Recebi o primeiro documento eleitoral relativo às europeias. Por acaso, apelava ao vota na CDU.
Examino-o e vejo lá a cara bem conhecida do Sérgio Ribeiro.
Voltaremos ao assunto, mas ficam a saber que vou ter de pensar muito para decidir em quem votar.
Uma coisa é certa: na direita não voto, mas... à esquerda há opções de peso.
O certo é que fui à Internet ver a plataforma eleitoral comum. E garanto-vos que gostei...
sábado, maio 15, 2004
Sábado, dia do Expresso, compras e relaxe.
Desta vez, Ourém vai ficar longe.
A minha leitura do jornal é quase sempre a mesma. Folhear, folhear até surgir algo de interessante e então ler verdadeiramente.
Desta vez não há grandes referências a espaços verdes.
Mas há algo que é tão bom que até parece estrangeiro: O milagre segundo Salomé.
A Clara fala sobre os maus tratos aos prisioneiros de guerra.
Relembra-se o atentado ao bisavô do futuro rei de Espanha, aquele que vai desposar a bonita Letizia.
Na última página do primeiro caderno, vejo aquela provocação do Rui Rio ao meu amigo Fidel. Bolas! Deixem o homem em paz. Percebo logo que querem oferecer aos cubanos a liberdade que levaram aos iraquianos. Até podem ter alguma razão, mas eu habituei-me de longa data a respeitar aquele povo e aquele dirigente. Talvez por ser dele a primeira obra política que li: A História me absolverá, um tratado que recomendo a todos os que hoje falam na liberdade para Cuba.
Já sei que vou levar tareia que nunca mais acaba. Mas sejam coerentes, deixem-me ter a minha opinião.
Afinal não foi do Expresso que retirei a ideia mais engraçada desta semana.
Terminado o mesmo, folheei a Visão e eis que, na última página, leio: O que hoje está mal não é culpa da Revolução, mas da Evolução e dos governos, sobretudo nos últimos 20 anos. Ora toma lá e não digas que vais daqui. E sabem quem foi o autor desta pequena maravilha? É verdade, Diogo Freitas do Amaral, esse mesmo, aquele que me deu um monumental gozo, há uma série de anos, ver perder as eleições para Soares.
Desta vez, Ourém vai ficar longe.
A minha leitura do jornal é quase sempre a mesma. Folhear, folhear até surgir algo de interessante e então ler verdadeiramente.
Desta vez não há grandes referências a espaços verdes.
Mas há algo que é tão bom que até parece estrangeiro: O milagre segundo Salomé.
A Clara fala sobre os maus tratos aos prisioneiros de guerra.
Relembra-se o atentado ao bisavô do futuro rei de Espanha, aquele que vai desposar a bonita Letizia.
Na última página do primeiro caderno, vejo aquela provocação do Rui Rio ao meu amigo Fidel. Bolas! Deixem o homem em paz. Percebo logo que querem oferecer aos cubanos a liberdade que levaram aos iraquianos. Até podem ter alguma razão, mas eu habituei-me de longa data a respeitar aquele povo e aquele dirigente. Talvez por ser dele a primeira obra política que li: A História me absolverá, um tratado que recomendo a todos os que hoje falam na liberdade para Cuba.
Já sei que vou levar tareia que nunca mais acaba. Mas sejam coerentes, deixem-me ter a minha opinião.
Afinal não foi do Expresso que retirei a ideia mais engraçada desta semana.
Terminado o mesmo, folheei a Visão e eis que, na última página, leio: O que hoje está mal não é culpa da Revolução, mas da Evolução e dos governos, sobretudo nos últimos 20 anos. Ora toma lá e não digas que vais daqui. E sabem quem foi o autor desta pequena maravilha? É verdade, Diogo Freitas do Amaral, esse mesmo, aquele que me deu um monumental gozo, há uma série de anos, ver perder as eleições para Soares.
sexta-feira, maio 14, 2004
Uma história de amor
Existem múltiplas razões para desejar que esta simpática construção se mantenha.
Dirão os meus amigos oureenses: lá vem ele com aquela saudade da juventude que já tresanda a bafio.
Não, meus amigos, mais uma vez, eu julgo que tenho razão.
Se bem me lembro era perto daquele local que noutros tempos tinha lugar a feira nova, conhecida oficialmente por feira de Santa Iria, mais ou menos entre os dias 25 de Outubro e Dia de Todos os Santos. O carrossel, com as suas girafas, cavalinhos e bancos, ficava mesmo colado à tesouraria da Câmara. Os automóveis de choque espalhavam-se a partir daí até ao posto da GNR. Mais abaixo, havia espaço para vendas típicas da ocasião e, no local onde surgiram aquelas habitações viradas para o jardim (e que eu tenho a sensação que não estão ali nada bem) o espaço era repartido por aviões, poço da morte, circo e povo. E por todo o lado surgiam charlatões a apregoar e vender os mais diversos produtos e serviços: E não leva só os cobertores, leva também este magnífico balde de plástico...
Ainda me recordo de como, no Domingo e na Quinta-feira, Ourém se enchia de gente que eu não fazia a menor ideia que existia. Pessoal de bicicleta e carroça. Gente com o guarda-chuva às costas, enfiado sobre a gola do casaco.
E lá em cima o depósito tudo vigiava bem atento.
Imaginemos um desses dias de festa. O carrossel anda as voltas carregado de miudagem. Os cobradores entram e saem enquanto a sua música anima o ambiente. Ouve-se o Poetry emotion, mas ao mesmo tempo nos carrinhos de choque dá o I only want to be with you. O pessoal anda animadíssimo de um lado para o outro. As detonações dos que se divertem a testar o músculo com aquele carro pesadíssimo por vezes introduzem uma nota mais assustadora.
O dinheiro da juventude não era muito pelo que as diversões em termos gerais eram fundamentalmente duas: andar no carrossel, carrinhos de choque ou outro e ver quem andava no carrossel, carrinhos de choque, ou outro...
E foi num desses exercícios de contemplação que demos pela coisa. De repente, a música deixa de ser a que era e ouve-se a voz de Justin Hayword: Nights in white satin, never reaching the end, letters I’ve written, never meaning to send... Yes, I love You...
Um distinto oureense, senhor de excelente figura e muita lata, acaba de cair nas boas graças de uma linda menina com a qual vai passear nos carrinhos de choque. E foram dias e dias a apreciar esta história. Ela era linda de morrer, ele fez inveja a todos os que os viram.
O tempo passou, pouco ou nada sei deles, mas sei que aquele velho depósito registou esta história toda, porque nem por um minuto dali saiu. Por isso, não deve ser abatido.
quinta-feira, maio 13, 2004
A alma dos Beatles
Ele vem aí para o Rock in Rio. Mas acreditem que não estarei lá para o ver e o ouvir, àquele que ontem cantava uma espécie de deixa lá.
Distintos oureenses recordam com certeza a minha fixação nas canções dos Beatles, em tudo semelhante à daquela senhora no défice, assim estranharão uma entrada como a anterior.
Tenho as minhas razões.
Reparem na podução de cada um dos elementos do grupo após a separação.
McCartney elaborou dezenas de canções mas, com excepção de Mull of Kyntire ou Let me roll it, nenhuma terá atingido o estatuto do que acontecia com as do grupo. Mesmo na companhia dos Wings, o que aqueles concertos parecem é uma sessão de gritos, vozes esganiçadas, saltos, olhos a abrir e a fechar, caretas e cabeça a dar para a esquerda e para a direita.
Lennon não foi tão produtivo, mas deixou-nos o imortal Imagine e o fabuloso Jealous Guy a que acabámos por dar mais atenção a partir de uma homenagem proporcionada pelos Roxy Music.
Ringo, com o seu ar displicente, rodeou-se de bons músicos, procurou duas ou três canções de sucesso e para aí anda a recordar velhos tempos.
Põe-se então a questão: por que eram eles criadores tão dotados em grupo e isoladamente pouco fizeram que se possa comparar com aquele fabuloso ano de 1964 e alguns dos que se seguiram até à separação?
Harrison deu uma resposta: com esta (a separação), a alma dos Beatles ter-se-ia transferido para os Monty Python.
Não sei como é que ele se convenceu deste disparate, a verdade é que não estou de maneira nenhuma de acordo.
Voltemos às canções dos Beatles. Recordemos Something. Não terá algo de arrepiante? Haverá solos mais bonitos do que os de While my Guitar...?
Por que é que as canções tinham um ritmo, uma força que não é comum às dos elementos isolados?
Atentem na autoria das duas canções mencionadas. Não é de Lennon-McCartney como era vulgar surgir, mas de Harrison.
Então atrevo-me a concluir, eles permitiam-lhe que trabalhasse nos arranjos, eles serviam-se da sua capacidade instrumental, eles aproveitavam a sua tendência para a inovação a nível de sonoridade, mas, em termos de criação, abafavam-no e sujeitaram-no ao seu despotismo esclarecido, suportado pela feitura dos primeiros êxitos. Por alguma razão, é já numa fase de decadência, que ele consegue contribuir com mais de uma boa canção para um excelente álbum: Abbey Road.
Efectivamente, o génio de Harrison só veio a revelar-se posteriormente à separação. Isso aconteceu em múltiplas novas canções que em tudo recordam o som anterior do conjunto, ele é sem dúvida o que mais se aproxima do que o grupo transmitia. Aconteceu, também, com novas versões daquelas com que tinha contribuído para o êxito do grupo nas quais foi acompanhado por um grupo de amigos que cada vez mais me fazem lembrar aqueles com quem anualmente nos reunimos no Poço. Aconteceu, finalmente, no álbum gravado com o filho e editado a título póstumo.
Ouvir os solos fabulosos de Clapton no concerto no Japão insertos naquelas duas canções dá-me um extraordinário prazer. Ouvir a contribuição do George para aquelas outras canções feitas posteriormente pelo grupo de novo reunido com a voz do defunto John a surgir como que das profundezas é sem dúvida excelente. Deliciar-me com uma versão country do While my guitar inserta na Antologia mostra-me que uma grande canção poderá assumir múltiplas formas.
Mas o que mais me comoveu, aquilo que eu andei dias seguidos a ver e ouvir sempre com imenso gosto, sujeitando a família à produção de protestos por tamanha esquizofrenia, foi aquela monumental homenagem a Harrison, documentada no DVD Concert for George, onde o testemunho da amizade a alguém que já partiu foi feita com uma competência extrema e com uma emoção que a todo o momento se transmite ao espectador, demonstrou que pode ser suportado por momentos de alegria que em nada ofendem a memória dos que já partiram e me levou a conhecer mais uma contribuição do património de Harrison que desconhecia e que me surgiu pela voz de Clapton: Beware of darkness.
Então, voltemos aos nossos amigos já desaparecidos. O que se diz deles, o que se conta sobre as suas acções, as pequenas brincadeiras recordadas são a demonstração que eles estão junto de nós, pelo menos dos que os recordam sempre: ao Zé Manel, ao Jó Rodrigues, ao Vitor Guerra, ao Luís Nuno, ao Félix.Ao mesmo tempo constatamos que estão, cada vez mais, em melhor companhia: Lennon, Adriano, Zeca, Harrison...
É óbvio que nos é impossível fazer uma homenagem como a prestada a Harrison aos nossos amigos de Ourém que já partiram, mas ver e ouvir tal documento é com certeza a fonte de um bom conjunto de recordações acerca deles e, por isso, naturalmente, recomendável.
Ele vem aí para o Rock in Rio. Mas acreditem que não estarei lá para o ver e o ouvir, àquele que ontem cantava uma espécie de deixa lá.
Distintos oureenses recordam com certeza a minha fixação nas canções dos Beatles, em tudo semelhante à daquela senhora no défice, assim estranharão uma entrada como a anterior.
Tenho as minhas razões.
Reparem na podução de cada um dos elementos do grupo após a separação.
McCartney elaborou dezenas de canções mas, com excepção de Mull of Kyntire ou Let me roll it, nenhuma terá atingido o estatuto do que acontecia com as do grupo. Mesmo na companhia dos Wings, o que aqueles concertos parecem é uma sessão de gritos, vozes esganiçadas, saltos, olhos a abrir e a fechar, caretas e cabeça a dar para a esquerda e para a direita.
Lennon não foi tão produtivo, mas deixou-nos o imortal Imagine e o fabuloso Jealous Guy a que acabámos por dar mais atenção a partir de uma homenagem proporcionada pelos Roxy Music.
Ringo, com o seu ar displicente, rodeou-se de bons músicos, procurou duas ou três canções de sucesso e para aí anda a recordar velhos tempos.
Põe-se então a questão: por que eram eles criadores tão dotados em grupo e isoladamente pouco fizeram que se possa comparar com aquele fabuloso ano de 1964 e alguns dos que se seguiram até à separação?
Harrison deu uma resposta: com esta (a separação), a alma dos Beatles ter-se-ia transferido para os Monty Python.
Não sei como é que ele se convenceu deste disparate, a verdade é que não estou de maneira nenhuma de acordo.
Voltemos às canções dos Beatles. Recordemos Something. Não terá algo de arrepiante? Haverá solos mais bonitos do que os de While my Guitar...?
Por que é que as canções tinham um ritmo, uma força que não é comum às dos elementos isolados?
Atentem na autoria das duas canções mencionadas. Não é de Lennon-McCartney como era vulgar surgir, mas de Harrison.
Então atrevo-me a concluir, eles permitiam-lhe que trabalhasse nos arranjos, eles serviam-se da sua capacidade instrumental, eles aproveitavam a sua tendência para a inovação a nível de sonoridade, mas, em termos de criação, abafavam-no e sujeitaram-no ao seu despotismo esclarecido, suportado pela feitura dos primeiros êxitos. Por alguma razão, é já numa fase de decadência, que ele consegue contribuir com mais de uma boa canção para um excelente álbum: Abbey Road.
Efectivamente, o génio de Harrison só veio a revelar-se posteriormente à separação. Isso aconteceu em múltiplas novas canções que em tudo recordam o som anterior do conjunto, ele é sem dúvida o que mais se aproxima do que o grupo transmitia. Aconteceu, também, com novas versões daquelas com que tinha contribuído para o êxito do grupo nas quais foi acompanhado por um grupo de amigos que cada vez mais me fazem lembrar aqueles com quem anualmente nos reunimos no Poço. Aconteceu, finalmente, no álbum gravado com o filho e editado a título póstumo.
Ouvir os solos fabulosos de Clapton no concerto no Japão insertos naquelas duas canções dá-me um extraordinário prazer. Ouvir a contribuição do George para aquelas outras canções feitas posteriormente pelo grupo de novo reunido com a voz do defunto John a surgir como que das profundezas é sem dúvida excelente. Deliciar-me com uma versão country do While my guitar inserta na Antologia mostra-me que uma grande canção poderá assumir múltiplas formas.
Mas o que mais me comoveu, aquilo que eu andei dias seguidos a ver e ouvir sempre com imenso gosto, sujeitando a família à produção de protestos por tamanha esquizofrenia, foi aquela monumental homenagem a Harrison, documentada no DVD Concert for George, onde o testemunho da amizade a alguém que já partiu foi feita com uma competência extrema e com uma emoção que a todo o momento se transmite ao espectador, demonstrou que pode ser suportado por momentos de alegria que em nada ofendem a memória dos que já partiram e me levou a conhecer mais uma contribuição do património de Harrison que desconhecia e que me surgiu pela voz de Clapton: Beware of darkness.
Então, voltemos aos nossos amigos já desaparecidos. O que se diz deles, o que se conta sobre as suas acções, as pequenas brincadeiras recordadas são a demonstração que eles estão junto de nós, pelo menos dos que os recordam sempre: ao Zé Manel, ao Jó Rodrigues, ao Vitor Guerra, ao Luís Nuno, ao Félix.Ao mesmo tempo constatamos que estão, cada vez mais, em melhor companhia: Lennon, Adriano, Zeca, Harrison...
É óbvio que nos é impossível fazer uma homenagem como a prestada a Harrison aos nossos amigos de Ourém que já partiram, mas ver e ouvir tal documento é com certeza a fonte de um bom conjunto de recordações acerca deles e, por isso, naturalmente, recomendável.
quarta-feira, maio 12, 2004
É assim mesmo, Nuno
O Nuno tem vindo a testemunhar no Gaiteiro e no Castelo a sua raiva e a sua dor pelo facto de alguém lhe ter atropelado o pai e se ter afastado do local e tem criticado a ausência de medidas para evitar futuros casos.
Isto aconteceu passado um ou dois dias sobre aqui termos colocado o post A Cruz Branca que associámos (ao que parece erradamente) a uma tentativa de aumentar a velocidade na estrada Ourém-Tomar.
Eu acho que a atitude do Nuno é positiva para todos nós. Com o seu testemunho ele está a contribuir para que algo seja feito de forma a evitar estas coisas no futuro. E da discussão havida no Gaiteiro já se detectou a necessidade de acções de efeitos imediatos e de efeitos a longo prazo.
Terá efeito imediato a colocação de semáforos e de todo o tipo de reguladores que vise não permitir o aumento de velocidade ou que procure castigar o transgressor.
Terá efeito de longo prazo a aposta no civismo: não se transforma uma besta numa pessoa educada de um dia para o outro, ou mesmo de um ano para o outro. É preciso muito trabalho, talvez trabalho de gerações, a começar nos bancos de escola, pelo que se nos ficamos por esse aspecto equivale a deixar tudo na mesma.
Conheço o modo como se circula nas estradas em torno de Ourém , no interior de localidades onde essas estradas nasceram para o passeio, ali mesmo à porta das pessoas e não para o acelerador. Mas as pessoas, inebriadas com os feitos nas auto-estradas, pensam que ali os podem repetir e é o que se vê.
Oureenses, há que exigir medidas de curto prazo. Só elas garantirão a liberdade de circulação e de fruição dos bons espaços que ainda temos, isto é, a liberdade de todos e não apenas a daqueles que são mais pesados, a daqueles que atiram o carro para cima de nós nas passadeiras porque sabem que não nos queremos magoar.
Força, Nuno! E rápidas melhoras para o teu pai.
O Nuno tem vindo a testemunhar no Gaiteiro e no Castelo a sua raiva e a sua dor pelo facto de alguém lhe ter atropelado o pai e se ter afastado do local e tem criticado a ausência de medidas para evitar futuros casos.
Isto aconteceu passado um ou dois dias sobre aqui termos colocado o post A Cruz Branca que associámos (ao que parece erradamente) a uma tentativa de aumentar a velocidade na estrada Ourém-Tomar.
Eu acho que a atitude do Nuno é positiva para todos nós. Com o seu testemunho ele está a contribuir para que algo seja feito de forma a evitar estas coisas no futuro. E da discussão havida no Gaiteiro já se detectou a necessidade de acções de efeitos imediatos e de efeitos a longo prazo.
Terá efeito imediato a colocação de semáforos e de todo o tipo de reguladores que vise não permitir o aumento de velocidade ou que procure castigar o transgressor.
Terá efeito de longo prazo a aposta no civismo: não se transforma uma besta numa pessoa educada de um dia para o outro, ou mesmo de um ano para o outro. É preciso muito trabalho, talvez trabalho de gerações, a começar nos bancos de escola, pelo que se nos ficamos por esse aspecto equivale a deixar tudo na mesma.
Conheço o modo como se circula nas estradas em torno de Ourém , no interior de localidades onde essas estradas nasceram para o passeio, ali mesmo à porta das pessoas e não para o acelerador. Mas as pessoas, inebriadas com os feitos nas auto-estradas, pensam que ali os podem repetir e é o que se vê.
Oureenses, há que exigir medidas de curto prazo. Só elas garantirão a liberdade de circulação e de fruição dos bons espaços que ainda temos, isto é, a liberdade de todos e não apenas a daqueles que são mais pesados, a daqueles que atiram o carro para cima de nós nas passadeiras porque sabem que não nos queremos magoar.
Força, Nuno! E rápidas melhoras para o teu pai.
Invocação às musas oureanas
Isto vai cada vez pior. A inspiração diminui pelo que começam a surgir grandes dificuldades para actualizar este documento. É o castigo para quem vive de recordações e de ataques aos que lhe querem sepultar o passado.
Mão amiga enviou-nos o texto que hoje disponibilizamos o qual é certamente produto de um autor (anónimo) da minha geração ou da sua vizinhança, isto é, do segundo ou terceiro quartel do´século passado.
Tem aquele monumental defeito de ter a mania que no nosso tempo é que era bom. Mas tem piada, reflecte verdadeiramente um certo modo de vida, por isso, leiam-no dando-lhe o necessário desconto.
PARA OS QUE PASSARAM A BARREIRA DOS 25 - NÓS TIVEMOS SORTE!!!...
Para quem já tem mais de 25 anos...faz pensar que até tivemos sorte....
Olhando para trás, é difícil acreditar que estejamos vivos.
Nós viajávamos em carros sem cintos de segurança ou air bag. Não tivemos nenhuma tampa à prova de crianças em frascos de remédios, portas, ou armários e andávamos de bicicleta sem capacete, sem contar que pedíamos boleia.
Bebíamos água directamente da mangueira e não da garrafa.
Gastámos horas a construir os nossos carrinhos de rolamentos para descer ladeira abaixo e só então descobríamos que nos tínhamos esquecido dos travões.
Depois de colidir com algumas árvores, aprendemos a resolver o problema.
Saíamos de casa de manhã, brincávamos o dia inteiro, e só voltávamos quando se acendiam as luzes da rua.
Ninguém nos podia localizar. Não havia telemóveis.
Nós partimos ossos e dentes, e não havia nenhuma lei para punir os culpados. Eram acidentes.
Ninguém para culpar, só a nós próprios.
Tivemos brigas, esmurrámo-nos uns aos outros e aprendemos a superar isto.
Comemos doces e bebemos refrigerantes mas não éramos gordos.
Estávamos sempre ao ar livre, a correr e a brincar. Compartilhamos garrafas de refrigerante e ninguém morreu por causa disso.
Não tivemos Playstations, Nintendos e toda a parafernália de jogos de vídeo, nem 99 canais de TV Cabo, som surround, telemóveis, computadores ou Internet.
Nós tivemos amigos!
Saíamos e íamos ter com eles. Íamos de bicicleta ou a pé até casa deles e batíamos à porta. Imaginem tal coisa... sem pedir autorização aos pais nem a ninguém, por nós mesmos!
Lá fora, no mundo cruel! Sem nenhum responsável!
Como conseguimos fazer isto?
Fizemos jogos com bastões e bolas de ténis e comemos minhocas e, embora nos tenham dito que aconteceria, nunca nos caíram os olhos ou as minhocas ficaram vivas na nossa barriga para sempre.
Nos jogos da escola, nem toda a gente fazia parte da equipa.
Os que não fizeram, tiveram que aprender a lidar com a decepção... sem psicólogos!
Alguns estudantes não eram tão inteligentes quanto os outros.
Eles repetiam o ano!
Não inventavam testes extra.
Éramos responsáveis pelas nossas acções e arcávamos com as consequências.
Não havia ninguém que pudesse resolver isso.
A ideia de um pai a proteger-nos, se desrespeitássemos alguma lei, era inadmissível!
Os pais protegiam as leis! Imaginem!
A nossa geração produziu alguns dos melhores compradores de risco, criadores de soluções e inventores.
Os últimos 50 anos foram uma explosão de inovações e novas ideias.
Tivemos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade, e aprendemos a lidar com isso.
Tu és um deles. Parabéns!
Passem isto para outros que tiveram a sorte de crescer como crianças!!!!
Isto vai cada vez pior. A inspiração diminui pelo que começam a surgir grandes dificuldades para actualizar este documento. É o castigo para quem vive de recordações e de ataques aos que lhe querem sepultar o passado.
Mão amiga enviou-nos o texto que hoje disponibilizamos o qual é certamente produto de um autor (anónimo) da minha geração ou da sua vizinhança, isto é, do segundo ou terceiro quartel do´século passado.
Tem aquele monumental defeito de ter a mania que no nosso tempo é que era bom. Mas tem piada, reflecte verdadeiramente um certo modo de vida, por isso, leiam-no dando-lhe o necessário desconto.
PARA OS QUE PASSARAM A BARREIRA DOS 25 - NÓS TIVEMOS SORTE!!!...
Para quem já tem mais de 25 anos...faz pensar que até tivemos sorte....
Olhando para trás, é difícil acreditar que estejamos vivos.
Nós viajávamos em carros sem cintos de segurança ou air bag. Não tivemos nenhuma tampa à prova de crianças em frascos de remédios, portas, ou armários e andávamos de bicicleta sem capacete, sem contar que pedíamos boleia.
Bebíamos água directamente da mangueira e não da garrafa.
Gastámos horas a construir os nossos carrinhos de rolamentos para descer ladeira abaixo e só então descobríamos que nos tínhamos esquecido dos travões.
Depois de colidir com algumas árvores, aprendemos a resolver o problema.
Saíamos de casa de manhã, brincávamos o dia inteiro, e só voltávamos quando se acendiam as luzes da rua.
Ninguém nos podia localizar. Não havia telemóveis.
Nós partimos ossos e dentes, e não havia nenhuma lei para punir os culpados. Eram acidentes.
Ninguém para culpar, só a nós próprios.
Tivemos brigas, esmurrámo-nos uns aos outros e aprendemos a superar isto.
Comemos doces e bebemos refrigerantes mas não éramos gordos.
Estávamos sempre ao ar livre, a correr e a brincar. Compartilhamos garrafas de refrigerante e ninguém morreu por causa disso.
Não tivemos Playstations, Nintendos e toda a parafernália de jogos de vídeo, nem 99 canais de TV Cabo, som surround, telemóveis, computadores ou Internet.
Nós tivemos amigos!
Saíamos e íamos ter com eles. Íamos de bicicleta ou a pé até casa deles e batíamos à porta. Imaginem tal coisa... sem pedir autorização aos pais nem a ninguém, por nós mesmos!
Lá fora, no mundo cruel! Sem nenhum responsável!
Como conseguimos fazer isto?
Fizemos jogos com bastões e bolas de ténis e comemos minhocas e, embora nos tenham dito que aconteceria, nunca nos caíram os olhos ou as minhocas ficaram vivas na nossa barriga para sempre.
Nos jogos da escola, nem toda a gente fazia parte da equipa.
Os que não fizeram, tiveram que aprender a lidar com a decepção... sem psicólogos!
Alguns estudantes não eram tão inteligentes quanto os outros.
Eles repetiam o ano!
Não inventavam testes extra.
Éramos responsáveis pelas nossas acções e arcávamos com as consequências.
Não havia ninguém que pudesse resolver isso.
A ideia de um pai a proteger-nos, se desrespeitássemos alguma lei, era inadmissível!
Os pais protegiam as leis! Imaginem!
A nossa geração produziu alguns dos melhores compradores de risco, criadores de soluções e inventores.
Os últimos 50 anos foram uma explosão de inovações e novas ideias.
Tivemos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade, e aprendemos a lidar com isso.
Tu és um deles. Parabéns!
Passem isto para outros que tiveram a sorte de crescer como crianças!!!!
terça-feira, maio 11, 2004
Racismo e Xenofobia
A pobre miúda não ganhou para o susto.
A Carla é uma trabalhadora administrativa nas piscinas municipais de uma terra não muito longe de nós, Santa Marta de Penaguião, e estava no local errado no momento do assalto. O caso foi relatado pela TVI, no domingo à noite, antes do Prof. Marcelo.
Agrediram-na, esfaquearam-na e, não contentes com isso, regaram-na com gasolina com a intenção de lhe pegarem fogo. Salvou-a o facto de alguém andar nas imediações e os manguelas acabaram por fugir com os trezentos euros relativos ao feito.
Os executantes de tão valente acto foram identificados como romenos.
Irmãos de esquerda, vou ser politicamente incorrecto, não estou nada contente com a multiplicação deste conjunto de acontecimentos. A minha preocupação não é propriamente uma obcessão com a segurança, mas espelha a minha perplexidade pelo que vai ganhando forma neste país. Cada vez mais somos sujeitos a barbaridades como as relatadas e não se vê qualquer acção para as prevenir ou combater. Assim, os meus sentimentos de racismo e xenofobia têm crescido exponencialmente. Há dois anos ainda tive alguma esperança que o Paulo fosse para a Administração Interna, mas o nosso querido primeiro pô-lo a mascar pastilha elástica, a brincar às guerras e com submarinos, assim não temos ninguém que tenha a coragem de fazer aquilo que o PS não é capaz quando lá está.
Há alguns anos, fui eu. Ia para casa, todo contente, bem cansadinho, pelos 21.30 h, depois de um dia bem trabalhado quando, no comboio, um bando de indivíduos de alma e pele muito negras me deu uma monumental sova e me mandou para o hospital de olho ao peito e a sangrar. Depois lá veio a Polícia, com aquele arzinho muito compungido, para tomar conta da ocorrência.
Fico fulo quando assisto a casos destes. Fulo com a polícia e GNR que só servem para tomar conta da ocorrência, e que não servem para evitar a ocorrência. Uma coisa que me interrogo dezenas de vezes é porque é que as forças da ordem (?) só aparecem para malhar nas pessoas quando são manifestações de estudantes e desempregados, que mal especial é que estes fizeram? Quando há notícia de um gang do tipo do relatado, fazem o possível para aparecer depois ou para estar ocupados com a multa do mal estacionado.
Mas a minha indignação tem de ir mais longe. Nada me move contra os imigrantes, idêntica raiva me move contra os nacionais que praticam tal vandalismo, mas o que é que esta canalha como a que maltratou a miúda, vem fazer para o nosso país? Porque não os agarram e os põem lá nos maravilhosos países de onde saíram? Quem quer viver connosco tem que aprender a respeitar o nosso modo de ser e a comportar-se decentemente. Pode pôr em causa o sistema económico e político, mas não tem que vir estoirar com as boas relações entre as pessoas, isto é, com uma vivência que não precisa nada do mau contributo deles.
Ourém ainda é um sítio pacato, pouca notícia existe sobre estas coisas, mas o Norte é uma desgraça e, mesmo aqui, na minha localidade habitual, Parede, a saída à rua já é uma aventura quase radical. Há mais de 25 anos que todas as noites faço um percurso de pouco mais de um Km para beber café e andar um bocado. Sempre correu bem, mas recentemente, aparece-me cada manguelas mais esquisito a meio do caminho ou de automóvel que começo a ter receio de tal passeio. É o aspecto, é o som, é o comportamento, é o movimento, são as companhias tudo isto se tem degradado em escala assustadora. O mesmo deve passar-se com outras pessoas que cada vez menos se atrevem a sair à rua sozinhas a partir de certa hora. Isto é uma maravilha, mas, com esta escumalha, mete respeito.
Peço desculpa por este desabafo. Sei que existem razões muito para além daquelas que conhecemos para justificar tais coisas. Mas não as posso esquecer, nem desculpar. Se isto é a Europa, bem podem parar já. E compreendo perfeitamente se o povo começar a dar a esses agentes da barbarie o tratamento que merecem e que a justiça parece ter relutância em assumir. Há que correr com eles daqui para fora! Não são dignos do país por que tanto lutámos para lhes oferecer de bandeja e eles estragarem.
A pobre miúda não ganhou para o susto.
A Carla é uma trabalhadora administrativa nas piscinas municipais de uma terra não muito longe de nós, Santa Marta de Penaguião, e estava no local errado no momento do assalto. O caso foi relatado pela TVI, no domingo à noite, antes do Prof. Marcelo.
Agrediram-na, esfaquearam-na e, não contentes com isso, regaram-na com gasolina com a intenção de lhe pegarem fogo. Salvou-a o facto de alguém andar nas imediações e os manguelas acabaram por fugir com os trezentos euros relativos ao feito.
Os executantes de tão valente acto foram identificados como romenos.
Irmãos de esquerda, vou ser politicamente incorrecto, não estou nada contente com a multiplicação deste conjunto de acontecimentos. A minha preocupação não é propriamente uma obcessão com a segurança, mas espelha a minha perplexidade pelo que vai ganhando forma neste país. Cada vez mais somos sujeitos a barbaridades como as relatadas e não se vê qualquer acção para as prevenir ou combater. Assim, os meus sentimentos de racismo e xenofobia têm crescido exponencialmente. Há dois anos ainda tive alguma esperança que o Paulo fosse para a Administração Interna, mas o nosso querido primeiro pô-lo a mascar pastilha elástica, a brincar às guerras e com submarinos, assim não temos ninguém que tenha a coragem de fazer aquilo que o PS não é capaz quando lá está.
Há alguns anos, fui eu. Ia para casa, todo contente, bem cansadinho, pelos 21.30 h, depois de um dia bem trabalhado quando, no comboio, um bando de indivíduos de alma e pele muito negras me deu uma monumental sova e me mandou para o hospital de olho ao peito e a sangrar. Depois lá veio a Polícia, com aquele arzinho muito compungido, para tomar conta da ocorrência.
Fico fulo quando assisto a casos destes. Fulo com a polícia e GNR que só servem para tomar conta da ocorrência, e que não servem para evitar a ocorrência. Uma coisa que me interrogo dezenas de vezes é porque é que as forças da ordem (?) só aparecem para malhar nas pessoas quando são manifestações de estudantes e desempregados, que mal especial é que estes fizeram? Quando há notícia de um gang do tipo do relatado, fazem o possível para aparecer depois ou para estar ocupados com a multa do mal estacionado.
Mas a minha indignação tem de ir mais longe. Nada me move contra os imigrantes, idêntica raiva me move contra os nacionais que praticam tal vandalismo, mas o que é que esta canalha como a que maltratou a miúda, vem fazer para o nosso país? Porque não os agarram e os põem lá nos maravilhosos países de onde saíram? Quem quer viver connosco tem que aprender a respeitar o nosso modo de ser e a comportar-se decentemente. Pode pôr em causa o sistema económico e político, mas não tem que vir estoirar com as boas relações entre as pessoas, isto é, com uma vivência que não precisa nada do mau contributo deles.
Ourém ainda é um sítio pacato, pouca notícia existe sobre estas coisas, mas o Norte é uma desgraça e, mesmo aqui, na minha localidade habitual, Parede, a saída à rua já é uma aventura quase radical. Há mais de 25 anos que todas as noites faço um percurso de pouco mais de um Km para beber café e andar um bocado. Sempre correu bem, mas recentemente, aparece-me cada manguelas mais esquisito a meio do caminho ou de automóvel que começo a ter receio de tal passeio. É o aspecto, é o som, é o comportamento, é o movimento, são as companhias tudo isto se tem degradado em escala assustadora. O mesmo deve passar-se com outras pessoas que cada vez menos se atrevem a sair à rua sozinhas a partir de certa hora. Isto é uma maravilha, mas, com esta escumalha, mete respeito.
Peço desculpa por este desabafo. Sei que existem razões muito para além daquelas que conhecemos para justificar tais coisas. Mas não as posso esquecer, nem desculpar. Se isto é a Europa, bem podem parar já. E compreendo perfeitamente se o povo começar a dar a esses agentes da barbarie o tratamento que merecem e que a justiça parece ter relutância em assumir. Há que correr com eles daqui para fora! Não são dignos do país por que tanto lutámos para lhes oferecer de bandeja e eles estragarem.
segunda-feira, maio 10, 2004
Salvem a Costa Vicentina
Recebi do ZeQuim um mail com pedido de divulgação sobre algo que se está a preparar para a descaracterização do Algarve e onde se faz uma referência à vaga de incêndios do ano passado. Como sou todo pela natureza, como ainda há dias ouvi o sr. Ministro confessar uma real impotência perante a eventualidade de uma vaga de incêndios semelhante aqui fica o documento por completo sem outro tratamento que tirar pequenas partículas introduzidas pelo mail. Chamo ainda a atenção dos oureenses sobre a existência de uma petição que circula pela NET e que pode ser assinada. Força! Não podemos deixar descansados os agentes da destruição.
-----Mensagem original-----
De: Gustavo Coelho [mailto:gjdc@netcabo.pt]
Enviada: segunda-feira, 10 de Maio de 2004 15:48
Para: Recipient list suppressed
Assunto: FW: Salvem a Costa Vicentina
Caríssimos,
Percam um minuto para lerem esta carta e enviem este mail para as pessoas que se possam preocupar com a natureza.
Saiu no passado Sábado, na revista Única do Expresso, um artigo de Luísa Schmidt a alertar para a degradação do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.
Em resumo fala-se de áreas que se pretendem desanexar da reserva natural (para promoção, construção imobiliária e turismo),da inexistência de políticas destinadas às populações residentes em zonas protegidas e da incúria do Estado.
Por tudo isto corre na Net uma petição ao ministro do Ambiente para recordar o Estado dos direitos dos cidadãos.
http://www.petitiononline.com/sudoeste/petition.html
Seria bom que em vez de chorar sobre leite derramado (tal como na vaga de incêndios), a sociedade civil agisse a tempo e horas e fizesse valer a sua posição.
Não queremos outro Algarve. Queremos?
PS: Se fizeres fw deste mail não terás a felicidade eterna, mas pelo menos terás a consciência de que estás a contribuir para tentar melhorar Portugal.
Recebi do ZeQuim um mail com pedido de divulgação sobre algo que se está a preparar para a descaracterização do Algarve e onde se faz uma referência à vaga de incêndios do ano passado. Como sou todo pela natureza, como ainda há dias ouvi o sr. Ministro confessar uma real impotência perante a eventualidade de uma vaga de incêndios semelhante aqui fica o documento por completo sem outro tratamento que tirar pequenas partículas introduzidas pelo mail. Chamo ainda a atenção dos oureenses sobre a existência de uma petição que circula pela NET e que pode ser assinada. Força! Não podemos deixar descansados os agentes da destruição.
-----Mensagem original-----
De: Gustavo Coelho [mailto:gjdc@netcabo.pt]
Enviada: segunda-feira, 10 de Maio de 2004 15:48
Para: Recipient list suppressed
Assunto: FW: Salvem a Costa Vicentina
Caríssimos,
Percam um minuto para lerem esta carta e enviem este mail para as pessoas que se possam preocupar com a natureza.
Saiu no passado Sábado, na revista Única do Expresso, um artigo de Luísa Schmidt a alertar para a degradação do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.
Em resumo fala-se de áreas que se pretendem desanexar da reserva natural (para promoção, construção imobiliária e turismo),da inexistência de políticas destinadas às populações residentes em zonas protegidas e da incúria do Estado.
Por tudo isto corre na Net uma petição ao ministro do Ambiente para recordar o Estado dos direitos dos cidadãos.
http://www.petitiononline.com/sudoeste/petition.html
Seria bom que em vez de chorar sobre leite derramado (tal como na vaga de incêndios), a sociedade civil agisse a tempo e horas e fizesse valer a sua posição.
Não queremos outro Algarve. Queremos?
PS: Se fizeres fw deste mail não terás a felicidade eterna, mas pelo menos terás a consciência de que estás a contribuir para tentar melhorar Portugal.
Dar a Cara
Constituí a minha biblioteca de textos de Marx e Engels fundamentalmente entre os anos de 1968 a 1972. Tudo começou em Económicas com a luta estudantil, o surgimento dos primeiros textos subversivos editados pela Associação de Estudantes como o Contra a Fábrica ou outros deixados pelos corredores com a imagem de Marx a indicarem algo sobre o conteúdo.
Pouco a pouco, fui conhecendo lugares onde podia descobrir as obras básicas do Marxismo, subtilmente expostas: o cantinho da Barata, a Portugal, a Sá da Costa, a Livrelco... Os anos ajudaram a sobrepor essas leituras àquelas que fazia antes e que se baseavam dominantemente em banda desenhada e nos textos de livros que as elites diziam ser de má qualidade e de que guardei alguns exemplares bem saborosos.
Em minha casa, tenho toda uma série de recordações desses tempos, dessas leituras. Mas isto faz-me voltar a outros que considerava monumentais secas e era obrigado a ler quando estudava, como os Lusíadas, ou os de Júlio Dinis, apesar de sempre sentir um fraquinho pela prosa de Camilo, especialmente depois de ver, no cine teatro de Ourém, o Amor de Perdição ou de deparar com introduções como esta: era tão linda a Rosa do Adro....
E recordo os esforços monumentais de um professor, o Dr. Laranjeira, para nós entrarmos nestas obras, o que o levava a distribuir as personagens pelos alunos dando, desde logo, um outro interesse, uma outra vida, à leitura, como naquela obra de Garret que atinge o máximo da emoção no momento em que aquele que regressa, sem ninguém o reconhecer, é submetido à tão conhecida questão:
- Quem és tu, romeiro?
E eu, apontando aquele figura difusa que ostenta um jaquetão em tudo semelhante aos que terão sido usado pelo Jó Rodrigues, pelo Zé Manel e pelo Rui Temido, que mostra uma magreza sem limites ao ponto de o seu pescoço ser substituído por uma chaveta, mas hoje já transportando mais uns trinta quilinhos em cima, que encontra em Marx os fundamentos da interpretação que faz do social e de uma concepção que procura mais justiça, mais verdade e eliminar a exploraçãoe a corrupção, mas que também se revê nas maravilhosas aventuras daquela figura galante, criada por Salinas, que cortejou a Lucy, a Silvia e a Flor Vermelha, ou daquela outra, cujo autor foi Raymond, e que viajou pelo planeta Mongo onde resistiu à rainha Fria e consumou o seu amor pela Dale, respondia:
- Aquele....
Constituí a minha biblioteca de textos de Marx e Engels fundamentalmente entre os anos de 1968 a 1972. Tudo começou em Económicas com a luta estudantil, o surgimento dos primeiros textos subversivos editados pela Associação de Estudantes como o Contra a Fábrica ou outros deixados pelos corredores com a imagem de Marx a indicarem algo sobre o conteúdo.
Pouco a pouco, fui conhecendo lugares onde podia descobrir as obras básicas do Marxismo, subtilmente expostas: o cantinho da Barata, a Portugal, a Sá da Costa, a Livrelco... Os anos ajudaram a sobrepor essas leituras àquelas que fazia antes e que se baseavam dominantemente em banda desenhada e nos textos de livros que as elites diziam ser de má qualidade e de que guardei alguns exemplares bem saborosos.
Em minha casa, tenho toda uma série de recordações desses tempos, dessas leituras. Mas isto faz-me voltar a outros que considerava monumentais secas e era obrigado a ler quando estudava, como os Lusíadas, ou os de Júlio Dinis, apesar de sempre sentir um fraquinho pela prosa de Camilo, especialmente depois de ver, no cine teatro de Ourém, o Amor de Perdição ou de deparar com introduções como esta: era tão linda a Rosa do Adro....
E recordo os esforços monumentais de um professor, o Dr. Laranjeira, para nós entrarmos nestas obras, o que o levava a distribuir as personagens pelos alunos dando, desde logo, um outro interesse, uma outra vida, à leitura, como naquela obra de Garret que atinge o máximo da emoção no momento em que aquele que regressa, sem ninguém o reconhecer, é submetido à tão conhecida questão:
- Quem és tu, romeiro?
E eu, apontando aquele figura difusa que ostenta um jaquetão em tudo semelhante aos que terão sido usado pelo Jó Rodrigues, pelo Zé Manel e pelo Rui Temido, que mostra uma magreza sem limites ao ponto de o seu pescoço ser substituído por uma chaveta, mas hoje já transportando mais uns trinta quilinhos em cima, que encontra em Marx os fundamentos da interpretação que faz do social e de uma concepção que procura mais justiça, mais verdade e eliminar a exploraçãoe a corrupção, mas que também se revê nas maravilhosas aventuras daquela figura galante, criada por Salinas, que cortejou a Lucy, a Silvia e a Flor Vermelha, ou daquela outra, cujo autor foi Raymond, e que viajou pelo planeta Mongo onde resistiu à rainha Fria e consumou o seu amor pela Dale, respondia:
- Aquele....
domingo, maio 09, 2004
Revisitar o Avenida a partir da Marina
Ali, no local mais espaçoso que hoje é ocupado pela Marina, existiu, em tempos, um exemplo de bom gosto, algo de maravilhoso, o café Avenida.
Façamos um pequeno exercício com o que, actualmente, lá vemos.
Logo após a entrada, contemplemos o que se situa à esquerda, isto é, o sítio onde hoje se vendem jornais. Esse local era ocupado por cerca de quatro mesas em que as que se situavam mais perto da parede eram apoiadas por um banco corrido. Posso garantir que era o local da preferência dos mais jovens. Ali nos defrontávamos ao King: o Kansas, o Jó Rodrigues, o Rui Leitão, o Jó Alho. Também era um local de espera e de debates, onde preparávamos as farras e os bailaricos.
Mas continuemos à esquerda e vamos até ao fundo, tendo, por exemplo, como referência a estante dos Livros do Brasil. Deparamos com o sítio onde era o fabuloso balcão do Avenida, onde o Ezequiel e o Fernando Fortes preparavam as maravilhosas bicas e refrescos que nos serviam. O acesso à parte de dentro do balcão era do lado direito através de uma porta que ainda lá está.
Viremos à direita e consideremos o espaço para além do arco, antes cor de tijolo, agora embranquecido, descaracterizado. Era onde se situava o Restaurante do café. Com os poucos rendimentos de que dispunha, poucas vezes lá comi, mas consta-me e recordo que os bifinhos não eram nada maus.
O espaço entre um corredor que se segue à porta central, o cantinho da juventude, o balcão e o restaurante, onde actualmente se expõem as máquinas de calcular e outros aparelhos, era ocupado pela zona de jogo. Aí, os mais velhos disputaram renhidos combates de bridge (Fernado Rodriques, arquitecto, Dr. Durão,...?..) e dominó (Abel, Rui Costa, Luís Simões,...?...). Era também uma zona de Relações Públicas, pois bem perto dessas mesas estava a que vulgarmente era ocupada pelos proprietários do café, o Sr. Aguinaldo e esposa, duas figuras muito simpáticas que tinham sempre um sorriso para os clientes, apesar das perseguições políticas de que ele por vezes era vítima.
Consideremos, agora, o lado direito. Logo à entrada, no sítio onde a Alice expõe os perfumes e as loiças de Vista Alegre e outras marcas conceituadas, era o espaço para se ver televisão. Recordo filmes como O Homem Invisível , Sir Lancelot (ena, as histórias da Távola Redonda com a Guinevere, o Rei Artur eram o máximo!), o Robin dos Bosques , o Mister Ed (ver também este) que ali vi continuamente já não sei com que idade.
Apesar de tudo, não me lembro de grandes entusiasmos no interior do Avenida. O espaço era mais fino, mais snob, menos popular, menos ruidoso apesar de mais amplo e mais bonito.
Finalmente, adjacente em relação a esta zona, ocupado actualmente por materiais de pintura (Pelikans, Cisnes, etc.), existe o sítio onde se jogava bilhar bem perto da segunda porta de saída do café. Aí, dizia o João da Quinta, eu punha as bolas a saltar quando me irritava com as tacadas e estas não seguiam o rumo que eu planeava. Aos domingos, enquanto se ouvia o Música na Estrada e o fabuloso Oh Lady!, mais uma vez dos Les Chats Sauvages, nós iludíamos a vigilância dos pais e de outros controladores e lá fugíamos às obrigações sacras, refugiando-nos neste espaço. Depois, assistiamos, como dizia o Jó Rodrigues, ao Santo Sacrifício da Saída.
Ao terminar este roteiro sobre o Avenida, sinto uma certa tranquilidade. Animem-se, Oureenses. A Marina ocupou-o, se calhar esse até foi um meio de o preservar. Eu julgo que, se quisermos e tivermos força e meios para tanto, podemos reconstruir tudo. Sob a ocupação efémera desta empresa nada está destruído, está apenas oculto. Assim, se a Câmara quiser apoiar a reconstituição, pode começar desde já a recordar e projectar a ornamentação e mobiliário do mesmo. As belas mesas negras com vidro por cima, as belas e pesadas cadeiras, a porta giratória...
Força, vamos lá, responsáveis autárquicos, aquela Ourém merece todos os sacrifícios. E ainda existe quem se recorde de tudo, daqui a uns anos pode ser tarde demais.
sábado, maio 08, 2004
A Cruz Branca
Reparem na linda criatura que está no ponto mais alto daquela árvore. Apesar do seu porte humilde, parece desafiar-me enquanto canta feliz a sua liberdade.
Noutros tempos, o meu primeiro impulso seria ir buscar a pressão de ar e tratar-lhe da saúde. Hoje, confesso que aprecio sobremaneira a sua companhia. Assim, no quintal da minha humilde residência tenho algumas árvores que convidam estes pequenos seres a conviverem um pouco comigo e eles não se fazem rogados pelo que, de manhã à noite, tenho canto permanente. E penso: mesmo que não venha a tempo de apanhar a fruta, as poucas ameixas, os poucos figos sempre têm alguma utilidade, são uma reserva de comida para os ditos. E imagino o belo repasto, garantidamente da agricultura biológica, que ali têm.
Mas ao mesmo tempo sinto que, à medida que perdemos as zonas verdes, à medida que abatemos as nossas árvores, vamos também afastando estes simpáticos seres.
Há dias descia a estrada que liga Ourém a Tomar e, de repente, ao passar perto da Quinta da Olaia dou de caras com algo preocupante. Junto à Quinta das Margaridas, duas árvores ostentam uma cruz branca. Mais à frente, perto da ponte, o mesmo se passa com mais algumas árvores. Não sei qual a sua idade, mas como desde muito novo as conheço admito que sejam quase centenárias. Confiei as minhas dúvidas a pessoas conhecidas até que alguém mais ligado aos serviços camarários me informa: Ah! essas árvores são para abate.
Se isto é verdade, lá está mais uma contribuição para o deserto num sítio que é bem pitoresco. Para quê mais este abate? Andar a 50 ou 60 km/h na estrada Ourém-Tomar chega-me perfeitamente, nem 20 minutos demoro, o que era cada vez mais importante era pôr semáforos nas entradas nesta estrada e não aumentar a velocidade na mesma, ninguém precisa de auto estradas ao pé da janela. Deixem o diabo das árvores para podermos desfrutar de passeios calmos pelo meio das mesmas.
Mas a cruz branca lá continua. E cada dia que passa eu pergunto: será que aquela criatura ainda encontra condições para mais uma vez chegar ao meu quintal?
Ecos no Castelo
Reparem na linda criatura que está no ponto mais alto daquela árvore. Apesar do seu porte humilde, parece desafiar-me enquanto canta feliz a sua liberdade.
Noutros tempos, o meu primeiro impulso seria ir buscar a pressão de ar e tratar-lhe da saúde. Hoje, confesso que aprecio sobremaneira a sua companhia. Assim, no quintal da minha humilde residência tenho algumas árvores que convidam estes pequenos seres a conviverem um pouco comigo e eles não se fazem rogados pelo que, de manhã à noite, tenho canto permanente. E penso: mesmo que não venha a tempo de apanhar a fruta, as poucas ameixas, os poucos figos sempre têm alguma utilidade, são uma reserva de comida para os ditos. E imagino o belo repasto, garantidamente da agricultura biológica, que ali têm.
Mas ao mesmo tempo sinto que, à medida que perdemos as zonas verdes, à medida que abatemos as nossas árvores, vamos também afastando estes simpáticos seres.
Há dias descia a estrada que liga Ourém a Tomar e, de repente, ao passar perto da Quinta da Olaia dou de caras com algo preocupante. Junto à Quinta das Margaridas, duas árvores ostentam uma cruz branca. Mais à frente, perto da ponte, o mesmo se passa com mais algumas árvores. Não sei qual a sua idade, mas como desde muito novo as conheço admito que sejam quase centenárias. Confiei as minhas dúvidas a pessoas conhecidas até que alguém mais ligado aos serviços camarários me informa: Ah! essas árvores são para abate.
Se isto é verdade, lá está mais uma contribuição para o deserto num sítio que é bem pitoresco. Para quê mais este abate? Andar a 50 ou 60 km/h na estrada Ourém-Tomar chega-me perfeitamente, nem 20 minutos demoro, o que era cada vez mais importante era pôr semáforos nas entradas nesta estrada e não aumentar a velocidade na mesma, ninguém precisa de auto estradas ao pé da janela. Deixem o diabo das árvores para podermos desfrutar de passeios calmos pelo meio das mesmas.
Mas a cruz branca lá continua. E cada dia que passa eu pergunto: será que aquela criatura ainda encontra condições para mais uma vez chegar ao meu quintal?
Ecos no Castelo
sexta-feira, maio 07, 2004
A equipa maravilha
Podem falar nos putos do hóquei, podem falar nas internacionalizações, podem falar no Luís Porto, mas, para mim, a equipa maravilha, aquela que defrontou o Livramento, aquela que quase humilhou o Futebol Benfica com um bem claro 5 a 3, aquela que entusiasmava as gentes de Ourém ao ponto de os seus clamores atingirem e atemorizarem Tomar, Abrantes, Torres Novas, Marinha Grande e Turquel, era a formada pelo Mário, Abel, Rui Prego, Rui Costa, Piriquito e outros que não me lembro, mas que julgo que integraram o Ferraz, o Pintassilgo e, ele o diz, o Vitor Castanheira.
Quando o Abel saiu, o Pintassilgo, talvez o mais habilidoso de todos, entrou, e logo ganharam o distrital. Que magnífico feito!
Que pena não ter uma fotografia desse tempo.
Constato que a tradição do hóquei não se perdeu, independentemente de vir sob o nome Atlético ou Juventude. Mas uma coincidência engraçada é o facto de o treinador dos putos, grandes campeões do século XXI, aquele que os tem conduzido a saborosas vitórias apesar de poucas vezes ser nomeado, ser filho de um desses magníficos que lutavam na equipa maravilha.
quinta-feira, maio 06, 2004
O café Central

Ali, entre a loja do Sr. David e a Ex-CGD do Sr. Costa ou a ex-biblioteca da Anita, fica uma pérola neste mundo de destruição. Honra ao Adelino porque, apesar das óbvias dificuldades que tal acarreta, conseguiu manter o Central com as características que lhe conhecemos noutro tempo.
Entremos.
Logo ao lado esquerdo, encontramos o balcão e o expositor de revistas, em tudo semelhantes, se não os mesmos, aos que lhe conhecemos. Para testar este aspecto, experimentámos colocar alguns livros e revistas do tempo, eventualmente adquiridos no café, no local que ocupariam na altura. E vejam um dos primeiros números do Mundo de Aventuras que me chegou às mãos (data de 18-08-1960), um exemplar do Condor Popular que não sei datar, uma aventura de Lance na colecção Tigre e um livro da magnífica colecção Búfalo que me entusiasmava. Admirem como ficam bem no expositor. Reparem como os diversos compartimentos têm o tamanho ideal para receber tão simpáticos elementos.
Olhemos em frente. Lá ao fundo, existe o túnel que dá passagem para o local onde antes era a sala de bilhar, onde disputei dezenas de partidas com o Quim, o Jó Rodrigues, o Génito. Sala de entusiasmos, de alegrias e derrotas. Mas, eis que, ao me dirigir para a mesma, noto a falta de um elemento de outros tempos.Falta o cantinho dos doutores. Era ao lado esquerdo, sensivelmente passados dois metros após a entrada. Foi substituído por um balcão frigorífico. Antes, o espaço era ocupado por três ou quatro cadeiras destinadas ao Dr. Armando, ao Dr, Nini e ao Dr. Oliveira que dali dominavam toda a sala. Imaginem o nosso acabrunhamento ao passar em frente de tão importantes personagens quando nos dirigíamos para a sala de bilhar. No dia seguinte, no CFL seria ralhete pela certa.
Reparemos, agora, naquele belo exemplar de telefonia dos anos 50 e 60, à esquerda do túnel e acima da máquina de café. Ah!, quantas vezes ouvi ali os Les Chats Sauvages nos Dernires Baisers ou o António Prieto em La Novia, lamechices que nesse tempo alimentavam o nosso ego. Será que ainda toca?
E há fotografias: o velho jardim de Ourém junto à Câmara, o saudoso jardim da já famosa Eira das Pedras, O Vicente...Vejamos agora a sala de outro ângulo: a partir da zona da máquina do café, apreciamos as mesas e o local da televisão.
Há a mesa do Sol, há o cantinho para dois sobre a actual sala de jogos e lá está aquela outra bem à frente da televisão a dois passos dela, onde eu vi as primeiras emissões, onde ajudei a procurar o Maneta quando era a hora do Fugitivo, onde vi o Benfica bater o Barcelona naquele maravilhoso dia do 3 a 2 com o Águas, o Zé Augusto, o Costa Pereira.
E era o Torrejano a gritar que nem um perdido, era o Zé Penso a saltar de alegria. Era eu e a malta amiga a não acreditarmos naquele feito que parecia tão longe das nossas capacidades. Grande Benfica, Glorioso! Tão parecido com o nosso Atlético. E, tal como ele, tão carecido, hoje, de inebriantes vitórias.Volto ao nosso tempo. Felizmente o Central ainda existe para tudo não se reduzir a recordações e fantasmas.
quarta-feira, maio 05, 2004
Aquelas imagens…
São uma das sociedades mais ricas do Mundo.
Têm uma economia avançada baseada na informação e no conhecimento.
Podem fazer a guerra cirúrgica e acertar em qualquer alvo com danos colaterais mínimos.
Defendem as mais amplas liberdades para todos os povos.
A sua moral é o que de mais avançado podemos conceber.
Apesar de tudo, não se coibiram de humilhar quem estava vencido.
E ver aquelas imagens que testemunham que a superioridade moral do vencedor é, por vezes, apenas uma questão de palavras, leva-nos a descrer desta sociedade em que o desgraçado do soldado iraquiano é vencido, humilhado, violentado só porque lutou pelo seu país perante alguém que lhe conduziu uma guerra baseada numa pérfida mentira.
São uma das sociedades mais ricas do Mundo.
Têm uma economia avançada baseada na informação e no conhecimento.
Podem fazer a guerra cirúrgica e acertar em qualquer alvo com danos colaterais mínimos.
Defendem as mais amplas liberdades para todos os povos.
A sua moral é o que de mais avançado podemos conceber.
Apesar de tudo, não se coibiram de humilhar quem estava vencido.
E ver aquelas imagens que testemunham que a superioridade moral do vencedor é, por vezes, apenas uma questão de palavras, leva-nos a descrer desta sociedade em que o desgraçado do soldado iraquiano é vencido, humilhado, violentado só porque lutou pelo seu país perante alguém que lhe conduziu uma guerra baseada numa pérfida mentira.
Regresso de Ourém
Cá estamos de novo, terminados os poucos dias de contacto com Ourém. Fizemos muitas coisas e tudo, desde que relevante, iremos relatar nos próximos dias. A primeira foi uma visita à feira do livro exactamente no dia em que fechava; não tínhamos companhia, não encontrámos ninguém conhecido pelo que nos retirámos a breve trecho. Fizemos entretanto algumas fotografias junto ao edifício da GNR e ao depósito, elementos de que já falámos.
Assistimos, ainda, àquele jogo em que o Glorioso reduziu audaciosos leões a inofensivos lagartos.
Na segunda-feira, pelas oito horas comparecemos no Central que sujeitámos a uma sessão fotográfica. O Adelino foi de amabilidade e colaboração extremas sendo dele a responsabilidade da exposição que fica aprazada para um dos próximos dias. Há um pequeno senão: um dos elementos que devia ser sujeito a fotografia, um belo rádio dos anos 50/60, mencionado no texto que apresentaremos, está a arranjar, mas há a promessa de voltar ao seu lugar de exposição. Obrigado, Adelino, pelos momentos de retorno à nossa juventude que nos proporcionaste.
Procurámos, em vão uma fotografia da equipa maravilha, mas isso não impedirá a publicação do respectivo post.
Passámos também pela Marina que sujeitámos a uma inspecção minuciosa. Apesar de termos cumprimentado um dos seus responsáveis, o sr. Catarino, não tivemos coragem para lhe pedir para tirar fotografias. A nossa intenção é rever o café Avenida a partir daquilo que hoje ocupa o seu espaço.
Fomos à Tipografia Ouriense. Que saudade do Melo! Acreditem que já não via o Ourém e seu Concelho há perto de trinta anos. Ali deixámos o nosso nome, coordenadas e respectivo financiamento para o passar a receber regularmente. Depois olhámos o seu conteúdo sofregamente. Uma parte frontal interessante. O interior cheio de porta-vozes partidários. Então aquela conversa sobre Espanha e Zapatero é quase uma repetição do discurso do Governo PSD/CDS. E eis que de repente os meus olhos deparam com um artigo do famigerado LF. Como é possível trinta anos depois? O mesmo estilo, as mesmas afirmações... LF não argumenta, LF não contradiz, ele pura e simplesmente afirma independentemente do que qualquer adversário possa apresentar. O mesmo ódio aos comunistas, aos marxistas. Enfim, penso que nem vale a pena dar-lhe confiança. Noutros tempos o excelso grupo de marxistas-leninistas que analisava a situação em Ourém fazia apostas sobre a sua identidade. Seria o padre de Rio de Couros? E repentinamente, recordo a minha despedida dos jornais de Ourém em 1975: "não voltarei a escrever no Notícias de Ourém enquanto lá se der guarida a artigos de fascistas" (cito de cor, foi mais ou menos assim). Mas perdi, nada consegui e nunca mais lá escrevi, transformando-me em talento (?) adormecido e acomodado há muitos anos, como diria o outro. Mas confesso que neste campo evoluí muito pouco, isto é permaneço pouco tolerante, será que não sou um verdadeiro democrata por preconizar a exclusão dos que querem abater a democracia dos que dão vivas ao salazarismo?
Mas falemos em coisas boas. Encontrámos alguns amigos: O Julito, a Alice, a Cristina, a São. Foi a cavaqueira do costume, pena é que Ourém já esteja de novo longe. Soubemos de mais destruições em perspectiva. Enfim, atenção aos próximos posts em que, atendendo a pressões vindas do Castelo, faremos algo para dar a cara.
Assistimos, ainda, àquele jogo em que o Glorioso reduziu audaciosos leões a inofensivos lagartos.
Na segunda-feira, pelas oito horas comparecemos no Central que sujeitámos a uma sessão fotográfica. O Adelino foi de amabilidade e colaboração extremas sendo dele a responsabilidade da exposição que fica aprazada para um dos próximos dias. Há um pequeno senão: um dos elementos que devia ser sujeito a fotografia, um belo rádio dos anos 50/60, mencionado no texto que apresentaremos, está a arranjar, mas há a promessa de voltar ao seu lugar de exposição. Obrigado, Adelino, pelos momentos de retorno à nossa juventude que nos proporcionaste.
Procurámos, em vão uma fotografia da equipa maravilha, mas isso não impedirá a publicação do respectivo post.
Passámos também pela Marina que sujeitámos a uma inspecção minuciosa. Apesar de termos cumprimentado um dos seus responsáveis, o sr. Catarino, não tivemos coragem para lhe pedir para tirar fotografias. A nossa intenção é rever o café Avenida a partir daquilo que hoje ocupa o seu espaço.
Fomos à Tipografia Ouriense. Que saudade do Melo! Acreditem que já não via o Ourém e seu Concelho há perto de trinta anos. Ali deixámos o nosso nome, coordenadas e respectivo financiamento para o passar a receber regularmente. Depois olhámos o seu conteúdo sofregamente. Uma parte frontal interessante. O interior cheio de porta-vozes partidários. Então aquela conversa sobre Espanha e Zapatero é quase uma repetição do discurso do Governo PSD/CDS. E eis que de repente os meus olhos deparam com um artigo do famigerado LF. Como é possível trinta anos depois? O mesmo estilo, as mesmas afirmações... LF não argumenta, LF não contradiz, ele pura e simplesmente afirma independentemente do que qualquer adversário possa apresentar. O mesmo ódio aos comunistas, aos marxistas. Enfim, penso que nem vale a pena dar-lhe confiança. Noutros tempos o excelso grupo de marxistas-leninistas que analisava a situação em Ourém fazia apostas sobre a sua identidade. Seria o padre de Rio de Couros? E repentinamente, recordo a minha despedida dos jornais de Ourém em 1975: "não voltarei a escrever no Notícias de Ourém enquanto lá se der guarida a artigos de fascistas" (cito de cor, foi mais ou menos assim). Mas perdi, nada consegui e nunca mais lá escrevi, transformando-me em talento (?) adormecido e acomodado há muitos anos, como diria o outro. Mas confesso que neste campo evoluí muito pouco, isto é permaneço pouco tolerante, será que não sou um verdadeiro democrata por preconizar a exclusão dos que querem abater a democracia dos que dão vivas ao salazarismo?
Mas falemos em coisas boas. Encontrámos alguns amigos: O Julito, a Alice, a Cristina, a São. Foi a cavaqueira do costume, pena é que Ourém já esteja de novo longe. Soubemos de mais destruições em perspectiva. Enfim, atenção aos próximos posts em que, atendendo a pressões vindas do Castelo, faremos algo para dar a cara.
sábado, maio 01, 2004
sexta-feira, abril 30, 2004
A Luz do Silêncio
Paremos durante alguns dias.
O dever chama-nos.
Vamos reflectir, fazer trabalho de base, carregar baterias, obter massa crítica. O nosso plano é voltar de novo com recordações de Ourém.
A propósito:
- não há por aí alguém que queira fazer um texto sobre os célebres Estúdios Trini?
- … ou sobre a monumental sova que o Dr. Armando deu ao Augusto e ao Vitor?
-… ou sobre aquela mó que um dia foi apontada ao CFL?
- não há por aí fotografias dignas de ser partilhadas da nossa Ourém?
Não tenham receio, eu trato bem as coisas, tudo devolverei.
Respostas, comentários e contribuições para o Quartel.
E Ourém aqui tão perto...
Com a devida vénia:
Cidades
Por MIGUEL SOUSA TAVARES
Sexta-feira, 30 de Abril de 2004
Clara Ferreira Alves - uma das raras e enriquecedoras leituras do "Expresso"- escrevia na sua última crónica acerca do deslumbramento que uma recente visita a Barcelona lhe tinha provocado e interrogava-se porque não construímos assim Lisboa e as nossas outras cidades. Barcelona é também uma das minhas cidades de referência, como o é - e falo apenas de cidades "europeias" - Buenos Aires, sobre a qual aqui escrevi há uns meses, e tantas outras: Roma, Florença, Veneza, Sevilha, Londres, Paris, Estocolmo, Copenhaga, Genebra, Viena e, posso acrescentar já ao rol por antecipação, Praga, que irei conhecer para a semana. E outra ainda, que revi, depois de prolongadíssima ausência, há 15 dias atrás: Amesterdão. Não saberia descrever Barcelona melhor do que a Clara o fez, por isso descrevo o que vi em Amesterdão.
Estava sol, o que sempre ajuda, sobretudo às cidades do Norte. Estava sol e, por isso, as pessoas estavam cá fora, ao sol: muitas nos dias de semana, quase todas no fim-de-semana. Gente reunida por famílias ou prédios inteiros, sentada nas escadas ou nas varandas das casas ou simplesmente com as cadeiras postas na rua, lendo jornais, trabalhando nos computadores portáteis, conversando por grupos ou apanhando sol, sem mais. Mas a maior parte circulava pela cidade, a pé, de bicicleta (quase todos os que se deslocavam), ou de barco, através dos canais. Paravam nos restaurantes, nas lojas, nos mercados de flores ou de livros usados, na infinidade de livrarias ou quiosques de revistas do centro, nos jardins ou nas margens dos canais, na profusão de cafés, pastelarias ou bares, onde se pode ficar até querer, simplesmente bebendo um "expresso" ou um copo de vinho branco. Visivelmente, a rua estava preparada, melhor dizendo, imaginada, para receber as pessoas. Não havia café, bar ou restaurante que não tivesse esplanada. Não havia esquina que não tivesse bar, pastelaria, restaurante, quiosque ou livraria. Não vi em esquina alguma uma agência bancária - muito menos esta recente praga do "Millenium BCP", com a sua cor púrpura ou violeta, poluindo visualmente e aos poucos todas as nossas cidades. Não é por acaso que no Fórum Barcelona, a começar já em Maio, um dos temas de exposição é justamente "As cidades e esquinas". Porque são as esquinas que fazem viver em grande parte as cidades, como ponto de cruzamentos, de encontros ou de paragem em cafés e quiosques. Entre nós, todavia, as esquinas estão a transformar-se em lugares reservados da banca.
Do ponto de vista dos nossos arquitectos, todo o centro, a imensa parte histórica de Amesterdão, é aquilo a que eles chamam depreciativamente um "pastiche": simplesmente porque é intocável. Não há ali qualquer concessão à modernidade em diálogo com a história. Todos os edifícios actuais, remodelados, reconstruídos ou feitos de raiz, obedecem aos mesmos padrões arquitectónicos que caracterizam o chamado "período doirado" - último quartel do século XVII e primeiro do século XVII - em que a Holanda atingiu o seu apogeu marítimo e comercial e a cidade foi construída. A cércea nunca ultrapassa os quatro andares e toda a construção é de tijolo, telha e vidro, sem betão, sem alumínio, sem floreados alguns. Uma monotonia para os arquitectos, um prazer para quem lá vive e por lá se passeia. A arquitectura moderna está remetida para as franjas laterais ou para a periferia, assim como a indústria e grande parte dos serviços: o centro, que é o coração nevrálgico da cidade, é para o pequeno comércio, para a habitação, pequenos hotéis, bicicletas, barcos, passeantes. Inútil acrescentar que não existe aqui um único centro comercial, muito menos essas monstruosidades desumanas tipo Colombo, Fórum Almada ou Gaia-Shoping, onde os portugueses se enterram como ratazanas, como se se quisessem vingar do sol e da luz que têm lá fora. E, como não existem esses monstros de consumo, onde, como escreveu a Clara Ferreira Alves, se tenta recriar ridiculamente os jardins, parques, alamedas e árvores que não existem ou que se deixaram lá fora, o pequeno comércio sobrevive e desempenha um papel vital na vida da cidade. Mas, também, atenção: quando falo de pequeno comércio, não tem nada a ver com aquilo a que estamos habituados: não há cafés com balcões de zinco, mesas de fórmica, máquinas que fazem um barulho ensurdecedor, acrescentado ao barulho das loiças a serem sumariamente lavadas, cartazes idiotas a anunciar que "as bebidas expostas são para consumo na casa" ou "só se aceitam cheques visados", e empregados que se esforçam até ao absurdo por não verem os clientes a chamá-los; não há mercearias e talhos com ar de tabanca africana, pindéricas floristas, lojas sempre encimadas por painéis de publicidade, montras sem qualquer brio nem imaginação. E não fecha tudo ao fim-se-semana nem atravacam as ruas com as suas cargas e descargas durante o horário normal dos dias de semana. As regras aqui são: serviço, qualidade e brio. Aí se vê também e decisivamente a diferença entre um país civilizado e aquilo que somos. Enfim, resta acrescentar que não há engarrafamentos nem buzinadelas, não há polícias à vista e a cidade é absolutamente libérrima nos seus costumes e toda a gente tem um ar de quem desfruta cada momento ali vivido.
...
Dizia a Clara Ferreira Alves que todos os nossos autarcas deveriam ir a Barcelona ou outras cidades europeias onde a qualidade de vida é o objectivo número um de quem as governa. Eu penso que eles já foram, já perceberam e nada adiantou. Era bom era que todos os eleitores das nossas principais cidades pudessem ir a Barcelona ou Amesterdão para perceberem o quanto têm sido mal governados e o quanto têm sido roubados no seu direito a uma vida urbana totalmente diferente e melhor.
...
Paremos durante alguns dias.
O dever chama-nos.
Vamos reflectir, fazer trabalho de base, carregar baterias, obter massa crítica. O nosso plano é voltar de novo com recordações de Ourém.
A propósito:
- não há por aí alguém que queira fazer um texto sobre os célebres Estúdios Trini?
- … ou sobre a monumental sova que o Dr. Armando deu ao Augusto e ao Vitor?
-… ou sobre aquela mó que um dia foi apontada ao CFL?
- não há por aí fotografias dignas de ser partilhadas da nossa Ourém?
Não tenham receio, eu trato bem as coisas, tudo devolverei.
Respostas, comentários e contribuições para o Quartel.
E Ourém aqui tão perto...
Com a devida vénia:
Cidades
Por MIGUEL SOUSA TAVARES
Sexta-feira, 30 de Abril de 2004
Clara Ferreira Alves - uma das raras e enriquecedoras leituras do "Expresso"- escrevia na sua última crónica acerca do deslumbramento que uma recente visita a Barcelona lhe tinha provocado e interrogava-se porque não construímos assim Lisboa e as nossas outras cidades. Barcelona é também uma das minhas cidades de referência, como o é - e falo apenas de cidades "europeias" - Buenos Aires, sobre a qual aqui escrevi há uns meses, e tantas outras: Roma, Florença, Veneza, Sevilha, Londres, Paris, Estocolmo, Copenhaga, Genebra, Viena e, posso acrescentar já ao rol por antecipação, Praga, que irei conhecer para a semana. E outra ainda, que revi, depois de prolongadíssima ausência, há 15 dias atrás: Amesterdão. Não saberia descrever Barcelona melhor do que a Clara o fez, por isso descrevo o que vi em Amesterdão.
Estava sol, o que sempre ajuda, sobretudo às cidades do Norte. Estava sol e, por isso, as pessoas estavam cá fora, ao sol: muitas nos dias de semana, quase todas no fim-de-semana. Gente reunida por famílias ou prédios inteiros, sentada nas escadas ou nas varandas das casas ou simplesmente com as cadeiras postas na rua, lendo jornais, trabalhando nos computadores portáteis, conversando por grupos ou apanhando sol, sem mais. Mas a maior parte circulava pela cidade, a pé, de bicicleta (quase todos os que se deslocavam), ou de barco, através dos canais. Paravam nos restaurantes, nas lojas, nos mercados de flores ou de livros usados, na infinidade de livrarias ou quiosques de revistas do centro, nos jardins ou nas margens dos canais, na profusão de cafés, pastelarias ou bares, onde se pode ficar até querer, simplesmente bebendo um "expresso" ou um copo de vinho branco. Visivelmente, a rua estava preparada, melhor dizendo, imaginada, para receber as pessoas. Não havia café, bar ou restaurante que não tivesse esplanada. Não havia esquina que não tivesse bar, pastelaria, restaurante, quiosque ou livraria. Não vi em esquina alguma uma agência bancária - muito menos esta recente praga do "Millenium BCP", com a sua cor púrpura ou violeta, poluindo visualmente e aos poucos todas as nossas cidades. Não é por acaso que no Fórum Barcelona, a começar já em Maio, um dos temas de exposição é justamente "As cidades e esquinas". Porque são as esquinas que fazem viver em grande parte as cidades, como ponto de cruzamentos, de encontros ou de paragem em cafés e quiosques. Entre nós, todavia, as esquinas estão a transformar-se em lugares reservados da banca.
Do ponto de vista dos nossos arquitectos, todo o centro, a imensa parte histórica de Amesterdão, é aquilo a que eles chamam depreciativamente um "pastiche": simplesmente porque é intocável. Não há ali qualquer concessão à modernidade em diálogo com a história. Todos os edifícios actuais, remodelados, reconstruídos ou feitos de raiz, obedecem aos mesmos padrões arquitectónicos que caracterizam o chamado "período doirado" - último quartel do século XVII e primeiro do século XVII - em que a Holanda atingiu o seu apogeu marítimo e comercial e a cidade foi construída. A cércea nunca ultrapassa os quatro andares e toda a construção é de tijolo, telha e vidro, sem betão, sem alumínio, sem floreados alguns. Uma monotonia para os arquitectos, um prazer para quem lá vive e por lá se passeia. A arquitectura moderna está remetida para as franjas laterais ou para a periferia, assim como a indústria e grande parte dos serviços: o centro, que é o coração nevrálgico da cidade, é para o pequeno comércio, para a habitação, pequenos hotéis, bicicletas, barcos, passeantes. Inútil acrescentar que não existe aqui um único centro comercial, muito menos essas monstruosidades desumanas tipo Colombo, Fórum Almada ou Gaia-Shoping, onde os portugueses se enterram como ratazanas, como se se quisessem vingar do sol e da luz que têm lá fora. E, como não existem esses monstros de consumo, onde, como escreveu a Clara Ferreira Alves, se tenta recriar ridiculamente os jardins, parques, alamedas e árvores que não existem ou que se deixaram lá fora, o pequeno comércio sobrevive e desempenha um papel vital na vida da cidade. Mas, também, atenção: quando falo de pequeno comércio, não tem nada a ver com aquilo a que estamos habituados: não há cafés com balcões de zinco, mesas de fórmica, máquinas que fazem um barulho ensurdecedor, acrescentado ao barulho das loiças a serem sumariamente lavadas, cartazes idiotas a anunciar que "as bebidas expostas são para consumo na casa" ou "só se aceitam cheques visados", e empregados que se esforçam até ao absurdo por não verem os clientes a chamá-los; não há mercearias e talhos com ar de tabanca africana, pindéricas floristas, lojas sempre encimadas por painéis de publicidade, montras sem qualquer brio nem imaginação. E não fecha tudo ao fim-se-semana nem atravacam as ruas com as suas cargas e descargas durante o horário normal dos dias de semana. As regras aqui são: serviço, qualidade e brio. Aí se vê também e decisivamente a diferença entre um país civilizado e aquilo que somos. Enfim, resta acrescentar que não há engarrafamentos nem buzinadelas, não há polícias à vista e a cidade é absolutamente libérrima nos seus costumes e toda a gente tem um ar de quem desfruta cada momento ali vivido.
...
Dizia a Clara Ferreira Alves que todos os nossos autarcas deveriam ir a Barcelona ou outras cidades europeias onde a qualidade de vida é o objectivo número um de quem as governa. Eu penso que eles já foram, já perceberam e nada adiantou. Era bom era que todos os eleitores das nossas principais cidades pudessem ir a Barcelona ou Amesterdão para perceberem o quanto têm sido mal governados e o quanto têm sido roubados no seu direito a uma vida urbana totalmente diferente e melhor.
...
quinta-feira, abril 29, 2004
Aplausos
para aquela mulher, Graça, de sua graça, que tem, neste momento, condições para terminar com um dos mais injustos sistemas laborais em vigor no Portugal de Abril: o do ensino superior, que possibilita o despedimento (sem subsídio de desemprego, apesar dos descontos em tudo semelhantes aos de outros profissionais) de docentes com mais de uma dezena de anos na carreira, com mestrado, com doutoramento desde que não caiam nas boas graças de um juri de avaliação, confundindo progressão na carreira, comparação entre docentes com vínculo laboral.
Afinal, nem tudo parece mau no mundo laranja.
Ou virá a ser mais uma desilusão?
para aquela mulher, Graça, de sua graça, que tem, neste momento, condições para terminar com um dos mais injustos sistemas laborais em vigor no Portugal de Abril: o do ensino superior, que possibilita o despedimento (sem subsídio de desemprego, apesar dos descontos em tudo semelhantes aos de outros profissionais) de docentes com mais de uma dezena de anos na carreira, com mestrado, com doutoramento desde que não caiam nas boas graças de um juri de avaliação, confundindo progressão na carreira, comparação entre docentes com vínculo laboral.
Afinal, nem tudo parece mau no mundo laranja.
Ou virá a ser mais uma desilusão?
A medalha
O presidente quis atribuir uma condecoração à Isabel, mas o Paulo não estava pelos ajustes.
Não pode ser, essa mulher pegou em armas contra os fascistas, eu próprio me senti terrivelmente ameaçado.
Meu caro Paulo, tens de ser tolerante, tens de aprender a viver em democracia. Esse tempo terrível de perseguição aos salazarentos já lá vai, vivemos numa sociedade plural e precisamos de unir todos os portugueses honestos.
Eu não vou, eu não estarei lá...
Já esperava isso de ti. Não foste tu e os teus amigos que há uns anos votaram contra aquela primeira Constituição que nos trazia a liberdade e falava em socialismo?
O presidente quis atribuir uma condecoração à Isabel, mas o Paulo não estava pelos ajustes.
Não pode ser, essa mulher pegou em armas contra os fascistas, eu próprio me senti terrivelmente ameaçado.
Meu caro Paulo, tens de ser tolerante, tens de aprender a viver em democracia. Esse tempo terrível de perseguição aos salazarentos já lá vai, vivemos numa sociedade plural e precisamos de unir todos os portugueses honestos.
Eu não vou, eu não estarei lá...
Já esperava isso de ti. Não foste tu e os teus amigos que há uns anos votaram contra aquela primeira Constituição que nos trazia a liberdade e falava em socialismo?
quarta-feira, abril 28, 2004
Uma pretensa justiça social
Naquele dia, tive uma conversa com o nosso querido primeiro ministro.
Sabe, meu caro Luís, vou implementar a justiça social como recomendava o nosso comum amigo Marx.
E como fará isso, meu primeiro?
É muito simples. A partir de agora as taxas relativas a serviços públicos variam com o escalão de rendimento apurado a partir da declaração de IRS e as prestações sociais, abono de família, por exemplo, seguem o mesmo método.
Mas não estou a ver a relação…
Não está? Mas é claríssimo:
de cada um segundo a sua capacidade,
a cada um segundo a sua necessidade.
É brilhante, digno de um verdadeiro social democrata. Obviamente, já tratou de moralizar o sistema fiscal iníquo que nos caracteriza e que geralmente costuma tramar os que trabalham por conta de outrém…
Naquele dia, tive uma conversa com o nosso querido primeiro ministro.
Sabe, meu caro Luís, vou implementar a justiça social como recomendava o nosso comum amigo Marx.
E como fará isso, meu primeiro?
É muito simples. A partir de agora as taxas relativas a serviços públicos variam com o escalão de rendimento apurado a partir da declaração de IRS e as prestações sociais, abono de família, por exemplo, seguem o mesmo método.
Mas não estou a ver a relação…
Não está? Mas é claríssimo:
de cada um segundo a sua capacidade,
a cada um segundo a sua necessidade.
É brilhante, digno de um verdadeiro social democrata. Obviamente, já tratou de moralizar o sistema fiscal iníquo que nos caracteriza e que geralmente costuma tramar os que trabalham por conta de outrém…
Ourém é inquietação, Ourém é desassossego…
A cada hora que passa surge aquela interrogação: e o que estarão eles a destruir hoje?
É que eu estava lá…
Vinha do Central, a azáfama de construção da eira da pedra era grande. As pessoas saltitavam por onde podiam para chegarem aos locais que necessitavam. Eu estava junto à biblioteca.
De repente ouvi aquilo. Uma máquina aproxima-se de uma árvore junto ao Central, encosta-lhe uma poderosa mandíbula ao tronco… e faz força…
Ouve-se um Craack característico de algo que está a ser separado do seu meio. A pobre árvore verga-se, quebra-se, ali, sob os meus olhos…
A cada hora que passa surge aquela interrogação: e o que estarão eles a destruir hoje?
É que eu estava lá…
Vinha do Central, a azáfama de construção da eira da pedra era grande. As pessoas saltitavam por onde podiam para chegarem aos locais que necessitavam. Eu estava junto à biblioteca.
De repente ouvi aquilo. Uma máquina aproxima-se de uma árvore junto ao Central, encosta-lhe uma poderosa mandíbula ao tronco… e faz força…
Ouve-se um Craack característico de algo que está a ser separado do seu meio. A pobre árvore verga-se, quebra-se, ali, sob os meus olhos…
terça-feira, abril 27, 2004
Oureenses, boicotem o concurso para Miss Portugal
Já viram aquilo?
Estou siderado, incrédulo, como é possível uma coisa daquelas trinta anos depois do 25 de Abril?
Como é possível achincalhar tanto os sonhos de uma pessoa que andará pelos dezoito anos?
Mas será que os pais não vêm aquilo?
Na SIC, na televisão do Balsemão, que também estava na ala liberal, do Sá Carneiro, do Mota Amaral,...
E é a besta do Serrão com o olhar alarve, lascivo, a comê-las com os olhos.
E é aquela gordurosa loira a falar no rabo da miúda.
E é o outro com ar de jogador de rugby reformado a dizer: mostra-me os teus joelhos, dá uma volta, tens os tornozelos gordos, o teu penteado mete nojo.
Deu-me gozo uma miúda madeirense, se não estou em erro, dizer-lhes das boas. Àquelas bestas, aos que têm a mania que é com aquela brutalidade que se devem tratar os sonhos das pessoas.
O que se faz naquele concurso é incrível que aconteça no Portugal de Abril. E, mais uma vez, recordo...
...recordo a dignidade com que há muitos anos foi tratada aquela que todos os jovens portugueses quiseram namorar, a Ana Lucas, uma das miúdas mais lindas da nossa geração e fico apreensivo: não é verdade que nessa altura estávamos sob a ditadura?
Já viram aquilo?
Estou siderado, incrédulo, como é possível uma coisa daquelas trinta anos depois do 25 de Abril?
Como é possível achincalhar tanto os sonhos de uma pessoa que andará pelos dezoito anos?
Mas será que os pais não vêm aquilo?
Na SIC, na televisão do Balsemão, que também estava na ala liberal, do Sá Carneiro, do Mota Amaral,...
E é a besta do Serrão com o olhar alarve, lascivo, a comê-las com os olhos.
E é aquela gordurosa loira a falar no rabo da miúda.
E é o outro com ar de jogador de rugby reformado a dizer: mostra-me os teus joelhos, dá uma volta, tens os tornozelos gordos, o teu penteado mete nojo.
Deu-me gozo uma miúda madeirense, se não estou em erro, dizer-lhes das boas. Àquelas bestas, aos que têm a mania que é com aquela brutalidade que se devem tratar os sonhos das pessoas.
O que se faz naquele concurso é incrível que aconteça no Portugal de Abril. E, mais uma vez, recordo...
...recordo a dignidade com que há muitos anos foi tratada aquela que todos os jovens portugueses quiseram namorar, a Ana Lucas, uma das miúdas mais lindas da nossa geração e fico apreensivo: não é verdade que nessa altura estávamos sob a ditadura?
A nova(?) classe empresarial
E ainda não tinha passado um dia sobre os 30 anos do 25 de Abril quando o meu olhar detecta movimentos de criaturas estranhas na TV. Tratava-se da nova geração de empresários portugueses: os tais da produtividade, da economia do conhecimento, das tecnologias da informação e sei lá que mais.
Mas será que estavam a falar de tão importantes realidades?
Não. A sua preocupação era a idade de reforma dos trabalhadores. A sua proposta era passar essa idade de reforma para os 70 anos. Eu até acredito que o que eles gostavam era reformar as pessoas depois de mortas.
Afinal, o liberalismo não lhes ensinou nada. Não foi capaz de lhes mostrar que os potenciais reformados terão andado a descontar durante mais de trinta anos, como que a amealhar um pecúlio para posteriormente descansarem. Que esse desconto, com esse objectivo, terá atingido 35% do seu vencimento. Não lhes permitiu concluir que esse direito é algo que não tem a ver com a sua bondade, é algo de muito real fundamentado em operações económicas em tudo semelhantes às daquele que todos os meses vai pôr uma parte do seu vencimento no banco e que, ao fim de algum tempo, vai lá buscar o que juntou.
Eles não podem nem conseguem ver isso, porque querem viver sistematicamente à custa de se apropriar do alheio, não são empresários, são parasitas com discurso novo reformulado em Harvard e no Mit.
E é uma pena que os sindicatos não lhes consigam dar uma resposta na mesma sede e com um discurso realista, é uma pena que se preocupem mais com bandeirinhas e palavras de ordem inflamadas do que em desmontarem uma concepção tão grosseira que tem a sua razão na confusão entre previdência e Estado.
E ainda não tinha passado um dia sobre os 30 anos do 25 de Abril quando o meu olhar detecta movimentos de criaturas estranhas na TV. Tratava-se da nova geração de empresários portugueses: os tais da produtividade, da economia do conhecimento, das tecnologias da informação e sei lá que mais.
Mas será que estavam a falar de tão importantes realidades?
Não. A sua preocupação era a idade de reforma dos trabalhadores. A sua proposta era passar essa idade de reforma para os 70 anos. Eu até acredito que o que eles gostavam era reformar as pessoas depois de mortas.
Afinal, o liberalismo não lhes ensinou nada. Não foi capaz de lhes mostrar que os potenciais reformados terão andado a descontar durante mais de trinta anos, como que a amealhar um pecúlio para posteriormente descansarem. Que esse desconto, com esse objectivo, terá atingido 35% do seu vencimento. Não lhes permitiu concluir que esse direito é algo que não tem a ver com a sua bondade, é algo de muito real fundamentado em operações económicas em tudo semelhantes às daquele que todos os meses vai pôr uma parte do seu vencimento no banco e que, ao fim de algum tempo, vai lá buscar o que juntou.
Eles não podem nem conseguem ver isso, porque querem viver sistematicamente à custa de se apropriar do alheio, não são empresários, são parasitas com discurso novo reformulado em Harvard e no Mit.
E é uma pena que os sindicatos não lhes consigam dar uma resposta na mesma sede e com um discurso realista, é uma pena que se preocupem mais com bandeirinhas e palavras de ordem inflamadas do que em desmontarem uma concepção tão grosseira que tem a sua razão na confusão entre previdência e Estado.
O 25 de Abril na imprensa da época em Ourém
No meio do meu arquivo de papeladas de há 30 anos, saco colagens referentes ao modo como vi essa data magnífica no Notícias de Ourém e no Ourém e seu Concelho.
Peço desculpa pelo facto de não ter passado os documentos para formato texto. O reconhecimento óptico de caracteres não está a funcionar bem e depois a correcção é algo de fastidioso e corta a magia do momento. Ourém merece tudo, é verdade, mas emendar ou reescrever aquilo é sofrimento a mais.
Assim, fiquem-se com os restos de papel amarelecido que guardei. Infelizmente também já não tenho os jornais na sua totalidade para dar uma visão mais completa sobre os mesmos.
Não resisto a contar-vos que o radicalismo era de tal ordem que, algum tempo mais tarde, em momento de crítica e auto-crítica, levei um ralhete dos meus amigos que viriam a juntar-se em organizações ml (marxistas leninistas), com os quais alinhava embora hesitante, pelo facto de ter dado vivas a Portugal e às forças armadas. Eu confesso que também nunca gostei muito de dar vivas, mas, na altura, até pensei que se justificavam. O momento era único, mas a herança do fascismo transportava uma enorme desconfiança.
Eis o artigo do Notícias de Ourém
Eis o que escrevi em Ourém e seu Concelho
No meio do meu arquivo de papeladas de há 30 anos, saco colagens referentes ao modo como vi essa data magnífica no Notícias de Ourém e no Ourém e seu Concelho.
Peço desculpa pelo facto de não ter passado os documentos para formato texto. O reconhecimento óptico de caracteres não está a funcionar bem e depois a correcção é algo de fastidioso e corta a magia do momento. Ourém merece tudo, é verdade, mas emendar ou reescrever aquilo é sofrimento a mais.
Assim, fiquem-se com os restos de papel amarelecido que guardei. Infelizmente também já não tenho os jornais na sua totalidade para dar uma visão mais completa sobre os mesmos.
Não resisto a contar-vos que o radicalismo era de tal ordem que, algum tempo mais tarde, em momento de crítica e auto-crítica, levei um ralhete dos meus amigos que viriam a juntar-se em organizações ml (marxistas leninistas), com os quais alinhava embora hesitante, pelo facto de ter dado vivas a Portugal e às forças armadas. Eu confesso que também nunca gostei muito de dar vivas, mas, na altura, até pensei que se justificavam. O momento era único, mas a herança do fascismo transportava uma enorme desconfiança.
Eis o artigo do Notícias de Ourém
Eis o que escrevi em Ourém e seu Concelho
domingo, abril 25, 2004
Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas...
E, naquele tempo,
, por onde andavam e que faziam distintos oureenses?
Sérgio: preso em Caxias (prestes a ser libertado).
Luís Nuno: exilado em França (prestes a regressar).
Zé Quim: sob detenção nas Caldas (prestes a ser libertado).
Luís: vigilante na EPAM.
Luís Filipe: apoiando em alguma unidade do Continente.
Zé Rito: em voo para Seia.
Jó Rodrigues: coleccionador competente e avisado de plantas, xaropes e químicos naturais para aliviar o mal-estar dos oureenses de então.
Alfredo: a preparar o abandono organizado do Quelhas e a grande marcha relativa ao regresso vitorioso à futura urbe.
Rui Themido: Ourém já não é o que era, a Medicina vai chamá-lo para outras paragens.
Rui Leitão: novas fórmulas, novos fármacos, há que revitalizar Ourém.
Zé Domingos: Engenharia é para terminar, mas em Ourém continuará caçadas e patuscadas.
Jó Alho: quase martirizado nas colónias.
Humberto: em busca dos tesouros dos Aztecas, dos Maias e dos Incas.
Vítor: guarda-redes da equipa maravilha a quem alguém não reconhece o Direito de, de Facto, o ter sido (mas ele já tem hábil seguidora para defender tão intangível activo).
Tóino: a assistir ao nascimento dos primeiros vitelinhos.
Ferraz: à procura do verso, à procura do trinado, a ensaiar o maior, o menor, o corrido…
Barrosos, Quim Manel, Quim Zé, João da Quinta, Aires, Kansas, Zé-Tó, Tó-Liz, Licínio, Luís e Alberto (manos Facas), Maximino, Nicolau, Natureza, Queimado, Augusto, Jóia: nada sei sobre o que faziam neste momento, mas podem enviar-me relatório para o Quartel.
Quim, Julito, Genito, Duarte, Félix, Vitor Guerra, Pintassilgo, Cúrdia, Zé Alberto, Manuel: ou a iniciar as suas vidas ou aos tiros nas colónias ou no Poço (então bem real) a comentar tão gratificantes acontecimentos.
E o Zé Manel, lá de cima, contemplava tudo isto com um sorriso e pensava: “se estivesse lá com a minha viola, também podia dar uma ajuda”.
E, naquele tempo,
Sérgio: preso em Caxias (prestes a ser libertado).
Luís Nuno: exilado em França (prestes a regressar).
Zé Quim: sob detenção nas Caldas (prestes a ser libertado).
Luís: vigilante na EPAM.
Luís Filipe: apoiando em alguma unidade do Continente.
Zé Rito: em voo para Seia.
Jó Rodrigues: coleccionador competente e avisado de plantas, xaropes e químicos naturais para aliviar o mal-estar dos oureenses de então.
Alfredo: a preparar o abandono organizado do Quelhas e a grande marcha relativa ao regresso vitorioso à futura urbe.
Rui Themido: Ourém já não é o que era, a Medicina vai chamá-lo para outras paragens.
Rui Leitão: novas fórmulas, novos fármacos, há que revitalizar Ourém.
Zé Domingos: Engenharia é para terminar, mas em Ourém continuará caçadas e patuscadas.
Jó Alho: quase martirizado nas colónias.
Humberto: em busca dos tesouros dos Aztecas, dos Maias e dos Incas.
Vítor: guarda-redes da equipa maravilha a quem alguém não reconhece o Direito de, de Facto, o ter sido (mas ele já tem hábil seguidora para defender tão intangível activo).
Tóino: a assistir ao nascimento dos primeiros vitelinhos.
Ferraz: à procura do verso, à procura do trinado, a ensaiar o maior, o menor, o corrido…
Barrosos, Quim Manel, Quim Zé, João da Quinta, Aires, Kansas, Zé-Tó, Tó-Liz, Licínio, Luís e Alberto (manos Facas), Maximino, Nicolau, Natureza, Queimado, Augusto, Jóia: nada sei sobre o que faziam neste momento, mas podem enviar-me relatório para o Quartel.
Quim, Julito, Genito, Duarte, Félix, Vitor Guerra, Pintassilgo, Cúrdia, Zé Alberto, Manuel: ou a iniciar as suas vidas ou aos tiros nas colónias ou no Poço (então bem real) a comentar tão gratificantes acontecimentos.
E o Zé Manel, lá de cima, contemplava tudo isto com um sorriso e pensava: “se estivesse lá com a minha viola, também podia dar uma ajuda”.
sexta-feira, abril 23, 2004
Esta noite, vou ter de ficar no Quartel.
Para qualquer assunto, podem contactar comigo utilizando o endereço secreto escondido sob as palavras a bold.
Responderei logo que possa... se puder...
Para qualquer assunto, podem contactar comigo utilizando o endereço secreto escondido sob as palavras a bold.
Responderei logo que possa... se puder...
quinta-feira, abril 22, 2004
Preparem-se.
Falta pouco mais de dois dias...
Temos de aproveitar para libertar o Sérgio e o Zé Quim.
Temos de criar condições para o Luís Nuno poder regressar de França.
Maia, parece que tens alguém porreiro para comandar um pelotão quando avançares. É de Ourém e...
Mas que se passa, camarada Luís? Parece triste, nostálgico, pouco confiante...
Não é isso, meu major. Tive uma visão do que vai ser isto daqui a trinta anos: corrupção, fuga ao fisco, tráfico de droga, insegurança, mentira, terrorismo de EStado... Comparada com isto, a exploração capitalista, aquela em que o patrão paga o salário para obter mais-valia, parece uma santa. Mesmo o meu major vai ser perseguido e acusado de coisas horríveis...
Eu, perseguido? E achas que é a primeira vez? Tu próprio vais escrever sobre uma história um tanto semelhante que ocorreu quase há dois mil anos. O nosso povo padece de um défice, não aquele com que ela vos vai torturar, mas educacional. Mas eu vou tratar já disso, das perseguições políticas...
Aspirante Sampaio, vá pensando numa lista de homens de confiança porque temos que extinguir a dita...
Falta pouco mais de dois dias...
Temos de aproveitar para libertar o Sérgio e o Zé Quim.
Temos de criar condições para o Luís Nuno poder regressar de França.
Maia, parece que tens alguém porreiro para comandar um pelotão quando avançares. É de Ourém e...
Mas que se passa, camarada Luís? Parece triste, nostálgico, pouco confiante...
Não é isso, meu major. Tive uma visão do que vai ser isto daqui a trinta anos: corrupção, fuga ao fisco, tráfico de droga, insegurança, mentira, terrorismo de EStado... Comparada com isto, a exploração capitalista, aquela em que o patrão paga o salário para obter mais-valia, parece uma santa. Mesmo o meu major vai ser perseguido e acusado de coisas horríveis...
Eu, perseguido? E achas que é a primeira vez? Tu próprio vais escrever sobre uma história um tanto semelhante que ocorreu quase há dois mil anos. O nosso povo padece de um défice, não aquele com que ela vos vai torturar, mas educacional. Mas eu vou tratar já disso, das perseguições políticas...
Aspirante Sampaio, vá pensando numa lista de homens de confiança porque temos que extinguir a dita...
segunda-feira, abril 19, 2004
À espera do 25 de Abril
E pronto, fazemos uma curta paragem até à data em que se comemora o Magnífico. Manter-nos-emos em silêncio, se não houver guerras suscitadas pelas recordações.
O próximo post vai de novo lembrar os distintos oureenses. Vai enumerá-los e procurar determinar onde estavam, o que faziam, com que sonhavam...
Peço desculpa por qualquer omissão, incorrecção ou referência considerada de mau gosto que possa ser feita. Estarei disponível para modificar o quer que seja.
O post será publicado exactamente no 25 de Abril (se o sistema o permitir) e, como calculam, já está elaborado e bem guardado em local secreto.
Planeamos, entretanto, os detalhes de nova peregrinação a Ourém, para visitar e comentar sítios que nos foram queridos. Agentes da destruição, se virem alguém de máquina fotográfica ao peito, cuidem-se...
E pronto, fazemos uma curta paragem até à data em que se comemora o Magnífico. Manter-nos-emos em silêncio, se não houver guerras suscitadas pelas recordações.
O próximo post vai de novo lembrar os distintos oureenses. Vai enumerá-los e procurar determinar onde estavam, o que faziam, com que sonhavam...
Peço desculpa por qualquer omissão, incorrecção ou referência considerada de mau gosto que possa ser feita. Estarei disponível para modificar o quer que seja.
O post será publicado exactamente no 25 de Abril (se o sistema o permitir) e, como calculam, já está elaborado e bem guardado em local secreto.
Planeamos, entretanto, os detalhes de nova peregrinação a Ourém, para visitar e comentar sítios que nos foram queridos. Agentes da destruição, se virem alguém de máquina fotográfica ao peito, cuidem-se...
Utopia
Aspiro a uma sociedade de onde sejam banidos o parasitismo, a exploração, a humilhação, a opressão, a corrupção, a competição desenfreada, a mentira e o terror, onde o indivíduo tenha garantida a satisfação das suas necessidades básicas em termos de alimentação, saúde, educação e segurança como contrapartida da sua contribuição para o colectivo que deve resultar de uma vocação manifestada e determinada desde tenra idade.
Assumo que o Estado tem, numa primeira fase, um papel importantíssimo na conciliação e procura de equilíbrio entre os interesses individuais e os interesses colectivos.
Admito a propriedade e o crescimento da riqueza privadas desde que a sua utilização contribua para um desenvolvimento económico e social, submetidos quando necessário à satisfação de necessidades sociais. Reconheço, por isso, o papel de empresas privadas e do próprio capital internacional que pode apoiar os processos internos de desenvolvimento. Aceito, também, que este capital é livre de abandonar o espaço onde opera, levando consigo os rendimentos a que tem direito e desde que cumpra condições previamente acordadas. Nesse sentido, acho legítimo que a Bombardier deixe o país a partir do momento em que não se sinta bem nele, mas entendo que é aí que um papel fundamental do Estado, que não deve permitir a destruição das suas forças produtivas e qualificadas, se deverá manifestar: a empresa sai, mas, em vez de o Estado se fechar no falacioso argumento de que se trata de algo privado, há que manter o processo de trabalho e os seus agentes desde que possam a continuar a ser socialmente úteis.
Aceito que a sociedade em que vivemos, pela intransigente defesa das liberdades que preconiza, é relativamente superior àquelas que, em tempos idos, se reivindicaram do socialismo. E que, na mesma, ao lado dos monumentais defeitos atrás listados, desabrocharam forças que poderão formar a base de algo que lhe seja superior, forças que resultam fundamentalmente da cooperação entre os agentes económicos e de que existem exemplos em Ourém.
A questão está em saber como poderemos extirpar aqueles monumentais defeitos e iniciar algo que tenha uma capacidade própria de desenvolvimento sem necessidade de empurrões e obrigações determinadas por vanguardas esclarecidas. O que também é um problema para Ourém.
Aspiro a uma sociedade de onde sejam banidos o parasitismo, a exploração, a humilhação, a opressão, a corrupção, a competição desenfreada, a mentira e o terror, onde o indivíduo tenha garantida a satisfação das suas necessidades básicas em termos de alimentação, saúde, educação e segurança como contrapartida da sua contribuição para o colectivo que deve resultar de uma vocação manifestada e determinada desde tenra idade.
Assumo que o Estado tem, numa primeira fase, um papel importantíssimo na conciliação e procura de equilíbrio entre os interesses individuais e os interesses colectivos.
Admito a propriedade e o crescimento da riqueza privadas desde que a sua utilização contribua para um desenvolvimento económico e social, submetidos quando necessário à satisfação de necessidades sociais. Reconheço, por isso, o papel de empresas privadas e do próprio capital internacional que pode apoiar os processos internos de desenvolvimento. Aceito, também, que este capital é livre de abandonar o espaço onde opera, levando consigo os rendimentos a que tem direito e desde que cumpra condições previamente acordadas. Nesse sentido, acho legítimo que a Bombardier deixe o país a partir do momento em que não se sinta bem nele, mas entendo que é aí que um papel fundamental do Estado, que não deve permitir a destruição das suas forças produtivas e qualificadas, se deverá manifestar: a empresa sai, mas, em vez de o Estado se fechar no falacioso argumento de que se trata de algo privado, há que manter o processo de trabalho e os seus agentes desde que possam a continuar a ser socialmente úteis.
Aceito que a sociedade em que vivemos, pela intransigente defesa das liberdades que preconiza, é relativamente superior àquelas que, em tempos idos, se reivindicaram do socialismo. E que, na mesma, ao lado dos monumentais defeitos atrás listados, desabrocharam forças que poderão formar a base de algo que lhe seja superior, forças que resultam fundamentalmente da cooperação entre os agentes económicos e de que existem exemplos em Ourém.
A questão está em saber como poderemos extirpar aqueles monumentais defeitos e iniciar algo que tenha uma capacidade própria de desenvolvimento sem necessidade de empurrões e obrigações determinadas por vanguardas esclarecidas. O que também é um problema para Ourém.
Um pouco de organização no conteúdo
A Abrir: Figuras de todo o MUndo e outras fábulas
A vaidade dos intelectuais
Um verdadeiro tiro no pé
As redacções da Guidinha
Visado pela Comissão de Censura
Mas porque acabam as férias?
Alegrem-se. Vem aí o 25 de Abril
Eu também estive lá
Oureenses de todo o mundo, uni-vos. Andam a destruir a nossa Ourém
A Abrir: Figuras de todo o MUndo e outras fábulas
A vaidade dos intelectuais
Um verdadeiro tiro no pé
As redacções da Guidinha
Visado pela Comissão de Censura
Mas porque acabam as férias?
Alegrem-se. Vem aí o 25 de Abril
Eu também estive lá
Oureenses de todo o mundo, uni-vos. Andam a destruir a nossa Ourém
quinta-feira, abril 15, 2004

Se todos juntarmos o que sentimos que nos falta de um passado ainda bem próximo e o que receamos que no futuro nos seja tirado, compreenderemos a mágoa dos que dizem que Ourém tem sido gerida por pessoas que não têm amor à terra.
Pela parte que me toca, recordo o belo jardim que existia em frente à Câmara Municipal substituído por uma minúscula e confusa caricatura. Recordo a destruição do velho edifício onde se exibiu cinema durante muitos anos ali bem nas traseiras do hospital.
Alguns amigos falam-me noutras barbaridades como a casa do padre, uma casa na rua de Castela e um paraíso agrário que existia na Rua Santa Teresinha a partir da estrada bem junto à quinta da Sapateira e que foi substituído por uma escola e algumas casas de habitação. Também o jardim junto ao café Central já é uma recordação e o magnífico café Avenida tornou-se uma profunda saudade.
Fala-se agora na velha prisão de GNR. Quem sentirá saudades de uma prisão? A verdade é que muitos crianças de Ourém obtiveram dos prisioneiros belos carrinhos de madeira que serviam para se distrair na sua meninice e garantia àqueles um rendimento que os ajudava a ultrapassar aquele mau bocado.
Já agora tenho algum receio que o edifício dos correios, a escola primária e o velho depósito de água sejam sujeitos a ordens de extinção. Mas é preciso lembrar aos autarcas que o seu poder não é absoluto. Eles foram lá colocados para servir o povo e é bom que não se esqueçam disso e passem a não fazer com que a sua visão do mundo ou o interesse de obscuros lobies seja mais importante que os do povo em geral.
Ecos no Castelo
A casa do largo de Castela

Reconhecem esta obra prima?
Pois esta casinha ainda existe ali bem no início da Rua de Castela e continua a dominar com o seu porte a rua que nos conduz à avenida. Ali se travaram renhidos combates de futebol, pião e berlinde. Há quem sustente que, bem rente ao chão, a 20 centímetros do lado esquerdo da porta principal existiu um buraco que terá ocultado dezenas de bolas de futebol que eram engolidas perante os remates inadvertidos dos jovens jogadores. E que, no seu sótão, existirá possivelmente um saco contendo restos da banda desenhada da década de cinquenta e sessenta consubstanciada em Camaradas, Pajens, Moscas, talvez Mundos de Aventuras, ali deixados inadvertidamente por uma família que a habitou.
Consta que esta casa tinha características notáveis para a leitura e contemplação de banda desenhada. Reparem agora naquela pequena torre do lado esquerdo, quando vista bem de frente, que lhe dá uma solidez singular e única em todo o distrito…
A verdade é que me constou que esta casa também está condenada à destruição por causa do traçado de uma rua, por causa da relação com outras arquitecturas que nasceram tortas. Pode acontecer que assim seja, dar-me-ão um grande desgosto. Mas garanto que se tivesse posses para tanto, adquiriria essa casa, restaurá-la-ia e instalaria lá uma mostra de banda desenhada, resistindo ao seu abate até ao último suspiro.
E acreditem no profeta, a sentença está dada: quem participar na sua destruição, quer seja responsável, executante ou mero colaborador, é condenado à sua reconstrução, pedra por pedra, em local digno da visita de distintos oureenses.

Reconhecem esta obra prima?
Pois esta casinha ainda existe ali bem no início da Rua de Castela e continua a dominar com o seu porte a rua que nos conduz à avenida. Ali se travaram renhidos combates de futebol, pião e berlinde. Há quem sustente que, bem rente ao chão, a 20 centímetros do lado esquerdo da porta principal existiu um buraco que terá ocultado dezenas de bolas de futebol que eram engolidas perante os remates inadvertidos dos jovens jogadores. E que, no seu sótão, existirá possivelmente um saco contendo restos da banda desenhada da década de cinquenta e sessenta consubstanciada em Camaradas, Pajens, Moscas, talvez Mundos de Aventuras, ali deixados inadvertidamente por uma família que a habitou.
Consta que esta casa tinha características notáveis para a leitura e contemplação de banda desenhada. Reparem agora naquela pequena torre do lado esquerdo, quando vista bem de frente, que lhe dá uma solidez singular e única em todo o distrito…
A verdade é que me constou que esta casa também está condenada à destruição por causa do traçado de uma rua, por causa da relação com outras arquitecturas que nasceram tortas. Pode acontecer que assim seja, dar-me-ão um grande desgosto. Mas garanto que se tivesse posses para tanto, adquiriria essa casa, restaurá-la-ia e instalaria lá uma mostra de banda desenhada, resistindo ao seu abate até ao último suspiro.
E acreditem no profeta, a sentença está dada: quem participar na sua destruição, quer seja responsável, executante ou mero colaborador, é condenado à sua reconstrução, pedra por pedra, em local digno da visita de distintos oureenses.
Como é possível?

O Albuquerque esteve aqui. Aqui terá passado alguns dos melhores anos da sua vida. Aqui terá conhecido o primeiro sabor dos SG, dos Porto, dos Definitivos. Aqui terá dado muitos toques na bola, terá levado muitos colegas mais novos ao poste. E certamente terá recebido a formação que o ajudou a ocupar alguns dos postos politicamente mais poderosos no distrito e no concelho. Apesar disso tudo, nada conseguiu fazer para devolver ao que foi o Colégio Fernão Lopes um pouco da dignidade que ele orgulhosamente ostentava noutros tempos.
Esta escola foi responsável pela transmissão de conhecimentos a muitos jovens de Ourém e de outras terras. Nela trabalharam excelentes professores alguns dos quais para mim constituem uma referência: a Dra. Maria da Nazaré, o Dr. Laranjeira, a Dra Lurdes Moreira, a Dra Maria Júlia, o próprio Dr. Armando quando não estava virado do avesso. E quem não recorda a Boazinha?
Por respeito a toda esta gente, a Câmara devia pensar na sua recuperação e na sua utilização como um local de formação do mais alto nível.

O Albuquerque esteve aqui. Aqui terá passado alguns dos melhores anos da sua vida. Aqui terá conhecido o primeiro sabor dos SG, dos Porto, dos Definitivos. Aqui terá dado muitos toques na bola, terá levado muitos colegas mais novos ao poste. E certamente terá recebido a formação que o ajudou a ocupar alguns dos postos politicamente mais poderosos no distrito e no concelho. Apesar disso tudo, nada conseguiu fazer para devolver ao que foi o Colégio Fernão Lopes um pouco da dignidade que ele orgulhosamente ostentava noutros tempos.
Esta escola foi responsável pela transmissão de conhecimentos a muitos jovens de Ourém e de outras terras. Nela trabalharam excelentes professores alguns dos quais para mim constituem uma referência: a Dra. Maria da Nazaré, o Dr. Laranjeira, a Dra Lurdes Moreira, a Dra Maria Júlia, o próprio Dr. Armando quando não estava virado do avesso. E quem não recorda a Boazinha?
Por respeito a toda esta gente, a Câmara devia pensar na sua recuperação e na sua utilização como um local de formação do mais alto nível.
Um recanto pitoresco

Afinal, ainda lá está. Ali à entrada do local em que iniciávamos a subida da encosta para os moinhos, existia um cantinho muito agradável habitado por uma família muita afável. Ali apoiei o Ferraz em momentos de leve doença com a audição dos poucos discos que possuia.
À frente do recanto ainda se pode ver a casa que foi habitada pelo Genito e pelo Duarte (filhos do Cabeça Aguda) a qual ainda apresenta um aspecto razoável.
Do lado esquerdo, constata-se a existência de uma pequena fonte, onde muitas vezes os oureenses se dessedentaram, mas a que a incúria autárquica ainda não devolveu a necessária torneira.
Experimentem descer do recanto até ao largo de Castela e sintam um pouco do ambiente de outro tempo. Trata-se de uma rua estreitinha, silenciosa, com uma certa inclinação. Do lado direito há uma bela casa amarela em degradação. Mais abaixo, do lado esquerdo, encontramos a casa do Boas Falas onde habitava o nosso amigo Augusto.
Sintam a minha angústia: será que tudo isto está condenado à destruição?

Afinal, ainda lá está. Ali à entrada do local em que iniciávamos a subida da encosta para os moinhos, existia um cantinho muito agradável habitado por uma família muita afável. Ali apoiei o Ferraz em momentos de leve doença com a audição dos poucos discos que possuia.
À frente do recanto ainda se pode ver a casa que foi habitada pelo Genito e pelo Duarte (filhos do Cabeça Aguda) a qual ainda apresenta um aspecto razoável.
Do lado esquerdo, constata-se a existência de uma pequena fonte, onde muitas vezes os oureenses se dessedentaram, mas a que a incúria autárquica ainda não devolveu a necessária torneira.
Experimentem descer do recanto até ao largo de Castela e sintam um pouco do ambiente de outro tempo. Trata-se de uma rua estreitinha, silenciosa, com uma certa inclinação. Do lado direito há uma bela casa amarela em degradação. Mais abaixo, do lado esquerdo, encontramos a casa do Boas Falas onde habitava o nosso amigo Augusto.
Sintam a minha angústia: será que tudo isto está condenado à destruição?
Os restos da fonte de Santa Teresinha

Estão situados ali bem perto da casa do Zé Quim. Durante alguns anos, habitei bem em frente à mesma e tive o privilégio de ouvir o correr das suas águas. Trata-se de uma obra que data de 1868, curiosamento não muito diferente daquela que existia no Ribeirinho.
A sua degradação é bem evidente.
A nossa perplexidade perante a acção do poder autárquico é imensa. Como é possível deixar este elemento arquitectónico chegar a este estado de degradação? Será que só é possível a degradação pura e simples até à destruição ou a reconstituição caricatural como a que foi operada na fonte do Ribeirinho?

É que esta está reconstruída, mas toda transformada: não está no local que era o seu, foi rodeada de elementos que nada têm a ver com ela, está virada só para os que entram em Ourém, não ostenta um mínimo de verdura. Será que esta fonte é uma mensagem do tipo: vejam do que somos capazes, vejam as nossas obras de fachada? É que ninguém pode beber da sua água ou ouvir o seu correr com ela instalada naquele local, rodeada por uma rotunda.

Estão situados ali bem perto da casa do Zé Quim. Durante alguns anos, habitei bem em frente à mesma e tive o privilégio de ouvir o correr das suas águas. Trata-se de uma obra que data de 1868, curiosamento não muito diferente daquela que existia no Ribeirinho.
A sua degradação é bem evidente.
A nossa perplexidade perante a acção do poder autárquico é imensa. Como é possível deixar este elemento arquitectónico chegar a este estado de degradação? Será que só é possível a degradação pura e simples até à destruição ou a reconstituição caricatural como a que foi operada na fonte do Ribeirinho?

É que esta está reconstruída, mas toda transformada: não está no local que era o seu, foi rodeada de elementos que nada têm a ver com ela, está virada só para os que entram em Ourém, não ostenta um mínimo de verdura. Será que esta fonte é uma mensagem do tipo: vejam do que somos capazes, vejam as nossas obras de fachada? É que ninguém pode beber da sua água ou ouvir o seu correr com ela instalada naquele local, rodeada por uma rotunda.
A Igreja Matriz de Ourém

E eis um marxista a caminho da Igreja de Ourém. Como é isso possível? A resposta é que as minhas certezas acerca de questões ideológicas estiveram sempre muito perto da dúvida permanente. É verdade: a ideologia marxista é materialista, defende o materialismo histórico e o materialismo dialéctico. Pessoalmente acredito em muitos aspectos do marxismo, especialmente naqueles que dizem que a história do desenvolvimento das sociedades tem sido marcada pelo desenrolar da luta de classes no seu seio.
Também acredito que existe uma contradição permanente entre as forças produtivas (os trabalhadores, os instrumentos de produção) e as relações de produção (a propriedade dos meios de produção determina a separação do produtor relativamente aos mesmos) que, um dia, se resolverá com uma sociedade mais justa. Tal como já o afirmei, penso que tal só terá sucesso quando quase todos os homens a quiserem, portanto é necessário um grande esforço de educação para se lá chegar. Mas, desculpem-me que o diga tão abruptamente, custa-me a crer quando afirmam que Deus não existe. Como é que eles sabem?
A verdade é que esta Igreja nunca me ensinou nada de mal. Disse-me para ser honesto, para não matar, para não roubar. Quem é o marxista que despreza estes princípios? Pode ter acontecido que fosse conformista, que, através dos padres, nos convidasse a aceitar uma situação opressiva, mas também é verdade que em certas latitudes já teve um papel revolucionário.
Assim, sou adepto de uma espécie de idealismo marxista (mas que grande confusão) que, em muitos aspectos, é agnóstico. E a verdade é que, desde tenra idade, olhei os azulejos relativos ao Calvário de Cristo que existem na Igreja de Ourém com grande respeito e admiração. Afinal o sacrifício real de Cristo foi bem superior ao de Marx. Julgo que não há o perigo de alguém no nosso concelho os (à Igreja e aos azulejos) querer destruir. Mas aqui fica o aviso e uma pequena mostra dos mesmos.

E eis um marxista a caminho da Igreja de Ourém. Como é isso possível? A resposta é que as minhas certezas acerca de questões ideológicas estiveram sempre muito perto da dúvida permanente. É verdade: a ideologia marxista é materialista, defende o materialismo histórico e o materialismo dialéctico. Pessoalmente acredito em muitos aspectos do marxismo, especialmente naqueles que dizem que a história do desenvolvimento das sociedades tem sido marcada pelo desenrolar da luta de classes no seu seio.
Também acredito que existe uma contradição permanente entre as forças produtivas (os trabalhadores, os instrumentos de produção) e as relações de produção (a propriedade dos meios de produção determina a separação do produtor relativamente aos mesmos) que, um dia, se resolverá com uma sociedade mais justa. Tal como já o afirmei, penso que tal só terá sucesso quando quase todos os homens a quiserem, portanto é necessário um grande esforço de educação para se lá chegar. Mas, desculpem-me que o diga tão abruptamente, custa-me a crer quando afirmam que Deus não existe. Como é que eles sabem?
A verdade é que esta Igreja nunca me ensinou nada de mal. Disse-me para ser honesto, para não matar, para não roubar. Quem é o marxista que despreza estes princípios? Pode ter acontecido que fosse conformista, que, através dos padres, nos convidasse a aceitar uma situação opressiva, mas também é verdade que em certas latitudes já teve um papel revolucionário.
Assim, sou adepto de uma espécie de idealismo marxista (mas que grande confusão) que, em muitos aspectos, é agnóstico. E a verdade é que, desde tenra idade, olhei os azulejos relativos ao Calvário de Cristo que existem na Igreja de Ourém com grande respeito e admiração. Afinal o sacrifício real de Cristo foi bem superior ao de Marx. Julgo que não há o perigo de alguém no nosso concelho os (à Igreja e aos azulejos) querer destruir. Mas aqui fica o aviso e uma pequena mostra dos mesmos.
terça-feira, abril 13, 2004
Distintos Oureenses
Conheceram-me pouco depois de ter aparecido neste mundo. Jogámos à bola no magnífico Largo de Castela e na feira do mês. Disputámos corridas bem cronometradas no interior do belíssimo jardim junto da Câmara, já desaparecido. Esfolaram-me e foram esfolados ao King no Avenida e no Parque da vila. Enfrentaram-me ao bilhar no Central e no Grémio do Comércio. Tal como eu, esperaram pelo Mundo de Aventuras e pelo Condor Popular e, se eram bem comportados, chegaram a ler o Cavaleiro Andante. Tiveram o privilégio de ouvir os Animals, os Beatles, os Stones, os Bee Gees e os Moody Blues exactamente no momento em que as suas músicas surgiram. Acompanharam-me para quebrar a solidão nas noites de Ourém onde o maior ruído era o que provinha dos Mééé de inocentes carneirinhos ali para os lados da casa do sr. Lúcio.
Um deles, mesmo sem alguma vez conversarmos, teve influência decisiva na formação do meu pensamento. Elaborou cadernos de Política Económica Economia Política. Escreveu O que é o Mercado Comum que li com sofreguidão. O mesmo interesse manteve-se em O que é o Comecom. Colaborou no Notícias da Amadora com o Carvalhas, o Blasco, o Eugénio, quando escrever era um exercício de risco e aquele jornal formava com o Comércio do Funchal e o Jornal do Centro um bloco fortíssimo na ataque à ditadura e suas manifestações.
São estes os distintos oureenses. Distintos porque, por qualquer acção, ultrapassarm o limiar da indiferença na minha perspectiva. É deles que, muitas vezes, falo, é para eles que, muitas vezes, escrevo. É isso o que acontecerá em próximos posts.
Conheceram-me pouco depois de ter aparecido neste mundo. Jogámos à bola no magnífico Largo de Castela e na feira do mês. Disputámos corridas bem cronometradas no interior do belíssimo jardim junto da Câmara, já desaparecido. Esfolaram-me e foram esfolados ao King no Avenida e no Parque da vila. Enfrentaram-me ao bilhar no Central e no Grémio do Comércio. Tal como eu, esperaram pelo Mundo de Aventuras e pelo Condor Popular e, se eram bem comportados, chegaram a ler o Cavaleiro Andante. Tiveram o privilégio de ouvir os Animals, os Beatles, os Stones, os Bee Gees e os Moody Blues exactamente no momento em que as suas músicas surgiram. Acompanharam-me para quebrar a solidão nas noites de Ourém onde o maior ruído era o que provinha dos Mééé de inocentes carneirinhos ali para os lados da casa do sr. Lúcio.
Um deles, mesmo sem alguma vez conversarmos, teve influência decisiva na formação do meu pensamento. Elaborou cadernos de Política Económica Economia Política. Escreveu O que é o Mercado Comum que li com sofreguidão. O mesmo interesse manteve-se em O que é o Comecom. Colaborou no Notícias da Amadora com o Carvalhas, o Blasco, o Eugénio, quando escrever era um exercício de risco e aquele jornal formava com o Comércio do Funchal e o Jornal do Centro um bloco fortíssimo na ataque à ditadura e suas manifestações.
São estes os distintos oureenses. Distintos porque, por qualquer acção, ultrapassarm o limiar da indiferença na minha perspectiva. É deles que, muitas vezes, falo, é para eles que, muitas vezes, escrevo. É isso o que acontecerá em próximos posts.
sexta-feira, abril 09, 2004
Amigo maior que o pensamento
Finalmente, o nosso monolog tem som de fundo. Trata-se de uma música criada por alguém a quem a ditadura nunca conseguiu calar. Para a apreciarem, liguem as colunas do V. computador, deixem o download do JA1.mp3 chegar ao fim e admitam que o mundo pode ser um bocadito melhor.
Finalmente, o nosso monolog tem som de fundo. Trata-se de uma música criada por alguém a quem a ditadura nunca conseguiu calar. Para a apreciarem, liguem as colunas do V. computador, deixem o download do JA1.mp3 chegar ao fim e admitam que o mundo pode ser um bocadito melhor.
segunda-feira, abril 05, 2004
Digitalizar os jornais de Ourém
Ao contrário do que parece acontecer com pessoas isoladas ou pequenos grupos, tarda a surgir, na Web, uma presença dos jornais da terra.
Eu julgo que um projecto de digitalização do seu arquivo teria muito interesse para todos os que quisessem saber o reflexo de certos acontecimentos em Ourém ao tempo a que se deram. Claro que isso implicaria um patrocínio com algum significado e uma mobilização de recursos relativamente volumosa. Mas para que servem a Câmara e os investidores da terra que poderiam encontrar aí um meio para o seu nome ser conhecido num espaço mais amplo?
Pessoalmente, proporia três modalidades de concretização distintas:
- um acesso a determinado número de um jornal que devolveria a sua imagem por exemplo em formato gráfico que poderia ser percorrida página a página;
- um acesso por tema que devolveria em texto, eventualmente reutilizável, uma lista das colaborações em determinado tema (por exemplo, o que se escreveu sobre o 25 de Abril) permitindo a sua consulta após escolha com o rato;
- um acesso por autor que devolveria em texto, também reutilizável, as colaborações de determinado autor, escolhido por exemplo de entre uma lista alfabética e que nos possibilitaria, ver tudo o que foi feito pelo Sérgio ou pelo Luís Nuno ou outro colaborador.
E pronto. Está definido o projecto, agora é mãos à obra.
Ao contrário do que parece acontecer com pessoas isoladas ou pequenos grupos, tarda a surgir, na Web, uma presença dos jornais da terra.
Eu julgo que um projecto de digitalização do seu arquivo teria muito interesse para todos os que quisessem saber o reflexo de certos acontecimentos em Ourém ao tempo a que se deram. Claro que isso implicaria um patrocínio com algum significado e uma mobilização de recursos relativamente volumosa. Mas para que servem a Câmara e os investidores da terra que poderiam encontrar aí um meio para o seu nome ser conhecido num espaço mais amplo?
Pessoalmente, proporia três modalidades de concretização distintas:
- um acesso a determinado número de um jornal que devolveria a sua imagem por exemplo em formato gráfico que poderia ser percorrida página a página;
- um acesso por tema que devolveria em texto, eventualmente reutilizável, uma lista das colaborações em determinado tema (por exemplo, o que se escreveu sobre o 25 de Abril) permitindo a sua consulta após escolha com o rato;
- um acesso por autor que devolveria em texto, também reutilizável, as colaborações de determinado autor, escolhido por exemplo de entre uma lista alfabética e que nos possibilitaria, ver tudo o que foi feito pelo Sérgio ou pelo Luís Nuno ou outro colaborador.
E pronto. Está definido o projecto, agora é mãos à obra.
domingo, abril 04, 2004
Ó do Castelo
Eu também lá estava no 25 de Abril.
A participação foi muito humilde, mas serviu para ficar feliz da vida por uns tempos. Estava na Escola Prática de Administração Militar (EPAM) tinha concluído a especialidade e aguardava colocação noutra unidade como aspirante a oficial miliciano. Apesar do carácter ditatorial do regime, éramos uns senhores, pois deixavam-nos sair do quartel e vir dormir a casa. Comigo estavam muitos colegas de Económicas (o Albino, o Jorge (boisano), o Teixeira, o Angelo, o Gilberto e outros cujo nome não recordo). Não sabíamos de nada, quando acordei fui surpreendido pela rádio a anunciar o golpe e a dizer-nos para comparecermos no quartel. Lá fui com mil interrogações: seria um golpe da extrema direita de que tanto se falava?
No quartel sossegámos. Um oficial de alta patente informou-nos acerca das intenções e pediu a nossa participação. Deixou-nos a liberdade de sair ou ficar. Mais de 90% ficaram, dois ou três saíram. E começou a grande aventura. O boisano, tipo comando suicida, muniu-se de granadas à volta da cintura e foi dar uma ajuda para a RTP. A mim coube-me guardar os postos de sentinela da EPAM. Pela tarde começaram carros a passar com pessoas a saudar-nos e a fazer o V da vitória, lá mais para meio da tarde alguém gritava "ganhámos, ganhámos". Não ouvi um tiro, nem um insulto, só vi alegria nas pessoas. Pela noite, os dois ou três que tinham abandonado o quartel regressaram e foram recebidos com alegria. A vigilância ao quartel continuou. Mas logo nesse dia um camarada de armas me dizia que a revolução era uma coisa muito limitada, só iria trazer as liberdades formais. Mas eu não acreditava, sempre depositei muitas esperanças no Movimento, apesar de o primeiro contacto com a Junta de Salvação Nacional ter constituído um choque. Que faziam ali aqueles generais? As parecenças com a junta chilena fizeram-me pensar o pior o que felizmente não veio a verificar-se.
Ficámos fechados no quartel uns três ou quatro dias. Eu comecei a preocupar-me, a Ana estava quase a nascer e o comando revolucionário permitiu-me ir a casa. Fiquei extasiado com as manifestações que vi na rua e a que antes nunca tinha assistido, porque era sempre fugir à frente da polícia.
A festa durou mais perto de ano e meio. Estive lá no 28 de Setembro e no 11 de Março. Tive sempre a sensação de estar muito perto do poder. Na altura, desculpem-me que o diga, embirrava com os nove, gostava de Otelo. Mas o meu temperamento hesitante fazia-me sempre admirar Vasco Gonçalves, apesar de não gostar do PCP.
Pouco a pouco, fui vendo as pessoas cansarem-se da revolução, exigirem o regresso dos militares aos quartéis. Mas por que nos estavam a fazer aquilo, se nós só queríamos o melhor para elas? Vieram as eleições. O PS venceu e quando eu pensava que uma aliança com o PCP era o mais natural teimou em governar sozinho ou em aliar-se à direita. Uma coisa que nunca consegui perceber é porque é que o PS e o PCP nunca se entenderam para formar governo. A verdade é que, olhando hoje para as sociedades que seguiram o modelo de desenvolvimento soviético, confesso que não gostava nada daquilo. Mas o cinismo da sociedade burguesa é tão limitador, porquê ficar sujeito a estas opções?
No 25 de Novembro já tinha abandonado a vida militar. Vi de fora, com alguma tristeza, o desmoronar de um sonho em que procurava uma sociedade onde não existisse a exploração do homem pelo homem.
Mas ficou a liberdade formal. Antes não podia falar porque corria o risco de ser preso, agora posso gritar à vontade que ninguém me liga.
Eu também lá estava no 25 de Abril.
A participação foi muito humilde, mas serviu para ficar feliz da vida por uns tempos. Estava na Escola Prática de Administração Militar (EPAM) tinha concluído a especialidade e aguardava colocação noutra unidade como aspirante a oficial miliciano. Apesar do carácter ditatorial do regime, éramos uns senhores, pois deixavam-nos sair do quartel e vir dormir a casa. Comigo estavam muitos colegas de Económicas (o Albino, o Jorge (boisano), o Teixeira, o Angelo, o Gilberto e outros cujo nome não recordo). Não sabíamos de nada, quando acordei fui surpreendido pela rádio a anunciar o golpe e a dizer-nos para comparecermos no quartel. Lá fui com mil interrogações: seria um golpe da extrema direita de que tanto se falava?
No quartel sossegámos. Um oficial de alta patente informou-nos acerca das intenções e pediu a nossa participação. Deixou-nos a liberdade de sair ou ficar. Mais de 90% ficaram, dois ou três saíram. E começou a grande aventura. O boisano, tipo comando suicida, muniu-se de granadas à volta da cintura e foi dar uma ajuda para a RTP. A mim coube-me guardar os postos de sentinela da EPAM. Pela tarde começaram carros a passar com pessoas a saudar-nos e a fazer o V da vitória, lá mais para meio da tarde alguém gritava "ganhámos, ganhámos". Não ouvi um tiro, nem um insulto, só vi alegria nas pessoas. Pela noite, os dois ou três que tinham abandonado o quartel regressaram e foram recebidos com alegria. A vigilância ao quartel continuou. Mas logo nesse dia um camarada de armas me dizia que a revolução era uma coisa muito limitada, só iria trazer as liberdades formais. Mas eu não acreditava, sempre depositei muitas esperanças no Movimento, apesar de o primeiro contacto com a Junta de Salvação Nacional ter constituído um choque. Que faziam ali aqueles generais? As parecenças com a junta chilena fizeram-me pensar o pior o que felizmente não veio a verificar-se.
Ficámos fechados no quartel uns três ou quatro dias. Eu comecei a preocupar-me, a Ana estava quase a nascer e o comando revolucionário permitiu-me ir a casa. Fiquei extasiado com as manifestações que vi na rua e a que antes nunca tinha assistido, porque era sempre fugir à frente da polícia.
A festa durou mais perto de ano e meio. Estive lá no 28 de Setembro e no 11 de Março. Tive sempre a sensação de estar muito perto do poder. Na altura, desculpem-me que o diga, embirrava com os nove, gostava de Otelo. Mas o meu temperamento hesitante fazia-me sempre admirar Vasco Gonçalves, apesar de não gostar do PCP.
Pouco a pouco, fui vendo as pessoas cansarem-se da revolução, exigirem o regresso dos militares aos quartéis. Mas por que nos estavam a fazer aquilo, se nós só queríamos o melhor para elas? Vieram as eleições. O PS venceu e quando eu pensava que uma aliança com o PCP era o mais natural teimou em governar sozinho ou em aliar-se à direita. Uma coisa que nunca consegui perceber é porque é que o PS e o PCP nunca se entenderam para formar governo. A verdade é que, olhando hoje para as sociedades que seguiram o modelo de desenvolvimento soviético, confesso que não gostava nada daquilo. Mas o cinismo da sociedade burguesa é tão limitador, porquê ficar sujeito a estas opções?
No 25 de Novembro já tinha abandonado a vida militar. Vi de fora, com alguma tristeza, o desmoronar de um sonho em que procurava uma sociedade onde não existisse a exploração do homem pelo homem.
Mas ficou a liberdade formal. Antes não podia falar porque corria o risco de ser preso, agora posso gritar à vontade que ninguém me liga.
sábado, abril 03, 2004
sexta-feira, abril 02, 2004
Alegrem-se. Vêm aí o 25 de Abril
Daqui saudamos o forum O Gaiteiro e o blog O Castelo vai nu com os quais só hoje contactámos, mas que já vimos ter um link na nossa direcção.
Gostámos do que lemos, embora alguns termos usados no Gaiteiro choquem o mais avisado. Excessos de juventude... Esperemos que, independentemente da forma, façam um bom trabalho pela terra.
Entretanto, serve este para dizer que o Governo não caiu, mas estamos muito contentes. É que pela primeira vez fizemos uma pesquisa no google com palavras deste blog e ele foi encontrado. Sensacional. Durante meses tentámos e nunca conseguimos.
Agora, vamos procurar encontrar forças para continuar ou fazer algo para finalizar.
Gostámos do que lemos, embora alguns termos usados no Gaiteiro choquem o mais avisado. Excessos de juventude... Esperemos que, independentemente da forma, façam um bom trabalho pela terra.
Entretanto, serve este para dizer que o Governo não caiu, mas estamos muito contentes. É que pela primeira vez fizemos uma pesquisa no google com palavras deste blog e ele foi encontrado. Sensacional. Durante meses tentámos e nunca conseguimos.
Agora, vamos procurar encontrar forças para continuar ou fazer algo para finalizar.
sábado, setembro 06, 2003
Mas por que acabam as férias?
E cá estamos de novo...
Nós próximos dias, introduziremos mais texto neste blog agora que terminou esse magnífico período de descanso.
Este ano, mais uma vez, como é tradição de há quinze para cá, lá fomos até Cabanas, terra de mau cheiro, sem passeios para peões, onde alguns restaurantes se dão ao luxo de não servir clientes quando estão completamente vazios embora com as mesas marcadas. Esta é uma daquelas terras que um ano deveria ser boicotada até ficar em condições de receber bem quem a visita...
Mas o fascínio que exerce, faz com que deseje sempre voltar...
E cá estamos de novo...
Nós próximos dias, introduziremos mais texto neste blog agora que terminou esse magnífico período de descanso.
Este ano, mais uma vez, como é tradição de há quinze para cá, lá fomos até Cabanas, terra de mau cheiro, sem passeios para peões, onde alguns restaurantes se dão ao luxo de não servir clientes quando estão completamente vazios embora com as mesas marcadas. Esta é uma daquelas terras que um ano deveria ser boicotada até ficar em condições de receber bem quem a visita...
Mas o fascínio que exerce, faz com que deseje sempre voltar...
segunda-feira, agosto 18, 2003
Visado pela Comissão de Censura
Alguns artigos destinados ao Notícias de Ourém e ao Ourém e seu Concelho tiveram problemas com a censura. Aqui reproduzimos alguns dos que terão contribuído mais para as dificuldades dos que planeavam esses jornais.
O primeiro deles, A verdade da Ciência, é uma descrição de transformações ocorridas no meio universitário em finais dos anos sessenta início de setenta. Estou ainda a ver o Eduardo Graça a levantar-se no meio de uma sala cheia de estudantes atentos e a interpelar o sábio de momento. Recordo a luta imensa do Félix Ribeiro, do Ferro Rodrigues e de outros cujos nomes o esquecimento já levou para a transformação do ensino em Económicas numa altura em que era frequentemente visitada pelas forças da repressão.
A Faca e o Bolo é o modo como mais gosto de analisar a inflação: uma luta entre dois grupos sociais para se apossarem de uma fatia maior de um produto real que só pode pode aumentar pelo trabalho e não pela expressão monetária. Este artigo foi mesmo cortado pela comissão de censura vindo a ser publicado no Notícias de Ourém pouco depois do 25 de Abril.
Também escrevi algo sobre a situação política internacional, onde o socialismo, a ameaça de guerra nuclear e outros temas ofereciam perspectivas de reflexão.Uma das que me impressionou mais foi o exemplo do Chile. Apesar de não acreditar muito no socialismo em liberdade, tinha a secreta esperança… Tudo se veio a desmoronar com o canalha do Pinochet. Agora estou convencido que não podemos enveredar por este tipo de processos sem que exista um grande enriquecimento cultural entre as massas populares: provou-o o Chile, provou-o Portugal onde felizmente o contragolpe não foi tão violento. E depois de tudo aquilo, como me custou, quando estava na tropa e comentava o acontecido com o mancebo Amorim, algum tempo depois um militante trotskista, ouvir da boca dele: o que se passou no Chile foi uma miserável traição…
Termino com um artigo que nem viu a luz do dia em qualquer dos jornais da terra. Já não me lembro porquê. Também já não recordo os fundamentos do artigo embora reveja nele as paredes de Mafra e o magnífico retorno da semana de campo quando estávamos na EPAM e o 25 de Abril se avizinhava. Eu cantava, o Boisano dava o tom, o Sílvio era o político que sabia de tudo, estava também lá o Reis do futuro PS, o grande amigo Albino…
A verdade da ciência
Os sábios manifestavam-se por cima de um estrado desenhando estranhos arabescos numa pedra escura e ai daqueles que manifestassem qualquer dúvida pois logo encontrariam uma razão para o pôr na rua e tomar de ponta como se dizia na gíria onde o chumbo era o pra-to numero um e o terror dos condenados à situação de ouvintes classificados de bons e maus melhores e piores o que contribuía para os isolar mais uns dos outros guardando só para si as descobertas que as suas mentes opacas conseguiam atingir para no final mostrarem as habilidades esquecidas logo que passassem as grandes provas mas era assim que os sábios queriam desejosos de encontrarem entre a carneirada o sucessor directo da imagem e posição.
Um dia alguém ousou manifestar-se e foi o fim. O sábio logo o quis pôr na rua mas outros lhe seguiam as pisadas afirmando não quererem mais individualismo não acreditarem em verdades eternas a que só ele teria acesso odiarem o marranço quererem participar transformando aquelas sessões numa discussão onde o sábio seria orientador e eles participantes na busca da verdade pois esta não basta ser enunciada tem de ser demonstrada e discutida.
Foi assim que a terra passou a girar em torno de si própria e o sol se transformou numa estrela com movimento aparente.
Mas não se ficou por ai.
Os estudiosos de isolados reuniram-se em grupos transmitiram uns aos outros os conhecimentos granjeados discutiam entre si o que hoje era uma verdade cientes que amanhã ela se transformaria na discussão com outros grupos das conclusões atingidas.
E os sábios.
Pois os sábios de início desorientados a breve trecho com-preenderam estarem perante uma verdade desconhecida e sentiram que traçando directi-vas aos menos experimentados os seus esforços eram bem mais compensados pela alegria posta no trabalho e pelos seus resultados bem mais profícuos muito embora imensas vezes tivessem de descer do pedestal para aceitar conclusões melhor formuladas as quais em última análise contribuíam para aprenderem bastante mais.
Não terá sido tão fácil como se conta mas foram anos bem proveitosos para quem os viveu transmissores de um potencial critico que a carneirada nunca alcançaria.
L V
A FAcA e o BOLO
Ei-los prontos à repartição.
São dois homens: um produziu o bolo, o outro encomendou-lho.
As condições-em-que são sociais e pré-estabelecidas.
Mas para a repartição ambos acordaram uma coisa - ela far-se-ia por uma relação entre preço e peso.
o passado ensinou-os: aquele bolo que pesa 1 kg vale 2$00.
Qualquer deles precisa de parte do bolo, um para subsistir, outro para subsistir e mandar fazer outros bolos.
o primeiro pelo seu trabalho recebeu 1$00: por isso teve direito a metade do bolo.
Ei-lo que agora se dirige ao segundo para receber a sua parte.
Mas tem uma surpresa, o bolo já não custa 2$00 mas sim 3$00.
o seu espanto cresce ao mandar pesar o bolo: ele tem apenas l kg.
Resigna-se e leva para casa 1/3 do bolo.
Durante a noite matuta: como é possível que o seu trabalho valha menos que antes se o esforço foi o mesmo.
o cansaço apesar de tudo deixa-o vislumbrar uma saída.
E no próximo dia quando fez novo contrato já não quis um escudo mas sim dois.
E que esse dinheiro representa a divida que a sociedade tem perante ele, perante o seu trabalho; ela deverá ser paga com parte da riqueza que produziu.
A outra parte perante a alternativa de ganhar algo ou não ganhar nada acedeu.
Pagar-lhe-ia dois escudos pelo trabalho que ele incorporaria no bolo.
E este surgiu.
Pesava exactamente o mesmo, tinha o mesmo aspecto, forma e essência.
o dia da repartição.
Com Os seus 2$00, o-que-produziu-o-bolo dirigiu-se ao que lho encomendou.
Espanto!
O bolo já ndo custava 2$00 mas sim 6$00.
Tudo o mais era igual.
Ele desesperou: como era possível que recebesse mais e recebesse menos?
A noite pensaria no assunto.
Mas será que compreenderia que a sua parte não mudaria enquan-to o outro tivesse a faca e o... bolo na mão?
Mistério: porque sobem os preços?
NOTA Este artigo esteve para ser publicado no número 1920 de 12-5-73. Todavia, motivos de Censura impediram que, nessa data, viesse a público.
MURUROA
Apesar de toda a repulsa manifestada pela opinião pública, a França realizou mais uma experiência nuclear no Pacífico.
As suas elites defendem-na jogando com as necessidades de defesa e da construção de uma grande nação. A verdade é que há mais um candidato. ao rol das superpotências imperialistas.
Alguns jornais de direita classificaram os protestos de hipocrisia. O partido revisionista francês deu-lhes o Seu apoio verbal - mas uma vez no poder faria o mesmo.. Pois não segue ele as concepções de Brezner que foi há pouco aos Estados Unidos discutir a partilha das zonas de influência?
A paz nunca se construirá pelo medo, mas pela destruição das causas da guerra. Que são, no fim de contas, a exploração do homem pelo homem e de uma nação por outra.
De quem tem medo a classe dominante francesa? Pois dos países que explora, bem como dos seus operários em quem penetra a chama socialista. É contra eles que se constrói a bomba.
LV
Os dissuasores
Na cena política mundial, a China e a França resolveram assumir um novo papel. Assim enquanto as imperialistas dos Estados Unidos e os social - imperialistas (*) da União Soviética resolveram fazer um acordo para limitar as armas nucleares porque as que têm já lhes dão para se derreterem e derreterem os outros, o realismo daquelas duas potências levou-as a prosseguir a carreira por eles iniciada, argumentando pretenderem com isso dissuadir os grandes em relação à utilização de tão condenáveis instrumentos.
É como quem diz: se há fogo na floresta, deitem-lhe mais mato, porque arde mais depressa.
Aqui fica a questão: será que tal política vem impedir ou acelerar uma guerra nuclear?
(*): Social-imperialismo= socialismo nas palavras, imperialismo nos actos
LV
Olhos postos no Chile
O Chile é, por agora, um caso único na construção da sociedade
socialista, porque assenta na legalidade constituída. Uma coligação de forças socialistas conseguiu pacificamente atingir o poder e dar os pri-meiros passos para a sociedade nova. Os obstáculos são múltiplos desde o imperialismo norte-americano às forças reaccionárias nacionais
que, naturalmente, sentindo-se lesadas, impõem os maiores entraves, aproveitando toda a possível margem de manobra.
Algumas medidas de nacionalização e racionamento foram largamente contestadas. Os Estados Unidos que durante décadas sugaram os rendimentos do povo chileno, tentaram por todos os meios impedir a eleição do presidente Allende e posteriormente moveram um boicote formidável ao desenvolvimento da economia. As classes antes privilegiadas vieram bramar contra o racionamento tentando confundir o povo chileno, senhor de novas condições de vida, em relação aos seus verdadeiros interesses. Não querem deixar compreender que a escassez determina tal facto quando se pretende a igualdade.
Apesar do seu carácter, pequeno burguês e como tentativa de transição pacífica, para o povo chileno vai o nosso calor. Parece que uma revolta militar estalou, que o futuro não será tão brilhante como
o prometido, mas se não houvesse problemas resolver ninguém o tentaria. O que interessa é pelo menos o gérmen estar lá e lá permanecer, desenvolvendo-se.
A morte de Salvador Allende
O Chile caiu sob o jugo do fascismo. As forças reaccionárias que, sob a tutela dos Estados Unidos, tomaram ilegal e violentamente o poder, causando mais de um milhar de mor-tos, não tardaram muito a afirmar que o povo chileno estava farto da liberdade política. Por isso, vai de lhe oferecer a ditadura dos monopólios que o presidente sempre combatera e acabaria por o derrubar.
Sobre esse homem notável alguém disse: foi um político honesto, um marxista convicto e um homem integralmente bondoso.
Que o seu exemplo e os seus erros sirvam a todos os que se batem pela felicidade e libertação dos povos.
LV
A vi(o)la da loucura
Praguejante a viola ouvir-se-ia em toda a vila contando da tensão das vidas dos que nela se empenhavam (e não eram poucos admitindo estarem neles também os que a escutavam) não fossem as conventuais paredes brancas abertas ao meio por quebras que as separavam de outras iguais (vidas) numa simetria rígida que só as consciências de tão desiguais podiam quebrar apesar do empenhamento entendido como meio de chacota, libertação, frustração…
Viola, ó vila, ouvi-la.
Os corpos, sequestrados e doridos, lançavam para o ar o que no passado aprenderam por no presente o interesse ser reduzido, testemunho da sua aversão às novidades oferecidas as quais contudo os dominavam numa inutilidade só aparente para alguns e bem real para todos os outros que eram os que lá estavam por conta desses, violando na vila sem ouvi-la, lá onde as paredes eram mais grossas e vigiadas por gendarmes cuja missão era não deixar entrar ou sair sem todos os preceitos bem dedilhados agora em cordas que não se partiriam a não ser por revoltosos e vitoriosos.
Não há machado que corte
a raiz ao pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre…
Libertas, as vozes conduziam sonâmbulos para mundos bem diferentes cujos povos eram a antítese daquilo que eles eram, povos que paz-avam, onde a rádio quase diariamente diria "Rebentou a paz" e as crianças brincariam não com pistolas e tanques mas trocando frases de amor que, num Natal que só não se comemorava a 25 do 12, os pais lhes ofereceriam.
Tristes viram então: só rebenta a paz onde haja a guerra.
E a minha voz bem real trouxe-os ao momento que todos queríamos abandonar: "está na hora".
Fomos em direcção ao presente.
LV
Alguns artigos destinados ao Notícias de Ourém e ao Ourém e seu Concelho tiveram problemas com a censura. Aqui reproduzimos alguns dos que terão contribuído mais para as dificuldades dos que planeavam esses jornais.
O primeiro deles, A verdade da Ciência, é uma descrição de transformações ocorridas no meio universitário em finais dos anos sessenta início de setenta. Estou ainda a ver o Eduardo Graça a levantar-se no meio de uma sala cheia de estudantes atentos e a interpelar o sábio de momento. Recordo a luta imensa do Félix Ribeiro, do Ferro Rodrigues e de outros cujos nomes o esquecimento já levou para a transformação do ensino em Económicas numa altura em que era frequentemente visitada pelas forças da repressão.
A Faca e o Bolo é o modo como mais gosto de analisar a inflação: uma luta entre dois grupos sociais para se apossarem de uma fatia maior de um produto real que só pode pode aumentar pelo trabalho e não pela expressão monetária. Este artigo foi mesmo cortado pela comissão de censura vindo a ser publicado no Notícias de Ourém pouco depois do 25 de Abril.
Também escrevi algo sobre a situação política internacional, onde o socialismo, a ameaça de guerra nuclear e outros temas ofereciam perspectivas de reflexão.Uma das que me impressionou mais foi o exemplo do Chile. Apesar de não acreditar muito no socialismo em liberdade, tinha a secreta esperança… Tudo se veio a desmoronar com o canalha do Pinochet. Agora estou convencido que não podemos enveredar por este tipo de processos sem que exista um grande enriquecimento cultural entre as massas populares: provou-o o Chile, provou-o Portugal onde felizmente o contragolpe não foi tão violento. E depois de tudo aquilo, como me custou, quando estava na tropa e comentava o acontecido com o mancebo Amorim, algum tempo depois um militante trotskista, ouvir da boca dele: o que se passou no Chile foi uma miserável traição…
Termino com um artigo que nem viu a luz do dia em qualquer dos jornais da terra. Já não me lembro porquê. Também já não recordo os fundamentos do artigo embora reveja nele as paredes de Mafra e o magnífico retorno da semana de campo quando estávamos na EPAM e o 25 de Abril se avizinhava. Eu cantava, o Boisano dava o tom, o Sílvio era o político que sabia de tudo, estava também lá o Reis do futuro PS, o grande amigo Albino…
A verdade da ciência
Os sábios manifestavam-se por cima de um estrado desenhando estranhos arabescos numa pedra escura e ai daqueles que manifestassem qualquer dúvida pois logo encontrariam uma razão para o pôr na rua e tomar de ponta como se dizia na gíria onde o chumbo era o pra-to numero um e o terror dos condenados à situação de ouvintes classificados de bons e maus melhores e piores o que contribuía para os isolar mais uns dos outros guardando só para si as descobertas que as suas mentes opacas conseguiam atingir para no final mostrarem as habilidades esquecidas logo que passassem as grandes provas mas era assim que os sábios queriam desejosos de encontrarem entre a carneirada o sucessor directo da imagem e posição.
Um dia alguém ousou manifestar-se e foi o fim. O sábio logo o quis pôr na rua mas outros lhe seguiam as pisadas afirmando não quererem mais individualismo não acreditarem em verdades eternas a que só ele teria acesso odiarem o marranço quererem participar transformando aquelas sessões numa discussão onde o sábio seria orientador e eles participantes na busca da verdade pois esta não basta ser enunciada tem de ser demonstrada e discutida.
Foi assim que a terra passou a girar em torno de si própria e o sol se transformou numa estrela com movimento aparente.
Mas não se ficou por ai.
Os estudiosos de isolados reuniram-se em grupos transmitiram uns aos outros os conhecimentos granjeados discutiam entre si o que hoje era uma verdade cientes que amanhã ela se transformaria na discussão com outros grupos das conclusões atingidas.
E os sábios.
Pois os sábios de início desorientados a breve trecho com-preenderam estarem perante uma verdade desconhecida e sentiram que traçando directi-vas aos menos experimentados os seus esforços eram bem mais compensados pela alegria posta no trabalho e pelos seus resultados bem mais profícuos muito embora imensas vezes tivessem de descer do pedestal para aceitar conclusões melhor formuladas as quais em última análise contribuíam para aprenderem bastante mais.
Não terá sido tão fácil como se conta mas foram anos bem proveitosos para quem os viveu transmissores de um potencial critico que a carneirada nunca alcançaria.
L V
A FAcA e o BOLO
Ei-los prontos à repartição.
São dois homens: um produziu o bolo, o outro encomendou-lho.
As condições-em-que são sociais e pré-estabelecidas.
Mas para a repartição ambos acordaram uma coisa - ela far-se-ia por uma relação entre preço e peso.
o passado ensinou-os: aquele bolo que pesa 1 kg vale 2$00.
Qualquer deles precisa de parte do bolo, um para subsistir, outro para subsistir e mandar fazer outros bolos.
o primeiro pelo seu trabalho recebeu 1$00: por isso teve direito a metade do bolo.
Ei-lo que agora se dirige ao segundo para receber a sua parte.
Mas tem uma surpresa, o bolo já não custa 2$00 mas sim 3$00.
o seu espanto cresce ao mandar pesar o bolo: ele tem apenas l kg.
Resigna-se e leva para casa 1/3 do bolo.
Durante a noite matuta: como é possível que o seu trabalho valha menos que antes se o esforço foi o mesmo.
o cansaço apesar de tudo deixa-o vislumbrar uma saída.
E no próximo dia quando fez novo contrato já não quis um escudo mas sim dois.
E que esse dinheiro representa a divida que a sociedade tem perante ele, perante o seu trabalho; ela deverá ser paga com parte da riqueza que produziu.
A outra parte perante a alternativa de ganhar algo ou não ganhar nada acedeu.
Pagar-lhe-ia dois escudos pelo trabalho que ele incorporaria no bolo.
E este surgiu.
Pesava exactamente o mesmo, tinha o mesmo aspecto, forma e essência.
o dia da repartição.
Com Os seus 2$00, o-que-produziu-o-bolo dirigiu-se ao que lho encomendou.
Espanto!
O bolo já ndo custava 2$00 mas sim 6$00.
Tudo o mais era igual.
Ele desesperou: como era possível que recebesse mais e recebesse menos?
A noite pensaria no assunto.
Mas será que compreenderia que a sua parte não mudaria enquan-to o outro tivesse a faca e o... bolo na mão?
Mistério: porque sobem os preços?
NOTA Este artigo esteve para ser publicado no número 1920 de 12-5-73. Todavia, motivos de Censura impediram que, nessa data, viesse a público.
MURUROA
Apesar de toda a repulsa manifestada pela opinião pública, a França realizou mais uma experiência nuclear no Pacífico.
As suas elites defendem-na jogando com as necessidades de defesa e da construção de uma grande nação. A verdade é que há mais um candidato. ao rol das superpotências imperialistas.
Alguns jornais de direita classificaram os protestos de hipocrisia. O partido revisionista francês deu-lhes o Seu apoio verbal - mas uma vez no poder faria o mesmo.. Pois não segue ele as concepções de Brezner que foi há pouco aos Estados Unidos discutir a partilha das zonas de influência?
A paz nunca se construirá pelo medo, mas pela destruição das causas da guerra. Que são, no fim de contas, a exploração do homem pelo homem e de uma nação por outra.
De quem tem medo a classe dominante francesa? Pois dos países que explora, bem como dos seus operários em quem penetra a chama socialista. É contra eles que se constrói a bomba.
LV
Os dissuasores
Na cena política mundial, a China e a França resolveram assumir um novo papel. Assim enquanto as imperialistas dos Estados Unidos e os social - imperialistas (*) da União Soviética resolveram fazer um acordo para limitar as armas nucleares porque as que têm já lhes dão para se derreterem e derreterem os outros, o realismo daquelas duas potências levou-as a prosseguir a carreira por eles iniciada, argumentando pretenderem com isso dissuadir os grandes em relação à utilização de tão condenáveis instrumentos.
É como quem diz: se há fogo na floresta, deitem-lhe mais mato, porque arde mais depressa.
Aqui fica a questão: será que tal política vem impedir ou acelerar uma guerra nuclear?
(*): Social-imperialismo= socialismo nas palavras, imperialismo nos actos
LV
Olhos postos no Chile
O Chile é, por agora, um caso único na construção da sociedade
socialista, porque assenta na legalidade constituída. Uma coligação de forças socialistas conseguiu pacificamente atingir o poder e dar os pri-meiros passos para a sociedade nova. Os obstáculos são múltiplos desde o imperialismo norte-americano às forças reaccionárias nacionais
que, naturalmente, sentindo-se lesadas, impõem os maiores entraves, aproveitando toda a possível margem de manobra.
Algumas medidas de nacionalização e racionamento foram largamente contestadas. Os Estados Unidos que durante décadas sugaram os rendimentos do povo chileno, tentaram por todos os meios impedir a eleição do presidente Allende e posteriormente moveram um boicote formidável ao desenvolvimento da economia. As classes antes privilegiadas vieram bramar contra o racionamento tentando confundir o povo chileno, senhor de novas condições de vida, em relação aos seus verdadeiros interesses. Não querem deixar compreender que a escassez determina tal facto quando se pretende a igualdade.
Apesar do seu carácter, pequeno burguês e como tentativa de transição pacífica, para o povo chileno vai o nosso calor. Parece que uma revolta militar estalou, que o futuro não será tão brilhante como
o prometido, mas se não houvesse problemas resolver ninguém o tentaria. O que interessa é pelo menos o gérmen estar lá e lá permanecer, desenvolvendo-se.
A morte de Salvador Allende
O Chile caiu sob o jugo do fascismo. As forças reaccionárias que, sob a tutela dos Estados Unidos, tomaram ilegal e violentamente o poder, causando mais de um milhar de mor-tos, não tardaram muito a afirmar que o povo chileno estava farto da liberdade política. Por isso, vai de lhe oferecer a ditadura dos monopólios que o presidente sempre combatera e acabaria por o derrubar.
Sobre esse homem notável alguém disse: foi um político honesto, um marxista convicto e um homem integralmente bondoso.
Que o seu exemplo e os seus erros sirvam a todos os que se batem pela felicidade e libertação dos povos.
LV
A vi(o)la da loucura
Praguejante a viola ouvir-se-ia em toda a vila contando da tensão das vidas dos que nela se empenhavam (e não eram poucos admitindo estarem neles também os que a escutavam) não fossem as conventuais paredes brancas abertas ao meio por quebras que as separavam de outras iguais (vidas) numa simetria rígida que só as consciências de tão desiguais podiam quebrar apesar do empenhamento entendido como meio de chacota, libertação, frustração…
Viola, ó vila, ouvi-la.
Os corpos, sequestrados e doridos, lançavam para o ar o que no passado aprenderam por no presente o interesse ser reduzido, testemunho da sua aversão às novidades oferecidas as quais contudo os dominavam numa inutilidade só aparente para alguns e bem real para todos os outros que eram os que lá estavam por conta desses, violando na vila sem ouvi-la, lá onde as paredes eram mais grossas e vigiadas por gendarmes cuja missão era não deixar entrar ou sair sem todos os preceitos bem dedilhados agora em cordas que não se partiriam a não ser por revoltosos e vitoriosos.
Não há machado que corte
a raiz ao pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre…
Libertas, as vozes conduziam sonâmbulos para mundos bem diferentes cujos povos eram a antítese daquilo que eles eram, povos que paz-avam, onde a rádio quase diariamente diria "Rebentou a paz" e as crianças brincariam não com pistolas e tanques mas trocando frases de amor que, num Natal que só não se comemorava a 25 do 12, os pais lhes ofereceriam.
Tristes viram então: só rebenta a paz onde haja a guerra.
E a minha voz bem real trouxe-os ao momento que todos queríamos abandonar: "está na hora".
Fomos em direcção ao presente.
LV
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