Ó excelentíssimos ressuscitados por milagre elétrico,
vós que saís do hospital a chiar gratidão
como papagaios em discurso oficial,
claro que agradeceis!
Quem não agradeceria ao privilégio
de ter a fila acordada de madrugada
só para vos abrir caminho?
Enquanto isso eu, reles cidadão sem pedigree,
conto as horas como quem conta migalhas:
a minha vez vem sempre depois
do fim do mundo.
Que prodígio é esse, senhores,
que faz da saúde um cabaré de convidados
onde só entra quem tem cartão dourado?
O meu corpo não vos serve de metáfora?
Pois aqui estou: carne e osso,
mas sem direito ao vosso milagre de primeira classe.
Que se rasgue o pano deste teatro farsante!
Ao povo deixam o aplauso e a dor,
aos políticos, o camarim climatizado.

Sem comentários:
Enviar um comentário