E CADA VEZ SOMOS MAIS
Pela espora da opressão
pela carne maltratada
mantendo no coração
a esperança conquistada.
Por tanta sede de pão
que a água ficou vidrada
nos nossos olhos que estão
virados à madrugada.
Por sermos nós o Partido
Comunista e Português
por isso é que faz sentido
sermos mais de cada vez.
Por estarmos sempre onde está
o povo trabalhador
pela diferença que há
entre o ódio e o amor.
Pela certeza que dá
o ferro que malha a dor
pelo aço da palavra
fúria fogo força flor
por este arado que lavra
um campo muito maior.
Por sermos nós a cantar
e a lutar em português
é que podemos gritar:
Somos mais de cada vez.
Por nós trazemos a boca
colada aos lábios do trigo
e por nunca acharmos pouca
a grande palavra amigo
é que a coragem nos toca
mesmo no auge do perigo
até que a voz fique rouca
e destrua o inimigo.
Por sermos nós a diferença
que torna os homens iguais
é que não há quem nos vença
cada vez seremos mais.
Por sermos nós a entrega
a mão que aperta outra mão
a ternura que nos chega
para parir um irmão.
Por sermos nós quem renega
o horror da solidão
por sermos nós quem se apega
ao suor do nosso chão
por sermos nós quem não cega
e vê mais clara a razão
é que somos o Partido
Comunista e Português
aonde só faz sentido
sermos mais de cada vez.
Quantos somos? Como somos?
novos e velhos: iguais.
Sendo o que nós sempre fomos
seremos cada vez mais!
José Carlos Ary dos Santos
sexta-feira, abril 07, 2006
quinta-feira, abril 06, 2006
Eu calculava que a canção dos Tubarões traria alguma emoção para o Sérgio o que é visível no comentário que ele lá deixou.Aliás, é notável este oureense que, como sublinhou ilustre vereador da nossa praça há pouco tempo, tem apenas o defeito de ser comuna, não o impedindo isso de ter notável produção escrita e de se emocionar e partilhar sentimentos alicerçados na vida e na amizade.
Pouco sei sobre os Tubarões. O Sérgio conta que vieram à festa do Avante, se calhar também eram comunas. Mas cantavam e tinham coisas engraçadas. Aqui ficam mais duas... para o Sérgio e para os amigos do Ourém que encontrei no nosso magnífico servidor musical:- Distino de Crioula- Manu
E podem continuar a dançar...
quarta-feira, abril 05, 2006
O caso do gato cirúrgico
Era uma manhã primaveril de Ourém quase há uns cinquenta anos. Tinha estado no Central a assistir ao desembrulhar das novidades o que me trouxe irresistível atracção: um álbum do Cavaleiro Andante com uma aventura da cadela Bessy.
Naquelas aventuras, ela dominava os malfeitores, comandava os rebanhos, mordia os tornozelos de quem a queria atacar, dava monumental salto para cima de quem não tivesse uma atitude correcta com o seu dono ou pedia socorro no rancho mais próximo quando alguém ficava em situação difícil.
Vinha eu do Central com o álbum na mão...
Subi as escadinhas junto ao Mariano, virei à direita, avancei e, de repente, dei com eles...
- O que é que levas aí? Mostra cá.
É o mostras. Num instante, avaliei a situação e corri para o outro lado da rua. Apanhados de surpresa, eles não reagiram logo, mas, pouco depois, perseguiram-me. Eu corri na direcção da loja do Adelino, flecti para a esquerda e fui na direcção do largo de Castela. Um súbito obstáculo surgiu. No meio da rua, junto à casa do Luís Nuno, estava estacionada uma camioneta do Sr. Isidro, carregada de jaulas com galinhas, frangos, galos, patos e o espaço para passar não era muito largo.
Não abrandei. Corri como pude ao lado da camioneta que, dos lados, tinha daqueles elementos metálicos pontiagudos onde as cordas que seguravam as jaulas se fixavam. De repente senti o braço preso e a camisa a ser rasgada. O corpo foi projectado para a frente e para a direita, aproximando-se do chão. Bati com a cara em cheio mais à frente na camioneta.
Mesmo assim, não desisti. Livrei-me da camioneta e continuei a corrida para o Largo de Castela, enquanto eles desistiam vendo a minha situação. Ao mesmo tempo, a minha camisa ia-se tingindo de vermelho.
Ao chegar a casa, com o álbum na mão, esfarrapado, a minha mãe ficou aterrorizada.
- Ó Luís, já viste como tu vens, o que é que te fizeram?
Mas eu não consegui falar. A pancada tinha sido forte, sentia algo estranho sobre os dentes à frente que estavam doridos.
- Mas tu estás a deitar sangue, tens o lábio aberto...
A minha mãe percebeu do que se tratava.
- Tens de ir para o hospital.
- Não - murmurei como pude, com a mão sobre a boca e já a pensar nas torturas que aí vinham - isto passa...
Mas não passou e tive mesmo de ir para o hospital.
Lá, o enfermeiro Cruz examinou-me cuidadosamente, estancou a hemorragia, desinfectou a zona e, pouco depois disse:
- O espigão de ferro abriu-te o lábio. Não vou coser-te, mas tens de levar um gato ou dois...
Fiquei admirado, mas a ideia não me desagradou de todo, já que sempre tive alguma simpatia pelos felinos.
Como devem estar recordados, um gato era uma espécis de agrafo mais largo.
Ele espetou-me dois gatos sobre o lábio a unir os dois pedaços em que se tinha dividido. Imaginem bem, as garras de um felino bem espetadas sobre a vossa boca. Mas confesso que não custou muito. Tudo tratado, tapou e lá voltei para casa.
Não podia falar nem comer com grande facilidade, mas a minha aventura foi estória para os amigos no colégio.
Já mais calmo, tratado, pude finalmente descansar de tão longa caminhada e sentar-me no meu recanto a ler a magnífica aventura da Bessy...
terça-feira, abril 04, 2006
Há dias, o RicJo protestava contra a facto de alguns blogs despejarem música sem que os seus frequentadores estivessem interessados em ouvi-las.
Compreendi-o imediatamanete.
Aliás, consta que houve pessoas que tiveram desagradáveis surpresas quando, nos empregos, naquele santo momento para descomprimir, faziam acesso a blogs.
O Ourem passa a criar um apontador para as músicas que disponibiliza, indo imediatamente cortar o arranque selvagem... o blog fica mais leve, podem publicar-se mais posts e a cauda vai encurtar, notando-se menos.
Muitas vezes, o meu ritual mensal enriquecia-se com a visão da abertura dos pacotes de livros que chegavam ao Central ou à Marina e, de onde, como por encanto saiam coisas que eu nunca tinha visto ou lido.Entre elas estavam as colecções de novelas do Oeste selvagem, na sua maioria livros em formato bolso com umas 128 páginas e que eu lia em cerca de duas horas, depois de, perante o olhar cheio de reprovação de eruditos oureenses (oportunamente, falaremos nisto), as adquirir. Aliás, é curioso como a novela escrita é objectiva, simples, decorrendo e desdobrando-se em torno de um tema que, resolvido, a faz terminar, enquanto uma telenovela recorre às mais ignóbeis tretas para se prolongar e reter as pessoas.
Mas havia uma colecção especial. Os livros eram maiores e tinham muito mais páginas. O seu autor era genuinamente americano, por vezes, chato: tinha aquela capacidade de encher doze páginas a descrever um desfiladeiro ou uma pradaria. Mas as histórias eram menos violentas, mais estruturadas, mais o espelho da difícil vida que aquelas pessoas enfrentaram. Refiro-me a Zane Grey. Para a época, qualquer desses livros era caro: 22$50 contra os 8$00 dos Búfalos ou Bisontes, mas era leitura para muitos dias.
Lembro-me que um dos últimos livros que requisitei na Biblioteca se chamava “30000 cabeças de gado”, fui devolvê-lo lá para um Verão de 1966 ou 67, em momento que me propiciou derradeiros encontros. Será que ainda lá existe?
Este autor é celebrado em várias páginas onde se contituem mosaicos com as capas das suas obras. Aqui ficam váios apontadores e várias capas reproduzidas de edições estrangeiras (neste campo, o meu património é nulo): NOta biográfica, Galeria Zane Grey, Fotos, ligação a Edgar Rice Burroughs.












segunda-feira, abril 03, 2006
domingo, abril 02, 2006
Que doçura!
Que melancolia!
O mar, piscina das minhas lágrimas...
Quem o diria melhor do que os fabulosos Tubarões?
Esta música já não é dos meus tempos de Ourém, mas tem de figurar no nosso álbum.
Reparem naquela passagem sem voz. Imaginem-se a dançar àquele som nos bailes dos bombeiros ou do Atlético...
Oiça Mar Pincinha de nhas lagrimas
sábado, abril 01, 2006
sexta-feira, março 31, 2006
A peça que vos deixo abaixo é notável, tinha que a roubar para o OUREM tão escondida anda em espaço anónimo. Sem ironia, Ourém ouvirá falar muito dele no futuro...
sem obséquio, mas com disposição, disponibilidade e abraço à urso. o uso da palavra «ironia» hoje aparece frequentemente associado à paródia, à comédia, ao humor. na origem, porém, a ironia traduzia uma atitude, calibrada filosoficamente. o desgraçado do Sócrates, com aquela converseta «só sei que nada sei», formalizou pela primeira vez o mote da seita - que nunca foi seita como outras, como por exemplo as dos xisistas. e a base dessa atitude é a assunção do limite do que se conhece ou consegue conhecer. daí que um irónico tenda à humildade, mais do que a fazer palhaçadas para se armar ao pingarelho ou para fazer rir os outros. o riso do irónico é o riso dessa humildade perante outras atitudes mais fortes, assentes na convicção, na fé ou na força bruta. claro que um irónico também faz as suas opções, mas com a consciência disso, de que as opções são opções fundadas e orientadas através de si, de critérios e coordenadas que ele assumiu, referências essas que não são necessariamente – muito pelo contrário - apenas suas. ou seja, a ironia é uma forma de condução individual em comunidade. neste sentido, é uma das raízes da atitude liberal, coisa com configuração moderna e que, por isso, é um produto muito mais recente. outra propriedade dos irónicos é não serem propensos à doutrinação ou ao catecismo. mais do que fazerem propaganda a um destino ou a um fim, exercitam e exortam à utilização de um método: a provocação. provocação no sentido de colocar questões. provocação no sentido do exercício maiêutico. como me parece, isto é diferente de comédia ou humor. na prática, um irónico, no sentido clássico do termo, é um desgraçado encharcado em desassossego. faz muitas perguntas, tanto a si quanto aos outros. é por isso que, para viver, se recomenda temperar a ironia com uns laivos de cinismo. lá está, não o cinismo moderno. também não o cinismo de cão. mas o cinismo do desgraçado do Diógenes. o tal que, em plena luz do dia, andava com uma candeia acesa à procura do verdadeiro homem. o tal que, quando Alexandre, o maior, lhe perguntou o que podia fazer por ele, lhe ordenou que se afastasse porque lhe estava a roubar o sol. parece anedota, mas é também osso. e agora, depois de todo este parlapié, desculpa lá, pá, mas tenho que ir trabalhar mais um bocado.
O NA, no Outrora, tem continuado a publicar páginas da vida cultural de Ourém da primeira metade do século passado. Recentemente, fomos brindados com:
Má Língua XI - Petróleo e luz eléctrica
Má Língua XII - 2º Acto - Coro do Rancho
Má Língua XIII - Criada; Criada e Caixeiro; Fado do Preso; A Alcoviteira; Motores; O Político; D. Elvira; Romão e a Sopeira; Tesoura e Faca.
Anúncio - Má Língua
Procedi à cópia de segurança para não voltar a perder estas maravilhas...
...e já agora, caro NA, cuja disciplina eu admiro para digitar tudo isto, não havia também uns versos para os condutores dos taxis?
quarta-feira, março 29, 2006
Podem citar a Carmen, a Susana, a Florbela, a Sofia, o Miguel ou o Luís. Mas não têm qualquer razão. Nenhum deles tratou melhor a dor de ver a nossa namoradinha partir com outro, definitivamente, do que o autor da letra desta canção. Vejam só esta passagem sublime:
Alô, bom dia, minha senhora
Daqui é o Johnny
Estou a telefonar
Porque me disseram amigos meus
Que a sua filha vai casar
Que ela parte hoje
Não, não lhe quero falar
O que eu quero é chorar
Mas diga-lhe que a amo
E que o Johnny lhe diz adeus.
Aliás, o tema do Adeus é recorrente nas canções da nossa geração. Ele é uma constante da canção francesa, do fado... Talvez lá voltemos.
Castanhola traiçoeira
Tinha uns sete anos quando participei numa encenação que teve lugar no cine-teatro de Ourém. A recordação já é muito ténue, mas pode ser que alguns amigos tragam mais algum elemento. Tratava-se de uma acção em que um grupo de meninos e meninas, vestidos a rigor, à antiga, eles com uma capa negra, entravam por um dos lados do palco ao som de uma música do tipo "Amor, amor, amor..." dispunham-se na perpendicular relativamente ao público e aguardavam. Depois, chegava um coche e lá de dentro saía uma princesa de inigualável beleza: a oureana mais linda dessa época. Os meninos estendiam as capas no chão e a princesa, graciosamente, aproximava-se do extremo do palco, saudando o público...
Mas chegar aqui não foi tão pacífico como podem julgar.
Tinham-me oferecido uma castanhola e eu divertia-me à brava com ela. Chegava ao Central e fazia "click, clack...", chegava à Marina e repetia a gracinha.
O meu par na peça era, de início, uma adorável oureana que, à ida para o colégio, parava frente à minha casa para irmos os dois. Era uma menina muito simpática, linda...
Já não me recordo porquê, mas penso que a preparação da encenação era numa casa nas traseiras da igreja. Lembro-me de lá estarmos, formando duas ou três filas, enquanto o encenador, Dr. Manuel Afonso (?, eis mais uma dúvida) nos dava mais uns conselhos para tão importante acto.
- Vocês têm de ter muita atenção ao momento em que chega o coche para que o movimento de estender a capa seja um só...
Eu ouvia-o com atenção. Mas, de repente, lembrei-me daquilo... levei a mão ao bolso e... "click".
O encenador calou-se imediatamente. Ao fim de algum tempo, disse:
- Agradeço que sejam obedientes e disciplinados. É impossível fazerem uma boa representação se o vosso comportamento continuar assim...
O problema é que eu só tinha feito metade do movimento. Naquele momento, a minha mão pressionava a castanhola, mas eu não conseguiria aguentar a posição por muito mais tempo.
E aconteceu: "clack...".
Senti como que uma clareira a abrir-se à minha frente na direcção do encenador. Todos a olharem para mim, virados de lado e, lá à frente ele, com ar de poucos amigos. Não consegui disfarçar.
- Luís, não esperava que fosses tão mal-educado. Sai. És indigno de pertencer ao nosso grupo. Sai!
Saí acabrunhado, envergonhado. Fui triste para casa, amaldiçoando o meu acto. Nem sei como consegui explicar à minha mãe ter sido expulso de um ambiente tão recomendável e saudável. O certo é que ela lá me fez apresentar as inevitáveis desculpas e eu voltei à encenação. O problema é que o meu par já não era o mesmo. Dançava bem, dizia-se, mas não era a minha oureana adorável.
A partir daí, nunca mais utilizei a castanhola...
terça-feira, março 28, 2006

Confesso que nunca li qualquer destes livros apesar do monumental fascínio que me provocavam.
Fantômas era um criminoso sempre em interactividade com o seu perseguidor (irmão?) Juve que despertava paixões em lindas meninas e prosseguia feitos grandiosos na senda do mal. Os amigos oureenses encontram em seguida alguns pormenores das edições estrangeiras (holandesa, turca...) que demonstram o impacto que teve na literatura policial de início/meados do século passado e na própria banda desenhada. Aliás disponho de uma capa de um album em que ele faz lembrar o malvado Olrik idealizado por Jacobs...




Em Portugal, podemos apontar 3 edições: 1914, um volume; 1952-1958, 32 volumes; 1956-1964, 30 volumes.
A segunda edição passou pela casa do largo de Castela, se não estou em erro ao preço de 12$50 cada volume (que julgo avultado para a época, e aqueles livros faziam parte do meu dia a dia na pequena estante onde também guardadva o Mundo de Aventuras e a outra literatura mais a meu gosto.
Penso que o tal imperdoável descuido também fez a Fantômas aquilo que a polícia durante muitos anos não conseguiu.
Em seguida, deixo-vos algumas capas da edição portuguesa, só possíveis porque contrariamente ao que se passa no nosso país, os franceses fizeram a acatalogação do obra...






mais informação aqui, uma página engraçadíssima.
domingo, março 26, 2006
Chamava-se "Demain tu te marries" uma das canções que mais ouvimos naquela década fabulosa do nosso crescimento. A intérprete era Patricia Carli, uma rapariguita com a cara cheia de sardas, não muito engraçada, mas com uma voz muito expressiva.
É curioso, lembro-me de um episódio em Leiria. Estava por lá no sexto ou sétimo ano, a estudar obviamente. Passeava-me na Avenida Heróis de Angola onde, frente às camionetas dos Claras, surgiu uma loja de discos: a Silis. Na montra, vi um disco em que se tapava a cara da rapariga e se prometia a sua (do disco) oferta caso a identificássemos.
Então eu, insigne conhecedor daqueles agentes da frivolidade, não haveria de concorrer? Preenchi o postalinho, pu-lo por baixo da porta e, dias depois, soube que tinha sido o premiado com um disco da Patrícia...
Oiça Demain tu te marries
sexta-feira, março 24, 2006
Afinal a minha querida Mónica de Sintra não era original na sua tão conhecida canção. A prová-lo temos as excelentes canções da década de sessenta que se dedicaram ao tema e que irão acompanhar os amigos oureenses na próxima semana. Canções de sentimento lancinante. A dor em toda a sua beleza. Garanto-lhes duas maravilhas daquelas de não perder de maneira nenhuma. Aliás serão as duas últimas desta fase já que possivelmente farão a ponte para a primeira semana / quinzena do fado do OUREM, mais uma efémera efeméride a não perder.
Há um pequeno senão. Um saltinho da agulha do gira-dicos provocu uma pequena ferida no início de uma delas e é-me impossível voltar atrás pois já não disponho do original. O meu editor musical também não me faz a passagem de MP3 para WAV pelo que não posso suprimir essa pequena passagem sem perder um CD (custo demasiado elevado para tão pequeno problema). Por isso, contentem-se. Lá para sábado à noite ou domingo de amanhã aqui estará a primeira dessas canções. Qualquer coisa do tipo: Arrete, arrete...
Perguntou alguém ao senhor K. se Deus existia. E ele respondeu assim:
"Aconselho-te a reflectir, para ver se o teu comportamento se modificaria consoante a resposta que se der à pergunta. Se não se modificar, poderemos esquecê-la. Se modificar, poderei dar-te alguma ajuda dizendo que tu próprio decidiste: precisas de um deus."
(Histórias do senhor Keuner, Brecht, tradução de Luís Bruhein, Hiena Editora, 1993)
quinta-feira, março 23, 2006
Também ouvi. E a decisão não é só do Reizinho, mas do PSD. Alerta o Skywatcher:
Desculpe ser aqui, mas tinha que manifestar o meu repúdio por aquilo que ouvi há pouco no Telejornal: O Reizinho da Madeira quer proibir as comemorações do 25 de Abril na Assembleia Regional. Será que aquele, a quem há bem pouco tempo chamou jocozamente "O SR SILVA", vai ficar calado, perante tal afronta e continuada guerra à democracia?
Eu sei que a actual vereação não é a única culpada.
A culpa nunca reside solteira e, neste campo, há décadas de desprezo votado a tais realizações. Mas é importante ter em conta este comentário do NA:
Como seria bom se em Ourém, houvesse uma casa/museu, onde podessemos aprender com o que no passado foi bem feito.
Há pouco tempo, alguém me contou que uma senhora que participava nestas peças teatrais tinha guardado os vestidos que usava quando representava e que "pensava dá-los aos pobres, pois já nã serviam para nada".
Se ninguém se mexer...adeus vindima!
quarta-feira, março 22, 2006
Mendigo desde criança
Porque a minha santa mãe
Não me deixou outra herança
Por ser mendiga também.
Durmo só pelos caminhos
Ladram-me os cães dos casais
Só sei o que são carinhos
Quando entro nos hospitais.
Quando às vezes sem ter pão
Tenho fome peço a Deus
Que me dê por compaixão
Um caminho lá nos céus.
E nem ele me consola
Que é tão negra a minha sorte
Que nem sequer por esmola
Deus tem para mim a morte.
É notável a documentação que o Outrora, pela mão de NA, nos traz sobre a vida cultural de Ourém na década de trinta do século passado. Esta geração que nos precedeu era formidável, deixou tesouros que, na sonolência e até alienação do meu tempo, não conseguimos prosseguir.
Até ao momento estão publicados os seguintes documentos:
- Má Lingua I - um folheto sobre as coplas da revista Má Lingua.
- Má Língua II - As Tremoceiras.
- Má Língua III - Central e Magarefe; foto do elenco das Tremoceiras.
- Má Língua IV - Pensões.
- Má Língua V - Fado do Mendigo; o Mercado; o Repolho.
- Má Língua VI - Varredores.
- Má Língua VII - Festeiros de Santo António.
- Má Língua VIII - O Sacristão; a Cegada.
- Má Língua IX - A Menina do Balão.
- Má Língua X - Os Barbeiros.
O meu irmão diz-me que, no convívio, quando o ambiente animava, o Melo (Fio de Azeite) e o Torrejano eram óptimos intérpretes destas canções populares.
Também possuí alguns exemplares mas o tal imperdoável descuido fez com que tudo se perdesse. Para que tal não volte a lamentar, já fiz uma cópia de segurança destas páginas do Outrora. E agora fico à espera de ler mais maravilhas que o NA nos traga, deixando no post seguinte um extracto que trsnaportarei para a mini-antologia do Ourem.
terça-feira, março 21, 2006
Há daquelas pessoas que não perfilham os mesmos ideais que nós, mas a quem admiramos a coragem, a capacidade e a persistência.Ainda na década de sessenta, o Jó Rodrigues chamou-me a atenção para alguém que utilizando a caricatura, a obscenidade e o texto mordaz fazia uma terrível desmontagem do sistema que nos dominava. Nessa época, tive a sorte de um dia na Marina ainda encontrar um dos livros que a Censura não tinha apreendido.
Refiro-me obviamente a Vilhena, personagem bem conhecida, de que os meus amigos encontrarão notável referência em Tabacaria e que, em 1961, na História Universal da Pulhice Humana, no texto sobre o Egipto, nos brindava com esta alusão:
"O seu regime era de tal maneira sombrio, sinistro e policial, que vós, amados leitores, criados num paraíso de liberdades, não conseguiríeis sequer imaginar. Em Assur, em Ninive e na Babilónia reinavam o terror, o bastão, a denúncia, o boato político, a incerteza do dia de amanhã. A cada esquina postavam-se ferozes Pideteucos armados até aos dentes, espiando os menores ruidos e as mais inocentes vozes"Deixo-vos com mais duas imagens e me vou porque o tempo escasseia-me...

Um retrato bem actual da nossa economia

A letra R
segunda-feira, março 20, 2006
A auja de Português
Nunca simpatizei muito com o tempo frio. Por isso, quando o Dr. Armando, numa aula de Português, nos encomendou uma redação sobre as estações do ano, não me fiz rogado. Escolhi falar sobre o Inverno e desatei numa ladainha confrangedora.“Tu, infame, maldito, tu que na floresta afogas o pobre animal que busca alimento, tu que nem poupas a velhinha que tirita de frio junto à lareira na cabana, tu que nos mandas tempestades e mil cataclismos, tu, cobarde, não mereces existir. Vai-te, desaparece e não tentes voltar.”.
***
Passados dias, foi a entrega das redações devidamente corrigidas. Não houve observações de maior até ao meu caso e aí o professor passou algum tempo a ler e a olhar-me.
Em certo momento, o Dr. Armando parou a leitura e olhou gravemente para a turma. Apesar de tudo estava muito calmo. Eu é que não. Comecei logo a pensar que o atrevimento me sairia caro e não escaparia sem sova. Meditou durante algum tempo e depois disse:
- Pois é, Luís... tens esta imagem da velhinha que corresponde bem à realidade, mas não podes ser tão negativo. Lembra-te que o Inverno, tendo todos esses defeitos, deixa nas terras aquilo que vai permitir que, mais tarde, tu vejas florescer o que tanto aprecias...
Ufa…...
domingo, março 19, 2006
sexta-feira, março 17, 2006
É chuva por todo o lado.
Não bastou o desastroso comportamento do Glorioso na semana em curso. Há pouco quase tiritava...
Eu que ainda ontem celebrava o Verão...
Será a falada unidade de contrários, discussão tão em voga ali para os lados do Anónimo?
Confesso que isto da dialética sempre me causou monumental confusão, especialmente quando defendida por mecanicistas no mais requintado estilo (o que não se aplica aos participantes na dita discussão...).
Por isso, vou prosseguir na linha mais recente. Sem contrários a chatearem-me. Vou preparar mais uma musiquinha para vos deixar com a data de domingo, mas possivelmente já a poderão ouvir amanhã à noite.
E a verdade é que, neste momento, têm todos os elementos para descobrir qual vai ser. Vamos voltar aos nossos amigos ......... e disponibilizar um MP3 com ..........
Ora façam o favor de preencher os espaços em branco.
quinta-feira, março 16, 2006

Ora aqui estão eles e, tal como o seu nome diz, são dois (ao contrário dos três mosqueteiros como podm constatar mais abaixo) Esta era a capa do Perdoname. Lembram-se?
Eu confesso e insisto que não. Apesar de tudo, a história musical constante na Net desmente-me e diz-me que eles andavam por lá. E o som que agora reconheço também.
E tenham cuidado, já que neste Verão podem voltar a encontrar-se com eles como podem ver na página que mantêm com todo o cuidado.
quarta-feira, março 15, 2006
Quando eu morrer e tu ficares sozinha,
longe do bafo quente do meu corpo,
tu, a quem eu amei, sei lá por vingança
de Deus,
nessa hora,
olha serenamente a nossa história inútil
e chora...
Rega de pura mágoa a flor do «nunca mais»
(sequer ao menos a flor do «nunca mais»)
e depois morde o chão seivado e semeado
do místico perfume do meu sexo
sepultado...
Miguel Torga
Parece-me incrível que nenhum dos amigos oureenses do meu tempo tenha reagido ao Perdoname. Era um dos nossos hinos.
Para castigo, retiro a música e viro-me para o oureense alvo trintão...
Lembram-se daquela série da década de 80, com miudagem, na praia, um velhote? Havia uma canção...
No próximo domingo, voltaremos com mais uma pérola da nossa geração.
Oiça El final del Verano
terça-feira, março 14, 2006
Imperdoável descuido
Aconteceu às minhas (e do meu irmão) colecções de cromos.
Há dias, visitei Tabacaria, um sítio relativo à história da Agência Portuguesa de Revistas e o seu autor conduziu-me a essas e outras colecções, criando-me monumental nostalgia. Que pena ter perdido aqueles retratos daquela época. Vejamos alguns...
segunda-feira, março 13, 2006
Perdão se pelos meus olhos
não chegou
mais claridade que a espuma marinha,
perdão porque meu espaço
se estende sem amparo
e não termina.
Monótono é meu canto,
minha palavra é um pássaro sombrio
fauna de pedra e mar
o desconsolo
de um planeta invernal
incorruptível.
Perdão por esta sucessão de água
da rocha, da espuma, o delírio da maré
assim é minha solidão.
Saltos bruscos de sal contra os muros
de meu ser secreto, de tal maneira
que eu sou uma parte do inverno
da mesma extensão que se repete
de sino em sino em tantas ondas
e de um silêncio como cabeleira
silêncio de alga
canto submergido.
Pablo Neruda
domingo, março 12, 2006
Amigos oureenses, como podem apreciar nesta canção, a voz do Tim dos Xutos e Pontapés nada tem de original. Ela já existia na década de 6o com o Duo Dinâmico...
Agora a sério...
Esta é uma das canções a quem o tempo terá feito mais estragos. Já é de difícil audição. A entrada, ultragongórica, a fazer lembrar "You are my destiny" de Paul Anka já não é muito atractiva. A língua arrevesada dos espanhóis também não é simpática. Mas esta canção era fabulosa...
Eu penso que a versão que nós gostámos era um bocadinho diferente. Era mais adocicada, o som era mais rock menos orquestral com o MArino Marini, mas não consigo encontrar essa gravação. Por mais colectâneas que veja da música italiana da época, Perdoname não surge nelas. Porquê?
Esta versão ainda tem alguma força naquele "suplicaaaaaaaaar... perdoname". Por isso, contentem-se com ela.
E perdoem-me se vos desiludi.
Oiça Perdoname
Olhem, finalmente em 14/08/2015, encontrei o Perdoname do Marino Marini:
sexta-feira, março 10, 2006
Era inevitável.
O baú chegou ao fim. Tenho de o reconhecer com tristeza, sentindo o blog a fugir-me para o túmulo.
Por mais voltas que dê, não consigo engendrar algo que lhe dê sustentabilidade daqui a algumas semanas.
Confesso, a política oureense não me agrada muito. Em tudo me sinto marginal. O defeito é meu pela certa, é uma questão de vocação, em Ourém parece que nada acontece, que é tudo velho, não estou para me repetir...
Reproduzi artigos de outros tempos.
Acompanhei algumas campanhas, mas agora vamos ter três anos de ressaca.
Escrevi o que me lembra Ourém em termos de temas ligados a canções, BD e pessoas da minha geração...
Que mais posso fazer do que deixar-vos esta lamentação?
Bom, dizem-me aqui ao lado que o título desta crónica faz lembrar uma canção do Rui Ventoso, "ao menos deixa a letra, pode ser que uma estrelinha te ilumine". Aqui fica...
Não Há Estrelas No Céu
Rui Veloso
Composição: Carlos Tê / Rui Veloso
Não há estrelas no céu a dourar o meu caminho,
Por mais amigos que tenha sinto-me sempre sozinho.
De que vale ter a chave de casa para entrar,
Ter uma nota no bolso pr'a cigarros e bilhar?
Refrão:
A primavera da vida é bonita de viver,
Tão depressa o sol brilha como a seguir está a chover.
Para mim hoje é Janeiro, está um frio de rachar,
Parece que o mundo inteiro se uniu pr'a me tramar!
Passo horas no café, sem saber para onde ir,
Tudo à volta é tão feio, só me apetece fugir.
Vejo-me à noite ao espelho, o corpo sempre a mudar,
De manhã ouço o conselho que o velho tem pr'a me dar.
Refrão
Hu-hu-hu-hu-hu, hu-hu-hu-hu-hu.
Vou por aí às escondidas, a espreitar às janelas,
Perdido nas avenidas e achado nas vielas.
Mãe, o meu primeiro amor foi um trapézio sem rede,
Sai da frente por favor, estou entre a espada e a parede.
Não vês como isto é duro, ser jovem não é um posto,
Ter de encarar o futuro com borbulhas no rosto.
Porque é que tudo é incerto, não pode ser sempre assim,
Se não fosse o Rock and Roll, o que seria de mim?
[Refrão]
Não há-á-á estrelas no céu...
quinta-feira, março 09, 2006
Os Searchers também eram de Liverpool.
Originalmente formados por Mike Pender, John McNally, Tony Jackson, desaparecido em 2003, e Chris Curtis, trouxeram-nos algumas das canções mais engraçadas da década de 60. O meu primeiro contacto com eles foi com um EP em que a principal canção era "Sweets for my Sweet" que teve assinalável êxito. As outras, coitadinhas, já não resistem a muitas audições, não obstante "Farmer John" ter uma certa graça.
Apesar de tudo, o som de muitos grupos portugueses da época inspirava-se neles e daí tudo neste conjunto nos parecer familiar.
Ainda mexem, apesar da morte de um deles, como os meus amigos podem constatar se os procurarem na NET.
Ontem, deixei-vos com algumas das melhores canções deles.
Hoje, brindo-vos com a letra daquela que nos tem acompanhado esta semana: "All my sorrows" que, curiosamente, conheço há muito pouco tempo.
Now there's just one thing that money can't buy
True love that will never die
All my sorrows soon forgotten
Carefree lovers down country lanes
Don't know my grief, can't feel my pain
All my sorrows soon forgotten
But it's too late, my love
Too late, but never mind
All my sorrows soon forgotten
Now there's one more thing that troubles my mind
My love has gone, left me behind
All my sorrows soon forgotten
But it's too late, my love
Too late, but never mind
All my sorrows soon forgotten
Aqui fica um apontador para estes nossos amigos...
quarta-feira, março 08, 2006
Em pequeno, ensinaram-me a rezar todos os dias ao Anjo da Guarda. Não fui muito obediente, por vezes esquecia-me, a partir de determinada altura o abandono foi total, mas a verdade é que tudo me correu bem como se tivesse tido sempre divina protecção.
Pouco depois de ter iniciado este blog, apareceu-me o Vigilante dos Céus. Há que preservar os activos que este espaço me trouxe. Por isso, especialmente para o Skywatcher aqui ficam apontadores para fabulosas músicas dos Searchers (o som garantidamente original depois de devidamente ripado) que coloquei propositadamente no nosso servidor musical da Putfile:
Don't throw your love away
For you might need it someday
Don't throw your dreams away, no, no, no, no
Keep them another day
For you might need them someday
Lovers of today just throw their dreams away
And play at love
They give their love away
To anyone who'll say "I love you"
Don't throw your love away, no, no, no, no
Don't throw your love away
For you might need it someday
Lovers of today just throw their dreams away
And play at love
They give their love away
To anyone who'll say "I love you"
Go out and have your fun
You better have your fun with anyone
But don't throw your love away
Don't throw your love away, no, no, no, no
Don't throw your love away
For you might need it someday
Don't throw your love away, no, no, no, no
Don't throw your love away, yeah
E digam lá que não vale a pena visitar o Ourem...
terça-feira, março 07, 2006
Esquecimento
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei… tateio sombras… que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro…
A sombra dos meus olhos, a escurecer…
Veste de roxo e negro os crisântemos…
E desse que era eu meu já me não lembro…
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos…!
Florbela Espanca - Charneca em Flor

O prospector do ouro
Para lá do cine-teatro, onde o Melo (o Fio de Azeite...) nos trazia as últimas novidades, o nosso contacto com o cinema materializava-se na noite de cinema da RTP e num delicioso programa de televisão denominado “Museu do Cinema”.
Será que os meus amigos ainda recordam o Vitor Guerra numa célebre imitação desse assumido adorador do Estado Novo:
- Então, mestre António Melo, diga lá boa-noite aos telespectadores portugueses.
E o mestre, muito acabrunhado, todo enfiado, não sabendo onde havia de se meter (como eu o compreendo de tão parecido que sou!) pronunciava:
- Boa noite...
E assim conhecemos muito do cinema mudo que, à época, já era património de acumulação bem passada.
Daí trago-vos uma recordação... (lembram-se?: Searchers) ... e como não vou passar o In serach of lost chord ou In search of lost Gods, trago-vos algo sobre a pesquisa de ouro, mais propriamente a “Quimera de Ouro”.
Eis algumas imagens inesquecíveis:“A Quimera do Ouro” narra as aventuras de um vagabundo prospector de ouro (interpretado por Chaplin ) no Alasca que se apaixona pela bela Georgia ( Georgia Hale ), tentando conquistá-la com o seu charme. O seu
único amigo é o descomunal Big Jim McKay ( Mack Swain ), mas a relação entre ambos varia entre a mais simples alegria e as tendências homicidas, particularmente quando, num delírio causado pela fome, Big Jim alucina e julga que Chaplin se transformou numa galinha. Esta é uma das várias cenas antológicas do filme, que atravessaram gerações até aos mais novos. Outra das mais inesquecíveis sequências do filme acontece quando Chaplin, esfomeado, transforma as suas bota e atacador num almejado bife e esparguete, encetando uma refeição surreal. Mas talvez a mais popular de todas as cenas seja a “dança dos pãezinhos”, de tal forma que em algumas exibições da época os projeccionistas paravam a fita e repetiam a cena para gáudio dos espectadores.
Apesar da tristeza adjacente às sequências que se relacionam com a fome, o filme acaba bem: Chaplin encontra ouro, torna-se milionário e, no regresso à Califórnia, fica com Georgia. O papel de Georgia (a apaixonada do vagabundo) foi originalmente escrito para Lita Grey - mulher de Chaplin na altura, mas, devido à sua gravidez, acabou substituída por Georgia Hale.In http://www.edusurfa.pt/area.asp?seccao=1&area=5&artigoid=9597






segunda-feira, março 06, 2006
Os solitários castelos de areia
não fazem barulho ao ruir.
No entanto,
é tão sibilante o som
que invade (sem licença) esta voz
que os versos,
que se queriam luminosos,
tenebrosamente se consolidam
em chuva.
Disfarçar o silêncio
com cantos tristes e compassados
não ajuda:
A máscara não assenta bem
nos rostos desiludidos.
Há um qualquer pormenor
que denuncia o engodo.
Carmen Zita Ferreira
domingo, março 05, 2006
Por um por todos por nenhum
faço o meu canto canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.
Por nenhum por todos ou por um
eu dou o meu poema o meu tecido
de palavras gravadas com o lume
do medo que na voz trago vencido.
Por nenhum por um mesmo por todos
sou a bala e o vinho sou o mesmo
que pisa as uvas os versos e o lodo
num chão onde a coragem nasce a esmo.
Joaquim Pessoa
in Poemas de Perfil

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!
Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada -
Deixai-os, que é tudo assim.
Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego -
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.
Fernando Pessoa, 3-9-1924.
Curiosamente, na sexta-feira, 4 de Maio de 2005 (e estou a preparar este post na sexta-feira, 3 de Março de 2006, já que, como calcularão, tudo tem de estar pronto no dia em que...) , eu escrevia aqui:
Memórias do vinil (10)
Fui daqui com aquela ideia de ir ao baú e procurar os discos dos Searchers.
Tive sorte e passei quase uma hora a olhar lá para trás. Afinal eles tinham algumas pérolas: "don't throw your love away", "good bye, my love"...
A certa altura, ouvi aquilo...
Ena, pá! O som era mesmo aquele. Aqueles sons das violas. Aqueles graves...
Como é possível que tudo tenha mudado tanto e os nossos ouvidos se tenham adaptado de tal modo que o esquecemos?
Amigos oureenses, antes de irem para o OCP ou ouvir o Helder façam isto: procurem os Searchers entre as velharias. Procurem uma maravilha chamada "All my sorrows" e deliciem-se...
E eu sinto uma cada vez maior mágoa por ver o OUREM morrer de dia para dia já que a inspiração me falha.
Já estão a ver: semana deprimente, dedicada às mágoas, à tristeza e também à procura, por exemplo, à pesquisa da verdade.
Oiça All My sorrows
sexta-feira, março 03, 2006
E ao décimo quarto dia, o Abdegas respondeu.
São engraçadas algumas das suas manias:
Só agora dei por estes dois: Chorus Auris e Foto&Legenda. Perdoar-me-ão com certeza a desatenção. E neste pedido de desculpas envolvo o Skywatcher, os Sérgios, o Nuno e o Pedro. Eu apresso-me a fazer a referência e a actualizar aquela coluna ali ao lado, sem me preocupar com total reformatação que isso daria para demasiado tempo.
A encosta da pedra rolante
Caminhavam pela encosta do moinho imbuídos pelo espírito de mil aventuras. Por vezes transportavam lanças, resultado da mutação de canas em virtual exercício mental, julgando ter com eles elemento de arremesso.
Naquele dia procuravam algo de diferente. Que encontraram...
No chão, a uns 100 metros da estrutura já esventrada do moinho, estava uma mó. Algo bem pesado pela certa. Em forma circular, convidava imediatamente a exercício mais radical.
- E se a apontássemos ao colégio?
- Temos de ser vários a agarrá-la. Vamos a isso.
Com a força que tinham, lá a conseguiram pôr de pé. Um ainda pôs ligeiro entrave:
- E se acertamos em alguém?
- Deixa-te disso.. Isto vai trespassar o ginásio e fazer monumental alarido no recreio.
Continuaram a apontar a mó.
- Vamos largá-la.
E a encosta começou por viabilizar a insólita descida. Algo impediu que ela se concretizasse na totalidade. Ou uma oliveira ou inclinação mais abrupta fizeram com que ela fosse encontrada uns metros mais abaixo e deitada de lado...
Lá em baixo, no colégio, o sr. Nunes tocou a campainha e, pouco depois, o recreio estava cheio de estudantes que ali foram gozar as delícias do intervalo…
quinta-feira, março 02, 2006
E quem sou eu para falar dos Rolling Stones? Nem pensem... olhem, encontram aqui quem o faça melhor e com excertos de músicas.Apesar de fazerem parte de quase toda a minha vida musical, nunca me entusiasmaram seriamente, mas há pequenos episódios ao longo do tempo.
O primeiro, que não posso deixar de vos recordar, é aquele do nosso Jó Rodrigues a identificar um belo solo em "Tell me you are coming back". Nessa época eu ouvia os Stones, mas embirrava com o seu som.
Depois as coisas foram melhorando. Uma tarde, o posto de turismo da Nazaré brindou-me várias vezes com "Get off my cloud" enquanto eu repousava na esplanada. Tanto bastou para tal música se me tornar inesquecível.
Mais tarde, aquela dos olhos cor de mel ajudou-me a ouvir "She is a rainbow", contribuindo para horas e passeios muito agradáveis.
"Ruby Tuesday" também faz parte da minha recordação dos Stones. Acho uma canção deliciosa. Aliás, seria interessante contrapor três interpretações de que me estou a lembrar: a do autor (Dylan, claro), a dos Stones e a da Melanie (que eu considero fabulosa). Talvez um dia pensemos nisso.
Finalmente, não posso deixar de vos referir "Lady Jane". É uma canção que está ligada a um daqueles episódios em que fui fértil. Imaginem que algum amigo vos pergunta:
- Por que é que eu fui na tua opinião? Ainda tu parto na cabeça...
O mais engraçado é que esta minha tendência para aconselhar os amigos “sem fazer concessões ao comercial” ocorreu com um outro a quem recomendei "Tubular Bells" de Mike Oldfield, aquele em que há uns quinhentos instrumentos (em momentos diferentes) sempre a tocarem a mesma coisa, mas, em que lá por dentro, o homem explora todos os sons inclusivamente os que se produzem em casa de banho. Claro que mais uma vez fui censurado... O Bastos acabou por trocar o disco por "Gracias a la vita" da Joan Baez.
Tudo isto para vos dizer que, hoje, vamos mudar de som, deixando uma pequena homenagem ao nosso querido amigo Jó Rodrigues com um dos discos que ele me ajudou a ouvir...
Oiça Tell me you are comming back
quarta-feira, março 01, 2006
Uma roda que rolava pela estrada de Leiria
Uma tarde o Domingos (irmão do TóLiz, Licínio, etc.) veio ter comigo e com o Jó Rodrigues. Era relativamente mais velho, já trabalhava, ao contrário de nós eternos descansantes daquela fabulosa juventude.
- Querem vir comigo? Vou a Leiria levar um pneu...
Claro que nem olhámos para trás.
O carro do Domingos era preto, naquele formato arredondado da época. Sempre bem afinado, não fosse ele um exímio conhecedor de mecânica automóvel. O pneu já estava em cima do tejadilho e arrancámos para Leiria.
O Domingos era um bom acelera. O carro devorava a distância com grande sofreguidão. E assim passámos a Quinta da Sardinha, os Cardosos e descemos os Pousos. Eu olhava para o lado contemplando a paisagem a partir do banco de trás. Passado o largo da Igreja dos Pousos, ali, onde tudo desce, os meus olhos foram atraídos por algo que se mexia na estrada e a descia atrás de nós.
- É curioso, vem uma roda sozinha a rolar pela estrada atrás de nós...
- Uma roda? – exclamou o Domingos admirado...
Ao mesmo tempo, um carro que subia a estrada desatou a apitar para a roda. O seu condutor, excitado, fazia estranhos gestos como se quisesse afastá-la da frente.
- Passa-se qualquer coisa esquisita...
E a verdade é que a roda continuava a descer pela estrada, contornando suavemente as suas curvas, perseguindo-nos como se guiada por tele-comando. O Domingos resolveu parar e estacionar e a roda veio depositar-se suavemente no para-choques do carro.
Claro que em cima do tejadilho já não existia roda nenhuma, ela tinha-se desatado, caído para a estrada e não quis perder o seu ponto de referência.
- Ele há cada uma!...
O resto do percurso fez-se sem mais incidentes, tendo-nos este acompanhado em conversa com cervejinha no Liz Bar...
terça-feira, fevereiro 28, 2006
Pedras rolantes, imagens eventualmente chocantes...
Esta é a bela Aguillera. Algum distinto oureense não gostaria de ser viola por breves minutos?
E apreciem agora as horas de relaxe daquela saloinha do country: a Linda Ronstad. Também passou pela Rolling Stone e partiu corações.

Nunca tinha ouvido falar da Tony Pearce, mas o contacto com a Rolling Stone permitiu recuperar de tão imperdoável lacuna...

Finalmente, e pesar da desilusão que é qualquer actuação ao vivo da dita, não posso deixar de vos brindar com mais uma fulgurante capa da Rolling Stone, esta dedicada à Britney...
E agora, perdoem-me, mas o Carnaval chama-me. Se divirtam...



