sábado, maio 29, 2004

O encontro anual


1945.
Faltavam três anos para poder nascer e ainda não estava decidido onde iria ser a próxima passagem. Uns anos atrás, Kripton tinha explodido e os seus dirigentes enviaram uma nave para a Terra onde o seu filho foi acolhido. Esta era assim uma hipótese, mas estava em guerra o que não me agradava nada. Por essa altura o do bigode curto e braço estendido combinava uma saída airosa com a secretária para não enfrentar o veredicto da humanidade. É neste contexto que deparo com o que o pai de um distinto oureense escreveu no Notícias de Ourém e era mais ou menos assim:
"numa terra da América, um grupo de amigos reunia-se todos os anos num almoço, mas a morte fora-os levando um a um até que ficou apenas o último que, no entanto, continuou a almoçar no mesmo dia e no mesmo sítio em que se juntava com os amigos para perpetuar a paz e a estima que deveria existir entre os homens... se todos os ourienses deixarem de cumprir o seu dever, não comparecendo ao nosso almoço anual virei eu aqui ou a outro sítio, todos os anos, e almoçarei sozinho, pensando em vocês e na minha terra!"
Fiquei decidido. Viria para a Terra, mais propriamente para Ourém, terra do vinho palheto e do carneiro com batatas onde grupos de amigos privilegiavam os encontros anuais bem regados e comidos.
Mas atenção, desta vez não estou a falar no Poço, mas na Casa de Ourém cuja formação e desenvolvimento é reportada no livro Nos 50 anos da Casa de Ourém editado pelo Som da Tinta.

A mão enorme


Desloco-me do Largo de Castela na direcção da Câmara no meu carrinho de madeira novinho em folha. Trata-se de um pau tipo cabo de vassoura atravessado ao meio por um pequeno bocado de madeira e terminado numa extremidade por uma roda com uns vinte centímetros de diâmetro que funciona em torno de um eixo que atravessa o pau. Frente à prisão da GNR saúdo o simpático prisioneiro que teve a amabilidade de me oferecer aquilo que era produto da sua tentativa de passar o tempo o mais depressa possível. Como é possível pessoa tão boa estar ali dentro, atrás daquelas grades?
Chego junto à Câmara e sigo por trás, mais à frente viro à esquerda e continuo. Começo a ouvir o som que vem da escola do Roque daqueles que decoram tabuada:

um vezes um, um
um vezes dois, dois
um vezes três, três…

Fujo dali. Ena! Que coisa difícil.
Frente à porta principal da Câmara, viro na direcção da escada para o jardim que desço. Faço duas voltas em torno dele a uma velocidade razoável experimentando a suspensão e os travões. Tudo era magnífico, não fosse um carrinho novo em folha. Saio do jardim pelo lado direito de quem sobe e continuo a subir.
Perto da tesouraria algo chama a minha atenção no chão. Beatas de cigarro, centenas delas. Das mais diversas. Com filtro e sem filtro, grandes e pequenas. Naturalmente, isso dá-me uma excelente ideia. E, no dia seguinte, ali volto já sem o carrinho e com uma caixa de papelão na qual guardo cuidadosamente os melhores exemplares que transporto para casa.
Já em casa, na cozinha, desfaço cada um dos elementos recolhidos, liberto-me do papel e dos filtros e guardo os restos de tabaco. Tinha um móvel com várias prateleiras numa das quais uma abertura maior permitia que dois cântaros de barro guardassem e purificassem a água que bebíamos. Outra estava coberta com um bocadinho de pano e foi essa que escolhi para proteger o resultado do meu trabalho de olhares indiscretos. Esta operação foi repetida durante vários dias.

***

Estávamos todos a jantar na casa do largo de Castela. No final do delicioso repasto, o meu pai puxa de um Português Suave e goza aquele momento de repouso. Eu senti que podia mostrar-me ao seu nível. Fui buscar uma folha de papel, fui buscar bocadinhos de tabaco. Ele contemplava não sei se incrédulo, não sei se a observar até onde ia o meu descaramento.
Acendo o cigarro entretanto feito, tiro a primeira fumaça e envio-a para o ar sem engolir. Fico a contemplar aquela magnífica espiral enquanto aprecio o odor. De repente, no tecto aparece como que uma mão que desce na minha direcção. Não, meus amigos, não era a mão invisível do Adam Smith que aparecia ali para regular o mercado. Aquela era bem torneada, definida, enorme no sentido do comprimento e, se pretendia regular alguma coisa, era o meu comportamento. Tal mão parecia calejada de trabalho no campo, de anos de condução e se calhar de mecânica de automóveis. Era esquelética, mas enorme e a sua velocidade incrível. Sentado na cadeira, tento recuar, aterrorizado, mas a cadeira não deixava, fixava-se-me nas costas. Até que aquilo cai sobre mim com monumental estardalhaço.
Durante mais de uma dezena de anos não pequei num cigarro, até que distinto oureense, em Leiria, numa esplanada da praça Rodrigues Lobo me exorcizou de tão funesto receio.

sexta-feira, maio 28, 2004

Viva o bloco!

Estou danado.
Há dias deixei aqui um post sobre o Bloco de Esquerda, hoje fui à procura dele e não o encontro. Até tinha uma entrevista com o Miguel publicada no Correio da Manhã. Lembro-me que não gostei nada do título porque me recordou uma expressão do Vicente Jorge Silva utilizada há uns dez anos para caracterizar a juventude de então. O mesmo VJS que, há trinta e tal anos, no Comércio de Funchal desancava valentemente no Jardim.
Já não podemos confiar em nós próprios. Agora vou ter de ir aos meus arquivos e refazer tudo. E qual era o diabo daquele link?
Desisto, não fiz arquivos e a pesquisa no CM não ajuda nada.
E à direita?
Sou sectário, não ponho no meu blog nenhum link para o programa ou os candidatos da direita. Quem quiser que os descubra.
Apesar de tudo, devo dizer-vos que aprecio algumas dessas pessoas e alguns aspectos do discurso. Aprecio aquela ideia de que a Economia deve ser eficiente, estou de acordo quando se diz que uma empresa não tem de ser uma instituição de caridade, aplaudo quando se procura mais segurança para o cidadão.
Mas, meus amigos, trazer a insegurança do desemprego, abocanhar os descontos para a segurança social de quem trabalha a favor de interesses de sociedades financeiras não faz parte dos meus ideais.
Por isso, ignoro a propaganda da direita.
E, como disse, aprecio algumas pessoas.
O Prof. Marcelo, por exemplo, é um comunicador extraordinário. Durante muito tempo, esperei pelas suas intervenções na TVI, agora acho-o um pouco cansativo. A sua aula sobre o 25 de Abril foi excelente. É uma pessoa de direita, mas é pela liberdade, respeito-o.
Freitas do Amaral é outro político de direita que, após a derrota nas presidenciais, tem tido uma prática digna de registo. Mesmo antes, a sua clarividência, expressa nos seus discursos na Assembleia, era de realçar. É uma pena que um partido tão democrata como o que ajudou a formar não tenha capacidade para o integrar.
E Pacheco Pereira? É o que mais aprecio. A sua fisionomia lembra-me sistematicamente a de Karl Marx e, por vezes, a sua prática também. Marx, aos dezoito anos, já tinha escrito um livro em que criticava os hegelianos. Pacheco, perto dessa idade, editou uma história do movimento operário em Portugal. Um pouco mais velho, Marx escreveu o Manifesto do Partido Comunista. Pacheco não lhe ficou atrás. Há anos editou uma biografia de Álvaro Cunhal que, como sabem, foi um grande dirigente do nosso Partido Comunista. Finalmente, Marx escreveu a sua obra principal, o Capital, parte da qual teve uma edição póstuma. Que estará Pacheco a fazer? Quantos anos demorará uma nova obra a ver a luz do dia?
Em contrapartida, a direita tem aberrações anedóticas. Aquele Telmo Correia, aquele Guilherme não sei quantos, como é que alguém dá um mandato àqueles seres? Só o compreendo por disciplina partidária.
Olho para os candidatos de direita. Apesar daquela carinha simpática e lutadora que está ali para o quarto lugar, nenhum terá o meu voto, porque não o merece.
O Poço é, também, um hino à amizade

Desde 1986, realiza-se, em Ourém, no Sábado mais perto do dia 1 de Novembro, um encontro de velhos amigos que aproveitam para recordar brincadeiras e outros factos do passado na companhia de uma excelente refeição e convívio.
O significado de o poço pode parecer estranho a muitos. Trata-se de uma imagem criada para o facto de, há muitos anos, grupos desses amigos se reunirem em círculo perto do largo da feira do mês, junto à casa do Perdigão que tinha de ouvir conversas que lhe não interessavam até altas horas. O debate era aberto e não havia temas tabu, constituindo um claro sinal de uma vivência democrática numa sociedade que ainda não o era. Isto passou-se durante muito tempo e, como por lá passaram muitos oureenses, justificou as convocações.
O Poço já originou dezoito encontros, prevendo-se que, este ano, de novo se realizará e já tem um património acumulado de elementos extremamente interessantes. É o caso por exemplo da convocação personalizada à posteriori que aqui disponibilizo. Está pejada de mensagens e assinaturas. E, no interior, é possível encontrar-se um verdadeiro hino à amizade elaborado e assinado pelo Luís Nuno. Um documento inédito. É o caso também do texto das cartas de convocação que muitas vezes é um tratado de humor extremamente leve.
Talvez fosse interessante juntar e disponibilizar alguns dos elementos resultantes deste convívio. Há fotografias, há textos na imprensa da terra, sei lá...
Será que o Julito, tradicional dinamizador destas reuniões (sem desprimor e esquecimento para o Felix, infelizmente já desaparecido e o Zé Alberto), quererá dizer alguma coisa sobre isto?

quinta-feira, maio 27, 2004

Um voto pelo socialismo
Ficaria mal com a minha consciência, neste aproximar às europeias, se não me referisse ao PS uma vez que um voto nele é um voto no bloco que se opõe à fixação no défice, ao prosseguimento da política de desemprego, à desarticulação do estado previdência.
A política prosseguida pela direita só se preocupou com a diminuição do défice, mas foi tão desastrada que, pelo impacto na actividade económica, acabou por diminuir o PIB o que fez com que o racio défice/PIB não diminuísse, mantendo-se sistematicamente a necessidade de medidas extraordinárias.
Por outro lado, como sabem, tenho uma certa estima por Ferro Rodrigues a quem conheço desde os tempos de estudante como já contei. Nessa altura, tal como eu, ele tinha uns trinta kilitos a menos, usava um bigode muito fino que lhe dava um ar engraçado, aciganado naquelas reuniões em económicas e em ciências quando ele vociferava contra o Ministério e a política do governo acompanhando o Eduardo Graça e o Félix Ribeiro. Logo a seguir ao 25 de Abril foi um dirigente do MES uma organização de esquerda que me era extremamente simpática.
Ao longo da minha actividade profissional, quando trabalhava numa empresa de transportes, conheci Jorge Coelho e confesso que é uma pessoa extremamente simpática, trabalhadora, só tem o defeito de ser sportinguista. Mas tem aquela magnífica qualidade de nos falar quando nos cruzamos com ele na rua.
Quer dizer, a minha relação com o pessoal do PS tem sido sempre extremamente cortês. Não quero com isso dizer que me sinta particularmente feliz com a sua página e com os seus candidatos à Europa. Gosto imenso do Adriano Pimpão a quem também conheço de longa data, mas está colocado num lugar que me parece de difícil eleição.
Por outro lado, eu aprecio um socialismo assim um pouco mais radical, não com bombas e ditaduras condenáveis, mas com um pouco menos de conciliação com a burguesia e com as pessoas bem convencidas daquilo que se pretende construir para não haver arrependimentos a meio do percurso ou tendências para formação de burguesias de estado. Um socialismo com todo o respeito pela livre iniciativa e pelas liberdades, mas com uma certa submissão do desenvolvimento à satisfação de necessidades sociais. Um socialismo cuja construção pode inclusivamente ser apoiada em múltiplas perspectivas divergentes desde que não antagónicas, mantendo assim algumas estruturas políticas como aquelas que já conhecemos
Arquivos por categoria
Olho para o blog do Castelo e fico com uma inveja danada: agora até arquivos por categoria têm. Já não bastava aqueles comentários sempre ali ao lado dos textos, transmitindo-lhes uma vida que eu não consigo ver noutras ferramentas.
Isto de blogs é para quem sabe e não para nabos como eu.
Fred, Pedro, parabéns! Força nisso!
Doutoramento Honoris Causa
Não sei porquê convenci-me que o Dr. José da Silva Lopes é da região de Ourém.
Vem isto a propósito de, numa cerimónia muito bonita, O ISEG lhe ter atribuído aquela meritória distinção.
O discurso do homenageado foi extremamente interessante e, num momento em que alguns estudantes de Ourém têm de reflectir para fazer a sua opção por uma escola nas áreas de Economia, Gestão ou Matemática Aplicada às ditas, permito-me deixar aqui o último parágrafo:
Por mim, se eu voltasse a ter 17 anos e voltasse a ter as mesmas opções de escolha de um curso universitário que nessa idade se me apresentavam, voltaria a inscrever-me na escola do Quelhas, a que agora,com mais propriedade, deverei chamar escola das Francesinhas.
Será que o Sérgio Ribeiro, também muito ligado a esta escola, tem a mesma opinião?

O Piromaníaco

Recordo Ourém, há cinquenta anos, talvez lá para 1953/54 ou mesmo antes.
Desfrutava a magnífica casa do Largo de Castela.
A partir daquela janela sobre a porta de entrada, dominava todo o espaço circundante.
Em frente, a rua que conduz à avenida. Mais ou menos a cinquenta metros, ficava a casa da Vizinha e do Rafael. Ela era uma espécie de terceira mãe sempre pronta a proteger-me em momentos difíeis, ele um verdadeiro avôzinho que me levava a passear pelos pinhais e até ao rio para que, de lingrinhas, ultraleve e doentio, me transformasse em alguém forte e saudável.
Mais abaixo, a casa do Luís Nuno e do Zé Rito à frente da qual ficavam os quintais onde o sr. Isidro guardava as galinhas que transacionava. Ao fundo e, já a dar para a avenida, o estabelecimento comercial do sr. Adelino e, do outro lado da rua, um sítio onde me lembro que se comprava carvão.
O largo de Castela, famoso pelas formidáveis partidas de futebol que possibilitava, era rodeado por mais duas casas relativamente habitáveis e por outra em piores condições. À direita, era a padaria da Júlia padeira e do sr. Zé Maria, avós do Fernando e do João, dois miúdos ultra-arreliadores primos do Quim e do Julito. Ela era a fornecedora do magnífico pão que podíamos saborear na época; do lado esquerdo era a casa da Dona Aurora, mãe da Aurorita que me ensinou as primeiras letras e números.
Em frente à padaria e do outro lado da rua, numa casa que penso que ainda lá está, o Souto dedicava-se ao trabalho artesanal de construir jaulas em madeira, cortando pacientemente pequenos pausinhos e descacando-os com uma navalha para depois os assemblar em estruturas mais complexas. Eu passava horas e horas a contemplar esse trabalho, embevecido e sem pensar nos pobres animais que iam ali ser guardados e torturados.
Por vezes, o espectáculo a partir da casa era mais animado. Se não estou em erro, regularmente, pelo dia três, realizava-se a feira do mês no largo junto à escola da Dona Iria, perto da prisão da GNR. E a rua de Castela enchia-se das mais diversas espécies de animais - ovelhas, carneiros, cabritos, burros, vacas, mulas - que a desciam para se dirigirem ao largo da feira onde eram transacionados. O ruído dos chocalhos, a mistura dos sons produzidos pelos animais e pelas pessoas que os controlavam, o seu tropel eram magníficos dando a tudo aquilo uma sensação que de semelhante só se encontrava nos filmes do Oeste com as cavalgadas junto aos bisontes ou a manadas de gado tresmalhadas. Eu abria a porta e via todo aquele ondulado barulhento a passar. Depois era de novo o silêncio, a rua ficava um pouco suja com excrementos do tipo azeitona e, no mês seguinte, lá se repetia a história.
Mas o objectivo do nosso post de hoje é a casa do largo de Castela.
Vamos até lá e entremos.
Logo do lado direito, uma escada conduzia-nos à parte superior da casa. Subindo-a, há que fazer um ângulo de noventa graus à esquerda para termos acesso às várias divisões.
À direita, existia uma casa de banho com um anexo que, com uma escada, permitia o acesso ao sótão.
Em frente, era o quarto do meu irmão. Lembro-me que ele tinha uma cama de metal toda bonita, uma mesa de cabeceira onde religiosamente guardava a colecção do Mundo de Aventuras que eu, com a mania de tudo ler, e, aproveitando uma possibilidade de acesso retirando a gaveta superior, contribuí para destruir e uma pequena estante com um rádio onde, na época, se ouviam delícias como os folhetins do Tide e do Omo, adaptados por Alice Ogando e cujo começo era mais ou menos assim: Teatro Tide apresenta.... a gata...
Do lado esquerdo era o meu quarto, do qual tenho a primeira recordação desta minha passagem por este efémero planeta, onde tive a honra de conhecer os meus excelsos amigos, e que se resume simplesmente a isto: um acordar, sentindo qualquer coisa junto aos dedos que se ia desfazendo e que era, afinal, a parede do quarto que eu riscava com as unhas. Ao lado, era o quarto dos meus pais.
Na parte de baixo, a casa tinha menos divisões devido ao espaço que a monumental escada ocupava. Assim do lado esquerdo, tinha uma verdadeira sala de jantar, onde a minha mãe, à quinta-feira, escondia as tangerinas que eu depois me entretinha a procurar para meu exclusivo proveito.
Em frente, era a cozinha que tinha uma despensa relativamente grande. Na altura, ainda não tínhamos fogão a gaz, pelo que o fogareiro de petróleo e aquele fogareiro a carvão do tipo que se utiliza quando fazemos grelhados nas praias eram os mais usados. Assim, em minha casa, na despensa, havia sempre caruma e carvão. E um dia a contemplação daquela caruma deu-me uma brilhante ideia.
Estava sózinho na parte de baixo, ouvia-se o Tony de Matos:
O vendaval passou, nada mais resta...
e eu, pé ante pé, vou até à cozinha para me apoderar dos fósforos, dirigindo-me posteriormente para a despensa. Risquei o primeiro fósforo e, depois de aceso, atirei-o para cima das carumas.
Frustrado, vi que se apagou no ar, pelo que pensei logo em repetir a operação. Como não era muito corajoso, não me aproximei suficientemente e o resultado era sempre o mesmo: fumaça e algum cheiro...
E estava eu todo entretido nesta operação que, mais tarde, me lembraria o que possibilitou aquela cena de Nero a contemplar Roma, quando oiço a voz da minha mãe: Oh Luís! O que é que estás tu a fazer?
Gelei, fiquei paralizado. Só me ocorreu uma resposta: era para ouvir a sirene dos bombeiros...
Não sei se a a sova foi grande ou pequena, sei que deu para fugir de casa, ir até à casa da Vizinha, para me acolher à sua quase maternal protecção, dar umas voltas a fugir em torno da cama, enquanto a minha mãe, ainda relativamente jovem, me perseguia com algo na mão e que eu não queria que me fizesse chegar a roupa ao pelo.
A Vizinha, sempre conciliadora, lá conseguiu acalmá-la e o caso ficou por aqui depois de eu fazer mil promessas de que nunca mais repetiria tão valente feito.

quarta-feira, maio 26, 2004

O meu caderno preto


Folheio o magnífico livro oferecido pela Som da Tinta e da autoria do Dr. Durão. Passo pelas'tórias, vou até aos apontamentos.
Ali, na página 124, aparece
Do que eu me lembro…
A Vila há 50 anos
e é engraçado como um ligeiro desfazamento de gerações faz com que eu também já não recorde esta vila. Há passagens que se referem a momentos antes de eu ter nascido. E é neste contexto que posso interpretar alguma falha naquela lista dos Carros de Praça:
. Sabino
. António Chucha (da Silva Costa)
. Claudino
. Pícaro (Augusto)
. José Memória dos Santos (Cabeça Aguda)
. Chícharo (Francisco)
. António Flores
. António de Deus (chauffeur - o "Diabo")
Mas, dirão os meus amigos oureenses, falta lá alguém? É claro que falta, falta o nome do meu pai, José Vieira, que, lá para o década de quarenta, transportou o terrível ladrão Carvalhinho e as jóias e facas de que este se fazia acompanhar, e que o meu pai vislumbrava discretamente através do espelho retrovisor, num carro de referência, um magnífico Dodge que, quando estacionado, era o encanto do largo de Castela.
Pena estarmos perante uma edição póstuma, pois só o Dr. Durão poderia esclarecer este lapso inofensivo, mas, assim, irremediável.
Descobrir filões no meio da confusão musical

O Jó Rodrigues possuia algumas magníficas qualidades. A sua simpatia, a sua alegria faziam com que a sua visita a minha casa, num pequeno morro na rua Santa Teresinha, frente à do ZéQuim e ao lado da dos padrinhos do Rui Temido, fosse sempre muito bem acolhida pelos mais velhos.
Entre essas qualidades, destaco a que se referia ao seu sentido de audição musical: ele conseguia descobrir no meio das músicas, escondidas sob as vozes, os solos, as baterias, pequenas pérolas que, sem o seu apoio, a nós, sempre com um ouvido para o mais comercial com certeza escapariam. Era um autêntico songs mining. Isto fazia com que, muitas vezes, conseguisse transformar uma canção insuportável em algo em que nós abstraíamos daquelas partes fastidiosas para esperarmos pacientemente pela passagem maravilha.
Parece-me que estou a vê-lo. Um dia entra pela minha casa, sem bater como era nosso apanágio, sentamo-nos na sala interior e eis-me a ouvi-lo: estive a ouvir o Tell me you are coming back dos Stones e aquilo tem um solo que é um tratado. E lá íamos nós a procura do solo e ficávamos a adorar o disco. E se era difícil na época gostar dos Rolling Stones! Pessoalmente, só quatro ou cinco músicas dos ditos ultrapassaram o meu limiar e não era nenhuma daquela fase. Claro que gostei do Get off my Cloud e do Jumping Jack Flash, mas era mais dado a pequenas fugas à tradicional xunguice do grupo e por isso o que recordo melhor dos mesmos é o Ruby Tuesday, o If You need me, o She ‘s a rainbow e o Lady Jane. Mas o Jó lá me conseguiu pôr a procurar recentemente uma edição relativa à sua inesquecível descoberta.
Noutra ocasião, referiu-se a um conjunto que teve um êxito retumbante com apenas uma música: os Turtles e o Happy Together. Sabes, Luís, lá pelo meio, depois daquela parte mais rápida, quando eles começam de novo “Me and You...” aparece uma música de fundo tão linda como eu nunca ouvi. Hás-de ouvir.
E era bem verdade, tão verdade que nunca consegui esquecer esses pequenos pedacinhos da nossa maravilhosa vivência nem quem me ajudou a descobri-los.

terça-feira, maio 25, 2004

Ainda o encontro sobre blogs
Aquela cadeira vazia do encontro sobre blogs recorda-me sistematicamente o clip dos Travelling Wilburys realizado depois da morte de Roy Orbison, que por vezes aparece no VH1, em que os outros elementos da banda fizeram notar a sua contribuição pela presença de uma cadeira e da sua viola.
Felizmente o responsável do Gaiteiro está bem vivo pelo que o significado da cadeira só pode ser este: aquele lugar continuará à sua espera e contamos com a sua colaboração para uma Ourém Online.
Passear por Ourém
Finalmente, o acesso ao sítio da Câmara revelou-se algo proveitoso:

A Câmara Municipal de Ourém está a organizar dois passeios, um a pé (com o apoio da Quercus) e outro de bicicleta, pelo concelho.
Mais informações na Divisão de Educação, Desporto e Cultura da Câmara.


Consultando o texto linkado, descobre-se que estes (?)passeios serão Caminhadas pelo Agroal (11 de Julho), Caminhadas Percursos Históricos (22 de Agosto),Caminhada Rural (19 de Setembro).
Confesso que me é muito agradável ver a Câmara participar neste tipo de iniciativas. Mas tenho algumas interrogações:
- não se poderia ser mais objectivo e não falar em dois passeios quando, consultando o documento, aparecem três?
- não se poderia identificar o que é a pé e o que é de bicicleta?
- e que me perdoe o JAcinto Costa que cumpre o melhor possível a sua função, para quê este abuso de documentos em PDF quando o HTML serviria muito bem e não dificultaria o tratamento posterior por quem se quer referir à notícia?

Pesadelo
Podem roubar a taça
Podem roubar o segundo lugar
Mas nunca terão o sabor daqueles dois jogos muito bem ganhos.
MAis, a atitude daquele que, durante quase dois anos, teve conhecimento de uma ilegalidade e a guardou para tirar proveito dela no momento em que mais lhe conviesse, não abona a quem a tomou nem à classe a que pertence, antes é digna do mais profundo desprezo.
E eis como num encontro sobre blogs pode haver momentos de verdadeira boa disposição.

Falava-se talvez da minha fixação em Karl Marx.
Ou seria do défice democrático que me caracteriza e me leva a pretender excluir vozes salazarentas como a do famigerado LF?
A verdade é que não me esqueci de referir a monumental sova (jornalística) que levei da redação do Notícias de Ourém, há uns 29 anos, em momento de colisão ideológica. E do desgosto e receio provocados pelo 25 de Novembro.
Mas fiquemos por aqui. Podermos fazer isto e falar sobre isto sem que insinuem que escondemos armas de destruição massiva é, afinal, uma das grandes maravilhas da sociedade que temos.
Blogs d’Ourém
Comecemos, naturalmente, com uma recordação. Uma das primeiras vezes que terei ouvido essa magnífica música denominada Pedra Filosofal, interpretada pelo Manuel Freire, terá sido há uns trinta e cinco anos no programa Zip-Zip. Na altura, dezenas de jovens procuravam esse programa para, acompanhados por uma viola, apresentarem as suas canções ou versões de canções conhecidas. Lembro-me que, para além do Manuel, também lá esteve aquele magnífico vocalista dos Corsários de Apolo, de Leiria, o João Antunes, que teve a infelicidade de desaparecer na guerra colonial. O movimento foi tão forte que os seus participantes eram por vezes desdenhosamente referidos como baladeiros independentemente da sua qualidade e sem que eu atribua, neste momento, qualquer conotação pejorativa a este termo. Mas o que interessa aqui é que havia uma pergunta sacramental que a equipa Solnado-Cruz-Fialho-Martins deixava: "porque é que fazes isto?" E a resposta, apesar de clara, também nada tinha de inovador: "para comunicar...".
A verdade, meus amigos, é que os objectivos deste blog não ultrapassam essa simplicidade terminológica. Ourém é, como já escrevi, uma ferida aberta por uma separação inesperada que terá deixado coisas por dizer e por fazer. Ourém é, também, inquietação e desassossego: a cada momento que passa eu penso o que é que eles andarão hoje a destruir? E é esta associação entre o que em determinado momento teria feito para me reaproximar de Ourém e o desespero perante a prática fria de quem constroi destruindo o passado que justifica a minha atitude. Que fique bem claro: eu não sou contra o desenvolvimento de Ourém. Bem pelo contrário, pretendo que esse desenvolvimento seja forte e rápido e tenha um forte apoio em todas as camadas sociais e etárias.
Encontrei na tecnologia e nas facilidades associadas aos blogs um dos meios para me possibilitar a acção. Com efeito, optando por elas, não fico dependente das opiniões de um editor, não tenho que me dirigir a um jornal pedindo uma publicação e sujeitando-me a alguns entraves. Tenho liberdade de publicação. Não é que isso não aconteça com a imprensa de Ourém: entre 1972 e 1975 escrevi o que quis em qualquer dos jornais. Mas é diferente, não há datas, não há limitações para além daquelas que a minha consciência e o meu civismo me ditarem. Posso escrever um texto grande ou pequeno, posso criar e formatar o meu jornal como muito bem me apetecer. Há, no entanto, alguns riscos: o jornal tradicional tem logo um conjunto de dois ou três mil leitores a quem chega, este humilde blog ao princípio só é lido por quem o cria e é relativamente demorado até ser captado pelos diversos motores de pesquisa. Mas nem este aspecto me preocupou muito: é muito mais importante para mim dizer o que digo e deixá-lo registado do que ter acesso imediatamente a outras pessoas através de uma forma tradicional. É que o jornal desaparece e, naturalmente, esquece, o conteúdo do blog não: o que escrevi há um ano está aqui imediatamente e sempre disponível.
Há uns anos, quando tomei contacto com as potencialidades da Internet, logo pensei em criar uma página sobre Ourém. Custava-me a engolir que a minha colaboração com a imprensa local, há uns trinta anos, estivesse a ser, ou já tivesse sido, devorada por roedores e sentia que havia algo mais a dizer relacionado com algumas coisas de que gostava muito em Ourém e que sentia ameaçadas ou nem por isso. Idealizava páginas sobre o assunto, mas esbarrava sempre na questão do servidor. O blog tem este obstáculo resolvido. Eu escrevo, publico quando quero e, pelo menos até à data, tudo é à borla com a ferramenta que utilizo. Posso ainda simular e comemorar datas históricas como o acompanhamento que fiz este ano do aproximar do 25 de Abril, dando a ilusão de uma reprodução da situação.
Terceiro e último aspecto da questão: e como vai ser no futuro? Confesso que não sei. O tema a nossa Ourém esgota-se, esgota-se porque há outras coisas que podem ser importantes, mas não são a minha Ourém e isto tem que corresponder ao projecto para que foi criado. Assim quando os temas acabarem, só há uma solução: conscientemente, terminar e não deixar andar por aqui uma lengalenga saudosista a arrastar-se. Mas, mesmo nessas circunstâncias, existirá aí uma monumental vantagem do blog: o escrito aqui ficará sempre acessível através do seu endereço e cada post será susceptível de comentários pelos amigos de Ourém ou por essa magnífica malta que me foi dado conhecer no Sábado do encontro dos blogs.

segunda-feira, maio 24, 2004

Obrigado, Zé Oliveira


Foi dito e feito,
como vê.
Bastou ter papel a jeito
e reparar em você.

No cabelo gastei pouca tinta,
mas do bigode não direi tanto.
Quando a gente se requinta,
sai uma caricatura num instanto

Diga lá s'isto aí chegou
porque eu gosto de ter a certeza.
Se algo no envio falhou,
remediarei com presteza

Zé

domingo, maio 23, 2004

Gostei
Finalmente conheci aqueles que, mais recentemente, percorrem os cantinhos de que fui sendo desapossado: o Frederico, o Sérgio, o André, a Joana e o Pedro sobrinhos do meu querido amigo Ferraz. Isto é, o Castelo estava lá em peso.
Finalmente, dirigi a palavra a pessoas a quem conheço de vista há quase cinquenta anos e a quem nunca me tinha dirigido: o Sérgio Ribeiro, o Ginja…
Conheci outras pessoas de quem não me esquecerei: o João e o Zé Oliveira, o último teve o desplante de elaborar uma caricatura tendo-me por objecto.
Conheci os autores do livro sobre blogs: o Paulo Querido e o Luís Enes. Mas não era essa a minha maior preocupação.
Há que dizer que fui muito bem recebido pelo Som da Tinta. O espaço é excelente, tenho desejos de lá voltar. E ofereceram-me dois livros muito saborosos: os apontamentos do Dr. Durão e o primeiro volume dos cinquenta anos da Casa de Ourém. Voltaremos a estes textos.
Sei que o meu discurso foi um pouco desastrado. Aliás, como é sempre nestas ocasiões. Vou refazê-lo e pôr neste blog o que queria lá dizer. Se calhar já conhecem, mas nunca é errado arrumar as coisas.
Aprendi que é preciso fazer algo para ligar este nosso instrumento à comunidade onde se insere. Se isso tivesse sido feito, talvez a presença de distintos oureenses não tivesse sido tão fraca. Mas, reparem, este pode ser o outro lado da privacidade de que falámos e que, então, terá duas faces: eu posso querer fazer um blog e que não saibam quem sou, eu posso querer ir ver o que o outro escreveu e que não saibam que lá estive. Tudo é possível, por isso, para já, não desisto e continuarei esta crónica da destruição de Ourém. Apesar de ser verdade que a inspiração está um pouco por baixo.

quinta-feira, maio 20, 2004

Atenção, gloriosos descendentes, legítimos ou bastardos, de Oureana
Vetusta criatura, qual avô esclerosado e senil, se dirige para usar do direito de palavra, que esse ninguém lho quererá tirar, apesar de, detentor de quase centenária timidez, possuir mais jeito para o discurso escrito que para o discurso dito, num espaço magnífico situado, ali, no centro da agónica Ourém, com o curioso nome de “Som da Tinta” onde procurará expor as razões e as perspectivas de tão inofensivas mezinhas como as aqui publicadas e as vantagens e inconvenientes do meio que as suporta.
Leva consigo formosa descendente que em fotos tudo irá registar.
Lá, espera encontrar distintos oureenses e tantos outros que, não o sendo, tal se poderão tornar se por obras valorosas da sua indiferença se libertarem.
Para a ocasião sempre ser recordada, propõe desde já, para o final, um passeio simbólico do “Recanto Pitoresco” para o Largo de Castela e, ali, tirar fotografia de grupo bem frente à “Casa” que expressará o veemente repúdio pela política de descaracterização da nossa Ourém prosseguida pelos responsáveis autárquicos.
Assim, a palavra de ordem, para os distintos oureenses que queiram participar na união contra a destruição das poucas recordações que ainda restam, é: todos ao encontro de blogs.
E como à reflexão é algo que a todo o momento devemos dar atenção, à “Luz do Silêncio”, por algum tempo, se vai dar espaço.

quarta-feira, maio 19, 2004

Ourém, uma ferida

Tinha talvez os dezanove anos. Estava todo empenhado nas económicas e a saborear os primeiros textos subversivos quando a carta chegou: "Caro Luís, mudei de emprego. Quando voltares, deverás fazê-lo para Fátima. Alugámos lá uma casa…"
Ao princípio não me apercebi das consequências, mas ao fim de algum tempo, a ferida abriu.
Ourém já não era estar, Ourém era apenas passar.
Deixei de ver a malta amiga sempre que havia férias. Deixou de haver noitadas, bailaricos em garagens e em sótãos bem revestidos. Para mim ficou provada aquela ideia: quem desaparece, esquece.
Aos poucos deixei de aparecer. Umas vezes não os encontrava, outras já não podia ficar mais, a última camioneta era às dez para as sete. Um dia, levei o Anti-Dühring para o Avenida e alguém me diz: "andas a ler essas m...? Também és desses?" Outro dia, soube da morte do primeiro dos que já partiram….
Fechei-me em Fátima. Não fiz outros amigos. Como? Se aqueles os conhecia quase desde que tinham nascido?
Ler, ler, ler, escrever também um pouco. É que havia aquela sensação de que algo tinha ficado por dizer, e múltiplas coisas por fazer…

terça-feira, maio 18, 2004

Interrogações

Eis o belo e mais que cinquentenário edifício dos Correios, fruto de uma arquitectura bem característica, mas que, mais virado para questões do económico e do social, não sei classificar.
Nas traseiras do mesmo, não existia aquele soberbo edifício que hoje se vê, mas uma casinha com um quintal amplo onde o Pássaro e a Luzinha passavam deliciosas férias aproveitando para confraternizar com o maralhal. A sua contemplação sugere-me múltiplas questões.
Quem terá permitido aquela construção que, em vez de parede e tinta, ostenta tela nas costas? Porventura tanta tela e parede é para proteger o interior do Sol? Será aquela a orientação correcta? Não teria sido possível dar a tudo aquilo uma forma que o integrasse com o edifício dos correios? Não teria sido possível limitar-lhe a altura a um valor que não transportasse a quase noite eterna para a escola da Dona Iria?
Eis mais uma contribuição para a destruição impune do magnífico ambiente de uma povoação paradisiaca.
Mas esta divagação iniciou-se com o edificio dos correios. Reparem na sua varanda.
Lembro-me que, por vezes, àquele local assomavam três lindas meninas, três moiras encantadas, três formosas oureanas que podiam, assim, contemplar algumas maravilhas de Ourém: a igreja, o castelo, sei lá que mais.
E nós, distintos oureenses, da esplanada do Avenida, contemplávamo-las mordidos pela inveja de não nos ligarem nenhuma. Por que estariam ali? Por que não vinham até à esplanada?
Ourém é, assim, uma terra cheia de interrogações: as do presente e as do passado; as que ainda podem ter uma resposta, as que nunca a terão; as que interessam, porque podemos actuar positivamente sobre o meio em que vivemos e as que já não nos interessam de maneira nenhuma, pois há a consciência de não poder recuar no tempo.
E os erros que se podem aceitar por ingenuidade de quem decide não podem perpetuar-se no tempo. Mas parece-me que, ali para os lados do sítio onde era o cine-teatro de Vila Nova de Ourém, se está a preparar uma aberração algo semelhante.

segunda-feira, maio 17, 2004

Finalmente



Mas não parece mesmo o Atlético do nosso tempo?


O tiro saiu pela culatra


Naquela noite, distintos oureenses dirigiram-se para as imediações do cemitério, mais concretamente, para o pedacinho de pinhal entre a estrada que conduz ao dito e a estrada que liga Ourém a outras urbes. O objectivo era pregar um valente susto a todos os que entrassem ou saíssem da terra utilizando o meio de transporte dominante na época: a bicicleta.
K, cujo nome não divulgo para respeitar o segredo histórico (nesta época, em que são tão importantes o segredo de justiça, o segredo estatístico, o sigilo bancário não seria de bom tom actuar de outro modo), o maior conhecedor de tal produto em todo o século passado, retirou de dentro de uma caixinha um pedacinho de pólvora que colocou sobre uma pedra previamente limpa, formando um pequeno rastilho com perto de 20 centímetros e, no extremo, uma pequena aglomeração. J estava vigilante e a certa altura disse: prepara-te, vem aí alguém.
K sacou do fósforo e preparou-se para o acender. De repente, ouve-se a voz de J: fogo!
K acende o fósforo, aproxima-o do rastilho, vê-se ume pequena labareda, J dá saltos com os braços no ar e o ciclista desata a pedalar que nem um louco direito a Ourém.
Ena, pá! Que grande susto ele apanhou.
Decerto pensou que éramos fantasmas, temos de fazer com mais pólvora.
E K repetiu a preparação com mais pólvora. Pouco depois, eu avisei: vem aí outro.
K acende o fósforo e aproxima-o da pólvora, J esbraceja, ouvem-se gritos, a chama tinha sido muito maior, mas, ao mesmo tempo, sente-se um desconfortável cheiro a penugem de frango queimado. K grita ainda mais: Eh, pá! Lixei-me, estou todo queimado.
Efectivamente, o aspecto dele era horrível, o cheiro também não indiciava nada de bom.
Que havemos de fazer? Se pedimos ajuda, ainda nos descobrem.
E fomos pela rua que conduzia à Avenida. O desconforto de K era cada vez maior, a nossa atrapalhação não tinha nada de bom. Até que o valente K assumiu: eu vou para o hospital, vocês ficam aqui, depois encontramo-nos.
Acompanhámo-lo até perto do hospital. Aí recebeu os magníficos cuidados do excelente enfermeiro Cruz. Voltou passado um bom pedaço de tempo com a cabeça toda envolvida em ligadura: vou para casa, tenho que ficar assim durante uns meses.
Não o vimos durante dois ou três dias. Depois lá voltou ao Avenida para as sensacionais partidas de king. Ao fim de algum tempo, pôde tirar as ligaduras e vimos as lesões em quase toda a extensão. Estava todo pintado de vermelho com tintura ou mercúrio, já não sei precisar. Obviamente, o seu estado foi notícia durante alguns dias, mas, que eu saiba, tudo ficou bem calado e não pareceu mais do que um acidente doméstico.
K não foi afectado pelo que se passou, o seu desenvolvimento prosseguiu embora um pouco afastado de outros oureenses, ele sempre cultivou algo mais libertário, mais arquitectural. Mas esta recordação é património comum.



domingo, maio 16, 2004

Movimento Fátima a concelho
Ao assistir, impotente, ao modo como os pedaços de Ourém que me dizem alguma coisa são destroçados pelos que detêm o poder, obedecendo a um plano frio e rigoroso, imagino como se sentirá o desgraçado do palestiniano que vê os tanques de Sharon entrarem-lhe pela casa dentro…
e interrogo-me se não será legítima uma reacção proporcional: lutar por reduzir o município de Ourém a uma dimensão que possibilite aos que ali vivem ser quem define as condições do desenvolvimento do seu espaço.
Nestas condições, convenço-me que Ourém, ao se armar em semítico quanto ao número de freguesias a integrar, não soube lidar com a oportunidade estratégica de Fátima vir a ser sede de concelho. Esperemos que, em nova tentativa, saiam todos os que querem passar Ourém a bulldozer, mesmo que se fique reduzido a freguesias como as relacionadas com Seiça, Vilar, Atouguia, Gondemaria e Olival.
E, perante o renascer do movimento, seria de lançar uma providência cautelar destinada a suspender todas as demolições previstas pelo actual executivo.

sábado, maio 15, 2004

Recebi o primeiro documento eleitoral relativo às europeias. Por acaso, apelava ao vota na CDU.
Examino-o e vejo lá a cara bem conhecida do Sérgio Ribeiro.
Voltaremos ao assunto, mas ficam a saber que vou ter de pensar muito para decidir em quem votar.
Uma coisa é certa: na direita não voto, mas... à esquerda há opções de peso.
O certo é que fui à Internet ver a plataforma eleitoral comum. E garanto-vos que gostei...
Sábado, dia do Expresso, compras e relaxe.
Desta vez, Ourém vai ficar longe.
A minha leitura do jornal é quase sempre a mesma. Folhear, folhear até surgir algo de interessante e então ler verdadeiramente.
Desta vez não há grandes referências a espaços verdes.
Mas há algo que é tão bom que até parece estrangeiro: O milagre segundo Salomé.
A Clara fala sobre os maus tratos aos prisioneiros de guerra.
Relembra-se o atentado ao bisavô do futuro rei de Espanha, aquele que vai desposar a bonita Letizia.
Na última página do primeiro caderno, vejo aquela provocação do Rui Rio ao meu amigo Fidel. Bolas! Deixem o homem em paz. Percebo logo que querem oferecer aos cubanos a liberdade que levaram aos iraquianos. Até podem ter alguma razão, mas eu habituei-me de longa data a respeitar aquele povo e aquele dirigente. Talvez por ser dele a primeira obra política que li: A História me absolverá, um tratado que recomendo a todos os que hoje falam na liberdade para Cuba.
Já sei que vou levar tareia que nunca mais acaba. Mas sejam coerentes, deixem-me ter a minha opinião.
Afinal não foi do Expresso que retirei a ideia mais engraçada desta semana.
Terminado o mesmo, folheei a Visão e eis que, na última página, leio: O que hoje está mal não é culpa da Revolução, mas da Evolução e dos governos, sobretudo nos últimos 20 anos. Ora toma lá e não digas que vais daqui. E sabem quem foi o autor desta pequena maravilha? É verdade, Diogo Freitas do Amaral, esse mesmo, aquele que me deu um monumental gozo, há uma série de anos, ver perder as eleições para Soares.

sexta-feira, maio 14, 2004

Uma história de amor


Existem múltiplas razões para desejar que esta simpática construção se mantenha.
Dirão os meus amigos oureenses: lá vem ele com aquela saudade da juventude que já tresanda a bafio.
Não, meus amigos, mais uma vez, eu julgo que tenho razão.
Se bem me lembro era perto daquele local que noutros tempos tinha lugar a feira nova, conhecida oficialmente por feira de Santa Iria, mais ou menos entre os dias 25 de Outubro e Dia de Todos os Santos. O carrossel, com as suas girafas, cavalinhos e bancos, ficava mesmo colado à tesouraria da Câmara. Os automóveis de choque espalhavam-se a partir daí até ao posto da GNR. Mais abaixo, havia espaço para vendas típicas da ocasião e, no local onde surgiram aquelas habitações viradas para o jardim (e que eu tenho a sensação que não estão ali nada bem) o espaço era repartido por aviões, poço da morte, circo e povo. E por todo o lado surgiam charlatões a apregoar e vender os mais diversos produtos e serviços: E não leva só os cobertores, leva também este magnífico balde de plástico...
Ainda me recordo de como, no Domingo e na Quinta-feira, Ourém se enchia de gente que eu não fazia a menor ideia que existia. Pessoal de bicicleta e carroça. Gente com o guarda-chuva às costas, enfiado sobre a gola do casaco.
E lá em cima o depósito tudo vigiava bem atento.
Imaginemos um desses dias de festa. O carrossel anda as voltas carregado de miudagem. Os cobradores entram e saem enquanto a sua música anima o ambiente. Ouve-se o Poetry emotion, mas ao mesmo tempo nos carrinhos de choque dá o I only want to be with you. O pessoal anda animadíssimo de um lado para o outro. As detonações dos que se divertem a testar o músculo com aquele carro pesadíssimo por vezes introduzem uma nota mais assustadora.
O dinheiro da juventude não era muito pelo que as diversões em termos gerais eram fundamentalmente duas: andar no carrossel, carrinhos de choque ou outro e ver quem andava no carrossel, carrinhos de choque, ou outro...
E foi num desses exercícios de contemplação que demos pela coisa. De repente, a música deixa de ser a que era e ouve-se a voz de Justin Hayword: Nights in white satin, never reaching the end, letters I’ve written, never meaning to send... Yes, I love You...
Um distinto oureense, senhor de excelente figura e muita lata, acaba de cair nas boas graças de uma linda menina com a qual vai passear nos carrinhos de choque. E foram dias e dias a apreciar esta história. Ela era linda de morrer, ele fez inveja a todos os que os viram.
O tempo passou, pouco ou nada sei deles, mas sei que aquele velho depósito registou esta história toda, porque nem por um minuto dali saiu. Por isso, não deve ser abatido.

quinta-feira, maio 13, 2004

A alma dos Beatles
Ele vem aí para o Rock in Rio. Mas acreditem que não estarei lá para o ver e o ouvir, àquele que ontem cantava uma espécie de deixa lá.
Distintos oureenses recordam com certeza a minha fixação nas canções dos Beatles, em tudo semelhante à daquela senhora no défice, assim estranharão uma entrada como a anterior.
Tenho as minhas razões.
Reparem na podução de cada um dos elementos do grupo após a separação.
McCartney elaborou dezenas de canções mas, com excepção de Mull of Kyntire ou Let me roll it, nenhuma terá atingido o estatuto do que acontecia com as do grupo. Mesmo na companhia dos Wings, o que aqueles concertos parecem é uma sessão de gritos, vozes esganiçadas, saltos, olhos a abrir e a fechar, caretas e cabeça a dar para a esquerda e para a direita.
Lennon não foi tão produtivo, mas deixou-nos o imortal Imagine e o fabuloso Jealous Guy a que acabámos por dar mais atenção a partir de uma homenagem proporcionada pelos Roxy Music.
Ringo, com o seu ar displicente, rodeou-se de bons músicos, procurou duas ou três canções de sucesso e para aí anda a recordar velhos tempos.
Põe-se então a questão: por que eram eles criadores tão dotados em grupo e isoladamente pouco fizeram que se possa comparar com aquele fabuloso ano de 1964 e alguns dos que se seguiram até à separação?
Harrison deu uma resposta: com esta (a separação), a alma dos Beatles ter-se-ia transferido para os Monty Python.
Não sei como é que ele se convenceu deste disparate, a verdade é que não estou de maneira nenhuma de acordo.
Voltemos às canções dos Beatles. Recordemos Something. Não terá algo de arrepiante? Haverá solos mais bonitos do que os de While my Guitar...?
Por que é que as canções tinham um ritmo, uma força que não é comum às dos elementos isolados?
Atentem na autoria das duas canções mencionadas. Não é de Lennon-McCartney como era vulgar surgir, mas de Harrison.
Então atrevo-me a concluir, eles permitiam-lhe que trabalhasse nos arranjos, eles serviam-se da sua capacidade instrumental, eles aproveitavam a sua tendência para a inovação a nível de sonoridade, mas, em termos de criação, abafavam-no e sujeitaram-no ao seu despotismo esclarecido, suportado pela feitura dos primeiros êxitos. Por alguma razão, é já numa fase de decadência, que ele consegue contribuir com mais de uma boa canção para um excelente álbum: Abbey Road.
Efectivamente, o génio de Harrison só veio a revelar-se posteriormente à separação. Isso aconteceu em múltiplas novas canções que em tudo recordam o som anterior do conjunto, ele é sem dúvida o que mais se aproxima do que o grupo transmitia. Aconteceu, também, com novas versões daquelas com que tinha contribuído para o êxito do grupo nas quais foi acompanhado por um grupo de amigos que cada vez mais me fazem lembrar aqueles com quem anualmente nos reunimos no Poço. Aconteceu, finalmente, no álbum gravado com o filho e editado a título póstumo.
Ouvir os solos fabulosos de Clapton no concerto no Japão insertos naquelas duas canções dá-me um extraordinário prazer. Ouvir a contribuição do George para aquelas outras canções feitas posteriormente pelo grupo de novo reunido com a voz do defunto John a surgir como que das profundezas é sem dúvida excelente. Deliciar-me com uma versão country do While my guitar inserta na Antologia mostra-me que uma grande canção poderá assumir múltiplas formas.
Mas o que mais me comoveu, aquilo que eu andei dias seguidos a ver e ouvir sempre com imenso gosto, sujeitando a família à produção de protestos por tamanha esquizofrenia, foi aquela monumental homenagem a Harrison, documentada no DVD Concert for George, onde o testemunho da amizade a alguém que já partiu foi feita com uma competência extrema e com uma emoção que a todo o momento se transmite ao espectador, demonstrou que pode ser suportado por momentos de alegria que em nada ofendem a memória dos que já partiram e me levou a conhecer mais uma contribuição do património de Harrison que desconhecia e que me surgiu pela voz de Clapton: Beware of darkness.
Então, voltemos aos nossos amigos já desaparecidos. O que se diz deles, o que se conta sobre as suas acções, as pequenas brincadeiras recordadas são a demonstração que eles estão junto de nós, pelo menos dos que os recordam sempre: ao Zé Manel, ao Jó Rodrigues, ao Vitor Guerra, ao Luís Nuno, ao Félix.Ao mesmo tempo constatamos que estão, cada vez mais, em melhor companhia: Lennon, Adriano, Zeca, Harrison...
É óbvio que nos é impossível fazer uma homenagem como a prestada a Harrison aos nossos amigos de Ourém que já partiram, mas ver e ouvir tal documento é com certeza a fonte de um bom conjunto de recordações acerca deles e, por isso, naturalmente, recomendável.

quarta-feira, maio 12, 2004

É assim mesmo, Nuno
O Nuno tem vindo a testemunhar no Gaiteiro e no Castelo a sua raiva e a sua dor pelo facto de alguém lhe ter atropelado o pai e se ter afastado do local e tem criticado a ausência de medidas para evitar futuros casos.
Isto aconteceu passado um ou dois dias sobre aqui termos colocado o post A Cruz Branca que associámos (ao que parece erradamente) a uma tentativa de aumentar a velocidade na estrada Ourém-Tomar.
Eu acho que a atitude do Nuno é positiva para todos nós. Com o seu testemunho ele está a contribuir para que algo seja feito de forma a evitar estas coisas no futuro. E da discussão havida no Gaiteiro já se detectou a necessidade de acções de efeitos imediatos e de efeitos a longo prazo.
Terá efeito imediato a colocação de semáforos e de todo o tipo de reguladores que vise não permitir o aumento de velocidade ou que procure castigar o transgressor.
Terá efeito de longo prazo a aposta no civismo: não se transforma uma besta numa pessoa educada de um dia para o outro, ou mesmo de um ano para o outro. É preciso muito trabalho, talvez trabalho de gerações, a começar nos bancos de escola, pelo que se nos ficamos por esse aspecto equivale a deixar tudo na mesma.
Conheço o modo como se circula nas estradas em torno de Ourém , no interior de localidades onde essas estradas nasceram para o passeio, ali mesmo à porta das pessoas e não para o acelerador. Mas as pessoas, inebriadas com os feitos nas auto-estradas, pensam que ali os podem repetir e é o que se vê.
Oureenses, há que exigir medidas de curto prazo. Só elas garantirão a liberdade de circulação e de fruição dos bons espaços que ainda temos, isto é, a liberdade de todos e não apenas a daqueles que são mais pesados, a daqueles que atiram o carro para cima de nós nas passadeiras porque sabem que não nos queremos magoar.
Força, Nuno! E rápidas melhoras para o teu pai.
Invocação às musas oureanas
Isto vai cada vez pior. A inspiração diminui pelo que começam a surgir grandes dificuldades para actualizar este documento. É o castigo para quem vive de recordações e de ataques aos que lhe querem sepultar o passado.
Mão amiga enviou-nos o texto que hoje disponibilizamos o qual é certamente produto de um autor (anónimo) da minha geração ou da sua vizinhança, isto é, do segundo ou terceiro quartel do´século passado.
Tem aquele monumental defeito de ter a mania que no nosso tempo é que era bom. Mas tem piada, reflecte verdadeiramente um certo modo de vida, por isso, leiam-no dando-lhe o necessário desconto.

PARA OS QUE PASSARAM A BARREIRA DOS 25 - NÓS TIVEMOS SORTE!!!...

Para quem já tem mais de 25 anos...faz pensar que até tivemos sorte....
Olhando para trás, é difícil acreditar que estejamos vivos.
Nós viajávamos em carros sem cintos de segurança ou air bag. Não tivemos nenhuma tampa à prova de crianças em frascos de remédios, portas, ou armários e andávamos de bicicleta sem capacete, sem contar que pedíamos boleia.
Bebíamos água directamente da mangueira e não da garrafa.
Gastámos horas a construir os nossos carrinhos de rolamentos para descer ladeira abaixo e só então descobríamos que nos tínhamos esquecido dos travões.
Depois de colidir com algumas árvores, aprendemos a resolver o problema.
Saíamos de casa de manhã, brincávamos o dia inteiro, e só voltávamos quando se acendiam as luzes da rua.
Ninguém nos podia localizar. Não havia telemóveis.
Nós partimos ossos e dentes, e não havia nenhuma lei para punir os culpados. Eram acidentes.
Ninguém para culpar, só a nós próprios.
Tivemos brigas, esmurrámo-nos uns aos outros e aprendemos a superar isto.
Comemos doces e bebemos refrigerantes mas não éramos gordos.
Estávamos sempre ao ar livre, a correr e a brincar. Compartilhamos garrafas de refrigerante e ninguém morreu por causa disso.
Não tivemos Playstations, Nintendos e toda a parafernália de jogos de vídeo, nem 99 canais de TV Cabo, som surround, telemóveis, computadores ou Internet.
Nós tivemos amigos!
Saíamos e íamos ter com eles. Íamos de bicicleta ou a pé até casa deles e batíamos à porta. Imaginem tal coisa... sem pedir autorização aos pais nem a ninguém, por nós mesmos!
Lá fora, no mundo cruel! Sem nenhum responsável!
Como conseguimos fazer isto?
Fizemos jogos com bastões e bolas de ténis e comemos minhocas e, embora nos tenham dito que aconteceria, nunca nos caíram os olhos ou as minhocas ficaram vivas na nossa barriga para sempre.
Nos jogos da escola, nem toda a gente fazia parte da equipa.
Os que não fizeram, tiveram que aprender a lidar com a decepção... sem psicólogos!
Alguns estudantes não eram tão inteligentes quanto os outros.
Eles repetiam o ano!
Não inventavam testes extra.
Éramos responsáveis pelas nossas acções e arcávamos com as consequências.
Não havia ninguém que pudesse resolver isso.
A ideia de um pai a proteger-nos, se desrespeitássemos alguma lei, era inadmissível!
Os pais protegiam as leis! Imaginem!
A nossa geração produziu alguns dos melhores compradores de risco, criadores de soluções e inventores.
Os últimos 50 anos foram uma explosão de inovações e novas ideias.
Tivemos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade, e aprendemos a lidar com isso.
Tu és um deles. Parabéns!
Passem isto para outros que tiveram a sorte de crescer como crianças!!!!


terça-feira, maio 11, 2004

Racismo e Xenofobia
A pobre miúda não ganhou para o susto.
A Carla é uma trabalhadora administrativa nas piscinas municipais de uma terra não muito longe de nós, Santa Marta de Penaguião, e estava no local errado no momento do assalto. O caso foi relatado pela TVI, no domingo à noite, antes do Prof. Marcelo.
Agrediram-na, esfaquearam-na e, não contentes com isso, regaram-na com gasolina com a intenção de lhe pegarem fogo. Salvou-a o facto de alguém andar nas imediações e os manguelas acabaram por fugir com os trezentos euros relativos ao feito.
Os executantes de tão valente acto foram identificados como romenos.

Irmãos de esquerda, vou ser politicamente incorrecto, não estou nada contente com a multiplicação deste conjunto de acontecimentos. A minha preocupação não é propriamente uma obcessão com a segurança, mas espelha a minha perplexidade pelo que vai ganhando forma neste país. Cada vez mais somos sujeitos a barbaridades como as relatadas e não se vê qualquer acção para as prevenir ou combater. Assim, os meus sentimentos de racismo e xenofobia têm crescido exponencialmente. Há dois anos ainda tive alguma esperança que o Paulo fosse para a Administração Interna, mas o nosso querido primeiro pô-lo a mascar pastilha elástica, a brincar às guerras e com submarinos, assim não temos ninguém que tenha a coragem de fazer aquilo que o PS não é capaz quando lá está.

Há alguns anos, fui eu. Ia para casa, todo contente, bem cansadinho, pelos 21.30 h, depois de um dia bem trabalhado quando, no comboio, um bando de indivíduos de alma e pele muito negras me deu uma monumental sova e me mandou para o hospital de olho ao peito e a sangrar. Depois lá veio a Polícia, com aquele arzinho muito compungido, para tomar conta da ocorrência.

Fico fulo quando assisto a casos destes. Fulo com a polícia e GNR que só servem para tomar conta da ocorrência, e que não servem para evitar a ocorrência. Uma coisa que me interrogo dezenas de vezes é porque é que as forças da ordem (?) só aparecem para malhar nas pessoas quando são manifestações de estudantes e desempregados, que mal especial é que estes fizeram? Quando há notícia de um gang do tipo do relatado, fazem o possível para aparecer depois ou para estar ocupados com a multa do mal estacionado.

Mas a minha indignação tem de ir mais longe. Nada me move contra os imigrantes, idêntica raiva me move contra os nacionais que praticam tal vandalismo, mas o que é que esta canalha como a que maltratou a miúda, vem fazer para o nosso país? Porque não os agarram e os põem lá nos maravilhosos países de onde saíram? Quem quer viver connosco tem que aprender a respeitar o nosso modo de ser e a comportar-se decentemente. Pode pôr em causa o sistema económico e político, mas não tem que vir estoirar com as boas relações entre as pessoas, isto é, com uma vivência que não precisa nada do mau contributo deles.

Ourém ainda é um sítio pacato, pouca notícia existe sobre estas coisas, mas o Norte é uma desgraça e, mesmo aqui, na minha localidade habitual, Parede, a saída à rua já é uma aventura quase radical. Há mais de 25 anos que todas as noites faço um percurso de pouco mais de um Km para beber café e andar um bocado. Sempre correu bem, mas recentemente, aparece-me cada manguelas mais esquisito a meio do caminho ou de automóvel que começo a ter receio de tal passeio. É o aspecto, é o som, é o comportamento, é o movimento, são as companhias tudo isto se tem degradado em escala assustadora. O mesmo deve passar-se com outras pessoas que cada vez menos se atrevem a sair à rua sozinhas a partir de certa hora. Isto é uma maravilha, mas, com esta escumalha, mete respeito.

Peço desculpa por este desabafo. Sei que existem razões muito para além daquelas que conhecemos para justificar tais coisas. Mas não as posso esquecer, nem desculpar. Se isto é a Europa, bem podem parar já. E compreendo perfeitamente se o povo começar a dar a esses agentes da barbarie o tratamento que merecem e que a justiça parece ter relutância em assumir. Há que correr com eles daqui para fora! Não são dignos do país por que tanto lutámos para lhes oferecer de bandeja e eles estragarem.


segunda-feira, maio 10, 2004

Salvem a Costa Vicentina
Recebi do ZeQuim um mail com pedido de divulgação sobre algo que se está a preparar para a descaracterização do Algarve e onde se faz uma referência à vaga de incêndios do ano passado. Como sou todo pela natureza, como ainda há dias ouvi o sr. Ministro confessar uma real impotência perante a eventualidade de uma vaga de incêndios semelhante aqui fica o documento por completo sem outro tratamento que tirar pequenas partículas introduzidas pelo mail. Chamo ainda a atenção dos oureenses sobre a existência de uma petição que circula pela NET e que pode ser assinada. Força! Não podemos deixar descansados os agentes da destruição.

-----Mensagem original-----
De: Gustavo Coelho [mailto:gjdc@netcabo.pt]
Enviada: segunda-feira, 10 de Maio de 2004 15:48
Para: Recipient list suppressed
Assunto: FW: Salvem a Costa Vicentina


Caríssimos,

Percam um minuto para lerem esta carta e enviem este mail para as pessoas que se possam preocupar com a natureza.

Saiu no passado Sábado, na revista Única do Expresso, um artigo de Luísa Schmidt a alertar para a degradação do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.
Em resumo fala-se de áreas que se pretendem desanexar da reserva natural (para promoção, construção imobiliária e turismo),da inexistência de políticas destinadas às populações residentes em zonas protegidas e da incúria do Estado.
Por tudo isto corre na Net uma petição ao ministro do Ambiente para recordar o Estado dos direitos dos cidadãos.
http://www.petitiononline.com/sudoeste/petition.html
Seria bom que em vez de chorar sobre leite derramado (tal como na vaga de incêndios), a sociedade civil agisse a tempo e horas e fizesse valer a sua posição.
Não queremos outro Algarve. Queremos?

PS: Se fizeres fw deste mail não terás a felicidade eterna, mas pelo menos terás a consciência de que estás a contribuir para tentar melhorar Portugal.




Dar a Cara

Constituí a minha biblioteca de textos de Marx e Engels fundamentalmente entre os anos de 1968 a 1972. Tudo começou em Económicas com a luta estudantil, o surgimento dos primeiros textos subversivos editados pela Associação de Estudantes como o Contra a Fábrica ou outros deixados pelos corredores com a imagem de Marx a indicarem algo sobre o conteúdo.
Pouco a pouco, fui conhecendo lugares onde podia descobrir as obras básicas do Marxismo, subtilmente expostas: o cantinho da Barata, a Portugal, a Sá da Costa, a Livrelco... Os anos ajudaram a sobrepor essas leituras àquelas que fazia antes e que se baseavam dominantemente em banda desenhada e nos textos de livros que as elites diziam ser de má qualidade e de que guardei alguns exemplares bem saborosos.
Em minha casa, tenho toda uma série de recordações desses tempos, dessas leituras. Mas isto faz-me voltar a outros que considerava monumentais secas e era obrigado a ler quando estudava, como os Lusíadas, ou os de Júlio Dinis, apesar de sempre sentir um fraquinho pela prosa de Camilo, especialmente depois de ver, no cine teatro de Ourém, o Amor de Perdição ou de deparar com introduções como esta: era tão linda a Rosa do Adro....
E recordo os esforços monumentais de um professor, o Dr. Laranjeira, para nós entrarmos nestas obras, o que o levava a distribuir as personagens pelos alunos dando, desde logo, um outro interesse, uma outra vida, à leitura, como naquela obra de Garret que atinge o máximo da emoção no momento em que aquele que regressa, sem ninguém o reconhecer, é submetido à tão conhecida questão:
- Quem és tu, romeiro?
E eu, apontando aquele figura difusa que ostenta um jaquetão em tudo semelhante aos que terão sido usado pelo Jó Rodrigues, pelo Zé Manel e pelo Rui Temido, que mostra uma magreza sem limites ao ponto de o seu pescoço ser substituído por uma chaveta, mas hoje já transportando mais uns trinta quilinhos em cima, que encontra em Marx os fundamentos da interpretação que faz do social e de uma concepção que procura mais justiça, mais verdade e eliminar a exploraçãoe a corrupção, mas que também se revê nas maravilhosas aventuras daquela figura galante, criada por Salinas, que cortejou a Lucy, a Silvia e a Flor Vermelha, ou daquela outra, cujo autor foi Raymond, e que viajou pelo planeta Mongo onde resistiu à rainha Fria e consumou o seu amor pela Dale, respondia:
- Aquele....

domingo, maio 09, 2004

Revisitar o Avenida a partir da Marina


Ali, no local mais espaçoso que hoje é ocupado pela Marina, existiu, em tempos, um exemplo de bom gosto, algo de maravilhoso, o café Avenida.
Façamos um pequeno exercício com o que, actualmente, lá vemos.
Logo após a entrada, contemplemos o que se situa à esquerda, isto é, o sítio onde hoje se vendem jornais. Esse local era ocupado por cerca de quatro mesas em que as que se situavam mais perto da parede eram apoiadas por um banco corrido. Posso garantir que era o local da preferência dos mais jovens. Ali nos defrontávamos ao King: o Kansas, o Jó Rodrigues, o Rui Leitão, o Jó Alho. Também era um local de espera e de debates, onde preparávamos as farras e os bailaricos.
Mas continuemos à esquerda e vamos até ao fundo, tendo, por exemplo, como referência a estante dos Livros do Brasil. Deparamos com o sítio onde era o fabuloso balcão do Avenida, onde o Ezequiel e o Fernando Fortes preparavam as maravilhosas bicas e refrescos que nos serviam. O acesso à parte de dentro do balcão era do lado direito através de uma porta que ainda lá está.
Viremos à direita e consideremos o espaço para além do arco, antes cor de tijolo, agora embranquecido, descaracterizado. Era onde se situava o Restaurante do café. Com os poucos rendimentos de que dispunha, poucas vezes lá comi, mas consta-me e recordo que os bifinhos não eram nada maus.
O espaço entre um corredor que se segue à porta central, o cantinho da juventude, o balcão e o restaurante, onde actualmente se expõem as máquinas de calcular e outros aparelhos, era ocupado pela zona de jogo. Aí, os mais velhos disputaram renhidos combates de bridge (Fernado Rodriques, arquitecto, Dr. Durão,...?..) e dominó (Abel, Rui Costa, Luís Simões,...?...). Era também uma zona de Relações Públicas, pois bem perto dessas mesas estava a que vulgarmente era ocupada pelos proprietários do café, o Sr. Aguinaldo e esposa, duas figuras muito simpáticas que tinham sempre um sorriso para os clientes, apesar das perseguições políticas de que ele por vezes era vítima.
Consideremos, agora, o lado direito. Logo à entrada, no sítio onde a Alice expõe os perfumes e as loiças de Vista Alegre e outras marcas conceituadas, era o espaço para se ver televisão. Recordo filmes como O Homem Invisível , Sir Lancelot (ena, as histórias da Távola Redonda com a Guinevere, o Rei Artur eram o máximo!), o Robin dos Bosques , o Mister Ed (ver também este) que ali vi continuamente já não sei com que idade.
Apesar de tudo, não me lembro de grandes entusiasmos no interior do Avenida. O espaço era mais fino, mais snob, menos popular, menos ruidoso apesar de mais amplo e mais bonito.
Finalmente, adjacente em relação a esta zona, ocupado actualmente por materiais de pintura (Pelikans, Cisnes, etc.), existe o sítio onde se jogava bilhar bem perto da segunda porta de saída do café. Aí, dizia o João da Quinta, eu punha as bolas a saltar quando me irritava com as tacadas e estas não seguiam o rumo que eu planeava. Aos domingos, enquanto se ouvia o Música na Estrada e o fabuloso Oh Lady!, mais uma vez dos Les Chats Sauvages, nós iludíamos a vigilância dos pais e de outros controladores e lá fugíamos às obrigações sacras, refugiando-nos neste espaço. Depois, assistiamos, como dizia o Jó Rodrigues, ao Santo Sacrifício da Saída.
Ao terminar este roteiro sobre o Avenida, sinto uma certa tranquilidade. Animem-se, Oureenses. A Marina ocupou-o, se calhar esse até foi um meio de o preservar. Eu julgo que, se quisermos e tivermos força e meios para tanto, podemos reconstruir tudo. Sob a ocupação efémera desta empresa nada está destruído, está apenas oculto. Assim, se a Câmara quiser apoiar a reconstituição, pode começar desde já a recordar e projectar a ornamentação e mobiliário do mesmo. As belas mesas negras com vidro por cima, as belas e pesadas cadeiras, a porta giratória...
Força, vamos lá, responsáveis autárquicos, aquela Ourém merece todos os sacrifícios. E ainda existe quem se recorde de tudo, daqui a uns anos pode ser tarde demais.

sábado, maio 08, 2004

A Cruz Branca

Reparem na linda criatura que está no ponto mais alto daquela árvore. Apesar do seu porte humilde, parece desafiar-me enquanto canta feliz a sua liberdade.
Noutros tempos, o meu primeiro impulso seria ir buscar a pressão de ar e tratar-lhe da saúde. Hoje, confesso que aprecio sobremaneira a sua companhia. Assim, no quintal da minha humilde residência tenho algumas árvores que convidam estes pequenos seres a conviverem um pouco comigo e eles não se fazem rogados pelo que, de manhã à noite, tenho canto permanente. E penso: mesmo que não venha a tempo de apanhar a fruta, as poucas ameixas, os poucos figos sempre têm alguma utilidade, são uma reserva de comida para os ditos. E imagino o belo repasto, garantidamente da agricultura biológica, que ali têm.
Mas ao mesmo tempo sinto que, à medida que perdemos as zonas verdes, à medida que abatemos as nossas árvores, vamos também afastando estes simpáticos seres.
Há dias descia a estrada que liga Ourém a Tomar e, de repente, ao passar perto da Quinta da Olaia dou de caras com algo preocupante. Junto à Quinta das Margaridas, duas árvores ostentam uma cruz branca. Mais à frente, perto da ponte, o mesmo se passa com mais algumas árvores. Não sei qual a sua idade, mas como desde muito novo as conheço admito que sejam quase centenárias. Confiei as minhas dúvidas a pessoas conhecidas até que alguém mais ligado aos serviços camarários me informa: Ah! essas árvores são para abate.
Se isto é verdade, lá está mais uma contribuição para o deserto num sítio que é bem pitoresco. Para quê mais este abate? Andar a 50 ou 60 km/h na estrada Ourém-Tomar chega-me perfeitamente, nem 20 minutos demoro, o que era cada vez mais importante era pôr semáforos nas entradas nesta estrada e não aumentar a velocidade na mesma, ninguém precisa de auto estradas ao pé da janela. Deixem o diabo das árvores para podermos desfrutar de passeios calmos pelo meio das mesmas.
Mas a cruz branca lá continua. E cada dia que passa eu pergunto: será que aquela criatura ainda encontra condições para mais uma vez chegar ao meu quintal?



Ecos no Castelo

sexta-feira, maio 07, 2004

A equipa maravilha


Podem falar nos putos do hóquei, podem falar nas internacionalizações, podem falar no Luís Porto, mas, para mim, a equipa maravilha, aquela que defrontou o Livramento, aquela que quase humilhou o Futebol Benfica com um bem claro 5 a 3, aquela que entusiasmava as gentes de Ourém ao ponto de os seus clamores atingirem e atemorizarem Tomar, Abrantes, Torres Novas, Marinha Grande e Turquel, era a formada pelo Mário, Abel, Rui Prego, Rui Costa, Piriquito e outros que não me lembro, mas que julgo que integraram o Ferraz, o Pintassilgo e, ele o diz, o Vitor Castanheira.
Quando o Abel saiu, o Pintassilgo, talvez o mais habilidoso de todos, entrou, e logo ganharam o distrital. Que magnífico feito!
Que pena não ter uma fotografia desse tempo.
Constato que a tradição do hóquei não se perdeu, independentemente de vir sob o nome Atlético ou Juventude. Mas uma coincidência engraçada é o facto de o treinador dos putos, grandes campeões do século XXI, aquele que os tem conduzido a saborosas vitórias apesar de poucas vezes ser nomeado, ser filho de um desses magníficos que lutavam na equipa maravilha.

E este era o ambiente em torno do Castelo exactamente no momento em que o Glorioso marcou aquele formidável golo aos inofensivos lagartos...

quinta-feira, maio 06, 2004

O café Central


Ali, entre a loja do Sr. David e a Ex-CGD do Sr. Costa ou a ex-biblioteca da Anita, fica uma pérola neste mundo de destruição. Honra ao Adelino porque, apesar das óbvias dificuldades que tal acarreta, conseguiu manter o Central com as características que lhe conhecemos noutro tempo.
Entremos.
Logo ao lado esquerdo, encontramos o balcão e o expositor de revistas, em tudo semelhantes, se não os mesmos, aos que lhe conhecemos. Para testar este aspecto, experimentámos colocar alguns livros e revistas do tempo, eventualmente adquiridos no café, no local que ocupariam na altura. E vejam um dos primeiros números do Mundo de Aventuras que me chegou às mãos (data de 18-08-1960), um exemplar do Condor Popular que não sei datar, uma aventura de Lance na colecção Tigre e um livro da magnífica colecção Búfalo que me entusiasmava. Admirem como ficam bem no expositor. Reparem como os diversos compartimentos têm o tamanho ideal para receber tão simpáticos elementos.
Olhemos em frente. Lá ao fundo, existe o túnel que dá passagem para o local onde antes era a sala de bilhar, onde disputei dezenas de partidas com o Quim, o Jó Rodrigues, o Génito. Sala de entusiasmos, de alegrias e derrotas. Mas, eis que, ao me dirigir para a mesma, noto a falta de um elemento de outros tempos.
Falta o cantinho dos doutores. Era ao lado esquerdo, sensivelmente passados dois metros após a entrada. Foi substituído por um balcão frigorífico. Antes, o espaço era ocupado por três ou quatro cadeiras destinadas ao Dr. Armando, ao Dr, Nini e ao Dr. Oliveira que dali dominavam toda a sala. Imaginem o nosso acabrunhamento ao passar em frente de tão importantes personagens quando nos dirigíamos para a sala de bilhar. No dia seguinte, no CFL seria ralhete pela certa.
Reparemos, agora, naquele belo exemplar de telefonia dos anos 50 e 60, à esquerda do túnel e acima da máquina de café. Ah!, quantas vezes ouvi ali os Les Chats Sauvages nos Dernires Baisers ou o António Prieto em La Novia, lamechices que nesse tempo alimentavam o nosso ego. Será que ainda toca?
E há fotografias: o velho jardim de Ourém junto à Câmara, o saudoso jardim da já famosa Eira das Pedras, O Vicente...
Vejamos agora a sala de outro ângulo: a partir da zona da máquina do café, apreciamos as mesas e o local da televisão.
Há a mesa do Sol, há o cantinho para dois sobre a actual sala de jogos e lá está aquela outra bem à frente da televisão a dois passos dela, onde eu vi as primeiras emissões, onde ajudei a procurar o Maneta quando era a hora do Fugitivo, onde vi o Benfica bater o Barcelona naquele maravilhoso dia do 3 a 2 com o Águas, o Zé Augusto, o Costa Pereira.
E era o Torrejano a gritar que nem um perdido, era o Zé Penso a saltar de alegria. Era eu e a malta amiga a não acreditarmos naquele feito que parecia tão longe das nossas capacidades. Grande Benfica, Glorioso! Tão parecido com o nosso Atlético. E, tal como ele, tão carecido, hoje, de inebriantes vitórias.
Volto ao nosso tempo. Felizmente o Central ainda existe para tudo não se reduzir a recordações e fantasmas.








quarta-feira, maio 05, 2004

Aquelas imagens…
São uma das sociedades mais ricas do Mundo.
Têm uma economia avançada baseada na informação e no conhecimento.
Podem fazer a guerra cirúrgica e acertar em qualquer alvo com danos colaterais mínimos.
Defendem as mais amplas liberdades para todos os povos.
A sua moral é o que de mais avançado podemos conceber.
Apesar de tudo, não se coibiram de humilhar quem estava vencido.
E ver aquelas imagens que testemunham que a superioridade moral do vencedor é, por vezes, apenas uma questão de palavras, leva-nos a descrer desta sociedade em que o desgraçado do soldado iraquiano é vencido, humilhado, violentado só porque lutou pelo seu país perante alguém que lhe conduziu uma guerra baseada numa pérfida mentira.

Regresso de Ourém

Cá estamos de novo, terminados os poucos dias de contacto com Ourém. Fizemos muitas coisas e tudo, desde que relevante, iremos relatar nos próximos dias. A primeira foi uma visita à feira do livro exactamente no dia em que fechava; não tínhamos companhia, não encontrámos ninguém conhecido pelo que nos retirámos a breve trecho. Fizemos entretanto algumas fotografias junto ao edifício da GNR e ao depósito, elementos de que já falámos.

Assistimos, ainda, àquele jogo em que o Glorioso reduziu audaciosos leões a inofensivos lagartos.

Na segunda-feira, pelas oito horas comparecemos no Central que sujeitámos a uma sessão fotográfica. O Adelino foi de amabilidade e colaboração extremas sendo dele a responsabilidade da exposição que fica aprazada para um dos próximos dias. Há um pequeno senão: um dos elementos que devia ser sujeito a fotografia, um belo rádio dos anos 50/60, mencionado no texto que apresentaremos, está a arranjar, mas há a promessa de voltar ao seu lugar de exposição. Obrigado, Adelino, pelos momentos de retorno à nossa juventude que nos proporcionaste.

Procurámos, em vão uma fotografia da equipa maravilha, mas isso não impedirá a publicação do respectivo post.

Passámos também pela Marina que sujeitámos a uma inspecção minuciosa. Apesar de termos cumprimentado um dos seus responsáveis, o sr. Catarino, não tivemos coragem para lhe pedir para tirar fotografias. A nossa intenção é rever o café Avenida a partir daquilo que hoje ocupa o seu espaço.

Fomos à Tipografia Ouriense. Que saudade do Melo! Acreditem que já não via o Ourém e seu Concelho há perto de trinta anos. Ali deixámos o nosso nome, coordenadas e respectivo financiamento para o passar a receber regularmente. Depois olhámos o seu conteúdo sofregamente. Uma parte frontal interessante. O interior cheio de porta-vozes partidários. Então aquela conversa sobre Espanha e Zapatero é quase uma repetição do discurso do Governo PSD/CDS. E eis que de repente os meus olhos deparam com um artigo do famigerado LF. Como é possível trinta anos depois? O mesmo estilo, as mesmas afirmações... LF não argumenta, LF não contradiz, ele pura e simplesmente afirma independentemente do que qualquer adversário possa apresentar. O mesmo ódio aos comunistas, aos marxistas. Enfim, penso que nem vale a pena dar-lhe confiança. Noutros tempos o excelso grupo de marxistas-leninistas que analisava a situação em Ourém fazia apostas sobre a sua identidade. Seria o padre de Rio de Couros? E repentinamente, recordo a minha despedida dos jornais de Ourém em 1975: "não voltarei a escrever no Notícias de Ourém enquanto lá se der guarida a artigos de fascistas" (cito de cor, foi mais ou menos assim). Mas perdi, nada consegui e nunca mais lá escrevi, transformando-me em talento (?) adormecido e acomodado há muitos anos, como diria o outro. Mas confesso que neste campo evoluí muito pouco, isto é permaneço pouco tolerante, será que não sou um verdadeiro democrata por preconizar a exclusão dos que querem abater a democracia dos que dão vivas ao salazarismo?

Mas falemos em coisas boas. Encontrámos alguns amigos: O Julito, a Alice, a Cristina, a São. Foi a cavaqueira do costume, pena é que Ourém já esteja de novo longe. Soubemos de mais destruições em perspectiva. Enfim, atenção aos próximos posts em que, atendendo a pressões vindas do Castelo, faremos algo para dar a cara.


sexta-feira, abril 30, 2004

A Luz do Silêncio
Paremos durante alguns dias.
O dever chama-nos.
Vamos reflectir, fazer trabalho de base, carregar baterias, obter massa crítica. O nosso plano é voltar de novo com recordações de Ourém.
A propósito:
- não há por aí alguém que queira fazer um texto sobre os célebres Estúdios Trini?
- … ou sobre a monumental sova que o Dr. Armando deu ao Augusto e ao Vitor?
-… ou sobre aquela mó que um dia foi apontada ao CFL?
- não há por aí fotografias dignas de ser partilhadas da nossa Ourém?
Não tenham receio, eu trato bem as coisas, tudo devolverei.
Respostas, comentários e contribuições para o Quartel.

E Ourém aqui tão perto...
Com a devida vénia:

Cidades
Por MIGUEL SOUSA TAVARES
Sexta-feira, 30 de Abril de 2004
Clara Ferreira Alves - uma das raras e enriquecedoras leituras do "Expresso"- escrevia na sua última crónica acerca do deslumbramento que uma recente visita a Barcelona lhe tinha provocado e interrogava-se porque não construímos assim Lisboa e as nossas outras cidades. Barcelona é também uma das minhas cidades de referência, como o é - e falo apenas de cidades "europeias" - Buenos Aires, sobre a qual aqui escrevi há uns meses, e tantas outras: Roma, Florença, Veneza, Sevilha, Londres, Paris, Estocolmo, Copenhaga, Genebra, Viena e, posso acrescentar já ao rol por antecipação, Praga, que irei conhecer para a semana. E outra ainda, que revi, depois de prolongadíssima ausência, há 15 dias atrás: Amesterdão. Não saberia descrever Barcelona melhor do que a Clara o fez, por isso descrevo o que vi em Amesterdão.
Estava sol, o que sempre ajuda, sobretudo às cidades do Norte. Estava sol e, por isso, as pessoas estavam cá fora, ao sol: muitas nos dias de semana, quase todas no fim-de-semana. Gente reunida por famílias ou prédios inteiros, sentada nas escadas ou nas varandas das casas ou simplesmente com as cadeiras postas na rua, lendo jornais, trabalhando nos computadores portáteis, conversando por grupos ou apanhando sol, sem mais. Mas a maior parte circulava pela cidade, a pé, de bicicleta (quase todos os que se deslocavam), ou de barco, através dos canais. Paravam nos restaurantes, nas lojas, nos mercados de flores ou de livros usados, na infinidade de livrarias ou quiosques de revistas do centro, nos jardins ou nas margens dos canais, na profusão de cafés, pastelarias ou bares, onde se pode ficar até querer, simplesmente bebendo um "expresso" ou um copo de vinho branco. Visivelmente, a rua estava preparada, melhor dizendo, imaginada, para receber as pessoas. Não havia café, bar ou restaurante que não tivesse esplanada. Não havia esquina que não tivesse bar, pastelaria, restaurante, quiosque ou livraria. Não vi em esquina alguma uma agência bancária - muito menos esta recente praga do "Millenium BCP", com a sua cor púrpura ou violeta, poluindo visualmente e aos poucos todas as nossas cidades. Não é por acaso que no Fórum Barcelona, a começar já em Maio, um dos temas de exposição é justamente "As cidades e esquinas". Porque são as esquinas que fazem viver em grande parte as cidades, como ponto de cruzamentos, de encontros ou de paragem em cafés e quiosques. Entre nós, todavia, as esquinas estão a transformar-se em lugares reservados da banca.
Do ponto de vista dos nossos arquitectos, todo o centro, a imensa parte histórica de Amesterdão, é aquilo a que eles chamam depreciativamente um "pastiche": simplesmente porque é intocável. Não há ali qualquer concessão à modernidade em diálogo com a história. Todos os edifícios actuais, remodelados, reconstruídos ou feitos de raiz, obedecem aos mesmos padrões arquitectónicos que caracterizam o chamado "período doirado" - último quartel do século XVII e primeiro do século XVII - em que a Holanda atingiu o seu apogeu marítimo e comercial e a cidade foi construída. A cércea nunca ultrapassa os quatro andares e toda a construção é de tijolo, telha e vidro, sem betão, sem alumínio, sem floreados alguns. Uma monotonia para os arquitectos, um prazer para quem lá vive e por lá se passeia. A arquitectura moderna está remetida para as franjas laterais ou para a periferia, assim como a indústria e grande parte dos serviços: o centro, que é o coração nevrálgico da cidade, é para o pequeno comércio, para a habitação, pequenos hotéis, bicicletas, barcos, passeantes. Inútil acrescentar que não existe aqui um único centro comercial, muito menos essas monstruosidades desumanas tipo Colombo, Fórum Almada ou Gaia-Shoping, onde os portugueses se enterram como ratazanas, como se se quisessem vingar do sol e da luz que têm lá fora. E, como não existem esses monstros de consumo, onde, como escreveu a Clara Ferreira Alves, se tenta recriar ridiculamente os jardins, parques, alamedas e árvores que não existem ou que se deixaram lá fora, o pequeno comércio sobrevive e desempenha um papel vital na vida da cidade. Mas, também, atenção: quando falo de pequeno comércio, não tem nada a ver com aquilo a que estamos habituados: não há cafés com balcões de zinco, mesas de fórmica, máquinas que fazem um barulho ensurdecedor, acrescentado ao barulho das loiças a serem sumariamente lavadas, cartazes idiotas a anunciar que "as bebidas expostas são para consumo na casa" ou "só se aceitam cheques visados", e empregados que se esforçam até ao absurdo por não verem os clientes a chamá-los; não há mercearias e talhos com ar de tabanca africana, pindéricas floristas, lojas sempre encimadas por painéis de publicidade, montras sem qualquer brio nem imaginação. E não fecha tudo ao fim-se-semana nem atravacam as ruas com as suas cargas e descargas durante o horário normal dos dias de semana. As regras aqui são: serviço, qualidade e brio. Aí se vê também e decisivamente a diferença entre um país civilizado e aquilo que somos. Enfim, resta acrescentar que não há engarrafamentos nem buzinadelas, não há polícias à vista e a cidade é absolutamente libérrima nos seus costumes e toda a gente tem um ar de quem desfruta cada momento ali vivido.
...
Dizia a Clara Ferreira Alves que todos os nossos autarcas deveriam ir a Barcelona ou outras cidades europeias onde a qualidade de vida é o objectivo número um de quem as governa. Eu penso que eles já foram, já perceberam e nada adiantou. Era bom era que todos os eleitores das nossas principais cidades pudessem ir a Barcelona ou Amesterdão para perceberem o quanto têm sido mal governados e o quanto têm sido roubados no seu direito a uma vida urbana totalmente diferente e melhor.
...

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