quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Pegar fogo ao palácio


Ensaio perante a corte Posted by Picasa

Em 8 de agosto de 1709, Bartolomeu realizou a primeira experiência com uso de um balão a ar quente, o Passarola. De repente, as exclamações. De um canto da sala ergue-se um pequeno balão de papel, em forma de pirâmide, com armação de arame e tendo um pequeno fogo dentro.

Bartolomeu olha com orgulho a sua obra, o primeiro aerostato que se construía no mundo. E o balão continua subindo, subindo. "Todos vão reconhecer o sucesso e poderei fazer aparelhos maiores, mais perfeitos, para transportar pessoas e cargas", pensa o padre, sorrindo de contentamento.

O balão subiu quatro metros, está quase a tocar no tecto. Então, num segundo, ouve-se uma ordem e dois lacaios derrubam-no, usando varapaus, enquanto os fidalgos riem da cena. Poderia ter queimado o tecto e as cortinas e começar um grande incêndio.

Todos se vão embora, achando muita graça do pequeno objecto voador. E aquele pobre maluco dizendo que seria capaz de guiá-lo! E fazer duzentas léguas por dia, levando gente, munições e víveres! No canto da sala, Bartolomeu Lourenço de Gusmão faz planos, muitos planos. Sempre auxiliado por seu irmão Alexandre, que se tornou conhecido nas lides diplomáticas europeias e especialmente como secretário particular do rei Dom João V, o principal cargo na política externa portuguesa.
O Padre Voador


Ensaio no Terreiro do Paço Posted by Picasa

Há relatos de uma experiência que foi feita no pátio da embaixada na Casa da Índia (castelo de São Jorge, em Lisboa), tendo o aparelho aterrado no Terreiro do Paço. Noutra, em outubro daquele ano, "o balão subiu novamente, mas foi de encontro a uma parede ou cimalha e incendiou-se igualmente", conforme o historiador Visconde de Taunay.
Ocorreu nova tentativa, em 1709, também na capital portuguesa, em que o balão, denominado Passarola, subiu quatro metros, considerando-se a experiência de êxito. A julgar pelos raros e imperfeitos desenhos que restaram, e pela parca documentação que sobreviveu ao grande terramoto de Lisboa em 1755, Bartolomeu de Gusmão estaria a bordo de seu aeróstato no momento em que ele subiu, tornando-se portanto o primeiro homem do mundo a elevar-se aos ares por meio de um balão.
João Torto da Triste Sorte


Um voo torto Posted by Picasa

João Almeida Torto era enfermeiro do hospital de Sto. António em Viseu, sendo também barbeiro com carta de sangrador, astrólogo e mestre de primeiras letras, sendo um personagem tão fanfarrão como audacioso. Anunciou publicamente que, a 20 de Junho de 1540, iria voar com asas da Torre da Sé ao campo de S. Mateus.
As asas eram de pano forte e duplo, duas de cada lado, sendo mais pequenas as asas inferiores, assemelhando-se às das aves. Estas duas asas estavam ligadas por três argolas de ferro, enchumaçadas com trapos, e era através delas que mestre Torto introduzia os braços. Além disso, o mecanismo estava ligado na parte superior por duas dobradiças de ferro e na parte inferior por um cinto de cabedal. Os sapatos eram de solas tríplices, com estrutura amortecedora, levando ainda um barrete em feitio de cabeça de pássaro.
No dia aprazado, era grande a assistência.
João Torto subiu à torre da Sé, içou o seu aparelho com a ajuda de uma corda e de lá se lançou. O voo correu bem até determinado ponto, mas, extemporaneamente, uma das asas deixou de funcionar e o barrete caiu-lhe sobre os olhos. Descreveu um arco descendente, caindo em pé na capela de S.Luís, mas logo dali caiu, ficando inanimado sobre as asas, em muito mau estado. Voltou a si duas horas depois, mas faleceu logo após. Não era ainda por esta via que o homem conquistaria o ar.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Dia dos namorados ao som do OUREM


... e com esta bela gravura roubada à Elvira

Já temos um servidor musical que está aqui.
Pouco a pouco, temos vindo a criar a nossa música, a fabulosa música do OUREM constituída por canções que muitos não ouviriam há mais de 30 anos.
Amigo oureense, comemore o dia de São VAlentim. Não apenas hoje, mas todos os dias, como é uso dizer-se. Relembre as músicas da sua juventude. Nós vamos trazê-las pouco a pouco. E já pode escolher entre as seguintes:
Oh LAdy! - Les chats sauvages
Le ciel est sibeau ce soir - Richard Anthonny
Letter to a LAdy - Spriguns
Romance do Lulu do INtendente - Luís Cília
I can't let MAggy go - Honeybus
Lonely, lost and sad - Sheiks
Le Penitencier - Johnny Halliday
Cântico para a namoradinha oureana

Amigos oureenses,
e qual de entre nós não teve uma namoradinha ou quase namoradinha em Ourém? Na Atouguia, em Peras Ruivas, em Caxarias, na Carapita, em Seiça, na Ramalheira...
Agora está tudo bem longe, mas eu proponho-vos esta homenagem virtual (que já senti quando aqui passei o “le ciel est si beau ce soir”).
Imaginemo-nos um coro tipo grupo coral alentejano. Eu estou em pé do lado esquerdo. Todos estamos com os nossos sombreros e de cajado na mão. O cão e o cordeiro não foram esquecidos para a cerimónia...
Elas estão do outro lado, lindas, de uma beleza deslumbrante. Nem me atrevo a pôr aqui os seus nomes.
Ouve-se maravilhosa música no ar. E cantamos... cantamos para elas, como verdadeiros barítonos:

She makes me laugh, she makes me cry
With a twinkle of her eye

CHORUS
She flies like a bird in the sky
She flies like a bird and I wish that she was mine
She flies like a bird oh me oh my
I see her sigh.
Now I know, I can't let Maggie go

We walk here, we walk there
People stop, and people stare

(Chorus x3)

Ooh
O maravilhoso mundo do Professor Ideias

Olho para trás e vejo que tudo mudou desde os tempos de infância onde a ingenuidade comandava a existência. Mas curiosamente muito do que é hoje realidade nesse tempo era apenas ideia. Vejam só...



Será que nenhum dos meus amigos viu esta interessante máquina sobrevoar os mares do Algarve? Eu juro que a vi passar em belo início de tarde onde desfrutava os prazeres do Sol e do mar?



E será que nunca depararam com o submarino fantástico?
Este eu não garanto que tenha visto. Mas lembra-me algo de curioso. Recordam a chegada a Leiria há uns trinta ou quarenta anos? Sim, ali frente ao Hotel Liz, no cruzamento, estava um polícia em cima de uma estrutura de madeira a comandar o trânsito. Acho que uma vez teve um destino semelhante ao desta história...



Entretanto, aqui para os meus lados, cada vez é mais difícil circular a pé. Os carros tomaram conta dos passeios e obrigam-nos a todos os malabarismos em termos de locomoção. Na rua Miguel Lupi, chega-se ao extremo de ser atribuído parte do passeio às embaixadas para estacionarem os seus pópós. De vez em quando dá-me cada vontade de levar comigo uma picareta. Razão tinha o Bob de Moor ao idealizar a cidade do futuro como aquela de onde desaparecia a circulação pedonal.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

O Romance do Pavão Misterioso

1
Eu vou contar uma história
De um pavão misterioso
Que levantou vôo na Grécia
Com um rapaz corajoso
Raptando uma condessa
Filha de um conde orgulhoso.

2
Residia na Turquia
Um viúvo capitalista
Pai de dois filhos solteiros
O mais velho João Batista
Então o filho mais novo
Se chamava Evangelista.

3
O velho turco era dono
Duma fábrica de tecidos
Com largas propriedades
Dinheiro e bens possuídos
Deu de herança a seus filhos
Porque eram bem unidos.

4
Depois que o velho morreu
Fizeram combinação
Porque o tal João Batista
Concordou com o seu irmão
E foram negociar
Na mais perfeita união.

5
Um dia João Batista
Pensou pela vaidade
E disse a Evangelista:
- Meu mano eu tenho vontade
de visitar o estrangeiro
se não te deixar saudade.

6
- Olha que nossa riqueza
se acha muito aumentada
e dessa nossa fortuna
ainda não gozei nada
portanto convém qu'eu passe
um ano em terra afastada.

Amigo oureense, continue a ler o sensacional poema "Romance do PAvão Misterioso" de JOÃO MELQUÍADES FERREIRA DA SILVA

domingo, fevereiro 12, 2006

Os deuses devem estar loucos

Será que os meus amigos viram a página 46 do suplemento do Expresso "Espaços & Casas"?
Sim, relativamente àquele espço público que se organizou de forma linear, intimamente relacionado com a fruição da água...
Segredo

Sei de um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

Miguel Torga, in Diário VIII
She flies like a bird

Bom, este não é o nome da canção, mas curiosamente é o que se retem melhor.
Tudo isto para dizer aos amigos oureenses que, esta semana, vamos ser acompanhados pelo som de "I can't let Maggy go" dos Honeybus, uma bonita canção já de uma fase em que Ourém era para mim saudade, mas que nem por isso deixa de merecer figurar no nosso album.
Quanto ao tema da semana...
... estão a ver... flies like a bird...
Não vamos falar de pássaros, pois não me lembro de nenhuma estória do João ou da Luzinha, mas podemos falar de coisas voadoras (entre as quais estarão os pássaros obviamente) e de outras estranhas inbenções.
Quer isto dizer que o mote vai-se fazendo de acordo com as conveniências e o material que surgir

Oiça "I can't let maggy go" - Honeybus


sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Fado perdição
Letra de Maria Duarte

Este amor não é um rio,
tem a vastidão do mar.
E a dança verde das ondas
soluça no meu olhar.

Tentei esquecer as palavras
nunca ditas entre nós
Mas pairam sobre o silêncio,
nas margens da nossa voz.

Tentei esquecer os teus olhos,
que não sabem ler nos meus.
Mas neles nasce alvorada,
que amanhece a terra e os céus.

Tentei esquecer o teu nome
arrancá-lo ao pensamento
Mas regressa a todo o instante
entrelaçado no vento.

Tentei ver a minha imagem,
mas foi a tua que vi
no meu espelho porque trago
os olhos cheios de ti.

Este amor não é um rio
Tem abismos como o mar.
E o manto negro das ondas
cobre-me de negro o olhar.

Oiça o Fado Perdição na voz de Cristina Branco


Ainda Lonely, Lost and Sad



Já faz um ano em 19 de MArço que, através da cooperação da Som da Tinta, tivemos acesso à letra da canção que nos tem acompanhado. Claro que a isso não é alheio o que o Sérgio aqui nos conta:
O muito esquecido Edmundo Silva é um velho amigo, e tem ligações indirectas a Ourém. É de Aljustrel, irmão da Odete que foi casada com o Aguinaldo filho, têm dois filhos - sou padrinho da Catarina! - por quem tenho muita ternura e amizade. No dia 28 (ou 29) de Abril de 1974, mal saído de Caxias, vim à boleia do Edmundo à Marinha Grande para estarmos com a Odete e o Aguinaldo, e arranquei com o carro destes para Ourém (era fatal!). Depois... bom, fica para depois...
Ourém, Ourém sempre como destino. E eu imagino, enquanto conduzia, o Edmundo a cantar:

My mother went out
In a cloudy rainy day
I'miserable, feel lousy
It's hard to say
Tell her, if you see her around
Tell her to come home some day

I still believe in the days to come
Without her can't believe in none
Tell her, if you see her around
Tell her to come home some day

I still do love her
Do want her again
Tell, tell mommy to come home, my friend

I'lonelly I'm lost I'm deeply sad
In my life never felt so bad
Tell her, if you see her around
Tell her to come home some day

Letra de : José Alberto Diogo
Música de : Luis Miguel de Oliveira

Oiça «Lonely, lost and sad»

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Sheiks


Quatro Sheiks Posted by Picasa

Como estavam novos!
Começaram por ser o Carlos, o Paulo, o Jorge e o Fernando. Depois, o Jorge saiu e entrou o Edmundo.
O sucesso foi tremendo.
Ao contrário de alguns rivais que faziam ekoar "esquece, esquece o que te fiz...", cantavam em inglês e instrumentalmente eram muito bons.
Lembro-me que, a propósito da utilização do inglês, um dia na rádio, ouvi um mimo destes: "Pois é, estes meninos poem-se a fazer versos noutra lingua que não conhecem bem e fazem erros de palmatória...".
Que erro era não sei. Julgo que era na canção que nos acompanha. O certo é que não fazia que ela soasse mal.
Os meus amigos encontram aqui uma panorâmica para os grupos desta época (elaborada por quem sabe destas coisas...). Perto de nós, os mais famosos terão sido os Corsários de Apolo, de Leiria, que nos proporcionaram deliciosas matinés dançantes no casino da Nazaré e, numa festa de finalistas no Liceu, uma recriação fabulosa do "My Bonnie" dos Beatles, sendo vocalista um dos nossos colegas, o Belmiro (no lugar do João Antunes)...
Pouco ou nada sei sobre o destino desta rapaziada. O Carlos ainda aparece com canções, o Paulo anda disfarçado de Doutor nas telenovelas da TVI e brindaram-nos durante anos, a solo, com excelentes criações (não devo aqui esquecer o Tordo que substituiu o CArlos na fase final dos Sheiks)... e com o adeus ao 24 de Abril.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Camilo


Camilo por Tossan Posted by Picasa

Nascido em Lisboa a 16 de Março de 1825, na freguesia dos Mártires, Camilo ficou órfão de mãe aos dois anos e de pai aos dez, passando a ser criado por uma tia e uma irmã. Aos 16 anos casou-se com Joaquina Pereira e, dois anos depois, em 1843, matricula-se na Faculdade de Medicina, porém, não conclui o curso. A partir de 1848, passa a viver do jornalismo e a freqüentar a boêmia.

Quando completa 21 anos, rapta Patrícia Emília e vai viver com ela na cidade do Porto. Logo depois é acusado e preso por bigamia. Depois de conseguir a liberdade, Camilo tem alguns amores passageiros até encontrar, por volta de 1856, Ana Plácido, a "mulher de sua vida". Essa nova relação amorosa, no entanto, não é nada tranqüila, uma vez que Ana é casada com Pinheiro Alves, um rico comerciante local.

Na impossibilidade de concretizar o seu amor, Camilo busca refúgio na religião e ingressa no Seminário do Porto, porém passa a ter um caso amoroso com a freira Isabel Cândida. Camilo permanece nesse seminário por dois anos e, depois de tentar o suicídio, consegue viver junto à sua amada, que abandona o marido para viver com o escritor. Logo depois o casal é preso pelo crime de adultério. Os dois são julgados, absolvidos e vão morar em Lisboa.

Camilo e Ana têm dois filhos com problemas de saúde e, por isso, enfrentam sérios problemas financeiros. Para garantir a sobrevivência da família, Camilo passa a escrever por encomenda, tornando-se o primeiro escritor português a viver exclusivamente da literatura. Em 1888 Ana e Camilo finalmente se casam. Ainda nesse ano o escritor começa a sentir os primeiros sintomas de cegueira, causada por uma sífilis crônica. Em 1890, a novela da vida de Camilo chega ao fim. Ele suicida-se com um tiro de pistola em 1º de junho.
Amor de Perdição - 2

Na nossa pesquisa na NET em torno desta obra, encontrámos coisas muito interessantes com que não contávamos: a sua edição digital integral pela Porto Editora, um documento de recensão de um sítio brasileiro e a biblioteca gráfica da Universidade do Minho.
Deixamos algumas dessas imagens, fazendo-as acompanhar de parte do texto resumo para celebrar a palavra que nos vem acompanhando desde este domingo.


Simão mata o seu rival Baltazar Posted by Picasa

Mariana, sabedora que Simão e Teresa não estavam conseguindo manter a comunicação, visto que Teresa estava sob rigorosa vigilância, resolve ajudar os amantes.
Mariana vai até o convento com a desculpa de visitar uma amiga. Sua ação é bem sucedida, a filha de João da Cruz consegue falar com Teresa e essa manda um recado a Simão. Nele a jovem fala de sua impossibilidade de escrever a Simão e que ela iria para um convento na cidade do Porto.
Simão ao tomar conhecimento dos fatos, fica furioso e, em um acesso incontido de raiva, decide tentar raptar Teresa de seu fatídico fim no convento.
O jovem defronta-se com Baltasar, na tentativa de resgatar a amada. Mesmo diante de várias testemunhas o jovem Simão atinge Baltasar com um tiro mortal.
Em meio à confusão surge João da Cruz que procura dar cobertura a fuga de Simão, contudo esse recusa-se a fugir entregando-se a prisão.
Simão é preso e condenado a morte. Porém, devido à interferência do corregedor Domingos Botelho, pai de Simão, a pena é convertida ao degredo nas Índias.


Teresa desfalece Posted by Picasa

Teresa começa a ter sua saúde abalada. Definha, cada vez mais triste e muito magoada, a linda fidalga parece ter perdido a vontade de viver. Seu fim aproxima-se, recusa-se a evitá-lo.


Simão morre no barco sob os olhos de Mariana Posted by Picasa

Ao embarcar rumo à Índia, Simão contempla Monchique e vê, pela última vez no mirante do convento, a mulher que fora responsável por tudo aquilo.
Também Teresa contempla o navio que levava seu amado. Logo após, Teresa morre. Simão, antes de seguir seu destino, toma conhecimento da morte de Teresa e, profundamente consternado e deprimido, segue rumo ao degredo.
Ainda, muito consternado ele guarda algumas cartas de Teresa, seu corpo vai sendo consumido pela morte.
Alguns dias após a viagem, Simão morre vitimado pela febre. Mariana não resistindo à perda do amado, rompe o silêncio com gritos que saem do mais fundo do seu coração. Quando percebe que seria impossível viver sem a presença de Simão, a filha do ferreiro entrega-se às revoltas águas do mar, as quais já haviam recebido o corpo de Simão.O suicídio de Mariana marca o fim da trágica história dos Botelhos e Albuquerque.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Amor de perdição


Teresa desespera Posted by Picasa

Era noite de quinta-feira. No velho cine-teatro, mais uma vez ia ter lugar a exibição do filme “Amor de Perdição” baseado no romance com o mesmo nome de Camilo. Os espectadores não se podiam queixar: ainda na semana anterior se tinham deliciado com a maravilhosa história de Sissi interpretada pela bela Romy Schneider.
Agora, com uma calma apenas aparente, o que disfarçava uma certa ansiedade, as damas, as meninas e as sopeiras encontravam os seus lugares na sala. Algumas iam cheias de lenços para carpir até ao infinito os amores não consumados a que estavam para assistir.
Ouve-se o sinal de início. As belas cortinas verdes são fechadas...
Tadeu de Albuquerque, pai de Teresa, quer que esta case com seu primo Baltazar Coutinho, intenção partilhada por este. Simão mata Baltazar, sentenciando a impossibilidade de reunião com a amada. Teresa vai para um convento e Simão é condenado ao exílio. Mariana, filha de João da Cruz, o ferreiro moralmente endividado com o magistrado Domingos Botelho, pai de Simão, devota-se a deste até ele morrer de doença e amor. Morto e atirado ao mar Simão, Mariana segue o destino do seu amado, levando com ela as cartas que ele trocara com Teresa...
Que desespero! Que maus eram aqueles pais...
Umas choram outras tentam disfarçar.
Foi mais uma noite dramática no cine-teatro da vila. A todos custa abandonar o lugar. Todos queriam que o desfecho fosse diferente. Por que seriam tão marcadas aquelas diferenciações sociais? Curiosamente não questionavam a diferenciação que ali se via: sopeiras na geral, meninas na plateia e balcão, damas no camarate, mas sim aquela que o filme lhes tinha trazido. É sempre mais fácil contestar a realidade encenada do que aquela que nos é dado viver...

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A canção da mulher perdida
A primeira vez que ouvi este fado foi na década de sessenta, na casa do Largo de Castela, interpretado pelo Carlos do Carmo. Na altura, embirrava um bocado com ele: voz lenta, compassada, profunda, a contrastar com os meus gostos do momento. O certo é que nunca consegui esquecer esta canção nem o Carlos que me acompanhou sempre um pouco de longe, mas a quem dedico todo o respeito que a sua figura merece.
Então, só para chatear os amigos do OUREM, aqui fica a letra...
VIELA
Letra de: Guilherme Pereira da Rosa
Música: Alfredo Marceneiro (Fado Cravo)

Fui de viela em viela
Numa delas, dei com ela
E quedei-me enfeitiçado...
Sob a luz dum candeeiro,
S’tava ali o fado inteiro,
Pois toda ela era fado.

Arvorei um ar gingão,
Um certo ar fadistão
Que qualquer homem assume.
Pois confesso que aguardei
Quando por ela passei
O convite do costume.

Em vez disso no entanto,
No seu rosto só vi pranto,
Só vi desgosto e descrença.
Fui-me embora amargurado
Era fado, mas o fado,
Não é sempre o que se pensa.

Ainda recordo agora
A visão, que ao ir-me embora
Guardei da mulher perdida.
Na pena que me desgarra
Só me lembra uma guitarra
A chorar penas da vida.


Eis uma versão por Marceneiro:
Amar!



Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

domingo, fevereiro 05, 2006

A morte de Camões


Fonte: Portal da História

Este desenho de Domingos Sequeira, um dos esboços conhecidos do quadro «A Morte de Camões» exposto no Salon de Paris de 1824 é uma descrição evidente dos primeiros versos da estância XXIII do poema de Almeida Garrett, Camões:

Oh! Consolar-me exclama e de mãos trémulas
A epístola fatal lhe cai: perdido
É tudo pois!
Erros meus, má fortuna, amor ardente

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

Luís de Camões

Também eu me perdi....



Em Leiria...
Mas não foi por aquilo que estão a pensar... desta vez...
Era a época de exames, já não me lembro se do segundo, se do quinto ano.
A deslocação de Ourém para o Liceu tinha tido o seu quê de histórico no célebre NSU Prinz do meu irmão de cor avermelhada, aquela mais perto da cor do palhete.
Lembro-me do Dr. Armando, no seu Peugeut, da Borda de Água, ali íamos todos à conquista de mais um grau.
Chegados ao velho Liceu, ultrapassados os procedimentos de estacionamento, começaram as provas.
A primeira decorreu normalmente. Depois, houve um pequeno intervalo e aproveitámos para relaxar e outras coisas que todos conhecem, tanto mais em ambiente de nervos.
Tocou a campainha, tentei voltar para a sala e apercebi-me que não sabia onde estava...
Depois de ter tentado uma ou duas onde me recusaram a entrada lé descobri, com algum alvoroço aquela onde seria o me lugar (tudo bem controladinho, à antiga) e imaginem a atrapalhação a entrar num ambiente onde já estavam todos com (de novo) todos a olhar para mim.
Dirigi-me ao professor:
- Perdi-me...
E não é que aquela alimária, em vez de me confortar, ali, promovido a pastor alemão, me atira com esta:
- E achou-se...?...
Percebi logo que a minha futura estadia em Leiria não seria muito proveitosa com bestas daquelas à mistura.
Lonely, lost and sad

Lonely, lost and sad é a canção de uma adolescência entrada numa fase mais madura. Ourém tinha ficado para trás, já estava em Leiria com alguns encontros que os meus amigos já conhecem. Encaro-a com múltiplas determinações: a influência de Dylan, a recordação de tardes passadas com o Jó Rodrigues e o Rui Themido no quintal dos padrinhos deste ao som do gira-discos, a nostalgia de aulas do Fernão Lopes comparadas com alguma sensação de mal-estar no Liceu,e o contacto com as nossas bandas, onde, para além dos Sheiks, os Ecos também se afirmavam...
Indiscutível numa selecção sobre a nossa Ourém...
Tanta vez nos sentimos sózinhos, tristes e perdidos e tantas vezes os amigos nos acompanharam, nos fizeram reencontrar e nos trouxeram aquela fabulosa alegria da nossa idade. Mas é uma canção a que associo uma palavra-chave: perdição. É ela que marcará esta semana


Oiça Lonely Lost and Sad

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Ourém enriquecida

De acordo com o Notícias de Ourém, a água do nosso concelho apresenta níveis de radioactividade superiores aos permitidos por lei.
Em conferência de imprensa, o presidente David desdramatizou a situação...
Ele pensa que se safa, porque bebe água de garrafa, mas que pensarão as vaquinhas, os cabritinhos, os borregos que não têm essa alternativa... e que nos fazem as delícias no prato?...
É caso para chamar os Kraftwerk...

O último suspiro do ciclope

Fui pelos campos e, a certa altura, encontrei umas varas de tom castanho esverdeado. Ena! Que descoberta! Eram perfeitas para jogar à espada ou levar o arco ou simular o cajado de peregrino.
Com uma pequena incisão vi que era fácil dar-lhes novo aspeto, pois aquele película superior teria talvez um milímetro e saia em tiras com um leve puxar.
Trouxe-as para casa e passei algumas horas a descascá-las. Ficaram lindas, clarinhas, ainda um pouco esverdeadas. Quando a minha mãe viu aquele arraial, disse logo:
- Vais levar tudo isso daqui para fora, para o lixo...
O quê? A minha obra ia para o lixo?
Mas em breve tive uma ideia salvadora. A casa da Vizinha(1) tinha um pequeno quintal a que a porta do lado direito, sempre aberta, dava acesso. Podia guardar lá o meu tesouro. Juntei o molho de varas e transportei-o para lá.
Os dias foram passando. Regularmente, eu ia ver a minha obra e apreciar como as varas iam ficando cada vez mais secas e claras. Estavam quase perfeitas para ser utilizadas...
Até que uma manhã saí de casa e vi dois vultos conhecidos junto à casa da Vizinha. O Fernando e o João, netos da Júlia padeira. E o mais insólito é que transportavam com eles as varas. As minhas varas!...
Desatei a correr que nem um doido na direção deles.
- Isso é meu. Vão pô-lo onde tiraram...
E tirei-lhes algumas das mãos para as repor no seu sítio. Mas não consegui reaver tudo o que me pertencia, eles não estavam pelos ajustes apesar do arraial que eu fazia. Até que a mãe deles, atraída pelo ruído, veio ter connosco frente à casa da Aurorita.
- Que é que se passa?
- Essas varas são minhas. Façam favor de mas dar...
- Chegam para todos brincar...
- São minhas, quero-as de volta...
Irritei-a tanta que ela pegou em duas ou três varas e quebrou-as sobre a perna, atirando-as desprezivelmente para o chão.
- Vê o que eu faço às tuas varas…
As minhas varas... reduzidas a pedaços, espalhados pelo chão.
Impelido por formidável impulso, agarrei num pedaço e atirei-lho acima, acertando-lhe em cheio na testa de onde, qual ciclope ferido, o sangue jorrou imediatamente. O dia na rua acabou por ali...
Em casa, aquela voz protetora, que nunca esqueço, ouvidas as minhas razões, deixou o apelo:
- Não voltes a fazer aquilo, podem-te prender ou mandar para uma casa de correção...
Curiosamente, nesse momento, na rádio, ouvia-se aquela canção:

…
Notas:
(1) Vizinha - designação para uma senhora deliciosa que vivia numa casa junto ao Picalimas, casa essa com vista para a varanda do Luís Nuno. Depois mudou para o Bairro Dr. Trigo de Negreiros...

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

O Johnny


O disco perdido Posted by Picasa

Era o canastrão da capa do EP que punha loucas as meninas da minha geração e tanto mais quando disfarçado de militar. A voz, já puderam perceber, emitia sons tipo berrante. E, à epoca, tinha uma namoradinha que fazia com que todos o invejassem.
Quanto ao disco em apreciação...
... acontece que me fui fartando de o ouvir. As outras músicas não me agradavam. Com o Johnny era quase sempre assim: uma excelente, as outras intocáveis. E aconteceu...
Ourém era regularmente visitada em férias por outros distintos cujos nomes já não me recordo muito bem. Um, talvez Raul, era desengonçado, tinha nariz pontiagudo e dentes de coelho. Também tinha uma boa colecção de EPs.
Um dia combinámos ir ouvir os nossos discos. O dia foi-se consumindo, até que passámos à secção de trocas. Eu tinha uns mamarrachos e tentei passar-lhos, ele também tinha e tentou fazer o mesmo. Negociámos durante mais algumas horas. No final, já não sei do que me livrei, sei que lá em casa ainda me aparece uma espanholada dos Joristars com o Quando Calienta el Sol e um outro EP do Johnny com uma linda menina na capa e o Retiens La Nuit. A canção até é bonita, mas a verdade é que...
... passei quase quarenta anos sem voltar a ouvir Le Pénitencier. Conheci o orginal dos Animals, mas não tinha a graça desta, compreendam, era a primeira, de modo que deixo aqui um apelo: Raul, ou lá como te chamas, temos de desfazer a troca!

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

O dilema do prisioneiro

Havia inúmeros arames espalhados pelo Largo de Castela. Teriam talvez uns 20cm, eram relativamente novos. Eu e o Mina Guta vimos aquilo e tivemos de imediato uma luminosa ideia.
- Vamos simular boomerangs...
Agarrámos alguns arames e demos-lhes um ligeiro torcegão ao meio. Depois, era só pegar numa ponta e enviar o mais alto possível. De acordo com a nossa destreza, o arame cairia ou não praticamente no mesmo ponto de onde tinha sido enviado.
A verdade é que eles subiam com uma tal força, rodando sobre si mesmo que o espectáculo tinha alguma graça. Eu tinha o braço mais longo, o Mina Guta tinha mais fibra de maneira que as alturas a que chegávamos conseguiam equilibrar-se.
Mas eis que algo corre mal...
Na tentativa de enviar o mais alto possível, um arame não subiu perpendicularmente, mas com uma certa inclinação. O Largo de Castela era atravessado por fios de electricidade entre a casa da Aurorita e a do Souto. O arame foi por ali fora e encontrou a toda a velocidade os fios. Enrolou-se com eles, fê-los bater uns nos outros, provocou curto-circuitos. O espectáculo tornou-se deslumbrante com os fios em estranho bailado e faíscas a jorrarem por todo o lado. Depois, tudo cessou, os fios quebraram-se e as pontas caíram no chão ficando suspensos a partir dos pontos de apoio.
- Estamos tramados...
- O melhor é irmos para casa...
Algum tempo depois a brigada de avarias veio e resolveu tudo, mas eu, nessa noite, não estava muito tranquilo e tive dificuldade em adormecer.
...
Alguém bateu à porta.
A minha mãe foi abrir. Era o polícia Cunha.
- O Luís está?
- Está sim...
- Era para fazer o favor de me acompanhar à esquadra...
Comecei a não ficar muito tranquilo. Vesti-me e saí de casa para o acompanhar. Na rua, já estava o Mina Guta com outro polícia. A caminhada até à esquadra foi marcante. As pessoas a verem aqueles dois gabirus e a comentar o que teriam feito...
Passámos frente ao Avenida, depois frente aos correios e, pouco depois, estávamos na esquadra. Fizeram-nos sentar à frente de uma secretária e um deles afirmou:
- Vocês ontem andaram a brincar com arames lá no Largo. Os fios estoiraram. Alguém vos viu e nos disse que podem ter sido os responsáveis. É verdade?.
- Não, senhor guarda – respondi.
O Mina Guta confirmou...
Ali estivémos um bom bocado até o polícia ver que nada conseguia tirar de nós, que não tinha ninguém a quem imputar o crime e a quem fazer pagar as despesas.
Eles retiraram-se e estiveram em conferência um bocado. Eu e o Mina Guta já estávamos combinados: negar até ao fim.
Mas eles separaram-nos e não permitiram a continuação da nossa comunicação. Fui com o polícia Cunha para um gabinete e o Mina Guta foi com o outro. Mandou-me sentar e começou a andar à minha frente dando pequenos toques na perna com o cacetete...
- Luís, és muito bom rapaz, mas temos de tirar isto a limpo. Foram vocês ou não?
- Não, senhor Cunha...
- Tenho uma proposta para te fazer. Se tu confessares e o teu amigo não o fizer, vais em liberdade e ele passa três semanas no calabouço para aprender a não fazer diabruras e a assumi-las. Mas se tu não confessares e ele o fizer, é ele quem vai em liberdade e tu quem cá passa as três semanas... Confessas?
- Não, senhor polícia, não fomos nós e tenho a certeza que o Augusto vai dizer o mesmo...
- Mas olha que com os testemunhos que temos, se nenhum confessar, arriscam-se a cá passar os dois duas semanas...
- E se confessarmos ambos?...
- Só passarão uma semana que é o castigo por serem tão descuidados... e terão sempre que pagar as despesas...
Estava entalado. Que havia de fazer? Colaborar? Negar até ao fim?... a vida traz-nos cada dilema. E qual seria a atitude do Mina Guta? Se eu confessasse e ele não, ficava lá três semanas...
Pensei, pensei, pensei...
Comecei a sentir suores frios...
...
Acordei. Estava encharcado em suor.
Mas estava na casa do Largo de Castela. Na rádio, ouvia estranha notícia: “Von Neumman acaba de anunciar uma nova teoria: a teoria dos jogos...”.
Assomei à janela. O Dodge do meu pai ainda estava à porta. Os fios já estavam reparados, parecia que tudo corria bem, não havia sinal de polícia.
O maquitan repousava frente à casa da Aurorita. Do outro lado, o senhor Zé Maria, com uma pá, introduzia uma massa branca dentro do forno. O Guerra passava com pedaços de leitão bem embalados. Lá em baixo, a camioneta do Isidro era cheia com jaulas para levar as galinhas ao mercado.
Pela rua de Castela, vinham a Lelita e a Rosalina em alegre cavaqueira. E lá no largo, o Boas Falas levava a mão ao chapéu e cumprimentava:
- Boas falas...
O Largo de Castela estava cheio de vida. Como era bom acordar naquele ambiente. Hoje já não consigo acordar assim, perdi esse dom, converti-me numa espécie de prisioneiro do tempo...

terça-feira, janeiro 31, 2006

Prisioneiros dos Quadradinhos

Noutros tempos também terei sido prisioneiro do Cavaleiro Andante. Religiosamente, aos sábados, ele chegava a Ourém e eu tinha no Central um número reservado em nome de um tio que teve a bondade de mo oferecer.
Apesar de tudo não tinha muita simpatia por esta BD, preferia as estórias do Mundo de Aventuras, mais populares, mais vivas, mais cheias de acção... o Cavaleiro Andante parecia-me uma revista para meninos bem comportados. Ao contrário do que se pode julgar, consegui conservar aquele e do MA já sabem o sórdido destino que lhe foi reservado.
Encontrei algumas séries relativas a prisioneiros famosos no Cavaleiro Andante.

A primeira tem a ver com o Prisioneiro da Máscara de Ferro. Quem seria essa famosa personagem que Dumas nos trouxe em romance, mas relativamente à qual existem outras hipóteses?

1) Era o irmão gêmeo do Rei, tendo sido excluso, pelo cardeal Richelieu, para poder preservar a integridade do governo da França; o motivo da colocação de uma mascara, foi o de proteger a sua verdadeira identidade, evitando que os cidadãos percebessem a grande semelhança com o Rei.

2) Outra versão dos fatos afirmava que Ana, da Áustria, mãe de Luis XIV, tinha casado de forma secreta, com Mazarine, seu ministro, tendo, como resultado da união, um filho, um irmão consangüíneo de Luis XIV.

3) Também, uma colocação muito divulgada sobre a lenda do Mascara de Ferro , era de que seria o duque de Mommouth, um pretendente ao trono da Inglaterra.

4) Diziam outros, por sua vez, que o desafortunado prisioneiro era, nada mais nada menos, do que o ex-ministro da Finanças, Fouquet, que fora destituído e preso.

5) Uma das versões fantásticas e até preferida era de que o intrigante prisioneiro seria o filho natural do Rei, com uma das suas amantes (Lavaltiere, Montespan ou Maintenon).

O Máscara de Ferro apareceu no CA número 11 e depois numa segunda fase no 451 onde a capa dá uma ideia da estória. Finalmente, foi publicado numa revista subsidiária do Cavaleiro Andante: a colecção Obras-Primas Ilustradas (no número 14)...

O Prisioneiro de Zenda, obra de Anthony Hope, foi outro título famoso que o Cavaleiro Andante nos trouxe (em número que não consegui localizar, desculpem...) e de que encontrei publicação nessa mesma colecção. Aqui, o argumento explora inesperadas parecenças:

Durante uma viagem de férias a um reino europeu, um inglês descobre, para seu espanto, que é um sósia perfeito do rei do lugar. Quando o rei verdadeiro é impedido de coroar, o forasteiro é forçado a se passar por ele e assumir a coroa temporariamente. Porém uma reviravolta ocorre quando ele se apaixona pela nova rainha e o rei verdadeiro é sequestrado pelo seu meio-irmão. A partir daí, a vida do rei (o prisioneiro de Zenda) e o futuro dos súditos está em suas mãos. Poderá ele resgatar o verdadeiro rei e ainda continuar vivo?

E eu penso que é legítima uma questão sobre a BD: será que ao nos divulgar estas obras de uma forma mais leve, colorida, ela está a estimular o gosto pela leitura? Ela traz-nos algum conhecimento, mas confesso nunca ter tido grande curiosidade pela leitura dos textos originais.

Outros prisioneiro famosos do CA terão sido os Irmãos Dalton, quatro seres cuja altura era proporcional à estupidez que nos surgiram na série Lucky Luke pela mão de Gosciny e Morris.




O CA trouxe-nos ainda muitas vezes a imagem da colonização americana: o avanço por terras sob os olhos dos seus tradicionais detentores que estes não poderiam aceitar de bom grado.

A epopeia foi-nos servida de uma forma gloriosa, por vezes salteada com laivos de terror associado àquelas torturas que os selvagens infligiam quando lhes caiam nas mãos: na verdade, ser trespassado por uma seta, ou ficar sem escalpe seria o melhor destino para os que sentissem o peso da derrota...

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Prisioneiro de valores


Torga Posted by Picasa

Mas abandonar a Pátria com um saco às costas? Para poder partir teria de meter no bornal o Marão, o Douro, o Mondego, a luz de Coimbra, a biblioteca e as vogais da língua. Sou um prisioneiro irremediável numa penitenciária de valores tão entranhados na minha fisiologia que, longe deles, seria um cadáver a respirar...
Cárcere

Só me debato sei que não voo
por entre as grades que tens no peito
Cobras o preço do ar que sorvo
Pago-te o fogo com que te odeio
Mas pode o mundo conter-se todo
onde me sinto mais prisioneiro
Ah não te iludas se te perdoo
Não me acredites se te rejeito

David Mourão Ferreira
Ah, perante



Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!

Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?
Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.

in Poesia de Álvaro de Campos

domingo, janeiro 29, 2006

Lembram-se?

Estava guardado para daqui a uns dias, mas os posts do Outrora e do Abdegas, o apelo do Ric Jo, as notícias da TV fizeram-me perder o egoísmo da publicação planeada e trazer esta recordação dos livros da primária...

BALADA DA NEVE

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.

Augusto Gil

Le Penitencier

Esta semana, o OUREM vai ser acompanhado pelo fabuloso Le Penitencier que conhecemos na interpretação de Johnny Holliday.
Trata-se da versão francófona de "The House of the Rising Sun" dos Animals. Foi conhecida em Ourém muito antes desta e com certeza provocará alguma nostalgia em muitos distintos... se a ouvirem...
Le Penitencier é uma canção do primeiro EP que adquiri em Leiria no início do 6º ano do Liceu (talvez o actual 10º ano...). O meu irmão ofereceu-me um gira-discos que foi montado na Electrificadora Oureense: uma mala com um prato e um microfone que mais tarde iria acompanhar imensos bailaricos.
A semana, essa, será dominantemente dedicada aos prisioneiros do amor, do dever, dos valores, da lei... não percam, há posts giros...


Oiça "Le Penitencier" por Johnny Halliday

sábado, janeiro 28, 2006

Tudo a postos



Para assistir a mais uma vitória da Fabulosa Águia Real sobre o Temível Lagartão.
A propósito: alguém se lembra do resultado no ano em que foram publicados estes dois números do Cavaleiro Andante (1960)?

sexta-feira, janeiro 27, 2006

A tacada


Jogava-se bilhar no Central.
Formidável partida em que Pintassilgo, Génito, Manel e Vitor Guerra se enfrentavam organizados em pares de forma a disfarçar a eventual superioridade de algum.
À volta, eu e outros distintos assistíamos àquela lição de bem jogar e tentávamos aprender para aproveitar em futuros embates.
Ao fundo, o rádio tocava uma melodia da época:
...
Lady,aaaahhhh
La-La- Lady,
Vous êtez plus que jolie,
Oh Lady!,
Que soudain
J'ai decouvert
Une autre vie...
...
O Génito pousou o cigarro na borda do bilhar, encostou o taco à parede, despiu o casaco e começou a exibir-se.
Agarrou uma cadeira, daquelas de metal que ameaçava durar mais uns quarenta anos, apoiou as mãos nas laterais, dobrou-se para a frente e, lentamente, foi erguendo as pernas aproximando-as do tecto.
Todos ficaram suspensos do que ia acontecer. O contador de tempo com indicador de montante em dívida acoplado continuou a funcionar, mas ninguém se preocupou com ele.
As pernas do Génito continuavam a subir na direcção do tecto. Por pouco não lhe acertavam, já que ele não era muito elevado. Chegaram a ficar perfeitamente a prumo.
E quando parecia que o objectivo estava cumprido eis que se ouviu monumental ruído e o conjunto corpo cadeira desfez a sua unidade, indo cada um para seu lado.
O Génito caiu pelo chão e ficou um pouco atordoado. O Adelino veio a correr, apressado, julgando que vândalos tinham invadido a sala de bilhar.
Pouco a pouco, ele recuperou. Pegou no taco, extraiu mais uma fumaça e calmamente perguntou:
- É a minha vez?

É altura de ouvir Oh Lady!

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Les chats sauvages

Cara de anormais como todo o bom conjunto que se prezePosted by Picasa

Foram um conjunto muito apreciado na Ourém do meu tempo e, tal como já disse, em momento em que a música nos chegava fundamentalmente pela rádio. Os anos de glória foram de 61 a 63, sendo originalmente formados por Dick Rivers, Willy Taieb, Armand Molinetti, Gérard Jacquemus, John Rob, James Fawler.
Tiveram duas canções marcantes: "Oh Lady!" e "Derniers Baisers", esta divulgaremos numa das próximas semanas. Outras foram famosas mas são, hoje, desinteressantes de ouvir (Sherry, est ce que tu le sais, Twist à Saint Tropez, Ma P'tite Amie est Vache) .
Tal como relativamente a outros icons da canção francesa, italiana e espanhola, da época, não é fácil arranjar compilações suas em Portugal, apesar de as mesmas existirem nos seus países de origem como prova qualquer pesquisa no google.
A partir do mesmo é possível conhecer um pouco mais sobre eles.
- Um pouco de história
- Letras de algumas canções



A música que estamos a utilizar é proveniente de uma colectânea em vinil da década de oitenta, já passados muitos anos sobre o seu sucesso.
Apreciem esta engraçadíssima capa.

Gato escondido com o rabo de fora

Prepara-se novo assalto à bolsa do contribuinte cumpridor
Desta vez, tem a ver com a modificação do financiamento das autarquias locais.
Reconheço que o esquema actual é péssimo pois leva ao interessamento na especulação de construtoras e autarcas. É obviamente necessário modificá-lo.
Uma proposta que hoje vai estar em discussão é a possibilidade de lançamento pelas autarquias de uma derrama sobre o IRS.
Imaginam...
... o contribuinte cumpridor vai passar a financiar as autarquias. Antes era a especulação, agora quem paga IRS...
... portanto, quem não paga IRS fica isento, designadamente os que nada têm – o que é justo – mas também os que fogem por todos os meios à declaração de rendimentos...
... e também os que lucram no ramo habitação e pagam IRC...
... beneficiando assim as negociatas com a habitação que passará a estar a preços mais convidativos.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

É preciso rever os fundamentos da estratificação social



Será que a contradição principal ainda é a que opõe patrões a assalariados? A avaliar pelo relato do CM, uma nova casta de assalariados, emergente no local de trabalho que mais tem contribuído para degradar o poder de compra dos portugueses, parece destacar-se dos restantes agentes e ganhar particular solidez no nosso país.
É uma vergonha!!!

A aula de Ciências Naturais



Naquela manhã, a Dra. Lurdes Moreira arrumou cuidadosamente o seu carro junto ao muro do CFL e dirigiu-se apressadamente para a sala de aula onde a esperávamos à porta. Estava um pouco atrasada devido talvez à lentidão do seu bólide.
- Podem entrar...
Lá fomos. Que matéria nos traria hoje, uma vez que tínhamos acabado o manual de Botânica? Ela não tardou a esclarecer.
- Vamos começar a estudar Zoologia. Penso que já terão adquirido o livro que vos recomendei no início do ano. É um livro aprovado oficialmente no Diário de Governo nº 147, II Série, de 25 de Junho de 1960 como livro único.
Por acaso tínha-o comigo já que no início do ano, devido à dificuldade em arranjar livros em Ourém o tinha adquirido aproveitando uma deslocação a Tomar de alguém que se prontificou a adquiri-los para a turma toda.
- Se quiserem podem dar uma vista de olhos ao meu livro ou ao vosso se aí tiverem. Vamos proceder ao estudo morfológico dos Vertebrados ilustrando-o com o coelho bravo, o pombo, o lagarto, a rã, o barbo e as lampreias. Depois vamos dar noções de sistemática com a distribuição em ordens dos animais de cada classe.
Comecei a achar alguma graça ao que ela estava a dizer e folheei rapidamente o livro.
- Veem? Reparem entre a página 12 e 13. Têm aí uma estampa com a organização interna do coelho. No texto, encontram o nome de alguns órgãos, procurem observar a sua posição relativa.


Coelho de barriga abertaPosted by Picasa

Pobre bicho. O que terá sofrido para chegarem àquele conhecimento. Tenho a certeza que existem pessoas que não conseguirão olhar para estas estampas que ilustram como nos servimos dos animais com muito pouco respeito...
- Mais à frente, continuou a professora, encontram as noções de sistemática, na página 88. Chamo a vossa atenção pois têm de saber rigorosamente esta caracterização em classes. Por exemplo, em relação à classe I – Mamíferos – não devem enganar-se e dizer “vertebrados como o coelho, que respiram por pulmões, que têm o corpo coberto com pelos e que nos primeiros tempos de vida se alimentam de leite materno. Têm temperatura constante, e a maior parte são vivíparos”. Vamos ver estas classes uma por uma. Daqui a três semanas faremos um teste para ver o que aprenderam...
E a aula continuou tendo a professora ajudado a arrumar, nesse dia, uma boa porção de matéria.
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