segunda-feira, junho 01, 2020

Serenata numa noite de quase Verão

Era uma noite quente de quase Verão. A miudagem de Ourém encontrava-se no café e dava longos passeios pela Avenida e até ao jardim frente à Câmara. Entre eles estava o João, mas um João um pouco triste, pois, havia uma série de dias que a Teresinha não se juntava ao grupo, passando todo o tempo a estudar para exames.
Nessa noite, o Zé Manel trouxe a sua viola e uma ideia mirabolante ocorreu de imediato ao João.
- Zé, anda comigo vamos fazer uma serenata a uma miúda…
- Pá, eu não te consigo acompanhar. Só posso tocar «A brasileirinha».
- Não faz mal, dás uns acordos espaçados e eu canto. Basta que sigas o mesmo ritmo.
O Zé Manel lá se dispôs e, com o seu ar sonolento que fazia lembrar o Bob Dylan, acompanhou o João.
- Espera, ao menos ensaia um pouco…
- Pá, não me vou pôr a cantar no meio desta malta toda. Pensam que estou maluco.
- Então, vamos até ao pé da escola das meninas e, lá, podes erguer a tua voz.
Assim fizeram. Afastaram-se do grupo com uma pequena desculpa e, pouco depois, o João cantava:
«O meu desejo / é dar-te um beijo / é ter desejo / de te beijar…»
O rapaz nem cantava mal, pode-se garantir, mas nunca sentira aquele chamamento para a arte de cantar. A verdade é que, com tanta afinação, o Zé Manel em pouco tempo acertou o acompanhamento e, pouco depois, dizia:
- Bom, parece que funciona. Aonde vamos então?
- Frente à casa da Teresinha…
- Ena. Perdeste o juízo ou quê? Olha que ela tem uns irmãos mais velhos e a Céu também não me parece para brincadeiras.
- Que é que pensavas? Querias que te acompanhasse a Alcanena, não?
- Essa história da miúda de Alcanena é invenção tua. Nunca existiu tal miúda. Olha que, se a coisa der para o torto, piro-me logo. Não quero nada com o Luís ou o Taito.
- Vamos lá, vá… - dizia o João já agitado.
E dirigiram-se para a frente da pensão Simões que ficava na Avenida quase em frente ao cineteatro. Nesse dia, não havia sessão de cinema pelo que praticamente não se via ninguém na rua.
E, pouco depois, o João satisfazia o frémito do seu coração e elevava a sua voz numa canção lancinante procurando que a Teresinha aparecesse à janela.
Lá dentro, a pequena esforçava-se por estudar.
«Bolas! Isto está difícil. Por que hei de ter exames e os outros todos a passear?»
De repente, ouviu aquilo…
«Estranho! Alguém parece estar a cantar na rua. E tem acompanhamento. Que se passará?»
Foi até à janela e abriu-a. E foi então que viu o cantor e acompanhante e quase se sentiu sufocar. Lá fora, estava o seu amigo João, um verdadeiro pinga-amor, a cantar uma balada conhecida, sendo acompanhado pelo Zé Manel.
Ao princípio, não conseguiu balbuciar palavra. Depois, pensamentos preocupantes começaram a invadi-la: que iria pensar a família? Os vizinhos? Os outros amigos? E arranjou força para falar:
- João, o que é que te deu?
Ele nem respondeu. Continuou a cantar e a Teresinha notou que já outras pessoas chegavam à janela.
«Que irão pensar de mim? Eu, uma menina sempre ajuizada…»
E gritou lá para baixo:
- João, para com isso ou chamo a polícia.
Mas ele não se calava. A balada parecia ser interminável e ele arranjava sempre forma de repetir, repetir…
A miúda sentiu-se afogueada. Como poderia acabar com aquilo?
Olhou para o lado e viu um saco de farinha que devia pesar uns vinte quilos. Ainda avisou:
- João, para com isso ou arrependes-te.
Foi inútil. Ela não encontrou outra solução. Pegou no saco e atirou-o para cima do João, fechando de imediato a janela. Como por encanto, o silêncio voltou a Ourém

sábado, maio 30, 2020

A inevitável paragem

Queridos amigos, chegou a hora de anunciar a efetiva suspensão de produção de novos conteúdos para o Estórias de Ourém. A próxima estória, a mais longa, se a conseguir terminar, marca o fim de um período que, para o autor, foi desafiador, divertido e gratificante pela quantidade de amigos que reuniu.
Se, por qualquer motivo imprevisto, ela não surgir no Facebook, ficam a saber que o seu conteúdo está agendado para o blog Ourem ao longo das próximas três semanas. O autor também não pode garantir a inclusão de ilustrações e a formatação final com que eram produzidos os conteúdos antes. De qualquer forma, o texto estará disponível para vos contar mais uma maravilhosa aventura do terrível João Passarinho e da fera Deolinda.
Foi pena outros amigos não se terem juntado ao grupo, pode ser que numa próxima série de estórias isso aconteça.
As razões para esta paragem têm a ver com um certo cansaço e a necessidade de sair do local onde é mais fácil e viável proceder à elaboração de posts.
O Estórias permanecerá aberto para todos postarem o que muito bem entenderem. Podemos continuar a falar uns com os outros, podemos inclusivamente discutir como poderemos prosseguir daqui a uns tempos. É preciso ter consciência que o caminho por onde viemos já estava um pouco saturado, há que mudar a abordagem.
E agora um grande abraço para todos pelo apoio que deram ao Estorietas e pelo imenso gozo que algumas horas proporcionaram.

sexta-feira, maio 29, 2020

Um braço ergue-se acima dos destroços

Noite cerrada.
O silêncio abateu-se sobre o local onde existira uma cabana.
Agora, não passava de um monte de destroços, depois de ter sido o cenário de um estranho caso passional.
Tudo parecia parado, morto…
Parecia que os ventos, as aves e a restante bicharada se tinham posto de acordo para se calar.
Mas eis que no meio desse silêncio tétrico, algo parece ganhar vida.
Naquele escuro tenebroso, uma ou duas telhas começam a mover-se. E, de repente, uma mão, um braço aparecem. A vida voltava à cabana…
Pouco a pouco, uma figura começou a movimentar-se, a levantar-se lentamente. E o corpo da Deolinda surgiu do meio dos destroços.
«- Malvados! Destruíram tudo! Malvado Estorietas…»
Procurou algumas coisas suscetíveis de recuperar.
«Ainda me aparecem aí com a polícia. Tenho de me pirar. Mas voltarei… juro que voltarei para me vingar. Aquele Passarinho duma figa vai pagar-mas todas. E a lascarina do Castelo…

*

Rompia a manhã quando o jeep da GNR chegou às imediações da casa da Deolinda a qual tinha sido cercada por um cordão policial.
- Guarda Ernesto, procure se existe algum corpo no meio dos destroços…
A busca foi infrutífera.
- Ninguém, não há ninguém, meu comandante.
- Então, essa rapariga selvagem fugiu. Esperemos que não volte.
E os guardas voltaram para Ourém onde deram notícia dos resultados da busca aos nossos amigos…
«-Talvez a volte a encontrar – pensou o João. – E então não me escapará. Jejjjejjjjjjejjjejejej»





FIM

quinta-feira, maio 28, 2020

A força do prisioneiro

Conheceram então a fúria selvagem da rapariga. O João foi o primeiro. A forquilha acertou-lhe no traseiro, ele sentiu uma dor lancinante e só pensou em se pirar dali para fora. Em seguida, a rapariga atacou a Mari’mília acertando-lhe na cabeça com uma pancada fenomenal. Vendo isto, as outras desataram a fugir.
Lá dentro, o Estorietas ouviu as vozes e o ruído da luta.
«Os meus amigos… – murmurou – Ela está a maltratar os meus amigos…»
Como por encanto, sentiu-se a recuperar as forças. E fez monumental esforço para se libertar enquanto os gritos continuavam lá fora. Não podia consentir que os seus amigos fossem maltratados.
Naquele momento, o Estorietas faria inveja ao Sansão quando derrubava o templo. Com monumental força, conseguiu que a coluna desse de si, e o telhado começou a inclinar.
Lá fora cessara a luta. A Mari’mília estava caída no chão e os outros corriam para as bicicletas para se porem a caminho de Ourém com o João a sangrar do traseiro. Tinha-lhe saído cara a tentativa de conhecer a Deolinda.
Esta entrou em casa no momento em que o Estorietas atingia o seu objetivo. De um momento para o outro, a coluna deu de si, o telhado caiu com estrépito e uma telha atingiu a Deolinda que desmaiou. O Estorietas refugiou-se debaixo de uma mesa, depois, quando tudo terminou saiu de casa.
Viu a Mari’mília caída e amparou-a.
- Vamos, fujamos daqui.
Ela deixou-se envolver e ele conduziu-a à bicicleta. Depois, montou-a à sua frente e foi conduzindo com alguma dificuldade até Ourém. Mas sentia-se compensado sentindo o perfume dela.
Pouco depois encontravam-se com os amigos e o jeep da GNR.
- Eles estão salvos – gritou a Ciete.
- Mas precisam de assistência hospitalar. Vamos regressar a Ourém. Estes três jovens feridos vão no jeep e vamos trazer reforços para ver o que se passou na cabana.
- A cabana está derrubada e a Deolinda sepultada com ela – disse o Estorietas.
- Estabeleceremos uma cerca ao local e, amanhã, veremos como tudo está. Agora é o momento de descansar e tratar dos feridos.
E assim o Estorietas pôde voltar à sua terra e ao convívio com os seus amigos de sempre…


E a fera? Teria perecido sob o telhado caído?

quarta-feira, maio 27, 2020

Frente a frente com a fera

Chegaram agitadas a Ourém e procuraram os outros miúdos.
- A Ciete descobriu que o Estorietas está lá sequestrado. Que devemos fazer?
- Eu acho que o melhor é fazermos uma visita inesperada à Deolinda – disse o João. – Estou ansioso por conhecê-la e, decerto, não será difícil dominá-la.
- Mas já pensaram – redarguiu a Teresinha. – que o Estorietas pode querer estar ali com ela? Quem são vocês para dizer que ele está sequestrado?
- Então por que não apareceu? – perguntou a Mari’mília. – Que receio tinha de que o víssemos?
- Eu acho que devemos ir já. – dizia o João, ardendo por ver a Deolinda. – A Teresinha pode acompanhar-me e a Luzinha pode avisar a GNR para qualquer coisa.
- Era muito mais giro sermos nós a salvá-lo em vez da GNR – protestou a Ciete.
O João decidiu-se.
- Vamos os quatro e a Luzinha só avisa a GNR passada meia-hora. Isso dá-nos tempo para o libertar. Embora…
Partiram por ali acima levando lanternas pois a noite não tardaria muito a cair enquanto a Luzinha se dirigiu a pé para cumprir a sua parte da missão.
Quando chegaram à cabana, a Mari’mília afirmou:
- Olhem! Há luz naquela janela. Vamos espreitar…
Deixaram as bicicletas e foram por ali fora tentando não fazer ruído. A Ciete foi a primeira a aproximar-se da janela. Mal olhou lá para dentro, recuou, sufocando um grito de terror.
- Oh! Meu Deus! Já viram aquilo?
O João espreitou logo. Lá dentro, o Estorietas estava amarrado à coluna central, meio adormecido, com todo o ar de ser maltratado. Ao lado dele estava uma tela completamente partida, despedaçada, espalhada pelo chão.
- Não a vejo, não a consigo ver – resmungava o João.
Mas o destino iria fazer-lhe a vontade.
Ainda nem todos se tinham apercebido do estado do Estorietas quando uma voz feminina, mas bastante dura, soou por trás deles.
- Quietos todos! Isto é uma invasão de propriedade. Vou dar cabo de vocês.
Voltaram-se aterrorizados. À sua frente estava uma Deolinda furiosa com uma forquilha na mão e pronta a atacar.
O João ficou abismado.
«-É mais bela do que eu pensava.»


E agora? Será que a Deolinda vai atacar os nossos amigos?

terça-feira, maio 26, 2020

A camisa delatora

No dia seguinte, pelas quatro da tarde, a Mari’mília e a Ciete saíram do colégio, partindo na direção do Olival. A meio caminho, a Ciete já dizia:
- Bolas! Isto custa a subir…
- Tu és uma mulher de coragem. Anda, faz mais um esforço.
A subida terminou e puderam moderar um pouco o esforço. Mais abaixo a Mar’mília disse:
- Olha! Está aqui o caminho para casa dela.
Pouco depois, estavam em frente à cabana. Viram a bicicleta da rapariga encostada à casa. Do lado direito, uma corda sustinha alguma roupa estendida a secar. No lado esquerdo, encontrava-se um automóvel já com alguma idade.
Da chaminé da casa, saia fumo e um belo cheirinho a comida invadia o ar.
- Hum! Deve estar a cozinhar.
Mas, entre os vidros, a Deolinda já as vira e preparou-se para as receber. Quando bateram à porta, ela demorou um bocadinho a perguntar:
- Quem é?
- Pessoas amigas - responderam.
Ela abriu a porta e saiu, não as mandando entrar.
- Olá. Não me lembro de as conhecer. O que querem dos meus domínios?
- Eu conheço-te. Estive no mesmo casting que tu no salão da banda.
- Ah! Já me lembro. És a garotinha que desmaia perante uma cena mais forte da vida real.
A Ciete ruborizou-se, mas a Mari’mília atalhou a conversa:
- Não é isso que interessa. O nosso amigo Estorietas desapareceu e andamos à procura dele. Sabes alguma coisa?
- Eu? Pfffff! Nunca mais quero ver esse crápula. Não sei nem quero saber.
- Pronto. Mas se souberes alguma coisa informa-nos. Este cartaz tem as indicações para esse efeito. Nós vamos continuar as buscas.
Ela recebeu o cartaz e despediu-as.
- Ok! Espero que tenham sorte com a busca…
As duas miúdas iniciaram o caminho de regresso e ela voltou ao interior da cabana depois de fechar a porta:
- Ouviste, Estorietaszinho? As tuas amigas já te procuram. A lagartixa do castelo e a serigaita de Peras Ruivas… mas eu enganei-as bem. Agora vou tirar-te a mordaça.
Com cuidado, tirou-lhe a mordaça com que o mantivera calado e foi ver o cozinhado.
- Hoje, vais ter um jantar de reis.
Entretanto, cá fora, as duas miúdas chegavam à estrada:
- Voltemos a Ourém – dizia a Mari’mília – Não conseguimos nada…
- Tem calma, não te precipites. Ela tentou enganar-nos, mas não conseguiu.
- Mas que descobriste tu, minha cara Mrs. Watson?
A Ciete riu-se e explicou:
- Ela tinha roupa estendida cá fora, não é verdade? E a camisa que o Estorietas tinha vestido no dia do desaparecimento estava lá. Portanto, ela sequestrou o Estorietas.
- Que horror! Que vamos fazer?
- Vamos a Ourém falar com os outros e pedir a ajuda deles. Esta noite ainda vamos voltar cá… mas sem ela saber.
- Ainda bem que vieste. Eu nunca me aperceberia desse pormenor. De certeza, vais para investigação criminal.
Daí a pouco desciam a caminho de Ourém.

segunda-feira, maio 25, 2020

Prisioneiro pela arte

A bela Deolinda circulava na sua bicicleta na estrada em direção ao Olival e, quinhentos metros após o cruzamento definidor das direções Pinheiro / Caxarias, meteu por um caminho estreito detendo-se frente a uma cabana relativamente recente toda feita em madeira e com algumas janelas de vidro.
Pegou nas compras, abriu a porta de entrada e saudou:
- Então como está o meu lindo Estorietas?
No centro da sala, com mais de trinta metros quadrados, podia ver-se o Estorietas em estado andrajoso. Estava atado à coluna central da cabana, em tronco nu. Não podia mover os pés e a própria cintura estava rodeada por cordas, permanecendo os pulsos amarrados atrás do tronco.
Ela aproximou-se e deu-lhe um beijinho evidenciando alguma ternura:
- Estorietaszinho, sabes o que te trouxe? Olha…
E mostrou-lhe as telas e o material de pintura.
- Sabes o que vais fazer à tua pombinha que gosta tanto de ti? Vais fazer o retrato dela. Tal como fizeste da outra… também quero parecer como a Adjani…
- Não tens hipótese – redarguiu ele com voz rouca – És loura e a Adjani tem uns belos cabelos negros.
Ela esbofeteou-o.
- Eu posso ser o que quiser, ouviste?
Era uma selvagem aquela rapariga, uma selvagem perigosa.
- Se queres que te liberte, vais pintar-me e fazer de mim uma artista de classe.
- Eu pinto-te, mas serás mais uma Bardot, uma France Gall ou uma Meg Ryan. Mas nunca se parecerá contigo. A arte é uma representação do real sublimada por uma introspeção latente. E tu nunca conseguiste olhar para dentro de ti…
Pensando que ele estava a ficar maluco, ela foi buscar um cavalete, colocou lá uma das telas e aproximou dele o material de pintura.
- Estorietaszinho, agora vou libertar-te as mãos para poderes cumprir o nosso contrato. Não faças disparate, senão o castigo ainda será maior…
- Está bem, venceste.
Ela libertou-lhe as mãos e foi pôr-se em posição, sentada numa mesa um pouco em frente dele. E ele pintou aquela rapariga do modo que a via naquele momento.
Passada meia hora, disse:
- Pronto, já está…
Ela levantou-se felina, contente e aproximou-se para ver a obra. Mas, ao contemplá-la, soltou um grito de horror.
- Malvado!!! Estás a gozar comigo?
Na tela, estava desenhado um dos bichos mais feios que alguma vez tinha visto. A Deolinda não resistiu à ira. Pegou na tela e, mais uma vez, o Estorietas sentiu na cabeça o peso de uma das suas obras.
- Não vais sair daí, não te liberto até que me desenhes como fizeste à lagartixa do castelo.
Voltou a amarrá-lo. O Estorietas preparou-se para passar mais uma noite sem comer e sem descansar. Nem tinha força para pensar como poderia libertar-se daquela fera…


Pobre Estorietas… Será que alguém o poderá salvar?

sexta-feira, maio 22, 2020

Encontro com uma lenda do comércio de Ourém

Deixemos o João e a Teresinha e sigamos as três miúdas que ficaram junto ao Central. O primeiro local onde se dirigiram foi à Farmácia Leitão onde colocaram o cartaz na parede de entrada. Depois prosseguiram para a tipografia do Melo, passaram à taberna do Manuel do Raul e dali atravessaram na direção da loja do senhor Pina. Pouco depois entravam na loja do sr. Oliveira e a primeira pessoa que se lhes deparou foi o sr. Manuel Cartuxo.
- Olha que lindas flores aqui estão! Hoje é o meu dia de sorte…
- Meninas, apresento-vos o sr. Manuel Cartuxo, o comercial mais falador e simpático de Ourém – começou por dizer a Mari’mília. – Senhor Manuel, o seu nome escreve-se com “x” ou “ch”.
O sr. Manuel pôs um ar muito sério e a resposta não desiludiu.
- Com “x”, com “ch” é de polvora e não quero cá cartuchos de pólvora…
Riram com gosto e a Mari’mília fez a apresentação das amigas ao sr. Manuel. Ele virou-se para a Ciete e propôs-lhe uma charada:
- Ah! A menina é filha do Bragança e vai estudar Matemática. Então, veja lá se me ajuda a resolver um problema como este: há doze casas para distribuir a treze pessoas, como é que vamos reparti-las de modo que todos fiquem satisfeitos?
A Ciete ficou boquiaberta e ele continuou.
- Sabe? O que economistas e matemáticos aprendem é o modo de enganar o povo. Eu vou-lhe dizer.
E desenhou doze quadrados que preencheu com números: 1 – 2 – 3 – 4 – 5 – 6 – 7 – 8 – 9 – 10 - 11 – 12. Depois disse:
- Para a primeira casa, vão dois. Depois o terceiro vai para a segunda e por aí fora. Quando uma das casas vagar, o que está a mais na primeira passa para essa.
Continuaram a rir, mas a Mari’mília interrompeu:
- Senhor Manuel, vimos pedir-lhe uma coisa. Deixe-nos colocar este cartaz na loja.
Ele olhou para o cartaz e lembrou-se da visita que tinha tido.
- É curioso… muito curioso…
Elas ficaram ansiosas.
- O quê, sr. Manuel?
- Hoje, esteve cá aquela menina muito bonita que teve um caso com ele na banda. Levava material de desenho num saco e comprou comida para um batalhão o que não era habitual nela.
- Isso é muito suspeito – afirmou a Luzinha.
- Eu diria mais – respondeu a Ciete. – Isso é muito suspeito.
- Sr. Manuel, ajudou-nos muito. Vamos colar o cartaz e combinar novas ações.
Voltaram à zona do Central, esperando os que tinham ido à parte de cima da vila e, pouco depois, combinavam.
- Amanhã, eu e a Ciete vamos de bicicleta até à cabana da Deolinda e tentaremos falar com ela. Logo veremos a reação. Encontramo-nos aqui às quatro da tarde…



Que irão encontrar as duas miúdas? Correrão perigo com a sua ação aventureira?

Continua na próxima segunda-feira

quinta-feira, maio 21, 2020

A ajuda dum interesseiro

No CFL, trabalhava-se afincadamente para produzir os cartazes de procura do Estorietas. O Dr. Armando cedera o equipamento de reprografia e três meninas dedicavam-se a redigir o texto que iria acompanhar a fotografia do desaparecido.
- Vejam lá se fica bem – dizia a Teresinha. – “Procura-se rapaz de 13 anos conhecido por Estorietas. Residia na Rua de Castela e já não é visto há uma semana, sendo referenciado, pela última vez, na zona dos moinhos. Por favor, informe para o CFL ou para o telefone 42402”
- Acho bem – dizia a Mari’mília.
- Eu acho que devias referir que o indivíduo está louco – acrescentou a Ciete. – As pessoas precisam de ser protegidas dos excessos dele, não vá fazer alguma maluqueira.
- Não sejas revanchista – respondeu a Teresinha. – Compreendo que tenhas ficado marcada pelos actos dele, mas conhecemo-lo desde pequeno.
- Sempre foi meu amigo – reconheceu a Mari’mília. – Não vamos enxovalhá-lo num momento difícil para todos.
Chegaram a acordo e, pouco depois, dispunham de 50 exemplares do cartaz. Olharam umas para as outras felizes com a obra. A Terezinha ainda disse:
- E se a gente visse o que está naquela gaveta? Pode ser o próximo teste de Matemática…
- Nem penses  - respondeu a Ciete. – Se descobrirem a fuga de informação, o Dr. Armando perceberá que fomos nós as autoras. Tens sempre ideias suicidas.
- Então vamos planear a distribuição de cartazes…
Pouco depois, andavam pela vila a colar cartazes nas árvores e nas paredes. Começaram pelo Central e, à saída, depararam com o João e a Luzinha.
- Oh! Oh! Oh! Oh! – fez o João – Que lindas meninas aqui estão. Que andam a fazer?
- Andamos a afixar cartazes relativos ao desaparecimento do Estorietas. Precisamos de informação para o encontrar – respondeu a Terezinha.
- Esse facínora devia era estar preso. Jejejjjejjjjje. Não achas, Cietezinha?
- Eu acho, mas, para isso, temos de saber onde ele está…
- João – disse a Mari’mília. – toma vinte cartazes e vai colá-los com a Luzinha na zona da tua morada, do Zé Domingos e do Estorietas. Passa também pela Câmara e pelo Bairro. Nós ficamos na parte de baixo.
- Só vou se a Teresinha for comigo…
- Farsante. Chantagista! – berrou a Mari’mília.
- Deixa lá – disse a Teresinha. – Eu vou com ele.
- Não digam que eu sou mau – respondeu o João. – Agora, cedo-vos a minha irmã para ir convosco.
E assim o João aproveitou a busca ao Estorietas para passar o resto da tarde com a Teresinha…
- Encontramo-nos aqui às seis da tarde… - combinaram.

quarta-feira, maio 20, 2020

Uma jovem faz compras em Ourém

Ainda no mesmo dia, uma bela figura de mulher de cabelos loiros saracoteava-se por Ourém. A primeira visita que fez foi à Marina.
- Bom dia, Fernando. Está bom?
- Bom dia, menina Deolinda. Em que posso servi-la?
Ela sorriu encantadora.
- Eu queria duas telas grandes e material para pintar…
O Vieira sorriu todo solícito.
- Vai dedicar-se à arte? Olhe que é muito difícil encontrar esse material em Ourém. Por acaso, tenho algum que tinha encomendado para o Estorietas, mas, como ele desapareceu, posso dispensar-lho.
- Ainda bem. Sabe, resolvi pintar. Tenho um retrato meu, mas acho que tenho mãos para fazer melhor. Que acha? Ficarei bem?
E sorriu toda coquete.
- Eu acho que ficará maravilhosa. E, se precisar de modelo…
Aviou o que a rapariga pretendia e ela, depois de pagar, saiu, passou junto ao Central e dirigiu-se a uma loja junto da “Loja do Povo”.
- Bom-dia, senhor Manuel. Precisava que me aviasse esta lista de coisas.
- Bom-dia, menina. Vou já tratar disso.
Consultou a lista e olhou para a rapariga.
- São muitas coisas. É tudo para a menina?
- Claro. Neste momento, eu vivo sozinha…
- A menina era a namorada do Estorietas, não era?
- Eu? Por que pergunta isso? Mal o conheço…
- Custa-me a crer. Sabe?....
E durante mais de meia-hora desbobinou tudo o que sabia acerca do Estorietas, do seu caso na banda com uma miúda encantadora e o caso dos quadros. Rematou dizendo que ele fugira e ninguém sabia dele.
A rapariga já bufava quando ele terminou e só disse:
- Não sei para que me conta isso tudo. Como lhe disse, mal o conheço…
- Não me leve a mal, mas não é isso que consta por aí. Dizem que ele gostou muito dos seus encantos. E a menina tenha cuidado. Há muito malandro nesta terra. Já ouviu falar no neto mais novo do Dr. Preto? Anda a dizer que tem de a conhecer.
- Bahhh! Depenava esse passarito com água fria em três segundos. O Estorietas é bem mais estimulante.
- Mas olhe que o menino João tem cada história de encantamento…
- Nããããooooo. Nem quero ouvir…
- Tenha paciência, menina. São muitas coisas para aviar e eu preciso de me distrair com qualquer coisa. Pronto, já está…
Preparou um saco enorme com as coisas, ela pagou e saiu.
«- Bem engraçada o diabo da rapariga. Há estorietas com muita sorte.»

terça-feira, maio 19, 2020

O início do cerco

Os dias foram passando e os verdadeiros amigos do Estorietas começaram a preocupar-se com a sua ausência.
- Onde andará essa alma do diabo? Raios o partam – dizia a Mari’mília para a Cietezinha.
- Já quase estou arrependida de lhe partir os quadros na cabeça. Mas ele mereceu. Estava louco de todo.
Continuaram a passear lado a lado no recreio do CFL e a Mari’mília disse:
- Eu acho que devíamos fazer qualquer coisa para o procurar. Estou preocupada.
- Não sejas assim. Ele tem sete vidas como os gatos. Se nos encontra, ainda faz alguma partida das dele.
- Cietezinha, de certeza não é o teu coração que fala. Ele nem é mau rapaz. Passa-se de vez em quando.
- Olha, vem aí a Teresinha. Vamos falar com ela.
Efetivamente, a Teresinha aproximava-se e elas puseram-na ao corrente da sua preocupação. Ela teve logo uma ideia.
- Eu hoje vou fazer bolinhos para os presos. Vocês podem vir comigo e falamos com o comandante. Ele pode saber mais qualquer coisa.
E, terminadas as aulas, as três meninas dirigiram-se ao posto da GNR onde foram recebidas pelo comandante a quem puseram a par da sua preocupação.
- Todos os dias mandamos um jeep à procura dele. Sabemos que não está em casa e parece que andou nos moinhos. Há quem afirme que ele tinha a mania que estava a voar e a ir para Peras Ruivas ou para os Castelos. Em Ourém, houve quem ouvisse o Flying dos Beatles parecendo que o som vinha dos moinhos.
- Que horror! Estás a ver? – dizia a Ciete – Continua maluco de todo…
- Nós vamos continuar a procurá-lo – rematou o comandante. – Tem de pagar pelo que fez e, para além disso, é um perigo para a sociedade.
- Acha que podemos pôr uns cartazes pela vila a pedir que nos informem se o virem.
- Apesar de não gostar muito de jornais murais, por esta vez, não me oponho.
E as ruas de Ourém encheram-se de cartazes a pedir que informassem uma das três meninas se alguém deparasse com o Estorietas. O contacto podia ser para o CFL ou para um telefone.
Estava iniciado o cerco…

segunda-feira, maio 18, 2020

O desaparecimento do promissor artista

Naquela noite escura, junto aos moinhos, enquanto o vento sibilava quase gelado, o Estorietas, evidenciando formidável desorientação, caminhava sem rumo.
«Oh! O que aquela malvada me fez… nunca mais lhe perdoo.»
A sua cabeça não conseguia concentrar-se num rumo.
«Isto já me parece O Vendaval:
Para onde vou, não sei
O que farei, sei lá…
Ah! Mas não me consigo encontrar
Eu já não sou eu… sou um farrapo»
Levava consigo alguns parcos haveres, os necessários para mudar de roupa de quando em quando e alguma comida. Mas tinha largado tudo… tudo o que desfrutava na sua boa vida.
As árvores escuras com os seus ramos abertos pareciam-lhe fantasmas.
- Olha aquele… parece que está a olhar para mim… que me vai a engolir.
Atravessou uma estrada para o outro lado. De repente, as luzes dum automóvel iluminaram o caminho.
«Não posso ser visto.»
E saltou para a berma.
Mas as coisas não correram bem. Havia um buraco e estatelou-se ficando inconsciente e à mercê do que desse e viesse.
O carro parou um pouco mais à frente e dele saiu uma figura escultural.
«É ele… calculei logo que andava por aqui.»
A muito custo levantou o Estorietas e pô-lo dentro do carro. Fez inversão de marcha e voltou pelo caminho por onde viera.



Quem seria a misteriosa figura?

sábado, maio 16, 2020

De regresso a casa

Quando o carro dos bandidos passou perto da farmácia, o Rui Leitão estava à porta e pareceu reconhecer o carro.
«É curioso. Parece o carro de ontem.»
Chegou à Teófilo Braga e reparou que o carro parava junto ao hospital.
«Não perco nada se telefonar à polícia ou a GNR. Eles sabem o que podem fazer.»
O carro dos bandidos parou frente ao hospital e eles começaram a transportar o cúmplice ferido para o mesmo. Um pouco à frente, perto da casa do Dr. Durão, parou o carro das maninhas que começaram a abrir a porta para retirar o cãozito.
Nesse momento, ele reconheceu os assaltantes da farmácia e, como se sentia protegido, atirou-se a eles, mordendo-os furiosamente.
- Agarrem esse cão – gritava um dos meliantes.
Entretanto, dois jeeps da GNR vinham a toda a velocidade na direção do hospital, mas em sentidos opostos de forma a não deixarem escapatória possível.
O Rui Leitão tinha avisado a Livinha e corriam ambos na direção do hospital.
E todos puderam assistir ao modo como o Ferraunha dominou os assaltantes da farmácia. Eram três, mas o facto de estarem a apoiar o mais ferido e não terem armas fez com que, a breve trecho, estivessem dominados.
- Meu Ferraunha… - gritava a Livinha.
O cãozinho já tinha recuperado a sua doçura e lambeu-lhe a cara. Depois, conduziu-a às maninhas.
- Foi ter a nossa casa muito magoado – explicou a Céu – e vínhamos trazê-lo ao Dr. Durão.
- Nem sabem como estou grata. O Ferraunha é único. Agora, pode voltar a casa para abraçar os seus filhotes...
- Ferraunha? Chama-se Ferraunha? Nós íamos chamar-lhe Tejo, mas pelo que vemos era mais apropriado chamar-lhe Ferra-o-Dente.
- Eu cá gostava mais de Pestaninhas - respondeu a Céuzinha à irmã.
- Não se zanguem - disse a Livinha - Há mais dois cachorrinhos, filhotes do Ferraunha e iguais a ele. Posso oferecer um a cada uma e assim escolhem os nomes à vossa vontade. Terei todo o prazer nisso.
A Céuzinha e a Cietezinha ficaram todas contentes e louvaram o dia em que o Ferraunha tinha desmaiado à porta delas.
Entretanto, os bandidos, já presos pela GNR, teciam ameaças.
- A culpa foi toda desse malvado cão.
- Se fossem honestos, não vos acontecia nada de mal – respondeu a Livinha. – E agora quero saber onde está o que roubaram, pois levaram o meu dinheiro para medicamentos.
- Nós vamos encarregar-nos disso – prometeu o guarda Ernesto – O que tiverem será devolvido aos legítimos donos.





FIM


Nota Final: os cãezinhos da juventude do autor foram o Tejo, o Mondego, o Nero, o Ferraunha e o Faro. O Tejo era supermeigo e há uma foto do autor a lavá-lo. O Mondego era um belo exemplar em castanho escuro. O Nero era velhote, mal disposto, e um dia mordeu a mão do autor (que lhe terá feito?). O Ferraunha era o mais brincalhão. E o Faro era branquinho, superdivertido.



sexta-feira, maio 15, 2020

Novos donos para o Ferraunha

A Ceuzinha e a Ciete recolheram o Ferraunha e trataram-no o melhor possível. O cãozito foi recuperando. De qualquer modo, elas combinaram:
- Pedimos ao pai para nos levar mais cedo para Ourém e passamos pelo Dr. Durão para ele o observar.
No dia seguinte, a excitação era grande lá em casa.
- Eu é que lhe vou dar o nome – dizia a Ceuzinha – Ele tem ar de imperador. Vou chamar-lhe Nero.
- Eu acho que ele tem um ar que me faz lembrar um rio. E se fosse Tejo?
Falaram mais algum tempo sem chegarem a acordo. O pai veio chamá-las para irem para o CFL. Pegaram no Ferraunha com todo o cuidado e puseram-no no carro. Pouco depois, estavam a caminho de Ourém.
Entretanto, o meliante que tinha sido mordido na perna não estava nada bem. Os dentes do cão tinham entrado profundamente na massa muscular e ele não se conseguia mexer. Telefonou por isso aos cúmplices.
- Rapazes, têm de me levar ao hospital de Ourém. Não consigo mexer a perna por causa daquele malvado cão. Um de vocês tem de conduzir o carro.
Apesar de serem uns bandidos, aqueles homens eram solidários entre si. Pouco depois, estavam a caminho do hospital e, curiosamente, após passarem pela Carapita, o carro das maninhas seguia atrás deles. No seu interior, o Ferraunha começava a alegrar-se por estar em tão boa companhia, embora não conseguisse esquecer a sua querida Livinha o que lhe conferia uma certa tristeza. Mas ficou um pouco agitado ao reconhecer o carro à sua frente.

quinta-feira, maio 14, 2020

Fuga audaciosa

Entretanto, dentro do carro, o Ferraunha continuava a esperar uma ocasião para se pirar.
«Não podem perceber que eu estou aqui – pensava – mal abram a parto, zarpo…».
Continuava muito encolhido atrás do banco dianteiro o que lhe provocava uma dor acentuada no local onde tinha sido pontapeado.
«O malvado que me deu o pontapé há de pagá-las. Os meus dentes vão-lhe ficar marcados na barriga da perna».
Pensou na sua dona, a Livinha. Que doçura de pessoa! Que sorte tinha tido ao ser adotado por ela. Comidinha a horas, uma casota e uma caminha especial para as sonecas. Claro que abusavam um pouco ao mandá-lo fazer tantos recados, mas era imperioso pagar os bons cuidados com que o brindavam. Será que algum dia conseguiria voltar para junto dela?
De repente, sentiu que a porta da casa se abria e que alguém se aproximava do carro. Passos de uma só pessoa…
«É agora – pensou».
Mas não. O indivíduo limitou-se a abrir a bagageira e tirar qualquer coisa, voltando depois para casa.
E o tempo foi passando. Desesperadamente… muito lentamente…
O dia começava a escurecer.
«Já não vou ficar hoje na minha caminha. Estes malvados nunca mais abrem a porta do carro».
A certa altura, ouviu a porta da casa abrir-se e uma voz dizer para o interior.
- Foi um bom golpe rapazes. Amanhã, às dez da manhã, encontramo-nos no Central.
O indivíduo vinha sozinho para o carro, decerto para tomar lugar ao volante e dirigir-se a qualquer outro sítio. O cão preparou-se para saltar.
«Já não me levas para mais nenhum sítio hoje, não…».
A porta esquerda dianteira abriu-se e o meliante iniciou o procedimento de entrada. Nisto, sentiu que alguém passava por ele como uma flecha, cravando-lhe com muita força os dentes na perna.
- Ai…
O Ferraunha escapou a toda a velocidade. Num instante percebeu que estava na zona de Santo Amaro, perto do Castelo, onde tantas vezes a Livinha o levava a passear e tomou a direção de Ourém. Ao fim de correr uns dois quilómetros, sentiu que não estava nas melhores condições. As dores do pontapé que tinha levado eram lancinantes…
«Não consigo… não consigo lá chegar…».
Ainda logrou atingir a Carapita. Muito cansado, titubeante, encostou-se à porta de uma casa. E desmaiou. Já não ouviu uma voz muito doce a dizer:
- É um cãozito, parece doente. Vamos recolhê-lo.
Era a Ceuzinha…

quarta-feira, maio 13, 2020

Uma notícia desagradável

O tempo foi passando e, em casa da Livinha, esta começava a preocupar-se.
- Que estranho! Nunca demorou tanto tempo. Que terá acontecido?
Esperou mais um pouco e, como o cão não aparecesse, decidiu ir ver o que se passava. Vestiu rapidamente um casaco, avisou a mãe e partiu na direção da farmácia.
Já na Silva Carvalho, notou que havia algo de estranho no ambiente, uma agitação nada habitual na vila. Ao chegar junto à farmácia, notou que havia um cordão policial e algumas pessoas a ver o que se passava. Viu então o Rui Leitão:
- Que se passou aqui?
- Assaltaram-nos a farmácia. Três indivíduos mascarados – respondeu ele passando a mão pela cabeça, um pouco agitado.
- Tinha enviado cá o meu cão para levar uns medicamentos…
- Sei que eles lhe deram um pontapé e ele fugiu. Mas não o vi mais. Há quem diga que foi no carro com eles.
- O quê?...
E sentiu-se sufocar…
O seu Ferraunha… o seu cãozinho mais amigo de todos os tempos… como iria agora voltar a vê-lo?
Desesperada, ainda olhou para todos os locais da praça procurando vislumbrá-lo e voltou para casa a soluçar. Pobre coração daquela menina que tanto gostava do cãozinho.
Será que o voltaria a ver?

terça-feira, maio 12, 2020

No carro com os bandidos

À porta da farmácia estavam três homens mascarados e armados que não deixavam a menor dúvida relativamente àquilo a que vinham.
O empregado ficou petrificado ainda com o dinheiro na mão. Um dos assaltantes chegou-se a ele com um saco:
- Vamos, põe aqui tudo o que tens em caixa.
O outro assaltante ia roubando medicamentos enquanto o terceiro ficava à porta de arma em punho, ameaçador.
O empregado hesitou.
- Mas este dinheiro é para o cão…
- Qual cão? – e olhou o Ferraunha ameaçador.
O cãozito não gostou da sua expressão e respondeu mostrando os dentes bem desenvolvidos e rosnando:
- GRRRRR!!!!!!!!...
O homem não se conteve. Tentou dar-lhe um pontapé, mas o cão escapou e atirou-se-lhe à mão, mordendo-a.
- Ai! Malvado…
O que estava a roubar os medicamentos conseguiu pontapear furiosamente o cão e este desatou a fugir, passando para o exterior, sem que o que estava armado criasse qualquer obstáculo.
Mas o Ferraunha, escapando daquele horroroso ambiente, não estava satisfeito. Ele tinha de cumprir a sua missão. Por isso, resolveu esperar escondido. Cá fora, viu um carro com a porta vazia. Refugiou-se lá dentro à espera que tudo passasse.
Nem foi preciso mais um minuto. Os assaltantes saíram da farmácia com o produto do roubo e enfiaram-se no mesmo carro onde o Ferraunha já estava escondido atrás do banco dianteiro do lado esquerdo. Percebeu logo que estava metido num grande sarilho pelo que encolheu-se o mais que pôde, tentando não ser visto pelos bandidos.
Pouco depois, o carro arrancava a grande velocidade. Os assaltantes estavam excitados e pareciam satisfeitos.
- Grande colheita! Felizmente, não tinham depositado o dinheiro. Aqui em Ourém são muito descuidados.
O carro andou cerca de um quarto de hora. Nessa altura, abrandou e entrou num caminho estreito que os levou junto de uma casa que parecia abandonada. Os assaltantes saíram do carro e levaram o produto do roubo para a casa. Estavam muito satisfeitos.
Dentro do carro, o Ferraunha analisou a situação. Não podia sair, pois não tinham deixado nenhuma janela aberta. Tinha de esperar pela ocasião propícia…
E refugiou-se o melhor possível para não ser visto por aqueles malvados.


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