sexta-feira, fevereiro 24, 2006

O som do silêncio



Caminhávamos em pequenos grupos a partir do Largo da Igreja na direção da cruz do Regato. Aí, uma pequena inflexão para a direita fez-nos tomar o caminho para o nosso objetivo. Pouco depois, chegámos a uma zona de pinhal que resolvemos atravessar para atalhar.
Curiosamente, nos arredores de Ourém, por essa altura, parecia poder ouvir-se o silêncio. Aconteceu-me várias vezes: ao chegar a Peras Ruivas, a caminho do Castelo... uma sensação que não existe nada a perturbar a nossa quietude a nossa capacidade concentração, um envolvimento que nos parece dizer que tudo depende da nossa ação.
Íamos bem municiados. Gira-discos, discos, sandes, bebidas... Já não me lembro quem eram os desgraçados que transportavam tudo. As meninas não eram com certeza, mas o certo é que as coisas chegavam ao seu destino e hoje parece que ninguém recorda essa carga com azedume.
A certa altura, o caminho tornou-se mais íngreme, mas ao fim de algum tempo lá chegámos.
A visão de Ourém, enquanto os preparativos dominavam as ações, a partir dos terraços das torres era única, fabulosa.
Uma sessão do “Lá vai alho” não resultou muito bem, traduzindo-se numa monumental cabeçada do Rui Leitão nesta mãe de aluguer que foi projetada contra a parede.
Mas tudo passou quando se ouviu:
- Meninos, vamos dançar...
Descemos para o local do bailarico onde elas já estavam e a música já se fazia ouvir...
E que belo era aquele som que eu nunca tinha ouvido... nem me parecia ser possível resultar de uma evolução da música anterior que já conhecíamos. Aquelas vozes calmas que nos pareciam trazer o Som do Silêncio... Era a primeira vez que ouvia aquela canção.
- Quem são? – perguntei.
- Simon and Garfunkle – respondeu o Jó.
Aquele dia ficou-me inesquecível. Foi passando, mas o som daquela canção não me largava...
Ao fim da tarde, tudo foi devidamente arrumado e regressámos a Ourém. Eis porque há uns dias (já bastantes) vos disse: “nós tivemos o privilégio de conhecer certas maravilhas e vivê-las no momento em que elas surgiram...”.


quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Sound of Silence


Hello darkness, my old friend,
I've come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence.

In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone,
'Neath the halo of a street lamp,
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence.

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more.
People talking without speaking,
People hearing without listening,
People writing songs that voices never share
And no one dare
Disturb the sound of silence.

"Fools" said I, "You do not know
Silence like a cancer grows.
Hear my words that I might teach you,
Take my arms that I might reach you."
But my words like silent raindrops fell,
And echoed
In the wells of silence

And the people bowed and prayed
To the neon god they made.
And the sign flashed out its warning,
In the words that it was forming.
And the sign said, "The words of the prophets
are written on the subway walls
And tenement halls."
And whisper'd in the sounds of silence.
Manias

Acabo de ler a resposta daquele maniento que dá pelo nome de Sérgio Ribeiro (o tal que está sempre com manias parvas). E fui surpreendido por um texto engraçadíssimo do Pedro Gonçalves em comentário ao mesmo.
O Sérgio tem outra mania: sublinha e valoriza sempre a amizade como se pode detectar logo à entrada do texto...
A questão das manias não pode ficar por aqui. De acordo com o Sérgio, o retorno a Cesário Verde é constante. Então, vamos até lá e procuremos se ele tem algo sobre o tema:

Manias!

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, -- hoje uma ossada, --
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!

O Simão e o Garfunkel



Simon era o intelectual, o génio responsável pela concepção. Garfunkel era detentor de invejáveis qualidade vocais bem visíveis em canções como "Bridge over troubled waters".
A união e colaboração foram obviamente sujeitas a espectacular sucesso. A separação levou a que nenhum deles conseguisse a visibilidade anterior, pois sentia-se que a qualquer faltava algo...
Os meus amigos encontram aqui uma ligação aos albuns.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Voz activa

Canta, poeta, canta!
Violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega o mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia

Miguel Torga
Mini Antologia Poética do OUREM

Como noticiámos, estamos a organizar uma mini antologia poética do nosso blog que será integrada no segundo volume do estórias. Acho que já temos excelentes poemas e o espaço também não é muito.
Mas gostaríamos de enriquecê-la.
Com alguém de Ourém. E aqui deixamos o apelo...
Como sabem, a Carmen Zita é filha do Armando Honório, um dos distintos do Poço, está portanto indissoluvelmente ligada ao nosso convívio anual. Ela publicou um belo livro de poemas na Som da Tinta há pouco mais de um ano.
Venho aqui pedir-lhe, publicamente, frente À magnífica assembleia do OUREM, um inédito para o nosso livro. Poderá deixá-lo no comments e eu postarei na semana que se inicia em 5 de Fevereiro. Deixo-lhe o mote: tristezas, mágoas... (não a tristeza ou a mágoa em abstracto) que tem a ver com a fabulosa canção que nessa semana nos acompanhará. Podem tentar adivinhar qual será, mas garanto-vos que poucos a conhecerão...
Manias: ainda muito silêncio

Eu respondi logo no próprio dia ao desafio do Ric Jo. Fui para o tal santo descanso.
Era engraçado alguém estudar o comportamento humano perante estes desafios. O Sérgio respondeu a dizer que ia responder, mas deve estar a preparar um tratado tão completo que nunca mais se lembrou. O Dinis respondeu, mas interrompeu a cadeia. O Abdegas diz que vai responder aqui (estamos todos à espera). O Fred, guardião do Castelo, desapareceu. E o nosso amigo Santa Cita nem os comentários no seu blog lê...
Enfim, uma taxa de insucesso elevadíssima
A aula de Matemática que nunca houve no CFL
A Dra. Nazaré Nunes terá sido talvez um dos melhores professores que encontrei até à entrada na Universidade. A sua influência terá sido de tal ordem que gente amiga confessou-me ter seguido uma carreira nessa área devido ao gosto que as suas aulas lhe deixaram. Eu também nunca a esqueci - a vocação teria aí uma perninha - apesar de me ter vendido ao poder dos cifrões. Imagino o que seria uma das suas aulas se nos tivesse de explicar a Torre de Hanói.
Dir-nos-ia:
Em 1883, o matemático francês Édouard Lucas inventou o famoso puzzle das Torres de Hanoi , também conhecido pelas Torres de Brahma e contado em forma de lenda.
E não se escusaria de recorrer à explicitação dessa lenda:

No grande templo de Brahma em Benares, numa bandeja de metal sob a cúpula que marca o centro do mundo, três agulhas de diamante servem de pilar a sessenta e quatro discos de ouro puro.
Incansavelmente, os sacerdotes transferem os discos, um de cada vez, de agulha para agulha, obedecendo sempre `a lei imutável de Brahma: Nenhum disco se poderá sobrepor a um menor.
No início do mundo todos os sessenta e quatro discos de ouro, foram dispostos na primeira das três agulhas, constituindo a Torre de Brahma. No momento em que o menor dos discos for colocado de tal modo que se forme uma vez mais a Torre de Brahma numa agulha diferente da inicial, tanto a torre como o templo serão transformados em pó e o ribombar de um trovão assinalará o fim do mundo
.
Estabeleceria a relação da lenda com o problema matemático:

A versão original das Torres de Hanoi consiste em três postes e oito discos de diâmetro 1; 2; ...; 8, inicialmente dispostos no primeiro poste por ordem decrescente do diâmetro formando uma estrutura cónica semelhante à da figura 1. O objectivo do puzzle consiste em formar a torre no terceiro poste, movendo um disco de cada vez, não sendo permitido colocar um disco maior sobre um menor.
E, pela certa, permitir-nos-ia também praticar como neste exemplo.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Assalto ao castelo

Manhã magnífica vista aqui do gabinório, sol radiante, tudo convida a usá-la para postar para os amigos ourenenses...
Mas postar o quê?
E se fizessemos uma visita ao castelo?

Até podemos levar música, animais de estimação, dormir uma sesta pelo caminho após excelente refeição...
Tudo convida ao movimento, à fruição. Subir, subir aquela encosta... procurar encontros inesperados... deixar a nossa memória viver o que hoje nos é vedado... imaginar o que seria o presente se, no passado, a direcção fosse outra...
Mas eis que algo nos contraria. Da torre mais alta do castelo, o malvado guardião, apoiado em seus muchachos, barra-nos o caminho...

Desistimos por agora. Ficará para outra altura. Afinal, parece que o dia não está assim tão bom. Ao longe, já vejo algumas nuvens.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga
Mais uma vez silêncio para Ourém

O governo abriu concurso para a construção de 15 centrais termoeléctricas de biomassa florestal.
Sabe-se do monumental interesse desta forma de energia renovável. Curiosamente, Ourém e Leiria, tão afectadas e empobrecidas pelos últimos fogos florestais, sendo Ourém um concelho com uma das mais densas manchas florestais, aparecem esquecidas...
O mais perto de nós estará em Santarém (anúncio) com uma central das ditas pequenas(programa e condições).
Estará o governo a penalizar zonas marcadamente laranja?
Serão estas tão inábeis que não conseguem convencer o executivo de algo estrategicamente vital?
Acerca do nosso projecto para 2006

Como sabem, estamos comprometidos desde Novembro de 2005 com o segundo volume do estórias suportado na edição de um disco revivalista sobre a música que obrigava os amigos oureenses a ouvir...
O texto que será elaborado nessa área, para além de coisas já conhecidas sobre a nossa relação com o vinil nos anos de sessenta e setenta, conta com estórias não publicadas antes e ...
- a Teresa prontificou-se a escrever um texto sobre o Luís Nuno que começa a ser importante ela me fazer chegar (Teresa, quebra o teu silêncio...) e
- estou a organizar, como já devem ter notado, uma mini-antologia poética do OUREM: textos muito simples, curtos, mas profundos de que gosto muito e que darão outra qualidade ao nosso livro ...
Quanto às músicas, posso dizer que já tenho na minha posse todo o material a utilizar e de que semanalmente será divulgado uma unidade (com eventual aceleração, pois são tantos...). Temos ainda intenção de realizar a primeira semana do fado do OUREM (lembram-se daquela canção com que o Ferraz nos torturava na década de sessenta?) e uma ou duas semanas dedicadas à canção de intervenção...
Enfim, tanta coisa... assim tenha engenho e arte...
Torre de Névoa
Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas, e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo dia.
Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: "Que fantasia,
Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!..."
Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu!...

Florbela Espanca

domingo, fevereiro 19, 2006

CDUporOurém quebra o silêncio

E logo com a publicação de uma intervenção deste vosso blogger servidor na AM em Ourém.
Contrariamente ao que pode depreender-se de algumas posições expressas no Castelo relativamente a esta Assembleia não tenho da mesma qualquer aspecto negativo. Todos ou quase todos foram impecáveis comigo em termos de relacionamento. São os eleitos do povo na proporção que este achou correcta, compete aos descontentes lutar por melhor resultado.
Mas uma coisa que me entristece é, por exemplo, o documento transcrito naquele blog ter matéria relevante em termos de crítica, matéria que deveria agitar a consciência das pessoas e existir monumental silêncio sobre o mesmo.
Serão consequências de cego seguidismo?
Sounds of silence

E será que algum dos meus amigos já experimentou ouvir o som do silêncio? Se conseguiu terá passado por uma experiência bem única que, hoje, já não terá oportunidade de repetir.
A verdade é que quem viveu em Ourém na década de 60 teve esse privilégio. Ouviu o som do silêncio nas suas múltiplas manifestações. Uma ocorreu na torre mais alto do nosso castelo. Breve vos contarei como...
E, se me lembrar, quero recordar-vos alguns sons no silêncio desse tempo...
A semana, essa, será dedicada a torres, ao silêncio e a outros motes que venham em socorro desta terrível ausência de inspiração

Oiça Sounds of Silence

sábado, fevereiro 18, 2006

Outra mania...

Um rebanho em Sintra - Alfredo Keil (1898)

... para além daquela de acordo com a qual ninguém liga a esta humilde página, a de que, por vezes, é possível ouvir o silêncio.
Então, venha experimentar connosco...
... mais logo, ao render da música, logo após o jogo...
De boca aberta

... perante os 650000 euros em prémios com que a administração do metro do Porto se banqueteou, de acordo com notícia do Expresso.
Na base de tudo uma questão: o que pode legitimar que uma administração de Metro tenho um euro que seja em prémios?
Os actores esses são quase sempre os mesmos...

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Manias

Isto é indecente!
Interrogar um velhadas sobre as suas manias... mas será que vocês pensam que eu reconheço alguma delas?
Está aqui um ser empedernido que já não muda, mas que tem notável auto-estima.
Manias...
... umas coisas inocentes... que é que hei-de dizer?
1) Que compro todos os livros por que tenho simpatia (sofro antes de os comprar) e depois arrumo-os na estante sem os ler (e interesse perdido)?
2) E o mesmo para os discos... aquelas velharias com que tenho brindado os amigos do OUREM... há uns a que até nem retiro aquela protecção plástica transparente.
3) E acreditam que já existiu alguém que me topou essa característica num emprego que tinha há uns vinte anos e que me dizia: o Dr. Vieira arrumou isso na pasta dos congelados, já sei que não tratará do assunto...
4) Fingir que estou muito ocupado para ver se escapo a algo que aí vem e me desagrada...
5) Em contrapartida, acabar o que tenho para fazer o mais cedo possível e partir para um santo repouso...
Caro RicJo, obrigado por se ter lembrado deste ser, peço desculpa se o desiludi, isto é burro velho para reconhecer manias: são qualidades refinadas com a idade.
E agora, a quem hei-de passar isto. Vamos lá a ver se não reagem mal, já estão a ver...
- ao nosso venerável anónimo século XXI
- ao terrível lagartão de Santa Cita
- ao Frederico, valente guardião do Castelo
- ao Abdegas, insigne registador das calamidades da terra... e...
- ao Dinis Corte Real responsável pelo Molho de Bróculos.
E, secundando o RicJo, aproveito para desejar bom fim de semana para todos...

O engenhoso paraquedista




Esperávamos que a Dona Aninhas chegasse junto à porta da sala de aulas. O dia parecia que estaria chuvoso pelo que todos íamos munidos com o respetivo guarda-chuva. Não sei se os meus amigos ainda se recordam: extremamente largo, cabo grosso, todo em madeira.
O acesso à sala de aulas era através de uma escada, protegida lateralmente por um estreito muro que funcionava como corrimão. Lá de cima, vislumbrava-se o ginásio, os moinhos, o pinhal circundante.
Havia alguma impaciência, mas isso não impedia que se fizessem planos para o futuro.
- Quando for grande, hei-de ser paraquedista – dizia o TóLiz.
- Tu? – gozava o Manel – se calhar nem és capaz de saltar lá para baixo.
Creio que o TóLiz não gostou do que ouviu. A altura era relativamente significativa. Ele sentou-se no muro, lá no alto e mediu a distância. Em seguida, puxou do seu guarda-chuva e abriu-o.
- Vê se tens a minha coragem – respondeu ao Manel.
Levantou o braço com o chapéu, fez ligeiro movimento para a frente e deixou-se cair. E não é que, num primeiro momento, ele parecia que deslizava suavemente pelos ares sustentado pelo guarda-chuva? Ele ria, dava aos pés, o resto do pessoal estava preso do momento. Que parecia interminável, que parecia deixar ouvir aquela música:

… he flies like a bird...



...in the sky...

De repente, o chapéu não aguentou mais. As varetas deram de si, o pano virou-se e o TóLiz caiu vertiginosamente no chão. Mas levantou-se num instante.
- Vês? Quem é que não tem coragem?
O pobre chapéu é que, nesse dia, foi para o caixote do lixo.

E agora…
Siga o voo do TóLiz ouvindo os Honeybus.




quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Honeybus



Isto é uma espécie de não-post.
Com toda a sinceridade, não sei nada dos Honeybus: quem eram, quando se formaram, quando acabaram, que albuns fizeram. Conhecia esta música de ouvido e foi a partir dela que deparei com o nome deles. Há quem os compare aos Beatles... Claro, fazem uma música engraçada, parecida e a comparação vem logo...
Aliás, poderia dizer-se que a letra desta canção é muito superior em termos líricos a algumas dos Beatles... por exemplo ao "She loves you". Reparem no poema dos Beatles:

She loves you
Yeh Yeh Yeh
She loves you
Yeh Yeh Yeh

Tem uma taxa de repetição de 50%... o que equivale a um lirismo de 50%...
A dos Honeybus não. Reparem...

She flies like a bird
in the sky
She flies like a bird
and I wish that she was mine


É bem mais rica poeticamente: o lirismo atingirá os 66,6% o que lhe dá uma vantagem de 16,6 p.p.
Também é verdade que não me apetece andar à procura de coisas sobre eles.
Assim, se algum amigo quiser juntar alguma informação sobre este conjunto tem os comments à disposição e nós transformaremos em post.
E por hoje é tudo, o dever chama-me.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão
O passarola do padre


O Passarola Voador
Posted by Picasa

Talvez não tenha existido aula mais hilariante no Fernão Lopes do que a dedicada ao Padre Bartolomeu de Gusmão.
O certo é que uma atitude desse género é um alinhar com os caluniadoares de tão importante figura, símbolo da capacidade portuguesa para a concepção e implementação de novas coisas.
Mas que queria ele com um nome daqueles? Todo o povo o gozava...
Os meus amigos encontrarão vários textos na NET relativos a esta figura:

no sítio Novo Milénio
A voz do conselheiro


Um verdadeiro mensageiro Posted by Picasa

Senhor. Diz o licenciado Bartolomeu Lourenço que ele tem descoberto um instrumento para andar pelo ar, da mesma sorte do que pela terra, e pelo mar, e com muito mais brevidade, fazendo-se muitas vezes duzentas e mais léguas por dia nos tais instrumentos.
Se poderão levar os avisos de mais importância aos exércitos, e às terras mais remotas, quase no mesmo tempo em que se resolverem, porque interessa a Vossa Majestade muito mais do que nenhum dos outros príncipes, pela maior distância dos seus domínios, evitando-se, dessa sorte, os desgovernos das conquistas que provêm, em grande parte, de chegar muito tarde as notícias delas.

Além do que poderá Vossa Majestade mandar vir o precioso delas, muito mais brevemente e mais segura poderão os homens de negócio passar letras, e cabedais e todas as praças sitiadas poderão ser socorridas, tanto de gente, como de munições, e víveres a todo tempo e tirarem-se delas todas as pessoas que quiserem. Sem que o inimigo o possa impedir, descobrir as regiões que ficarão mais vizinhas aos pólos do mundo.
Pegar fogo ao palácio


Ensaio perante a corte Posted by Picasa

Em 8 de agosto de 1709, Bartolomeu realizou a primeira experiência com uso de um balão a ar quente, o Passarola. De repente, as exclamações. De um canto da sala ergue-se um pequeno balão de papel, em forma de pirâmide, com armação de arame e tendo um pequeno fogo dentro.

Bartolomeu olha com orgulho a sua obra, o primeiro aerostato que se construía no mundo. E o balão continua subindo, subindo. "Todos vão reconhecer o sucesso e poderei fazer aparelhos maiores, mais perfeitos, para transportar pessoas e cargas", pensa o padre, sorrindo de contentamento.

O balão subiu quatro metros, está quase a tocar no tecto. Então, num segundo, ouve-se uma ordem e dois lacaios derrubam-no, usando varapaus, enquanto os fidalgos riem da cena. Poderia ter queimado o tecto e as cortinas e começar um grande incêndio.

Todos se vão embora, achando muita graça do pequeno objecto voador. E aquele pobre maluco dizendo que seria capaz de guiá-lo! E fazer duzentas léguas por dia, levando gente, munições e víveres! No canto da sala, Bartolomeu Lourenço de Gusmão faz planos, muitos planos. Sempre auxiliado por seu irmão Alexandre, que se tornou conhecido nas lides diplomáticas europeias e especialmente como secretário particular do rei Dom João V, o principal cargo na política externa portuguesa.
O Padre Voador


Ensaio no Terreiro do Paço Posted by Picasa

Há relatos de uma experiência que foi feita no pátio da embaixada na Casa da Índia (castelo de São Jorge, em Lisboa), tendo o aparelho aterrado no Terreiro do Paço. Noutra, em outubro daquele ano, "o balão subiu novamente, mas foi de encontro a uma parede ou cimalha e incendiou-se igualmente", conforme o historiador Visconde de Taunay.
Ocorreu nova tentativa, em 1709, também na capital portuguesa, em que o balão, denominado Passarola, subiu quatro metros, considerando-se a experiência de êxito. A julgar pelos raros e imperfeitos desenhos que restaram, e pela parca documentação que sobreviveu ao grande terramoto de Lisboa em 1755, Bartolomeu de Gusmão estaria a bordo de seu aeróstato no momento em que ele subiu, tornando-se portanto o primeiro homem do mundo a elevar-se aos ares por meio de um balão.
João Torto da Triste Sorte


Um voo torto Posted by Picasa

João Almeida Torto era enfermeiro do hospital de Sto. António em Viseu, sendo também barbeiro com carta de sangrador, astrólogo e mestre de primeiras letras, sendo um personagem tão fanfarrão como audacioso. Anunciou publicamente que, a 20 de Junho de 1540, iria voar com asas da Torre da Sé ao campo de S. Mateus.
As asas eram de pano forte e duplo, duas de cada lado, sendo mais pequenas as asas inferiores, assemelhando-se às das aves. Estas duas asas estavam ligadas por três argolas de ferro, enchumaçadas com trapos, e era através delas que mestre Torto introduzia os braços. Além disso, o mecanismo estava ligado na parte superior por duas dobradiças de ferro e na parte inferior por um cinto de cabedal. Os sapatos eram de solas tríplices, com estrutura amortecedora, levando ainda um barrete em feitio de cabeça de pássaro.
No dia aprazado, era grande a assistência.
João Torto subiu à torre da Sé, içou o seu aparelho com a ajuda de uma corda e de lá se lançou. O voo correu bem até determinado ponto, mas, extemporaneamente, uma das asas deixou de funcionar e o barrete caiu-lhe sobre os olhos. Descreveu um arco descendente, caindo em pé na capela de S.Luís, mas logo dali caiu, ficando inanimado sobre as asas, em muito mau estado. Voltou a si duas horas depois, mas faleceu logo após. Não era ainda por esta via que o homem conquistaria o ar.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Dia dos namorados ao som do OUREM


... e com esta bela gravura roubada à Elvira

Já temos um servidor musical que está aqui.
Pouco a pouco, temos vindo a criar a nossa música, a fabulosa música do OUREM constituída por canções que muitos não ouviriam há mais de 30 anos.
Amigo oureense, comemore o dia de São VAlentim. Não apenas hoje, mas todos os dias, como é uso dizer-se. Relembre as músicas da sua juventude. Nós vamos trazê-las pouco a pouco. E já pode escolher entre as seguintes:
Oh LAdy! - Les chats sauvages
Le ciel est sibeau ce soir - Richard Anthonny
Letter to a LAdy - Spriguns
Romance do Lulu do INtendente - Luís Cília
I can't let MAggy go - Honeybus
Lonely, lost and sad - Sheiks
Le Penitencier - Johnny Halliday
Cântico para a namoradinha oureana

Amigos oureenses,
e qual de entre nós não teve uma namoradinha ou quase namoradinha em Ourém? Na Atouguia, em Peras Ruivas, em Caxarias, na Carapita, em Seiça, na Ramalheira...
Agora está tudo bem longe, mas eu proponho-vos esta homenagem virtual (que já senti quando aqui passei o “le ciel est si beau ce soir”).
Imaginemo-nos um coro tipo grupo coral alentejano. Eu estou em pé do lado esquerdo. Todos estamos com os nossos sombreros e de cajado na mão. O cão e o cordeiro não foram esquecidos para a cerimónia...
Elas estão do outro lado, lindas, de uma beleza deslumbrante. Nem me atrevo a pôr aqui os seus nomes.
Ouve-se maravilhosa música no ar. E cantamos... cantamos para elas, como verdadeiros barítonos:

She makes me laugh, she makes me cry
With a twinkle of her eye

CHORUS
She flies like a bird in the sky
She flies like a bird and I wish that she was mine
She flies like a bird oh me oh my
I see her sigh.
Now I know, I can't let Maggie go

We walk here, we walk there
People stop, and people stare

(Chorus x3)

Ooh
O maravilhoso mundo do Professor Ideias

Olho para trás e vejo que tudo mudou desde os tempos de infância onde a ingenuidade comandava a existência. Mas curiosamente muito do que é hoje realidade nesse tempo era apenas ideia. Vejam só...



Será que nenhum dos meus amigos viu esta interessante máquina sobrevoar os mares do Algarve? Eu juro que a vi passar em belo início de tarde onde desfrutava os prazeres do Sol e do mar?



E será que nunca depararam com o submarino fantástico?
Este eu não garanto que tenha visto. Mas lembra-me algo de curioso. Recordam a chegada a Leiria há uns trinta ou quarenta anos? Sim, ali frente ao Hotel Liz, no cruzamento, estava um polícia em cima de uma estrutura de madeira a comandar o trânsito. Acho que uma vez teve um destino semelhante ao desta história...



Entretanto, aqui para os meus lados, cada vez é mais difícil circular a pé. Os carros tomaram conta dos passeios e obrigam-nos a todos os malabarismos em termos de locomoção. Na rua Miguel Lupi, chega-se ao extremo de ser atribuído parte do passeio às embaixadas para estacionarem os seus pópós. De vez em quando dá-me cada vontade de levar comigo uma picareta. Razão tinha o Bob de Moor ao idealizar a cidade do futuro como aquela de onde desaparecia a circulação pedonal.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

O Romance do Pavão Misterioso

1
Eu vou contar uma história
De um pavão misterioso
Que levantou vôo na Grécia
Com um rapaz corajoso
Raptando uma condessa
Filha de um conde orgulhoso.

2
Residia na Turquia
Um viúvo capitalista
Pai de dois filhos solteiros
O mais velho João Batista
Então o filho mais novo
Se chamava Evangelista.

3
O velho turco era dono
Duma fábrica de tecidos
Com largas propriedades
Dinheiro e bens possuídos
Deu de herança a seus filhos
Porque eram bem unidos.

4
Depois que o velho morreu
Fizeram combinação
Porque o tal João Batista
Concordou com o seu irmão
E foram negociar
Na mais perfeita união.

5
Um dia João Batista
Pensou pela vaidade
E disse a Evangelista:
- Meu mano eu tenho vontade
de visitar o estrangeiro
se não te deixar saudade.

6
- Olha que nossa riqueza
se acha muito aumentada
e dessa nossa fortuna
ainda não gozei nada
portanto convém qu'eu passe
um ano em terra afastada.

Amigo oureense, continue a ler o sensacional poema "Romance do PAvão Misterioso" de JOÃO MELQUÍADES FERREIRA DA SILVA

domingo, fevereiro 12, 2006

Os deuses devem estar loucos

Será que os meus amigos viram a página 46 do suplemento do Expresso "Espaços & Casas"?
Sim, relativamente àquele espço público que se organizou de forma linear, intimamente relacionado com a fruição da água...
Segredo

Sei de um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

Miguel Torga, in Diário VIII
She flies like a bird

Bom, este não é o nome da canção, mas curiosamente é o que se retem melhor.
Tudo isto para dizer aos amigos oureenses que, esta semana, vamos ser acompanhados pelo som de "I can't let Maggy go" dos Honeybus, uma bonita canção já de uma fase em que Ourém era para mim saudade, mas que nem por isso deixa de merecer figurar no nosso album.
Quanto ao tema da semana...
... estão a ver... flies like a bird...
Não vamos falar de pássaros, pois não me lembro de nenhuma estória do João ou da Luzinha, mas podemos falar de coisas voadoras (entre as quais estarão os pássaros obviamente) e de outras estranhas inbenções.
Quer isto dizer que o mote vai-se fazendo de acordo com as conveniências e o material que surgir

Oiça "I can't let maggy go" - Honeybus


sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Fado perdição
Letra de Maria Duarte

Este amor não é um rio,
tem a vastidão do mar.
E a dança verde das ondas
soluça no meu olhar.

Tentei esquecer as palavras
nunca ditas entre nós
Mas pairam sobre o silêncio,
nas margens da nossa voz.

Tentei esquecer os teus olhos,
que não sabem ler nos meus.
Mas neles nasce alvorada,
que amanhece a terra e os céus.

Tentei esquecer o teu nome
arrancá-lo ao pensamento
Mas regressa a todo o instante
entrelaçado no vento.

Tentei ver a minha imagem,
mas foi a tua que vi
no meu espelho porque trago
os olhos cheios de ti.

Este amor não é um rio
Tem abismos como o mar.
E o manto negro das ondas
cobre-me de negro o olhar.

Oiça o Fado Perdição na voz de Cristina Branco


Ainda Lonely, Lost and Sad



Já faz um ano em 19 de MArço que, através da cooperação da Som da Tinta, tivemos acesso à letra da canção que nos tem acompanhado. Claro que a isso não é alheio o que o Sérgio aqui nos conta:
O muito esquecido Edmundo Silva é um velho amigo, e tem ligações indirectas a Ourém. É de Aljustrel, irmão da Odete que foi casada com o Aguinaldo filho, têm dois filhos - sou padrinho da Catarina! - por quem tenho muita ternura e amizade. No dia 28 (ou 29) de Abril de 1974, mal saído de Caxias, vim à boleia do Edmundo à Marinha Grande para estarmos com a Odete e o Aguinaldo, e arranquei com o carro destes para Ourém (era fatal!). Depois... bom, fica para depois...
Ourém, Ourém sempre como destino. E eu imagino, enquanto conduzia, o Edmundo a cantar:

My mother went out
In a cloudy rainy day
I'miserable, feel lousy
It's hard to say
Tell her, if you see her around
Tell her to come home some day

I still believe in the days to come
Without her can't believe in none
Tell her, if you see her around
Tell her to come home some day

I still do love her
Do want her again
Tell, tell mommy to come home, my friend

I'lonelly I'm lost I'm deeply sad
In my life never felt so bad
Tell her, if you see her around
Tell her to come home some day

Letra de : José Alberto Diogo
Música de : Luis Miguel de Oliveira

Oiça «Lonely, lost and sad»

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Sheiks


Quatro Sheiks Posted by Picasa

Como estavam novos!
Começaram por ser o Carlos, o Paulo, o Jorge e o Fernando. Depois, o Jorge saiu e entrou o Edmundo.
O sucesso foi tremendo.
Ao contrário de alguns rivais que faziam ekoar "esquece, esquece o que te fiz...", cantavam em inglês e instrumentalmente eram muito bons.
Lembro-me que, a propósito da utilização do inglês, um dia na rádio, ouvi um mimo destes: "Pois é, estes meninos poem-se a fazer versos noutra lingua que não conhecem bem e fazem erros de palmatória...".
Que erro era não sei. Julgo que era na canção que nos acompanha. O certo é que não fazia que ela soasse mal.
Os meus amigos encontram aqui uma panorâmica para os grupos desta época (elaborada por quem sabe destas coisas...). Perto de nós, os mais famosos terão sido os Corsários de Apolo, de Leiria, que nos proporcionaram deliciosas matinés dançantes no casino da Nazaré e, numa festa de finalistas no Liceu, uma recriação fabulosa do "My Bonnie" dos Beatles, sendo vocalista um dos nossos colegas, o Belmiro (no lugar do João Antunes)...
Pouco ou nada sei sobre o destino desta rapaziada. O Carlos ainda aparece com canções, o Paulo anda disfarçado de Doutor nas telenovelas da TVI e brindaram-nos durante anos, a solo, com excelentes criações (não devo aqui esquecer o Tordo que substituiu o CArlos na fase final dos Sheiks)... e com o adeus ao 24 de Abril.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Camilo


Camilo por Tossan Posted by Picasa

Nascido em Lisboa a 16 de Março de 1825, na freguesia dos Mártires, Camilo ficou órfão de mãe aos dois anos e de pai aos dez, passando a ser criado por uma tia e uma irmã. Aos 16 anos casou-se com Joaquina Pereira e, dois anos depois, em 1843, matricula-se na Faculdade de Medicina, porém, não conclui o curso. A partir de 1848, passa a viver do jornalismo e a freqüentar a boêmia.

Quando completa 21 anos, rapta Patrícia Emília e vai viver com ela na cidade do Porto. Logo depois é acusado e preso por bigamia. Depois de conseguir a liberdade, Camilo tem alguns amores passageiros até encontrar, por volta de 1856, Ana Plácido, a "mulher de sua vida". Essa nova relação amorosa, no entanto, não é nada tranqüila, uma vez que Ana é casada com Pinheiro Alves, um rico comerciante local.

Na impossibilidade de concretizar o seu amor, Camilo busca refúgio na religião e ingressa no Seminário do Porto, porém passa a ter um caso amoroso com a freira Isabel Cândida. Camilo permanece nesse seminário por dois anos e, depois de tentar o suicídio, consegue viver junto à sua amada, que abandona o marido para viver com o escritor. Logo depois o casal é preso pelo crime de adultério. Os dois são julgados, absolvidos e vão morar em Lisboa.

Camilo e Ana têm dois filhos com problemas de saúde e, por isso, enfrentam sérios problemas financeiros. Para garantir a sobrevivência da família, Camilo passa a escrever por encomenda, tornando-se o primeiro escritor português a viver exclusivamente da literatura. Em 1888 Ana e Camilo finalmente se casam. Ainda nesse ano o escritor começa a sentir os primeiros sintomas de cegueira, causada por uma sífilis crônica. Em 1890, a novela da vida de Camilo chega ao fim. Ele suicida-se com um tiro de pistola em 1º de junho.
Amor de Perdição - 2

Na nossa pesquisa na NET em torno desta obra, encontrámos coisas muito interessantes com que não contávamos: a sua edição digital integral pela Porto Editora, um documento de recensão de um sítio brasileiro e a biblioteca gráfica da Universidade do Minho.
Deixamos algumas dessas imagens, fazendo-as acompanhar de parte do texto resumo para celebrar a palavra que nos vem acompanhando desde este domingo.


Simão mata o seu rival Baltazar Posted by Picasa

Mariana, sabedora que Simão e Teresa não estavam conseguindo manter a comunicação, visto que Teresa estava sob rigorosa vigilância, resolve ajudar os amantes.
Mariana vai até o convento com a desculpa de visitar uma amiga. Sua ação é bem sucedida, a filha de João da Cruz consegue falar com Teresa e essa manda um recado a Simão. Nele a jovem fala de sua impossibilidade de escrever a Simão e que ela iria para um convento na cidade do Porto.
Simão ao tomar conhecimento dos fatos, fica furioso e, em um acesso incontido de raiva, decide tentar raptar Teresa de seu fatídico fim no convento.
O jovem defronta-se com Baltasar, na tentativa de resgatar a amada. Mesmo diante de várias testemunhas o jovem Simão atinge Baltasar com um tiro mortal.
Em meio à confusão surge João da Cruz que procura dar cobertura a fuga de Simão, contudo esse recusa-se a fugir entregando-se a prisão.
Simão é preso e condenado a morte. Porém, devido à interferência do corregedor Domingos Botelho, pai de Simão, a pena é convertida ao degredo nas Índias.


Teresa desfalece Posted by Picasa

Teresa começa a ter sua saúde abalada. Definha, cada vez mais triste e muito magoada, a linda fidalga parece ter perdido a vontade de viver. Seu fim aproxima-se, recusa-se a evitá-lo.


Simão morre no barco sob os olhos de Mariana Posted by Picasa

Ao embarcar rumo à Índia, Simão contempla Monchique e vê, pela última vez no mirante do convento, a mulher que fora responsável por tudo aquilo.
Também Teresa contempla o navio que levava seu amado. Logo após, Teresa morre. Simão, antes de seguir seu destino, toma conhecimento da morte de Teresa e, profundamente consternado e deprimido, segue rumo ao degredo.
Ainda, muito consternado ele guarda algumas cartas de Teresa, seu corpo vai sendo consumido pela morte.
Alguns dias após a viagem, Simão morre vitimado pela febre. Mariana não resistindo à perda do amado, rompe o silêncio com gritos que saem do mais fundo do seu coração. Quando percebe que seria impossível viver sem a presença de Simão, a filha do ferreiro entrega-se às revoltas águas do mar, as quais já haviam recebido o corpo de Simão.O suicídio de Mariana marca o fim da trágica história dos Botelhos e Albuquerque.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Amor de perdição


Teresa desespera Posted by Picasa

Era noite de quinta-feira. No velho cine-teatro, mais uma vez ia ter lugar a exibição do filme “Amor de Perdição” baseado no romance com o mesmo nome de Camilo. Os espectadores não se podiam queixar: ainda na semana anterior se tinham deliciado com a maravilhosa história de Sissi interpretada pela bela Romy Schneider.
Agora, com uma calma apenas aparente, o que disfarçava uma certa ansiedade, as damas, as meninas e as sopeiras encontravam os seus lugares na sala. Algumas iam cheias de lenços para carpir até ao infinito os amores não consumados a que estavam para assistir.
Ouve-se o sinal de início. As belas cortinas verdes são fechadas...
Tadeu de Albuquerque, pai de Teresa, quer que esta case com seu primo Baltazar Coutinho, intenção partilhada por este. Simão mata Baltazar, sentenciando a impossibilidade de reunião com a amada. Teresa vai para um convento e Simão é condenado ao exílio. Mariana, filha de João da Cruz, o ferreiro moralmente endividado com o magistrado Domingos Botelho, pai de Simão, devota-se a deste até ele morrer de doença e amor. Morto e atirado ao mar Simão, Mariana segue o destino do seu amado, levando com ela as cartas que ele trocara com Teresa...
Que desespero! Que maus eram aqueles pais...
Umas choram outras tentam disfarçar.
Foi mais uma noite dramática no cine-teatro da vila. A todos custa abandonar o lugar. Todos queriam que o desfecho fosse diferente. Por que seriam tão marcadas aquelas diferenciações sociais? Curiosamente não questionavam a diferenciação que ali se via: sopeiras na geral, meninas na plateia e balcão, damas no camarate, mas sim aquela que o filme lhes tinha trazido. É sempre mais fácil contestar a realidade encenada do que aquela que nos é dado viver...

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A canção da mulher perdida
A primeira vez que ouvi este fado foi na década de sessenta, na casa do Largo de Castela, interpretado pelo Carlos do Carmo. Na altura, embirrava um bocado com ele: voz lenta, compassada, profunda, a contrastar com os meus gostos do momento. O certo é que nunca consegui esquecer esta canção nem o Carlos que me acompanhou sempre um pouco de longe, mas a quem dedico todo o respeito que a sua figura merece.
Então, só para chatear os amigos do OUREM, aqui fica a letra...
VIELA
Letra de: Guilherme Pereira da Rosa
Música: Alfredo Marceneiro (Fado Cravo)

Fui de viela em viela
Numa delas, dei com ela
E quedei-me enfeitiçado...
Sob a luz dum candeeiro,
S’tava ali o fado inteiro,
Pois toda ela era fado.

Arvorei um ar gingão,
Um certo ar fadistão
Que qualquer homem assume.
Pois confesso que aguardei
Quando por ela passei
O convite do costume.

Em vez disso no entanto,
No seu rosto só vi pranto,
Só vi desgosto e descrença.
Fui-me embora amargurado
Era fado, mas o fado,
Não é sempre o que se pensa.

Ainda recordo agora
A visão, que ao ir-me embora
Guardei da mulher perdida.
Na pena que me desgarra
Só me lembra uma guitarra
A chorar penas da vida.


Eis uma versão por Marceneiro:
Amar!



Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

domingo, fevereiro 05, 2006

A morte de Camões


Fonte: Portal da História

Este desenho de Domingos Sequeira, um dos esboços conhecidos do quadro «A Morte de Camões» exposto no Salon de Paris de 1824 é uma descrição evidente dos primeiros versos da estância XXIII do poema de Almeida Garrett, Camões:

Oh! Consolar-me exclama e de mãos trémulas
A epístola fatal lhe cai: perdido
É tudo pois!
Erros meus, má fortuna, amor ardente

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

Luís de Camões

Também eu me perdi....



Em Leiria...
Mas não foi por aquilo que estão a pensar... desta vez...
Era a época de exames, já não me lembro se do segundo, se do quinto ano.
A deslocação de Ourém para o Liceu tinha tido o seu quê de histórico no célebre NSU Prinz do meu irmão de cor avermelhada, aquela mais perto da cor do palhete.
Lembro-me do Dr. Armando, no seu Peugeut, da Borda de Água, ali íamos todos à conquista de mais um grau.
Chegados ao velho Liceu, ultrapassados os procedimentos de estacionamento, começaram as provas.
A primeira decorreu normalmente. Depois, houve um pequeno intervalo e aproveitámos para relaxar e outras coisas que todos conhecem, tanto mais em ambiente de nervos.
Tocou a campainha, tentei voltar para a sala e apercebi-me que não sabia onde estava...
Depois de ter tentado uma ou duas onde me recusaram a entrada lé descobri, com algum alvoroço aquela onde seria o me lugar (tudo bem controladinho, à antiga) e imaginem a atrapalhação a entrar num ambiente onde já estavam todos com (de novo) todos a olhar para mim.
Dirigi-me ao professor:
- Perdi-me...
E não é que aquela alimária, em vez de me confortar, ali, promovido a pastor alemão, me atira com esta:
- E achou-se...?...
Percebi logo que a minha futura estadia em Leiria não seria muito proveitosa com bestas daquelas à mistura.
Lonely, lost and sad

Lonely, lost and sad é a canção de uma adolescência entrada numa fase mais madura. Ourém tinha ficado para trás, já estava em Leiria com alguns encontros que os meus amigos já conhecem. Encaro-a com múltiplas determinações: a influência de Dylan, a recordação de tardes passadas com o Jó Rodrigues e o Rui Themido no quintal dos padrinhos deste ao som do gira-discos, a nostalgia de aulas do Fernão Lopes comparadas com alguma sensação de mal-estar no Liceu,e o contacto com as nossas bandas, onde, para além dos Sheiks, os Ecos também se afirmavam...
Indiscutível numa selecção sobre a nossa Ourém...
Tanta vez nos sentimos sózinhos, tristes e perdidos e tantas vezes os amigos nos acompanharam, nos fizeram reencontrar e nos trouxeram aquela fabulosa alegria da nossa idade. Mas é uma canção a que associo uma palavra-chave: perdição. É ela que marcará esta semana


Oiça Lonely Lost and Sad

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Ourém enriquecida

De acordo com o Notícias de Ourém, a água do nosso concelho apresenta níveis de radioactividade superiores aos permitidos por lei.
Em conferência de imprensa, o presidente David desdramatizou a situação...
Ele pensa que se safa, porque bebe água de garrafa, mas que pensarão as vaquinhas, os cabritinhos, os borregos que não têm essa alternativa... e que nos fazem as delícias no prato?...
É caso para chamar os Kraftwerk...

O último suspiro do ciclope

Fui pelos campos e, a certa altura, encontrei umas varas de tom castanho esverdeado. Ena! Que descoberta! Eram perfeitas para jogar à espada ou levar o arco ou simular o cajado de peregrino.
Com uma pequena incisão vi que era fácil dar-lhes novo aspeto, pois aquele película superior teria talvez um milímetro e saia em tiras com um leve puxar.
Trouxe-as para casa e passei algumas horas a descascá-las. Ficaram lindas, clarinhas, ainda um pouco esverdeadas. Quando a minha mãe viu aquele arraial, disse logo:
- Vais levar tudo isso daqui para fora, para o lixo...
O quê? A minha obra ia para o lixo?
Mas em breve tive uma ideia salvadora. A casa da Vizinha(1) tinha um pequeno quintal a que a porta do lado direito, sempre aberta, dava acesso. Podia guardar lá o meu tesouro. Juntei o molho de varas e transportei-o para lá.
Os dias foram passando. Regularmente, eu ia ver a minha obra e apreciar como as varas iam ficando cada vez mais secas e claras. Estavam quase perfeitas para ser utilizadas...
Até que uma manhã saí de casa e vi dois vultos conhecidos junto à casa da Vizinha. O Fernando e o João, netos da Júlia padeira. E o mais insólito é que transportavam com eles as varas. As minhas varas!...
Desatei a correr que nem um doido na direção deles.
- Isso é meu. Vão pô-lo onde tiraram...
E tirei-lhes algumas das mãos para as repor no seu sítio. Mas não consegui reaver tudo o que me pertencia, eles não estavam pelos ajustes apesar do arraial que eu fazia. Até que a mãe deles, atraída pelo ruído, veio ter connosco frente à casa da Aurorita.
- Que é que se passa?
- Essas varas são minhas. Façam favor de mas dar...
- Chegam para todos brincar...
- São minhas, quero-as de volta...
Irritei-a tanta que ela pegou em duas ou três varas e quebrou-as sobre a perna, atirando-as desprezivelmente para o chão.
- Vê o que eu faço às tuas varas…
As minhas varas... reduzidas a pedaços, espalhados pelo chão.
Impelido por formidável impulso, agarrei num pedaço e atirei-lho acima, acertando-lhe em cheio na testa de onde, qual ciclope ferido, o sangue jorrou imediatamente. O dia na rua acabou por ali...
Em casa, aquela voz protetora, que nunca esqueço, ouvidas as minhas razões, deixou o apelo:
- Não voltes a fazer aquilo, podem-te prender ou mandar para uma casa de correção...
Curiosamente, nesse momento, na rádio, ouvia-se aquela canção:

…
Notas:
(1) Vizinha - designação para uma senhora deliciosa que vivia numa casa junto ao Picalimas, casa essa com vista para a varanda do Luís Nuno. Depois mudou para o Bairro Dr. Trigo de Negreiros...

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

O Johnny


O disco perdido Posted by Picasa

Era o canastrão da capa do EP que punha loucas as meninas da minha geração e tanto mais quando disfarçado de militar. A voz, já puderam perceber, emitia sons tipo berrante. E, à epoca, tinha uma namoradinha que fazia com que todos o invejassem.
Quanto ao disco em apreciação...
... acontece que me fui fartando de o ouvir. As outras músicas não me agradavam. Com o Johnny era quase sempre assim: uma excelente, as outras intocáveis. E aconteceu...
Ourém era regularmente visitada em férias por outros distintos cujos nomes já não me recordo muito bem. Um, talvez Raul, era desengonçado, tinha nariz pontiagudo e dentes de coelho. Também tinha uma boa colecção de EPs.
Um dia combinámos ir ouvir os nossos discos. O dia foi-se consumindo, até que passámos à secção de trocas. Eu tinha uns mamarrachos e tentei passar-lhos, ele também tinha e tentou fazer o mesmo. Negociámos durante mais algumas horas. No final, já não sei do que me livrei, sei que lá em casa ainda me aparece uma espanholada dos Joristars com o Quando Calienta el Sol e um outro EP do Johnny com uma linda menina na capa e o Retiens La Nuit. A canção até é bonita, mas a verdade é que...
... passei quase quarenta anos sem voltar a ouvir Le Pénitencier. Conheci o orginal dos Animals, mas não tinha a graça desta, compreendam, era a primeira, de modo que deixo aqui um apelo: Raul, ou lá como te chamas, temos de desfazer a troca!

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

O dilema do prisioneiro

Havia inúmeros arames espalhados pelo Largo de Castela. Teriam talvez uns 20cm, eram relativamente novos. Eu e o Mina Guta vimos aquilo e tivemos de imediato uma luminosa ideia.
- Vamos simular boomerangs...
Agarrámos alguns arames e demos-lhes um ligeiro torcegão ao meio. Depois, era só pegar numa ponta e enviar o mais alto possível. De acordo com a nossa destreza, o arame cairia ou não praticamente no mesmo ponto de onde tinha sido enviado.
A verdade é que eles subiam com uma tal força, rodando sobre si mesmo que o espectáculo tinha alguma graça. Eu tinha o braço mais longo, o Mina Guta tinha mais fibra de maneira que as alturas a que chegávamos conseguiam equilibrar-se.
Mas eis que algo corre mal...
Na tentativa de enviar o mais alto possível, um arame não subiu perpendicularmente, mas com uma certa inclinação. O Largo de Castela era atravessado por fios de electricidade entre a casa da Aurorita e a do Souto. O arame foi por ali fora e encontrou a toda a velocidade os fios. Enrolou-se com eles, fê-los bater uns nos outros, provocou curto-circuitos. O espectáculo tornou-se deslumbrante com os fios em estranho bailado e faíscas a jorrarem por todo o lado. Depois, tudo cessou, os fios quebraram-se e as pontas caíram no chão ficando suspensos a partir dos pontos de apoio.
- Estamos tramados...
- O melhor é irmos para casa...
Algum tempo depois a brigada de avarias veio e resolveu tudo, mas eu, nessa noite, não estava muito tranquilo e tive dificuldade em adormecer.
...
Alguém bateu à porta.
A minha mãe foi abrir. Era o polícia Cunha.
- O Luís está?
- Está sim...
- Era para fazer o favor de me acompanhar à esquadra...
Comecei a não ficar muito tranquilo. Vesti-me e saí de casa para o acompanhar. Na rua, já estava o Mina Guta com outro polícia. A caminhada até à esquadra foi marcante. As pessoas a verem aqueles dois gabirus e a comentar o que teriam feito...
Passámos frente ao Avenida, depois frente aos correios e, pouco depois, estávamos na esquadra. Fizeram-nos sentar à frente de uma secretária e um deles afirmou:
- Vocês ontem andaram a brincar com arames lá no Largo. Os fios estoiraram. Alguém vos viu e nos disse que podem ter sido os responsáveis. É verdade?.
- Não, senhor guarda – respondi.
O Mina Guta confirmou...
Ali estivémos um bom bocado até o polícia ver que nada conseguia tirar de nós, que não tinha ninguém a quem imputar o crime e a quem fazer pagar as despesas.
Eles retiraram-se e estiveram em conferência um bocado. Eu e o Mina Guta já estávamos combinados: negar até ao fim.
Mas eles separaram-nos e não permitiram a continuação da nossa comunicação. Fui com o polícia Cunha para um gabinete e o Mina Guta foi com o outro. Mandou-me sentar e começou a andar à minha frente dando pequenos toques na perna com o cacetete...
- Luís, és muito bom rapaz, mas temos de tirar isto a limpo. Foram vocês ou não?
- Não, senhor Cunha...
- Tenho uma proposta para te fazer. Se tu confessares e o teu amigo não o fizer, vais em liberdade e ele passa três semanas no calabouço para aprender a não fazer diabruras e a assumi-las. Mas se tu não confessares e ele o fizer, é ele quem vai em liberdade e tu quem cá passa as três semanas... Confessas?
- Não, senhor polícia, não fomos nós e tenho a certeza que o Augusto vai dizer o mesmo...
- Mas olha que com os testemunhos que temos, se nenhum confessar, arriscam-se a cá passar os dois duas semanas...
- E se confessarmos ambos?...
- Só passarão uma semana que é o castigo por serem tão descuidados... e terão sempre que pagar as despesas...
Estava entalado. Que havia de fazer? Colaborar? Negar até ao fim?... a vida traz-nos cada dilema. E qual seria a atitude do Mina Guta? Se eu confessasse e ele não, ficava lá três semanas...
Pensei, pensei, pensei...
Comecei a sentir suores frios...
...
Acordei. Estava encharcado em suor.
Mas estava na casa do Largo de Castela. Na rádio, ouvia estranha notícia: “Von Neumman acaba de anunciar uma nova teoria: a teoria dos jogos...”.
Assomei à janela. O Dodge do meu pai ainda estava à porta. Os fios já estavam reparados, parecia que tudo corria bem, não havia sinal de polícia.
O maquitan repousava frente à casa da Aurorita. Do outro lado, o senhor Zé Maria, com uma pá, introduzia uma massa branca dentro do forno. O Guerra passava com pedaços de leitão bem embalados. Lá em baixo, a camioneta do Isidro era cheia com jaulas para levar as galinhas ao mercado.
Pela rua de Castela, vinham a Lelita e a Rosalina em alegre cavaqueira. E lá no largo, o Boas Falas levava a mão ao chapéu e cumprimentava:
- Boas falas...
O Largo de Castela estava cheio de vida. Como era bom acordar naquele ambiente. Hoje já não consigo acordar assim, perdi esse dom, converti-me numa espécie de prisioneiro do tempo...

terça-feira, janeiro 31, 2006

Prisioneiros dos Quadradinhos

Noutros tempos também terei sido prisioneiro do Cavaleiro Andante. Religiosamente, aos sábados, ele chegava a Ourém e eu tinha no Central um número reservado em nome de um tio que teve a bondade de mo oferecer.
Apesar de tudo não tinha muita simpatia por esta BD, preferia as estórias do Mundo de Aventuras, mais populares, mais vivas, mais cheias de acção... o Cavaleiro Andante parecia-me uma revista para meninos bem comportados. Ao contrário do que se pode julgar, consegui conservar aquele e do MA já sabem o sórdido destino que lhe foi reservado.
Encontrei algumas séries relativas a prisioneiros famosos no Cavaleiro Andante.

A primeira tem a ver com o Prisioneiro da Máscara de Ferro. Quem seria essa famosa personagem que Dumas nos trouxe em romance, mas relativamente à qual existem outras hipóteses?

1) Era o irmão gêmeo do Rei, tendo sido excluso, pelo cardeal Richelieu, para poder preservar a integridade do governo da França; o motivo da colocação de uma mascara, foi o de proteger a sua verdadeira identidade, evitando que os cidadãos percebessem a grande semelhança com o Rei.

2) Outra versão dos fatos afirmava que Ana, da Áustria, mãe de Luis XIV, tinha casado de forma secreta, com Mazarine, seu ministro, tendo, como resultado da união, um filho, um irmão consangüíneo de Luis XIV.

3) Também, uma colocação muito divulgada sobre a lenda do Mascara de Ferro , era de que seria o duque de Mommouth, um pretendente ao trono da Inglaterra.

4) Diziam outros, por sua vez, que o desafortunado prisioneiro era, nada mais nada menos, do que o ex-ministro da Finanças, Fouquet, que fora destituído e preso.

5) Uma das versões fantásticas e até preferida era de que o intrigante prisioneiro seria o filho natural do Rei, com uma das suas amantes (Lavaltiere, Montespan ou Maintenon).

O Máscara de Ferro apareceu no CA número 11 e depois numa segunda fase no 451 onde a capa dá uma ideia da estória. Finalmente, foi publicado numa revista subsidiária do Cavaleiro Andante: a colecção Obras-Primas Ilustradas (no número 14)...

O Prisioneiro de Zenda, obra de Anthony Hope, foi outro título famoso que o Cavaleiro Andante nos trouxe (em número que não consegui localizar, desculpem...) e de que encontrei publicação nessa mesma colecção. Aqui, o argumento explora inesperadas parecenças:

Durante uma viagem de férias a um reino europeu, um inglês descobre, para seu espanto, que é um sósia perfeito do rei do lugar. Quando o rei verdadeiro é impedido de coroar, o forasteiro é forçado a se passar por ele e assumir a coroa temporariamente. Porém uma reviravolta ocorre quando ele se apaixona pela nova rainha e o rei verdadeiro é sequestrado pelo seu meio-irmão. A partir daí, a vida do rei (o prisioneiro de Zenda) e o futuro dos súditos está em suas mãos. Poderá ele resgatar o verdadeiro rei e ainda continuar vivo?

E eu penso que é legítima uma questão sobre a BD: será que ao nos divulgar estas obras de uma forma mais leve, colorida, ela está a estimular o gosto pela leitura? Ela traz-nos algum conhecimento, mas confesso nunca ter tido grande curiosidade pela leitura dos textos originais.

Outros prisioneiro famosos do CA terão sido os Irmãos Dalton, quatro seres cuja altura era proporcional à estupidez que nos surgiram na série Lucky Luke pela mão de Gosciny e Morris.




O CA trouxe-nos ainda muitas vezes a imagem da colonização americana: o avanço por terras sob os olhos dos seus tradicionais detentores que estes não poderiam aceitar de bom grado.

A epopeia foi-nos servida de uma forma gloriosa, por vezes salteada com laivos de terror associado àquelas torturas que os selvagens infligiam quando lhes caiam nas mãos: na verdade, ser trespassado por uma seta, ou ficar sem escalpe seria o melhor destino para os que sentissem o peso da derrota...
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