sábado, setembro 14, 2019

Serpentes Cegas



Serpentes cegas é mais uma novela gráfica de que gostei muito. O Público vai assim alternando títulos excelentes com outros que me parecem intragáveis,
Eis um resumo de acordo com a promoção da obra:
Um homem, vestido de vermelho, chega a Nova York em 1939 e instala-se num pequeno hotel à procura de um tal Ben Koch, um espanhol que não respeitou um pacto. O dono da pensão, Red, diz que não tem notícias de Ben, o que o homem não acredita. Decide esperar por ele, acabando por descobrir que Koch foi visto a destruir um túmulo com um martelo. Qual o motivo da fúria de Koch? Também ele procura desesperadamente um indivíduo chamado Curtis Rusciano.
Pouco a pouco vamos assistindo à evolução deste personagem, descobrindo que Ben participou nas Brigadas Internacionais que combateram o fascismo durante a guerra civil espanhola. É com ele, que viajamos até à Barcelona de Maio de 1937, com os confrontos entre anarquistas e comunistas, e posteriormente, em 1938 a um dos cenários mais decisivos da guerra civil: A Batalha do Ebro.
Uma história de vingança com a Guerra Civil espanhola e a Grande Depressão em Nova Iorque como pano de fundo.

sexta-feira, setembro 13, 2019

Os problemas do infinito



… Eu já gostava dos desafios da Matemática dedicando-lhe largas horas de estudo e, por vezes, do tempo livre. Mas com ela ganharam outra conotação.
Problemas, teoremas, axiomas, postulados… tudo se transformava, envolvendo-se em cores fantásticas sem perderem a identidade.
Um dia fui chamado ao quadro e, desengonçado, resolvi armar-me em esperto, usando a matéria de simplificações.
- Vou demonstrar que 2 é igual a 3.
- Como?
- É verdade, descobri esta noite numa investigação que fiz…
Qual júri de um concurso musical da RTP, ela respondeu:
- Faça favor, o quadro é todo seu…
E eu comecei a escrever:
0 = 0, logo
2-2 = 3-3, pondo em evidência vem
2*(1-1) = 3*(1-1).
Podemos substituir 1-1 por X, logo
2*X = 3*X, pelo que, simplificando
2 = 3
Comecei a ouvir uns risinhos.
E, de repente, ouvi aquela vozinha, proveniente do lado direito da primeira fila, estilo Ronaldinha das Matemáticas:
- Não pode ser. 0 não divide por 0, dá infinito…
Olhei-a furibundo, batido em toda a linha. Ali estava ela, com ar de vencedor, de todas as cores, um verdadeiro arco-iris. Esta a razão por que não segui Matemática e desgastei o meu tempo no mundo da Economia onde se pode demonstrar tudo e o seu contrário…

A tenebrosa visita do Dr. Preto numa tarde da Feira Nova

Há muitos anos, a quinta-feira, era, talvez, o melhor dia de festa da Feira Nova que se realizava no enorme espaço frente ao local onde agora se situa a Câmara Municipal.
Mas houve uma vez que não o pude desfrutar.
Vivia ainda na casa do Largo de Castela, uma febre malvada apareceu e não pude sair de casa. Ao longe, ouvia a música proveniente do carrossel e dos automóveis. O cheirinho a castanhas chegou a invadir a minha casa. O troar daquela carruagem que seguia por uma linha para testar músculo, por vezes, fazia-se ouvir.
Mas eu estava ali sem poder ir ver uma das coisas que mais adorava.
Para ajudar à desgraça, a família lembrou-se de chamar o médico. Lá veio o Dr. Preto que fez o exame necessário.
- Arranje-me água fervida.
Assim mesmo, à veterinário, serviço completo…. 
O que é que ele estaria para fazer? Vejo-o sacar de um estojo com seringas ameaçadoras.
Lá longe a festa continuava, mas eu quase já não a ouvia pregado naquele filme de terror. Ele fez a preparação bem à minha frente, para eu aprender a ser homem, sem receio de nada. E lá veio o suplício.
Continuei na cama mais uns dias e tudo passou.
Quando me pude levantar, fui revisitar o lugar da feira. Já todos tinham ido embora. Junto à Câmara e ao depósito, tudo era calmaria, silêncio.
Depois, tudo acabou, em nome do progresso…

quinta-feira, setembro 12, 2019

Postal de Berlim_1


Não tarda muito, amigos
em breve, o providencial autarca
fará invadir Ourém de trotinetes, scooters, skates
e outros terrores para o caminhante distraído


A primeira visão em Fátima


A minha primeira relação com o mercado de trabalho foi, pelos quinze anos, quando fui substituir, em momento de férias, uma pessoa que trabalhava no posto de turismo em Fátima que ocupava cerca de metade do espaço onde é, hoje, uma farmácia.
Autêntico trabalho infantil durante duas semanas que procurava explorar os meus conhecimento de inglês e francês pondo-os ao serviço dos peregrinos. Não era difícil, havia um lote de coisas preparadas para distribuir e informar e os visitantes também não eram muitos: "Ora, tem aqui a Capelinha. Também pode ir aos Valinhos ver a loca do Anjo...".
Assim, nos muitos momentos livres, dediquei-me a fazer o reconhecimento do local. 
E estava nesta prospeção quando, de repente, os meus olhos deram com algo de diferente, algo com a forma de uma mala. 
A curiosidade forçou-me a abrir aquilo e fiquei deslumbrado com a visão. 

Um gira-discos

Pela primeira vez, tinha à minha frente um gira-discos. 
Ainda emocionado, fechei-o e recoloquei-o no mesmo sítio.
Mas, no dia seguinte, a recordação daquela visão não me deixou descansado. Voltei a abri-lo e liguei-o, testando aqueles manípulos que diziam 33, 45 e 78. Vi que aquilo andava e até produzia algum som. Continuei a procurar...
Acabei por descobrir um single dos Beatles de nome "All my loving" e outro single com uma canção cujo intérprete já não recordo e que se chamava "This land is your land" (talvez Trini Lopez).

Fátima ganhou novo encanto. Os dias seguintes passei-os a ouvir a maravilhosa viola do Harrison e aquelas vozes que nunca mais me largaram. 
Em frente ao posto de turismo, os peregrinos e as meninas daquelas lojecas todas iguais, símbolo de mercado de concorrência perfeita, parecia que dançavam ao som da música que eu lhes dava.
Ao fim do dia, quando regressava para junto da oficina do meu pai, os sinos que cantavam a Avé Maria, pelas sete horas, confundiam-se com o magnífico som que não conseguia largar a minha mente...

Close your eyes and I'll kiss you,
Tomorrow I'll miss you;
Remember I'll always be true.
And then while I'm away,
I'll write home ev'ry day,
And I'll send all my loving to you.

I'll pretend That I'm kissing
the lips I am missing
And hope that my draems will come true.
And then while I'm away,
I'll write home ev'ry day,
And I'll send all my loving to you.

All my loving I will send to you.
All my loving, darling I'll be true.

quarta-feira, setembro 11, 2019

A besta ignorante




O Presidente dos Estados Unidos da América é uma besta. 
Não é apenas uma besta. É uma besta ignorante. Trump é rico. Poderia educar-se ou rodear-se de pessoas que não fossem ignorantes. Mas não o fez, apesar de o Presidente dos Estados Unidos da América ter direito a rodear-se dessas pessoas. 
Trump é uma besta porque gosta de ser como é. Sabe que é uma besta ignorante, mas gosta assim. Acha graça ser uma besta ignorante e ter chegado aonde chegou. Acha que é uma prova que ser uma besta ignorante não impede uma pessoa de ser Presidente dos Estados Unidos da América. 
Trump revelou que confunde a Inglaterra com o Reino Unido. Que tanto faz chamar-se uma coisa como outra. O pior é que ele se orgulha de ser ignorante. Gosta de demonstrar que se pode dar a esse luxo: "Olhem para mim, eu confundo a Inglaterra com o Reino Unido, tenho um campo de golfe na Escócia, mas é-me indiferente, não sofro por causa disso. Façam como eu! Sejam ricos e estúpidos como eu, que tudo vos será perdoado! Toda a gente é estúpida!" 
É um erro condescendente ter pena de uma besta ignorante que nunca leu um livro na vida. Ele orgulha-se disso. Não precisou. Não teve de passar por esse sacrifício. É a prova viva de que, ao contrário de Obama e de todos os outros Presidentes dos Estados Unidos da América, não é preciso ler um livro. Esse esforço tão desagradável, afinal, é inútil. Seja qual for o livro que não se lê! É indiferente — acompanhe-se com o sorriso de boquinha oscilante de cu tremido que é tão, tão atraente em Donald Trump.

O regresso da «Pau de Giz»

A Dra. Nazaré Nunes era uma excelente professora de Matemática. Era uma pessoa alta, magra, sempre de bata branca, o que lhe valeu o nome de "pau de giz".
Mas houve um ano em que ela saiu, alegadamente por problemas de vencimento. Era difícil viver noutra terra com os salários que se praticavam...
E a primeira manifestação de massas ocorreu em Ourém.


QUEREMOS A DOUTORA NAZARÉ!!!!

Pais e alunos unidos juntaram-se frente ao Colégio exigindo o seu regresso e, apesar da rigidez do sistema, acabaram por vencer.
No ano seguinte a prestigiada professora regressava, sendo substituída até esse momento pelo Dr. Preto.




(Nota: texto baseado nas memórias do Zé Rito, o nosso querido Avião…)


terça-feira, setembro 10, 2019

O perigo de falar do que se não sabe


Ai, Catarina
és muito engraçada, mas por vezes metes água.
A esquerda tem de preparar-se melhor
para não dar este gozo. Que vergonha!



segunda-feira, setembro 09, 2019

A chantagem de Estaline

Nadja espera numa sala do Kremlin. Vladimir Ilyich morreu há alguns meses e ela, cumprindo as suas últimas vontades, entregou o seu testamento ao partido para que seja dado conhecimento ao congresso.

Agora, espera uma resposta da comissão do Comité Central que deve decidir tempos e modos para a publicação. Não se sente tranquila. Conhece bem aquele texto, do qual apenas existem cinco cópias, está a par do rígido juízo sobre Estaline.




«Estaline», escreveu Vladimir Ilyich, «é demasiado grosseiro, e este defeito, de todo tolerável no ambiente e nas relações entre nós comunistas, torna-se intolerável na função de secretário-geral. Por isso, proponho aos camaradas que pensem na maneira de afastar Estaline deste cargo e designar para esse lugar outro homem que, além de todos os outros aspetos, se distinga do camarada Estaline apenas por uma melhor qualidade, ou seja, a de ser mais tolerante, mais leal, mais cortês e mais cuidadoso em relação aos camaradas, menos caprichoso, etc. Esta circunstância pode parecer de um pormenor insignificante, mas penso que, do ponto de vista do impedimento de uma cisão e do que escrevi acima sobre as relações de Estaline e Trotski, não é um pormenor, ou por outras palavras, será um pormenor que pode assumir uma importância decisiva».



O secretário-geral do Comité Central encontra-a no final da reunião. A comissão do Comité Central decidiu.

Serão respeitadas as vontades do chefe defunto; conforme pediu será alargado o Comité Central, será dado lugar aos operários e camponeses, mas — acrescenta — não haverá qualquer publicação daquele testamento, os conteúdos serão apresentados em síntese, e oralmente, apenas às delegações do Congresso do próprio Estaline, de Zinoviev e de Kamenev. As opiniões «pessoais» em relação a si, como sobre outros dirigentes bolcheviques, não passam precisamente de opiniões «pessoais», pormenores sobre os quais é inútil falar quando se devem tomar decisões sobre o futuro do partido e do grupo dirigente.

Nadja ouve em silêncio. Desconfia de Estaline, com quem, no passado recente, teve mais do que uma altercação: o secretário-geral do partido não queria que Lenine, gravemente doente e já claramente hostil a seu respeito, escrevesse e recebesse visitas, e fora grosseiro e ofensivo com a sua mulher, era suposto vigiá-lo, no entanto, contrariamente, consentia que continuasse a trabalhar e a escrever.

A viúva de Lenine está ciente de que enfrenta um homem muito poderoso que, além de ressentido, está igualmente convencido de que ela influenciou o marido no seu juízo de valor sobre ele, contudo, ainda assim, permite-se reagir e dizer-lhe que não concorda com a decisão tomada. O testamento deve ser tornado público.

O poderoso Estaline sente-se ameaçado. Nadja é uma mulher com idade, modesta, uma viúva consumida pela dor, sem qualquer poder, mas com o conhecimento dos conteúdos daquelas páginas, guarda cópias daquele documento.

Então, utiliza uma arma potente contra ela, a única que a pode aniquilar: se aquele testamento for público, se insistir de alguma forma em divulgá-lo — ameaça — revelará ao mundo quem era a mulher que Lenine amou verdadeiramente, a sua verdadeira mulher. Inês? A Nadja, chantageada, só resta aceitar. Manterá o silêncio. O testamento de Lenine permanecerá em segredo. Virá a público apenas em 1956.

Uma chegada imponente

Esplanada do Avenida
Uma daquelas magníficas tardes de Ourém. Algum Sol. Com nada para fazer, distintos oureenses apenas podiam exercitar a contemplação. 
Para a esquerda, para a direita… para a esquerda, para a direita…
O Jó Alho dava espectáculo. Corria de um lado para o outro, saltava batendo os calcanhares, enquanto trauteava o "La plus belle pour aller dancer".
De súbito, o belo carro negro aparece vindo talvez dos lados do Olival. Não sei se era um Ford Perfect da década de sessenta, era qualquer coisa assim. Algo de importante, talvez um bocadinho mais bojudo que o da imagem. 
O carro detém-se junto aos correios. Saem algumas pessoas. 
Reparo especialmente nela, uma catraia com os seus catorze anos, alta, engraçada, não era bonita, era apenas engraçada. Depois em alguém que parecia o seu pai. Um ar aristocrático, uma espécie de barão em fato negro completo, bigode forte e farfalhudo, um indivíduo alto e encorpado. Metia respeito...
Pouco falaram, cada um foi fazer o que tinha a fazer. Passado algum tempo, voltaram todos, meteram-se no carro e arrancaram, abandonando Ourém. Não falaram a ninguém. Lembro-me que isto aconteceu várias vezes. Quem seriam? Seriam da oposição democrática? Ou altas figuras do regime?
Voltei a encontrá-la em Leiria no Liceu. Afinal era simpática, não muito faladora, mas cumprimentava sempre, o que para mim é qualidade elevada. Eu ia para Económicas, ela para Direito ou Germânicas ou Filosofia, por isso nunca mais a vi.
Mas nunca consegui esquecer o modo como chegavam a Ourém.

domingo, setembro 08, 2019

O maltês de Manuel da Fonseca

Em Cerro Maior nasci.

Depois, quando as forças deram
para andar, desci ao largo.
Depois, tomei os caminhos
Que havia e mais outros que
Depois desses eu sabia

E tanto já me afastei
Dos caminhos que fizeram,
Que de vós todos perdido
vou descobrindo esses outros
Caminhos que só eu sei.

Veio o guarda com a lei
No carro das carabinas.

Cercaram-me num montado;
puseram joelho em terra;
gritaram que me rendesse
à lei dos caminhos feitos.
Mas eu olhei-os de longe,
tão distante e tão de longe,
o rosto apenas virado,
que só vi em meu redor
dez pobres ajoelhados
perante mim, seu senhor.

Gente chegou às janelas,
saíram homens à rua:
- as mães chamaram os filhos,
bateram portas fechadas!
E eu, o desconhecido,
o vagabundo rasgado
entre o largo da vila
enter dez guardas armados;
- mais temido e mais armado
que o deus a que todos rezam.

- Que nunca mulher alguma
se rendeu mais a um homem
que a moça do rosto claro
ao cruzar os olhos pretos
com o meu olhar de rei!

...E vendo que eu lhes fugia
assim de altiva maneira
à sua lei decorada,
lá,
longe do sol e da vida,
no fundo duma cadeia,
cheios de raiva me bateram.

Inanimado,
tombei por fim a um canto.

E enquanto eles redobravam
sobre o meu corpo tombado,
adormecido
eu descansava
de tão longa caminhada!...

Há um novo perigo na nossa débil Economia: o salário mínimo pode ultrapassar o médio




Costa bate com a mão na testa
mas o problema não está aí
o problema é o Calcanhar




O nosso venerado primeiro ministro António Costa, que teve o mérito de nos livrar da coligação de direita chefiada por Passos Coelho, não conhece a formulação do Calcanhar de Aquiles
Ele afirma que não pode aumentar o salário mínimo porque está demasiado perto do salário médio… 
Costa não percebe que, aumentando o salário mínimo, o salário médio foge imediatamente...
Grande Costa! Um génio da negociação como ele também tem as suas limitações...
Com um pouco de sorte, nesta encarnação, ainda vou ter um político que vai prometer ultrapassar o salário máximo atuando sobre o salário médio… e a Matemática cai sem pressupostos válidos que a sustentem...

O piquenique




A turma (parte) da primária

Confesso que não me lembro de isto ter acontecido.
Mas a foto demonstra que estava lá. Simpático como sempre. Como apreciava muito rir-me, aí está um magnífico esgar que faz lembrar as aventuras do Drácula.
Neste momento já demonstrava a minha notável aptidão para estragar as fotografias. Demonstrei-o aqui como personagem. Demonstrei-o outras vezes como executante e que o recordem o Duarte e o Ferraz que um dia caíram na patetice de me pôr uma máquina fotográfica nas mãos. Depois da revelação, um tinha ficado sem cabeça, outro sem pernas, metade do grupo não constava. Eh! Eh!, numca me diverti tanto...
Mas estava a falar desta foto...
Fomos todos fazer um piquenique para a zona da Quinta da Sardinha. Meninos: Manel da Mata, Helder, Alfredo, Quim Vaz, Luís Filipe, Faustino, Quim Zé,..., Humberto, Zé Quim, Luís Nuno, eu. Meninas: Teresa, Isabel, Cristina, Aninhas, Lena,..., Gabriela, Mena.
Perdoem algum não reconhecimento.
Diz o Al Simon que tenho de ir ao oftalmologista: não reconheço as pessoas nem me lembro do facto. 

sábado, setembro 07, 2019

A prioridade primeira do CDS é baixar o IRS em 15%


gosto desta foto da Assunção
é gordinha, mas risonha


… para todos acrescenta a menina Cristas.
Eu acho que até é pouco. Se descesse em 15 pontos percentuais, podia dar umas esmolas aos pobrezinhos devido ao IRS negativo. E se despedisse um bom lote de funcionários públicos que nada fazem e mandasse abater uns reformados, ainda ficava com mais uns tostões para a classe média de que tanto gosta e levar efetivamente o salário médio para a zona dos 2500 euros. 
Assim essa classe podia pôr os filhos nas privadas a competir com os ricos e deixar os pobres a lutar com muito mais condições de sucesso por um lugar nas públicas.
A menina Cristas é fértil em ideias e argumentos, é atrevida de longa data, mas, quando teve o seu lugar no Governo através do seu partido, perdeu a aceleração toda… mais, travou a fundo as justas reivindicações dos portugueses, abalançando-se a uma lei do arrendamento que só fez estragos.
Sabem o que vos digo?: não acredito em nada do que ela promete. Até prefiro o André Ventura, um grande benfiquista...

sexta-feira, setembro 06, 2019

Versos do Rio para o Costa

Conheci Rui Rio na década de 80. Na altura, eu funcionava mais na área de Informática do que na do ensino ou economia e a resposta a um anúncio levou-me até às instalações do GTI (Gabinete Técnico de Informática).
Aí fui recebido e entrevistado por Costa Freire e por um sujeito que parecia estar sempre a rir-se e a gozar comigo. Algum tempo depois, a resposta foi de que «não servia», e, avaliando pelas realizações de Costa Freire no Ministério da Saúde, é bem verdade que não servia mesmo para aquilo.
Algum tempo depois, recordei aquela figura risonha quando das eleições para a Câmara do Porto e estranhei muitos aspetos do seu comportamento, a sua mentalidade de contabilista.
Não deixo de simpatizar com a pessoa, mas pergunto-me se é quem o PSD precisa para recuperar o fulgor antigo. 
Estou longe desse partido, mas alguns aspectos do seu programa eram-me simpáticos e não me admira que uma figura como Pacheco Pereira faça parte do mesmo.
Há dias fui surpreendido pela veia poética de Rio. Olhem-me esta pequena maravilha:


PS governa mal,
Só o presente lhe interessa.
O futuro de Portugal
É coisa que não tem pressa.

O circo monta e desmonta,
Dramatiza e sobressalta.
Tem sempre a novela pronta,
Espetáculo nunca falta.

Não são dadas a rigores
As políticas socialistas.
Foi assim com os professores,
E agora com os motoristas.

Mas o teatro montado
Que o povo irá julgar.
Por certo será derrotado
E o PSD vai ganhar.
E como pode o PSD ganhar com um homem que, quadra a quadra, só diz disparate? O homem cuja principal medida é transformar o «Ministério da Saúde» em «Ministério da Promoção da Saúde»...

Balada das três flores silvestres


Eis o belo e mais que cinquentenário edifício dos Correios, fruto de uma arquitectura bem característica. 
Nas traseiras do mesmo, não existia o soberbo edifício que hoje se pode ver, mas uma casinha com um quintal amplo onde o Pássaro e a Luzinha passavam deliciosas férias aproveitando para confraternizar com o maralhal.  
Reparem naquela varanda.
Lembro-me que, por vezes, àquele local assomavam três lindas meninas, três moiras encantadas, três formosas oureanas que podiam, assim, contemplar algumas maravilhas de Ourém: a igreja, o castelo, sei lá que mais.
E nós, distintos oureenses, da esplanada do Avenida, contemplávamo-las mordidos pela inveja de não nos ligarem nenhuma. Por que estariam ali? Por que não vinham até à esplanada? Seriam flores silvestres fora do seu habitat natural?
Ourém é, assim, uma terra cheia de insanáveis interrogações. E algumas nunca ficaram esclarecidas...

quinta-feira, setembro 05, 2019

Postal de Kiev (3)


Aquela daquela mão...
decerto pensa que me domina
amor é a arma da ilusão
oh! quanto ela me fascina!...


quarta-feira, setembro 04, 2019

Água por água


Água por água

Chegam duas mulheres ao restaurante. A mais nova diz: "Posso comprar uma água para a minha mãe usar a casa de banho?"

"Que estranho", disse eu à Maria João. Ela diz que não é estranho, que é o que toda a gente faz. Assim acontece que à porta dos meus 65 anos aprendo que me tenho portado mal toda a vida. A minha prática é pedir plangentemente licença para usar a casa de banho para se perceber que estou in extremis.

Um breve inquérito entre as gentes estabeleceu que a forma correcta de pedir para usar uma casa de banho é dizer: "Dá-me licença que use a casa de banho que eu já venho beber um café/uma água/uma imperial? É que estou aflito." É um quid pro quo: eu compro-lhe uma água para compensar a água do autoclismo (e da limpeza) que lhe vou gastar.

A parte bonita — que logo observei no caso das duas mulheres — é que o autorizador depois liberta o utente da casa de banho da obrigação de comprar uma água.

Esta cordialidade existe, porque ainda são muitas as bestas que entram pelos cafés e pelas pastelarias adentro e vão directos à casa de banho, sem pedir licença ou dizer "boa tarde". Será por esta razão que antigamente as casas de banho tinham uma chave que era preciso pedir? Pensava eu que era para desmotivar os heroinómanos, mas, na volta, era para as pessoas terem um mínimo de respeito.

Infelizmente há cada vez menos casas de banho públicas, mas, pelos vistos, há maneiras civilizadas de lidar com a transferência dessa responsabilidade para as pessoas que não têm nada que ver com isso: os pobres proprietários dos cafés e dos restaurantes.

terça-feira, setembro 03, 2019

A aula de inglês

Não quero ser injusto com o Dr. Laranjeira que me fez desenvolver os conhecimentos de inglês e sempre ensinou com notável profissionalismo. Mas houve um momento antes dele que preparou o terreno onde os seus magníficos ensinamentos tiveram lugar...
E recordo uma das fabulosas manhãs primaveris de Ourém, em que estávamos embevecidos na contemplação da belíssima imagem da Boazinha. Era linda, pequenina, bem torneada, doce e falava maravilhosamente «o Inglês». Nem preciso de recordar o nome para me lembrar dela...
Naquele momento, ela fazia notável esforço para nos dotar com mais alguns vocábulos da língua inglesa. 
O problema era o "só". E ela recomendava: 
- Lembrem-se daquela canção, o "Only You", dos Platters. Sabem como se traduz o título?
E nós, nos nossos virginais treze anos, ainda sem maldade mas prenhes de desejo, absorvidos por aquela figurinha maravilhosa, respondíamos:
- Só tu...
Nunca mais esqueci o momento nem a canção.

Louco de amor


Louco...
Dizem-me que estou louco por te amar tanto.
Em vão te procuro no povoado.
Fugiste-me, deixando-me num mar de pranto.

segunda-feira, setembro 02, 2019

O atentado

«Chamem Inês, digam-lhe para vir imediatamente.» A voz de Lenine é fraca, mas o tom é firme. Está no seu quarto no Kremlin, as duas balas que o atingiram causaram danos na garganta e nos pulmões; os médicos acabam de lhe dizer que se trata de uma ferida feia, poucos milímetros salvaram-lhe a vida. Agora vai precisar de muitos cuidados e de um longo período de convalescença. Para lhe permitir um pouco de repouso, e por precaução, ninguém pode aproximar-se.

Lenine está cansado, assustado, algumas horas antes a morte passou por ele, vê-se obrigado a obedecer aos médicos e a permanecer naquele quarto longe de tudo e de todos, ao menos por algumas semanas. Fá-lo-á, mas quer que Inês esteja perto dele.

O atentado aconteceu no final de uma assembleia de trabalhadores da Mickelson Plant. Marija, a irmã que vivia com ele no apartamento do Kremlin atribuído à família Ulyanov, desaconselhara-o a participar naquele encontro. O chefe da Ceka de São Petersburgo tinha sido morto e Marija não achava prudente que o irmão se deslocasse a um lugar público sem escolta. Lenine não lhe deu ouvidos. Desde que regressara a Moscovo, depois de assinar a paz com os alemães, queria encontrar-se o mais frequentemente possível com os trabalhadores militantes para limpar, através daquelas relações diretas, uma imagem negativa e a desconfiança que ainda sentia viva em parte do povo, já que o chefe dos bolcheviques regressara num comboio do inimigo, assinara a paz com este e, depois da Revolução, para fugir ao processo escapara para a Finlândia.

O pressentimento de Marija revelou-se acertado: quando, depois de falar com os trabalhadores, se dirigia ao automóvel, foi atingido por duas balas disparados por uma jovem de nome Fanny Kaplan. Caiu, com as mãos na garganta, a camisa suja de sangue. Quem, até ali, o ouviu, aplaudiu, e seguiu com o olhar os seus passos, temeu pela sua vida. Mas Vladimir Ilyich ergueu-se imediatamente e, mantendo as mãos na ferida, entrou no carro e ainda conseguiu fazer sinal para arrancar. Foi o motorista, Stepan Gil, quem decidiu a direção: diretamente para o Kremlin. O hospital não era um lugar seguro, eram muitos — pensou o fiel Stepan — os que desejavam a morte de Lenine, qualquer um poderia aproveitar facilmente. Chegados ao edifício vermelho, Lenine conseguiu subir as escadas, chegar ao quarto e ao seu leito. Aí Marija e Nadja fizeram o que puderam; foram elas a prestar-lhe os primeiros socorros porque não confiavam em ninguém. Os cirurgiões chegaram apenas na manhã seguinte.

Inês chega rapidamente. Já sabia do atentado, mas conseguiu conter o impulso para ir logo ao seu encontro. Conhecia bem as regras que disciplinavam a vida do chefe do Estado soviético e sabia que era difícil, num momento daqueles, aproximar-se da sua cabeceira, até mesmo ela que ainda mantinha uma relação de intimidade com ele. Agora, apressa o passo, as poucas centenas de metros que deve percorrer são mais rápidas do que o habitual. Acompanhada pela filha Varvara, chega ao apartamento de Lenine e entra no seu quarto. Presentemente, aquela divisão com o resto do apartamento foi transferida, na íntegra, do edifício do senado do Kremlin para uma pequena dacia a trinta quilómetros de Moscovo, nos arredores da localidade de Gorki Leninskie. Não é grande e está modestamente mobilada. O mesmo apartamento inclui os quartos de Nadja e de Munja, depois há uma salinha com um piano e uma cozinha sem adornos com chávenas lascadas, panelas remendadas e o mínimo necessário. O quarto de Vladimir Ilyich é quase todo ocupado pela cama de ferro forjado, com o cobertor aos quadrados, uma cómoda e uma poltrona. Três pessoas naquela divisão serão demais, pensa. Talvez por isso Marija e os médicos saem rapidamente deixando espaço para Nadja, Inês e Varvara.

Nos primeiros minutos do encontro, Vladimir Ilyich e Inês estão nervosos e acanhados, não conseguem falar muito: a emoção, o medo e o perigo da morte libertaram os seus sentimentos mais profundos, mas as palavras — as únicas possíveis perante a presença de Nadja e de Varvara — só podem ser de cortesia afetuosa. Nadja percebe o embaraço, sabe o que desejaria Vladimir Ilyich e está habituada a secundar os seus desejos, mesmo quando a magoam, dizendo a Varvara que quer mostrar-lhe algumas fotografias de família, convidando-a a sair do quarto.

Vladimir Ilyich e Inês ficam a sós, as mãos que se apertaram num cumprimento afetuoso procuram-se de novo para um contacto mais intenso. Os sentimentos, até ali postos de parte em nome de «questões mais importantes», no silêncio daquele pequeno e austero quarto do Kremlin voltam a encontrar os seus valores. A partir daquele momento, renasce uma intimidade que estava suspensa e inicia-se um novo capítulo da sua história.

Apenas a algumas centenas de metros daquele apartamento, Fanny Kaplan, a atacante, a jovem que disparou dois tiros de pistola, é interrogada pela Ceka. A polícia secreta sabe que é uma anarca e que durante o regime dos czares passou alguns anos nos campos de trabalho. Agora é uma socialista revolucionária, mas — como afirma — agiu na ignorância dos seus companheiros, isolada e por vontade própria. Fanny Kaplan considera Lenine um traidor. «Quanto mais tempo viver», diz, «mais se afasta a ideia do socialismo».

Enquanto Inês e Lenine reatam a sua relação, o comandante do Kremlin, Pavel Malkov, continua a interrogá-la. Depois, sem investigações ulteriores, interrogatórios ou processos, aniquila--a. Para não dar azo a rumores entre os habitantes do edifício, na garagem, onde decorre o interrogatório, ligou o motor de um automóvel, e depois fez desaparecer o corpo. Não se saberá mais nada dela: quem era na realidade, para além das suas afirmações, a jovem que queria assassinar Lenine? Será que não haveria verdadeiramente instigadores? Teria agido sozinha? Ou seria uma emissária dos socialistas-revolucionários? O atentado terá sido organizado por homens insuspeitos e organizações próximas do chefe do Kremlin?

domingo, setembro 01, 2019

Hoje podes tratar-me por TU

ou Queixas das almas torturadas que sangravam

Devido aos muitos pecados que se faziam, na altura eram administrados diversos cursos de cristandade, procurando tornar as pessoas mais bondosas, tolerantes... caritativas...
Todos os homens que o desejassem poderiam frequentar estes cursos. Engenheiros, doutores, soldados, marinheiros, operários ou camponeses todos se podiam inscrever e ir bater com a mão no peito. Contrariamente à instância política, a religiosa era eminentemente democrática.
E, quando saiam, com as almas aliviadas e muito mais puros, tratavam-se com um "tu cá, tu lá", mesmo que antes o tratamento fosse por você ou mesmo por Sr. Doutor ou Sr. Engenheiro. Assim, ficaram conhecidos por "Curso dos Tus". 
Em determinada altura estes cursos tornaram-se extensivos às Senhoras. 
Então... 
… numa tarde em que estávamos a jogar às Damas no nosso canto e o Conde(1) se exibia ao bilhar, fazendo rodar a porta giratória da entrada do Café, entrou esbaforido o P.(2), um distinto comerciante da nossa praça estabelecido quase em frente ao adro da Igreja. Deu com o Ezequiel, o empregado de hotelaria mais paciente que alguma vez Ourém conheceu, e, entusiasticamente, afirmou alto e bom som: 
- Ezequiel, meu amigo, a partir de agora a minha mulher também é "TUa"







Notas:
(1). Seria Conde ou Duque?
(2). Abreviatura por respeito. Se querem saber a identidade, leiam as memórias do Avião
Este post foi adaptado das memórias do nosso querido Avião aqui publicadas há mais de dez anos.

Woyaya - Garfunkel



 We are going, heaven knows where we are going,
We'll know we're there.
We will get there, heaven knows how we will get there,
We know we will.

It will be hard we know
And the road will be muddy and rough,
But we'll get there, heaven knows how we will get there,
We know we will.

We are going, heaven knows where we are going,
We'll know we're there.

Um conselheiro musical pouco recomendável

Desde muito novo manifestei forte tendência para dominar as minhas preferências musicais e tentar influenciar os outros que, em geral, as não apreciavam muito. 
Ainda vivia na Rua de Castela e já tinha um belo espólio dos Beatles em EPs que fazia a malta amiga ouvir num gira-discos em formato mala de viagem e, claro, todos detestavam pois não serviam para os bailaricos que eu considerava saloios. Sim, a minha música é que era a boa...
"Lady Jane", dos Stones, é uma canção que está ligada a um daqueles episódios em que fui fértil. Imaginem que algum amigo vos pergunta:
- Que disco hei de comprar?
Isto aconteceu no terceiro ou quarto ano do curso. O Vitória Fernandes comprou um gira-discos e queria iniciar a coleção. Caiu na patetice de me perguntar. Nessa altura, ouvia-se a dita música e claro que eu lha recomendei imediatamente. Não sei porquê, esse meu amigo não gostou, ia partindo o disco aos bocados:
- Por que é que eu fui na tua opinião? Ainda tu parto na cabeça...
Para compensar o meu «mau gosto» comprou um álbum dos Credence que me obrigava a ouvir todos os dias.
O mais engraçado é que esta minha tendência para aconselhar os amigos «sem fazer concessões ao comercial» ocorreu com um outro a quem recomendei "Tubular Bells" de Mike Oldfield, aquele em que há uns quinhentos instrumentos (em momentos diferentes) a tocarem os mesmos acordes, mas, em que, lá por dentro, o homem explora todos os sons inclusivamente os que se produzem em casa de banho. Claro que mais uma vez fui censurado... 
O meu amigo Bastos acabou por trocar o disco por "Gracias a la vita" da Joan Baez.
Hoje deixo uma recomendação ao pessoal que vem ao «Estórias de Ourém»: não oiçam estas músicas… elas deprimem. É que antes apareciam como cerejas, agora não se ouve nada decente...

sábado, agosto 31, 2019

O diabo e a cruz



Lamentos do cínico:
 a cruz que eu transporto
é maior e mais pesada
que a que está por trás de mim.







sexta-feira, agosto 30, 2019

Dias sombrios

Andava um pouco chateado com as novelas gráficas do Público. 
Demasiado longas, muito texto o que por vezes contrastava com os hábitos herdados da juventude. Tinha até desistido de comprar.
Dias Sombrios veio mudar essa ideia
Imaginem a vossa amada dilacerada por uma bomba enviada por um avião nazi...
O que fariam?




Iluís Ferrer Ferrer, jornalista de profissão e entusiasta de banda desenhada de longa data, é também autor de vários romances passados na sua Ibiza natal, entre os quais Días Oscuros, que serve de base a esta novelo gráfica cujo argumento ele próprio adaptou. 

Quanto ao desenhador, Juan Escondei', igualmente originário de Ibiza, é um artista de BD com uma carreiro longa de já cinco décadas. Formado na escola da mítica editora Bruguera. é um dos grandes "históricos" da BD espanhola, o que faz dele uma escolha óbvia para esta novela histórica. 

A 10 de Janeiro de 1944. e depois de um feroz combate aéreo sobre os céus de Ibiza. um caça britânico abate um avião Junkers Ju 88 alemão frente à costa norte da ilha, fazendo com que se despenhasse no mar. Os sobreviventes são salvos por um grupo de pescadores locais. e o seu destino será desvendado nesta história que se baseia em factos reais.

quinta-feira, agosto 29, 2019

Postal de Kiev


Calma! 
Decerto não tentarei passar 
Sei medir bem as forças 
não, não vou forçar… 


Reparem no dos bigodes 
faz-me lembrar algo parecido. 
Cala-te já ou te f... 
é um conselho de amigo 


(o poeta recusa linguagem ordinária, mas a necessidade de rima é incontornável, por isso, vou calar-me)
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