sábado, janeiro 25, 2020

Base de Dados é o que está a dar…

As coisas no Centro Nacional de Pensões, apesar de uma ascensão rápida, não correram bem do ponto de vista do gosto pela profissão. Ao se aperceberam que investia muito na investigação das potencialidades das linguagens, os responsáveis entenderam estar ali o indivíduo ideal para a área de sistemas e trataram de me fazer transitar para lá.
Ora, eu adorava a área de aplicações. O que gostava era idealizar sistemas de aplicações, ficheiros, rotinas de tratamento de dados e programar muito do necessário para o implementar. Comparada com isso, a área de sistemas era uma chatice em que tinha de andar atrás dos técnicos do fabricante, preocupar-me com circuitos, coisas horrorosas.
E comecei a pensar em sair, apesar de adorar os colegas com quem trabalhava.
A ocasião surgiu através de um concurso para a Carris. Esta usava um equipamento IBM com algumas afinidades com o que usava na CNP e a transição não foi difícil pois a CNP estava, na altura, uns passos à frente já com o teleprocessamento em produção.
Tornei-me um excelente ouvinte dos conselheiros que vinham daquela corporação gigantesca e só relativamente tarde me apercebi que muitos desses conselhos estavam relacionados com a sua necessidade de fazer negócio. «A máquina tem mau desempenho?», então «O melhor é fazer um upgrade ou adquirir uma máquina nova».
E, um dia, a palavra mágica surgiu: Base de Dados. Seria o fim da anarquia, o fim da redundância… os dados bem organizadinhos a servirem toda a empresa. As primeiras bases de dados foram apelidadas de hierárquicas e não trabalhei praticamente com elas. As que me entusiasmaram bastante designavam-se por relacionais e a palavra chave para o seu uso era SQL (Structured Query Language).
Adorava o SQL, tudo quis fazer com SQL. Um dia, perante a administração da Carris, eu e alguns técnicos tivemos uma conversa engraçada:
- Em SQL, é possível determinar imediatamente o impacto de um aumento de salários de 10% aos motoristas.
O administrador ficou entusiasmado:
- Olhe. E esse rapaz, o Ezequiel, ele não está para ir embora, pois não?
A evolução era tão rápida que as pessoas tinham de ignorar alguma coisa na sua profissão… 
Cabe dizer que, na altura, era muito difícil a uma empresa como a Carris reter os seus técnicos de Informática. Mal sabiam alguma coisa e provavam que eram bons, a Banca e algumas empresas tratavam de os contratar com salários francamente superiores: era uma pressão sufocante para o Centro de Informática.

sexta-feira, janeiro 24, 2020

Onde «ter de conhecer muito» equivale a «baixo nível»

A minha vida profissional começou com um emprego de programador de computadores no Centro Nacional de Pensões. Entrei numa leva em 1973, adquiri os primeiros conhecimentos à conta do empregador e após uns testes de aptidão e executei alguns programas que, a breve trecho, demonstraram que tinha algum jeito. A linguagem utilizada estava muito perto da linguagem máquina, era um Assembler e o computador uma anedota quase sem memória que utilizava cartão perfurado (Univac 1005). Programa e dados utilizavam este suporte.
Passados uns três meses fui chamado para o serviço militar e, quando regressei, o panorama era substancialmente diferente: os programas ainda entravam em cartão, mas ficavam gravados em disco onde podiam ser editados. Os dados também podiam usar esse meio, mas já os encontrei em disco e banda magnética. Começou aí um dos meus períodos áureos na profissão um bocado exacerbado pelo momento político. Assim, quando tinha de testar os programas, tinha de fazer fichas em cartão com uma simulação dos dados e via-me obrigado a inventar nomes de beneficiários, moradas, etc. etc.
Era um martírio fazer fichas teste e o que me aliviava era escolher nomes do mundo político. Assim, ao fim de algum tempo, a diretora do Centro começou a receber queixas das operadoras de registo de dados que afirmavam que um programador andava a gozar com os políticos, pois criava fichas teste com os nomes de :«Álvaro Barreirinhas Cunhal», «Melro Antunes», «Sá Meme», «Mário Bochechas Soares», «Basilino da Horta»...
Lá fui chamado à pedra e comprometi-me a não gozar mais com os nossos queridos políticos, passando a usar nomes completamente inócuos.
A linguagem de programação, entretanto, tinha evoluído: já usava o Cobol e aquelas palavras em Inglês com um certo sentido passaram a transmitir-me muito gosto pela função. Cada programa que fazia era um desafio diferente e procurava sempre testar aspetos novos da linguagem, sendo caraterizado por muitos colegas como tendo uma «programação demasiado arrevesada». Eu diria mesmo disparatada, esse seria o termo correto, já que, revendo os programas, diria que tinham sido feitos por um louco.
Um dia, aproximavam-se as férias, e fiz um programa à pressa. Quando voltei fui envergonhado perante os colegas pois tinha estoirado com a banda dos salários. As especificações de análise não eram muito claras, mas o que eu quis foi fazer o programa, não esclareci nada e… Bum!!! Lá andaram a repor os dados do ano em salários enquanto eu me deliciava em férias. A partir daí, fui mais cuidadoso.
Cabe dizer ainda que já se discutia muito o nível das diferentes linguagens: uma linguagem de alto nível seria aquela que estaria muito perto do modo como falamos, tornando a vida do programador  muito simples; pelo contrário, uma linguagem tipo Assembler, apesar de exigir muitos conhecimentos a quem a utilizava, era considerada de baixo nível.
A ilustração esclarece o que disse antes. O Assembler estava abaixo daquilo tudo. O Cobol estaria ao nível dum Fortran (Formula Translator) que também cheguei a usar e, depois, por ali acima, era tudo de uso mais fácil. Confesso que ficava danado quando me diziam que programava numa linguagem de baixo nível. Os pedantes… que nem sabiam escrever uma instrução para ler um registo de um ficheiro.

quinta-feira, janeiro 23, 2020

A tática da punição mútua

Lembro-me que, na instrução primária, uma tática utilizada pela professora para reforçar o amor mútuo entre alunos era pôr os que acertavam uma pergunta a dar umas reguadazinhas aos colegas que erravam… e o sistema era maquiavélico, porque, se algum não desse a reguada com um mínimo de força, era ele quem levava depois das mãos da professora.
Eu era dos que mais era chamado a dar a reguadazinha, mas, como era boa pessoa, tratava todos os colegas com suavidade, todos ou quase todos. Mas havia uma ou duas meninas da nossa turma que eram terríveis. Uma era a Borda d’Água e outra a menina dos Castelos. Um desgraçado que levasse uma reguada delas já sabia que tinha de pôr a mão de molho durante três ou quatro dias, pois eram impiedosas, batiam com raiva… só lhes faltava pôr pregos na extremidade da régua.
E um dia calhou-me levar três reguadas dadas pela Borda d’Água. Tinha errado uma pergunta sobre os rios de Portugal e, no entretanto, ela tinha visto a resposta no livro e oferecera-se para responder ganhando o direito de me punir.
Vi-a chegar junto de mim com a régua na mão…
- Estende a mão…
Que me iria acontecer? Olhei para ela e o ar dela não denunciava um mínimo de piedade…
- Leninha, sê suave!!!
- Eu te digo… ainda há dias me torturaste com cinco reguadas.
Eu já nem me lembrava…
Lá estendi a mão, ela levantou o braço, fez a régua ficar quase perpendicular ao chão, cabeça para trás quase em posição de mortal e aplicou o primeiro golpe.
-Ai!!!!!!
Todos a contemplarem o belo espetáculo, inclusivamente a professora que, assim, nem tinha o trabalho de nos castigar. Acho que alguns até se arrepiaram.
- Malvada! Se te apanho a jeito…
Segunda reguada ainda com mais força. A menina dos Castelos ria que nem uma perdida, cheia de pena por não ser ela a aplicar o castigo.
Até que chegámos à última reguada…
- Agora é que vais ver – dizia a Lena entre dentes.
Vi que o seu olhar não estava para brincadeiras. Ela repetiu os gestos anteriores, trouxe o braço até mais atrás e desferiu sobre a minha mão.
Desferiu…
… só que a mão já lá não estava. E, sem algo para lhe amparar o movimento, a Lena estatelou-se no chão e a régua fez-se em mil pedaços. Os minutos seguintes foram passados a dar-lhe assistência. Que coisa estranha se passara para ela cair no chão se eu nem me mexera?
Acho que ela aprendeu. A partir de então tornou-se a pessoa mais suave a aplicar os castigos que, pelo direito vigente, caberiam à professora.

terça-feira, janeiro 21, 2020

O início do fim da Feira do Mês


Por vezes, o espetáculo a partir da casa do Largo de Castela era bastante animado. Se não estou em erro, regularmente, pelo dia três, realizava-se a feira do mês num largo enorme junto ao local onde depois surgiu a escola da Dona Iria, perto da prisão da GNR.
E a rua de Castela enchia-se das mais diversas espécies de animais - ovelhas, carneiros, cabritos, burros, vacas, mulas - que a desciam para se dirigirem ao largo da feira onde eram transacionados.
O ruído dos chocalhos, a mistura dos sons produzidos pelos animais e pelas pessoas que os controlavam e o seu tropel eram magníficos, dando a tudo aquilo uma sensação que de semelhante só se encontrava nos filmes do Oeste com as cavalgadas junto aos bisontes ou a manadas de gado tresmalhadas.
Eu abria a porta e via todo aquele ondulado barulhento a passar. Depois era de novo o silêncio, a rua ficava um pouco suja com excrementos do tipo azeitona e, no mês seguinte, lá se repetia a história.

Mas também este espetáculo maravilhoso um dia cessou. Vejam como o NO noticiou o princípio do fim da «feira do mês».


Vila Nova de Ourém, 20 de Agosto de 1950.
No Largo de Rodrigues Sampaio (vulgo “Feira do Mês”), no ângulo sueste, um novo edifício escolar começou há pouco tempo a erguer-se. O velho logradouro, de futebolistas incipientes, de amadores de “estrelas” e “papagaios” de papel, das ruidosas e heterogéneas feiras e mercados, vasto palco das festas de outrora, onde bandas de fama e grupos folclóricos bizarros se exibiram, vai ficar talado e como tal reduzido a proporções que dificilmente lhe permitirão voltar a desempenhar-se da função destacada que até aqui lhe cabia na vida local.
Há quem veja com desgosto a amputação do amplo recinto e que o desejasse assim mesmo, para sempre, servindo nas grandes concentrações públicas mercantis ou festivas, e, nos intervalos destas, de grande pulmão ou respiradouro; outros há, pelo contrário, que rejubilam com o desaparecimento mais ou menos próximo dos ruídos que lhes são inerentes e das excrescências e do fétido aroma que a pecuária ali despeja todas as semanas e todos os meses. Uns e outros aduzem razões a que certamente não são indiferentes os seus interesses particulares. Respeitemo-las. Quanto a nós, se bem que a localização da nova escola nos não seja de incondicional simpatia, parece-nos que devemos aceitar a sua construção como um melhoramento de vulto e merecedor portanto do nosso reconhecimento, tanto mais que o desaparecido ou reduzido nas suas proporções o popular logradouro, outros vão surgir certamente, mais belos e mais higiénicos, previstos como estão no plano urbanístico que a Câmara já começou a executar.
De lamentar apenas – e não se julgue que se trata de edifício medíocre ou desgracioso sequer – de lamentar apenas, repetimos, é que em vez de 2 ele não comporte 4 salas como parecia estar indicado para a categoria da Vila e estética local.
Para isso – façamos justiça – se bateu esforçada e insistentemente a Câmara junto de quem de direito, mas infelizmente sem resultados satisfatórios.

segunda-feira, janeiro 20, 2020

O prazer de fumar

Comecei a fumar a sério no meu segundo ano em Leiria quando completava o antigo sétimo ano. Na altura, o Rui Themido tinha ido para lá e um domingo convidou-me para irmos até a um café nas arcadas da Praça Rodrigues Lobo. Ali, estivemos toda a tarde e, a certa altura, ele puxou de um maço e ofereceu-me um cigarro.
- Toma. Fuma um cigarro…
Bebemos o café e, depois do primeiro cigarro, ofereceu-me outro e disse-me:
- Agora, engole o fumo.
Lá tentei e confesso que não me saí muito mal, pois não desatei a tossir como muitas vezes via acontecer com os novos dependentes do hábito. Passámos a tarde inteira na conversa e confesso que gostei da sensação que o tabaco me tinha transmitido.
No dia seguinte, comprei o meu primeiro maço de tabaco e, a partir de então começou uma viagem maravilhosa pelos prazeres da nicotina.
Gostava especialmente dos cigarros após as refeições e o primeiro da manhã tinha um sabor especial. Mas o ritual associado ao tabaco era outra coisa.
Conduzir um automóvel com o cotovelo sobre a janela e um cigarro na mão enquanto olhava desprezivelmente os que caminhavam a pé…
Enfrentar um novo problema, mas, antes disso, puxar do cigarro e iniciar um profundo processo de concentração…
Também gostava de observar os outros quando fumavam. O jogo do King era particularmente elucidativo nesse aspeto. Por exemplo, o Kansas, quando estava atrapalhado, aspirava profundamente o cigarro e depois soprava longamente. Era um notável fumador, um fumador que eu admirava pois conseguia fazer rodelas de fumo que evoluíam no ar com significativo encanto quando expulsava o que tinha nos pulmões.
Nunca consegui fazer essas rodelas de fumo e o malvado do Kansas nunca me ensinou talvez para me irritar durante o jogo. Mas eu ficava fascinado com as mesmas.
Bom, um dia o prazer do tabaco teve de terminar. Um médico, aos 28 anos, disse-me:
- Ou o meu amigo para ou…
E eu preferi parar. Mas ainda recordo com saudade aqueles processos de profunda concentração que o tabaco me proporcionava e sinto, garanto que sinto, a falta dele…

quinta-feira, janeiro 16, 2020

Oh! O rapaz vai nu...

Um dia, a rapaziada decidiu ir tomar banho para o rio. No Avenida, a Luzinha e as outras meninas assistiram aos preparativos de qualquer coisa embora não conseguissem perceber o quê.
- O que é que eles andam a preparar? Isto é muito esquisito. Não levam gira-discos e, há mais de uma semana que não vamos aos Castelos…
A verdade é que elas não conseguiram saber de nada, os rapazes pareciam múmias e a Luzinha resolveu segui-los... tinha uma bicicleta, o importante era não os perder de vista.
Saíram de Ourém e ali, na Corredoura, viraram à esquerda, aproximando-se da ponte.
Sabe-se agora que faziam muitas vezes aquele percurso, depois saiam da estrada e subiam ou desciam ao longo do rio conforme lhes desse.
No rio, uma miúda tentava apanhar peixe com um cesto, mexendo-se desalmadamente de um lado para o outro.
- É a fulaninha dos Castelos. Anda quase sempre ali, depois vai vender o peixe para o mercado. Não fala a ninguém, é uma importante...
Continuaram na direção da Melroeira, sem saberem que a Luzinha os seguia. A certa altura, pararam e ela escondeu-se atrás de uma árvore para os ver. Viu-os despir-se e, quando se atiraram à água, o seu rosto tinha um sorriso malicioso.
“Nem sabem o que os espera”.
Enquanto se divertiam na água, ela aproximou-se sorrateiramente das roupas e fugiu com elas na direção de Ourém transportando-as na bicicleta.
Pelo caminho, ainda recordava o cheiro que muitas daquelas roupas exalavam.
”Rapaz de Ourém cheira a cavalo ou a cabresto...” – pensava.
Imaginam os meus amigos como os miúdos oureenses se sentiram quando viram que lhes tinham roubado as roupas e se aperceberam que tinham de regressar em pelo até casa. Voltaram à ponte, daí passaram para o outro lado e caminharam tentando esconder-se entre as árvores.
Duma janela, a tia Alice chegou a dizer:
- Oh! O rapaz vai nu...
Ninguém lhe ligou, pensaram que era um caso de senilidade, mas a verdade é que a travessia do largo da igreja e o regresso a casa daqueles meninos, perante o espanto dos frequentadores do Central e dos que atravessavam a avenida, foi nas condições descritas. Mais descansados ficaram quando, à porta de casa, depararam com as suas roupas cuidadosamente dobradas.
A partir de então, aquela ponte por onde passaram ficou conhecida como “A ponte dos desnudados”, mas, até à data, nunca ninguém soube quem tinha levado a roupa dos miúdos…

segunda-feira, janeiro 13, 2020

O sequestro do leão bébé

Mal saiam de casa, o João e a Luzinha passeavam em frente ao circo para se deliciarem a ver os animais. O João, entretanto, ia conhecendo algumas das artistas e, por vezes, falava com elas. Um dia, teve uma novidade fantástica para a Luzinha:
- Sabes? A Leoa Elsa teve leõezinhos. Já andam e as meninas do circo permitem que nós lá vamos vê-los…
- Vamos – gritou a Luzinha toda excitada.
Foi um passo a sua caminhada até ao circo. Uma das meninas já os esperava e apresentou-os ao domador.
- São o João e a Luzinha, dois jovens muito simpáticos desta vila. O João permite que nós tomemos banho no tanque da casa deles. Amanhã à tarde já lá vamos, eu convidei-os para virem ver os leões bebé.
- Venham comigo – disse o domador – Eu devo estar presente para a leoa não se enervar…
Foram por ali dentro e, pouco depois, um espetáculo maravilhoso ficou perante os seus olhos. Uma leoa amamentava três filhotes que mais pareciam uns gatos. A Luzinha ficou extasiada. À saída, depois de agradecerem, ela disse:
- João, eu quero um bichinho daqueles…
- O quê? Não sejas louca…
- Já disse. Quero um daqueles leões. Vou criá-lo com todo o amor. Já te imaginaste a levá-lo de trela até ao Avenida? Depois, quando crescer, é a melhor proteção que poderemos ter…
O João tentou demovê-la, mas não conseguiu. E ficou numa situação difícil. Ele adorava aquela irmã, gostava de lhe fazer as vontades todas e, mais uma vez, não a poderia desiludir.
- Irmãzinha, eu vou fazer o que puder para satisfazer o teu desejo…
Nos dias seguintes, houve grande confraternização do João com três meninas do circo. Ele convidara-as para tomar banho no tanque e divertiam-se muito na água com vários jogos. Pouco a pouco, uma das miúdas ia-se sentindo cada vez mais atraída pelo João. Passavam muitas horas juntos e chegavam a passear-se de mão dada. Um dia, ele resolveu avançar.
- Ouve, Leontina. Tens de me ajudar a ficar com um daqueles leões.
A pequena ao princípio recusou, mas, depois, cedeu à pressão do João.
- Farei o que me for possível.
Ninguém sabe como o conseguiu. O certo é que, um dia, disfarçado dentro de um cesto que vinha tapado, a pequena entregou um dos leões ao João.
- Aqui tens. Agora, não me denuncies senão eles expulsam-me do circo…
- Está descansada…
A Luzinha ficou encantada quando o João chegou junto dela com o filhote da Elsa…
- João… como conseguiste?
- Nem eu sei. O que interessa é que tens o teu leãozinho. Agora temos de o manter escondido até o circo se ir embora…
No circo, houve intensa discussão quando se soube que o leão tinha desaparecido. O domador foi despedido e acusado de fazer tráfico de animais selvagens quando lhe foi descoberto na mesa de cabeceira uma carteira cheia de notas de mil que o desgraçado tinha poupado ao longo de anos de trabalho. A menina que ajudara o João ocupou o lugar dele, passando ela a ser a principal estrela nos números com as feras.
E um dia o circo foi-se embora. O João e a Luzinha respiraram de alívio e começaram a levar o leão a passear, fazendo-o adaptar-se aos hábitos dos humanos.
Mas um dia os dois irmãos tiveram uma notícia muito triste. A página principal do Diário de Notícias informava que a domadora do Circo “Ordem Nova” tinha sido devorada pela leoa Elsa quando fazia um número com ela frente aos espetadores.
A Luzinha ficou muito comovida.
- João, não aguento isto. A Leontina morta, o domador despedido, é muito injusto. Temos de devolver o leão. Além disso, está a ficar muito grande e parece-me feroz. Qualquer dia, não conseguimos conviver com ele.
E o João teve de arranjar uma desculpa para a devolução do leão e para a sua presença na sua casa em Ourém.
- Ele estava escondido numa gruta… jejejejjejjejjjej.
As pessoas do circo aceitaram as suas razões e o caso acabou por ser esquecido. Mas consta que, por causa deste episódio, a Luzinha garante que nunca viu um circo em Ourém, apesar de este ter estado mesmo frente ao muro do seu quintal…

quinta-feira, janeiro 09, 2020

O abraço do macaco

O circo chegou a Ourém e começou de imediato a montagem junto à escola da Dona Iria. Passávamos por ali e víamos artistas e animais. Estes estavam em jaulas e alguns deles tinham um aspecto bastante agressivo designadamente os leões e os tigres. Mais para a esquerda, um conjunto de macacos numa jaula maior fazia as delícias do pessoal pendurando-se no cimo da jaula e fazendo as acrobacias mais incríveis.
Numa tarde, um dos guardadores dos animais teve uma distração ao levar-lhes comida, ele esqueceu-se de fechar a porta dos macacos e alguns deles aproveitaram para sair e dar uma volta pela vila.
A notícia correu célere:
- Os animais do circo fugiram e andam por aí…
Foi o terror. Ninguém se lembrou de dizer quais os animais que tinham fugido e as pessoas associaram imediatamente a canção do Roberto Carlos: “Um leão anda à solta pelas ruas / por descuido do seu domador / não mais terá problemas de alimentação / se ele encontra o meu broto por aí/…”.
Assim, toda a gente se fechou em casa, enquanto o pessoal do circo procurava os macacos por todo o lado.  Dos três que tinham fugido, um foi encontrado a comer bananas na loja do sr. Moreira e outro quando se sentou numa cadeira no café Central, provavelmente à espera de tomar um café.
Restava descobrir onde estava o terceiro macaco. Que estranha coisa teria acontecido para não o conseguirem apanhar?


***
Alta noite, a porta da casa do Dr. Preto abriu-se e uma bicicleta saiu para o exterior. Um vulto todo coberto por uma capa negra, levando uma carga estranha num saco, montou a bicicleta e partiu pedalando resolutamente. Desceu à Avenida, virou à esquerda, fez rapidamente o percurso até à casa do Zé Canoa e, aí, virou na direção do Vale Travesso.
Ao passar junto ao Fernão Lopes, parou e retirou a carga de cima da bicicleta. Acto contínuo, levou-a até à entrada do Colégio e dirigiu-se à sala de aula mais à esquerda conseguindo abrir a janela com um simples movimento, libertando-a então do saco que a embrulhava. Tratava-se do terceiro macaco. A pessoa em causa colocou a carga no interior da sala, fechou a janela e voltou pela estrada que tinha tomado. Liberto da carga, um ligeiro movimento, tornou possível descortinar do que se tratava. Era um rapaz já bastante famoso em Ourém pelos terríveis desmandos que ali provocava: o famoso João Passarinho…
No dia seguinte, pela manhã, o João foi o primeiro aluno a chegar às aulas. Foi aguardando junto à sala de aula, pensando no cagaço que ia pregar a alguém. As portas da sala estavam fechadas e os alunos esperavam no corredor que o sr. Nunes as abrisse e o professor permitisse a sua entrada para se sentarem.
E chegou o momento do início da aula.
No seu andar sincronizado, o sr. Nunes chegou junto da porta da sala e fez rodar a chave.
- As meninas podem entrar… - disse naquele tom que fazia lembrar o anúncio do Ferrero Rocher.
A Ciete era a menina que estava à frente. Sempre voluntariosa, não queria perder pitada da aula e, por isso, ganhava logo vantagem a sentar-se, abrir os cadernos e pegar no equipamento de escrita.
O problema é que, mal entrou na sala, deu um grito:
- Que horror!!! Está aqui um bicho…
O macaco ainda ficou com mais medo. Deu um salto e saltou-lhe para o colo procurando refúgio naquela menina, aterrorizado com a avalanche de gente que se avizinhava. A Ciete estava apavorada, não sabia o que fazer, pois as colegas, por trás, empurravam-na, mas ela queria recuar e não conseguia.
- Deve ser o macaco que fugiu do circo – dizia a Gracelinda toda valente.
Lá atrás, o João ria que nem um perdido enquanto os outros rapazes tentavam compreender o que se passava.
Mas o macaco era mesmo um doce. Agarrou-se à Ciete, encostou a cabecita à dela e deitou-lhe os braços ao pescoço, pedindo-lhe proteção. Ela não conseguiu recusar…
Num instante a situação acalmou e, nesse dia, a aula não se realizou, porque uma embaixada do CFL foi devolver o macaquito ao circo. O João, como sempre, escapou mais uma vez ao castigo por um crime gravíssimo…
Nunca ninguém descobriu como o macaco tinha ido parar à sala de aula. As janelas eram rigorosamente fechadas quando acabava a última aula e as portas ao fim do dia, assim era muito estranho o facto de ele se ter metido na sala, admitindo-se que se tenha escondido debaixo de uma carteira depois de a última aula ter terminado. Por isso, ninguém suspeitou do João que, passeando pelo jardim da casa do avô, viu o macaco saltar para o interior do mesmo e idealizou de imediato uma maldade para os colegas do Fernão Lopes. Depois de o ter apanhado, sorrateiramente, voltou ao colégio, entrou na sala de aula depois de a última se ter realizado e deu um ligeiro toque no fecho da janela de forma a poder manejá-lo durante a noite a partir do exterior. Um cérebro brilhante, mas sempre malvado…

quarta-feira, janeiro 08, 2020

Bombardeamento no parque

Quando o parque de Ourém, por trás da Câmara, foi inaugurado, o pessoal da minha geração começou desde logo a desfrutar dele dada a facilidade de acesso.
Recordo umas belas mesas que nos serviam lindamente para o King situadas mais ou menos a meio do parque. Recordo também outras mesas, situadas um pouco mais acima à direita que podiam ser utilizadas com a mesma funcionalidade.
Encanto dos encantos, a estradinha em terra batida que me levava de minha casa até lá permitia o convívio com uma árvore que dava ginjas que eu aproveitava para recolher e devorar.

***

Um dia, um pequeno grupo estava neste último local a reouvir os últimos discos chegados ao grupo. O Jó Rodrigues levara o gira-discos, o magnífico som ouvia-se por entre as árvores: os Who, os Fourtops, o Spencer Davies Group, os Small Faces… tudo por ali passava numa tarde…
De repente, algo diferente de música chamou a nossa atenção, um ruído brusco de algo que caiu, depois outro e logo outro…
- Que será isto?
Uma pedra caiu muito perto de nós…
Olhámos na direção de onde parecia ter partido e, a mais de 100 metros, vimos uma figura conhecida. Era uma pessoa de Ourém, pouco mais velha que nós, que vulgarmente não nos acompanhava. Não fazia parte do grupo.
- O Lélito…
Ele atirou mais umas pedras que não nos acertaram e, ao fim de algum tempo, desistiu e foi-se.
Nunca percebemos o que o moveu a fazer aquilo. Nada havia contra ele, mas efetivamente não era dos nossos. As irmãs, mais da nossa idade, também nunca se aproximaram. Sentir-se-ia excluído?
Acho que acabámos por esquecer tudo e nunca o pusemos perante a sua ação. Mas confesso que por vezes ainda tenho a sensação das pedras a passarem muito por perto…

terça-feira, janeiro 07, 2020

Leis e princípios inexoráveis

... demonstrados empiricamente:



"A apólice de seguro cobre tudo, menos o que aconteceu." (Lei de Nonti Pagam).

"Quando estiveres só com uma mão livre para abrir a porta, a chave estará no bolso oposto." (Lei de Assimetria, de Laka Gamos).

"Quando suas mãos estiverem sujas de gordura, vai começar a ter comichão, pelo menos, no nariz." (Lei de mecânica de Tukulito Tepyka).

"Não importa por que lado seja aberta a caixa de um medicamento. O papel das instruções vai sempre atrapalhar." (Princípio de Aspirinovisk).

"Quando achas que as coisas começam a melhorar, é sinal de que algo te passou despercebido." (Primeiro teorema de Tamus Ferradus)

"Sempre que as coisas te parecem fáceis, é porque não entendeste todas as instruções." (Princípio de Atrop Lado)

“Os problemas não se criam, nem se resolvem, só se transformam." (Lei da persistência de Waiterc Pastar)

" Quando correres para o telefone, vais chegar exactamente a tempo de ouvir que desligam." (Principio de Ring A. Bell)

"Se só existirem dois programas de TV que valha a pena ver, os dois passarão certamente à mesma hora." (Lei de Putz Kiparil)

"A probabilidade de que te sujes a comer é directamente proporcional à necessidade que tiveres de estar limpo." (Lei de Kika Gadha)

"A velocidade do vento é directamente proporcional ao esmero do penteado." (Lei Meteorológica Pagá Barbero )

"Quando, depois de anos sem a usares, decides atirar alguma coisa fora, vais precisar dela logo na semana seguinte." (Lei irreversível de Kitonto Kifostes)

"Sempre que chegares pontualmente a um encontro, não haverá ninguém lá para o comprovar, e se ao contrário, te atrasares, toda a gente terá chegado antes de ti."(Princípio de Tardelli e Esgrande La de Mora)

segunda-feira, janeiro 06, 2020

Receção de honra às heroínas do Exército Vermelho


Num instante reanimaram a Ciete que, olhando o indivíduo que chegara, afirmou:
- Tirem-me essa horrorosa criatura da frente. Foi ele quem nos atirou para isto.
- Perdoem-me – respondeu o indivíduo com a usual delicadeza. - Houve uma grande confusão dos serviços de defesa da revolução. Vocês deviam ser consideradas heroínas do Exército Vermelho e foram parar à prisão por a informação ser mal veiculada…
- Heroínas… mas porquê?
- Sou um agente dos serviços secretos da RPC e andava a investigar a atividade de uma célula que queria criar uma rede anticomunista em Hong-Kong. Infiltrámos um dos nossos na rede e simulámos o envio de armas e propaganda para os locais. O casino de Macau é um local excelente para, entre os que perdem, descobrirmos papalvos que se disponibilizem ao tipo de missão que vos foi atribuída… A missão foi um sucesso, conseguimos desmantelar toda a rede, temos mais de trinta indivíduos presos…
- Que horror!...
- É assim. Não deviam resistir ao inexorável avanço da História.
- E agora? Que nos vai acontecer?
- Vão ser tratadas como rainhas. Depois, quando a situação acalmar, poderão voltar a Macau e regressar à vossa vida. Já agora podemos apresentar-nos… Eu chamo-me Johnny Little Bird, sou de origem portuguesa, mas, depois de passar una anos em Inglaterra, naturalizei-me e mudei de nome. As minhas convicções ideológicas sempre me aproximaram muito da RPC e estabeleci-me em Macau para a apoiar nesta fase importante da História da Humanidade.
Nesse momento, o comandante do posto da Guarda da Revolução informou:
- Está na hora de almoçarmos. As duas gentis damas que tão alto serviço prestaram à nossa democracia popular estão convidadas. Vou mostrar-lhes as futuras instalações onde poderão tomar banho e vestir novas roupas que vão escolher de um lote que eu tomei a liberdade de mandar vir de um dos melhores costureiros da nossa terra.
Algum tempo depois, a Céu e a Ciete foram conduzidas ao local onde se realizava o almoço de gala. A Céu ficou sentada ao lado de Johnny Little Bird e a Ciete ao lado do comandante do posto. Começaram por brindar aos êxitos da Revolução e, pouco depois, começaram a chegar travessas muito bem cheirosas e melhor apresentadas.
A Céu serviu-se e o seu prato ficou com excelente aspeto.
«Isto começa a correr bem…» - pensou consigo própria, enquanto tentava olhar a cara da irmã.
- Tem excelente aspeto este assado. De que se trata? – perguntou.
- Cão assado no forno com batatas e grelos – respondeu o comandante – Utilizamos sempre cães das melhores raças criados livremente nos nossos campos onde podem correr e divertir-se.
A Céu e a Ciete sentiram um baque no peito. Cão assado no forno… como é que elas iriam comer aquilo? Mas não podiam ser deselegantes, senão nunca mais as libertavam. Desforraram-se nas batatinhas e grelos e muita carne puseram de lado.
- Não está a gostar? – perguntou Johnny.
- Não é isso… converti-me à alimentação Vegan.
- Vocês arranjam cada mania lá pelo Ocidente. Não há nada que substitua a proteína animal saudável.
Depois de uma sobremesa à base de gelatina de cascavel, o comandante ergueu a sua taça e fez um brinde às duas manas, enquanto lhes estendia com a mão livre um pequeno livro vermelho.
- Ergo a minha taça em honra de quem tão bem serviu os interesses da República Popular da China. Ainda não partiram e já sentimos a vossa falta. Aqui vos deixo este pequeno livro para saberem mais acerca dos princípios que nos orientam. A nossa fonte é a doutrina de Karl Marx, mas não se preocupem a ler os calhamaços todos que ele publicou e que, possivelmente, estarão desatualizados. Neste livro encontram os grandes ensinamentos do presidente Mao em pouco mais de cem páginas. Leem-nos em duas horas e ficam logo a saber tudo o que é preciso saber para ser feliz na nossa democracia.
Corresponderam ao brinde e aceitaram delicadamente a oferta…
Nos dias que se seguiram, encheram-nas de honras. Elas sentiram-se como verdadeiras princesas na China Comunista. Levaram-nas a ver e percorrer parte da Grande Muralha nos circuitos reservados aos dirigentes. Atribuíram-lhes instalações fabulosas e elas acabaram por considerar que a estadia estava a ser ótima… e que até não se importavam de repetir a ida ao casino de Macau onde tudo começara.
Alguns dias depois, Little Bird veio falar com elas:
- A situação acalmou muito. Já podem sair em segurança. Não sei se querem passar mais alguns dias em HK.
- Temos de voltar. Não temos dinheiro connosco.
- Mas têm cheques?
- Sim – disse a Céu – Trago sempre comigo…
- Vou-vos propor um belo investimento: entregam-me um cheque ao portador de 50000 euros e eu arranjo-vos o correspondente em Yuan Chinês para poderem comprar recordações, as vossas viagens de regresso e o que mais entenderem… caso contrário, não encontrarão aqui qualquer possibilidade de câmbio

A Céu passou o cheque à ordem do Banco Nacional Ultramarino e passado um bocado, Little Bird voltou com uma mala preta cheia de notas.



- Pronto, têm aqui 40000 yuan chineses. Já vos marquei um hotel para prosseguirem a estadia e lá têm um cofre onde podem guardar o dinheiro. Depois, quando quiserem, compram as passagens e regressam a Macau.
- Acha que o vamos encontrar lá em Macau?
- É pouco provável. Nestas aventuras, há sempre quem nos reconheça ou saiba algo de nós. Acho que vou para outra região da China Popular.
- Então nunca mais nos encontraremos…
- Possívelmente, não. Talvez um dia, lá para Março, eu volte a Ourém…
- Será muito bem recebido no nosso Castelo.
Passaram mais alguns dias, e as duas irmãs notaram que o dinheiro se esvaia muito depressa em Hong Kong pelo que resolveram voltar a Macau.
Já ali, a Céu disse:
- É esquisito, o dinheiro chinês esgotou-se num instante. Pouco comprámos e num instante sumiram-se 50000 euros.
A Ciete pegou num jornal e começou a consultar a página de câmbios. Passado algum tempo, fez umas contas e disse, quase a chorar:
- Ceuzinha, o malvado do Johnny enganou-nos outra vez. Cada Yuan vale mais ou menos 13 cêntimos. Ele devia-nos ter dado 400000 e não apenas quarenta mil. Roubou-nos perto de 45000 euros.
- O bandido! O crápula… e eu a convidá-lo para a minha casa no Castelo…



FIM

sexta-feira, janeiro 03, 2020

O valor de uma notícia

Passados dois dias, o jornal “South China Morning Post” trazia uma notícia, «Desmantelada célula de conspiração contra a Revolução», sobre o que se tinha passado em Hong-Kong acompanhado da foto de duas ocidentais.
Em Macau, um individuo que parecia passear com a esposa, viu a capa do jornal e adquiriu-o imediatamente.
«Mas o que é isto? Não está de acordo com o combinado. Tenho de ir a Hong Kong».

***

No terceiro dia da sua prisão em Hong Kong, as duas irmãs estavam completamente desesperadas.
- O que vai ser de nós? Ninguém sabe que aqui estamos presas…
E continuaram a chorar toda a manhã olhadas pelas outras mulheres com um certo desdém. Entretanto, a prisão estava cada vez mais cheia de pessoas que parecia conhecerem-se umas às outras. Dir-se-ia que a prisão delas tinha levado à prisão de muitas outras pessoas.
- É estranho. Parece que a nossa chegada desencadeou tudo isto.
Nunca mais tinham falado com o indivíduo que as tinha esperado no cais, mas um dia viram-no passar bastante maltratado depois de ter estado a ser interrogado.
- São horríveis estes regimes – dizia a Ciete.
- Lembra-te que ele nos disse que havia uma conspiração contra o sistema. É uma luta de morte e estes indivíduos não são nada meigos.
- Nada justifica que as pessoas tratem assim o seu semelhante. E para quê? No fundo, o povo vive miseravelmente, o que há é igualdade na miséria. É tudo muito semelhante ao que um dia designaram por «Modo de produção asiático»: tudo escravo, tudo na miséria e uma casta cheia de direitos e riqueza a mexer os cordelinhos.
- Ena. Leste muito sobre isto…
A porta da cela abriu-se e um guarda fez-lhes sinal para o seguirem. Entretanto, na rua, parecia ouvir-se gritos de pessoas a clamarem…
Foram de novo levadas à presença do responsável pelo local de detenção que as recebeu com um sorriso amarelo. A seu lado estava o intérprete que fez a tradução das suas primeiras palavras:
- As nossas desculpas pelo mal-entendido em que estiveram metidas. Só agora percebemos que foram uma peça importante para deter elementos que conspiravam contra o sistema.
- Como? – perguntou a Céu sem perceber nada.
- Mais uma vez, aceitem as desculpas em nome do Governo da República Popular da China. Devíamos libertá-las imediatamente, mas não podemos: há uma manifestação contra os rebeldes e, se saírem agora em liberdade, podem confundi-las com eles uma vez que a imprensa publicou as vossas fotos. Têm de esperar que a situação acalme. Mas vamos mudá-las de instalações e dar-vos outro tratamento até poderem sair.
- Isso é que é falar – disse a Ciete – Mas a quem se deve esta mudança?
- Àquele… - disse o intérprete apontando para a porta que se abria.
Nesse momento apareceu perante elas, sorridente, a imagem do cavalheiro que as tinha conduzido àquela situação em Macau.
- Ohhhh!!!!! – exclamou a Ciete, caindo no chão sem consciência.

quinta-feira, janeiro 02, 2020

Visitas inesperadas na véspera de Natal

Os pais da Gracelinda ficaram tão felizes com o abandono da vida religiosa por parte dela que acabaram por concordar em não abater os dois cabritinhos e em mantê-los como animal de companhia. Ela chegava a passeá-los de trela como se de cachorros se tratassem e todos se deliciavam a vê-los aos saltinhos.
A véspera de Natal chegou e a família Marques começou a preparar os doces para a consoada. A Gracelinda estava toda entusiasmada na preparação da massa para os sonhos e preparava-se para a pôr a levedar quando, de repente, sentiram uma travagem brusca à porta de casa…
E alguém bateu à porta…
Gracelinda e mãe olharam uma para a outra com um certo receio.
- Deve ser alguém a trazer-nos filhoses…
A mãe foi abrir e ficou paralisada, estupefacta. A pequena viu-a assim e foi espreitar. Ficou gelada…
Na sua frente, estava a madre superiora, mais uma freira, acompanhadas por dois agentes da Guarda Republicana de Ourém.
- É ela! – vociferou a madre superiora – Prendam-na! Fugiu do convento e roubou-nos dois cabritos…
Os guardas avançaram, mas a mãe deteve-os.
- Parem. Ela é uma menor, não podem fazer-lhe nada…
- Minha senhora, há uma queixa contra a menina.
- O meu marido tratará de tudo…
Rapidamente, telefonou para o marido a quem expôs a situação. Mas a madre não se conformava:
- Ela esteve a comer da nossa alimentação durante quase um mês e não pagou um tostão.
- Mentira! – gritou a Gracelinda – Eu é que preparava as refeições para todas as irmãs. Nunca me pagaram um tostão. Exploravam o meu trabalho, não rezava, não conseguia ler nada. A vossa formação é uma fraude.
- Gracelinda, Deus manda que…
- Não, não. Vocês são umas cínicas, não as quero ver mais.
Pouco depois, o sr. Marques chegava a casa carregado de embrulhos e uma tábua com um leitão acabado de assar a cheirar maravilhosamente.
- Irmã Clotilde, lamento muito tudo o que se passou com a minha filha e apresento as maiores desculpas. A Gracelinda não irá mais para o convento. Para a compensar de qualquer prejuízo que ela tenha causado aqui tem um belo leitão assado pelo Guerra, dois cabritos já devidamente preparados para cozinhar e um perú da melhor criadora de Ourém. Se acha que temos de pagar alguma coisa pela estadia da Gracelinda no convento, por favor, diga…
A madre superiora ficou bastante admirada. Não esperava uma reação daquelas e a oferta era extremamente interessante.
- Além disso, tem aqui mais dois bolos rei dos melhores que se fabricam em Ourém.
- Bom – disse a religiosa – É claro que eu não queria prender a menina. Mas ela tem de ser mais educada, é tão rebelde…
E partiu, levando as ofertas, acompanhada pela outra freira e os guardas da GNR. A Gracelinda ficou toda feliz a passar o Natal com os pais e os cabritinhos. Nunca se lembrou que, para salvar aqueles dois, tinham sido abatidos quatro outros bicharocos. Mas creio que, anos mais tarde, veio a pôr em causa a sua forma de alimentação.

terça-feira, dezembro 31, 2019

Prisioneiras da Guarda da Revolução


A primeira noite numa prisão chinesa foi horrível para as duas manas. Cercadas por mais de quinze presos do género feminino numa cela sem as menores condições tinham um catre estreitíssimo para se deitar e um misero cobertor para se cobrir. Passaram a noite a chorar sempre olhadas com estranheza por uma série de mulheres de raça amarela. A língua era um problema enorme e fazia com não se conseguissem entender com mais nenhum preso. Na cela ao lado, ainda em piores condições, estavam os homens e passaram a noite a ouvir aquelas cuspidelas horrorosas que as enojavam.
Pela manhã, foram chamadas ao comandante da Guarda da Revolução o qual se rodeou de um intérprete que falava inglês e foi nesta língua que o diálogo se desenvolveu:
- Quem é o vosso chefe?
A Céu, mais resoluta, tentou contar a história do casino e o estranho contacto com um cavalheiro que lhes pediu para trazer os barcos com uma encomenda cujo conteúdo desconheciam.
Ao ter conhecimento da resposta da jovem, o oficial chinês ficou bastante irritado.
- Ele diz que vocês estão a mentir, a gozar com o povo chinês – disse o intérprete. – Se não falarem ficam na prisão toda a vida.
As duas irmãs desataram a chorar e, mais uma vez, garantiram que estavam a dizer toda a verdade. Foram forçadas a regressar à cela e, pouco depois, foram conduzidas ao refeitório da prisão para almoçar.
Era um recinto enorme que já estava cheio de pessoas andrajosas e terrivelmente tristes. Um guarda indicou-lhes dois lugares junto a outras reclusas. Repararam que tinham uma pulseira com um número igual ao que estava no lugar que iam ocupar.
Um conjunto de homens, na sua maioria chineses, foi trazendo a comida para as mesas. Um deles que parecia ocidental trouxe uma travessa com arroz, legumes cozinhados e uns fritos esquisitos. A Céu perguntou em inglês:
- O que é isto?
O indivíduo com aspeto ocidental respondeu na mesma língua:
- Orelhas de macaco fritas.
- Que horror! – gritou a Ciete, levando as mãos à cara. – Não consigo comer isso.
- Prove, porque não é mau – respondeu o serviçal. – Ao jantar, são gafanhotos grelhados…
A Céu, mais decidida, perguntou ao guarda serviçal:
- Como podemos avisar as nossas famílias que estamos aqui presas?
- Enquanto não apurarem a verdade, não têm hipótese de contatar ninguém.
No fundo, as orelhas de macaco nem foram o pior da estória. As duas irmãs comeram conforme puderam e recolheram à cela onde se deitaram no catre a chorar convulsivamente.
- E agora? Que vai ser de nós aqui fechadas? – dizia a Céu.
- A culpa é toda tua com a mania dos ganhos em casinos.
- Nunca mais entro num local desses. Mas o importante era avisar alguém do nosso país. Talvez o professor Marcelo pudesse fazer alguma coisa…
- Achas? O mais provável era ir dar um abraço de consolação ao nosso paizinho e pregava-lhe um susto enorme…




Como veem, meus amigos, a eterna juventude da Céu e da Ciete acabou por as colocar numa situação delicada. Que fazer? Como conseguiria chegar às autoridades portuguesas o relato da sua situação?

segunda-feira, dezembro 30, 2019

O lado oculto dum convento

Quando atingiu os quinze anos, a Gracelinda começou a atravessar uma crise existencial: farta da materialidade da vida que levava em Ourém, ela pensava em encetar uma vida religiosa. À noite, os seus pensamentos centravam-se numa única visão: ela a viver em clausura com um terço nas mãos, rezando, rezando durante grande parte do dia e, no restante, lendo as principais obras da cultura cristã.
Um dia, comunicou aos pais o seu desejo. Estes ficaram tristes, preocupados:
- Andamos nós a criar uma filha para ela ir para freira… - dizia o pai. – Tinhas um futuro tão promissor lá no talho…
- Ó filha, e achas que nunca mais te vemos? – choramingava a mãe.
- Meus queridos pais, – respondia ela – vocês estarão sempre no meu coração. Claro que, de quando em quando, nos poderemos ver. A religião é uma forma de unir as pessoas e as famílias e não de as separar.
A verdade é que os pais não a conseguiram demover e, um dia, a Gracelinda entrou num convento em Coimbra. A sua primeira entrevista com a madre superiora foi marcante:
- Minha menina, – dizia a madre com um ar muito sério – tu vais ter de esquecer tudo o que é mundano, mas, ao mesmo tempo, a experiência que tens acumulada pode ser útil às nossas irmãs…
- Sim, madre Clotilde, pode contar inteiramente comigo.
- Sabemos qual é a atividade dos teus pais. Tens com certeza muita experiência do trabalho com carnes. Assim, fora dos teus deveres religiosos, vais ficar encarregue dos trabalhos de preparação das nossas refeições.
E a pobre pequena que queria rezar e ler viu-se a passar mais de seis horas diárias a preparar as refeições para as outras irmãs como se isso lhe desse a formação religiosa por que ansiava. Mais parecia a gata borralheira à ordem das cruéis irmãs do que uma noviça cinderela.
Um dia, na aproximação do Natal, a madre deu-lhe mais uma ordem:
- Ofereceram-nos dois cabritinhos para esta quadra e é importante começar a prepará-los. Como és a noviça mais recente, ficas encarregue de os abater e esfolar tal como os teus pais te ensinaram. Anda comigo e vou mostrar-te onde eles estão…
E lá foram direitas ao pátio onde num pequeno curral estavam os dois animaizinhos. A Gracelinda quase teve um ataque quando os viu.
«Que animais mais bonitos! Como vou conseguir matá-los?» - pensou a noviça.
Passou a noite a chorar.
«O que eu fiz! Este mundo é mais horroroso que o lá de fora! Só gente hipócrita…».
No dia seguinte, quando se levantou, depois de rezar mais de duas horas, dirigiu-se ao refeitório para tomar o pequeno almoço, mas a noite horrorosa que tinha passado tirou-lhe todo o apetite. Não conseguiu comer nada e deixou-se ficar sentada, olhando… simplesmente olhando…
A certa altura sentiu uma mão poisar-lhe nas costas. Era a madre superiora.
- Gracelinda, está na hora de matares e esfolares os cabritos.
E estendeu-lhe uma faca enorme. Não sei se a candidata a freira teve algum mau pensamento que a levasse a livrar-se da superiora, a verdade é que se levantou com um ar decidido, pegou na faca enorme e dirigiu-se ao quintal onde os cabritos brincavam.
Mais uma vez contemplou aqueles seres tão engraçados aos saltinhos e uma ideia formou-se imediatamente:
«Não! Não posso fazer isto… nem deixar que o façam…».
Levava a faca consigo, mas ela não foi utilizada naquilo que as irmãs queriam. Em vez disso, pegou nos dois cabritos, enfiou-os num saco de sarja e saiu do convento por uma porta lateral sem que as irmãs se apercebessem.
Num instante, chegou à estação de comboios e entrou numa carruagem com destino a Caxarias onde pediu a um táxi que a levasse até casa dos pais com a certeza de que estes não se recusariam a pagá-lo.
Quando a viram, os pais ficaram admiradíssimos.
- Gracelinda, que fazes aqui?
- Pai, o convento é horrível. Resolvi abandonar aquela vida. Acho que estava equivocada…
Só nessa altura, o pai reparou no saco que ela trazia que parecia mexer-se…
- Mas… o que é isso?
- São dois cabritos que trouxe do convento para…
- Maravilhoso, minha filha! Saíste do convento, abandonaste aquela vida horrorosa e trazes dois cabritinhos para o nosso almoço de Natal. Como estou feliz…



E agora? O pai da Gracelinda pensa que os cabritos são para a família, mas a intenção dela era libertá-los. Como é que vamos fazer avançar a estória?… E como vai reagir a madre superiora? Tenho a impressão de que a Gracelinda está metida num grande sarilho…

sexta-feira, dezembro 27, 2019

Uma aventura na Ásia


Houve um ano em que a Céu e a Ciete foram passar uma temporada a Macau. Para além de visitarem toda a região e deliciarem-se com a comida local, uma das coisas que mais as motivava era o jogo. Assim, em várias noites dirigiram-se ao casino local e, curiosamente, foram ganhando algum dinheiro. Nunca suspeitaram que os ganhos que estavam a ter eram provenientes de alguma intenção de as fazer voltar ao local.
A verdade é que houve uma noite em que as coisas correram mal, tendo elas feito uma aposta que não conseguiram pagar. Um cavalheiro pagou a dívida e elas comprometeram-se a fazer o que fosse necessário para o compensar.
No dia seguinte, encontraram-se e ele propôs:
- Preciso de enviar um carregamento para HK. A viagem será feita em dois barcos. Se vocês os conduzirem ninguém vos incomodará e eu poderei descansar relativamente ao não extravio das coisas.
As jovens aceitaram e, no dia seguinte, pela manhã, apresentaram-se no cais. O cavalheiro que as tinha ajudado vestia uma camisola azul da Burberry. Viram logo que se tratava de uma pessoa de fino trato acima de qualquer suspeita.
- Saem do terminal de ferry e, seguindo estas instruções, numa hora estarão no terminal de Hong Kong onde alguém as espera.
- E o que é que nós levamos? – perguntou a Céu sempre voluntariosa e cheia de curiosidade.
- Nada importante. Nada que vos interesse. O importante é pagarem a vossa dívida. Agora, tenho de tirar uma fotografia convosco para enviar ao contacto em HK e ele poder reconhecer-vos sem mais confusões.
- Uma fotografia? – perguntou a Céu – É para já. Até pode ser dentro do barco.
E elas lá partiram cada uma em seu barco, sempre ao lado uma da outra. De vez em quando a Ciete acenava para a Céu, mostrando-lhe quanto estava a gostar da aventura.
- Isto é que é vida.
- Vou filmar para publicar uma reportagem…
- A reportagem das nossas vidas…
À chegada a Hong Kong, viram imediatamente no cais um indivíduo a fazer-lhes sinais com um lenço vermelho.
- Lá está o nosso contacto…
Num instante, chegaram ao local onde eram aguardadas. O sujeito procurou a carga e começou a transportar para uma camioneta um conjunto de caixas nos mais diversos formatos. Nisto ouviu-se um apito e um conjunto de chineses armados da cabeça aos pés chegou junto do trio apontando-lhes as armas.
As duas irmãs ficaram aterrorizadas.
- Mas o que é isto?
O sujeito que as tinha esperado respondeu.
- Estamos perdidos. São os Guardas da Revolução.
- Mas nós não fizemos nada de mal.
- Fizeram, sim, sem o saber. Os barcos traziam armas e propaganda contra o regime. Andamos a organizar uma célula da resistência ao sistema comunista.
- E que nos vão fazer? Nós não sabíamos de nada…
- Vocês são ocidentais. É natural que pensem que participaram ativa e conscientemente nesta ação. Vão ficar presas o resto da vida se não vos fizerem pior…
-Ohhh! – gritou a Cietezinha levando a mão à cabeça. – Fomos enganadas…
E caiu no chão não dando mais acordo de si. Uns minutos depois, estavam numa carrinha celular a caminho da prisão. A Céu, com um leque, abanava junto à face da irmã. Esta começou a dar sinais de recuperar da comoção e, daí a pouco, sentou-se, ocupando um lugar na carrinha.


E agora? O que vai ser das duas irmãzinhas? Quem está a favor da prisão delas? Quem está contra? Como é que acham que a estória vai acabar? Será que me podem dar alguma sugestão para as tirar da prisão? Elas não podem ficar ali eternamente… Temos de as fazer voltar a Ourém?

E quem seria o sujeito da camisola Burberry que as contratou? O seu ar não me era estranho, mas não consigo recordar por mais esforços que faça...

Por favor, participem. Já que há orçamentos participativos, podemos também ter estorietas participativas. E estas com o nobre objetivo de libertar as duas irmãs.

quinta-feira, dezembro 26, 2019

Às do pedal

Olhem que linda prenda de Natal se podia ter há uns cinquenta anos. 
A energia exercia-se no pedal e era sustentada pela força de cada um. Nem a jovem Greta se atreveria a contestar a sua bondade.
Apesar de conduzir tão distinto objecto, fazia-o por especial deferência do Rui, o proprietário legal do NI-11-71. 
Hoje, olho para a foto como se tivesse sido meu. É que a sua importância reside nos momentos que proporcionou e na magnífica partilha de que foi alvo.

terça-feira, dezembro 24, 2019

Coração de oiro

Tinha 7 ou 8 anos. Ainda há pouco iniciara a leitura da fabulosa BD do meu tempo.
A Dona Alzira habitava o rés-do-chão do mesmo prédio onde vivia a tia Elvira. Explorava um estabelecimento de venda de fruta e hortaliça junto à Praça dos Carros.
Na casa dos tios, o Natal já se anunciava: nas conversas, nas ofertas, nos bolos, naquela massa que levedava junto ao fogão e que iria dar origem aos balharotes.
Eu participava interessado naquela confusão: o que é que eles me vão dar?
Às vezes batiam à porta:”é um cabritinho para o sr. Abel”. (maravilhosa Ourém em que o Natal se celebrava com estas ofertas e me deu a conhecer tão excelente sabor fruto do trabalho das suas gentes).
Eu observava todo aquele movimento. O Inverno era frio, não apetecia nada ir para a rua.
Ouve-se uma voz:
- Posso entrar?
Era a Dona Alzira. Trazia uma pequena embalagem na mão em papel de Natal.
- Quer um bolo, Dona Alzira?
- Não, obrigada, venho trazer isto para o menino.
- Luís, agradece à Dona Alzira.
O meu coração bateu apressado. Uma oferta para mim? Fiquei extasiado. Nunca ninguém que não fosse familiar se tinha lembrado de me oferecer qualquer coisa.
- Posso abrir?
- Claro, depois põe na árvore.
Ela observava com carinho a minha excitação.
Abri com tudo o cuidado e perante os meus olhos apareceram dois belos livros de histórias, provenientes directamente do Central, capa bem colorida, novinhos em folha. E, ainda nessa noite, conheci as magníficas aventuras do Roy Rogers e do Trigger...

segunda-feira, dezembro 23, 2019

O tio de Lisboa

O tio João viveu em Lisboa durante a maior parte da sua vida profissional.
O seu afastamento e a noção que tínhamos da capital onde de tudo existia para satisfazer as necessidades de consumo conferiram-lhe uma imagem de sujeito mais rico e importante que, na verdade, contrastava com a sua bondade e a sua afabilidade.
Ainda me lembro da sua chegada, um dia, à casa do Largo de Castela.
- É o tio de Lisboa...
E foi uma festa enquanto esteve connosco.
Houve um ano que tive o privilégio de vir passar uns dias de férias à sua casa de Lisboa. Cheio de paciência, ele trouxe-me no comboio e, depois, a viagem de eléctrico para a Morais Soares foi quase mitológica.
A estadia permitiu-me conhecer alguns cinemas da capital (o Imperial, ainda muito novo, o Max...) a feita popular e as casas de alfarrabistas onde a oferta de livros usados da nossa época era uma atração inigualável, permitindo-me constituir um bom espólio, infelizmente já desaparecido.
Como todo o bom oureense, o tio de Lisboa adorava o nosso palhete e, mal se reformou, veio para a santa terrinha.

***



Era mais um Natal, talvez uma véspera. A família já estava em Fátima. Fazia mil tropelias ao sobrinhito que, com dois ou três anos, já queria abrir as prendas.
Bateram à porta.
- Era a polícia. O tio João foi atropelado por um motociclista quando regressava a casa a pé. Ainda o levaram para Lisboa, mas não resistiu...

sexta-feira, dezembro 20, 2019

Oração sobre a desigualdade social

Ourém, lá para 1954/55. 
Na casa do Largo de Castela, o frio já se fazia sentir, convidando a ficar à braseira, ouvindo o ronronar da gatinha bem perto. Sentia-se o aproximar do grande dia. E lá veio aquela voz que nunca me deixa.
- Á, mê menino, o que é que tu vais pedir ao pai Natal?
- Uma bicicleta.
- Não acredites que ele ta traga, não cabe na nossa chaminé. Não vês que é excessivamente larga?
- O Alvega tem lá bicicletas que eu já vi e cabem perfeitamente – rematei, sem perceber o sentido de “não cabe na nossa chaminé”.
Chegou a grande noite. Fui deitar-me excitado, desejando que a manhã chegasse rapidamente para ver se a almejada bicicleta chegava.
Já me estava a ver... subir a rua de Castela, descer direito à Avenida, percorrê-la em grande velocidade e fazer grande arraial frente ao Avenida. Depois, havia a polícia... “e se eles me chateiam por não ter carta?” (os polícias da minha juventude eram tramados, especialmente o Cunha que nos roubava as bolas de futebol todas...).
Voltas e voltas na cama à espera da manhã...
E o grande momento chegou. Lá desci ao rés-do-chão e fui direito à chaminé.
Moedas de chocolate, um jogo, um avião com elástico, mas, sinais da bicicleta, nada. Afinal, era verdade: a nossa chaminé era demasiado pequena para ela lá caber. Devia dar-me por feliz, aliás aquele avião que levantava voo com a ajuda de um elástico tinha a sua piada.
Mas passei uns tempos com algum ressentimento (fico sempre bastante ressentido quando não me fazem as vontades ou quando me enganam e eu conto com as coisas e elas não surgem). Porque é que uns tinham a bicicleta e outros não? Porque é que ainda éramos tão pequenos, ainda nada tínhamos produzido e já éramos em tudo tão desiguais?

quinta-feira, dezembro 19, 2019

Quando o circo chegava a Ourém

O Natal está à porta, por todo o lado se anunciam espectáculos que mobilizam as crianças. Nas empresas que ainda resistem procura-se reforçar a coesão entre as pessoas. O momento é marcado por apelos à paz, à bondade, por vezes, pela pedinchice suportada nas mais nobres causas...
Na televisão, surgem espectáculos de circos consagrados e outros fazem excelente negócio nas cidades mais importantes do país.
Noutro tempo, não era vulgar o circo chegar a Ourém pelo Natal. Era mais típico da Feira Nova. A verdade é que nunca consegui deixar de recordar aquela fabulosa cena do Vasquito e do Anhuka que acontecia sempre depois de tanto se fazer esperar enquanto a menina se exibia no trapézio ou aquela dama mais nutrida, deitada, com as pernas no ar fazia rodar objectos com as mais diversas formas.
Entrava o palhaço rico (Vasquito) e começava a dar música aos oureenses. Vestia roupa de seda (?) com lantejoulas, um barrete, pó de arroz na cara. Era irreconhecível. Os oureenses escutavam embevecidos...
De repente, era interrompido pelo palhaço pobre (Anhuka). Andrajoso, bola vermelha no nariz, calça arregaçada, pelos espetados nas pernas.
Trazia consigo um balde com água, uma cana, ostentando na ponta uma linha, um anzol e uma minhoca. Chegava, poisava o balde e enfiava lá a extremidade do seu instrumento de pesca improvisado.
Os oureenses riam, o rico tudo contemplava desconfiado. E resolveu saber do que se tratava:
- Tu estás a pescar?
- Não.
- Não estás a pescar!!!??...
- Não.
- Mas isso é uma cana...
- É.
- E isso é uma linha...
- É.
- E isto é um anzol...
- É.
- Então, se tu tens uma cana, uma linha e um anzol, estás a pescar...
- Não.
- Então o que estás a fazer?
- Estou a dar banho à minhoca...
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