sábado, fevereiro 08, 2020

Uma construção que se refaz

Em deslocação aqui pela Parede, notei uma estranha construção. Não eram só as pedras, mas também as duas cruzes que mal se distinguiam na parede e que só a fotografia me fez notar. Quase me senti o fotógrafo do «Blow-up». Para além disso, aquilo parecia um altar onde se poderão colocar oferendas.
Esta construção já está naquele local há alguns meses. Houve uma vez que as pedras não estavam empilhadas, sugerindo que tinham sido destruídas, mas, logo no dia seguinte, estava refeita.
Que coisa estranha é esta? O que pretende quem a mantem?
Procurei imagens semelhantes na NET e fui conduzido à civilização Inca e à palavra «apacheta».
Apachetas são altares em honra aos deuses incas.
Utilizando pedras encontradas pelo caminho ou nos espaços em que vivem, as pessoas vão empilhando uma em cima da outra, em formato cónico, para pedir e agradecer principalmente a Pachamama (Madre Tierra) e aos Apus (deuses das montanhas).
Pedir para que tenham proteção, para que tenham uma bela colheita, um bom ano...
Agradecer pela saúde, pela chuva, pela fartura, pelas estrelas, pelo sol, pelas riquezas da natureza...
As apachetas podem ser formadas por pedrinhas pequenas ou por pedronas. Algumas chegam a alcançar 3 metros de altura.
Um dos provérbios fundamentais dos guias peruanos diz-nos algo como isto:

Na vida há três caminhos: o certo, o errado e o do coração.
O certo nem sempre é o certo, o errado nem sempre é o errado, mas o do coração é sempre o do coração.
Portanto, segue o teu coração!

Posso não saber o que significam aquelas pedras tão perto de mim, mas posso garantir que o que é válido para os Incas também o pode ser para nós…

sexta-feira, fevereiro 07, 2020

A menina que colecionava lacraus

Conheci a Gracelinda ainda muito novinha no CFL. Curiosamente, pensava que ela me tinha acompanhado desde a primeira classe, mas há dias ela revelou que só tinha entrado no colégio para a quarta classe. Mas gostei logo dela. Tanto que, um dia, numa aula, pus-me a dizer em estilo de cantarolar:
- Gracelinda, és muito linda…
Tanto bastou para que as alcoviteiras de serviço começassem logo a dizer:
- O Luís gosta da Gracelinda…
Eu sabia lá. Simpatizava com ela, achava piada ao nome e, por isso, nunca a esqueci. O certo é que nunca me apercebi no seu ego da sua vocação para freira recentemente revelada. Claro, era uma pessoa bondosa, simpática, bonitinha, mas de freira não tinha nada… como poderão concluir através de uma revelação que vos vou deixar.
A Gracelinda era uma pessoa adorável, mas tinha um estranho costume: ela tinha a mania de colecionar lacraus…
Como vivia no campo, rapidamente apurou uma técnica de levantar uma pedra, ver lá o bicho, apanhá-lo com um rápido movimento dos deditos e enfiá-lo numa caixa de plástico transparente. Através de um orifício, dava-lhe umas ervitas e uns insectos e o simpático bicharoco ia sobrevivendo.
Por essa altura, no cineteatro de Vila Nove de Ourém foi projetado o filme «Marcelino, pão e vinho» com o Joselito. Eu gostava mais da Marisol, mas lá fui ver o filme e assisti ao sofrimento do rapaz quando sofreu a mordidela do lacrau. O filme foi muito comentado no CFL.
Um dia, numa aula de Inglês, o Dr. Laranjeira interrogou a turma:
- Decerto já viram o filme do Joselito. Quem é que sabe como se diz lacrau em inglês?
Respondeu logo a sabichona do Castelo:
- O lacrau é uma espécie de escorpião. Deve ser scorpion.
Ao lado dela, a Gracelinda não se fez rogada e puxou a sua caixinha de estimação com dez lacraus bem nutridos.
- Olhem o que eu aqui tenho. Posso distribuir pela turma toda.
A Ciete viu aquilo e só lhe ocorreu gritar:
- Ai! Que horror! Ela trouxe lacraus para a aula…
O Dr. Laranjeira ficou amarelo. As meninas ao lado da Gracelinda fugiram dela e abriram a porta da sala para escapar. Mas a pequena com toda a calma, voltou a guardar a caixinha na mala e disse:
- Bom! Era só para ilustrar a aula. Escusavam de fazer uma cena dessas.
Quando tudo acalmou, do alto da sua sabedoria e autoridade, o Dr. Laranjeira só disse:
- Gracelinda, nunca mais traga qualquer espécie de bicho para as aulas.
Bolas! E tinha a miúda vocação para freira…

quinta-feira, fevereiro 06, 2020

Regresso à aula de Português

Uma das técnicas do Dr. Laranjeira para prestarmos aos livros de leitura obrigatória maior atenção, era fazer proceder a uma leitura dividida entre os diferentes alunos, por vezes intervalada por comentários para melhor interpretação ou para introduzir conceitos da gramática.
Foi assim que fizemos quase um teatro a ler o «Frei Luís de Sousa» que culminava naquele: «Quem és tu, romeiro» e na resposta com o dedo a apontar: «Aquele…».
Mas, se a leitura da obra de Garrett decorreu excecionalmente bem, até porque convidava a usar um certo estilo teatral, ao passarmos por Júlio Dinis, as coisas não foram tão fáceis.
Estávamos a tratar a obra «A Morgadinha dos Canaviais». A aula já ia um pouco longa e o professor quis fazer-nos ler algumas passagens.
- Começa a menina Borda d’Água.
E a Lena não se fez rogada. Com voz firme, pausada, bem colocada iniciou a leitura da passagem atribuída.
- «O ti' Zé Pereira era homem dos seus quarenta e tantos anos; tinha no rosto, principalmente no nariz, vestígios evidentes das suas simpatias pela divindade celebrada nos antigos ditirambos. Esposo da Sra. Catarina do Nascimento de S. João Baptista, vivia em perene sabatina com a sua cara-metade, sujeitando lhe todas as suas ações, mas salvando sempre o direito de protestar pela palavra. Ganhava a vida no ofício de hortelão, e, aos domingos e dias de festa, à força de rufos e pancadaria na retesada pele do seu companheiro inseparável — o zabumba. Era aos cuidados e vigilância deste par conjugal que o recoveiro Cancela confiava o seu mais precioso tesouro, a pequena Ermelinda, uma mimosa criança, que lhe ficara à sua viuvez, tão cheia de saudades, e a quem ele mais queria do que à menina dos olhos.
«Ermelinda era afilhada da família Zé Pereira, e a mesma a quem ouvimos referir-se Ângelo no fim da carta.»
O Dr. Laranjeira interrompeu a leitura da Lena e disse:
- Estivemos a caraterizar a figura do ti’ Zé Pereira e a submissão conjugal a que ele se sujeitava. Mas há esta passagem em que se fala numa divindade celebrada em antigos ditirambos. Quem sabe o que é isto?
Ouviu-se logo a vozinha da sabichona:
- É uma referência ao Deus do vinho, Baco…
- Mas aqui a referência é a Grécia. Daí ser uma louvação a Dionísio. Prossiga agora o Luís Manuel.
- O Zé Pereira é parvo – dizia o Amândio ao meu lado.
O certo é que eu estava a achar piada à descrição. Parecia que via a figura do homem tisnado pela bebida. E iniciei a leitura.
- «Zé Pereira estava, como dissemos, só na cozinha, quando Augusto ali chegou: sentado, no meio da sala, sobre um alqueire voltado com o fundo para o ar, viradas as costas para a porta e a face para o lar apagado e vazio, falava, gesticulava e mudava de tom desde a nota mais grave e rouca da sua escala de barítono, até o mais agudo e desafinado falsete. A língua pegava-se lhe ao céu da boca, dificultando-lhe suspeitosamente a articulação de algumas sílabas; era evidente que se apossara do hortelão o espírito familiar, o qual, neste caso, era um verdadeiro espírito, na aceção química do termo.»
Naquele momento, começou a invadir-me irreprimível vontade de rir. Mas ainda continuei:
- «Zé Pereira era um homem baixo, já grisalho, suficientemente nutrido, de olhos vesgos e que mais vesgos se faziam quando o entusiasmo, o rapto artístico se apoderava dele; usava de umas suíças que pareciam tentar sumir-se-lhe pela boca dentro; tinha longos braços, acomodados às dificuldades e evoluções da sua arte, e pernas que, do joelho para baixo, lhe divergiam em ângulo de mais de trinta gra… gra… gra… us.»
Não aguentei mais. Um homem baixo, nutrido, vesgo, com umas suíças até à boca era demais. Ainda tentei, mas as palavras não saiam. Ri, ri, ri que nem um perdido.
Os outros alunos começaram todos a rir também e eu que não parava. O Dr. Laranjeira teve de interromper a aula e fazer uma pausa.
Quando tudo acalmou, virou-se para mim e disse:
- Não sei onde estava a piada…
- Desculpe, professor, não aguentei, comecei a ver a figura do homem à minha frente…
- Espero que não se repita, se não terei de falar com o diretor…
A verdade é que nunca mais esqueci esta aula de Português. E resta dizer que o relacionamento com este professor foi, a partir daí, sempre excelente.

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

O equipamento do padre



Uma formosa menina, muito viajada e culta, residente em Ourém, mas cuja identidade não me é possível revelar, estava num avião vindo da Suíça. Vendo que estava sentada ao lado de um padre simpático, perguntou:
- Desculpe-me, padre, posso pedir-lhe um favor?
- Claro, minha filha, o que posso fazer por si?
- É que eu comprei um novo secador de cabelo, sofisticadíssimo, muito caro. Realmente ultrapassei os limites da declaração e estou preocupada com a Alfândega. Será que o Senhor o poderia levar debaixo de sua batina?
- Claro que posso, minha filha, mas certamente sabe que eu não posso mentir!
- O Senhor tem um rosto tão honesto, Padre, que estou certa de que eles não lhe farão nenhuma pergunta. 
E deu-lhe o secador.

*




O avião chegou a seu destino. Quando o padre chegou à Alfândega, perguntaram-lhe:
- Padre, o senhor tem algo a declarar?
O padre prontamente respondeu:
 - Do alto da minha cabeça até a faixa na minha cintura, não tenho nada a declarar, meu filho.
Achando a resposta estranha, o fiscal da Alfândega perguntou:
- E da cintura para baixo?
- Eu tenho um equipamento maravilhoso, destinado a uso doméstico, em especial para as mulheres, mas que nunca foi usado.
Soltando uma sonora gargalhada, o fiscal exclamou:
- Pode passar, Padre! O próximo...



A inteligência faz a diferença.
Não é necessário mentir, basta escolher as palavras certas.



segunda-feira, fevereiro 03, 2020

Uma procissão atravessa Ourém



Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.

*

Mas um dia que a procissão passou por Ourém, as coisas não foram bem assim. O Padre tinha ganho o bonito hábito de ir saudando os fiéis e beijando as criancinhas.
Naquele dia, entre a multidão estava a nossa bem conhecida Leninha Borda d´Água, uma menina que tinha a mania de puxar o braço da pessoa quando a cumprimentavam, mesmo ao estilo do nosso venerado Presidente, professor Marcelo, que um dia aplicou o golpe ao inenarrável Trump.
E o Padre lá vinha no meio da procissão saudando e beijando à esquerda e à direita. Quando chegou junto da Lena, esta chamou:
- Senhor Prior! Senhor Prior!
O religioso não respondeu, mas aproximou-se dela estendendo a mão. A Lena não hesitou, pegou na mão e puxou por ela, levando o Padre a estatelar-se no chão:
- Oh! O que eu fiz…
As pessoas ajudaram o Padre a levantar-se e a Lena olhou para o chão acabrunhada. Ele aproximou-se e deu-lhe duas palmadas bem merecidas e com ar de zangado:
- Nunca mais voltes a fazer isto, menina mal-educada…
Nessa noite, a Lena sonhou que, um dia, o Papa iria ser puxado com brusquidão por uma mulher de aspeto oriental e que, depois de lhe ter dado uma palmada, acabou por pedir desculpas por se ter irritado.
- Só a mim ninguém pede desculpa – murmurou ao acordar enquanto um soluço lhe percorria o corpo…

sábado, fevereiro 01, 2020

Compilação do desvario alentejano

Que os Deuses do Olimpo Alentejano me perdoem ...
O que é que os Alentejanos chamam aos caracóis?

Animais irrequietos.

O que é que os Alentejanos esperam depois da seca?

Que as vacas deêm leite em pó.

Por que é que os Alentejanos leêm os jornais nas esquinas?

É para o vento lhes mudar as folhas.

O que fazem 17 Alentejanos à porta do cinema?

Estão à espera de mais um, porque o filme é para M/18.

Qual a melhor Universidade do mundo?

A de Évora porque entram Alentejanos e saem Engenheiros.

Um dia um Alentejano diz pra mulher:

- Maria põe a mesa no quintal que hoje vamos jantar fora.

Por que é que os Alentejanos treinam futebol na piscina?

Para puderem treinar lances em profundidade.

Por que é que os Alentejanos semeiam alhos nas bermas das estradas?

Porque o alho faz bem à circulação.

Na prisão estão dois Alentejanos. Diz um para o outro:

- Olha lá é meio-dia ou meia-noite?

Responde o outro:

- Nã sei o mê relógio tá parado.

Por que é que os Alentejanos plantam 3 laranjeiras juntas?

Para sair directamente Trinaranjus.

1º Lema do Alentejano:

Mais vale uma mão inchada do que uma enchada na mão.

2º Lema do Alentejano:

Mais vale morrer de frio do que trabalhar para aquecer.

Qual é a peça da mota que os Alentejanos gostam mais?

É o descanso.

Um Alentejano vai à praia pra se bronzear. Deita-se na areia, adormece e quando acorda vê um preto ao lado dele a apanhar sol.

- Ó cumpadre, há quanto tempo é que está cá?

- Dois dias.

- Porra e eu que era pra ficar quinze dias.

O que é que os Alentejanos fazem no fim de um dia de trabalho?

Tiram as mãos dos bolsos.

Por que é que os Alentejanos costumam dormir com o relógio debaixo deles?

É para acordarem em cima da hora.

Como é que os Alentejanos fazem o controlo da natalidade?

Atiram pedras às cegonhas.

Por que é que os Alentejanos quando andam de mota levam um machado à frente?

É para cortarem o vento.

Onde é que os Alentejanos costumam guardar o dinheiro?

Debaixo da enchada. Ninguem lá toca.

Estavam dois Alentejanos a brincar à apanhada. Vai um deles e diz assim:

- Já estou farto de correr atrás de ti. A partir de agora corres tu à minha frente.

Vai o outro e diz:

- Tá bem, por mim tanto faz.

Uma brigada de transito estava a fazer um relatório de um acidente de viação e perguntou a um pastor Alentejano como tinha sido o acidente. 

Resposta do pastor:

- Os senhores guardas veêm ali aquela estrada? Veêm aquela curva? Veêm aquele chaparro? Olhe eles nã viram.

Por que é que os Alentejanos se levantam de madrugada?

É para estarem mais tempo sem fazerem nada.

Por que é que os Alentejanos não bebem leite frio?

Porque não conseguem meter a vaca no frigorifico.

Por que é que os bolsos das calças dos Alentejanos são de plástico?

É pra meterem o salário líquido.

Como é que os Alentejanos arranjam dinheiro para comprarem um video?

Vendem a televisão.

Estavam dois velhos Alentejanos falando sobre o mar quando a páginas tantas diz um pro outro:

- Oh home, cala-te que nã percebes nada de mari.

Resposta pronta do outro:

- Pra tua informação, o mar morto, que é o mar morto já eu o conhecia antes dele estar doente.

Estão dois alentejanos encostados a um chaparro à beira da estrada, quando passa um automóvel a grande velocidade e deixa voar uma nota de 100 euros que vai cair no outro lado da estrada. Passados cinco minutos, diz um alentejano para o outro:

- Cumpadri, se o vento muda temos o dia ganho.

A futura sogra alentejana para o futuro genro, também alentejano:

- Ouve lá. Tu queres a minha filha para casar ou pra quê ?

- pra quê.

Sabem porque é que os alentejanos preferem apanhar azeitonas em vez de caracóis?

 Porque as azeitonas estão paradas.

Sabem como é que um alentejano mata uma minhoca?

Enterra-a.

Conversa entre alentejanos:

- Cumpadri, porque é que você arrancou dois dentis no mesmo dia?

- Porque o dentista não tinha troco de 100 euros.

Um turista chega a beira de um alentejano e pergunta-lhe:

- Já nasceu aqui algum grande homem?

- Nã senhori. Aqui nascem crianças!...


Um alentejano para o outro:

- oh compadri, vai chover!

- ora essa, va vocêmecê...

Por que é que mandaram 10000 Alentejanos para o GOLFO quando houve conflitos?

- Foi para acalmarem a situação.


   

sexta-feira, janeiro 31, 2020

Salvos pelo cachorro

No CFL, estranhava-se a ausência da Teresinha e todas ficaram espantados quando alguém trouxe a notícia da sua detenção.
O Dr. Armando reuniu os alunos mais relacionados com ela e afirmou:
- Alunos do CFL, deem muita atenção ao que se passou que não me admira absolutamente nada. Esse Passarinho é um malandro que já fez várias partidas aqui no Colégio. Até acho bem que esteja preso. A Teresa é uma menina exemplar. Mas eu conheço o graduado e sei que ele é uma pessoa ponderada. Decerto a vai libertar dentro em breve. Eu próprio falarei com ele se a libertação se atrasar.

A Gracelinda é que não gostou nada do que ouviu. Não achava bem que miúdos tão jovens estivessem detidos na prisão. Assim, combinou rapidamente um plano com o seu Pepe…

*

Nessa tarde, vestida de freira, a Gracelinda dirigiu-se ao posto da GNR. O graduado reconheceu-a imediatamente:
- Oh! É a menina Gracelinda. Então, voltou ao convento.
- Ainda não, mas estou a ponderar fazê-lo. Vim aqui pois soube que a Teresinha está presa por uma questão fútil. Acha que posso falar com ela?
O graduado tinha as chaves da cela em cima da mesa e levantou-se para cumprimentar a jovem.
- Sabe? Contamos libertá-la dentro em breve, até já aqui tenho as chaves, mas pretendemos que lhe sirva de lição para ela não repetir o disparate de circular pela vila da maneira que fez.
Neste momento, um pequeno vulto entrou pelo posto da GNR, saltou para cima da mesa e fugiu com as chaves na boca. Não mais chegou a ser visto. O graduado ficou boquiaberto.
- O diabo do cão fugiu com as chaves…
- Está a ver? Agora como vai libertar a Teresinha e o João? Para onde terá ido o cão?
- Temos de o procurar. Que disparate eu fiz…
Rapidamente saíram do posto. A Gracelinda disse:
- Eu vou na direção da Câmara, o senhor vá pelo outro lado. Se encontrar o cão, dê um tiro para o ar para me avisar. Encontramo-nos no posto.
E partiram em busca do cão. O graduado mobilizou ainda mais dois homens que partiram em direções diferentes.
Claro que a Gracelinda sabia muito bem onde estava o seu Pepe e, daí a pouco, encontrou-o junto ao parque por trás da Câmara.
- Cãozinho lindo! És mais rápido e inteligente que o Baloo! Ele nunca faria o que fizeste…
O Pepe deu dois saltitos e entregou-lhe alegremente as chaves das celas.
- Agora, esperas aqui por mim.
Rapidamente, voltou ao posto e, ao passar pela cela da Teresinha, disse-lhe:
- Prepara-te. Penso que, em breve serás libertada…
Mas foi preciso passarem umas duas horas para  os GNR regressarem. Vinham todos com cara de caso e o graduado disse:
- Não conseguimos nada. Para onde terá ido o cão? E agora temos de chamar os bombeiros ou o ferreiro para abrirem as celas à força. Que vou dizer aos meus superiores?
A Gracelinda olhou para ele e sorriu:
- Não, não é preciso nada disso. Olhe aqui…
E mostrou-lhe as chaves das celas. O graduado ficou comovido:
- Não sabe como lhe estou agradecido, irmã Gracelinda. Que posso fazer para a compensar?
- A única coisa que pretendo é que devolva a liberdade aos meus amigos. Eles devem estar muito tristes. O desaparecimento das chaves foi uma partida que Deus quis fazer-lhe para lhe lembrar que, neste mundo, se não deve tirar a liberdade a pessoas inocentes por motivos fúteis…
Pouco depois, a Teresa e o João foram libertados e encontraram-se com o graduado e a sua amiga.
- É a ela que devem a liberdade. Agora, não façam mais disparates para não os voltar a enfiar na prisão.
O João trazia na mão o carrinho de madeira completamente montado:
- Diga ao miúdo a quem o vai oferecer que foi feito por mim, o João Passarinho. Aliás, leva as minhas iniciais: "JP".
No Avenida, foi uma alegria o reencontro com os amigos. Entretanto, no posto da GNR, o graduado via passar frente ao mesmo a Gracelinda acompanhada de um cãozito que se deslocava rapidamente.
- Coisa esquisita! Dir-se-ia que já vi aquele vulto noutra ocasião… 




FIM



quinta-feira, janeiro 30, 2020

O trabalho ajuda a reabilitar

Ainda na tarde do dia da detenção do João, o graduado foi falar com ele à cela. Levava um pau de vassoura, uma roda de madeira com uns vinte centímetros de diâmetro e um pau arredondado curto.
- Estamos a averiguar o teu comportamento e o da restante família. Demorará alguns dias pelo que, para passares o tempo, vamos iniciar-te à arte de construção de um cavalo de madeira.
Mostrou-lhe um desenho e entregou-lhe uma faca bem afiada:
- Com este material, deves reconstruir este carro que vai ser oferecido a um dos miúdos cá da terra.
- Eu não faço nada disso – reagiu o João.
- Se não fazes, não sais…

E o João teve de atirar-se ao trabalho. Oh! Se os reclusos de agora fossem assim tratados, aprenderiam num instante a ser boas pessoas.
Mal o viram a aplainar a madeira, os miúdos da escola fizeram nova dança e cantoria:

Passarito, companheiro
toda a noite alisa o pau
quis armar-se em cavalheiro
no fundo é um marau

e, depois, num ritmo bem mais forte:

Olha o triste Passarito
na gaiola a penar
é bem feita, é bem feita
não vai ter com quem casar.

Na cela ao lado, a Teresinha chorava. Ela não podia comunicar com o João e ver as pessoas passarem na rua em liberdade causava-lhe uma terrível angústia.
«Oh! Por que me pus a fazer o disparate de andar a cavalo nas ruas de Ourém…? E a multa… como é que vou conseguir pagar essa quantia exorbitante?».
À noite, trouxeram-lhe o jantar.
- Comidinha do Manel do Raul. Nada má…
A Teresinha provou, mas a situação em que estava não a deixou apreciar as excelentes iguarias que tinham posto à sua disposição. E passou a noite a chorar enquanto, na cela ao lado, ouvia o estranho ruído de alguém como que a cortar e aplainar madeira.


quarta-feira, janeiro 29, 2020

Uma lição de civismo

Quando os pais da Teresinha souberam da sua prisão ficaram em pânico.
- Oh! Meu Deus, o que vai acontecer à nossa menina??!!
- Eu sempre disse que ela não devia acompanhar aquela miudagem do Café Avenida. São todos uns mal comportados e aqueles que vêm de Lisboa são piores, habituados a coisas horrorosas. Há alguns que até já deixam crescer o cabelo. Então o Passarinho tem mesmo aspeto de malandro e já se lhe conhecem várias ações lamentáveis. Um dia foi preso acusado de fabricar dinheiro falso para pagar dívidas de jogo.
E a sua preocupação aumentou muito mais quando souberam o valor da multa:

- Cinquenta contos… o dinheiro que estávamos a juntar para um Fiat 127. Lá se vão as nossas economias.
A Céu estava boquiaberta e não conseguiu evitar um comentário:
- Olha, Estefaninha, se lhe tivesses dado as chineladas que me deste, isto não aconteceria.
- Eu acho uma multa demasiado elevada – dizia a mãe da Teresinha toda decidida. – Temos de contestar o graduado da GNR.
E dirigiram-se ao posto da GNR. O graduado, quando os viu, recebeu-os com um sorriso:
- Não tenham receio. Eu só quero dar uma lição a esses dois miúdos. Eles vão ficar em isolamento até amanhã e, depois, liberto-os na convicção de que terão aprendido a lição de que devem ser bem comportados.
- Mas a nossa menina é um anjo, não precisa de uma lição dessas – respondeu a mãe da Teresinha, apesar de mais descansada por terem desistido da multa. - Se os senhores quiserem, até pode vir todas as semanas fazer bolinhos para os prisioneiros...
- Estes jovens são bons, mas têm de ser moldados para terem um melhor comportamento e servirem a Pátria quando for necessário. Vão ficar na prisão até amanhã e espero que não repitam estes disparates. Mas acho que vou aceitar a sua oferta dos bolinhos. Fica desde já marcado que todas as terças-feiras, ela vem até cá fazer uns bolos para nós e para os prisioneiros. Eles não merecem, mas...
- E podemos ver a nossa menina?
- Não. Ela fica em reclusão, pois, se a virem e lhe falarem, o castigo perderá o seu efeito. Poderão vê-la através das grades, mas só isso…
Quando saíram, viram a Teresinha por trás das grades, a ver o Sol aos quadradinhos…
- Mãezinha, quando é que eu saio daqui?
- Minha filha, tem paciência. O graduado disse-me que, em breve, serás libertada, mas não me permite que fale contigo.

E a Teresinha ficou na prisão de Ourém a chorar enquanto os pais se afastavam de regresso a casa, mas já com a certeza que ela seria libertada…
Cá fora, os miúdos de escola, conhecedores da sua situação, iniciaram um estranho bailado usando pequenos carrinhos de madeira fabricados pelos presos:

A Teresinha está presa
não aprendeu a lição
ela não vai ter defesa
não vai sair da prisão

e, depois, num coro mais forte:

Olha a triste Teresinha
está na prisão a penar
é bem feita, é bem feita
não vai ter com quem casar...

Um deles veio bater nas grades:
- Olá… - e escapuliu-se.
Ali passou mais uma noite horrível a ouvir os gemidos e lamentos de outros presos, esses sim autores de crimes que mereciam castigo.
«Que grande lição! Mas estão a ser injustos comigo. Eu não merecia este castigo…»


terça-feira, janeiro 28, 2020

Todos para a prisão

No dia seguinte, pela manhã, o João dirigiu-se ao posto da GNR. Sentia-se culpado da situação da Teresinha e queria esclarecer toda a situação.
O graduado estava a tomar o pequeno almoço e só o recebeu ao fim de meia-hora num gabinete sem um mínimo de condições.
- Senhor comandante, venho falar-lhe na menina que prendeu ontem…
- Ela excedeu os limites de velocidade na vila e por isso vai ficar presa durante uma semana…
- Não pode ser, senhor guarda, o cavalo tinha tomado o freio nos dentes e a culpa foi dos senhores que dispararam aquela salva de tiros sem ninguém estar à espera.
- A culpa foi nossa? Repare, senhor cidadão, que estávamos a cumprir o nosso dever. Estávamos a treinar-nos para uma cerimónia importantíssima… enquanto o menino e a menina estavam a brincar.
- Cerimónia importantíssima?!! PFFFF!!! Uma palhaçada para apoiar o regime…
- Que disse? Guardas, prendam já este miúdo mal educado. Clementina, investiga já o comportamento de toda a família…
E o João acabou também por ser preso acusado por injuriar o regime que servia tão bem o país.

segunda-feira, janeiro 27, 2020

Uma amazona em perigo


Naquela manhã, a Teresinha estava encantadora com o ar desportivo e juvenil que lhe dava o traje de amazona. Os olhos pareciam mais rasgados e claros que nunca e o cabelo, recentemente penteado, caia como uma cascata sobre os ombros, em redondos anéis. Suspenso do pulso levava um pequeno chicote e foi assim que entrou no Avenida fazendo suspender a respiração a toda a gente.
- Teresa, pareces uma verdadeira cavaleira – disse o Jó Rodrigues.
Ela riu-se e respondeu:
- O João conseguiu que as meninas do circo me emprestassem um cavalinho dócil para dar uma volta pela vila.
O João, sempre o João… a conseguir coisas que pareciam inacessíveis aos outros.
Nesse momento, viram o João e uma miúda do circo que desciam a rua que vinha de casa do César na direção do Avenida.
A miúda segurava com uma das mãos as rédeas de um formoso corcel, negro de azeviche, uma bela estampa que, à simples vista, denotava ser animal de puro sangue. Um excelente exemplar.
- Aqui tens, Teresinha. Cumpro sempre o prometido.
A rapariga montou com agilidade e dirigiu-se ao longo da Avenida no sentido do jardim da vila. Aí, voltou à direita, num trote muito suave e subiu na direção da Câmara. Observava tudo com interesse e reparou que, lá à frente, havia uma parada da GNR. Cerca de 20 soldados estavam perfilados, obedecendo às ordens de um superior. Dirigiu para lá o corcel.
Mais acima, pôde ouvir as vozes de comando:
- Apontar!
Um movimento bem sincronizado fez com que os soldados virassem as espingardas para o ar.
- Fogo!
Uma fortíssima salva atroou os ares de Ourém. O animal, espantado, saltou, encabritou-se, levantou as patas dianteiras e esteve quase a derrubar a amazona.
Entretanto, alguns rapazes subiram a rua do César e puderam ouvir todo aquele ruído. Ao mesmo tempo, viram a mole negra de um cavalo desenfreado prestes a desabar-lhes em cima. E vinha na direção do Estorietas…
Forte e vigoroso, o aspeto do animal era horrível. O peito dilatado pela corrida louca, a boca meio aberta e cheia de espuma, os dentes à mostra, parecendo resolvidos a morderem-lhe, formavam um conjunto aterrador.
Os soldados da GNR contemplavam espantados aquela corrida louca. O graduado olhou aquele espetáculo e começou a tomar notas:
- Só nesta terra… - murmurou.
O primeiro impulso do Estorietas foi atirar-se de cabeça fugindo rapidamente do caminho trilhado pelo animal, mas deteve-o no último instante a visão fugaz de uma carinha desfigurada pelo pavor e o débil vulto da amazona que, com a força do desespero, se aferrava às crinas do corcel, tão desnorteada e sem domínio dos nervos que tinha largado as rédeas; já nem sequer tentava pará-lo e o galope cego arrastava-os rapidamente para a praça Mouzinho de Albuquerque onde se esmagariam de encontro às paredes que de maneira nenhuma poderiam evitar, isto se não chocassem com algum carro na Avenida. Foi a certeza deste facto que impediu o seu primeiro e instintivo movimento.
Nesses poucos segundos, apenas o tempo de lançar uma vista de olhos para avaliar a situação, o animal, ganhando terreno com fantástica velocidade, atirava-se irresistivelmente para cima dele. Um grito de horror saiu da garganta dos espetadores daquela tremenda cena, tanto mais que a ninguém era possível intervir.
Imobilizado pela expressão de medo que se lia nos olhos da amazona, convenceu-se de que tinha de fazer qualquer coisa, fosse o que fosse, para a salvar, mas a extraordinária rapidez do desenfreado animal impediu de pensar na melhor maneira de o deter.  Só por instinto, afastou levemente o corpo na altura própria, deixando passar a cabeça do cavalo e, com vigoroso impulso, saltou-lhe para o pescoço, de onde, pela violência do choque, se viu repelido. Concentrando toda a sua força nos braços para manter a posição, conseguiu afinal agarrar-se com firmeza e, então, sustendo o peso do corpo com o braço esquerdo, avançou a mão direita para agarrar as rédeas pendentes.
Chegou a julgar que ia cair pois o suor que empapava o corpo do animal fazia resvalar o braço em que se apoiava; ao dar por isso, apertou com novas energias as crinas do cavalo e, já com as rédeas bem presas, obrigou-o, violentamente, a baixar a cabeça. Agarrando-se como podia, às rédeas e ao pescoço, foi estendendo as pernas que mantivera encolhidas, inclinou-se para a frente e deixou cair os pés, a tocarem o solo, fincando os saltos dos sapatos para se firmar no terreno, e largou-se puxando as rédeas com ambas as mãos.
Fizera tudo aquilo com a maior rapidez, mas, apesar disso, já estavam a poucos metros do Avenida e a parede parecia aproximar-se vertiginosamente, sombria, ameaçadora…
Os músculos em completa tensão afiguravam-se incapazes de resistir ao esforço, o alcatrão feria-lhe os pés, deixando visível um sulco escuro, mas, quando a catástrofe parecia iminente, o animal rendeu-se, ofegante e trémulo. Um suspiro de alívio saiu do seu peito angustiado ao perceber que os seus esforços tinam sido coroados do êxito mais rotundo. O cavalo ainda tentou encabritar-se mas a forte pressão que sobre ele exercia o Estorietas dominou-o por completo.
A Teresinha chorava e teve de ser retirada de cima do cavalo pelos rapazes. O João só dizia:
- Oh! Que estupidez eu fiz.
Entretanto aproximava-se o graduado da GNR que, com voz dura, perguntou:
- Quem conduzia aquele cavalo?
- Era eu, senhor comandante – respondeu a Teresinha ainda a tremer e quase a chorar.
O homem não teve dó nem piedade:
- A menina tem de pagar uma multa de 50 contos por ter circulado na vila com excesso de velocidade.
- Mas eu não tenho dinheiro…
- Então vai ficar na prisão durante uns dias…
E, nessa noite, a Teresinha foi dormir no calaboiço da GNR sem ninguém saber quando sairia.


domingo, janeiro 26, 2020

A Arquitetura de Sistemas de Informação

A minha paixão pelas Bases de Dados e pelo SQL acompanhou-me até para além da vida profissional. Cabe dizer que, paralelamente ao emprego na CNP e Carris, eu lecionava na escola que atualmente se designa por ISEG. Disciplinas relacionadas com o Marxismo entre 1975 e 1978, depois disciplinas na área de Informática e, por fim, relacionadas com Economia.
Ao contrário do que pensam, a situação era muito cómoda especialmente nas décadas de 80 e primeiros anos de 90. A especialização em Informática era um ativo precioso e os contratos estavam sistematicamente garantidos.
Mas não era fácil o relacionamento de um indivíduo com sensibilidade à Informática com outros docentes numa escola de Economia. Um dia escandalizei os meus colegas numa disciplina designada de Economia Aplicada quando afirmei que o economista devia tanto preocupar-se com o tratamento dos dados como com a forma como estes eram organizados, pois isto condicionaria o tratamento posterior. E bateram-me, bateram-me, bateram-me com a discussão do «core» do negócio…
Mas quando isto se passou já estava bem lançado. Na Carris tinha sido responsável pela transformação de um processamento exclusivamente em batch para tratamento interativo. Não tinha sido fácil num momento em que o termo «resistência à mudança» ganhou todo o sentido. Os programadores antigos, donos das aplicações, não colaboravam ou colaboravam com dificuldade e especializei-me na técnica de saca-rolhas. Propor, mostrar, ouvir, modificar… bolas! Que paciência era necessária!
E, cá por fora, falava-se em «arquitetura de sistemas de informação». Que bonito! Os analistas de informática promovidos a arquitetos. Havia muita vaidade nesta designação, mas lá fui interiorizando cada vez mais os conceitos que viam um sistema de informação como algo que deve ser estudado previamente, pensado para toda uma organização, capaz de a transformar. Até sonhava com o famigerado «Modelo Entidade-Associação» que passou a perseguir-me para todo o lado.
E as dificuldades na Carris eram tantas para mudar a organizar e implementar coisas novas que um dia corri atrás de um projeto de transição para um sistema transacional numa empresa como a Shell.
Não pensem que a resistência à mudança tinha acabado. Eu acho que até foi pior tal o ambiente que encontrei. Pessoas habituadas a trabalhar numa maquineta que funcionava em RPG a terem de transitar para um sistema de informação suportado em Bases de Dados… «Se queres saber alguma coisa, descobre tu…».
Aqui, para colaborar nos projetos, tinha elementos de empresas de serviços. Empresas que, como calculam, tinham uma agenda própria, pagas a peso de ouro e que queriam sobrepor-se ao interesse da organização que as contratava. Não foi fácil esse relacionamento muitas vezes deteriorado pelo «dizer mal…»... e pela minha mania de querer implementar eu aquilo que os outros deviam fazer. Resultado: fogo permanente.
Apesar do muito que sofri para chegar às coisas, foi uma época que deu gozo pela exploração que pude fazer do SQL. Quando uma aplicação demorava demasiado tempo a implementar, arranjava uns remendos em SQL. Demoravam algum tempo a executar, mas estavam prontos imediatamente. Fazia o que na gíria se chamava "uma martelada". E dei tanta martelada que alguns colegas ofereceram-me um martelo para ornamentar a secretária.
A raiva contra mim foi de tal ordem que um dia o responsável informático da petrolífera determinou «não pode ser utilizada em exploração a ferramenta SQL». Proibir, proibir era a palavra que aqueles burros conheciam para fazer a vontadinha às empresas de serviços...
Comecei a fartar-me. Afinal, a vidinha parecia tão calma para os lados do ISEG… Havia uns mestrados tão giros para frequentar que poderiam garantir ascensão na carreira docente.
E, um dia, embora empurrado, disse adeus à carreira como “arquitecto de sistemas de informação”. Nem calculam o alívio…

sábado, janeiro 25, 2020

Base de Dados é o que está a dar…

As coisas no Centro Nacional de Pensões, apesar de uma ascensão rápida, não correram bem do ponto de vista do gosto pela profissão. Ao se aperceberam que investia muito na investigação das potencialidades das linguagens, os responsáveis entenderam estar ali o indivíduo ideal para a área de sistemas e trataram de me fazer transitar para lá.
Ora, eu adorava a área de aplicações. O que gostava era idealizar sistemas de aplicações, ficheiros, rotinas de tratamento de dados e programar muito do necessário para o implementar. Comparada com isso, a área de sistemas era uma chatice em que tinha de andar atrás dos técnicos do fabricante, preocupar-me com circuitos, coisas horrorosas.
E comecei a pensar em sair, apesar de adorar os colegas com quem trabalhava.
A ocasião surgiu através de um concurso para a Carris. Esta usava um equipamento IBM com algumas afinidades com o que usava na CNP e a transição não foi difícil pois a CNP estava, na altura, uns passos à frente já com o teleprocessamento em produção.
Tornei-me um excelente ouvinte dos conselheiros que vinham daquela corporação gigantesca e só relativamente tarde me apercebi que muitos desses conselhos estavam relacionados com a sua necessidade de fazer negócio. «A máquina tem mau desempenho?», então «O melhor é fazer um upgrade ou adquirir uma máquina nova».
E, um dia, a palavra mágica surgiu: Base de Dados. Seria o fim da anarquia, o fim da redundância… os dados bem organizadinhos a servirem toda a empresa. As primeiras bases de dados foram apelidadas de hierárquicas e não trabalhei praticamente com elas. As que me entusiasmaram bastante designavam-se por relacionais e a palavra chave para o seu uso era SQL (Structured Query Language).
Adorava o SQL, tudo quis fazer com SQL. Um dia, perante a administração da Carris, eu e alguns técnicos tivemos uma conversa engraçada:
- Em SQL, é possível determinar imediatamente o impacto de um aumento de salários de 10% aos motoristas.
O administrador ficou entusiasmado:
- Olhe. E esse rapaz, o Ezequiel, ele não está para ir embora, pois não?
A evolução era tão rápida que as pessoas tinham de ignorar alguma coisa na sua profissão… 
Cabe dizer que, na altura, era muito difícil a uma empresa como a Carris reter os seus técnicos de Informática. Mal sabiam alguma coisa e provavam que eram bons, a Banca e algumas empresas tratavam de os contratar com salários francamente superiores: era uma pressão sufocante para o Centro de Informática.
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