segunda-feira, fevereiro 03, 2020

Uma procissão atravessa Ourém



Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.

*

Mas um dia que a procissão passou por Ourém, as coisas não foram bem assim. O Padre tinha ganho o bonito hábito de ir saudando os fiéis e beijando as criancinhas.
Naquele dia, entre a multidão estava a nossa bem conhecida Leninha Borda d´Água, uma menina que tinha a mania de puxar o braço da pessoa quando a cumprimentavam, mesmo ao estilo do nosso venerado Presidente, professor Marcelo, que um dia aplicou o golpe ao inenarrável Trump.
E o Padre lá vinha no meio da procissão saudando e beijando à esquerda e à direita. Quando chegou junto da Lena, esta chamou:
- Senhor Prior! Senhor Prior!
O religioso não respondeu, mas aproximou-se dela estendendo a mão. A Lena não hesitou, pegou na mão e puxou por ela, levando o Padre a estatelar-se no chão:
- Oh! O que eu fiz…
As pessoas ajudaram o Padre a levantar-se e a Lena olhou para o chão acabrunhada. Ele aproximou-se e deu-lhe duas palmadas bem merecidas e com ar de zangado:
- Nunca mais voltes a fazer isto, menina mal-educada…
Nessa noite, a Lena sonhou que, um dia, o Papa iria ser puxado com brusquidão por uma mulher de aspeto oriental e que, depois de lhe ter dado uma palmada, acabou por pedir desculpas por se ter irritado.
- Só a mim ninguém pede desculpa – murmurou ao acordar enquanto um soluço lhe percorria o corpo…

sábado, fevereiro 01, 2020

Compilação do desvario alentejano

Que os Deuses do Olimpo Alentejano me perdoem ...
O que é que os Alentejanos chamam aos caracóis?

Animais irrequietos.

O que é que os Alentejanos esperam depois da seca?

Que as vacas deêm leite em pó.

Por que é que os Alentejanos leêm os jornais nas esquinas?

É para o vento lhes mudar as folhas.

O que fazem 17 Alentejanos à porta do cinema?

Estão à espera de mais um, porque o filme é para M/18.

Qual a melhor Universidade do mundo?

A de Évora porque entram Alentejanos e saem Engenheiros.

Um dia um Alentejano diz pra mulher:

- Maria põe a mesa no quintal que hoje vamos jantar fora.

Por que é que os Alentejanos treinam futebol na piscina?

Para puderem treinar lances em profundidade.

Por que é que os Alentejanos semeiam alhos nas bermas das estradas?

Porque o alho faz bem à circulação.

Na prisão estão dois Alentejanos. Diz um para o outro:

- Olha lá é meio-dia ou meia-noite?

Responde o outro:

- Nã sei o mê relógio tá parado.

Por que é que os Alentejanos plantam 3 laranjeiras juntas?

Para sair directamente Trinaranjus.

1º Lema do Alentejano:

Mais vale uma mão inchada do que uma enchada na mão.

2º Lema do Alentejano:

Mais vale morrer de frio do que trabalhar para aquecer.

Qual é a peça da mota que os Alentejanos gostam mais?

É o descanso.

Um Alentejano vai à praia pra se bronzear. Deita-se na areia, adormece e quando acorda vê um preto ao lado dele a apanhar sol.

- Ó cumpadre, há quanto tempo é que está cá?

- Dois dias.

- Porra e eu que era pra ficar quinze dias.

O que é que os Alentejanos fazem no fim de um dia de trabalho?

Tiram as mãos dos bolsos.

Por que é que os Alentejanos costumam dormir com o relógio debaixo deles?

É para acordarem em cima da hora.

Como é que os Alentejanos fazem o controlo da natalidade?

Atiram pedras às cegonhas.

Por que é que os Alentejanos quando andam de mota levam um machado à frente?

É para cortarem o vento.

Onde é que os Alentejanos costumam guardar o dinheiro?

Debaixo da enchada. Ninguem lá toca.

Estavam dois Alentejanos a brincar à apanhada. Vai um deles e diz assim:

- Já estou farto de correr atrás de ti. A partir de agora corres tu à minha frente.

Vai o outro e diz:

- Tá bem, por mim tanto faz.

Uma brigada de transito estava a fazer um relatório de um acidente de viação e perguntou a um pastor Alentejano como tinha sido o acidente. 

Resposta do pastor:

- Os senhores guardas veêm ali aquela estrada? Veêm aquela curva? Veêm aquele chaparro? Olhe eles nã viram.

Por que é que os Alentejanos se levantam de madrugada?

É para estarem mais tempo sem fazerem nada.

Por que é que os Alentejanos não bebem leite frio?

Porque não conseguem meter a vaca no frigorifico.

Por que é que os bolsos das calças dos Alentejanos são de plástico?

É pra meterem o salário líquido.

Como é que os Alentejanos arranjam dinheiro para comprarem um video?

Vendem a televisão.

Estavam dois velhos Alentejanos falando sobre o mar quando a páginas tantas diz um pro outro:

- Oh home, cala-te que nã percebes nada de mari.

Resposta pronta do outro:

- Pra tua informação, o mar morto, que é o mar morto já eu o conhecia antes dele estar doente.

Estão dois alentejanos encostados a um chaparro à beira da estrada, quando passa um automóvel a grande velocidade e deixa voar uma nota de 100 euros que vai cair no outro lado da estrada. Passados cinco minutos, diz um alentejano para o outro:

- Cumpadri, se o vento muda temos o dia ganho.

A futura sogra alentejana para o futuro genro, também alentejano:

- Ouve lá. Tu queres a minha filha para casar ou pra quê ?

- pra quê.

Sabem porque é que os alentejanos preferem apanhar azeitonas em vez de caracóis?

 Porque as azeitonas estão paradas.

Sabem como é que um alentejano mata uma minhoca?

Enterra-a.

Conversa entre alentejanos:

- Cumpadri, porque é que você arrancou dois dentis no mesmo dia?

- Porque o dentista não tinha troco de 100 euros.

Um turista chega a beira de um alentejano e pergunta-lhe:

- Já nasceu aqui algum grande homem?

- Nã senhori. Aqui nascem crianças!...


Um alentejano para o outro:

- oh compadri, vai chover!

- ora essa, va vocêmecê...

Por que é que mandaram 10000 Alentejanos para o GOLFO quando houve conflitos?

- Foi para acalmarem a situação.


   

sexta-feira, janeiro 31, 2020

Salvos pelo cachorro

No CFL, estranhava-se a ausência da Teresinha e todas ficaram espantados quando alguém trouxe a notícia da sua detenção.
O Dr. Armando reuniu os alunos mais relacionados com ela e afirmou:
- Alunos do CFL, deem muita atenção ao que se passou que não me admira absolutamente nada. Esse Passarinho é um malandro que já fez várias partidas aqui no Colégio. Até acho bem que esteja preso. A Teresa é uma menina exemplar. Mas eu conheço o graduado e sei que ele é uma pessoa ponderada. Decerto a vai libertar dentro em breve. Eu próprio falarei com ele se a libertação se atrasar.

A Gracelinda é que não gostou nada do que ouviu. Não achava bem que miúdos tão jovens estivessem detidos na prisão. Assim, combinou rapidamente um plano com o seu Pepe…

*

Nessa tarde, vestida de freira, a Gracelinda dirigiu-se ao posto da GNR. O graduado reconheceu-a imediatamente:
- Oh! É a menina Gracelinda. Então, voltou ao convento.
- Ainda não, mas estou a ponderar fazê-lo. Vim aqui pois soube que a Teresinha está presa por uma questão fútil. Acha que posso falar com ela?
O graduado tinha as chaves da cela em cima da mesa e levantou-se para cumprimentar a jovem.
- Sabe? Contamos libertá-la dentro em breve, até já aqui tenho as chaves, mas pretendemos que lhe sirva de lição para ela não repetir o disparate de circular pela vila da maneira que fez.
Neste momento, um pequeno vulto entrou pelo posto da GNR, saltou para cima da mesa e fugiu com as chaves na boca. Não mais chegou a ser visto. O graduado ficou boquiaberto.
- O diabo do cão fugiu com as chaves…
- Está a ver? Agora como vai libertar a Teresinha e o João? Para onde terá ido o cão?
- Temos de o procurar. Que disparate eu fiz…
Rapidamente saíram do posto. A Gracelinda disse:
- Eu vou na direção da Câmara, o senhor vá pelo outro lado. Se encontrar o cão, dê um tiro para o ar para me avisar. Encontramo-nos no posto.
E partiram em busca do cão. O graduado mobilizou ainda mais dois homens que partiram em direções diferentes.
Claro que a Gracelinda sabia muito bem onde estava o seu Pepe e, daí a pouco, encontrou-o junto ao parque por trás da Câmara.
- Cãozinho lindo! És mais rápido e inteligente que o Baloo! Ele nunca faria o que fizeste…
O Pepe deu dois saltitos e entregou-lhe alegremente as chaves das celas.
- Agora, esperas aqui por mim.
Rapidamente, voltou ao posto e, ao passar pela cela da Teresinha, disse-lhe:
- Prepara-te. Penso que, em breve serás libertada…
Mas foi preciso passarem umas duas horas para  os GNR regressarem. Vinham todos com cara de caso e o graduado disse:
- Não conseguimos nada. Para onde terá ido o cão? E agora temos de chamar os bombeiros ou o ferreiro para abrirem as celas à força. Que vou dizer aos meus superiores?
A Gracelinda olhou para ele e sorriu:
- Não, não é preciso nada disso. Olhe aqui…
E mostrou-lhe as chaves das celas. O graduado ficou comovido:
- Não sabe como lhe estou agradecido, irmã Gracelinda. Que posso fazer para a compensar?
- A única coisa que pretendo é que devolva a liberdade aos meus amigos. Eles devem estar muito tristes. O desaparecimento das chaves foi uma partida que Deus quis fazer-lhe para lhe lembrar que, neste mundo, se não deve tirar a liberdade a pessoas inocentes por motivos fúteis…
Pouco depois, a Teresa e o João foram libertados e encontraram-se com o graduado e a sua amiga.
- É a ela que devem a liberdade. Agora, não façam mais disparates para não os voltar a enfiar na prisão.
O João trazia na mão o carrinho de madeira completamente montado:
- Diga ao miúdo a quem o vai oferecer que foi feito por mim, o João Passarinho. Aliás, leva as minhas iniciais: "JP".
No Avenida, foi uma alegria o reencontro com os amigos. Entretanto, no posto da GNR, o graduado via passar frente ao mesmo a Gracelinda acompanhada de um cãozito que se deslocava rapidamente.
- Coisa esquisita! Dir-se-ia que já vi aquele vulto noutra ocasião… 




FIM



quinta-feira, janeiro 30, 2020

O trabalho ajuda a reabilitar

Ainda na tarde do dia da detenção do João, o graduado foi falar com ele à cela. Levava um pau de vassoura, uma roda de madeira com uns vinte centímetros de diâmetro e um pau arredondado curto.
- Estamos a averiguar o teu comportamento e o da restante família. Demorará alguns dias pelo que, para passares o tempo, vamos iniciar-te à arte de construção de um cavalo de madeira.
Mostrou-lhe um desenho e entregou-lhe uma faca bem afiada:
- Com este material, deves reconstruir este carro que vai ser oferecido a um dos miúdos cá da terra.
- Eu não faço nada disso – reagiu o João.
- Se não fazes, não sais…

E o João teve de atirar-se ao trabalho. Oh! Se os reclusos de agora fossem assim tratados, aprenderiam num instante a ser boas pessoas.
Mal o viram a aplainar a madeira, os miúdos da escola fizeram nova dança e cantoria:

Passarito, companheiro
toda a noite alisa o pau
quis armar-se em cavalheiro
no fundo é um marau

e, depois, num ritmo bem mais forte:

Olha o triste Passarito
na gaiola a penar
é bem feita, é bem feita
não vai ter com quem casar.

Na cela ao lado, a Teresinha chorava. Ela não podia comunicar com o João e ver as pessoas passarem na rua em liberdade causava-lhe uma terrível angústia.
«Oh! Por que me pus a fazer o disparate de andar a cavalo nas ruas de Ourém…? E a multa… como é que vou conseguir pagar essa quantia exorbitante?».
À noite, trouxeram-lhe o jantar.
- Comidinha do Manel do Raul. Nada má…
A Teresinha provou, mas a situação em que estava não a deixou apreciar as excelentes iguarias que tinham posto à sua disposição. E passou a noite a chorar enquanto, na cela ao lado, ouvia o estranho ruído de alguém como que a cortar e aplainar madeira.


quarta-feira, janeiro 29, 2020

Uma lição de civismo

Quando os pais da Teresinha souberam da sua prisão ficaram em pânico.
- Oh! Meu Deus, o que vai acontecer à nossa menina??!!
- Eu sempre disse que ela não devia acompanhar aquela miudagem do Café Avenida. São todos uns mal comportados e aqueles que vêm de Lisboa são piores, habituados a coisas horrorosas. Há alguns que até já deixam crescer o cabelo. Então o Passarinho tem mesmo aspeto de malandro e já se lhe conhecem várias ações lamentáveis. Um dia foi preso acusado de fabricar dinheiro falso para pagar dívidas de jogo.
E a sua preocupação aumentou muito mais quando souberam o valor da multa:

- Cinquenta contos… o dinheiro que estávamos a juntar para um Fiat 127. Lá se vão as nossas economias.
A Céu estava boquiaberta e não conseguiu evitar um comentário:
- Olha, Estefaninha, se lhe tivesses dado as chineladas que me deste, isto não aconteceria.
- Eu acho uma multa demasiado elevada – dizia a mãe da Teresinha toda decidida. – Temos de contestar o graduado da GNR.
E dirigiram-se ao posto da GNR. O graduado, quando os viu, recebeu-os com um sorriso:
- Não tenham receio. Eu só quero dar uma lição a esses dois miúdos. Eles vão ficar em isolamento até amanhã e, depois, liberto-os na convicção de que terão aprendido a lição de que devem ser bem comportados.
- Mas a nossa menina é um anjo, não precisa de uma lição dessas – respondeu a mãe da Teresinha, apesar de mais descansada por terem desistido da multa. - Se os senhores quiserem, até pode vir todas as semanas fazer bolinhos para os prisioneiros...
- Estes jovens são bons, mas têm de ser moldados para terem um melhor comportamento e servirem a Pátria quando for necessário. Vão ficar na prisão até amanhã e espero que não repitam estes disparates. Mas acho que vou aceitar a sua oferta dos bolinhos. Fica desde já marcado que todas as terças-feiras, ela vem até cá fazer uns bolos para nós e para os prisioneiros. Eles não merecem, mas...
- E podemos ver a nossa menina?
- Não. Ela fica em reclusão, pois, se a virem e lhe falarem, o castigo perderá o seu efeito. Poderão vê-la através das grades, mas só isso…
Quando saíram, viram a Teresinha por trás das grades, a ver o Sol aos quadradinhos…
- Mãezinha, quando é que eu saio daqui?
- Minha filha, tem paciência. O graduado disse-me que, em breve, serás libertada, mas não me permite que fale contigo.

E a Teresinha ficou na prisão de Ourém a chorar enquanto os pais se afastavam de regresso a casa, mas já com a certeza que ela seria libertada…
Cá fora, os miúdos de escola, conhecedores da sua situação, iniciaram um estranho bailado usando pequenos carrinhos de madeira fabricados pelos presos:

A Teresinha está presa
não aprendeu a lição
ela não vai ter defesa
não vai sair da prisão

e, depois, num coro mais forte:

Olha a triste Teresinha
está na prisão a penar
é bem feita, é bem feita
não vai ter com quem casar...

Um deles veio bater nas grades:
- Olá… - e escapuliu-se.
Ali passou mais uma noite horrível a ouvir os gemidos e lamentos de outros presos, esses sim autores de crimes que mereciam castigo.
«Que grande lição! Mas estão a ser injustos comigo. Eu não merecia este castigo…»


terça-feira, janeiro 28, 2020

Todos para a prisão

No dia seguinte, pela manhã, o João dirigiu-se ao posto da GNR. Sentia-se culpado da situação da Teresinha e queria esclarecer toda a situação.
O graduado estava a tomar o pequeno almoço e só o recebeu ao fim de meia-hora num gabinete sem um mínimo de condições.
- Senhor comandante, venho falar-lhe na menina que prendeu ontem…
- Ela excedeu os limites de velocidade na vila e por isso vai ficar presa durante uma semana…
- Não pode ser, senhor guarda, o cavalo tinha tomado o freio nos dentes e a culpa foi dos senhores que dispararam aquela salva de tiros sem ninguém estar à espera.
- A culpa foi nossa? Repare, senhor cidadão, que estávamos a cumprir o nosso dever. Estávamos a treinar-nos para uma cerimónia importantíssima… enquanto o menino e a menina estavam a brincar.
- Cerimónia importantíssima?!! PFFFF!!! Uma palhaçada para apoiar o regime…
- Que disse? Guardas, prendam já este miúdo mal educado. Clementina, investiga já o comportamento de toda a família…
E o João acabou também por ser preso acusado por injuriar o regime que servia tão bem o país.

segunda-feira, janeiro 27, 2020

Uma amazona em perigo


Naquela manhã, a Teresinha estava encantadora com o ar desportivo e juvenil que lhe dava o traje de amazona. Os olhos pareciam mais rasgados e claros que nunca e o cabelo, recentemente penteado, caia como uma cascata sobre os ombros, em redondos anéis. Suspenso do pulso levava um pequeno chicote e foi assim que entrou no Avenida fazendo suspender a respiração a toda a gente.
- Teresa, pareces uma verdadeira cavaleira – disse o Jó Rodrigues.
Ela riu-se e respondeu:
- O João conseguiu que as meninas do circo me emprestassem um cavalinho dócil para dar uma volta pela vila.
O João, sempre o João… a conseguir coisas que pareciam inacessíveis aos outros.
Nesse momento, viram o João e uma miúda do circo que desciam a rua que vinha de casa do César na direção do Avenida.
A miúda segurava com uma das mãos as rédeas de um formoso corcel, negro de azeviche, uma bela estampa que, à simples vista, denotava ser animal de puro sangue. Um excelente exemplar.
- Aqui tens, Teresinha. Cumpro sempre o prometido.
A rapariga montou com agilidade e dirigiu-se ao longo da Avenida no sentido do jardim da vila. Aí, voltou à direita, num trote muito suave e subiu na direção da Câmara. Observava tudo com interesse e reparou que, lá à frente, havia uma parada da GNR. Cerca de 20 soldados estavam perfilados, obedecendo às ordens de um superior. Dirigiu para lá o corcel.
Mais acima, pôde ouvir as vozes de comando:
- Apontar!
Um movimento bem sincronizado fez com que os soldados virassem as espingardas para o ar.
- Fogo!
Uma fortíssima salva atroou os ares de Ourém. O animal, espantado, saltou, encabritou-se, levantou as patas dianteiras e esteve quase a derrubar a amazona.
Entretanto, alguns rapazes subiram a rua do César e puderam ouvir todo aquele ruído. Ao mesmo tempo, viram a mole negra de um cavalo desenfreado prestes a desabar-lhes em cima. E vinha na direção do Estorietas…
Forte e vigoroso, o aspeto do animal era horrível. O peito dilatado pela corrida louca, a boca meio aberta e cheia de espuma, os dentes à mostra, parecendo resolvidos a morderem-lhe, formavam um conjunto aterrador.
Os soldados da GNR contemplavam espantados aquela corrida louca. O graduado olhou aquele espetáculo e começou a tomar notas:
- Só nesta terra… - murmurou.
O primeiro impulso do Estorietas foi atirar-se de cabeça fugindo rapidamente do caminho trilhado pelo animal, mas deteve-o no último instante a visão fugaz de uma carinha desfigurada pelo pavor e o débil vulto da amazona que, com a força do desespero, se aferrava às crinas do corcel, tão desnorteada e sem domínio dos nervos que tinha largado as rédeas; já nem sequer tentava pará-lo e o galope cego arrastava-os rapidamente para a praça Mouzinho de Albuquerque onde se esmagariam de encontro às paredes que de maneira nenhuma poderiam evitar, isto se não chocassem com algum carro na Avenida. Foi a certeza deste facto que impediu o seu primeiro e instintivo movimento.
Nesses poucos segundos, apenas o tempo de lançar uma vista de olhos para avaliar a situação, o animal, ganhando terreno com fantástica velocidade, atirava-se irresistivelmente para cima dele. Um grito de horror saiu da garganta dos espetadores daquela tremenda cena, tanto mais que a ninguém era possível intervir.
Imobilizado pela expressão de medo que se lia nos olhos da amazona, convenceu-se de que tinha de fazer qualquer coisa, fosse o que fosse, para a salvar, mas a extraordinária rapidez do desenfreado animal impediu de pensar na melhor maneira de o deter.  Só por instinto, afastou levemente o corpo na altura própria, deixando passar a cabeça do cavalo e, com vigoroso impulso, saltou-lhe para o pescoço, de onde, pela violência do choque, se viu repelido. Concentrando toda a sua força nos braços para manter a posição, conseguiu afinal agarrar-se com firmeza e, então, sustendo o peso do corpo com o braço esquerdo, avançou a mão direita para agarrar as rédeas pendentes.
Chegou a julgar que ia cair pois o suor que empapava o corpo do animal fazia resvalar o braço em que se apoiava; ao dar por isso, apertou com novas energias as crinas do cavalo e, já com as rédeas bem presas, obrigou-o, violentamente, a baixar a cabeça. Agarrando-se como podia, às rédeas e ao pescoço, foi estendendo as pernas que mantivera encolhidas, inclinou-se para a frente e deixou cair os pés, a tocarem o solo, fincando os saltos dos sapatos para se firmar no terreno, e largou-se puxando as rédeas com ambas as mãos.
Fizera tudo aquilo com a maior rapidez, mas, apesar disso, já estavam a poucos metros do Avenida e a parede parecia aproximar-se vertiginosamente, sombria, ameaçadora…
Os músculos em completa tensão afiguravam-se incapazes de resistir ao esforço, o alcatrão feria-lhe os pés, deixando visível um sulco escuro, mas, quando a catástrofe parecia iminente, o animal rendeu-se, ofegante e trémulo. Um suspiro de alívio saiu do seu peito angustiado ao perceber que os seus esforços tinam sido coroados do êxito mais rotundo. O cavalo ainda tentou encabritar-se mas a forte pressão que sobre ele exercia o Estorietas dominou-o por completo.
A Teresinha chorava e teve de ser retirada de cima do cavalo pelos rapazes. O João só dizia:
- Oh! Que estupidez eu fiz.
Entretanto aproximava-se o graduado da GNR que, com voz dura, perguntou:
- Quem conduzia aquele cavalo?
- Era eu, senhor comandante – respondeu a Teresinha ainda a tremer e quase a chorar.
O homem não teve dó nem piedade:
- A menina tem de pagar uma multa de 50 contos por ter circulado na vila com excesso de velocidade.
- Mas eu não tenho dinheiro…
- Então vai ficar na prisão durante uns dias…
E, nessa noite, a Teresinha foi dormir no calaboiço da GNR sem ninguém saber quando sairia.


domingo, janeiro 26, 2020

A Arquitetura de Sistemas de Informação

A minha paixão pelas Bases de Dados e pelo SQL acompanhou-me até para além da vida profissional. Cabe dizer que, paralelamente ao emprego na CNP e Carris, eu lecionava na escola que atualmente se designa por ISEG. Disciplinas relacionadas com o Marxismo entre 1975 e 1978, depois disciplinas na área de Informática e, por fim, relacionadas com Economia.
Ao contrário do que pensam, a situação era muito cómoda especialmente nas décadas de 80 e primeiros anos de 90. A especialização em Informática era um ativo precioso e os contratos estavam sistematicamente garantidos.
Mas não era fácil o relacionamento de um indivíduo com sensibilidade à Informática com outros docentes numa escola de Economia. Um dia escandalizei os meus colegas numa disciplina designada de Economia Aplicada quando afirmei que o economista devia tanto preocupar-se com o tratamento dos dados como com a forma como estes eram organizados, pois isto condicionaria o tratamento posterior. E bateram-me, bateram-me, bateram-me com a discussão do «core» do negócio…
Mas quando isto se passou já estava bem lançado. Na Carris tinha sido responsável pela transformação de um processamento exclusivamente em batch para tratamento interativo. Não tinha sido fácil num momento em que o termo «resistência à mudança» ganhou todo o sentido. Os programadores antigos, donos das aplicações, não colaboravam ou colaboravam com dificuldade e especializei-me na técnica de saca-rolhas. Propor, mostrar, ouvir, modificar… bolas! Que paciência era necessária!
E, cá por fora, falava-se em «arquitetura de sistemas de informação». Que bonito! Os analistas de informática promovidos a arquitetos. Havia muita vaidade nesta designação, mas lá fui interiorizando cada vez mais os conceitos que viam um sistema de informação como algo que deve ser estudado previamente, pensado para toda uma organização, capaz de a transformar. Até sonhava com o famigerado «Modelo Entidade-Associação» que passou a perseguir-me para todo o lado.
E as dificuldades na Carris eram tantas para mudar a organizar e implementar coisas novas que um dia corri atrás de um projeto de transição para um sistema transacional numa empresa como a Shell.
Não pensem que a resistência à mudança tinha acabado. Eu acho que até foi pior tal o ambiente que encontrei. Pessoas habituadas a trabalhar numa maquineta que funcionava em RPG a terem de transitar para um sistema de informação suportado em Bases de Dados… «Se queres saber alguma coisa, descobre tu…».
Aqui, para colaborar nos projetos, tinha elementos de empresas de serviços. Empresas que, como calculam, tinham uma agenda própria, pagas a peso de ouro e que queriam sobrepor-se ao interesse da organização que as contratava. Não foi fácil esse relacionamento muitas vezes deteriorado pelo «dizer mal…»... e pela minha mania de querer implementar eu aquilo que os outros deviam fazer. Resultado: fogo permanente.
Apesar do muito que sofri para chegar às coisas, foi uma época que deu gozo pela exploração que pude fazer do SQL. Quando uma aplicação demorava demasiado tempo a implementar, arranjava uns remendos em SQL. Demoravam algum tempo a executar, mas estavam prontos imediatamente. Fazia o que na gíria se chamava "uma martelada". E dei tanta martelada que alguns colegas ofereceram-me um martelo para ornamentar a secretária.
A raiva contra mim foi de tal ordem que um dia o responsável informático da petrolífera determinou «não pode ser utilizada em exploração a ferramenta SQL». Proibir, proibir era a palavra que aqueles burros conheciam para fazer a vontadinha às empresas de serviços...
Comecei a fartar-me. Afinal, a vidinha parecia tão calma para os lados do ISEG… Havia uns mestrados tão giros para frequentar que poderiam garantir ascensão na carreira docente.
E, um dia, embora empurrado, disse adeus à carreira como “arquitecto de sistemas de informação”. Nem calculam o alívio…

sábado, janeiro 25, 2020

Base de Dados é o que está a dar…

As coisas no Centro Nacional de Pensões, apesar de uma ascensão rápida, não correram bem do ponto de vista do gosto pela profissão. Ao se aperceberam que investia muito na investigação das potencialidades das linguagens, os responsáveis entenderam estar ali o indivíduo ideal para a área de sistemas e trataram de me fazer transitar para lá.
Ora, eu adorava a área de aplicações. O que gostava era idealizar sistemas de aplicações, ficheiros, rotinas de tratamento de dados e programar muito do necessário para o implementar. Comparada com isso, a área de sistemas era uma chatice em que tinha de andar atrás dos técnicos do fabricante, preocupar-me com circuitos, coisas horrorosas.
E comecei a pensar em sair, apesar de adorar os colegas com quem trabalhava.
A ocasião surgiu através de um concurso para a Carris. Esta usava um equipamento IBM com algumas afinidades com o que usava na CNP e a transição não foi difícil pois a CNP estava, na altura, uns passos à frente já com o teleprocessamento em produção.
Tornei-me um excelente ouvinte dos conselheiros que vinham daquela corporação gigantesca e só relativamente tarde me apercebi que muitos desses conselhos estavam relacionados com a sua necessidade de fazer negócio. «A máquina tem mau desempenho?», então «O melhor é fazer um upgrade ou adquirir uma máquina nova».
E, um dia, a palavra mágica surgiu: Base de Dados. Seria o fim da anarquia, o fim da redundância… os dados bem organizadinhos a servirem toda a empresa. As primeiras bases de dados foram apelidadas de hierárquicas e não trabalhei praticamente com elas. As que me entusiasmaram bastante designavam-se por relacionais e a palavra chave para o seu uso era SQL (Structured Query Language).
Adorava o SQL, tudo quis fazer com SQL. Um dia, perante a administração da Carris, eu e alguns técnicos tivemos uma conversa engraçada:
- Em SQL, é possível determinar imediatamente o impacto de um aumento de salários de 10% aos motoristas.
O administrador ficou entusiasmado:
- Olhe. E esse rapaz, o Ezequiel, ele não está para ir embora, pois não?
A evolução era tão rápida que as pessoas tinham de ignorar alguma coisa na sua profissão… 
Cabe dizer que, na altura, era muito difícil a uma empresa como a Carris reter os seus técnicos de Informática. Mal sabiam alguma coisa e provavam que eram bons, a Banca e algumas empresas tratavam de os contratar com salários francamente superiores: era uma pressão sufocante para o Centro de Informática.

sexta-feira, janeiro 24, 2020

Onde «ter de conhecer muito» equivale a «baixo nível»

A minha vida profissional começou com um emprego de programador de computadores no Centro Nacional de Pensões. Entrei numa leva em 1973, adquiri os primeiros conhecimentos à conta do empregador e após uns testes de aptidão e executei alguns programas que, a breve trecho, demonstraram que tinha algum jeito. A linguagem utilizada estava muito perto da linguagem máquina, era um Assembler e o computador uma anedota quase sem memória que utilizava cartão perfurado (Univac 1005). Programa e dados utilizavam este suporte.
Passados uns três meses fui chamado para o serviço militar e, quando regressei, o panorama era substancialmente diferente: os programas ainda entravam em cartão, mas ficavam gravados em disco onde podiam ser editados. Os dados também podiam usar esse meio, mas já os encontrei em disco e banda magnética. Começou aí um dos meus períodos áureos na profissão um bocado exacerbado pelo momento político. Assim, quando tinha de testar os programas, tinha de fazer fichas em cartão com uma simulação dos dados e via-me obrigado a inventar nomes de beneficiários, moradas, etc. etc.
Era um martírio fazer fichas teste e o que me aliviava era escolher nomes do mundo político. Assim, ao fim de algum tempo, a diretora do Centro começou a receber queixas das operadoras de registo de dados que afirmavam que um programador andava a gozar com os políticos, pois criava fichas teste com os nomes de :«Álvaro Barreirinhas Cunhal», «Melro Antunes», «Sá Meme», «Mário Bochechas Soares», «Basilino da Horta»...
Lá fui chamado à pedra e comprometi-me a não gozar mais com os nossos queridos políticos, passando a usar nomes completamente inócuos.
A linguagem de programação, entretanto, tinha evoluído: já usava o Cobol e aquelas palavras em Inglês com um certo sentido passaram a transmitir-me muito gosto pela função. Cada programa que fazia era um desafio diferente e procurava sempre testar aspetos novos da linguagem, sendo caraterizado por muitos colegas como tendo uma «programação demasiado arrevesada». Eu diria mesmo disparatada, esse seria o termo correto, já que, revendo os programas, diria que tinham sido feitos por um louco.
Um dia, aproximavam-se as férias, e fiz um programa à pressa. Quando voltei fui envergonhado perante os colegas pois tinha estoirado com a banda dos salários. As especificações de análise não eram muito claras, mas o que eu quis foi fazer o programa, não esclareci nada e… Bum!!! Lá andaram a repor os dados do ano em salários enquanto eu me deliciava em férias. A partir daí, fui mais cuidadoso.
Cabe dizer ainda que já se discutia muito o nível das diferentes linguagens: uma linguagem de alto nível seria aquela que estaria muito perto do modo como falamos, tornando a vida do programador  muito simples; pelo contrário, uma linguagem tipo Assembler, apesar de exigir muitos conhecimentos a quem a utilizava, era considerada de baixo nível.
A ilustração esclarece o que disse antes. O Assembler estava abaixo daquilo tudo. O Cobol estaria ao nível dum Fortran (Formula Translator) que também cheguei a usar e, depois, por ali acima, era tudo de uso mais fácil. Confesso que ficava danado quando me diziam que programava numa linguagem de baixo nível. Os pedantes… que nem sabiam escrever uma instrução para ler um registo de um ficheiro.

quinta-feira, janeiro 23, 2020

A tática da punição mútua

Lembro-me que, na instrução primária, uma tática utilizada pela professora para reforçar o amor mútuo entre alunos era pôr os que acertavam uma pergunta a dar umas reguadazinhas aos colegas que erravam… e o sistema era maquiavélico, porque, se algum não desse a reguada com um mínimo de força, era ele quem levava depois das mãos da professora.
Eu era dos que mais era chamado a dar a reguadazinha, mas, como era boa pessoa, tratava todos os colegas com suavidade, todos ou quase todos. Mas havia uma ou duas meninas da nossa turma que eram terríveis. Uma era a Borda d’Água e outra a menina dos Castelos. Um desgraçado que levasse uma reguada delas já sabia que tinha de pôr a mão de molho durante três ou quatro dias, pois eram impiedosas, batiam com raiva… só lhes faltava pôr pregos na extremidade da régua.
E um dia calhou-me levar três reguadas dadas pela Borda d’Água. Tinha errado uma pergunta sobre os rios de Portugal e, no entretanto, ela tinha visto a resposta no livro e oferecera-se para responder ganhando o direito de me punir.
Vi-a chegar junto de mim com a régua na mão…
- Estende a mão…
Que me iria acontecer? Olhei para ela e o ar dela não denunciava um mínimo de piedade…
- Leninha, sê suave!!!
- Eu te digo… ainda há dias me torturaste com cinco reguadas.
Eu já nem me lembrava…
Lá estendi a mão, ela levantou o braço, fez a régua ficar quase perpendicular ao chão, cabeça para trás quase em posição de mortal e aplicou o primeiro golpe.
-Ai!!!!!!
Todos a contemplarem o belo espetáculo, inclusivamente a professora que, assim, nem tinha o trabalho de nos castigar. Acho que alguns até se arrepiaram.
- Malvada! Se te apanho a jeito…
Segunda reguada ainda com mais força. A menina dos Castelos ria que nem uma perdida, cheia de pena por não ser ela a aplicar o castigo.
Até que chegámos à última reguada…
- Agora é que vais ver – dizia a Lena entre dentes.
Vi que o seu olhar não estava para brincadeiras. Ela repetiu os gestos anteriores, trouxe o braço até mais atrás e desferiu sobre a minha mão.
Desferiu…
… só que a mão já lá não estava. E, sem algo para lhe amparar o movimento, a Lena estatelou-se no chão e a régua fez-se em mil pedaços. Os minutos seguintes foram passados a dar-lhe assistência. Que coisa estranha se passara para ela cair no chão se eu nem me mexera?
Acho que ela aprendeu. A partir de então tornou-se a pessoa mais suave a aplicar os castigos que, pelo direito vigente, caberiam à professora.

terça-feira, janeiro 21, 2020

O início do fim da Feira do Mês


Por vezes, o espetáculo a partir da casa do Largo de Castela era bastante animado. Se não estou em erro, regularmente, pelo dia três, realizava-se a feira do mês num largo enorme junto ao local onde depois surgiu a escola da Dona Iria, perto da prisão da GNR.
E a rua de Castela enchia-se das mais diversas espécies de animais - ovelhas, carneiros, cabritos, burros, vacas, mulas - que a desciam para se dirigirem ao largo da feira onde eram transacionados.
O ruído dos chocalhos, a mistura dos sons produzidos pelos animais e pelas pessoas que os controlavam e o seu tropel eram magníficos, dando a tudo aquilo uma sensação que de semelhante só se encontrava nos filmes do Oeste com as cavalgadas junto aos bisontes ou a manadas de gado tresmalhadas.
Eu abria a porta e via todo aquele ondulado barulhento a passar. Depois era de novo o silêncio, a rua ficava um pouco suja com excrementos do tipo azeitona e, no mês seguinte, lá se repetia a história.

Mas também este espetáculo maravilhoso um dia cessou. Vejam como o NO noticiou o princípio do fim da «feira do mês».


Vila Nova de Ourém, 20 de Agosto de 1950.
No Largo de Rodrigues Sampaio (vulgo “Feira do Mês”), no ângulo sueste, um novo edifício escolar começou há pouco tempo a erguer-se. O velho logradouro, de futebolistas incipientes, de amadores de “estrelas” e “papagaios” de papel, das ruidosas e heterogéneas feiras e mercados, vasto palco das festas de outrora, onde bandas de fama e grupos folclóricos bizarros se exibiram, vai ficar talado e como tal reduzido a proporções que dificilmente lhe permitirão voltar a desempenhar-se da função destacada que até aqui lhe cabia na vida local.
Há quem veja com desgosto a amputação do amplo recinto e que o desejasse assim mesmo, para sempre, servindo nas grandes concentrações públicas mercantis ou festivas, e, nos intervalos destas, de grande pulmão ou respiradouro; outros há, pelo contrário, que rejubilam com o desaparecimento mais ou menos próximo dos ruídos que lhes são inerentes e das excrescências e do fétido aroma que a pecuária ali despeja todas as semanas e todos os meses. Uns e outros aduzem razões a que certamente não são indiferentes os seus interesses particulares. Respeitemo-las. Quanto a nós, se bem que a localização da nova escola nos não seja de incondicional simpatia, parece-nos que devemos aceitar a sua construção como um melhoramento de vulto e merecedor portanto do nosso reconhecimento, tanto mais que o desaparecido ou reduzido nas suas proporções o popular logradouro, outros vão surgir certamente, mais belos e mais higiénicos, previstos como estão no plano urbanístico que a Câmara já começou a executar.
De lamentar apenas – e não se julgue que se trata de edifício medíocre ou desgracioso sequer – de lamentar apenas, repetimos, é que em vez de 2 ele não comporte 4 salas como parecia estar indicado para a categoria da Vila e estética local.
Para isso – façamos justiça – se bateu esforçada e insistentemente a Câmara junto de quem de direito, mas infelizmente sem resultados satisfatórios.

segunda-feira, janeiro 20, 2020

O prazer de fumar

Comecei a fumar a sério no meu segundo ano em Leiria quando completava o antigo sétimo ano. Na altura, o Rui Themido tinha ido para lá e um domingo convidou-me para irmos até a um café nas arcadas da Praça Rodrigues Lobo. Ali, estivemos toda a tarde e, a certa altura, ele puxou de um maço e ofereceu-me um cigarro.
- Toma. Fuma um cigarro…
Bebemos o café e, depois do primeiro cigarro, ofereceu-me outro e disse-me:
- Agora, engole o fumo.
Lá tentei e confesso que não me saí muito mal, pois não desatei a tossir como muitas vezes via acontecer com os novos dependentes do hábito. Passámos a tarde inteira na conversa e confesso que gostei da sensação que o tabaco me tinha transmitido.
No dia seguinte, comprei o meu primeiro maço de tabaco e, a partir de então começou uma viagem maravilhosa pelos prazeres da nicotina.
Gostava especialmente dos cigarros após as refeições e o primeiro da manhã tinha um sabor especial. Mas o ritual associado ao tabaco era outra coisa.
Conduzir um automóvel com o cotovelo sobre a janela e um cigarro na mão enquanto olhava desprezivelmente os que caminhavam a pé…
Enfrentar um novo problema, mas, antes disso, puxar do cigarro e iniciar um profundo processo de concentração…
Também gostava de observar os outros quando fumavam. O jogo do King era particularmente elucidativo nesse aspeto. Por exemplo, o Kansas, quando estava atrapalhado, aspirava profundamente o cigarro e depois soprava longamente. Era um notável fumador, um fumador que eu admirava pois conseguia fazer rodelas de fumo que evoluíam no ar com significativo encanto quando expulsava o que tinha nos pulmões.
Nunca consegui fazer essas rodelas de fumo e o malvado do Kansas nunca me ensinou talvez para me irritar durante o jogo. Mas eu ficava fascinado com as mesmas.
Bom, um dia o prazer do tabaco teve de terminar. Um médico, aos 28 anos, disse-me:
- Ou o meu amigo para ou…
E eu preferi parar. Mas ainda recordo com saudade aqueles processos de profunda concentração que o tabaco me proporcionava e sinto, garanto que sinto, a falta dele…

quinta-feira, janeiro 16, 2020

Oh! O rapaz vai nu...

Um dia, a rapaziada decidiu ir tomar banho para o rio. No Avenida, a Luzinha e as outras meninas assistiram aos preparativos de qualquer coisa embora não conseguissem perceber o quê.
- O que é que eles andam a preparar? Isto é muito esquisito. Não levam gira-discos e, há mais de uma semana que não vamos aos Castelos…
A verdade é que elas não conseguiram saber de nada, os rapazes pareciam múmias e a Luzinha resolveu segui-los... tinha uma bicicleta, o importante era não os perder de vista.
Saíram de Ourém e ali, na Corredoura, viraram à esquerda, aproximando-se da ponte.
Sabe-se agora que faziam muitas vezes aquele percurso, depois saiam da estrada e subiam ou desciam ao longo do rio conforme lhes desse.
No rio, uma miúda tentava apanhar peixe com um cesto, mexendo-se desalmadamente de um lado para o outro.
- É a fulaninha dos Castelos. Anda quase sempre ali, depois vai vender o peixe para o mercado. Não fala a ninguém, é uma importante...
Continuaram na direção da Melroeira, sem saberem que a Luzinha os seguia. A certa altura, pararam e ela escondeu-se atrás de uma árvore para os ver. Viu-os despir-se e, quando se atiraram à água, o seu rosto tinha um sorriso malicioso.
“Nem sabem o que os espera”.
Enquanto se divertiam na água, ela aproximou-se sorrateiramente das roupas e fugiu com elas na direção de Ourém transportando-as na bicicleta.
Pelo caminho, ainda recordava o cheiro que muitas daquelas roupas exalavam.
”Rapaz de Ourém cheira a cavalo ou a cabresto...” – pensava.
Imaginam os meus amigos como os miúdos oureenses se sentiram quando viram que lhes tinham roubado as roupas e se aperceberam que tinham de regressar em pelo até casa. Voltaram à ponte, daí passaram para o outro lado e caminharam tentando esconder-se entre as árvores.
Duma janela, a tia Alice chegou a dizer:
- Oh! O rapaz vai nu...
Ninguém lhe ligou, pensaram que era um caso de senilidade, mas a verdade é que a travessia do largo da igreja e o regresso a casa daqueles meninos, perante o espanto dos frequentadores do Central e dos que atravessavam a avenida, foi nas condições descritas. Mais descansados ficaram quando, à porta de casa, depararam com as suas roupas cuidadosamente dobradas.
A partir de então, aquela ponte por onde passaram ficou conhecida como “A ponte dos desnudados”, mas, até à data, nunca ninguém soube quem tinha levado a roupa dos miúdos…

segunda-feira, janeiro 13, 2020

O sequestro do leão bébé

Mal saiam de casa, o João e a Luzinha passeavam em frente ao circo para se deliciarem a ver os animais. O João, entretanto, ia conhecendo algumas das artistas e, por vezes, falava com elas. Um dia, teve uma novidade fantástica para a Luzinha:
- Sabes? A Leoa Elsa teve leõezinhos. Já andam e as meninas do circo permitem que nós lá vamos vê-los…
- Vamos – gritou a Luzinha toda excitada.
Foi um passo a sua caminhada até ao circo. Uma das meninas já os esperava e apresentou-os ao domador.
- São o João e a Luzinha, dois jovens muito simpáticos desta vila. O João permite que nós tomemos banho no tanque da casa deles. Amanhã à tarde já lá vamos, eu convidei-os para virem ver os leões bebé.
- Venham comigo – disse o domador – Eu devo estar presente para a leoa não se enervar…
Foram por ali dentro e, pouco depois, um espetáculo maravilhoso ficou perante os seus olhos. Uma leoa amamentava três filhotes que mais pareciam uns gatos. A Luzinha ficou extasiada. À saída, depois de agradecerem, ela disse:
- João, eu quero um bichinho daqueles…
- O quê? Não sejas louca…
- Já disse. Quero um daqueles leões. Vou criá-lo com todo o amor. Já te imaginaste a levá-lo de trela até ao Avenida? Depois, quando crescer, é a melhor proteção que poderemos ter…
O João tentou demovê-la, mas não conseguiu. E ficou numa situação difícil. Ele adorava aquela irmã, gostava de lhe fazer as vontades todas e, mais uma vez, não a poderia desiludir.
- Irmãzinha, eu vou fazer o que puder para satisfazer o teu desejo…
Nos dias seguintes, houve grande confraternização do João com três meninas do circo. Ele convidara-as para tomar banho no tanque e divertiam-se muito na água com vários jogos. Pouco a pouco, uma das miúdas ia-se sentindo cada vez mais atraída pelo João. Passavam muitas horas juntos e chegavam a passear-se de mão dada. Um dia, ele resolveu avançar.
- Ouve, Leontina. Tens de me ajudar a ficar com um daqueles leões.
A pequena ao princípio recusou, mas, depois, cedeu à pressão do João.
- Farei o que me for possível.
Ninguém sabe como o conseguiu. O certo é que, um dia, disfarçado dentro de um cesto que vinha tapado, a pequena entregou um dos leões ao João.
- Aqui tens. Agora, não me denuncies senão eles expulsam-me do circo…
- Está descansada…
A Luzinha ficou encantada quando o João chegou junto dela com o filhote da Elsa…
- João… como conseguiste?
- Nem eu sei. O que interessa é que tens o teu leãozinho. Agora temos de o manter escondido até o circo se ir embora…
No circo, houve intensa discussão quando se soube que o leão tinha desaparecido. O domador foi despedido e acusado de fazer tráfico de animais selvagens quando lhe foi descoberto na mesa de cabeceira uma carteira cheia de notas de mil que o desgraçado tinha poupado ao longo de anos de trabalho. A menina que ajudara o João ocupou o lugar dele, passando ela a ser a principal estrela nos números com as feras.
E um dia o circo foi-se embora. O João e a Luzinha respiraram de alívio e começaram a levar o leão a passear, fazendo-o adaptar-se aos hábitos dos humanos.
Mas um dia os dois irmãos tiveram uma notícia muito triste. A página principal do Diário de Notícias informava que a domadora do Circo “Ordem Nova” tinha sido devorada pela leoa Elsa quando fazia um número com ela frente aos espetadores.
A Luzinha ficou muito comovida.
- João, não aguento isto. A Leontina morta, o domador despedido, é muito injusto. Temos de devolver o leão. Além disso, está a ficar muito grande e parece-me feroz. Qualquer dia, não conseguimos conviver com ele.
E o João teve de arranjar uma desculpa para a devolução do leão e para a sua presença na sua casa em Ourém.
- Ele estava escondido numa gruta… jejejejjejjejjjej.
As pessoas do circo aceitaram as suas razões e o caso acabou por ser esquecido. Mas consta que, por causa deste episódio, a Luzinha garante que nunca viu um circo em Ourém, apesar de este ter estado mesmo frente ao muro do seu quintal…
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