quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O trabalho das câmaras

Aproxima-se o início de novo semestre e tenho de reatar o trabalho das câmaras que tanto me motivou o ano passado.
Já me disseram que há alunos tão desejosos da disciplina que estudam antecipadamente a matéria. Não acreditam, pois não? A mim também me custa um pouco.
Pelo meu lado, já fiz algumas coisas para lhes facilitar a vida. Por exemplo, tentei diminuir o esforço deles já que, o ano passado, abusei no segundo trabalho. Vou organizá-los de modo diferente para não haver passagem de elementos de um ano para o outro. Vou alargar as funcionalidades procuradas. Vou, finalmente, fazer uma abordagem às regiões digitais.
E lancei, de novo, um inquérito às câmaras em que pretendo conhecê-las melhor. Chamei-lhe "Inquérito aos Municípios de Portugal". Fui educado na abordagem. Usei o símbolo da escola, para mostrar que estava suportado em entidade com idoneidade. Já fiz duas tentativas. Não calculam a quantidade de endereços de email que não servem para nada. Mas, das mensagens que passaram para o lado de lá, apesar de tudo, muitas, poucas respostas ainda tive: apenas 43. Sei que é melhor que o ano passado, mas é uma pena que o espírito de colaboração dos nossos autarcas se mantenhas nestes moldes. Com atitudes deste género, bem merecem a lei que o nosso magnífico presidente ontem promulgou.
Nem sei se meta uma cunha para a nossa câmara. O problema é que, se ela responder, fico com menos razões para dizer mal dela.
Talvez a WindRose pudesse dar uma ajuda e apertar com eles... uns malvados que não sabem apoiar uns humildes estudantes de Economia.
Aparição...

... é só para dizer que o gatinho branco e preto já reapareceu.
Mal o Sol aqueceu o ambiente, apareceu-me aqui à frente, no muro que separa a estrada do jardim, rebolando-se e aproveitando para lavar as patitas.
Enfim, o dia vai melhorando...
Que manhã!

Quando as coisas começam a dar para o torto, é sinal certo que não vão ficar por aí.
Tal como esperava, o partido socialista já deu sinais que vai inviabilizar a proposta do BE e do PCP relativamente ao subsídio de desemprego para docentes do ensino superior. Não me interessa aqui a fundamentação da recusa. A verdade é que já há pessoas nessas condições, sem qualquer apoio, o que é indigno de um partido que se diz socialista. Eu já sabia do seu insatisfatório socialismo, mas não calculava que chegasse tão longe, possivelmente será para dar razão às declarações do ministro Pinho, na China, logo seguidas da correcção de Sócrates que afirmou que a pauperização não se referia à mão-de-obra desqualificada, mas a gestores, engenhores e outros quadros. Na verdade, assim constituirão facilmente um exército qualificado de reserva para o empresário chinês utilizar...
Mas não foi só isso.
Pelas seis e pouco, fui abrir o esquentador e nada: o diabo da chama não se aguentava à frente do pavio. Meus amigos, para estar aqui convosco e poder algo postar tive de tomar banhoca gelada. Podem crer que, para um velhadas com quase sessenta, não é lá muito agradável.
Chegado à rua, é esta tempestade que se vê. Todo tapado, vim por aí acima, água a entrar pelos miseráveis sapatos e a empapar as calças e as meias. Quem paga este sacrifício, quem é? Para cúmulo, o gatinho branco e preto não estava na árvore do costume. Pobrezinho, deve estar todo molhado nalgum buraco a ver se as condições melhoram...

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Marca #4: o Avião

Do grande Dicionário Castelaico-Oureense retirámos a seguinte definição:

Avião. Ser quase mitológico que chegava às reuniões sistematicamente com cinco minutos de atraso agravados pelos procedimentos de desembarque. Fazia-se conduzir numa mota virtual comandada pela capacidade das suas pernas. Fazia ruído quase real, tinha as quatro velocidades e marcha atrás. Quando chegava tinha de estacionar e então víamos que era o Zé Rito. Desconhece-se o responsável pela alcunha, possivelmente teremos sido todos e terá tido evolução até estabilizar na apresentada.

Mas o Avião não foi apenas isso. No final dos anos 60, início de 70, dedicou-se com o Zé Alberto e a colaboração de outros excelsos oureenses à criação e utilização dos Estúdios Trine, aproveitando o espaço propiciado por uma relação próxima com a direcção do Notícias de Ourém.
Mais recentemente, o Avião, pés devidamente assentes na Terra, contribuiu decisivamente para a construção do OUREM, trazendo-nos as suas memórias em vários capítulos e ajudando a suportar a manutenção do blog por várias semanas. Foi assim, a par do Sérgio, do Zé Quim, do Julito e de alguns outros, um dos nossos obreiros. Os seus textos, após modificação de formato, foram incluídos na nossa primeira publicação: o VOL I do Ourém em Estórias e Memórias.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Crónica da rejeição anunciada

Parece que amanhã a Assembleia vai, de novo, discutir a matéria “Subsídio de desemprego para docentes do ensino superior” a partir de proposta ou propostas do PC e do BE.
Num momento em que muitos reitores parecem estar dispostos a utilizar a arma do despedimento para equilibrar o orçamento (há rumores relativamente ao Minho e ao Algarve), esta iniciativa não deixa de ser de saudar embora se anteveja a sua fácil rejeição pelo partido que apoia o governo – o tal que se auto-intitula de socialista.
É pena que, num país onde tanto se fala em igualdade de direitos, quando essa igualdade se traduz em dar algum apoio aos que vão atravessar um mau momento, a atitude do partido dito socialista seja a arrogância da rejeição disfarçada em quiméricas promessas de bolseiros de investigação. Possivelmente, para não haver privilegiados, qualquer dia corta o dito subsídio a todos os outros.
Marca #3: Gatos

Os últimos dias têm sido dedicados à vigilância de exames e a algumas correcções. Uma actividade muito consumidora de tempo, aborrecida, cansativa, irritante (pelos disparates que não conseguimos evitar em devido tempo).
Há pouco, vinha por aí acima, apreciando uma manhã agradável, talvez um pouco fresquinha, e pensava no que haveria de postar para manter o blog com algum movimento. Estava difícil, mas...
... a certa altura, em cima de uma árvore, não empoleirado nos ramos, mas numa saliência que mais parecia construída por mão humana, dei com ele...
... um magnífico gato, branco e preto, tal como os adoro desde pequeno, dormitava, descansava, alheio a todo o movimento que já havia à volta, talvez protegido pelo muro que rodeia este jardim.
Recordei então que, desde pequeno, tenho enorme paixão por esta bicharada e resolvi criar mais uma marca para alguns posts dedicados a estes amigos. Não está completo, sei que não consegui identificar todos aqueles em que me dediquei ao tema. Mas consultem-nos...

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O voto do OUREM

Dirão os meus amigos que nada tenho a ver com o voto no interior do PSD. Quero lá saber, o que vai acontecer será decerto importante para Ourém e, nessas condições, mereço uma opinião.
Este homem é fotogénico.
Nota-se que sabe do que fala.
Cumprimenta as pessoas.
Não se furta à resolução de questões que envolvem pessoas de partidos diferentes.
Não é, com certeza, violento.
Tem o apoio do capital religioso.
Tem o seu quê que faz pensar que gosta do sexo oposto.

Por isso, no embate que vai travar-se, o OUREM está por Frazão.
Viva Vitor Frazão!
O verdadeiro garanhão da Serra d'Aire

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Marca #2: Café Central

O Café Central foi o café da minha infância e, na adolescência, partilhou essa qualidade com o Avenida.
Foi-o também para muitos oureenses que, à quinta-feira, lá para os finais da década de quarenta, deparavam com um Mundo de Aventuras em formato antes nunca visto e faziam bicha à espera da sua chegada com a distribuição do correio.
Para mim, foi o café de muitas partidas de bilhar, onde ia buscar o Cavaleiro Andante e outra BD sempre cuidadosamente expostos. Foi o café onde vi o Benfica dar difícil lição ao Barcelona na final da taça dos campeões.
Também lá, um dia, o Dr. Armando me pediu desculpa (!) de uma (injusta) sova que me tinha pregado.
O café do cantinho dos doutores e do nosso ar comprometido quando passávamos à frente deles. O café de pessoas magníficas como o Joaquim Espada, o Manuel, o Adelino e o Vicente... (e possivelmente outros que não recordo)
À frente, os taxis dispunham-se ordenadamente em torno da praça do tal jardim...
Por tudo o que foi para nós justifica plenamente um marcador para algumas passagens aqui do OUREM.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Sem pio

Parece que anda para aqui uma série de blogs cuja consulta termina em erro de código bX-vjhbsj: este, o anónimo, o albergue, o elvira...
é sabotagem, com certeza encomendada pelo Orelhas Moucas... valha-nos o Miradouro para nos revermos.
Voltar a bons tempos

A utilização de blogs e algumas destas funcionalidades fazem-me lembrar aquela informática por onde passei há uns anos e que tenha piada tremenda.
Comecei com o cartão perfurado e com máquinas de que já nem sei o nome: leitora, perfuradora, intercaladora, separadora,... relativamente ao computador propriamente dito, um Univac 1005, tinha de ter em papel um desenho de ocupação da memória e fazer uma gestão rigorosa da mesma para um simples programa. Foi a fase mais engraçada da vida profissional.
Depois, passei às máquinas com discos e bandas magnéticas e utilização de terminais. Fiz centenas de transacções: pequenos programas do tipo lê um - despeja no ecran - recebe altaração - confirma - altera - ou insere um...
Um programa para ficar feito tinha de ser sujeito a um processo de compilação, uma espécie de chamada de rotinas e tradução de "símbolos mais perto de nós" para "simbolos da máquina". Ora, a compilação faz-me lembrar, nos blogs, a publicação.
Mas, reparem, com o tempo foi possível criar indices sobre os ficheiros: estes, inicialmente apenas sequenciais, passaram também a poder ser directos (ir directamente para um registo identificado por exemplo por um número), sequenciais indexados (posicionamento num registo de acordo com o indice e leitura em sequência...). Já repararam na semelhança com as nossas marcas? Eu crio a "marca" sobre vários registos, quando faço acesso a ela, vejo todos os registos (todos não é bem assim: parece que o Blogger só mostra os últimos 20). É formidável...

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Marca #1: Luís Nuno

A primeira marca que aqui deixamos é dedicada ao nosso querido amigo Luís Nuno, desaparecido já há alguns anos.
O Luís nasceu e brincou no Largo de Castela. Durante mais de uma dezena de anos tive o prazer da sua companhia quase diária o que nos tornou como que uma espécie de irmãos. Recordá-lo aqui, no blog, é sempre algo que me comove bastante, mas que me dá a sensação de ele estar connosco.
Haveria muito a dizer sobre o Luís. Um dia, a Teresa prometeu fazê-lo, mas eu acredito que lhe seja especialmente difícil. Mas não duvido que, um dia, teremos esse texto.
Para já contentem-se com este marcador que aponta para páginas algo desorganizadas mas que, agora, estão mais longe de se perder.
A moda do “marca, marca”

Vem o novo Blogger com outras funcionalidades a que, pouco a pouco, me vou habituando e tentando explorar.
Há muito que andava a sentir necessidade de pôr alguma ordem no OUREM. Esta tornou-se tanto mais premente quanto a inspiração e a motivação foram desaparecendo. Sou sempre o último a alinhar nas modernices: actualizei o blog para a nova versão há dois ou três dias porque a isso fui obrigado pelo generoso acolhedor, telemóvel não uso, cartão de multibanco também foi difícil. Por outras palavras, resisto à mudança... mas uma vez lá, ponho-me a explorar coisas.
Claro que esta funcionalidade do Blogger já a encontrámos no Castelo há muito tempo com as suas categorias. Mas eu estou deliciado com a possibilidade de ir rever os posts todos e poder aplicar-lhes marcadores. Já estou a ouvir aquela engraçada e loirinha oxigenada cantadeira: “ele olha para o post e marca, marca... ele publica o post e consulta a marca...”.
Desta já peço desculpa aos utilizadores do Miradouro: ainda vai ser pior que o bombardeamento da Elvira há dois dias (segunda-feira, 29), quando publicou o livro de receitas todo, pois são quase 2500 posts. Mas eu prometo ir pouco a pouco todos os dias...
As marcas, essas, serão muitas e variadas: Sérgio Ribeiro, o largo de Castela, o 25 de Abril, Café Central, Autárquicas 2005, presidente David...
Depois, acho que vou mudar o formato do blog. Aquela cauda, ultracomprida quando nada há para dizer, ali à direita, anda-me a irritar. Vou susbstituí-la pelos marcadores, deixando uma ou duas coisas e os apontadores para outros blogs...
Mas isto é tarefa para muito tempo e, como tal, irá sendo acompanhada por um descritivo quase diário e pelas ocorrências normais. Portanto, o OUREM arranjou matéria para subsistir mais uns tempos...

terça-feira, janeiro 30, 2007

Tributo ao presidente David

Afiam-se as facas, contam-se as tropas. O esperado abandono por parte do famoso autarca já faz delinear estratégias entre algumas das figuras mais conhecidas do panorama político oureense. Quem irá continuar a maldição de Orelhas Moucas? Vitor Frazão? João Moura? Luís Albuquerque?
O resultado do embate não parece pacífico, mas uma coisa é certa: Ourém pode rejubilar por esta figura se afastar, já que nunca alguém fez tão mal pela nossa terra, embora não se possa esperar grande coisa dos vindouros.
A passagem de David por Ourém não deve ser esquecida. Por isso, seria interessante pessoas como Sérgio Faria, Sérgio Ribeiro, Rosa do Ventos, Frederico Marques, Marco Jacinto e outros analisassem a sua prática ao longo destes anos e comentassem a sua política de urbanismo, o apoio à cultura e ao desporto, a relação com a oposição, o seu pragamatismo, a política de ambiente e, sei lá, tantas outras áreas em que foi fértil a discordância com ele.
Ou será que, mesmo numa perspectiva de "como não fazer", ainda é dar-lhe excessiva importância?

segunda-feira, janeiro 29, 2007

As publicações do OUREM


Ao longo de dois anos produzimos quatro elementos de um projecto que designámos por "Ourém em estórias e memórias". Façamos aqui um pequeno inventário e uma referência aos mesmos:

Ourém em estórias e memórias - VOL I
Trata-se da publicação de um conjunto de textos que retratam aspectos da juventude oureense dos anos 60 e do sabor amargo que resulta da visão de uma Ourém progressivamente maltratada pelo poder local, em degradação e destruição.
Tiragem: 50 exemplares.
Situação: esgotado


Ourém em estórias e memórias - As canções
Recuperámos do vinil, procurámos na Internet e, nos casos mais fáceis, retirámos de produções actuais 25 canções que nos acompanharam e que muitos teimam em não esquecer. Posso garantir que não existe edição comercial de algumas delas no nosso país. Podem encontrar aqui o guia de audição.
Tiragem: 40 exemplares.
Situação: esgotado.

A história triste de Branca Flor
É uma incursão no campo da ficção: povoámos Ourém de pessoas, algumas com singular semelhança às que já conhecemos, e resolvemos escrever um disparate.
Branca Flor era uma menina, linda e bricalhona, nascida em Ourém na década de quarenta que foi violada, açoitada e abusada por algumas das figuras mais importantes da vida política, económica e cultural do seu tempo. Ela dá-nos uma resposta para a razão da maldição Orelhas Moucas que tem vindo a caracterizar o poder em Ourém. Encontrou o amor da sua vida, mas foi tarde demais: apareceu morta, com uma faca espetada no coração, num banco da praça frente ao Café Central. As causas da sua morte nunca foram esclarecidas e este livro procura dar uma contribuição para a sua descoberta.
Tiragem: 50 exemplares.
Situação: em análise pela comissão de ética e bons costumes. Prevendo a sua apreensão, alguns exemplares já foram distribuídos a figuras chave da nossa terra.

Poemas entrelaçados com estórias da nossa Ourém
Andava a prometer o segundo volume do "Ourém em estórias e memórias", mas não conseguia gostar do resultado. Lembrei-me então que tinha andado a reunir alguns poemas, alguns já publicados outros não. Colocá-los no final do livro não ficou bem. Resolvi então utilizá-los como introdução a um conjunto de textos e achei piada ao resultado.. que aqui está.
Tiragem: 5o exemplares.
Situação: em distribuição.

E agora... que mais enccontraremos para fazer em Ourém?

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Guia da produção viável

Sedento de dar a conhecer ao mundo os meus escritos, dirigi-me às editoras. Mas a resposta não foi satisfatória: “os seus livros não têm interesse literário nem comercial”.
Que havia de fazer, ao menos para ter a ilusão de que algo produzia? Pensei na produção por conta própria, mas o seu preço era proibitivo: apesar do avanço tecnológico, só é economicamente interessante a partir dos mil exemplares e havia que contar desembolsar mais de 2000 euros. Para quê tantos, se não há quem os distribua, se não interessam a ninguém?
Veio então a ideia: Literatura de Agrafo...
Desde que o livro não seja muito gordo e que, numa A4, se consigam pôr duas páginas (O Word pode...), é possível produzir através da fotocópia. Reparem, um livro com 80 páginas, nessas condições, fica reduzido a 20 folhas. E como imprimi-lo? A página 1 deve casar com a 80, a 2 com a 79, e assim por diante... fazer a impressão das páginas duas a duas de forma que a sua numeração dê o total de páginas mais um. Depois, é fotocopiar, frente e verso, juntar, pôr a capa em cartolina, dobrar, agrafar e acertar as pontas...
... pronto, não tem aquela lombada bonita com o nome, mas o aspecto é excelente...
No total, um livro com 80 páginas, transforma-se em 40 fotocópias mais uma. Se quiser 50 exemplares, chego às 2050 fotocópias que a 3 cêntimos me garantem um custo um pouco acima dos 60 euros. Se juntar mais um euro por exemplar para as actividades finais, tenho um orçamento que me viabiliza a produção. Com a vantagem de, se precisar de mais alguns, o custo é totalmente variável...
Olho embevecido o livrinho de título “Poemas entrelaçados...”. Já tenho mais uma coisa para torturar os meus amigos...

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Poemas entrelaçados..., 16
Porta #14: Tudo o que nasce morre e renasce sob outra forma

É altura de fechar, a referência já vai longa, há que saber mudar para continuar. Escolhi, para terminar o livrinho, um texto relacionado com uma passagem da infância, cuja primeira forma está aqui. Depois, introduzi-lhe pequena mudança que tem a ver com aquele subtítulo e que nos deixa questões não só sobre o nosso destino mas também sobre a nossa terra: haverá possibilidade de ela renascer das cinzas em que anda a ser transformada?
Confesso que não sei, por isso é altura de vos deixar esta "Torre de Névoa".


Torre de Névoa
Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas, e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo dia.
Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: "Que fantasia,
Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!..."
Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu!...

Florbela Espanca

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Poemas entrelaçados..., 15
Porta #13: O tempo ajuda a curar feridas do passado

Como é que algo que no nosso tempo encarámos de uma forma extremamente negativa, sabendo que representava um período desagradável, nos pode surgir de uma forma brejeira, risonha, passados quase quarenta anos?
É o que me acontece com esta ida às sortes devidamente captada em verso e fotografias. Apreciem os grandes heróis da nossa terra lá para o ano de 196?... São capazes de os reconhecer? Eu penso que, se passar por alguns, me será extremamente difícil.
Passemos então uma esponja pelo desagradável da época. Celebremos com mais um poema...
Esquecimento
Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei… tacteio sombras… que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro…
A sombra dos meus olhos, a escurecer…
Veste de roxo e negro os crisântemos…

E desse que era eu meu já me não lembro…
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos…!

Florbela Espanca - Charneca em Flor

terça-feira, janeiro 23, 2007

Poemas entrelaçados..., 14
Porta #12: Tudo é contingente


Há uma lição que podemos retirar da nossa passagem por este efémero lugar: "No fundo, tudo é contingente", possivelmente, também o é esta afirmação. Sem dúvida que o foram a passagem por Ourém, os bailaricos no Castelo e os intermináveis verões com a Nazaré entre as magras opções. Também o são a prepotência dos governantes quer os vejamos a um nível local, nacional ou mundial embora, naturalmente, venham a ser substituídos por outros que farão igual ou pior... ou talvez não...
Estes merecem uma lápide para recordar as suas más práticas, não obstante em Ourém já restem poucos lugares para a podermos colocar.
No fundo, uma lápide é um marco que deixamos sobre tudo o que nos impressionou na passagem. Como a que decorre deste poema de Torga


Lápide
Quando eu morrer e tu ficares sozinha,
longe do bafo quente do meu corpo,
tu, a quem eu amei, sei lá por vingança
de Deus,
nessa hora,
olha serenamente a nossa história inútil
e chora...

Rega de pura mágoa a flor do «nunca mais»
(sequer ao menos a flor do «nunca mais»)
e depois morde o chão seivado e semeado
do místico perfume do meu sexo
sepultado...

Miguel Torga

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Ai que saudades deste tempo


O Padre Tarcísio Alves ameaçou de excomunhão todos os cristãos que votarem SIM no referendo de dia 11 de Fevereiro.
Para o cónego de Castelo de Vide os que votarem SIM «não podem casar, baptizar-se nem ter um funeral religioso». E avisou que no dia do referendo «até as irmãs vão sair dos conventos porque senão também incorrem num pecado de omissão».
O Padre Tarcísio fazia cá muita falta...
Poemas entrelaçados..., 13
Porta #11: A força dos sentimentos

E será que as materialista criaturas, ao menos por momentos, não conseguem acreditar naquela força dita espiritual que parece conduzir e transformar a matéria? Que nos leva a ter comportamentos dos mais estranhos? Que nos leva a afrontar a lei por amor?
Alguns, como aquela associação sindical de gente fria, dirão e sugerirão que tudo é metodicamente preparado e aproveitado para, aproveitando a fragilidade de outros, atingirmos os nossos fins. Eu não vou nessa...
Deixo a dúvida...
Se calhar, há sentimento, como passou a existir quando subi aquela escada ou como aquele para o qual a nossa Espanca estava sempre disponível.
Amar

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
Florbela Espanca

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Fez-se justiça!



Os vencimentos deles triplicaram...
Não, não é a inveja que me faz falar.
É a convicção de que vamos ter empréstimos, portes postais, viagens de avião e água mais baratos...
Sou utópico?
Bom, então fico-me por acreditar em menores bichas na CGD e nos CTT, melhor atendimento nos aeroportos e melhores condutas na água...
Mesmo assim, estou a exagerar?
Que raio! O que é que eles vão para lá fazer?
Poemas entrelaçados..., 12
Porta #10: O destino marca a hora

Que, mal nascemos, temos o destino marcado é verdade, não tenham dúvidas. Senão, porquê todos os sinais que recebemos antes da concretização?
Quando o Domingos veio ter comigo e com o Jó a perguntar se queríamos ir com ele a Leiria, no bólide negro, levar um pneu, nenhum de nós sonhou com a importância que aquela terra iria ter na minha vida. Também, não imaginámos a sórdida partida que a roda nos iria pregar...
Antes, esse destino já tinha sido anunciado com aquela expressão “Perdi-me”, em momento de exames, que um dos “pastores” tratou imediatamente de parodiar.
Depois, estadias e viagens tornaram-se constantes: a pé, de camioneta, à boleia...
O que existiria por lá para tantas vezes ser chamado?


Olhos cor de mel

Na minha terra houve uma batalha
Para lá fui no meu corcel
Levava o amor que me agasalha
Olhos cor de mel

Era um apelo irresistível
Queriam destruir o meu passado
Mas sou combatente temível
Ninguém me traça negro fado

E eis que ela me adoece
De tanta luta e labuta
E enquanto do martírio padece
As minhas palavras escuta

Lutei contra ricos e poderosos
Contra corruptos e mentecaptos
Denunciei autarcas horrorosos
Que só para a podridão são aptos

Chamei amigos à causa
Seus corações ficaram frios
Cheguei ao fim sem uma pausa
Todos voltaram aos seus navios

Ourém está igual ao que era
Mas tem estórias e memórias
Queria contá-las, quem me dera
Traíram-me por outras glórias

Derrotado, o meu corcel
Trouxe-me de volta à outra terra
Sem os olhos cor de mel
Ficaram no sítio da guerra

Mas lá voltei tantos dias
Triste da minha solidão
E as suas palavras macias
Deram-me de novo razão

Trouxe-a no meu corcel
Para a casa que ainda é nossa
Já tenho os olhos cor de mel
nada mais me fará mossa

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Poemas entrelaçados..., 11
Porta #9: Matar a sede com água salgada

Não tenho palavras para apresentar este poema. Ele é porta para um conjunto de posts que tinham a ver com o ambiente nas aulas na escola em Ourém. Tantas vezes eu afirmo que gostava de lá voltar, rever aqueles livros, pensando até em repetir testes para ter melhores resultados e agora avanço com esta súplica que, apesar de tudo, partilho.
Não há dúvida, o ser humano é pleno de contradições.

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Poemas entrelaçados..., 10
Porta #8: As cartas que eu escrevi!

Diz Pessoa que todas as cartas de amor são ridículas. Mas, no colégio, não tive oportunidade de o ler.
Talvez por isso, também tive as minhas cartas... além de outras.
Foram as cartas da cidade do desterro para a cidade da moura encantada.
Foram os bilhetinhos com que bombardeava as coleguinhas...
Foram as cartas em tempo de guerra...
Foram as cartas de homem mau...
... já não falando naquelas missivas curriculares com que, paciente mas infrutiferamente alimentava as bases de dados dos garimpadores de emprego no Expresso...
Mas estão os meus amigos descansados. Todos esses textos terão tido o seu suporte reciclado ou destruído pelo fogo e pela erosão. Não há viabilidade de publicação.

Todas as cartas de amor são ridículas…
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
D'essas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos

terça-feira, janeiro 16, 2007

Poemas entrelaçados..., 9
Porta #7: Voltar lá

Durante muito tempo pensamos: será que um dia lá conseguiremos voltar e reviver aqueles dias saudosos? Pouco a pouco a esperança vai-se perdendo. A esperança que não a recordação... que nos surge mais difusa, mas que nos assegura que estivemos presentes...
Recordo-vos uma aula de ginástica que não houve e, a partir da qual, cometi o atrevimento de jogar futebol com as sapatilhas brancas. Mas será que acreditam que havia alguns que também teimavam em voar... ou em fazer rebolar pedras na direcção do colégio a partir de uma encosta que tantas vezes era cenário de jogos de batota e um dia teve um parceiro inesperado.
Esta porta tem elementos em número excessivo, diz-se que quando alguém começa a recordar, muitas coisas aparecem em catadupa... como por exemplo o prato voador que procurou o director ou a bala traiçoeira.
É todo um ambiente que este poema de Tolentino de Mendonça nos traz à memória: também nós tivemos um Pico Ruivo...


Pico Ruivo
Todo o verão amontoei pedras e as dispersei
vigiava nuvens e sombras pelas fajãs
a mesma solidão perigosamente
transcrita naquele cinzento avermelhado
sob as escamas do céu
urzes sobrevivendo à dura estação
duas ou três cabras, uma tenda

túneis, atalhos, águas geladas
por aí nos conduz a travessia
a folha e a flor pertencem ao vento
um olhar (ainda o meu?) persegue-as entretido
na grande subida

mais abaixo, quando principiava a vereda
manchas de líquenes cobriam de igual modo
o nome dos lugares onde iremos
e dos lugares onde não chegaremos

Tolentino de Mendonça

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Flexinsegurança

Amigo oureense
Para quê uma vida devotada ao trabalho duro? Para quê ocupar uma vaga no mercado de trabalho? Para quê continuar a contribuir para a riqueza do patronato?
Se quer ser feliz e ver crescer a riqueza do país, deixe-se despedir. Contribua para a felicidade do Governo e do Presidente! Verá a maravilha que a segurança social tem para lhe oferecer.
Viva a globalização!!!
Poemas entrelaçados..., 8
Porta #6: Tudo perder...


E que dizer de tudo que ao longo destes anos temos vindo a ser desapossados na nossa terra? O processo começou muito cedo. Primeiro, foi o afastamento, uma espécie de emigração. Isso traduziu-se na perda dos espaços frequentados durante anos e anos. Espaços, onde também tivemos desilusões, verdades que abruptas caiam em cima da nossa ingenuidade. Mas que possibilitavam um ambiente magnífico... E que dizer da bondade dos mais velhos que nos transportavam, na fiel viatura, para todo o lado, ajudando a abrir os nossos olhos para um mundo diferente onde ainda não havia este sentimento de perda?
É altura de chamarmos mais um poema de Pessoa:

Mágoa
Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.

Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego -
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.

Fernando Pessoa, 3-9-1924.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

A sombra da azinheira



Azinheira de Fátima classificada de interesse público", noticia o Público.

Será que a Direcção Geral de Recursos Florestais se alarmou com a inegotável e insaciável capacidade de destruição e incapacidade de manutenção ou correcção evidenciada pelo poder autárquico em Ourém?

E será que algum dia se lembrarão dos caminhos pedonais?
Poemas entrelaçados..., 7
Porta #5: E que um dia, como um raio, a verdade lhes caia em cima...!!!

E, de repente, a verdade, nua e crua, caiu em cima de nós.
Afinal, não havia Pai Natal.
Afinal, o Sol não anda à volta da Terra.
Afinal, os olhos em que inventámos amor eram apenas amizade.
Afinal, o governo teve de aumentar os impostos e, em vez de distribuir a riqueza, o que fez foi socializar a miséria, isentando disso uns tantos: é o socialismo à moda deles.
É-me sempre difícil interpretar o que está escrito num poema. Ele transmite sentimentos que, geralmente, não estou capaz de captar. Por isso, o que posso fazer é associar-lhe pedaços ou espaços de uma vida passada. A minha crença nas prendas que nos chegavam não sei donde, o acreditar na bondade natural das pessoas, o sentimento da durabilidade eterna das representações e dos espaços da juventude.
Hoje, esse acreditar nas ilusões de menino está totalmente exorcizado: a vida encarregou-se de tal conseguir. E parece-me que é isso que está expresso neste poema da Carmen Zita cuja bondade (que afinal ainda existe como qualidade humana) foi enorme ao oferecê-lo ao OUREM:


Verdade

Os solitários castelos de areia
não fazem barulho ao ruir.
No entanto,
é tão sibilante o som
que invade (sem licença) esta voz
que os versos,
que se queriam luminosos,
tenebrosamente se consolidam
em chuva.
Disfarçar o silêncio
com cantos tristes e compassados
não ajuda:
A máscara não assenta bem
nos rostos desiludidos.
Há um qualquer pormenor
que denuncia o engodo.

Carmen Zita Ferreira

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Poemas entrelaçados..., 6
Porta #4: Amigo da bicharada

Há dias, estava no Central e ouvia o miar lancinente de uma série de gatos, entretanto abandonados pelo facto de a sua dona estar numa condição física que não lhe permitia prosseguir o tratamento. Vistos do café, em cima do telhado, ao fim do dia, com restos de Sol projectados sobre eles, mostravam toda a sua beleza. Mas a situação não deixava de ser muito triste e a questão ocorreu imediatamente: não existirão serviços na autarquia que os possam recolher, tratar e eventualmente reencaminhar para adopção?
Ourém, noutros tempos, era uma terra amiga da bicharada. Que o digam os familiares do médico veterinário que nos legou um Caderno de apontamentos e cujo carteiro procurava o devaneio nocturno. Que o diga a estória do gato cirúrgico ou a paciência do Tejo naquele dia em que resolvi dar-lhe um banho.
Mas mais enternecedor que tudo isso é, com certeza, este poema de António Gedeão que nos traz a preocupação do ser humano com estes amigos quando sente a inevitabilidade de os vir a abandonar.


Poema do gato

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta pra trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre pra mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

António Gedeão

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Mas por que é que estas notícias nunca nos chegam de OUrém?



- A culpa é do Governo - responde o impagável autarca.
- Não, a culpa é dos oureenses que, em todas as eleições, são masoquistas - diriam os de espírito mais crítico.
- Cá por mim, a culpa é da Quercus - acrescentaria o Basílio dos investimentos.
E quem fica de fora, quem é?
Poemas entrelaçados..., 5
Porta #3: A Perdição como destino

O tema “Perdição” sempre teve múltiplos motivos de aplicação em Ourém. Era a perdição pelos olhos de uma linda menina, era a perdição pela prova do palhete que acabava a cura na pipa...
Na infância, também me acompanhou: uma vez, foi-me trazido por uma castanhola que quase me tornou um marginal em relação aos bem-comportados; mas houve também uma famosa viatura, o chamado carrinho do palhete.
Ourém não perdeu esta tendência e, hoje, enquadrada por um poder autárquico que vê no falso desenvolvimento das negociatas e do favor ao capital a razão de existir, entra em definhamento imparável. Os oureenses perderam a chama, a vida, a identidade e as referências da magnífica terra que herdaram.
A Perdição, enquanto resultado da entrega ao amor, foi-nos dada a conhecer na letra de um fado que, um dia, Cristina Branco, nos trouxe:


Fado perdição

Este amor não é um rio,
tem a vastidão do mar.
E a dança verde das ondas
soluça no meu olhar.

Tentei esquecer as palavras
nunca ditas entre nós
Mas pairam sobre o silêncio,
nas margens da nossa voz.

Tentei esquecer os teus olhos,
que não sabem ler nos meus.
Mas neles nasce alvorada,
que amanhece a terra e os céus.

Tentei esquecer o teu nome
arrancá-lo ao pensamento
Mas regressa a todo o instante
entrelaçado no vento.

Tentei ver a minha imagem,
mas foi a tua que vi
no meu espelho porque trago
os olhos cheios de ti.

Este amor não é um rio
Tem abismos como o mar.
E o manto negro das ondas
cobre-me de negro o olhar.

Maria Duarte

terça-feira, janeiro 09, 2007

Poemas entrelaçados..., 4
Porta #2: Saber guardar segredos

Naquela idade e, talvez, em todas as demais, era importante apreender, guardar e calar para um dia partilhar com quem mais apreciávamos. Passou-se isso comigo...
Vocês não calculam o aspecto daquelas varas e as funções que eu sonhava para elas depois de cuidadosamente ter removido a pelica que as cobria. Mas os netos da Júlia padeira, primos do Quim e do Julito, não permitiram que a brincadeira chegasse ao fim. E um dia o arraial foi enorme no largo onde se inicia a Rua de Castela e a mãe deles acabou ferida por um golpe de uma das varas..
Como que para festejar esse arraial, um dia, eu e Mina Guta decidimos atirar arames pelos ares e destruímos os fios eléctricos que iam de casa da Aurorita - aquele formidável albergue que, às quinta-feiras, no quintal, guardava as carroças, as mulas e os burros que traziam os donos ao mercado - para a casa do Souto. Na polícia, não falámos, mantivémos o segredo até ao fim, independentemente das suas manobras para nos confundir, e tiveram que nos libertar.
E se, por acaso, vos fiz crescer o desejo de recordar mais alguém também perito em guardar segredos, vejam este delicioso poema de Torga:

Segredo

Sei de um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

Miguel Torga, in Diário VIII

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Poemas entrelaçados..., 3
Porta #1: Abertura


O primeiro poema e os primeiros textos são como que uma dedicatória e um foco no local da acção. A dedicatória abrange todos os amigos: os do Poço e os não do Poço, os presentes e os ausentes, os resistentes e os desaparecidos, o que desde logo é visível na capa. O local é a saudosa Aldeia de Castela que o actual poder autárquico (que quer gastar o mínimo), com alguma cumplicidade de proprietários (que querem receber o máximo), persegue para destruição sem um mínimo de respeito por toda a história que guarda.
Retornamos assim ao Esquema geral da Aldeia de Castela e às Memórias do infante.
Quanto ao poema, também já aqui publicado, não poderia ter melhor título:


A todos e a cada um dos meus amigos

Por um por todos por nenhum
faço o meu canto canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.

Por nenhum por todos ou por um
eu dou o meu poema o meu tecido
de palavras gravadas com o lume
do medo que na voz trago vencido.

Por nenhum por um mesmo por todos
sou a bala e o vinho sou o mesmo
que pisa as uvas os versos e o lodo
num chão onde a coragem nasce a esmo.

Joaquim Pessoa
in Poemas de Perfil

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Poemas entrelaçados..., 2

Esta é a capa (e contracapa) que idealizei para o segundo volume do "Ourém em estórias e memórias". Não sei se reconhecem os distintos que nela aparecem, eu ajudo: os três Luíses nascidos na aldeia de Castela e o Manel...
Ao longo das próximas semanas divulgarei o seu conteúdo. Nada tem de novo, pois tudo foi publicado no OUREM. A organização, essa, é diferente: cada poema (e são catorze) é uma porta para uma ou várias estórias passadas na nossa terra. Gosto do efeito conseguido...

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Vida por Vida

Os nossos bombeiros fazem hoje 95 anos.
Uma idade bem avançada, mas que não deixa de se manifestar com muita força e determinação na sua missão principal e na utilização de novas ferramentas: seguindo a nossa exortação "Que mil novos blogs floresçam...", eles também têm um blog. É uma prova de coragem, maturidade e juventude.
Parabéns por esta importante data!
O mentiroso

João Pinto entrou testemunha e saiu arguido no caso dos 3,2 milhões de euros. De acordo com o Público, terá dito que mentiu no processo que envolve José Veiga, reconhecendo ter ficado com o dinheiro e podendo ser indiciado pelo crime de fraude fiscal.
Relembremos que ele goza da presunção de inocência.
Mas imaginemos que o não é... Não teria todas as razões para fugir ao fisco? Para quê contribuir para o SNS se este está de rastos e, com a sua fortuna, pode recorrer aos melhores médicos? Para quê contribuir para a SS, se esta só paga reformas de miséria (e agora até quer deixar de pagá-las) e ele pode constituir excelente reforma com os dinheiros que recebe? Para quê financiar a manutenção e construção de caminhos, estradas e autoestradas, se pode deslocar-se de avião ou helicóptero fugindo às bichas suportadas pelo povo?
João Pinto e outros como ele não precisam para nada da coisa pública. Por isso, é justo e compreensível que fujam ao fisco.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Novo ano com muito desnorte

E que vou fazer este ano? Esta uma pergunta que geralmente me ocorre. Não que não tenha resposta, mas a verdade é que não estou lá muito confiante.
Tomemos, por exemplo, aquele trabalho das câmaras...
São 308 concelhos, o nosso incluído. Já lhes escrevi há mais de quinze dias e só obtive umas 15 respostas. Gente bem comportada é certo, mas sem os outros, David incluído, nada feito. ESperemos mais uns dias.
Entretanto dei-me ao trabalho de compilar algumas referências ao trabalho anterior. A conclusão é imediata: os que ficaram à frente ficaram todos contentes e autoelogiaram o acerto da política local, os outros ficaram calados que nem ratos. Mas houve quem se referisse ao assunto fora do campo oficial, blogs incluídos. Eis aqui uma lista muito interessante de consultar.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Chantagem

Olha os tentáculos do polvo
Que em Ourém tudo abraça
Malvados que eu não absolvo
Impios portadores da desgraça
O OUREM e 2007

Ai que abandono tão profundo!
Ai que desprezo tão sentido!
Que mal fiz eu a este mundo
Vil, ignóbil, doido varrido?

domingo, dezembro 31, 2006

Vem aí novo ano

... e o OUREM deseja excelente 2007 a todos os seus amigos!

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Não ceder!

Se se receber carta deste simpático bichinho, o importante é não ceder. O mais certo é perder dada a desproporção de forças e a capacidade de chantagear do dito, mas afrontá-lo mostra um caminho que pode trazer frutos no futuro.
Ultimamente, tem manifestado a sua existência muito para os lados de Fátima.
E a verdade é que...
... mesmo que os interesses dos presumíveis prejudicados não sejam lá muito respeitáveis já que podem basear-se nos benefícios da especulação, permitir que esta trupe vença significa que vão sentir-se cada vez mais poderosos e que, mais cedo ou mais tarde, os seus tentáculos abraçarão os bens daqueles que não recorrem a fonte desse tipo.

Os olhos do gato

Mirem-me esta fotografia. O diabo daqueles olhos seguem-me para todo o lado. Sento-me a ler o jornal e vem para o meu colo. Deito-me, tento dormir e vem para cima de mim. Se, por acaso, adormeço, arranha todas as peças disponíveis para me fazer acordar e levantar.
Agora, vejam como ele me fita...
Será aquilo natural? Não será por acaso um espião programado para registar tudo o que faço e me torturar no dia a dia? Será mesmo um gato ou será um objecto com a sua forma?

quinta-feira, dezembro 28, 2006

O barrete natalício

É assim todos os anos. Cria-se a expectativa de que algo novo aí vem e depois é a desilusão.
- Paizinho, qual é a prenda que queres?
Adivinham com certeza o que eu respondi e pedi com DVD e tudo a pensar que vinham lá umas imagenzinhas a acompanhar as canções.
Santa ilusão!
Todo o som que ali vem é sobejamente conhecido apesar de ter algumas misturas diferentes. Algumas canções, em versões diferentes, não melhoraram: o "Because" é francamente melhor no original. Bom, gostei do "Strawberries...", do "While my guitar.." em versão que já conhecia da Antologia, mas considero aquilo monumental barrete. Mas que se poderia esperar dos que restam, desaparecidos que estão o mais rebelde e o melhor instrumentista, numa edição onde a famigerada Yoko também colaborou?
Bem mais satisfatória é a prenda que a Tanita nos deixou no amanhã é outro dia.
E está tudo dito.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Uma prenda de David aos oureenses

Ourém, 25 de Dezembro de 2006...
As pessoas passeavam pela Avenida. Algumas falavam, outras apanhavam um pouco de Sol, outras olhavam na direcção daquele mini centro comercial onde funciona o Ulmar. À sua frente, os caixotes de lixo estavam cheios e bem cheios, tampas abertas, exalando um cheiro nauseabundo.
Alguns comentavam.
- É incrível! Já há uns três dias que não recolhem o lixo!
- Esta Câmara é uma miséria...
- A Câmara não tem a culpa. Quem faz a recolha do lixo é uma empresa que também o faz em Leiria.
- Mas a Câmara deve pagar-lhe e parece que as condições do contrato não são lá muito boas a avaliar pela qualidade do serviço.
- Que queres? Parece que estão em posição monopolista, não há qualquer alternativa...
Esta é mais uma prenda de David aos oureenses...

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Um Natal Feliz


O OUREM vai fechar por uns dias.
"Fechar" é uma forma de dizer: não teremos oportunidade de postar, mas o blog permanece aberto.
Deixo-vos, por isso, com uma capa do Cavaleiro Andante de há cinquenta anos, da autoria de Fernando Bento. Já agora fiquem a saber algumas das magníficas séries que por lá andavam nessa altura e que ajudaram a fazer desse um Natal feliz: [Tim-Tim] Na América do Norte, Perdida na Tempestade, Baden Powell, Capitão Flamberge, [Blake & Mortimer] Enigma da Atlântida, O Senhor do Sol, [Toni & Mimi] Talismã Negro, Uma Cidade Flutuante, [Jerry Spring] Mistério do Rancho Grande, [João Paulo] A Cidade Perdida, O Pequeno Grumete, O Sargento-Mor de Vilar.
Voltaremos lá para o dia vinte sete, se não for antes. Até lá, o OUREM deseja a todos um excelente Natal.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Undelivered mail – failure notice

Hoje, oficiei as 308 câmaras sobre o início do estudo relativo à maturidade dos seus serviços de informação em 2007.
É impressionante a quantidade de mensagens devolvidas que não foram entregues ao destinatário. Ou excederam a quota, ou já não têm aquele endereço, ou... o diabo que os carregue...
Há os que chegam ao cúmulo de tapar toda a informação sobre os seus endereços e disponibilizarem caixas de correio que não admitem anexos... logo, não vão receber o inquérito. Dão o telefone, a morada, mas o email é que não.
Para já, cerca de 40 não vão ter possibilidade de responder ao inquérito: Almeirim, Barcelos, Esposende, concelhos assim...
Mas animem-se.
Três câmaras já me responderam a avisar que receberam a mensagem e oportunamente preencherão o inquérito... e...
... a mensagem para o presidente David seguiu e não foi devolvida. O que é que acham que ele vai fazer? Eu não duvido: neste aspecto, vai manter a tradição...
Poemas entrelaçados com estórias da nossa Ourém

A actividade editorial dedicada a Ourém vai prosseguir, agora com a produção do segundo volume do "Ourém em estórias e memórias", portanto, a quarta peça do projecto com o mesmo nome (que não ficará por aí).
O objectivo deste livro continua a levar-nos à exploração de recordações da doce Ourém dos anos cinquenta e sessenta tão maltratada por gentes de agora.
Estas recordações foram sendo publicadas neste blog, alternando com poemas e com legendas de canções. Resolvemos, por isso, reproduzir parte desse efeito neste livro: as estórias de Ourém são antecedidas de uma porta que é um poema de alguém de méritos já reconhecidos e que vem, assim, contribuir para a elevação das nossas humildes linhas à categoria dos seus produtos. O efeito parece-nos extremamente benéfico.
Surgem-nos, assim, neste livro poemas de Álvaro de Campos, António Gedeão, Carmen Zita Ferreira, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Joaquim Pessoa, Maria Duarte, Miguel Torga, Tolentino de Mendonça e, claro, daquele prolífero autor que teima em não vos largar.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Trinta anos do poder autárquico

Entalado pela finalização do semestre e a necessária atenção a dar a alguns trabalhos da miudagem, ainda tive, ontem, tempo para dar uma espreitadela ao congresso que se realizou no pavilhão do Atlântico assistindo a pequena parte da intervenção do ministro António Costa.
Mais responsabilidades, mais funções, mais dinheiro para as autarquias parecem estar na ordem do dia. Mas, desta vez, após consulta de resumos relativos ao congresso, gostei especialmente daquela passagem da mensagem do presidente Cavaco em que se fala em "mais ética". Creio que esta é a questão fulcral, uma questão que, em Ourém, tem projecção muito forte...
Quem parece não estar a apreciar muito tudo isto é o troglodita da Madeira, obrigado a racionalizar as despesas, como se pode notar a partir do seu discurso cada vez mais insultuoso.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

O malvado teve morte santa

- Vamos, toca agora! - gritavam os algozes ao autor de "Venceremos" depois de o agredirem brutalmente, o torturarem e lhe esmagarem as mãos à coronhada.
São imperdoáveis quaisquer actos de violência contra os que não comungam as nossas ideias. Mas, mais uma vez, o maior responsável escapou ileso, sem sequer um julgamento que lhe demonstrasse quanto mal fez às pessoas, por isso, apesar do que escrevi há bem mais de trinta anos, o Chile ainda não venceu...
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