Perto da sua pequena toca de terra,
um grilo cantava baixinho, escondido entre as folhas.
Era o seu costume, cantar para sentir que o mundo existia com ele.
Uma criança vinha a passar.
Trazia uma pedra na mão, não por maldade,
mas porque as crianças às vezes carregam coisas
sem pensar muito porquê.
De repente, ouviu o canto.
Chegou-se mais perto, pé ante pé,
até descobrir o grilo, frágil e brilhante como um pedacinho de música.
O grilo olhou para ela.
E naquele olhar minúsculo havia uma doçura antiga,
uma confiança de quem não sabe que o mundo pode ser cruel.
Era um olhar que parecia dizer:
“Eu só sou. Nada mais.”
A criança levantou a mão com a pedra…
Mas ficou parada.
Algo no peito apertou como um nó,
uma coisa estranha entre o querer e o entender.
Ela percebeu, de repente,
que podia destruir uma coisa pequena e bela
sem razão nenhuma.
E essa ideia ficou tão pesada
que os seus dedos desceram devagar.
Largou a pedra.
Não por pena, mas porque aprendeu alguma coisa nova
bem ali, naquele instante silencioso.
Com cuidado, afastou-se para não assustar o grilo,
como quem não quer rasgar um segredo.
O canto voltou, suave,
e por um breve momento
pareceu que o mundo sorria para ela,
orgulhoso da escolha que fizera.

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