segunda-feira, janeiro 22, 2007

Poemas entrelaçados..., 13
Porta #11: A força dos sentimentos

E será que as materialista criaturas, ao menos por momentos, não conseguem acreditar naquela força dita espiritual que parece conduzir e transformar a matéria? Que nos leva a ter comportamentos dos mais estranhos? Que nos leva a afrontar a lei por amor?
Alguns, como aquela associação sindical de gente fria, dirão e sugerirão que tudo é metodicamente preparado e aproveitado para, aproveitando a fragilidade de outros, atingirmos os nossos fins. Eu não vou nessa...
Deixo a dúvida...
Se calhar, há sentimento, como passou a existir quando subi aquela escada ou como aquele para o qual a nossa Espanca estava sempre disponível.
Amar

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
Florbela Espanca

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Fez-se justiça!



Os vencimentos deles triplicaram...
Não, não é a inveja que me faz falar.
É a convicção de que vamos ter empréstimos, portes postais, viagens de avião e água mais baratos...
Sou utópico?
Bom, então fico-me por acreditar em menores bichas na CGD e nos CTT, melhor atendimento nos aeroportos e melhores condutas na água...
Mesmo assim, estou a exagerar?
Que raio! O que é que eles vão para lá fazer?
Poemas entrelaçados..., 12
Porta #10: O destino marca a hora

Que, mal nascemos, temos o destino marcado é verdade, não tenham dúvidas. Senão, porquê todos os sinais que recebemos antes da concretização?
Quando o Domingos veio ter comigo e com o Jó a perguntar se queríamos ir com ele a Leiria, no bólide negro, levar um pneu, nenhum de nós sonhou com a importância que aquela terra iria ter na minha vida. Também, não imaginámos a sórdida partida que a roda nos iria pregar...
Antes, esse destino já tinha sido anunciado com aquela expressão “Perdi-me”, em momento de exames, que um dos “pastores” tratou imediatamente de parodiar.
Depois, estadias e viagens tornaram-se constantes: a pé, de camioneta, à boleia...
O que existiria por lá para tantas vezes ser chamado?


Olhos cor de mel

Na minha terra houve uma batalha
Para lá fui no meu corcel
Levava o amor que me agasalha
Olhos cor de mel

Era um apelo irresistível
Queriam destruir o meu passado
Mas sou combatente temível
Ninguém me traça negro fado

E eis que ela me adoece
De tanta luta e labuta
E enquanto do martírio padece
As minhas palavras escuta

Lutei contra ricos e poderosos
Contra corruptos e mentecaptos
Denunciei autarcas horrorosos
Que só para a podridão são aptos

Chamei amigos à causa
Seus corações ficaram frios
Cheguei ao fim sem uma pausa
Todos voltaram aos seus navios

Ourém está igual ao que era
Mas tem estórias e memórias
Queria contá-las, quem me dera
Traíram-me por outras glórias

Derrotado, o meu corcel
Trouxe-me de volta à outra terra
Sem os olhos cor de mel
Ficaram no sítio da guerra

Mas lá voltei tantos dias
Triste da minha solidão
E as suas palavras macias
Deram-me de novo razão

Trouxe-a no meu corcel
Para a casa que ainda é nossa
Já tenho os olhos cor de mel
nada mais me fará mossa

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Poemas entrelaçados..., 11
Porta #9: Matar a sede com água salgada

Não tenho palavras para apresentar este poema. Ele é porta para um conjunto de posts que tinham a ver com o ambiente nas aulas na escola em Ourém. Tantas vezes eu afirmo que gostava de lá voltar, rever aqueles livros, pensando até em repetir testes para ter melhores resultados e agora avanço com esta súplica que, apesar de tudo, partilho.
Não há dúvida, o ser humano é pleno de contradições.

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Poemas entrelaçados..., 10
Porta #8: As cartas que eu escrevi!

Diz Pessoa que todas as cartas de amor são ridículas. Mas, no colégio, não tive oportunidade de o ler.
Talvez por isso, também tive as minhas cartas... além de outras.
Foram as cartas da cidade do desterro para a cidade da moura encantada.
Foram os bilhetinhos com que bombardeava as coleguinhas...
Foram as cartas em tempo de guerra...
Foram as cartas de homem mau...
... já não falando naquelas missivas curriculares com que, paciente mas infrutiferamente alimentava as bases de dados dos garimpadores de emprego no Expresso...
Mas estão os meus amigos descansados. Todos esses textos terão tido o seu suporte reciclado ou destruído pelo fogo e pela erosão. Não há viabilidade de publicação.

Todas as cartas de amor são ridículas…
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
D'essas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos

terça-feira, janeiro 16, 2007

Poemas entrelaçados..., 9
Porta #7: Voltar lá

Durante muito tempo pensamos: será que um dia lá conseguiremos voltar e reviver aqueles dias saudosos? Pouco a pouco a esperança vai-se perdendo. A esperança que não a recordação... que nos surge mais difusa, mas que nos assegura que estivemos presentes...
Recordo-vos uma aula de ginástica que não houve e, a partir da qual, cometi o atrevimento de jogar futebol com as sapatilhas brancas. Mas será que acreditam que havia alguns que também teimavam em voar... ou em fazer rebolar pedras na direcção do colégio a partir de uma encosta que tantas vezes era cenário de jogos de batota e um dia teve um parceiro inesperado.
Esta porta tem elementos em número excessivo, diz-se que quando alguém começa a recordar, muitas coisas aparecem em catadupa... como por exemplo o prato voador que procurou o director ou a bala traiçoeira.
É todo um ambiente que este poema de Tolentino de Mendonça nos traz à memória: também nós tivemos um Pico Ruivo...


Pico Ruivo
Todo o verão amontoei pedras e as dispersei
vigiava nuvens e sombras pelas fajãs
a mesma solidão perigosamente
transcrita naquele cinzento avermelhado
sob as escamas do céu
urzes sobrevivendo à dura estação
duas ou três cabras, uma tenda

túneis, atalhos, águas geladas
por aí nos conduz a travessia
a folha e a flor pertencem ao vento
um olhar (ainda o meu?) persegue-as entretido
na grande subida

mais abaixo, quando principiava a vereda
manchas de líquenes cobriam de igual modo
o nome dos lugares onde iremos
e dos lugares onde não chegaremos

Tolentino de Mendonça

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Flexinsegurança

Amigo oureense
Para quê uma vida devotada ao trabalho duro? Para quê ocupar uma vaga no mercado de trabalho? Para quê continuar a contribuir para a riqueza do patronato?
Se quer ser feliz e ver crescer a riqueza do país, deixe-se despedir. Contribua para a felicidade do Governo e do Presidente! Verá a maravilha que a segurança social tem para lhe oferecer.
Viva a globalização!!!
Poemas entrelaçados..., 8
Porta #6: Tudo perder...


E que dizer de tudo que ao longo destes anos temos vindo a ser desapossados na nossa terra? O processo começou muito cedo. Primeiro, foi o afastamento, uma espécie de emigração. Isso traduziu-se na perda dos espaços frequentados durante anos e anos. Espaços, onde também tivemos desilusões, verdades que abruptas caiam em cima da nossa ingenuidade. Mas que possibilitavam um ambiente magnífico... E que dizer da bondade dos mais velhos que nos transportavam, na fiel viatura, para todo o lado, ajudando a abrir os nossos olhos para um mundo diferente onde ainda não havia este sentimento de perda?
É altura de chamarmos mais um poema de Pessoa:

Mágoa
Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.

Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego -
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.

Fernando Pessoa, 3-9-1924.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

A sombra da azinheira



Azinheira de Fátima classificada de interesse público", noticia o Público.

Será que a Direcção Geral de Recursos Florestais se alarmou com a inegotável e insaciável capacidade de destruição e incapacidade de manutenção ou correcção evidenciada pelo poder autárquico em Ourém?

E será que algum dia se lembrarão dos caminhos pedonais?
Poemas entrelaçados..., 7
Porta #5: E que um dia, como um raio, a verdade lhes caia em cima...!!!

E, de repente, a verdade, nua e crua, caiu em cima de nós.
Afinal, não havia Pai Natal.
Afinal, o Sol não anda à volta da Terra.
Afinal, os olhos em que inventámos amor eram apenas amizade.
Afinal, o governo teve de aumentar os impostos e, em vez de distribuir a riqueza, o que fez foi socializar a miséria, isentando disso uns tantos: é o socialismo à moda deles.
É-me sempre difícil interpretar o que está escrito num poema. Ele transmite sentimentos que, geralmente, não estou capaz de captar. Por isso, o que posso fazer é associar-lhe pedaços ou espaços de uma vida passada. A minha crença nas prendas que nos chegavam não sei donde, o acreditar na bondade natural das pessoas, o sentimento da durabilidade eterna das representações e dos espaços da juventude.
Hoje, esse acreditar nas ilusões de menino está totalmente exorcizado: a vida encarregou-se de tal conseguir. E parece-me que é isso que está expresso neste poema da Carmen Zita cuja bondade (que afinal ainda existe como qualidade humana) foi enorme ao oferecê-lo ao OUREM:


Verdade

Os solitários castelos de areia
não fazem barulho ao ruir.
No entanto,
é tão sibilante o som
que invade (sem licença) esta voz
que os versos,
que se queriam luminosos,
tenebrosamente se consolidam
em chuva.
Disfarçar o silêncio
com cantos tristes e compassados
não ajuda:
A máscara não assenta bem
nos rostos desiludidos.
Há um qualquer pormenor
que denuncia o engodo.

Carmen Zita Ferreira

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Poemas entrelaçados..., 6
Porta #4: Amigo da bicharada

Há dias, estava no Central e ouvia o miar lancinente de uma série de gatos, entretanto abandonados pelo facto de a sua dona estar numa condição física que não lhe permitia prosseguir o tratamento. Vistos do café, em cima do telhado, ao fim do dia, com restos de Sol projectados sobre eles, mostravam toda a sua beleza. Mas a situação não deixava de ser muito triste e a questão ocorreu imediatamente: não existirão serviços na autarquia que os possam recolher, tratar e eventualmente reencaminhar para adopção?
Ourém, noutros tempos, era uma terra amiga da bicharada. Que o digam os familiares do médico veterinário que nos legou um Caderno de apontamentos e cujo carteiro procurava o devaneio nocturno. Que o diga a estória do gato cirúrgico ou a paciência do Tejo naquele dia em que resolvi dar-lhe um banho.
Mas mais enternecedor que tudo isso é, com certeza, este poema de António Gedeão que nos traz a preocupação do ser humano com estes amigos quando sente a inevitabilidade de os vir a abandonar.


Poema do gato

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta pra trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre pra mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

António Gedeão

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Mas por que é que estas notícias nunca nos chegam de OUrém?



- A culpa é do Governo - responde o impagável autarca.
- Não, a culpa é dos oureenses que, em todas as eleições, são masoquistas - diriam os de espírito mais crítico.
- Cá por mim, a culpa é da Quercus - acrescentaria o Basílio dos investimentos.
E quem fica de fora, quem é?
Poemas entrelaçados..., 5
Porta #3: A Perdição como destino

O tema “Perdição” sempre teve múltiplos motivos de aplicação em Ourém. Era a perdição pelos olhos de uma linda menina, era a perdição pela prova do palhete que acabava a cura na pipa...
Na infância, também me acompanhou: uma vez, foi-me trazido por uma castanhola que quase me tornou um marginal em relação aos bem-comportados; mas houve também uma famosa viatura, o chamado carrinho do palhete.
Ourém não perdeu esta tendência e, hoje, enquadrada por um poder autárquico que vê no falso desenvolvimento das negociatas e do favor ao capital a razão de existir, entra em definhamento imparável. Os oureenses perderam a chama, a vida, a identidade e as referências da magnífica terra que herdaram.
A Perdição, enquanto resultado da entrega ao amor, foi-nos dada a conhecer na letra de um fado que, um dia, Cristina Branco, nos trouxe:


Fado perdição

Este amor não é um rio,
tem a vastidão do mar.
E a dança verde das ondas
soluça no meu olhar.

Tentei esquecer as palavras
nunca ditas entre nós
Mas pairam sobre o silêncio,
nas margens da nossa voz.

Tentei esquecer os teus olhos,
que não sabem ler nos meus.
Mas neles nasce alvorada,
que amanhece a terra e os céus.

Tentei esquecer o teu nome
arrancá-lo ao pensamento
Mas regressa a todo o instante
entrelaçado no vento.

Tentei ver a minha imagem,
mas foi a tua que vi
no meu espelho porque trago
os olhos cheios de ti.

Este amor não é um rio
Tem abismos como o mar.
E o manto negro das ondas
cobre-me de negro o olhar.

Maria Duarte

terça-feira, janeiro 09, 2007

Poemas entrelaçados..., 4
Porta #2: Saber guardar segredos

Naquela idade e, talvez, em todas as demais, era importante apreender, guardar e calar para um dia partilhar com quem mais apreciávamos. Passou-se isso comigo...
Vocês não calculam o aspecto daquelas varas e as funções que eu sonhava para elas depois de cuidadosamente ter removido a pelica que as cobria. Mas os netos da Júlia padeira, primos do Quim e do Julito, não permitiram que a brincadeira chegasse ao fim. E um dia o arraial foi enorme no largo onde se inicia a Rua de Castela e a mãe deles acabou ferida por um golpe de uma das varas..
Como que para festejar esse arraial, um dia, eu e Mina Guta decidimos atirar arames pelos ares e destruímos os fios eléctricos que iam de casa da Aurorita - aquele formidável albergue que, às quinta-feiras, no quintal, guardava as carroças, as mulas e os burros que traziam os donos ao mercado - para a casa do Souto. Na polícia, não falámos, mantivémos o segredo até ao fim, independentemente das suas manobras para nos confundir, e tiveram que nos libertar.
E se, por acaso, vos fiz crescer o desejo de recordar mais alguém também perito em guardar segredos, vejam este delicioso poema de Torga:

Segredo

Sei de um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

Miguel Torga, in Diário VIII

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Poemas entrelaçados..., 3
Porta #1: Abertura


O primeiro poema e os primeiros textos são como que uma dedicatória e um foco no local da acção. A dedicatória abrange todos os amigos: os do Poço e os não do Poço, os presentes e os ausentes, os resistentes e os desaparecidos, o que desde logo é visível na capa. O local é a saudosa Aldeia de Castela que o actual poder autárquico (que quer gastar o mínimo), com alguma cumplicidade de proprietários (que querem receber o máximo), persegue para destruição sem um mínimo de respeito por toda a história que guarda.
Retornamos assim ao Esquema geral da Aldeia de Castela e às Memórias do infante.
Quanto ao poema, também já aqui publicado, não poderia ter melhor título:


A todos e a cada um dos meus amigos

Por um por todos por nenhum
faço o meu canto canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.

Por nenhum por todos ou por um
eu dou o meu poema o meu tecido
de palavras gravadas com o lume
do medo que na voz trago vencido.

Por nenhum por um mesmo por todos
sou a bala e o vinho sou o mesmo
que pisa as uvas os versos e o lodo
num chão onde a coragem nasce a esmo.

Joaquim Pessoa
in Poemas de Perfil

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Poemas entrelaçados..., 2

Esta é a capa (e contracapa) que idealizei para o segundo volume do "Ourém em estórias e memórias". Não sei se reconhecem os distintos que nela aparecem, eu ajudo: os três Luíses nascidos na aldeia de Castela e o Manel...
Ao longo das próximas semanas divulgarei o seu conteúdo. Nada tem de novo, pois tudo foi publicado no OUREM. A organização, essa, é diferente: cada poema (e são catorze) é uma porta para uma ou várias estórias passadas na nossa terra. Gosto do efeito conseguido...

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Vida por Vida

Os nossos bombeiros fazem hoje 95 anos.
Uma idade bem avançada, mas que não deixa de se manifestar com muita força e determinação na sua missão principal e na utilização de novas ferramentas: seguindo a nossa exortação "Que mil novos blogs floresçam...", eles também têm um blog. É uma prova de coragem, maturidade e juventude.
Parabéns por esta importante data!
O mentiroso

João Pinto entrou testemunha e saiu arguido no caso dos 3,2 milhões de euros. De acordo com o Público, terá dito que mentiu no processo que envolve José Veiga, reconhecendo ter ficado com o dinheiro e podendo ser indiciado pelo crime de fraude fiscal.
Relembremos que ele goza da presunção de inocência.
Mas imaginemos que o não é... Não teria todas as razões para fugir ao fisco? Para quê contribuir para o SNS se este está de rastos e, com a sua fortuna, pode recorrer aos melhores médicos? Para quê contribuir para a SS, se esta só paga reformas de miséria (e agora até quer deixar de pagá-las) e ele pode constituir excelente reforma com os dinheiros que recebe? Para quê financiar a manutenção e construção de caminhos, estradas e autoestradas, se pode deslocar-se de avião ou helicóptero fugindo às bichas suportadas pelo povo?
João Pinto e outros como ele não precisam para nada da coisa pública. Por isso, é justo e compreensível que fujam ao fisco.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Novo ano com muito desnorte

E que vou fazer este ano? Esta uma pergunta que geralmente me ocorre. Não que não tenha resposta, mas a verdade é que não estou lá muito confiante.
Tomemos, por exemplo, aquele trabalho das câmaras...
São 308 concelhos, o nosso incluído. Já lhes escrevi há mais de quinze dias e só obtive umas 15 respostas. Gente bem comportada é certo, mas sem os outros, David incluído, nada feito. ESperemos mais uns dias.
Entretanto dei-me ao trabalho de compilar algumas referências ao trabalho anterior. A conclusão é imediata: os que ficaram à frente ficaram todos contentes e autoelogiaram o acerto da política local, os outros ficaram calados que nem ratos. Mas houve quem se referisse ao assunto fora do campo oficial, blogs incluídos. Eis aqui uma lista muito interessante de consultar.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Chantagem

Olha os tentáculos do polvo
Que em Ourém tudo abraça
Malvados que eu não absolvo
Impios portadores da desgraça
O OUREM e 2007

Ai que abandono tão profundo!
Ai que desprezo tão sentido!
Que mal fiz eu a este mundo
Vil, ignóbil, doido varrido?

domingo, dezembro 31, 2006

Vem aí novo ano

... e o OUREM deseja excelente 2007 a todos os seus amigos!

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Não ceder!

Se se receber carta deste simpático bichinho, o importante é não ceder. O mais certo é perder dada a desproporção de forças e a capacidade de chantagear do dito, mas afrontá-lo mostra um caminho que pode trazer frutos no futuro.
Ultimamente, tem manifestado a sua existência muito para os lados de Fátima.
E a verdade é que...
... mesmo que os interesses dos presumíveis prejudicados não sejam lá muito respeitáveis já que podem basear-se nos benefícios da especulação, permitir que esta trupe vença significa que vão sentir-se cada vez mais poderosos e que, mais cedo ou mais tarde, os seus tentáculos abraçarão os bens daqueles que não recorrem a fonte desse tipo.

Os olhos do gato

Mirem-me esta fotografia. O diabo daqueles olhos seguem-me para todo o lado. Sento-me a ler o jornal e vem para o meu colo. Deito-me, tento dormir e vem para cima de mim. Se, por acaso, adormeço, arranha todas as peças disponíveis para me fazer acordar e levantar.
Agora, vejam como ele me fita...
Será aquilo natural? Não será por acaso um espião programado para registar tudo o que faço e me torturar no dia a dia? Será mesmo um gato ou será um objecto com a sua forma?

quinta-feira, dezembro 28, 2006

O barrete natalício

É assim todos os anos. Cria-se a expectativa de que algo novo aí vem e depois é a desilusão.
- Paizinho, qual é a prenda que queres?
Adivinham com certeza o que eu respondi e pedi com DVD e tudo a pensar que vinham lá umas imagenzinhas a acompanhar as canções.
Santa ilusão!
Todo o som que ali vem é sobejamente conhecido apesar de ter algumas misturas diferentes. Algumas canções, em versões diferentes, não melhoraram: o "Because" é francamente melhor no original. Bom, gostei do "Strawberries...", do "While my guitar.." em versão que já conhecia da Antologia, mas considero aquilo monumental barrete. Mas que se poderia esperar dos que restam, desaparecidos que estão o mais rebelde e o melhor instrumentista, numa edição onde a famigerada Yoko também colaborou?
Bem mais satisfatória é a prenda que a Tanita nos deixou no amanhã é outro dia.
E está tudo dito.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Uma prenda de David aos oureenses

Ourém, 25 de Dezembro de 2006...
As pessoas passeavam pela Avenida. Algumas falavam, outras apanhavam um pouco de Sol, outras olhavam na direcção daquele mini centro comercial onde funciona o Ulmar. À sua frente, os caixotes de lixo estavam cheios e bem cheios, tampas abertas, exalando um cheiro nauseabundo.
Alguns comentavam.
- É incrível! Já há uns três dias que não recolhem o lixo!
- Esta Câmara é uma miséria...
- A Câmara não tem a culpa. Quem faz a recolha do lixo é uma empresa que também o faz em Leiria.
- Mas a Câmara deve pagar-lhe e parece que as condições do contrato não são lá muito boas a avaliar pela qualidade do serviço.
- Que queres? Parece que estão em posição monopolista, não há qualquer alternativa...
Esta é mais uma prenda de David aos oureenses...

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Um Natal Feliz


O OUREM vai fechar por uns dias.
"Fechar" é uma forma de dizer: não teremos oportunidade de postar, mas o blog permanece aberto.
Deixo-vos, por isso, com uma capa do Cavaleiro Andante de há cinquenta anos, da autoria de Fernando Bento. Já agora fiquem a saber algumas das magníficas séries que por lá andavam nessa altura e que ajudaram a fazer desse um Natal feliz: [Tim-Tim] Na América do Norte, Perdida na Tempestade, Baden Powell, Capitão Flamberge, [Blake & Mortimer] Enigma da Atlântida, O Senhor do Sol, [Toni & Mimi] Talismã Negro, Uma Cidade Flutuante, [Jerry Spring] Mistério do Rancho Grande, [João Paulo] A Cidade Perdida, O Pequeno Grumete, O Sargento-Mor de Vilar.
Voltaremos lá para o dia vinte sete, se não for antes. Até lá, o OUREM deseja a todos um excelente Natal.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Undelivered mail – failure notice

Hoje, oficiei as 308 câmaras sobre o início do estudo relativo à maturidade dos seus serviços de informação em 2007.
É impressionante a quantidade de mensagens devolvidas que não foram entregues ao destinatário. Ou excederam a quota, ou já não têm aquele endereço, ou... o diabo que os carregue...
Há os que chegam ao cúmulo de tapar toda a informação sobre os seus endereços e disponibilizarem caixas de correio que não admitem anexos... logo, não vão receber o inquérito. Dão o telefone, a morada, mas o email é que não.
Para já, cerca de 40 não vão ter possibilidade de responder ao inquérito: Almeirim, Barcelos, Esposende, concelhos assim...
Mas animem-se.
Três câmaras já me responderam a avisar que receberam a mensagem e oportunamente preencherão o inquérito... e...
... a mensagem para o presidente David seguiu e não foi devolvida. O que é que acham que ele vai fazer? Eu não duvido: neste aspecto, vai manter a tradição...
Poemas entrelaçados com estórias da nossa Ourém

A actividade editorial dedicada a Ourém vai prosseguir, agora com a produção do segundo volume do "Ourém em estórias e memórias", portanto, a quarta peça do projecto com o mesmo nome (que não ficará por aí).
O objectivo deste livro continua a levar-nos à exploração de recordações da doce Ourém dos anos cinquenta e sessenta tão maltratada por gentes de agora.
Estas recordações foram sendo publicadas neste blog, alternando com poemas e com legendas de canções. Resolvemos, por isso, reproduzir parte desse efeito neste livro: as estórias de Ourém são antecedidas de uma porta que é um poema de alguém de méritos já reconhecidos e que vem, assim, contribuir para a elevação das nossas humildes linhas à categoria dos seus produtos. O efeito parece-nos extremamente benéfico.
Surgem-nos, assim, neste livro poemas de Álvaro de Campos, António Gedeão, Carmen Zita Ferreira, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Joaquim Pessoa, Maria Duarte, Miguel Torga, Tolentino de Mendonça e, claro, daquele prolífero autor que teima em não vos largar.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Trinta anos do poder autárquico

Entalado pela finalização do semestre e a necessária atenção a dar a alguns trabalhos da miudagem, ainda tive, ontem, tempo para dar uma espreitadela ao congresso que se realizou no pavilhão do Atlântico assistindo a pequena parte da intervenção do ministro António Costa.
Mais responsabilidades, mais funções, mais dinheiro para as autarquias parecem estar na ordem do dia. Mas, desta vez, após consulta de resumos relativos ao congresso, gostei especialmente daquela passagem da mensagem do presidente Cavaco em que se fala em "mais ética". Creio que esta é a questão fulcral, uma questão que, em Ourém, tem projecção muito forte...
Quem parece não estar a apreciar muito tudo isto é o troglodita da Madeira, obrigado a racionalizar as despesas, como se pode notar a partir do seu discurso cada vez mais insultuoso.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

O malvado teve morte santa

- Vamos, toca agora! - gritavam os algozes ao autor de "Venceremos" depois de o agredirem brutalmente, o torturarem e lhe esmagarem as mãos à coronhada.
São imperdoáveis quaisquer actos de violência contra os que não comungam as nossas ideias. Mas, mais uma vez, o maior responsável escapou ileso, sem sequer um julgamento que lhe demonstrasse quanto mal fez às pessoas, por isso, apesar do que escrevi há bem mais de trinta anos, o Chile ainda não venceu...

quinta-feira, dezembro 07, 2006

A culpa é da quadra

Pois é.
Não consigo encontrar em Ourém algo que me transmita vontade de uma referência aqui.
Também estou longe, as visitas são esporádicas, o que está dito dito está e não vale a pena repeti-lo.
Vou acreditar que esta total desinspiração tem a ver com a quadra e que, lá para Janeiro, virá a ideia mágica capaz de salvar este blog do ameaçador afundamento.
Entretanto, vou vendo o que se passa com os meus "colegas" das anteriores eleições. A Sandra já tem um blog. Tardou, mas assim sempre ficámos libertos de ouvir elogios ao Dr. Ribeiro e Castro durante o ano que passou. O PS fez uma convenção autárquica: lá foram todos falar uns com os outros e dizer cobras e lagartos da actual vereação. Depois, veio o comunicado com o auto-elogio. Finalmente, o presidente DAvid parece que ficou irritado com o que se disse na convenção socialista. Não percebo porquê. Por muito mal que eles tenham dito da sua acção, penso que pecaram por defeito.
Mas nada disto tem piada. Aguardemos, aguardemos por melhores tempos...

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Acordar

É o retorno lento por acaso num dia que traz algum sol.
Nem sei por onde hei-de começar.
A saga de Branca Flor terminou. Já tenho à minha frente os cinquenta exemplares produzidos e agora há que esperar pelo próximo Poço.
Mas que fazer até lá?
Vamos voltar àquelas horríveis preocupações do dia a dia? Breve, vou ter que retomar aquele trabalho das câmaras. Lá vou escrever ao Orelhas Moucas a fazer-lhe perguntas a que ele não responderá. E são tantos como ele: da última vez, se bem me lembro, uns 92%...
Gostaria de continuar a utilizar Ourém como ficção. Ou o próprio país... apontando para algo mais actual, com novas personagens... por exemplo o Hipócrates. Sim, aquele que veio dizer que garantir 500 euros mensais, em 2011, aos pobrezinhos que se matam a trabalhar, é uma medida de largo alcance. Aliás, consta que nunca houve nada de semelhante no país...

terça-feira, novembro 28, 2006

Um desafio à perspicácia oureana

O OUREM vai hibernar por uns dias.
Mas deixa-vos algo de aliciante. A partir deste momento, os meus amigos podem colaborar na solução do mistério que assola Ourém há tantos anos.
Quem matou BRanca FLor? Estará o inspector Alforedo de Tanta Fita dentro da razão? Não terão os meus amigos uma melhor versão dos acontecimentos?
Deixem aqui a vossa solução e garanto-vos: se for melhor do que a que está elaborada e aguarda publicação, será ela a escolhida. Vamos, ponham à prova os vossos dotes adormecidos de investigação. No final, o prémio para o melhor será inolvidável.
E, com este post, terminamos a nossa longa referência à "História Triste de Branca Flor".

segunda-feira, novembro 27, 2006

Quem matou?

Estavam todos reunidos no espaço do café Central, local escolhido devido à eventual necessidade de reconstituição. Alforedo de Tanta Fita ocupava o local junto àquela mesa de dois lugares nas costas da qual ficava a escada para a cave. Ao seu lado esquerdo, alguns quadros mostravam a Ourém dessa época. As pessoas foram-se espalhando à sua volta e Alforedo começou a sua dissertação.
- Meus senhores, estamos aqui para tentar esclarecer a morte de uma menina de Ourém conhecido por Branca Flor e que teve uma morte horrível num banco do jardim em frente. Durante muitos dias procurei uma explicação para o que se tinha passado. Ouvi pessoas, fui a vários locais, consultei a imagem que a fotografia tirada após o crime revela. Constato que essa imagem tem alguma semelhança com aquele quadro que ali vêem na parede e isso leva-me a pensar que alguma mão criminosa também adulterou a imagem. Reparem no quadro há uma pessoa, na fotografia, a pessoa não se distingue, mas, em baixo, podemos distinguir claramente os pés de alguém...
O empregado do café, o Vicênzio, começou logo a tremer.
- Mas, senhor inspector, eu estou nessa fotografia, mas não matei ninguém...
- Eu sei, meu rapaz. Possivelmente alguém quis atirar as culpas sobre ti, mas eu sei quem é o culpado – e olhou significativamente para Orelhas Moucas.
Leontina começou a enervar-se:
- Vá lá, senhor inspector, diga quem foi esse bandido, preciso de ir regar as couves.
- Esteja calma, dona Leontina. A memória de Branca Flor deve merecer-nos mais respeito. Uma coisa vos posso dizer: o assassino está aqui, entre nós...
- O quê?
Olharam todos uns para os outros cada um pensando que o outro era o criminoso. Mas o inspector não os deixou esperar mais tempo. Alforedo Tanta Fita fitou longamente os presentes. Encheu o peito de ar e disse:
- Meus senhores e minhas senhoras, finalmente esclareci o mistério da morte de Branca Flor. Não foi fácil, podem crer, houve muitos de vós que me ocultaram provas e factos, mas a minha inigualável experiência permitiu-me chegar ao fim. Vou satisfazer a vossa curiosidade. O assassino de Branca Flor foi...

E agora, os amigos oureenses terão de esperar até 3 de Novembro de 2007 para saberem, eventualmente através de algum frequentador do Poço, se o assassino de Branca Flor foi ou não descoberto...

sexta-feira, novembro 24, 2006

O estigma Orelhas Moucas

Branca Flor foi violada, açoitada, usada, enxovalhada, amaldiçoada e assassinada naquela terra.
É certo que amou e foi amada com toda a veracidade que essas palavras podem transportar em qualquer local da nossa sociedade.
Mas não conseguiu perdoar àquela gente. Um dia, antes de encontrar o grande amor da sua vida, ela produziu uma maldição dirigida ao miserável Orelhas Moucas. O uivo de loba apoderou-se do vento, enormas pedras sairam dos seculares buracos onde descansavam, as árvores libertaram as suas raízes da terra, a água desatou a correr, a encosta dos moinhos por trás da Câmara começou a vir por ali abaixo.
De repente, ela teve a noção de que aqueles não eram os únicos culpados do seu infortúnio. E a gente mesquinha de Ourém que os apoiava e que, no fundo, na sua falsa moralidade, a condenava? Ela bem via o seu ar falsamente púdico quando iam aos domingos à igreja pedir perdão dos pecados que tinham feito durante toda a semana. Não mereceriam castigo?
- Pára!!! - exclamou Branca Flor extraindo mais um pelo de gato preto quando assanhado - Que mais Orelhas Moucas assolem esta gente nos próximos cem anos. Que os seus anseios sejam sempre espezinhados. Que o seu património e a sua cultura sejam destruídos a favor dos interesses dos ricos. Que os que de entre os mais humildes têm alguma coisa disso sejam despojados em falsas realizações de interesse público...
Como por encanto a enxorrada parou, ainda envolvendo o edifício onde Orelhas Moucas permanecia aterrorizado com o ruído. O povo pensou tratar-se de algum castigo divino, mas desligou do assunto interessado que não estava em lhe dar castigo terreno.
E a maldição de Branca Flor parece não querer largar os oureenses...

quinta-feira, novembro 23, 2006

O grande detective



Esta é a imagem de Alforedo de Tanta Fita que, uma tarde de Outubro lá para meados da década de sessenta, chegou a Ourém com a missão de descobrir a razão de estranhíssimos acontecimentos que se tinham passado naquela terra e que tinham culminado na morte de uma formosa donzela junto ao café Central, onde se integravam também ataques de vampiros, enforcamentos em escadas de depósito, enxorradas pela encosta do moinho e estampanços contra choupos centenários.
É dele uma das melhores tiradas que ilustra cabalmente a sua sagacidade, embora proferida numa fase muito inicial da pesquisa:
- O assassino de Branca Flor é Leontina... Porquê? Porque é magra... e o que não mata engorda.
Direito de pernada

Branca Flor caiu nas garras de Orelhas Moucas.
Na sequência do acidente que enviou a nossa heroína para o hospital, Orelhas Moucas foi visitá-la e insinuou-se na simpática família da menina. Não tardou muito, estavam a pedir-lhe que contratasse Branca Flor para a Câmara, uma vez que já tinha concluído o quinto ano dos liceus, mas ele teve receio que ela fizesse a cabeça doida a todos aqueles homens que enchiam o local de trabalho e acabou por lhe dar emprego numa lojeca de santos em Fátima perto do posto de turismo e da farmácia.
Branca Flor não era a única menina ali colocada naquelas circunstâncias e, a breve trecho, apercebeu-se que ele servia-se da qualidade de patrão para lhes extrair favores sexuais. Tantas vezes ela ficou envergonhada enquanto ouvia os grunhidos e gemidos de Jaquina da Purificação na lojeca ao lado quando ela fingia atingir o orgasmo com o improvisado mas irrepreensível senhor.
Colabou, é certo, mas permaneceu sempre fria e hirta enquanto Orelhas Moucas se servia dela. No final sentia-se suja, enojada, mas pensava: “quando o lobo chega, é tarde para gritar ordens e conselhos...”.
Ironicamente, nesse mesmo local veio a conhecer o amor da sua vida.
Gandolfo Paixão, um jovem oureense, encantou-se de Branca Flor num momento em que arranjara um emprego em Fátima e, a partir de então, a felicidade do par de pombinhos foi inexcedível.
Mas está escrito que à maior felicidade pode estar associada a maior desgraça. Orelhas Moucas não quis sair da vida da menina.
Um dia, Gandolfo assistiu ao seu encontro e não quis ser vértice naquele malvado triângulo. Branca Flor ficou abandonada na solidão do banco de jardim em frente ao edifício da Loja do Povo, sei lá, talvez a uns trinta metros do café Central.

quarta-feira, novembro 22, 2006

O encontro com Orelhas Moucas

David Orelhas Moucas gostava de fazer favores. Um dia, após um lauto banquete com um proprietário da região, regressava à Câmara a alta velocidade, porque estava atrasado para uma reunião.
Ao passar junto ao depósito, um vulto começou a atravessar a estrada. Travou com toda a força. O carro produziu enorme chiadeira, mas foi tarde.
O embate com o peão produziu-se. Uma menina foi projectada a alguns metros.
David saiu do carro. Nesse momento, o seu homem de confiança, Vitor Pavão, apareceu e reconheceu o corpo.
- É a filha do Adalcibíades.
Orelhas Moucas sentiu-se incomodado. Não gostava daquele homem desde que ele tinha virado a população contra ele e o tinha feito passar um mau bocado.
Aproximou-se do corpo da menina. Apercebeu-se que ela era muito bonita e levou as mãos à cabeça.
- Meu Deus, o que eu fiz...
Começaram a juntar-se pessoas.
- O gajo vinha com excesso de velocidade – ouviu-se dizer.
- Claro, é o presidente da Câmara. Vão ver que não lhe acontece nada.
- Chamem uma ambulância por favor. Responsabilizo-me por todas as despesas...
Branca Flor jazia no chão sem dar sinais de vida.
Que irá acontecer?
Salvar-se-á?
Desaparecerá sem conhecer o presidente Orelhas Moucas?
Quem estava com Orelhas Moucas no regresso do almoço com o rico proprietário da região?
Amigo oureense, não deixe de acompanhar mais pequenos episódios da novela “A história Triste de Branca Flor” que o Ourem vai revelando e não esqueça que a resposta a estas e outras perguntas será dada no momento da sua publicação que, tudo o indica, surgirá em 3 de Novembro de 2007, data do XXII almoço/convívio do Poço

terça-feira, novembro 21, 2006

Oh! O rapaz vai nu...



Um dia, a rapaziada decidiu ir tomar banho para o rio. Branca Flor assistiu aos preparativos de qualquer coisa embora não conseguisse perceber o quê.
Resolveu segui-los...
Sairam de Ourém e ali, na Corredoura, viraram à esquerda, aproximando-se da ponte.
Faziam quase sempre aquele percurso, depois saiam da estrada e subiam ou desciam ao longo do rio conforme lhes desse.
No rio, uma miúda tentava apanhar peixe com um cesto, mexendo-se desalmadamente de um lado para o outro.
- É a fulaninha dos Castelos. Anda quase sempre ali, depois vai vender o peixe para o mercado. Não fala a ninguém, é uma importante...
Continuaram na direcção da Melroeira, sem saberem que Branca Flor os seguia. A certa altura pararam e Branca Flor escondeu-se atrás de uma árvore para os ver. Deliciou-se a vê-los despir e, quando se atiraram à agua, apreciou o seu porte ainda relativamente juvenil.
“Nem sabem o que os espera”.
Enquanto se divertiam na água, ela aproximou-se sorrateiramente das roupas e fugiu com elas na direcção de Ourém.
Pelo caminho aproximava o nariz daquelas roupas cujo cheiro contrastava com o perfume suave e natural do seu corpo. Menina adolescente, isso provocava-lhe sensações contraditórias.
“Homem másculo de Ourém cheira a cavalo ou cabresto...” – pensava.
Imaginam os meus amigos como os miúdos oureenses se sentiram quando viram que lhes tinham roubado as roupas e se aperceberam que tinham de regressar em pelo até casa. Voltaram à ponte, daí passaram para o outro lado e caminharam tentando esconder-se entre as árvores.
Duma janela, a tia Alice chegou a dizer:
- Oh! O rapaz vai nu...
Ninguém lhe ligou, pensaram que era um caso de senilidade, mas a verdade é que a travessia do largo da igreja e o regresso a casa daqueles meninos, perante o espanto dos frequentadores do Central e dos que atravessavam a avenida, foi nas condições descritas. Mais descansados ficaram quando, à porta de casa, depararam com as suas roupas cuidadosamente dobradas.
A partir de então, aquela ponte por onde passaram ficou conhecida como “A ponte dos desnudados”.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Uma sova monumental



- Agora vais pagá-las todas, grande sacana!
Foi assim que Adalcibíades Campos Flor vociferou contra o pérfido professor quando da segunda tentativa deste para violar a sua menina, Branca Flor.
Nunca em Ourém alguém pregou uma sova maior e mais justa do que a que foi dada a Vitorino Falinhas Mansas naquele dia. Foi esmurrado, esbofeteado, pontapeado sem piedade. O sangue jorrou-lhe abundantemente da cara e, ao fim de pouco tempo, ficou inanimado.
Foi transportado ao Hospital de Ourém e depois ao de Torres Novas na ambulância que os meus amigos podem apreciar.
Dizia o seu condutor, o ti Júlio:
- Nunca vi uma coisa assim. Parecia que tinha passado um cilindro por cima do homem ou que lhe tinham pegado por uma perna e batido com ele contra uma árvore. Era só sangue, a cara esborrachada, o peito parecia que se colava com as costas...
Apesar de tudo, o Falinhas Mansas escapou.

domingo, novembro 19, 2006

O Guardião meteu água

Calma! Calma! Calma!
Anda uma pessoa a aproveitar o merecido descanso dos fins de semana outonais em manhãs e tardes calmas e com esta temperatura tão macia, vem ao blog e aparece-lhe o pessoal todo assanhado...
Não pode ser. O assunto não merece tanto.
É verdade que confessei a um ou dois guardiões uma certa mágoa por não ter conseguido publicar em termos comerciais o "Ourém em estórias e memórias". Já relativamente ao CD não fazia qualquer sentido.
Mas não foi passada a qualquer guardião procuração para as palavras que constam do terceiro daqueles comentários. Nada pode beliscar o mérito da actividade da Som da Tinta em Ourém e por Ourém. A verdade é esta e só esta.
Por isso, o Ourem pede desculpa aos responsáveis da editora pelas palavras parvas, loucas e irresponsáveis daquele guardião.
O Ourem está satisfeito com a animação que a anunciada produção de "A história triste de Branca Flor" tem suscitado, mas não quer que isso sirva para atacar quem quer que seja entre as pessoas que nos são queridas e o Sérgio é uma delas. Por isso, ou os meus amigos ganham juízo ou fecho esta gaita e não desvendo mais nada sobre o conteúdo da obra.
Para que fique claro: não preferimos edições de autor. Só optaremos por uma edição nesses moldes se nenhuma editora manifestar interesse na publicação ou não o fizer atempadamente para poder ser distribuída entre os membros do Poço (próximo almoço/convívio em 3 de Novembro de 2007). Cumpro sempre aquilo que prometo.
E oxalá isto fique por aqui, pois pretendemos, na próxima semana, dar mais formidável avanço à obra e brindar os nosso amigos pelo menos com mais três pormenores:
- a ponte dos desnudados;
- a sova no Falinhas Mansas;
- o encontro com o Orelhas Moucas.
Estejam, portanto, os meus amigos calmos e atentos.

sexta-feira, novembro 17, 2006

O pacto

Diz o código do Poço que qualquer obra que algum dos seus membros concretize deve, primeiro, ser conhecida e avaliada no interior da seita e, só depois, se se justificar, será feita a divulgação, na totalidade, perante os membros da sociedade em geral, gente obviamente indigna de integrar a organização. Por isso, compreendendo os protestos que écse e Santa Cita vão proferindo (e que eu espero não me amaldiçoem o desenrolar da estória), não pode o Ourem divulgar na totalidade este novo e interessantíssimo produto. Quem quebrar este pacto terá de aturar David das Orelhas Moucas durante mais cinquenta anos.
No entanto, integrada que esteja a obra no historial do Poço, não há obstáculos de maior para ela ser enviada ao povo. Assim, quem a quiser, deve aqui deixar o seu nome e direcção para contacto futuro.
Entretanto, as coisas podem mudar, por isso não percam a esperança (como dizia a canção)...

quinta-feira, novembro 16, 2006

Entusiasmo

... é o que pode dizer-se da atitude de muitos oureenses perante a obra que se anuncia.
Um entusiasmo com uma manifestação contraditória: baixam as audiências, mas sobem os comentários. Claro, isto é literatura de cordel, se calhar nem isso é, não merece a atenção de gente tão séria.
A Teresa tem sido excepcional, a povoar o blog com contribuições que o enriquecem de uma maneira que eu não gostaria de ver perdida. O mesmo posso dizer em relação ao nosso amigo Santa Cita que, apesar de tudo, ainda não adivinhou quem foi o assassino de Branca Flor. O Sérgio também já manifestou o seu desejo de que o autor não desistisse.
São três vozes muito importantes para mim e a quem levo muito a sério.
Mas os aplausos não se ficaram por aqui.
Pessoas amigas têm-me telefonado a manifestar o seu apoio. Não percebo a sua timidez em aparecerem no blog. Talvez por a estória ser ordinária, mas isso é assumido desde início e, como já devem ter reparado, já fizemos uma deslocação do palco para não ferir susceptibilidades...
Têm também de compreender a minha inexperiência nestas coisas, na construção de tramas. Já escrevi 49 páginas e ainda faltam alguns capítulos, notando-se uma certa desigualdade nos tamanhos. Outras ideias surgem pelo caminho: mais ficção sobre vida política na Ourém de então (já que a real todos sabemos como é e era), mais brincadeira como o assalto ao carregamento de água-pé ou o roubo do carro dos bombeiros... mas tudo isso vai fervilhando e tem que se deixar cozer bem...
Ainda vou ser acusado de plágio

Confesso que não estava à espera desta.
De repente, percebo por que razão o nome para a obra me chegou com tanta facilidade. Uma espécie de partida do subconsciente operada a partir de uma descoberta na doce casa dos fantasmas.
Mas desenganem-se os meus amigos...
Aquela Branca Flor, anafada, sentada no chão, não é a nossa Branca Flor. O tempo também é diferente: estamos numa Ourém perto da nossa, onde já se anunciavam as maldições que nos iriam perseguir no século XXI e que, se os oureenses dessem ouvidos a quem em devido tempo os avisou, já teriam sacudido. Aquele guerreiro, coberto pela armadura, não é o nosso herói. E o assassino, como se verá, tem uma figura bem diferente daquela que vos é sugerida pela gravura...

quarta-feira, novembro 15, 2006

Terror nos moinhos de vento

Este é uma imagem do local até onde Branca Flor seguiu os seus amigos sem eles se aperceberem e os aterrorizou imitando o uivar dos lobos do Vale Travesso, atirando pequenas pedras sobre a cobertura e pondo a vela do moinho em movimento.
De repente... um enorme clarão iluminou toda a Ourém num raio de mais de 2 quilómentros a contar do ponto central ali no moinho. Ao mesmo tempo, produziu-se uma formidável explosão. Branca Flor desatou a fugir e escapou sem nada lhe acontecer. Dentro do moinho, nem todos foram tão felizes na tentativa de fuga*.
Em poucos segundos, desceram a encosta ingreme, passaram junto ao chafariz e pararam no largo onde se inicia a rua de Castela. Alguns estavam chamuscados, um tremia e não dava sinais de se conseguir recompor.
- Devia ser algum fantasma que não gostou que ali estivessemos.
Nos dias que se seguiram, tudo isto foi muito comentado em Ourém e Branca Flor gozava interiormente com o grande susto que lhes tinha pregado. Gostava de ouvir aquelas conversas em que as pessoas pensavam que uma alma do outro mundo tinha ido incomodar os rapazes que estavam no moinho, isso fazia-a sentir importante, era como se estivesse a observar o mundo e as suas crenças, com plena explicação do real, sem mais ninguém a conseguir ver. Ao mesmo tempo, estava contente por não lhes ter acontecido nada de mal. Essa não fora a sua intenção, ela só pretendia divertir-se.

* - pormenores no desenvolvimento da obra "A história triste de Branca Flor" a editar para o XXII almoço convívio do Poço

terça-feira, novembro 14, 2006

A quinta do lobo uivador



A quinta do lobo uivador situa-se nas imediações do Vale Travesso. Branca Flor e o seu amigo João Sem Terra aí estiveram um dia a surripiar fruta aos seus donos legítimos. Aquilo aqueceu um pouco e os nossos jovens amigos distrairam-se acabando por ser encontrados pelo vigilante da quinta. João Sem Terra conseguiu fugir, mas Branca Flor ficou refém do dono da quinta.
Não calculam os meus amigos o que ela passou. Quanto foi açoitada...
Enquanto o castigo decorria, o uivar dos lobos parecia acompanhar o seu infortúnio. Ela nunca mais esqueceu esse som e esses momentos e, mesmo hoje, quando se passa perto da quinta parece que o vento reproduz esse ruído.
Valeu-lhe mais uma vez a sua beleza e os ciúmes da mulher do dono da quinta.
Branca Flor foi açoitada, enxovalhada e expulsa daquele lugar, sob ameaça de denúncia à polícia.
Mas viria a conseguir a sua vingança...

segunda-feira, novembro 13, 2006

A quinta praga de Branca Flor

Um dia, apontando para o que fora o menino que vivera na casa vermelha da rua de Castela, ela profetizou:
- E tu ficarás lá para dizer mal deles todos.
Ingrato destino este que nos calha. Que nos leva a ver as actas da câmara e a encontrar coisas estranhas. Como aquela... que mereceu voto favorável da oposição e tudo...
A câmara de Ourém (acta de 23 de Outubro) prepara-se para gastar 17500* euros mais IVA no almoço e prenda para os funcionários cá do burgo.
Não fazem por menos.
Não contesto a justeza de as organizações aproveitarem estas ocasiões para cimentar a sua cultura e a aderência das pessoas aos fins da mesma.
Mas imagine-se que as 308 câmaras do país fazem o mesmo: mais de 5 milhões de euros em festas de Natal. E quanto vão gastar a mais nas luzinhas da época? E quantos buracos vão deixar de tapar por falta de verba? Num momento em que se preparam péssimas notícias para os trabalhadores da função pública isto parece mesmo a gozar com o mexilhão (o tal que se licha no fim).

* eles queriam gastar 27500 mas, graças ao vice-presidente, vão poupar 10000
Estrutura da obra

Meus amigos, respondendo a inúmeros receios que entretanto nos fizeram chegar, "nós não vamos desistir". A nossa estória irá para a frente, podendo ao longo do percurso da sua escrita sofrer alguma mudança de rumo. Relembramos que pretendemos que tudo seja visto como ficção: personagens diferentes a ocuparem os nossos espaços em Ourém e possibilidade de existência de outros espaços. Neste momento, já existe uma ideia sobre o conteúdo.
"A história triste de Branca Flor" é uma novela em oito capítulos que obedece à estrutura seguinte:
1 - A infância de Branca Flor
2 - Desvarios de juventude
3 - Branca Flor é violada à saída do colégio no regresso a casa
4 - Açoitada pelo dono da quinta
5 - O encontro com o presidente
6 - Rituais satânicos
7 - Branca Flor é morta
8 - Quem matou Branca Flor?

domingo, novembro 12, 2006

Pelo de gato preto (quando assanhado)




Se os meus amigos consultarem um dicionário satânico ou qualquer demoniólogo (que os há dos bons em Ourém), ficarão desde logo a saber que o pelo de gato preto era utilizado para fulminar com pragas todos os que não caíam nas boas graças dos candidatos a bruxos e bruxas, na nossa terra.
Não admira, então, que Branca Flor, nascida no seio das camadas populares mais genuinas e humilhada por elementos lumpen ou em ascenção na hipócrita sociedade burguesa oureense, os tenha brindado com os castigos tão horrendos como os descritos no post anterior e que a obra onde contamos a sua história vai demonstrar que ainda foram piores.
Mas houve alguém a quem ela não fulminou, transferindo a praga para os oureenses que assim passaram a ter que suportar os resultados das suas acções pelo interior do século XXI. Adivinham quem foi não é verdade?
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