domingo, maio 09, 2004

Revisitar o Avenida a partir da Marina


Ali, no local mais espaçoso que hoje é ocupado pela Marina, existiu, em tempos, um exemplo de bom gosto, algo de maravilhoso, o café Avenida.
Façamos um pequeno exercício com o que, actualmente, lá vemos.
Logo após a entrada, contemplemos o que se situa à esquerda, isto é, o sítio onde hoje se vendem jornais. Esse local era ocupado por cerca de quatro mesas em que as que se situavam mais perto da parede eram apoiadas por um banco corrido. Posso garantir que era o local da preferência dos mais jovens. Ali nos defrontávamos ao King: o Kansas, o Jó Rodrigues, o Rui Leitão, o Jó Alho. Também era um local de espera e de debates, onde preparávamos as farras e os bailaricos.
Mas continuemos à esquerda e vamos até ao fundo, tendo, por exemplo, como referência a estante dos Livros do Brasil. Deparamos com o sítio onde era o fabuloso balcão do Avenida, onde o Ezequiel e o Fernando Fortes preparavam as maravilhosas bicas e refrescos que nos serviam. O acesso à parte de dentro do balcão era do lado direito através de uma porta que ainda lá está.
Viremos à direita e consideremos o espaço para além do arco, antes cor de tijolo, agora embranquecido, descaracterizado. Era onde se situava o Restaurante do café. Com os poucos rendimentos de que dispunha, poucas vezes lá comi, mas consta-me e recordo que os bifinhos não eram nada maus.
O espaço entre um corredor que se segue à porta central, o cantinho da juventude, o balcão e o restaurante, onde actualmente se expõem as máquinas de calcular e outros aparelhos, era ocupado pela zona de jogo. Aí, os mais velhos disputaram renhidos combates de bridge (Fernado Rodriques, arquitecto, Dr. Durão,...?..) e dominó (Abel, Rui Costa, Luís Simões,...?...). Era também uma zona de Relações Públicas, pois bem perto dessas mesas estava a que vulgarmente era ocupada pelos proprietários do café, o Sr. Aguinaldo e esposa, duas figuras muito simpáticas que tinham sempre um sorriso para os clientes, apesar das perseguições políticas de que ele por vezes era vítima.
Consideremos, agora, o lado direito. Logo à entrada, no sítio onde a Alice expõe os perfumes e as loiças de Vista Alegre e outras marcas conceituadas, era o espaço para se ver televisão. Recordo filmes como O Homem Invisível , Sir Lancelot (ena, as histórias da Távola Redonda com a Guinevere, o Rei Artur eram o máximo!), o Robin dos Bosques , o Mister Ed (ver também este) que ali vi continuamente já não sei com que idade.
Apesar de tudo, não me lembro de grandes entusiasmos no interior do Avenida. O espaço era mais fino, mais snob, menos popular, menos ruidoso apesar de mais amplo e mais bonito.
Finalmente, adjacente em relação a esta zona, ocupado actualmente por materiais de pintura (Pelikans, Cisnes, etc.), existe o sítio onde se jogava bilhar bem perto da segunda porta de saída do café. Aí, dizia o João da Quinta, eu punha as bolas a saltar quando me irritava com as tacadas e estas não seguiam o rumo que eu planeava. Aos domingos, enquanto se ouvia o Música na Estrada e o fabuloso Oh Lady!, mais uma vez dos Les Chats Sauvages, nós iludíamos a vigilância dos pais e de outros controladores e lá fugíamos às obrigações sacras, refugiando-nos neste espaço. Depois, assistiamos, como dizia o Jó Rodrigues, ao Santo Sacrifício da Saída.
Ao terminar este roteiro sobre o Avenida, sinto uma certa tranquilidade. Animem-se, Oureenses. A Marina ocupou-o, se calhar esse até foi um meio de o preservar. Eu julgo que, se quisermos e tivermos força e meios para tanto, podemos reconstruir tudo. Sob a ocupação efémera desta empresa nada está destruído, está apenas oculto. Assim, se a Câmara quiser apoiar a reconstituição, pode começar desde já a recordar e projectar a ornamentação e mobiliário do mesmo. As belas mesas negras com vidro por cima, as belas e pesadas cadeiras, a porta giratória...
Força, vamos lá, responsáveis autárquicos, aquela Ourém merece todos os sacrifícios. E ainda existe quem se recorde de tudo, daqui a uns anos pode ser tarde demais.

sábado, maio 08, 2004

A Cruz Branca

Reparem na linda criatura que está no ponto mais alto daquela árvore. Apesar do seu porte humilde, parece desafiar-me enquanto canta feliz a sua liberdade.
Noutros tempos, o meu primeiro impulso seria ir buscar a pressão de ar e tratar-lhe da saúde. Hoje, confesso que aprecio sobremaneira a sua companhia. Assim, no quintal da minha humilde residência tenho algumas árvores que convidam estes pequenos seres a conviverem um pouco comigo e eles não se fazem rogados pelo que, de manhã à noite, tenho canto permanente. E penso: mesmo que não venha a tempo de apanhar a fruta, as poucas ameixas, os poucos figos sempre têm alguma utilidade, são uma reserva de comida para os ditos. E imagino o belo repasto, garantidamente da agricultura biológica, que ali têm.
Mas ao mesmo tempo sinto que, à medida que perdemos as zonas verdes, à medida que abatemos as nossas árvores, vamos também afastando estes simpáticos seres.
Há dias descia a estrada que liga Ourém a Tomar e, de repente, ao passar perto da Quinta da Olaia dou de caras com algo preocupante. Junto à Quinta das Margaridas, duas árvores ostentam uma cruz branca. Mais à frente, perto da ponte, o mesmo se passa com mais algumas árvores. Não sei qual a sua idade, mas como desde muito novo as conheço admito que sejam quase centenárias. Confiei as minhas dúvidas a pessoas conhecidas até que alguém mais ligado aos serviços camarários me informa: Ah! essas árvores são para abate.
Se isto é verdade, lá está mais uma contribuição para o deserto num sítio que é bem pitoresco. Para quê mais este abate? Andar a 50 ou 60 km/h na estrada Ourém-Tomar chega-me perfeitamente, nem 20 minutos demoro, o que era cada vez mais importante era pôr semáforos nas entradas nesta estrada e não aumentar a velocidade na mesma, ninguém precisa de auto estradas ao pé da janela. Deixem o diabo das árvores para podermos desfrutar de passeios calmos pelo meio das mesmas.
Mas a cruz branca lá continua. E cada dia que passa eu pergunto: será que aquela criatura ainda encontra condições para mais uma vez chegar ao meu quintal?



Ecos no Castelo

sexta-feira, maio 07, 2004

A equipa maravilha


Podem falar nos putos do hóquei, podem falar nas internacionalizações, podem falar no Luís Porto, mas, para mim, a equipa maravilha, aquela que defrontou o Livramento, aquela que quase humilhou o Futebol Benfica com um bem claro 5 a 3, aquela que entusiasmava as gentes de Ourém ao ponto de os seus clamores atingirem e atemorizarem Tomar, Abrantes, Torres Novas, Marinha Grande e Turquel, era a formada pelo Mário, Abel, Rui Prego, Rui Costa, Piriquito e outros que não me lembro, mas que julgo que integraram o Ferraz, o Pintassilgo e, ele o diz, o Vitor Castanheira.
Quando o Abel saiu, o Pintassilgo, talvez o mais habilidoso de todos, entrou, e logo ganharam o distrital. Que magnífico feito!
Que pena não ter uma fotografia desse tempo.
Constato que a tradição do hóquei não se perdeu, independentemente de vir sob o nome Atlético ou Juventude. Mas uma coincidência engraçada é o facto de o treinador dos putos, grandes campeões do século XXI, aquele que os tem conduzido a saborosas vitórias apesar de poucas vezes ser nomeado, ser filho de um desses magníficos que lutavam na equipa maravilha.

E este era o ambiente em torno do Castelo exactamente no momento em que o Glorioso marcou aquele formidável golo aos inofensivos lagartos...

quinta-feira, maio 06, 2004

O café Central


Ali, entre a loja do Sr. David e a Ex-CGD do Sr. Costa ou a ex-biblioteca da Anita, fica uma pérola neste mundo de destruição. Honra ao Adelino porque, apesar das óbvias dificuldades que tal acarreta, conseguiu manter o Central com as características que lhe conhecemos noutro tempo.
Entremos.
Logo ao lado esquerdo, encontramos o balcão e o expositor de revistas, em tudo semelhantes, se não os mesmos, aos que lhe conhecemos. Para testar este aspecto, experimentámos colocar alguns livros e revistas do tempo, eventualmente adquiridos no café, no local que ocupariam na altura. E vejam um dos primeiros números do Mundo de Aventuras que me chegou às mãos (data de 18-08-1960), um exemplar do Condor Popular que não sei datar, uma aventura de Lance na colecção Tigre e um livro da magnífica colecção Búfalo que me entusiasmava. Admirem como ficam bem no expositor. Reparem como os diversos compartimentos têm o tamanho ideal para receber tão simpáticos elementos.
Olhemos em frente. Lá ao fundo, existe o túnel que dá passagem para o local onde antes era a sala de bilhar, onde disputei dezenas de partidas com o Quim, o Jó Rodrigues, o Génito. Sala de entusiasmos, de alegrias e derrotas. Mas, eis que, ao me dirigir para a mesma, noto a falta de um elemento de outros tempos.
Falta o cantinho dos doutores. Era ao lado esquerdo, sensivelmente passados dois metros após a entrada. Foi substituído por um balcão frigorífico. Antes, o espaço era ocupado por três ou quatro cadeiras destinadas ao Dr. Armando, ao Dr, Nini e ao Dr. Oliveira que dali dominavam toda a sala. Imaginem o nosso acabrunhamento ao passar em frente de tão importantes personagens quando nos dirigíamos para a sala de bilhar. No dia seguinte, no CFL seria ralhete pela certa.
Reparemos, agora, naquele belo exemplar de telefonia dos anos 50 e 60, à esquerda do túnel e acima da máquina de café. Ah!, quantas vezes ouvi ali os Les Chats Sauvages nos Dernires Baisers ou o António Prieto em La Novia, lamechices que nesse tempo alimentavam o nosso ego. Será que ainda toca?
E há fotografias: o velho jardim de Ourém junto à Câmara, o saudoso jardim da já famosa Eira das Pedras, O Vicente...
Vejamos agora a sala de outro ângulo: a partir da zona da máquina do café, apreciamos as mesas e o local da televisão.
Há a mesa do Sol, há o cantinho para dois sobre a actual sala de jogos e lá está aquela outra bem à frente da televisão a dois passos dela, onde eu vi as primeiras emissões, onde ajudei a procurar o Maneta quando era a hora do Fugitivo, onde vi o Benfica bater o Barcelona naquele maravilhoso dia do 3 a 2 com o Águas, o Zé Augusto, o Costa Pereira.
E era o Torrejano a gritar que nem um perdido, era o Zé Penso a saltar de alegria. Era eu e a malta amiga a não acreditarmos naquele feito que parecia tão longe das nossas capacidades. Grande Benfica, Glorioso! Tão parecido com o nosso Atlético. E, tal como ele, tão carecido, hoje, de inebriantes vitórias.
Volto ao nosso tempo. Felizmente o Central ainda existe para tudo não se reduzir a recordações e fantasmas.








quarta-feira, maio 05, 2004

Aquelas imagens…
São uma das sociedades mais ricas do Mundo.
Têm uma economia avançada baseada na informação e no conhecimento.
Podem fazer a guerra cirúrgica e acertar em qualquer alvo com danos colaterais mínimos.
Defendem as mais amplas liberdades para todos os povos.
A sua moral é o que de mais avançado podemos conceber.
Apesar de tudo, não se coibiram de humilhar quem estava vencido.
E ver aquelas imagens que testemunham que a superioridade moral do vencedor é, por vezes, apenas uma questão de palavras, leva-nos a descrer desta sociedade em que o desgraçado do soldado iraquiano é vencido, humilhado, violentado só porque lutou pelo seu país perante alguém que lhe conduziu uma guerra baseada numa pérfida mentira.

Regresso de Ourém

Cá estamos de novo, terminados os poucos dias de contacto com Ourém. Fizemos muitas coisas e tudo, desde que relevante, iremos relatar nos próximos dias. A primeira foi uma visita à feira do livro exactamente no dia em que fechava; não tínhamos companhia, não encontrámos ninguém conhecido pelo que nos retirámos a breve trecho. Fizemos entretanto algumas fotografias junto ao edifício da GNR e ao depósito, elementos de que já falámos.

Assistimos, ainda, àquele jogo em que o Glorioso reduziu audaciosos leões a inofensivos lagartos.

Na segunda-feira, pelas oito horas comparecemos no Central que sujeitámos a uma sessão fotográfica. O Adelino foi de amabilidade e colaboração extremas sendo dele a responsabilidade da exposição que fica aprazada para um dos próximos dias. Há um pequeno senão: um dos elementos que devia ser sujeito a fotografia, um belo rádio dos anos 50/60, mencionado no texto que apresentaremos, está a arranjar, mas há a promessa de voltar ao seu lugar de exposição. Obrigado, Adelino, pelos momentos de retorno à nossa juventude que nos proporcionaste.

Procurámos, em vão uma fotografia da equipa maravilha, mas isso não impedirá a publicação do respectivo post.

Passámos também pela Marina que sujeitámos a uma inspecção minuciosa. Apesar de termos cumprimentado um dos seus responsáveis, o sr. Catarino, não tivemos coragem para lhe pedir para tirar fotografias. A nossa intenção é rever o café Avenida a partir daquilo que hoje ocupa o seu espaço.

Fomos à Tipografia Ouriense. Que saudade do Melo! Acreditem que já não via o Ourém e seu Concelho há perto de trinta anos. Ali deixámos o nosso nome, coordenadas e respectivo financiamento para o passar a receber regularmente. Depois olhámos o seu conteúdo sofregamente. Uma parte frontal interessante. O interior cheio de porta-vozes partidários. Então aquela conversa sobre Espanha e Zapatero é quase uma repetição do discurso do Governo PSD/CDS. E eis que de repente os meus olhos deparam com um artigo do famigerado LF. Como é possível trinta anos depois? O mesmo estilo, as mesmas afirmações... LF não argumenta, LF não contradiz, ele pura e simplesmente afirma independentemente do que qualquer adversário possa apresentar. O mesmo ódio aos comunistas, aos marxistas. Enfim, penso que nem vale a pena dar-lhe confiança. Noutros tempos o excelso grupo de marxistas-leninistas que analisava a situação em Ourém fazia apostas sobre a sua identidade. Seria o padre de Rio de Couros? E repentinamente, recordo a minha despedida dos jornais de Ourém em 1975: "não voltarei a escrever no Notícias de Ourém enquanto lá se der guarida a artigos de fascistas" (cito de cor, foi mais ou menos assim). Mas perdi, nada consegui e nunca mais lá escrevi, transformando-me em talento (?) adormecido e acomodado há muitos anos, como diria o outro. Mas confesso que neste campo evoluí muito pouco, isto é permaneço pouco tolerante, será que não sou um verdadeiro democrata por preconizar a exclusão dos que querem abater a democracia dos que dão vivas ao salazarismo?

Mas falemos em coisas boas. Encontrámos alguns amigos: O Julito, a Alice, a Cristina, a São. Foi a cavaqueira do costume, pena é que Ourém já esteja de novo longe. Soubemos de mais destruições em perspectiva. Enfim, atenção aos próximos posts em que, atendendo a pressões vindas do Castelo, faremos algo para dar a cara.


sexta-feira, abril 30, 2004

A Luz do Silêncio
Paremos durante alguns dias.
O dever chama-nos.
Vamos reflectir, fazer trabalho de base, carregar baterias, obter massa crítica. O nosso plano é voltar de novo com recordações de Ourém.
A propósito:
- não há por aí alguém que queira fazer um texto sobre os célebres Estúdios Trini?
- … ou sobre a monumental sova que o Dr. Armando deu ao Augusto e ao Vitor?
-… ou sobre aquela mó que um dia foi apontada ao CFL?
- não há por aí fotografias dignas de ser partilhadas da nossa Ourém?
Não tenham receio, eu trato bem as coisas, tudo devolverei.
Respostas, comentários e contribuições para o Quartel.

E Ourém aqui tão perto...
Com a devida vénia:

Cidades
Por MIGUEL SOUSA TAVARES
Sexta-feira, 30 de Abril de 2004
Clara Ferreira Alves - uma das raras e enriquecedoras leituras do "Expresso"- escrevia na sua última crónica acerca do deslumbramento que uma recente visita a Barcelona lhe tinha provocado e interrogava-se porque não construímos assim Lisboa e as nossas outras cidades. Barcelona é também uma das minhas cidades de referência, como o é - e falo apenas de cidades "europeias" - Buenos Aires, sobre a qual aqui escrevi há uns meses, e tantas outras: Roma, Florença, Veneza, Sevilha, Londres, Paris, Estocolmo, Copenhaga, Genebra, Viena e, posso acrescentar já ao rol por antecipação, Praga, que irei conhecer para a semana. E outra ainda, que revi, depois de prolongadíssima ausência, há 15 dias atrás: Amesterdão. Não saberia descrever Barcelona melhor do que a Clara o fez, por isso descrevo o que vi em Amesterdão.
Estava sol, o que sempre ajuda, sobretudo às cidades do Norte. Estava sol e, por isso, as pessoas estavam cá fora, ao sol: muitas nos dias de semana, quase todas no fim-de-semana. Gente reunida por famílias ou prédios inteiros, sentada nas escadas ou nas varandas das casas ou simplesmente com as cadeiras postas na rua, lendo jornais, trabalhando nos computadores portáteis, conversando por grupos ou apanhando sol, sem mais. Mas a maior parte circulava pela cidade, a pé, de bicicleta (quase todos os que se deslocavam), ou de barco, através dos canais. Paravam nos restaurantes, nas lojas, nos mercados de flores ou de livros usados, na infinidade de livrarias ou quiosques de revistas do centro, nos jardins ou nas margens dos canais, na profusão de cafés, pastelarias ou bares, onde se pode ficar até querer, simplesmente bebendo um "expresso" ou um copo de vinho branco. Visivelmente, a rua estava preparada, melhor dizendo, imaginada, para receber as pessoas. Não havia café, bar ou restaurante que não tivesse esplanada. Não havia esquina que não tivesse bar, pastelaria, restaurante, quiosque ou livraria. Não vi em esquina alguma uma agência bancária - muito menos esta recente praga do "Millenium BCP", com a sua cor púrpura ou violeta, poluindo visualmente e aos poucos todas as nossas cidades. Não é por acaso que no Fórum Barcelona, a começar já em Maio, um dos temas de exposição é justamente "As cidades e esquinas". Porque são as esquinas que fazem viver em grande parte as cidades, como ponto de cruzamentos, de encontros ou de paragem em cafés e quiosques. Entre nós, todavia, as esquinas estão a transformar-se em lugares reservados da banca.
Do ponto de vista dos nossos arquitectos, todo o centro, a imensa parte histórica de Amesterdão, é aquilo a que eles chamam depreciativamente um "pastiche": simplesmente porque é intocável. Não há ali qualquer concessão à modernidade em diálogo com a história. Todos os edifícios actuais, remodelados, reconstruídos ou feitos de raiz, obedecem aos mesmos padrões arquitectónicos que caracterizam o chamado "período doirado" - último quartel do século XVII e primeiro do século XVII - em que a Holanda atingiu o seu apogeu marítimo e comercial e a cidade foi construída. A cércea nunca ultrapassa os quatro andares e toda a construção é de tijolo, telha e vidro, sem betão, sem alumínio, sem floreados alguns. Uma monotonia para os arquitectos, um prazer para quem lá vive e por lá se passeia. A arquitectura moderna está remetida para as franjas laterais ou para a periferia, assim como a indústria e grande parte dos serviços: o centro, que é o coração nevrálgico da cidade, é para o pequeno comércio, para a habitação, pequenos hotéis, bicicletas, barcos, passeantes. Inútil acrescentar que não existe aqui um único centro comercial, muito menos essas monstruosidades desumanas tipo Colombo, Fórum Almada ou Gaia-Shoping, onde os portugueses se enterram como ratazanas, como se se quisessem vingar do sol e da luz que têm lá fora. E, como não existem esses monstros de consumo, onde, como escreveu a Clara Ferreira Alves, se tenta recriar ridiculamente os jardins, parques, alamedas e árvores que não existem ou que se deixaram lá fora, o pequeno comércio sobrevive e desempenha um papel vital na vida da cidade. Mas, também, atenção: quando falo de pequeno comércio, não tem nada a ver com aquilo a que estamos habituados: não há cafés com balcões de zinco, mesas de fórmica, máquinas que fazem um barulho ensurdecedor, acrescentado ao barulho das loiças a serem sumariamente lavadas, cartazes idiotas a anunciar que "as bebidas expostas são para consumo na casa" ou "só se aceitam cheques visados", e empregados que se esforçam até ao absurdo por não verem os clientes a chamá-los; não há mercearias e talhos com ar de tabanca africana, pindéricas floristas, lojas sempre encimadas por painéis de publicidade, montras sem qualquer brio nem imaginação. E não fecha tudo ao fim-se-semana nem atravacam as ruas com as suas cargas e descargas durante o horário normal dos dias de semana. As regras aqui são: serviço, qualidade e brio. Aí se vê também e decisivamente a diferença entre um país civilizado e aquilo que somos. Enfim, resta acrescentar que não há engarrafamentos nem buzinadelas, não há polícias à vista e a cidade é absolutamente libérrima nos seus costumes e toda a gente tem um ar de quem desfruta cada momento ali vivido.
...
Dizia a Clara Ferreira Alves que todos os nossos autarcas deveriam ir a Barcelona ou outras cidades europeias onde a qualidade de vida é o objectivo número um de quem as governa. Eu penso que eles já foram, já perceberam e nada adiantou. Era bom era que todos os eleitores das nossas principais cidades pudessem ir a Barcelona ou Amesterdão para perceberem o quanto têm sido mal governados e o quanto têm sido roubados no seu direito a uma vida urbana totalmente diferente e melhor.
...

quinta-feira, abril 29, 2004

Aplausos
para aquela mulher, Graça, de sua graça, que tem, neste momento, condições para terminar com um dos mais injustos sistemas laborais em vigor no Portugal de Abril: o do ensino superior, que possibilita o despedimento (sem subsídio de desemprego, apesar dos descontos em tudo semelhantes aos de outros profissionais) de docentes com mais de uma dezena de anos na carreira, com mestrado, com doutoramento desde que não caiam nas boas graças de um juri de avaliação, confundindo progressão na carreira, comparação entre docentes com vínculo laboral.
Afinal, nem tudo parece mau no mundo laranja.
Ou virá a ser mais uma desilusão?
A medalha
O presidente quis atribuir uma condecoração à Isabel, mas o Paulo não estava pelos ajustes.
Não pode ser, essa mulher pegou em armas contra os fascistas, eu próprio me senti terrivelmente ameaçado.
Meu caro Paulo, tens de ser tolerante, tens de aprender a viver em democracia. Esse tempo terrível de perseguição aos salazarentos já lá vai, vivemos numa sociedade plural e precisamos de unir todos os portugueses honestos.
Eu não vou, eu não estarei lá...
Já esperava isso de ti. Não foste tu e os teus amigos que há uns anos votaram contra aquela primeira Constituição que nos trazia a liberdade e falava em socialismo?

quarta-feira, abril 28, 2004

Uma pretensa justiça social
Naquele dia, tive uma conversa com o nosso querido primeiro ministro.
Sabe, meu caro Luís, vou implementar a justiça social como recomendava o nosso comum amigo Marx.
E como fará isso, meu primeiro?
É muito simples. A partir de agora as taxas relativas a serviços públicos variam com o escalão de rendimento apurado a partir da declaração de IRS e as prestações sociais, abono de família, por exemplo, seguem o mesmo método.
Mas não estou a ver a relação…
Não está? Mas é claríssimo:
de cada um segundo a sua capacidade,
a cada um segundo a sua necessidade.

É brilhante, digno de um verdadeiro social democrata. Obviamente, já tratou de moralizar o sistema fiscal iníquo que nos caracteriza e que geralmente costuma tramar os que trabalham por conta de outrém…
Ourém é inquietação, Ourém é desassossego…
A cada hora que passa surge aquela interrogação: e o que estarão eles a destruir hoje?
É que eu estava lá…
Vinha do Central, a azáfama de construção da eira da pedra era grande. As pessoas saltitavam por onde podiam para chegarem aos locais que necessitavam. Eu estava junto à biblioteca.
De repente ouvi aquilo. Uma máquina aproxima-se de uma árvore junto ao Central, encosta-lhe uma poderosa mandíbula ao tronco… e faz força…
Ouve-se um Craack característico de algo que está a ser separado do seu meio. A pobre árvore verga-se, quebra-se, ali, sob os meus olhos…

terça-feira, abril 27, 2004

Oureenses, boicotem o concurso para Miss Portugal
Já viram aquilo?
Estou siderado, incrédulo, como é possível uma coisa daquelas trinta anos depois do 25 de Abril?
Como é possível achincalhar tanto os sonhos de uma pessoa que andará pelos dezoito anos?
Mas será que os pais não vêm aquilo?
Na SIC, na televisão do Balsemão, que também estava na ala liberal, do Sá Carneiro, do Mota Amaral,...
E é a besta do Serrão com o olhar alarve, lascivo, a comê-las com os olhos.
E é aquela gordurosa loira a falar no rabo da miúda.
E é o outro com ar de jogador de rugby reformado a dizer: mostra-me os teus joelhos, dá uma volta, tens os tornozelos gordos, o teu penteado mete nojo.
Deu-me gozo uma miúda madeirense, se não estou em erro, dizer-lhes das boas. Àquelas bestas, aos que têm a mania que é com aquela brutalidade que se devem tratar os sonhos das pessoas.
O que se faz naquele concurso é incrível que aconteça no Portugal de Abril. E, mais uma vez, recordo...
...recordo a dignidade com que há muitos anos foi tratada aquela que todos os jovens portugueses quiseram namorar, a Ana Lucas, uma das miúdas mais lindas da nossa geração e fico apreensivo: não é verdade que nessa altura estávamos sob a ditadura?

A nova(?) classe empresarial
E ainda não tinha passado um dia sobre os 30 anos do 25 de Abril quando o meu olhar detecta movimentos de criaturas estranhas na TV. Tratava-se da nova geração de empresários portugueses: os tais da produtividade, da economia do conhecimento, das tecnologias da informação e sei lá que mais.
Mas será que estavam a falar de tão importantes realidades?
Não. A sua preocupação era a idade de reforma dos trabalhadores. A sua proposta era passar essa idade de reforma para os 70 anos. Eu até acredito que o que eles gostavam era reformar as pessoas depois de mortas.
Afinal, o liberalismo não lhes ensinou nada. Não foi capaz de lhes mostrar que os potenciais reformados terão andado a descontar durante mais de trinta anos, como que a amealhar um pecúlio para posteriormente descansarem. Que esse desconto, com esse objectivo, terá atingido 35% do seu vencimento. Não lhes permitiu concluir que esse direito é algo que não tem a ver com a sua bondade, é algo de muito real fundamentado em operações económicas em tudo semelhantes às daquele que todos os meses vai pôr uma parte do seu vencimento no banco e que, ao fim de algum tempo, vai lá buscar o que juntou.
Eles não podem nem conseguem ver isso, porque querem viver sistematicamente à custa de se apropriar do alheio, não são empresários, são parasitas com discurso novo reformulado em Harvard e no Mit.
E é uma pena que os sindicatos não lhes consigam dar uma resposta na mesma sede e com um discurso realista, é uma pena que se preocupem mais com bandeirinhas e palavras de ordem inflamadas do que em desmontarem uma concepção tão grosseira que tem a sua razão na confusão entre previdência e Estado.
O 25 de Abril na imprensa da época em Ourém
No meio do meu arquivo de papeladas de há 30 anos, saco colagens referentes ao modo como vi essa data magnífica no Notícias de Ourém e no Ourém e seu Concelho.
Peço desculpa pelo facto de não ter passado os documentos para formato texto. O reconhecimento óptico de caracteres não está a funcionar bem e depois a correcção é algo de fastidioso e corta a magia do momento. Ourém merece tudo, é verdade, mas emendar ou reescrever aquilo é sofrimento a mais.
Assim, fiquem-se com os restos de papel amarelecido que guardei. Infelizmente também já não tenho os jornais na sua totalidade para dar uma visão mais completa sobre os mesmos.
Não resisto a contar-vos que o radicalismo era de tal ordem que, algum tempo mais tarde, em momento de crítica e auto-crítica, levei um ralhete dos meus amigos que viriam a juntar-se em organizações ml (marxistas leninistas), com os quais alinhava embora hesitante, pelo facto de ter dado vivas a Portugal e às forças armadas. Eu confesso que também nunca gostei muito de dar vivas, mas, na altura, até pensei que se justificavam. O momento era único, mas a herança do fascismo transportava uma enorme desconfiança.

Eis o artigo do Notícias de Ourém



Eis o que escrevi em Ourém e seu Concelho





domingo, abril 25, 2004

Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas...
E, naquele tempo, , por onde andavam e que faziam distintos oureenses?
Sérgio: preso em Caxias (prestes a ser libertado).
Luís Nuno: exilado em França (prestes a regressar).
Zé Quim: sob detenção nas Caldas (prestes a ser libertado).
Luís: vigilante na EPAM.
Luís Filipe: apoiando em alguma unidade do Continente.
Zé Rito: em voo para Seia.
Jó Rodrigues: coleccionador competente e avisado de plantas, xaropes e químicos naturais para aliviar o mal-estar dos oureenses de então.
Alfredo: a preparar o abandono organizado do Quelhas e a grande marcha relativa ao regresso vitorioso à futura urbe.
Rui Themido: Ourém já não é o que era, a Medicina vai chamá-lo para outras paragens.
Rui Leitão: novas fórmulas, novos fármacos, há que revitalizar Ourém.
Zé Domingos: Engenharia é para terminar, mas em Ourém continuará caçadas e patuscadas.
Jó Alho: quase martirizado nas colónias.
Humberto: em busca dos tesouros dos Aztecas, dos Maias e dos Incas.
Vítor: guarda-redes da equipa maravilha a quem alguém não reconhece o Direito de, de Facto, o ter sido (mas ele já tem hábil seguidora para defender tão intangível activo).
Tóino: a assistir ao nascimento dos primeiros vitelinhos.
Ferraz: à procura do verso, à procura do trinado, a ensaiar o maior, o menor, o corrido…
Barrosos, Quim Manel, Quim Zé, João da Quinta, Aires, Kansas, Zé-Tó, Tó-Liz, Licínio, Luís e Alberto (manos Facas), Maximino, Nicolau, Natureza, Queimado, Augusto, Jóia: nada sei sobre o que faziam neste momento, mas podem enviar-me relatório para o Quartel.
Quim, Julito, Genito, Duarte, Félix, Vitor Guerra, Pintassilgo, Cúrdia, Zé Alberto, Manuel: ou a iniciar as suas vidas ou aos tiros nas colónias ou no Poço (então bem real) a comentar tão gratificantes acontecimentos.

E o Zé Manel, lá de cima, contemplava tudo isto com um sorriso e pensava: “se estivesse lá com a minha viola, também podia dar uma ajuda”.

sexta-feira, abril 23, 2004

Esta noite, vou ter de ficar no Quartel.
Para qualquer assunto, podem contactar comigo utilizando o endereço secreto escondido sob as palavras a bold.
Responderei logo que possa... se puder...

quinta-feira, abril 22, 2004

Preparem-se.
Falta pouco mais de dois dias...
Temos de aproveitar para libertar o Sérgio e o Zé Quim.
Temos de criar condições para o Luís Nuno poder regressar de França.
Maia, parece que tens alguém porreiro para comandar um pelotão quando avançares. É de Ourém e...
Mas que se passa, camarada Luís? Parece triste, nostálgico, pouco confiante...
Não é isso, meu major. Tive uma visão do que vai ser isto daqui a trinta anos: corrupção, fuga ao fisco, tráfico de droga, insegurança, mentira, terrorismo de EStado... Comparada com isto, a exploração capitalista, aquela em que o patrão paga o salário para obter mais-valia, parece uma santa. Mesmo o meu major vai ser perseguido e acusado de coisas horríveis...
Eu, perseguido? E achas que é a primeira vez? Tu próprio vais escrever sobre uma história um tanto semelhante que ocorreu quase há dois mil anos. O nosso povo padece de um défice, não aquele com que ela vos vai torturar, mas educacional. Mas eu vou tratar já disso, das perseguições políticas...
Aspirante Sampaio, vá pensando numa lista de homens de confiança porque temos que extinguir a dita...

segunda-feira, abril 19, 2004

À espera do 25 de Abril

E pronto, fazemos uma curta paragem até à data em que se comemora o Magnífico. Manter-nos-emos em silêncio, se não houver guerras suscitadas pelas recordações.
O próximo post vai de novo lembrar os distintos oureenses. Vai enumerá-los e procurar determinar onde estavam, o que faziam, com que sonhavam...
Peço desculpa por qualquer omissão, incorrecção ou referência considerada de mau gosto que possa ser feita. Estarei disponível para modificar o quer que seja.
O post será publicado exactamente no 25 de Abril (se o sistema o permitir) e, como calculam, já está elaborado e bem guardado em local secreto.
Planeamos, entretanto, os detalhes de nova peregrinação a Ourém, para visitar e comentar sítios que nos foram queridos. Agentes da destruição, se virem alguém de máquina fotográfica ao peito, cuidem-se...

Utopia

Aspiro a uma sociedade de onde sejam banidos o parasitismo, a exploração, a humilhação, a opressão, a corrupção, a competição desenfreada, a mentira e o terror, onde o indivíduo tenha garantida a satisfação das suas necessidades básicas em termos de alimentação, saúde, educação e segurança como contrapartida da sua contribuição para o colectivo que deve resultar de uma vocação manifestada e determinada desde tenra idade.
Assumo que o Estado tem, numa primeira fase, um papel importantíssimo na conciliação e procura de equilíbrio entre os interesses individuais e os interesses colectivos.
Admito a propriedade e o crescimento da riqueza privadas desde que a sua utilização contribua para um desenvolvimento económico e social, submetidos quando necessário à satisfação de necessidades sociais. Reconheço, por isso, o papel de empresas privadas e do próprio capital internacional que pode apoiar os processos internos de desenvolvimento. Aceito, também, que este capital é livre de abandonar o espaço onde opera, levando consigo os rendimentos a que tem direito e desde que cumpra condições previamente acordadas. Nesse sentido, acho legítimo que a Bombardier deixe o país a partir do momento em que não se sinta bem nele, mas entendo que é aí que um papel fundamental do Estado, que não deve permitir a destruição das suas forças produtivas e qualificadas, se deverá manifestar: a empresa sai, mas, em vez de o Estado se fechar no falacioso argumento de que se trata de algo privado, há que manter o processo de trabalho e os seus agentes desde que possam a continuar a ser socialmente úteis.
Aceito que a sociedade em que vivemos, pela intransigente defesa das liberdades que preconiza, é relativamente superior àquelas que, em tempos idos, se reivindicaram do socialismo. E que, na mesma, ao lado dos monumentais defeitos atrás listados, desabrocharam forças que poderão formar a base de algo que lhe seja superior, forças que resultam fundamentalmente da cooperação entre os agentes económicos e de que existem exemplos em Ourém.
A questão está em saber como poderemos extirpar aqueles monumentais defeitos e iniciar algo que tenha uma capacidade própria de desenvolvimento sem necessidade de empurrões e obrigações determinadas por vanguardas esclarecidas. O que também é um problema para Ourém.


Um pouco de organização no conteúdo

A Abrir: Figuras de todo o MUndo e outras fábulas
A vaidade dos intelectuais
Um verdadeiro tiro no pé
As redacções da Guidinha
Visado pela Comissão de Censura
Mas porque acabam as férias?
Alegrem-se. Vem aí o 25 de Abril
Eu também estive lá
Oureenses de todo o mundo, uni-vos. Andam a destruir a nossa Ourém

quinta-feira, abril 15, 2004



Se todos juntarmos o que sentimos que nos falta de um passado ainda bem próximo e o que receamos que no futuro nos seja tirado, compreenderemos a mágoa dos que dizem que Ourém tem sido gerida por pessoas que não têm amor à terra.
Pela parte que me toca, recordo o belo jardim que existia em frente à Câmara Municipal substituído por uma minúscula e confusa caricatura. Recordo a destruição do velho edifício onde se exibiu cinema durante muitos anos ali bem nas traseiras do hospital.
Alguns amigos falam-me noutras barbaridades como a casa do padre, uma casa na rua de Castela e um paraíso agrário que existia na Rua Santa Teresinha a partir da estrada bem junto à quinta da Sapateira e que foi substituído por uma escola e algumas casas de habitação. Também o jardim junto ao café Central já é uma recordação e o magnífico café Avenida tornou-se uma profunda saudade.
Fala-se agora na velha prisão de GNR. Quem sentirá saudades de uma prisão? A verdade é que muitos crianças de Ourém obtiveram dos prisioneiros belos carrinhos de madeira que serviam para se distrair na sua meninice e garantia àqueles um rendimento que os ajudava a ultrapassar aquele mau bocado.
Já agora tenho algum receio que o edifício dos correios, a escola primária e o velho depósito de água sejam sujeitos a ordens de extinção. Mas é preciso lembrar aos autarcas que o seu poder não é absoluto. Eles foram lá colocados para servir o povo e é bom que não se esqueçam disso e passem a não fazer com que a sua visão do mundo ou o interesse de obscuros lobies seja mais importante que os do povo em geral.


Ecos no Castelo
A casa do largo de Castela



Reconhecem esta obra prima?
Pois esta casinha ainda existe ali bem no início da Rua de Castela e continua a dominar com o seu porte a rua que nos conduz à avenida. Ali se travaram renhidos combates de futebol, pião e berlinde. Há quem sustente que, bem rente ao chão, a 20 centímetros do lado esquerdo da porta principal existiu um buraco que terá ocultado dezenas de bolas de futebol que eram engolidas perante os remates inadvertidos dos jovens jogadores. E que, no seu sótão, existirá possivelmente um saco contendo restos da banda desenhada da década de cinquenta e sessenta consubstanciada em Camaradas, Pajens, Moscas, talvez Mundos de Aventuras, ali deixados inadvertidamente por uma família que a habitou.
Consta que esta casa tinha características notáveis para a leitura e contemplação de banda desenhada. Reparem agora naquela pequena torre do lado esquerdo, quando vista bem de frente, que lhe dá uma solidez singular e única em todo o distrito…
A verdade é que me constou que esta casa também está condenada à destruição por causa do traçado de uma rua, por causa da relação com outras arquitecturas que nasceram tortas. Pode acontecer que assim seja, dar-me-ão um grande desgosto. Mas garanto que se tivesse posses para tanto, adquiriria essa casa, restaurá-la-ia e instalaria lá uma mostra de banda desenhada, resistindo ao seu abate até ao último suspiro.
E acreditem no profeta, a sentença está dada: quem participar na sua destruição, quer seja responsável, executante ou mero colaborador, é condenado à sua reconstrução, pedra por pedra, em local digno da visita de distintos oureenses.
Como é possível?




O Albuquerque esteve aqui. Aqui terá passado alguns dos melhores anos da sua vida. Aqui terá conhecido o primeiro sabor dos SG, dos Porto, dos Definitivos. Aqui terá dado muitos toques na bola, terá levado muitos colegas mais novos ao poste. E certamente terá recebido a formação que o ajudou a ocupar alguns dos postos politicamente mais poderosos no distrito e no concelho. Apesar disso tudo, nada conseguiu fazer para devolver ao que foi o Colégio Fernão Lopes um pouco da dignidade que ele orgulhosamente ostentava noutros tempos.
Esta escola foi responsável pela transmissão de conhecimentos a muitos jovens de Ourém e de outras terras. Nela trabalharam excelentes professores alguns dos quais para mim constituem uma referência: a Dra. Maria da Nazaré, o Dr. Laranjeira, a Dra Lurdes Moreira, a Dra Maria Júlia, o próprio Dr. Armando quando não estava virado do avesso. E quem não recorda a Boazinha?
Por respeito a toda esta gente, a Câmara devia pensar na sua recuperação e na sua utilização como um local de formação do mais alto nível.
Um recanto pitoresco




Afinal, ainda lá está. Ali à entrada do local em que iniciávamos a subida da encosta para os moinhos, existia um cantinho muito agradável habitado por uma família muita afável. Ali apoiei o Ferraz em momentos de leve doença com a audição dos poucos discos que possuia.
À frente do recanto ainda se pode ver a casa que foi habitada pelo Genito e pelo Duarte (filhos do Cabeça Aguda) a qual ainda apresenta um aspecto razoável.
Do lado esquerdo, constata-se a existência de uma pequena fonte, onde muitas vezes os oureenses se dessedentaram, mas a que a incúria autárquica ainda não devolveu a necessária torneira.
Experimentem descer do recanto até ao largo de Castela e sintam um pouco do ambiente de outro tempo. Trata-se de uma rua estreitinha, silenciosa, com uma certa inclinação. Do lado direito há uma bela casa amarela em degradação. Mais abaixo, do lado esquerdo, encontramos a casa do Boas Falas onde habitava o nosso amigo Augusto.
Sintam a minha angústia: será que tudo isto está condenado à destruição?
Os restos da fonte de Santa Teresinha




Estão situados ali bem perto da casa do Zé Quim. Durante alguns anos, habitei bem em frente à mesma e tive o privilégio de ouvir o correr das suas águas. Trata-se de uma obra que data de 1868, curiosamento não muito diferente daquela que existia no Ribeirinho.
A sua degradação é bem evidente.
A nossa perplexidade perante a acção do poder autárquico é imensa. Como é possível deixar este elemento arquitectónico chegar a este estado de degradação? Será que só é possível a degradação pura e simples até à destruição ou a reconstituição caricatural como a que foi operada na fonte do Ribeirinho?




É que esta está reconstruída, mas toda transformada: não está no local que era o seu, foi rodeada de elementos que nada têm a ver com ela, está virada só para os que entram em Ourém, não ostenta um mínimo de verdura. Será que esta fonte é uma mensagem do tipo: vejam do que somos capazes, vejam as nossas obras de fachada? É que ninguém pode beber da sua água ou ouvir o seu correr com ela instalada naquele local, rodeada por uma rotunda.
A Igreja Matriz de Ourém



E eis um marxista a caminho da Igreja de Ourém. Como é isso possível? A resposta é que as minhas certezas acerca de questões ideológicas estiveram sempre muito perto da dúvida permanente. É verdade: a ideologia marxista é materialista, defende o materialismo histórico e o materialismo dialéctico. Pessoalmente acredito em muitos aspectos do marxismo, especialmente naqueles que dizem que a história do desenvolvimento das sociedades tem sido marcada pelo desenrolar da luta de classes no seu seio.
Também acredito que existe uma contradição permanente entre as forças produtivas (os trabalhadores, os instrumentos de produção) e as relações de produção (a propriedade dos meios de produção determina a separação do produtor relativamente aos mesmos) que, um dia, se resolverá com uma sociedade mais justa. Tal como já o afirmei, penso que tal só terá sucesso quando quase todos os homens a quiserem, portanto é necessário um grande esforço de educação para se lá chegar. Mas, desculpem-me que o diga tão abruptamente, custa-me a crer quando afirmam que Deus não existe. Como é que eles sabem?
A verdade é que esta Igreja nunca me ensinou nada de mal. Disse-me para ser honesto, para não matar, para não roubar. Quem é o marxista que despreza estes princípios? Pode ter acontecido que fosse conformista, que, através dos padres, nos convidasse a aceitar uma situação opressiva, mas também é verdade que em certas latitudes já teve um papel revolucionário.
Assim, sou adepto de uma espécie de idealismo marxista (mas que grande confusão) que, em muitos aspectos, é agnóstico. E a verdade é que, desde tenra idade, olhei os azulejos relativos ao Calvário de Cristo que existem na Igreja de Ourém com grande respeito e admiração. Afinal o sacrifício real de Cristo foi bem superior ao de Marx. Julgo que não há o perigo de alguém no nosso concelho os (à Igreja e aos azulejos) querer destruir. Mas aqui fica o aviso e uma pequena mostra dos mesmos.

terça-feira, abril 13, 2004

Distintos Oureenses
Conheceram-me pouco depois de ter aparecido neste mundo. Jogámos à bola no magnífico Largo de Castela e na feira do mês. Disputámos corridas bem cronometradas no interior do belíssimo jardim junto da Câmara, já desaparecido. Esfolaram-me e foram esfolados ao King no Avenida e no Parque da vila. Enfrentaram-me ao bilhar no Central e no Grémio do Comércio. Tal como eu, esperaram pelo Mundo de Aventuras e pelo Condor Popular e, se eram bem comportados, chegaram a ler o Cavaleiro Andante. Tiveram o privilégio de ouvir os Animals, os Beatles, os Stones, os Bee Gees e os Moody Blues exactamente no momento em que as suas músicas surgiram. Acompanharam-me para quebrar a solidão nas noites de Ourém onde o maior ruído era o que provinha dos Mééé de inocentes carneirinhos ali para os lados da casa do sr. Lúcio.
Um deles, mesmo sem alguma vez conversarmos, teve influência decisiva na formação do meu pensamento. Elaborou cadernos de Política Económica Economia Política. Escreveu O que é o Mercado Comum que li com sofreguidão. O mesmo interesse manteve-se em O que é o Comecom. Colaborou no Notícias da Amadora com o Carvalhas, o Blasco, o Eugénio, quando escrever era um exercício de risco e aquele jornal formava com o Comércio do Funchal e o Jornal do Centro um bloco fortíssimo na ataque à ditadura e suas manifestações.
São estes os distintos oureenses. Distintos porque, por qualquer acção, ultrapassarm o limiar da indiferença na minha perspectiva. É deles que, muitas vezes, falo, é para eles que, muitas vezes, escrevo. É isso o que acontecerá em próximos posts.

sexta-feira, abril 09, 2004

Amigo maior que o pensamento
Finalmente, o nosso monolog tem som de fundo. Trata-se de uma música criada por alguém a quem a ditadura nunca conseguiu calar. Para a apreciarem, liguem as colunas do V. computador, deixem o download do JA1.mp3 chegar ao fim e admitam que o mundo pode ser um bocadito melhor.

segunda-feira, abril 05, 2004

Digitalizar os jornais de Ourém

Ao contrário do que parece acontecer com pessoas isoladas ou pequenos grupos, tarda a surgir, na Web, uma presença dos jornais da terra.
Eu julgo que um projecto de digitalização do seu arquivo teria muito interesse para todos os que quisessem saber o reflexo de certos acontecimentos em Ourém ao tempo a que se deram. Claro que isso implicaria um patrocínio com algum significado e uma mobilização de recursos relativamente volumosa. Mas para que servem a Câmara e os investidores da terra que poderiam encontrar aí um meio para o seu nome ser conhecido num espaço mais amplo?
Pessoalmente, proporia três modalidades de concretização distintas:
- um acesso a determinado número de um jornal que devolveria a sua imagem por exemplo em formato gráfico que poderia ser percorrida página a página;
- um acesso por tema que devolveria em texto, eventualmente reutilizável, uma lista das colaborações em determinado tema (por exemplo, o que se escreveu sobre o 25 de Abril) permitindo a sua consulta após escolha com o rato;
- um acesso por autor que devolveria em texto, também reutilizável, as colaborações de determinado autor, escolhido por exemplo de entre uma lista alfabética e que nos possibilitaria, ver tudo o que foi feito pelo Sérgio ou pelo Luís Nuno ou outro colaborador.
E pronto. Está definido o projecto, agora é mãos à obra.

domingo, abril 04, 2004

E, nesta data, Honra e Glória ao Gil Vicente que fez baixar a bola àqueles arrogantes!!!

Ó do Castelo
Eu também lá estava no 25 de Abril.
A participação foi muito humilde, mas serviu para ficar feliz da vida por uns tempos. Estava na Escola Prática de Administração Militar (EPAM) tinha concluído a especialidade e aguardava colocação noutra unidade como aspirante a oficial miliciano. Apesar do carácter ditatorial do regime, éramos uns senhores, pois deixavam-nos sair do quartel e vir dormir a casa. Comigo estavam muitos colegas de Económicas (o Albino, o Jorge (boisano), o Teixeira, o Angelo, o Gilberto e outros cujo nome não recordo). Não sabíamos de nada, quando acordei fui surpreendido pela rádio a anunciar o golpe e a dizer-nos para comparecermos no quartel. Lá fui com mil interrogações: seria um golpe da extrema direita de que tanto se falava?
No quartel sossegámos. Um oficial de alta patente informou-nos acerca das intenções e pediu a nossa participação. Deixou-nos a liberdade de sair ou ficar. Mais de 90% ficaram, dois ou três saíram. E começou a grande aventura. O boisano, tipo comando suicida, muniu-se de granadas à volta da cintura e foi dar uma ajuda para a RTP. A mim coube-me guardar os postos de sentinela da EPAM. Pela tarde começaram carros a passar com pessoas a saudar-nos e a fazer o V da vitória, lá mais para meio da tarde alguém gritava "ganhámos, ganhámos". Não ouvi um tiro, nem um insulto, só vi alegria nas pessoas. Pela noite, os dois ou três que tinham abandonado o quartel regressaram e foram recebidos com alegria. A vigilância ao quartel continuou. Mas logo nesse dia um camarada de armas me dizia que a revolução era uma coisa muito limitada, só iria trazer as liberdades formais. Mas eu não acreditava, sempre depositei muitas esperanças no Movimento, apesar de o primeiro contacto com a Junta de Salvação Nacional ter constituído um choque. Que faziam ali aqueles generais? As parecenças com a junta chilena fizeram-me pensar o pior o que felizmente não veio a verificar-se.
Ficámos fechados no quartel uns três ou quatro dias. Eu comecei a preocupar-me, a Ana estava quase a nascer e o comando revolucionário permitiu-me ir a casa. Fiquei extasiado com as manifestações que vi na rua e a que antes nunca tinha assistido, porque era sempre fugir à frente da polícia.
A festa durou mais perto de ano e meio. Estive lá no 28 de Setembro e no 11 de Março. Tive sempre a sensação de estar muito perto do poder. Na altura, desculpem-me que o diga, embirrava com os nove, gostava de Otelo. Mas o meu temperamento hesitante fazia-me sempre admirar Vasco Gonçalves, apesar de não gostar do PCP.
Pouco a pouco, fui vendo as pessoas cansarem-se da revolução, exigirem o regresso dos militares aos quartéis. Mas por que nos estavam a fazer aquilo, se nós só queríamos o melhor para elas? Vieram as eleições. O PS venceu e quando eu pensava que uma aliança com o PCP era o mais natural teimou em governar sozinho ou em aliar-se à direita. Uma coisa que nunca consegui perceber é porque é que o PS e o PCP nunca se entenderam para formar governo. A verdade é que, olhando hoje para as sociedades que seguiram o modelo de desenvolvimento soviético, confesso que não gostava nada daquilo. Mas o cinismo da sociedade burguesa é tão limitador, porquê ficar sujeito a estas opções?
No 25 de Novembro já tinha abandonado a vida militar. Vi de fora, com alguma tristeza, o desmoronar de um sonho em que procurava uma sociedade onde não existisse a exploração do homem pelo homem.
Mas ficou a liberdade formal. Antes não podia falar porque corria o risco de ser preso, agora posso gritar à vontade que ninguém me liga.

sábado, abril 03, 2004



Perdoem o plágio
Por acaso se há argumento que me arrepie é esse "Mas para que é que querem árvores nas praças da cidade se temos tanto pinhal à volta".

E quem diria melhor?


sexta-feira, abril 02, 2004

Alegrem-se. Vêm aí o 25 de Abril
Daqui saudamos o forum O Gaiteiro e o blog O Castelo vai nu com os quais só hoje contactámos, mas que já vimos ter um link na nossa direcção.
Gostámos do que lemos, embora alguns termos usados no Gaiteiro choquem o mais avisado. Excessos de juventude... Esperemos que, independentemente da forma, façam um bom trabalho pela terra.
Entretanto, serve este para dizer que o Governo não caiu, mas estamos muito contentes. É que pela primeira vez fizemos uma pesquisa no google com palavras deste blog e ele foi encontrado. Sensacional. Durante meses tentámos e nunca conseguimos.
Agora, vamos procurar encontrar forças para continuar ou fazer algo para finalizar.

sábado, setembro 06, 2003

Mas por que acabam as férias?
E cá estamos de novo...
Nós próximos dias, introduziremos mais texto neste blog agora que terminou esse magnífico período de descanso.
Este ano, mais uma vez, como é tradição de há quinze para cá, lá fomos até Cabanas, terra de mau cheiro, sem passeios para peões, onde alguns restaurantes se dão ao luxo de não servir clientes quando estão completamente vazios embora com as mesas marcadas. Esta é uma daquelas terras que um ano deveria ser boicotada até ficar em condições de receber bem quem a visita...
Mas o fascínio que exerce, faz com que deseje sempre voltar...

segunda-feira, agosto 18, 2003

Visado pela Comissão de Censura
Alguns artigos destinados ao Notícias de Ourém e ao Ourém e seu Concelho tiveram problemas com a censura. Aqui reproduzimos alguns dos que terão contribuído mais para as dificuldades dos que planeavam esses jornais.
O primeiro deles, A verdade da Ciência, é uma descrição de transformações ocorridas no meio universitário em finais dos anos sessenta início de setenta. Estou ainda a ver o Eduardo Graça a levantar-se no meio de uma sala cheia de estudantes atentos e a interpelar o sábio de momento. Recordo a luta imensa do Félix Ribeiro, do Ferro Rodrigues e de outros cujos nomes o esquecimento já levou para a transformação do ensino em Económicas numa altura em que era frequentemente visitada pelas forças da repressão.
A Faca e o Bolo é o modo como mais gosto de analisar a inflação: uma luta entre dois grupos sociais para se apossarem de uma fatia maior de um produto real que só pode pode aumentar pelo trabalho e não pela expressão monetária. Este artigo foi mesmo cortado pela comissão de censura vindo a ser publicado no Notícias de Ourém pouco depois do 25 de Abril.
Também escrevi algo sobre a situação política internacional, onde o socialismo, a ameaça de guerra nuclear e outros temas ofereciam perspectivas de reflexão.Uma das que me impressionou mais foi o exemplo do Chile. Apesar de não acreditar muito no socialismo em liberdade, tinha a secreta esperança… Tudo se veio a desmoronar com o canalha do Pinochet. Agora estou convencido que não podemos enveredar por este tipo de processos sem que exista um grande enriquecimento cultural entre as massas populares: provou-o o Chile, provou-o Portugal onde felizmente o contragolpe não foi tão violento. E depois de tudo aquilo, como me custou, quando estava na tropa e comentava o acontecido com o mancebo Amorim, algum tempo depois um militante trotskista, ouvir da boca dele: o que se passou no Chile foi uma miserável traição…
Termino com um artigo que nem viu a luz do dia em qualquer dos jornais da terra. Já não me lembro porquê. Também já não recordo os fundamentos do artigo embora reveja nele as paredes de Mafra e o magnífico retorno da semana de campo quando estávamos na EPAM e o 25 de Abril se avizinhava. Eu cantava, o Boisano dava o tom, o Sílvio era o político que sabia de tudo, estava também lá o Reis do futuro PS, o grande amigo Albino…

A verdade da ciência
Os sábios manifestavam-se por cima de um estrado desenhando estranhos arabescos numa pedra escura e ai daqueles que manifestassem qualquer dúvida pois logo encontrariam uma razão para o pôr na rua e tomar de ponta como se dizia na gíria onde o chumbo era o pra-to numero um e o terror dos condenados à situação de ouvintes classificados de bons e maus melhores e piores o que contribuía para os isolar mais uns dos outros guardando só para si as descobertas que as suas mentes opacas conseguiam atingir para no final mostrarem as habilidades esquecidas logo que passassem as grandes provas mas era assim que os sábios queriam desejosos de encontrarem entre a carneirada o sucessor directo da imagem e posição.
Um dia alguém ousou manifestar-se e foi o fim. O sábio logo o quis pôr na rua mas outros lhe seguiam as pisadas afirmando não quererem mais individualismo não acreditarem em verdades eternas a que só ele teria acesso odiarem o marranço quererem participar transformando aquelas sessões numa discussão onde o sábio seria orientador e eles participantes na busca da verdade pois esta não basta ser enunciada tem de ser demonstrada e discutida.
Foi assim que a terra passou a girar em torno de si própria e o sol se transformou numa estrela com movimento aparente.
Mas não se ficou por ai.
Os estudiosos de isolados reuniram-se em grupos transmitiram uns aos outros os conhecimentos granjeados discutiam entre si o que hoje era uma verdade cientes que amanhã ela se transformaria na discussão com outros grupos das conclusões atingidas.
E os sábios.
Pois os sábios de início desorientados a breve trecho com-preenderam estarem perante uma verdade desconhecida e sentiram que traçando directi-vas aos menos experimentados os seus esforços eram bem mais compensados pela alegria posta no trabalho e pelos seus resultados bem mais profícuos muito embora imensas vezes tivessem de descer do pedestal para aceitar conclusões melhor formuladas as quais em última análise contribuíam para aprenderem bastante mais.
Não terá sido tão fácil como se conta mas foram anos bem proveitosos para quem os viveu transmissores de um potencial critico que a carneirada nunca alcançaria.
L V

A FAcA e o BOLO
Ei-los prontos à repartição.
São dois homens: um produziu o bolo, o outro encomendou-lho.
As condições-em-que são sociais e pré-estabelecidas.
Mas para a repartição ambos acordaram uma coisa - ela far-se-ia por uma relação entre preço e peso.
o passado ensinou-os: aquele bolo que pesa 1 kg vale 2$00.
Qualquer deles precisa de parte do bolo, um para subsistir, outro para subsistir e mandar fazer outros bolos.
o primeiro pelo seu trabalho recebeu 1$00: por isso teve direito a metade do bolo.
Ei-lo que agora se dirige ao segundo para receber a sua parte.
Mas tem uma surpresa, o bolo já não custa 2$00 mas sim 3$00.
o seu espanto cresce ao mandar pesar o bolo: ele tem apenas l kg.
Resigna-se e leva para casa 1/3 do bolo.
Durante a noite matuta: como é possível que o seu trabalho valha menos que antes se o esforço foi o mesmo.
o cansaço apesar de tudo deixa-o vislumbrar uma saída.
E no próximo dia quando fez novo contrato já não quis um escudo mas sim dois.
E que esse dinheiro representa a divida que a sociedade tem perante ele, perante o seu trabalho; ela deverá ser paga com parte da riqueza que produziu.
A outra parte perante a alternativa de ganhar algo ou não ganhar nada acedeu.
Pagar-lhe-ia dois escudos pelo trabalho que ele incorporaria no bolo.
E este surgiu.
Pesava exactamente o mesmo, tinha o mesmo aspecto, forma e essência.
o dia da repartição.
Com Os seus 2$00, o-que-produziu-o-bolo dirigiu-se ao que lho encomendou.
Espanto!
O bolo já ndo custava 2$00 mas sim 6$00.
Tudo o mais era igual.
Ele desesperou: como era possível que recebesse mais e recebesse menos?
A noite pensaria no assunto.
Mas será que compreenderia que a sua parte não mudaria enquan-to o outro tivesse a faca e o... bolo na mão?
Mistério: porque sobem os preços?

NOTA Este artigo esteve para ser publicado no número 1920 de 12-5-73. Todavia, motivos de Censura impediram que, nessa data, viesse a público.

MURUROA
Apesar de toda a repulsa manifestada pela opinião pública, a França realizou mais uma experiência nuclear no Pacífico.
As suas elites defendem-na jogando com as necessidades de defesa e da construção de uma grande nação. A verdade é que há mais um candidato. ao rol das superpotências imperialistas.
Alguns jornais de direita classificaram os protestos de hipocrisia. O partido revisionista francês deu-lhes o Seu apoio verbal - mas uma vez no poder faria o mesmo.. Pois não segue ele as concepções de Brezner que foi há pouco aos Estados Unidos discutir a partilha das zonas de influência?
A paz nunca se construirá pelo medo, mas pela destruição das causas da guerra. Que são, no fim de contas, a exploração do homem pelo homem e de uma nação por outra.
De quem tem medo a classe dominante francesa? Pois dos países que explora, bem como dos seus operários em quem penetra a chama socialista. É contra eles que se constrói a bomba.
LV

Os dissuasores
Na cena política mundial, a China e a França resolveram assumir um novo papel. Assim enquanto as imperialistas dos Estados Unidos e os social - imperialistas (*) da União Soviética resolveram fazer um acordo para limitar as armas nucleares porque as que têm já lhes dão para se derreterem e derreterem os outros, o realismo daquelas duas potências levou-as a prosseguir a carreira por eles iniciada, argumentando pretenderem com isso dissuadir os grandes em relação à utilização de tão condenáveis instrumentos.
É como quem diz: se há fogo na floresta, deitem-lhe mais mato, porque arde mais depressa.
Aqui fica a questão: será que tal política vem impedir ou acelerar uma guerra nuclear?

(*): Social-imperialismo= socialismo nas palavras, imperialismo nos actos
LV

Olhos postos no Chile
O Chile é, por agora, um caso único na construção da sociedade
socialista, porque assenta na legalidade constituída. Uma coligação de forças socialistas conseguiu pacificamente atingir o poder e dar os pri-meiros passos para a sociedade nova. Os obstáculos são múltiplos desde o imperialismo norte-americano às forças reaccionárias nacionais
que, naturalmente, sentindo-se lesadas, impõem os maiores entraves, aproveitando toda a possível margem de manobra.
Algumas medidas de nacionalização e racionamento foram largamente contestadas. Os Estados Unidos que durante décadas sugaram os rendimentos do povo chileno, tentaram por todos os meios impedir a eleição do presidente Allende e posteriormente moveram um boicote formidável ao desenvolvimento da economia. As classes antes privilegiadas vieram bramar contra o racionamento tentando confundir o povo chileno, senhor de novas condições de vida, em relação aos seus verdadeiros interesses. Não querem deixar compreender que a escassez determina tal facto quando se pretende a igualdade.
Apesar do seu carácter, pequeno burguês e como tentativa de transição pacífica, para o povo chileno vai o nosso calor. Parece que uma revolta militar estalou, que o futuro não será tão brilhante como
o prometido, mas se não houvesse problemas resolver ninguém o tentaria. O que interessa é pelo menos o gérmen estar lá e lá permanecer, desenvolvendo-se.

A morte de Salvador Allende
O Chile caiu sob o jugo do fascismo. As forças reaccionárias que, sob a tutela dos Estados Unidos, tomaram ilegal e violentamente o poder, causando mais de um milhar de mor-tos, não tardaram muito a afirmar que o povo chileno estava farto da liberdade política. Por isso, vai de lhe oferecer a ditadura dos monopólios que o presidente sempre combatera e acabaria por o derrubar.
Sobre esse homem notável alguém disse: foi um político honesto, um marxista convicto e um homem integralmente bondoso.
Que o seu exemplo e os seus erros sirvam a todos os que se batem pela felicidade e libertação dos povos.
LV

A vi(o)la da loucura
Praguejante a viola ouvir-se-ia em toda a vila contando da tensão das vidas dos que nela se empenhavam (e não eram poucos admitindo estarem neles também os que a escutavam) não fossem as conventuais paredes brancas abertas ao meio por quebras que as separavam de outras iguais (vidas) numa simetria rígida que só as consciências de tão desiguais podiam quebrar apesar do empenhamento entendido como meio de chacota, libertação, frustração…
Viola, ó vila, ouvi-la.
Os corpos, sequestrados e doridos, lançavam para o ar o que no passado aprenderam por no presente o interesse ser reduzido, testemunho da sua aversão às novidades oferecidas as quais contudo os dominavam numa inutilidade só aparente para alguns e bem real para todos os outros que eram os que lá estavam por conta desses, violando na vila sem ouvi-la, lá onde as paredes eram mais grossas e vigiadas por gendarmes cuja missão era não deixar entrar ou sair sem todos os preceitos bem dedilhados agora em cordas que não se partiriam a não ser por revoltosos e vitoriosos.

Não há machado que corte
a raiz ao pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre…


Libertas, as vozes conduziam sonâmbulos para mundos bem diferentes cujos povos eram a antítese daquilo que eles eram, povos que paz-avam, onde a rádio quase diariamente diria "Rebentou a paz" e as crianças brincariam não com pistolas e tanques mas trocando frases de amor que, num Natal que só não se comemorava a 25 do 12, os pais lhes ofereceriam.
Tristes viram então: só rebenta a paz onde haja a guerra.
E a minha voz bem real trouxe-os ao momento que todos queríamos abandonar: "está na hora".
Fomos em direcção ao presente.
LV

segunda-feira, agosto 11, 2003

E nesta data começam os problemas. Os erros de archive sucedem-se. Parece que já não tenho mais espaço para guardar esta obra-prima. É sempre assim com os maganos da informática: ao princípio, prometem tudo, depois,quando já estamos habituados e pensamos que vamos em velocidade de cruzeiro, entalam-nos.
Qui mais mírá mi acontecer-mi????
As redacções da Guidinha
Por aquela altura, tornaram-se célebres textos sem pontuação, publicados no Diário de Lisboa e conhecidos como redacções da Guidinha. Já não me lembro o que me deu para reproduzir a ideia no «Notícias de Ourém» e no «Ourém e seu Concelho». O certo é que bombardeei os leitores com alguns textos do mesmo género, que reflectiam algumas das minhas preocupações do momento, mas que, confesso, agora tenho alguma dificuldade em justificar.
Também é de acreditar que o facto de estar a cumprir serviço militar me tivesse criado a necessidade de tudo ser mais obscuro. Aliás, um dos textos, «Os Abutres» é um relato da instrução militar que fazia em Mafra e das paragens para descanso e "matar o bicho" que nos eram concedidas.
Confesso que tive um serviço militar que se pode considerar uma maravilha. Na instrução, com imenso receio, tive a sorte de calhar com um instrutor bem formado detentor de grande respeito por todos os elementos do pelotão. Na especialidade, mais tranquilo, começámos a sentir os cheirinhos que a revolução do 25 de Abril nos enviava: tal ocorreu na semana de campo e em muitos contactos com colegas e militares mais graduados. Depois, foi o magnífico período da revolução onde tive a sorte de participar e de viver praticamente até ao famigerado 25 de Novembro que transformou a revolução popular em revolução democrática, isto é, em algo, que dando alguma voz aos explorados e oprimidos, permitia a sua exploração pela classe detentora dos meios de produção.
Se "Os Abutres" é o caso mais explícito, para os outros textos não consigo mesmo qualquer justificação, sendo que num deles existe uma referência a avisos que lia no Notícias de Ourém quando algum texto era mais forte, «Cuidado com o fogo», e outro é uma recordação dos vendedores da banha da cobra na feira nova que se realizava no largo da feira do mês, junto à casa do Sr. Manuel Raul, pai do Cúrdia, em tempos de meninice…

O charlatão da feira nova
o charlatão chegou à cidade com os mesmos produtos rótulos diferentes tentando impingi-los mais uma vez ao povo que estava farto deles mas sempre que o via subir para cima duma banca se aglomerava em seu torno dando aso a que ele tecesse todo o elogio que a sua mente de crocodilo habilmente preparara ao longo de tantas sessões de treino de que aquela era mais uma elogio que tinha o condão de tocar os pontos vitais integrantes do desejo e você leva mais uma pelo mesmo preço da anterior além do sabonete aqui tem a esferográfica não costuma escrever a namorada (?) agora vejam este magnífico detector de bombas que os árabes mandam em cartas aos judeus tenham cuidado pois podem ter tido um parente judeu e os agressores árabes não perdoam como o prova o dayan ter um olho tapado e o henrique não sei quantos ter sido assassinado por um fanático- vocês levam ainda um magnifico televisor para assistir aos belos filmes que a televisão dá toda impregnada de teatro popular música popular anúncios populares os meus produtos são muito melhores que os que ela anuncia não preciso de um teleganhando para os meter na cabeça de quem me ouve e se alguém houver que queira reclamar pois eu devolvo todo o dinheiro o senhor está aí a fazer barulho tome lá todo o seu dinheiro leve tudo o que lhe dei para casa - e em voz baixa os patos estão a cair - já tenho todos os produtos vendidos mas na próxima feira trago mais muitos mais para este povo maravilhoso que tão bem me soube receber mais uma vez.
L V.

O Encontro
na cidade reuniram-se industriais bairristas cidadãs aenepistas oposicionistas camponeses campistas a erretêpê charlatões latifundiários poetas reaccionários reformistas revolucionários capas para dar às suas vidas um bocado de interesse que andava muito por baixo dados os maus programas que a televisão transmitia para povo ver o qual faltou ao encontro mas mandou alguns representantes os que tinham mais interesse em representar o povo feito de trabalhadores embebidos em emplastre de álcool e inconsciência que fez do encontro um falhanço espectacular pois cada um foi para o café que já conhecia trancou-o com cilindros de ferro e não deixou entrar mais ninguém a não ser no final tal e qual no género dos banquetes que se fazem e cujas recei-tas são destinadas aos pobres os quais no entanto não ficam com a pança cheia que isto de ser poeta com a pança va-zia não dá nada e a cabeça ficava fraquinha sem poder pensar em novas lucubrações e em novos banquetes que a televisão transmitiria para abrir o apetite aos que em casa só tinham côdeas mas na etiópia nem isso tinham pois só numa semana morreram 10.000 ficando durante dias às moscas algum tempo depois de os estados unidos e união soviética terem vendido mais uns quilos de armas a árabes e judeus que se fartaram de matar-se mutuamente enquanto os outros se riam como uns perdidos consolidando as suas posições junto aos poços de petróleo os desinteressados os tais da paz mundial e da redução das armas nucleares.
L V.

QUEDA NO ABISMO
A folha de papel totalmente em branco, num branco que Se destruía enquanto a preenchia, recordava-me as palavras de Zaratustra que ontem li e me disseram «o homem é um abismo entre o macaco e o super-homem».
Também ela era um abismo dada a incapacidade para exprimir qualquer coisa, um abismo no qual se afundam ideias muitas vezes condenadas ao es-quecimento por parte daqueles a quem se dirigem se bem que em determina-do momento se possam considerar agressivas e avisem «cuidado com o fogo» pois a avó é uma instituição que quase desapareceu do seio da família.
Na sexta-feira estive com uma avó e com o ente que lhe dava sentido, brinquei, ouvi-os «que estás a fazer?», «um cão», «não há cães encarnados», «mas os índios são encarnados, «os índios não são cães», «mas há cães índios'.
Não fosse a prevenção da avó e o mas bem explícito da criança e eu julgar-me-ia regressado da colonização americana, onde os direitos dos povos Índios foram sempre espezinhados numa eficácia de tal ordem que hoje se podem considerar como desaparecidos na totalidade à parte os que se disfarçam para turista ver ou para a erretêpê transmitir sem o mínimo respeito pela verdade da sua história.
Para todos nós o super-homem ain-da está demasiado longe.
L V.

Os ABUTRES
estavam por trás do muro oferecendo o que tinham para vender numa ânsia que lhes arregalava os olhos não os deixando pensar em porque estariam ali onde seres esfomeados e necessitados de humanidade procuravam pão e algo como o leite materno para se alimentarem e continuarem numa senda repetitiva que faria voltar os abutres já que o negocio era fabuloso e eles teriam assim forma de encontrar na cidade os géneros que necessitavam para a sua auto-subsistência muito embora maldissessem os impostos que pagavam percebendo que eram para obras colectivas e não das prontas só para eles seres cujos filhos também iam a escola talvez de mà vontade ansiando pela liberdade de se tornarem úteis e servirem um povo sofredor e amante do traba1lho produtivo para assim poderem estar participando na repartição do bolo.
eram dez minutos e o seu decorrer cheio de palavrões e boca cheia saltitando de vala em vala do muro para ali dali para o muro onde estavam os pães as bebidas e tudo o mais que o esfomeado consumiria pensando estar a fazer algo pelo seu corpo para desenvolver uma formidável musculatura enquanto os olhos arregalados e as vozes li-vres os procuravam numa con-fluência. de fins que se materia-lizava no exposto.
o dinheiro brilhou e à falta de trocos uma carteira de fósforos serve para aumentar o negócio.
o abutre tinha na realidade algo de estranho.
L. V.

quarta-feira, agosto 06, 2003

Um verdadeiro tiro no pé…
Foi o que me aconteceu com a história do Castelo dos Sonhadores. Afinal eu até gostava do castelo (vivi numa casa parecida com um castelinho à entrada da rua de Castela) e achava um piadão à terra ali entalada entre o castelo e os moinhos. Mas as lamúrias constantes nos jornais da terra irritavam-me solenemente. Então, um ente superior como eu,um marxista-leninista dos puros, tolerava aquelas coisas execráveis????.
É claro que levei tareia até dizer chega. Aos poucos tentei recuperar e a bondade dos meus adversários que viram nas minhas palavras a irreverência da juventude ou sonhos utópicos permitiu-me sair da crise. Mas o Postigo de Alberto Pinheiro não merecia ser tão maltratado como eu o fiz e, afinal,o UM OURIENSE até tinha alguma razão.
Aqui fica a história quase toda. Já não sei é como começou…
LV


O Castelo dos Sonhadores
Com mais EoIo menos Hades, mais escaravelho menos abelha, os nossos cronistas provincianos vão desviando as atenções do povo ouriense para os restos de umas muralhas sitas na antiga vila.
É lastimável!
Pois será esse o único problema que afecta (?) os trabalhadores da nossa terra e havendo outros será ele prioritário?
Sinceramente, estão a tomar-se enfadonhos. Por acaso ainda não viram que as "entidades competentes" a quem esmolam ajudas ou me-didas se estão nas tintas?
Não viram o fluxo emigrat6rio?
Não viram o abandono dos campos?
Não viram o atraso industrial?
Não viram a necessidade de cooperativas?
Não viram a exploração da criança?
A escravização da mulher...
As cadeias dos trabalhadores...
O racismo nos Estados Unidos...
A transição para o socialismo!
Não viram nada, mesmo nada?
Por favor, senhores sonhadores, acordem. De contrário, enquanto vão vociferando sobre o castelo, o mundo ultrapassa-os e só lhes resta um tiro nos miolos.

LV

Coisas do Nosso Tempo…
Enquanto houver dois homens, terá de haver opositores, visões diferentes, caminhos diferentes. . e tantas, tantas diferenças e critérios, quantos os homens, afinal de contas.
E não vamos condenar nem pretos nem brancos, nem gregos nem troianos, já para respeitar direitos que todos têm, apenas sujeitos às normas duma ética justa, já para podermos admirar a policromia humana, cujos tons inspiram poe-tas e sonhadores.
Pois é verdade, «UM OURIENSE» admite ser apelidado de «sonhador dos castelos», e confessa que felizmente não é o castelo de Ourém, nem problema e muito menus o único problema deste concelho, como também admite e verifi-ca com tristeza que não é com duas penadas que alguém se arvora em salvador ou mentor infalível dos destinos dum concelho.
Já sabemos que para os europeus os africanos são pretos e, vice-versa, para os africanos os europeus são brancos; mas também sabemos que cada um é o que é e tem valor no seu ser, relativo sim, mas real. Ambos vêem, ambos sentem, e ambos reagem a seu modo, mas validamente. Provincianos ou alfacinhas, serranos ou campesinos, todos têm direi-to a sentir, a amar e a sonhar. Uns sonham com castelos e outros fazem caste-los no ar; uns sonham com as grande-zas do passado e outros com as utopias do futuro.
Uma coisa, porém, é certa, em todos os tempos e hoje mais que nunca, e em todos os lugares sempre os homens, na impossibilidade talvez de ver o futuro, se voltam para o passado, admiram as suas obras e guardam ciosos os seus valores. Na sua ânsia de desvendar o pas-sado percorreu-se séculos já vividos, re-cua-se em anos aos milhares e até aos mi1hões, revolve-se a terra, põem-se a descoberto ossadas, túmulos, grandes necrópoles, cidades e civilizações, joei-ram-se poeiras, entulhos, enriquece-se a hist6ria e a ciência, e não vamos conde-nar tais iniciativas porque há doenças a tratar, caminhos a abrir, escolas a cons-truir e crianças a educar, ou porque há correntes a enfrentar, ventos a soprar em rajadas ciclónicas ou em pachorren-tas brisas, ou ainda porque há couves a plantar!
Não, caro amigo! Não! As pedras sa-gradas do nosso castelo de Ourém, as suas torres altaneiras e os seus pergami-nhos da mais antiga nobreza, nem im-pedem a marcha ao progresso do nosso concelho, talvez pelo contrário a ajudem, nem tiram a importância aos problemas que afectam os nossos tempos, e nem os resolvem ou impedem a sua solução.
Que tem que ver o nosso desprezado e pacato castelo com o racismo dos Es-tados Unidos ou com os socialismos co-loridos dos nossos dias? Ou, que relação e influencia teria esse vetusto castelo, reparado ou par reparar, no fenómeno universal das migrações, na montagem dos grandes impérios comerciais ou indus-triais, ou no abandono dos campos que hoje se processa?
Apenas parece que o desprezo votado ao castelo de Ourém prefigura o aban-dono dos vastos campos que o rodeiam, desde o extremo norte da Freixianda ao fundo Sul da Serra de Aire.
Então a exploração da criança - diga-mos antes matança tão criminosa como generalizada e até legalizada em tantas paragens, ditas progressivas, do mundo, e a escravização da mulher - digamos antes destruição do seu destino e dos seus valores femininos que a própria natureza, pródiga como o seu Criador, lhe conferiu, - são problemas, são males que se remediariam, se o castelo de Ourém, não fosse restaurado?
Se é o caso, provem-no, que eu sou o primeiro a pegar na picareta e a desfazê-lo pela raiz, apesar de sonhar com castelos, cujas muralhas se situam na «antiga Vila».
Para tanto não são precisos «tiros nos miolos», pois o Castelo, pobre e velho, nem já miolos tem. Tiros, sim! Eles que venham para acordar e fazer surgir quem jaz na sombra da morte: o castelo e aqueles que o mataram ou não querem que ressuscite.
Se quem não ama permanece na morte, e a palavra é inspirada, parece que permanecem na morte os ourienses que não amam o seu castelo; por isso precisam de acordar. Tiros que acordem, é que são precisos. Que façam ressuscitar o que está sepultado há séculos e que enriqueceria o presente de hoje e o de amanhã. Esses que são precisos! Que venham.
UM OURIENSE


O Meu Postigo
Por Alberto Pinheiro

Dois artigos publicados no "Notícias de Ourém"1 "o crime do Castelo de Aurém" e "o Castelo dos Sonhadores", posso entendê-los como discordantes da análise histórica respeitante a Ourém que costumo fazer, na imprensa local. O primeiro não merece qualquer apreciação dada a sua forma irónica e descabida de comentar o assunto, mas o segundo, confesso, presto-lhe atenção dada a franqueza da opinião exposta e a simpatia que me merecem as pessoas que aparecem cara a cara a dizer o que pensam, pois essa atitude os concilia com a minha maneira de ser.
As considerações que vou expor não se dirigem exclusivamente ao autor do artigo em referencia.
Existem também aquelas pessoas que são de opinião diferente e me têm felicitado por eu diligenciar expurgar da história de Ourém, as lendas, as confusões e os erros de que está inquinada.
Tenho muita admiração pelos jovens com personalidade e que consoante as suas ideologias
lutam pelo futuro que melhor satisfaça os anseios de valorização das suas qualidades e virtudes sem condicionalismos que molestem a sua dignidade.
Creio que não existem sociedades perfeitas mas é certamente possível, limar arestas para que as desiguladades sociais não sejam tão chocantes como as que a cada passo se observam, e tendem a desenvolver-se em ambiente favorável.
Sigo os seus passos, embora um pouco atrasado.
A minha idade não me permite acompanhar a rapidez da sua marcha.
Mas não adormeci nem me deixei ultrapassar pela marcha do tempo, não corro portanto o risco de ter de "dar um tiro nos miolos".
Já um dia, num dos meus artigos sobre o Castelo de Ourém, esclareci que quando olhava aquele monte e aquele Castelo, o admirava como um símbolo de grandeza e como berço do concelho, ou antes, dum condado, que foi dos mais importantes e cobiçados do país.
O Castelo de Ourem para mim não é só um monumento histórico é também uma testemunha de acusação para os Ourienses que têm administrado o concelho e orientado o seu desenvolvimento, e lentamente o deixaram chegar à apagada de vil tristeza dos dias de hoje que por todo o lado se lamenta.
Houve desenvolvimento económico? Certamente que sim, mas, mais por iniciativa particular do que por diligência das autarquias locais.
Não veja pois o articulista que me critica qualquer adesão da minha parte com a organização social da época medieval.
Não posso à distância ver em pormenor ou analisar com segurança Os problemas Ourienses e não devo portanto criticá-los, sem me sujeitar a ser injusto:
A critica tem de ser serena fria e objectiva.
Envolvo quase sempre as pessoas que por negligência incapacidade ou muitas outras razões,
não procederam como em nossa opinião deviam ter procedido.
Essa crítica para ser honesta e construtiva tem de alicerçar-se em factos devidamente com-6vados. Fazer o contrário é ofender a dignidade das pessoas comprometidas e a própria dignidade do crítico.
Para aqueles que vivem mais perto dos factos e Os conhecem na verdadeira dimensão, é mais fácil apreciá-1os e discuti-los apresentando mesmo sugestões válidas que contribuam para uma concre-tização satisfatória.
A noção da responsabilidade aliada ao bom senso leva-me na apreciação histórica do concelho dentro das minhas possibilidades, e mesmo al procuro abordar apenas Os assuntos para que me julgo
preparado e de bom grado aceito que me digam que estou errado e me demonstrem porque.
Agradar a todos creio não ser possível, nem aos génios, e não haverá portanto razão para me sentar à beira da estrada. Irei seguindo o meu caminho;

Lisboa, 25 de Outubro de 1975,


O postigo da História
Escreve: Luís Vieira

Em artigo publicado no 'Noticias de Ourém' metemos no mesmo saco "historiadores", palradores e sonhadores. 'Ores" que pela intensa actividade exercida entendemos estarem a conduzir o povo Ouriense para uma condição de alienado em relação ~s determinantes reais da existência.

A reacção a este artigo não se fez esperar. Todas as posições que encontram eco na nossa sinceridade tendem a afirmar-se quando combatidas e eis os seus portadores, com maior ou menor razão, bramando contra o cretino que faz da Hist6ria uma coisa a construir e não um altar a adorar.

Em artigo que enviámos ao "Notícias de Ourem" definimos a nossa posição em relação ao assunto. Não valera a pena repetirmos o que então dissemos porque nada acrescentaria a matéria em discussão. Mas eis que surge em cena um novo ofendido, um homem cuja vida tem contribuído para "expurgar da história de Ourém, as lendas, as confusões e os erros de que está inquinada" e que considera o "Castelo dos Sondadores" como "discordante da análise histórica respeitante a Ourém" que costuma fazer.

Evidentemente, o "Castelo dos Sonhadores" nada tem a ver com os que honestamente pro-curam conhecer o passado da nossa terra, ele é apenas uma critica aos que choramingam o passado esquecendo os problemas presentes, tentando transformar Ourém numa monarquia de sonhadores. E uma estatística a artigos dessa natureza provaria que quase de quinze em quinze dias aparecia uma aberração dessas ocupando um jornal quase por inteiro numa extensa e enfadonha lengalenga que, se os mortos lessem, faria levantar o D. Afonso-quaIquer-coisa da cova para lhes dar o destino que merecem numa lixeira.

Ora, a História não tem culpa nenhuma em ser tão maltratada e é por isso que não a conde-namos nem aos esforços que se façam para a c6nhecer. Desse modo, o que nos une a Alberto Pinheiro é bastante superior aquilo que nos separa. Os seus artigos permanecem imunes a critica que nós formu-lamos pois constituem um contributo válido para o domínio em causa. É evidente que nos estamos marimbando para que no tão falado e abandonado castelo tivesse vivido uma princesa Oureana, Pratiana ou lá como lhe quiserem chamar que era multo boazinha para o Zé. No entanto, já nos atrai saber que aquele Castelo foi dos mais importantes e cobiçados do Pais.

Importante porquê e cobiçado per quem?

Estas as interrogações que neste momento nos acodem e em certa medida podem abrir um capitulo das costumeiras paginas de Hist6ria:

Na realidade, o Castelo de tão concreto que parece é uma abstracção. É-o enquanto se esquece aqueles que o tornaram possível. aqueles que na sociedade medieval estavam envolvidos em re1ações de servidão, cujo trabalho era sugado pelos nobres que habitaram o Castelo à custa de uma precária protecção, e sem cuja existência era impossível a de todos os demais.

Mas se o estudo dessas relações é importante, também o é o das condições que as levaram a modificar-se e tornaram possível a marcha da História até aos nossos dias com todos os dissabores que a humanidade conhece.
Por tudo isto, pela sua necessidade e oportunidade afirmamos que Alberto Pinheiro deve seguir o seu caminho, continuar atento no seu postigo.

Lisboa, 10 de Novembro de 1975.

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