seu comportamento não foi muito profissional. É que, em vez de comerem os melões, jogaram à bola com eles no adro da Igreja.
Cansados, saciaram-se e atiraram as cascas para o meio da rua. Sempre sob o olhar vigilante do narrador que os reconheceu a todos menos um, exatamente, o famigerado chefe. Quem seria a tenebrosa criatura?
O narrador sacou de uma máquina fotográfica e disparou. O inesperado clarão assustou os meliantes:
- Um relâmpago… vem aí uma tempestade.
- Já oiço os trovões. Fujamos…
E aquele grupo de malcomportados fugiu a sete pés, deixando os cestos e os despojos do seu crime espalhados pela rua. Eram tantos que nem o sr. Godinho conseguiu abrir a horas.
Entretanto, o narrador dirigiu-se aos seus estúdios privativos e revelou a fotografia, a qual, dados os condicionalismos noturnos não ficou muito clara… mas permite esclarecer umas dúvidas… 
Sim, meus amigos, aquela figura amacacada é bem conhecida no nosso tempo, na nossa Ourém...
No dia seguinte, no Avenida e no Central não se falava noutra coisa: um estranho surto de diarreia afetava alguns jovens oureenses. Tinha sido provocada por uma overdose… de melão.
Nenhum dos criminosos pagou pelo seu crime, o narrador também não os denunciou, nunca mostrou a fotografia a ninguém até hoje, mas sabe-se que um deles, envergonhado, fugiu da terra e refugiou-se em Madrid. Para compensar as saudades do Atlético oureense, tornou-se sócio do homónimo da cidade.
Hoje, a foto do bicho vê a luz do dia pela primeira vez. Reconhecem-no apesar do disfarce? Olhem aqueles joelhinhos em perfeita simetria...
Não voltes a Ourém, malvado colchonero! Tens uma dívida a pagar ao homem do melão…

sábado, outubro 05, 2019

Toca a votar...

Já regressei de Ourém e estou em casa esperando ansiosamente a hora de votar. Nunca faltei a uma eleição, mas houve uma ou duas vezes que pus em prática aquele famoso slogan dos divertidos MRPP: 

«Anula o teu voto com uma inscrição revolucionária».

Como sempre, chego a este dia e não sei em quem hei de votar. De um lado, concordo com os fundamentos e a ideologia, mas detesto as concretizações. Do outro, admiro a eficácia, mas odeio a arrogância e a apropriação privada de um excedente que é social.
Mesmo assim, lá irei e habituado que estou a percentagens abaixo de 1%, não estou muito preocupado com a solução que aí virá. Claro que quero a solução de um lado, de um determinado lado. Como há muitos anos…

***

É chato hoje falar nisto, coitado do senhor, até simpatizava com ele e com o seu sobretudo verde, mas uma das eleições que me deu mais gozo foi aquela em que se defrontaram Soares e Freitas. 
Pelas dezanove horas, Freitas entra na sede de candidatura, todo inchado, certo de que ia ganhar e, de repente, a surpresa e a vitória de Soares… 
Foi a única vez que venci umas eleições. Lindo! Nem senti o sapo passar…
Claro que agora ganhar ou perder é quase o mesmo: este país, tal como a UE, parece não ir a lado algum…

sexta-feira, outubro 04, 2019

A grande desilusão


Um dia, junto ao tanque das banhocas da trupe, o pai do Rui fez-me a sacramental pergunta frente aos outros:
- Então, Luís, e vai estudar para ser o quê?
Eu sabia lá, embevecido que andava com estórias de cowboys. Nenhuma profissão daquela gente de fatos cinzentos ou das de fato macaco me seduzia. Imaginava-me cavaleiro solitário de viola na mão ou como pistoleiro em cidade selvagem para a qual traria a ordem ou galanteador perante aquelas fabulosas meninas que se cruzavam no caminho do Cisco ou de outro dos nosso heróis.
Mas que havia de responder? Eu sempre abusei da sinceridade em momentos críticos como este.
- Eu quero ir para a América para ser cow-boy.
Ficaram de boca aberta.
- Mas já não há cow-boys hoje...
- Não há. Mas eu vejo-os nos livros e no cinema.
- Mas o que lá vê passou-se há quase cem anos ou mais. Agora o mais que lá encontrará serão alguns ranchos e o tratamento de gado...
Fiquei de todo. Lá se foram os meus sonhos... como era possível todas as ilusões irem por água abaixo de um momento para o outro.
Nessa noite, passaram pela minha frente todas essas figuram que tanto me diziam...

quinta-feira, outubro 03, 2019

O caso do boomerang desgovernado

Havia inúmeros arames espalhados pelo Largo de Castela. Teriam talvez uns 20cm, eram relativamente novos. Eu e o Mina Guta vimos aquilo e tivemos de imediato uma luminosa ideia.
- Vamos simular boomerangs...
Agarrámos alguns arames e demos-lhes um ligeiro torcegão ao meio. Depois, era só pegar numa ponta e enviar o mais alto possível. De acordo com a nossa destreza, o arame cairia ou não praticamente no mesmo ponto de onde tinha sido enviado.
A verdade é que eles subiam com uma tal força, rodando sobre si mesmo que o espectáculo tinha alguma graça. Eu tinha o braço mais longo, o Mina Guta tinha mais fibra de maneira que as alturas a que chegávamos conseguiam equilibrar-se.
Mas eis que algo corre mal...
Na tentativa de enviar o mais alto possível, um arame não subiu perpendicularmente, mas com uma certa inclinação. O Largo de Castela era atravessado por fios de electricidade entre a casa da Aurorita e a do Souto. O arame foi por ali fora e encontrou a toda a velocidade os fios. Enrolou-se com eles, fê-los bater uns nos outros, provocou curto-circuitos. O espectáculo tornou-se deslumbrante com os fios em estranho bailado e faíscas a jorrarem por todo o lado. Depois, tudo cessou, os fios quebraram-se e as pontas caíram no chão ficando suspensos a partir dos pontos de apoio.
- Estamos tramados...
- O melhor é irmos para casa...
Algum tempo depois a brigada de avarias veio e resolveu tudo, mas eu, nessa noite, não estava muito tranquilo e tive dificuldade em adormecer.

...

Alguém bateu à porta.
A minha mãe foi abrir. Era o polícia Cunha.
- O Luís está?
- Está sim...
- Era para fazer o favor de me acompanhar à esquadra...
Comecei a não ficar muito tranquilo. Vesti-me e saí de casa para o acompanhar. Na rua, já estava o Mina Guta com outro polícia. A caminhada até à esquadra foi marcante. As pessoas a verem aqueles dois gabirus e a comentar o que teriam feito...
Passámos frente ao Avenida, depois frente aos correios e, pouco depois, estávamos na esquadra. Fizeram-nos sentar à frente de uma secretária e um deles afirmou:
- Vocês ontem andaram a brincar com arames lá no Largo. Os fios estoiraram. Alguém vos viu e nos disse que podem ter sido os responsáveis. É verdade?.
- Não, senhor guarda – respondi.
O Mina Guta confirmou...
Ali estivémos um bom bocado até o polícia ver que nada conseguia tirar de nós, que não tinha ninguém a quem imputar o crime e a quem fazer pagar as despesas.
Eles retiraram-se e estiveram em conferência um bocado. Eu e o Mina Guta já estávamos combinados: negar até ao fim.
Mas eles separaram-nos e não permitiram a continuação da nossa comunicação. Fui com o polícia Cunha para um gabinete e o Mina Guta foi com o outro. Mandou-me sentar e começou a andar à minha frente dando pequenos toques na perna com o cacetete...
- Luís, és muito bom rapaz, mas temos de tirar isto a limpo. Foram vocês ou não?
- Não, senhor Cunha...
- Tenho uma proposta para te fazer. Se tu confessares e o teu amigo não o fizer, vais em liberdade e ele passa três semanas no calabouço para aprender a não fazer diabruras e a assumi-las. Mas se tu não confessares e ele o fizer, é ele quem vai em liberdade e tu quem cá passa as três semanas... Confessas?
- Não, senhor polícia, não fomos nós e tenho a certeza que o Augusto vai dizer o mesmo...
- Mas olha que com os testemunhos que temos, se nenhum confessar, arriscam-se a cá passar os dois duas semanas...
- E se confessarmos ambos?...
- Só passarão uma semana que é o castigo por serem tão descuidados... e terão sempre que pagar as despesas...
Estava entalado. Que havia de fazer? Colaborar? Negar até ao fim?... a vida traz-nos cada dilema. E qual seria a atitude do Mina Guta? Se eu confessasse e ele não, ficava lá três semanas...
Pensei, pensei, pensei...
Comecei a sentir suores frios...

...

Acordei. Estava encharcado em suor.
Mas estava na casa do Largo de Castela. Na rádio, ouvia estranha notícia: “Von Neumman acaba de anunciar uma nova teoria: a teoria dos jogos...”.
Assomei à janela. O velho Dodge do meu pai ainda estava à porta. Os fios já estavam reparados, parecia que tudo corria bem, não havia sinal de polícia.
O maquitan repousava frente à casa da Aurorita. Do outro lado, o senhor Zé Maria, com uma pá, introduzia uma massa branca dentro do forno. O Guerra passava com pedaços de leitão bem embalados. Lá em baixo, a camioneta do Isidro era cheia com jaulas para levar as galinhas ao mercado.
Pela rua de Castela, vinham a Lelita e a Rosalina em alegre cavaqueira. E lá no largo, o Boas Falas levava a mão ao chapéu e cumprimentava:
- Boas falas...
O Largo de Castela estava cheio de vida. Como era bom acordar naquele ambiente. Hoje já não consigo acordar assim, perdi esse dom, converti-me numa espécie de prisioneiro do tempo... 


(primeira publicação em 01/02/2006)

quarta-feira, outubro 02, 2019

A aula de Português


Nunca simpatizei muito com o tempo frio. Por isso, quando o Dr. Armando, numa aula de Português, nos encomendou uma redação sobre as estações do ano, não me fiz rogado. Escolhi falar sobre o Inverno e desatei numa ladainha confrangedora.
“Tu, infame, maldito, tu que na floresta afogas o pobre animal que busca alimento, tu que nem poupas a velhinha que tirita de frio junto à lareira na cabana, tu que nos mandas tempestades e mil cataclismos, tu, cobarde, não mereces existir. Vai-te, desaparece e não tentes voltar.”.

***
Passados dias, foi a entrega das redações devidamente corrigidas. Não houve observações de maior até ao meu caso e aí o professor passou algum tempo a ler e a olhar-me.
Em certo momento, o Dr. Armando parou a leitura e olhou gravemente para a turma. Apesar de tudo estava muito calmo. Eu é que não. Comecei logo a pensar que o atrevimento me sairia caro e não escaparia sem sova. Meditou durante algum tempo e depois disse:
- Pois é, Luís... tens esta imagem da velhinha que corresponde bem à realidade, mas não podes ser tão negativo. Lembra-te que o Inverno, tendo todos esses defeitos, deixa nas terras aquilo que vai permitir que, mais tarde, tu vejas florescer o que tanto aprecias... 

Ufa…...

terça-feira, outubro 01, 2019

O barro que as mãos moldaram

Noutro tempo, na rua que vai da Avenida para a casa do Largo de Castela, junto ao Isidro das galinhas, do outro lado, mas mais abaixo da casa do Luís Nuno, também houve em Ourém alguém que moldava…
Não moldava a consciência, o comportamento, como muitos hoje em dia tentam fazer, mas o barro. Era delicioso ver aquelas peças saírem da conjugação das suas mãos com a matéria prima e o instrumento que transmitia àquelas um movimento circular, mais abaixo, mais acima, de acordo com a pressão. Mais tarde, beber água saída daqueles cântaros, ênfusas, era delicioso.
O artista era o Patica, uma das pessoas simples de Ourém. Decerto não teve qualquer responsabilidade nos moldes transmitidos à doentia e destruidora mentalidade de muita gente que tudo fez para nos roubar a Ourém que conhecemos

segunda-feira, setembro 30, 2019

A aula de Matemática que nunca houve no CFL

 A influência da professora de Matemática do CFL terá sido de tal ordem que gente amiga confessou-me ter seguido uma carreira nessa área devido ao gosto que as suas aulas lhe deixaram. Eu também nunca a esqueci - a vocação teria aí uma perninha - apesar de me ter vendido ao poder dos cifrões. Imagino o que seria uma das suas aulas se nos tivesse de explicar a Torre de Hanói.
Dir-nos-ia:
Em 1883, o matemático francês Édouard Lucas inventou o famoso puzzle das Torres de Hanoi , também conhecido pelas Torres de Brahma e contado em forma de lenda.
E não se escusaria de recorrer à explicitação dessa lenda:

No grande templo de Brahma em Benares, numa bandeja de metal sob a cúpula que marca o centro do mundo, três agulhas de diamante servem de pilar a sessenta e quatro discos de ouro puro.
Incansavelmente, os sacerdotes transferem os discos, um de cada vez, de agulha para agulha, obedecendo sempre `a lei imutável de Brahma: Nenhum disco se poderá sobrepor a um menor.
No início do mundo todos os sessenta e quatro discos de ouro, foram dispostos na primeira das três agulhas, constituindo a Torre de Brahma. No momento em que o menor dos discos for colocado de tal modo que se forme uma vez mais a Torre de Brahma numa agulha diferente da inicial, tanto a torre como o templo serão transformados em pó e o ribombar de um trovão assinalará o fim do mundo
.
Estabeleceria a relação da lenda com o problema matemático:

A versão original das Torres de Hanoi consiste em três postes e oito discos de diâmetro 1; 2; ...; 8, inicialmente dispostos no primeiro poste por ordem decrescente do diâmetro formando uma estrutura cónica semelhante à da figura 1. O objectivo do puzzle consiste em formar a torre no terceiro poste, movendo um disco de cada vez, não sendo permitido colocar um disco maior sobre um menor.
E, de certeza, dir-nos-ia: «´Fico à espera da vossa solução».
Força, eminentes sábios utilizadores do Facebook!

sexta-feira, setembro 27, 2019

A primeira noite de baile em Caxarias

Há dias, no mail, aparece-me esta provocação de distinto oureense:
"É pá, Luís! E não te lembras dos nossos bailaricos?"
Confesso que nunca fui grande pé de dança, mas como, na época, a grande maioria das músicas dançáveis não exigia grandes e sincronizados passos, a atrapalhação não foi grande. Era pior a abordagem...
Mas é preciso responder à provocação.
Oh! Se me lembro...
Recordo aquele magnífico sótão do Luís Filipe, mais ou menos por cima da Farmácia Moderna, ao som do "Whiter Shade of Pale". Recordo as garagens do ZéQuim e do padrinho do Rui Themido. Recordo os castelos, habitualmente alvo das nossas visitas, onde ouvi pela primeira vez o "Sounds of silence".
E recordo que, uma noite, os mais velhos vieram ter comigo.
- Queres ir com a gente a Caxarias? Levas os teus discos, a caixa de música...
Interesseiros!
Eu percebi perfeitamente que não era um problema de companhia, mas de logística. No entanto, resolvi aceitar o desafio e lá fui pendurado na motorizada com o Quim Vaz, na noite escura, às vezes tendo de passar por cima da linha de comboio.
O pior foi convencer aquela malta a dançar ao som da minha música, habituados que estavam aos franceses e italianos, quando o que eu dispunha era das últimas beatladas saídas...
- Não tens o Perdoname do Marino Marini?
Comecei a ficar mal disposto. Então os meus discos de vanguarda eram assim desconsiderados por aqueles indivíduos sem gosto que só veneravam as lamechices da altura?
Mas Caxarias era incontornável! Que lindas meninas lá havia!

quinta-feira, setembro 26, 2019

O ataque do carabineiro



O Jó Rodrigues foi mais um companheiro da infância e adolescência, talvez aquele a quem eu mais atribuo as qualidades de irreverência e permanente disposição para a paródia.
O Jó era detentor de bondade insuperável - não havia gelado que comprasse que não fosse imediatamente duplicado em espécie para este seu amigo - e de notável capacidade de audição de música como podem notar em alguns dos posts associados ao marcador.
Guardo dele as melhores recordações e são essas que quero conservar: bailaricos, Nazaré, King no Avenida e no parque, bilharadas no Central, passeatas a Tomar, discos, lancharadas, monumental repositório de anedotas, entradas intempestivas pela minha casa, caçadas com pressão de ar...
Tinha, no entanto, uma certa animosidade em relação ao CFL e ao Dr. Armando de que nunca cheguei a perceber a razão. Tal levava a que, tendo inegáveis qualidades de líder, tudo o que de malvado se fazia na juventude tinha aqueles imediatamente como primeiro candidato a alvo. 
Recordo, por exemplo, as bombas de Carnaval com que, pelas dez da noite, o nosso grupo mimoseava os habitantes de tão pedagógico espaço, levando a que, num dia, escondidos, víssemos o Dr. Armando assomar à janela de carabina em punho:
- Apareçam, malandros! Apareçam que eu já vos digo...
Ena, pá! Que saudades daquele tempo!



(primeira publicação: 16/02/2007)

quarta-feira, setembro 25, 2019

O caso das lâmpadas fundidas

Há muitos anos, em Ourém, a substituição das lâmpadas fundidas era efectuada regularmente.
Durante o dia, as luzes eram acesas, vinha o funcionário com uma escada e uma série de lâmpadas novas, examinava o que se passava em determinado local e actuava de acordo com o resultado do exame.
Com seis ou sete anos, embevecido, eu contemplava, no Largo de Castela, essa operação.
Para além da novidade da luz acesa durante o dia, o que gostava mais era aquela parte em que havia efectivamente substituição e eu podia guardar a maravilhosa caixinha, julgo que vermelha, em que vinha lâmpada nova.
Um dia, o deslumbramento foi de tal ordem que segui o incansável trabalhador na mira de me apropriar de todas as caixas que pudesse.
Ele subiu a rua de Castela, desceu para a Avenida, passou à Teófilo Braga, fez ligeira paragem no Manuel Raul, desceu para a loja do sr. Paisana...
De quando em quando, lá subia à escada para substituir a lâmpada e oferecer-me a magnífica caixa. 
Para aumentar o ritmo e obter mais caixas, eu já pensava em, da próxima vez, atirar previamente umas pedras às lâmpadas.
Já tinha umas dez caixas em meu poder quando ouvi o sino da igreja. Sete da tarde. Tinha saído de casa pelas duas horas e ninguém sabia onde eu estava. Ai a monumental sova que aí vem.
Iniciei os procedimentos de regresso, cinco minutos depois estava em casa. Mas Ourém era uma paz. Afinal apenas houve um ralhete por não ter lanchado e ficou tudo bem.
Já não me lembro quando deixei de seguir o processo de mudança de lâmpadas. Foram muitas as pedras com que contribuí para aumentar a produtividade do funcionário autárquico... Mas, a avaliar pela escuridão em algumas ruas de Ourém, parece que anda por lá alguém com a ilusão que o homenzinho ainda voltará para lhe oferecer as caixas e que o seu ritmo pode ser acelerado nos moldes que eu idealizei.

terça-feira, setembro 24, 2019

e era tudo tão longe


É incrível o que coisas tão simples podem significar para cada um de nós. 
Durante muito tempo, na minha infância, este marco significou para mim a maior distância que podia percorrer a partir de Ourém. Tomar – 20, Leiria – 25, Batalha– 31, Santarém - 64. 
Havia outro que a fotografia não mostra que era Alvaiázere - 32. Que terra importante esta devia ser para estar tão longe. Até tinha um barão... 
E a importância daquele objecto devia ser enorme para estar mesmo no interior de uma povoação num ponto onde, hoje, ninguém passaria para se deslocar para tal destino. 
Tantas vezes eu olhei para aquilo a pensar na sua importância informativa. Recorda-me as viagens que fazíamos à Nazaré, na camioneta dos Claras, onde a Batalha, apesar da sua importância histórica, não era mais que um ponto de passagem. Depois, no regresso, a subida para Fátima a uns dez à hora atingia o seu quê de radical numa curva em ferradura em que uma das laterais é quase a pique... 
Indiferente ao significado deste marco para as pessoas que o tiveram nessa época, o poder deixou-o definhar, deixou-o consumir-se, fê-lo desaparecer. Não é que uma lata de tinta preta ou branca seja grande custo, o problema é que nada disto é sentido por gente de fora que não nos acompanhou e a quem, comodisticamente, entregámos os destinos de Ourém.

segunda-feira, setembro 23, 2019

A crueldade da economia de subsistência

Mais uns dias e falar-se-á sobre a época de caça 
Confesso que não consigo perceber a paixão que move certas pessoas por uma actividade lúdica que é pura e simplesmente uma descarga de crueldade relativamente a outros seres vivos.
De onde vem isto?
Será algum gene que ficou proveniente daquelas sociedades primitivas em que se vivia da caça e da pesca? Serão as pessoas tão primitivas quanto isso?
Quando era puto, também andei à caça, também tive a minha pressão de ar. Felizmente, a pontaria era do pior. Mas o pouco que acertei serviu para me sentir tão mal quanto fiquei com aquele pobre ser na mão, cabecita a cair, sem vida, que sinto quase vontade de vomitar quando o recordo.
Uma vez deparei com um coelhito de poucos meses à frente, aí a uns dez metros. Levei a arma à cara, desfechei, mas nada consegui, ele desatou a fugir e persegui-o a correr.
Pouco depois, fui descobri-lo na toca. Tive pena, não lhe dei qualquer tiro adicional, levei-o para casa dos meus tios que o criaram. Pelo caminho, aquelas patitas de trás provocaram-me vincos de sangue no braço. Foi bem feita.
O bicho lá foi crescendo, eu ia vê-lo quase todas as semanas, até que um dia já não o encontrei. 
Tinha desaparecido no prato.
Eu é que não me perdoo por o ter retirado do seu ambiente.

domingo, setembro 22, 2019

Neve nos bolsos


Ena! Desta vez, as novelas do Pública estão a agradar-me na sua maioria. Esta trata também a guerra civil em Espanha através do testemunho do autor relativamente à vida de expatriados da Espanha Franquista numa Europa distante.

Um Sheik passou por Ourém

Como estavam novos!
Começaram por ser o Carlos, o Paulo, o Jorge e o Fernando. Depois, o Jorge saiu e entrou o Edmundo.
O sucesso foi tremendo.
Ao contrário de alguns rivais que faziam ekoar "esquece, esquece o que te fiz...", cantavam em inglês e, instrumentalmente, eram muito bons.
Lembro-me que, a propósito da utilização do inglês, um dia na rádio, ouvi um mimo destes: "Pois é, estes meninos poem-se a fazer versos noutra língua que não conhecem bem e fazem erros de palmatória...".
Que erro era não sei. Mas os Sheiks não soavam mal…
Pouco ou nada sei sobre o destino desta rapaziada. O Carlos ainda aparece com canções, o Paulo andou disfarçado de Doutor nas telenovelas da TVI e brindaram-nos durante anos, a solo, com excelentes criações (não devo aqui esquecer o Tordo que substituiu o Carlos na fase final dos Sheiks)... e com o adeus ao 24 de Abril.
Mas o que é que isto tem haver com Ourém e pessoas de Ourém? É que, há alguns anos, recebi este texto do Sérgio Ribeiro:
“O muito esquecido Edmundo Silva é um velho amigo, e tem ligações indiretas a Ourém. É de Aljustrel, irmão da Odete que foi casada com o Aguinaldo filho, têm dois filhos - sou padrinho da Catarina! - por quem tenho muita ternura e amizade. No dia 28 (ou 29) de Abril de 1974, mal saído de Caxias, vim à boleia do Edmundo à Marinha Grande para estarmos com a Odete e o Aguinaldo, e arranquei com o carro destes para Ourém (era fatal!). Depois... bom, fica para depois... “
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