sábado, fevereiro 15, 2020

Nos cinquenta anos do Luís Nuno

Em 1998, o Luís Nuno fez cinquenta anos e tive o privilégio de ser convidado por ele para uma festa comemorativa desse evento a qual teve o seu lugar em Conímbriga.
O que o Luís fez nesse momento foi reunir no mesmo espaço pessoas provenientes de muitos locais onde deixou amizades e passar ali uns bons momentos a recordar com eles muitas peripécias.
Recordo a presença nessa festa de um grupo onde estava também o encenador Helder Costa da Comuna. Percebi, mais tarde, que esse grupo tinha estado com o Luís em França e que, em determinado momento, tinham sido uma espécie de núcleo duro da organização OCMLP, «O Grito do Povo».
Para que os meus amigos tenham uma ideia acerca da formação e natureza destas organizações deixo-vos um diagrama que já não sei a quem roubei (talvez às memórias do embaixador Seixas da Costa, não garanto), onde se destaca a formação de três das principais: PCP (m-l), UDP e MRPP.
Tenho de dizer que, na altura do 25 de Abril, todas estas organizações, mais o MES, me atraiam muito. No ISEG, o ambiente também tinha muito a ver com elas e, para mim, era uma tristeza ver MES e UDP a digladiarem-se (para certas disciplinas, chegou a aparecer um programa de cada uma das organizações). Isto é, antes de o Livre aparecer eu já defendia os princípios de união das esquerdas que este partido veio a encabeçar.
Cabe por fim acrescentar que esses amigos do Luís Nuno desenharam um painel com os cinco ideólogos do marxismo a que acrescentaram um esboço com uma imagem do Luís. Ele teve a amabilidade de oferecer um exemplar a cada um dos amigos. Mas eu fiquei danado: porque eu é que queria ser o sexto da representação.

sexta-feira, fevereiro 14, 2020

Terror no acampamento

A Guida e a Livinha chegaram aterrorizadas ao acampamento em alta correria, ficando os outros muito surpreendidos.
- Que se passa? – perguntou o Jó. – Não havia pilhas?
A Livinha sufocava, mas ainda pôde balbuciar:
- Somos perseguidas por uns bandidos que têm armas. Temos de fugir.
Alguns rapazes saltaram logo para cima do burro e tentaram pô-lo a andar. Mas este não se deslocou do mesmo sítio.
- Anda, alimária, anda – gritava o João cheio de raiva.
Nesse momento, chegaram os bandidos que lhes apontaram as armas.
- Quietos todos! – gritou um deles.
Mas a Luzinha não estava pelos ajustes. Colocou-se à frente deles, de costas para o burro, com as mãos na anca e ripostou.
- O que é que vocês querem? O melhor é largarem esses brinquedos imediatamente.
Ante a coragem dela, um deles hesitou:
- Não queremos fazer mal a ninguém, mas queremos saber o que essas duas viram – e apontou para a Guida e a Livinha.
Toda irritada, a Guida respondeu:
- Vimos um depósito de coisas roubadas…
- Malvada! Vou dar cabo de ti – disse o outro bandido.
E apontou a arma para ela. Mas a voz do João desviou-lhe a atenção.
- Calma! Calma! Acho que podemos chegar a um acordo…
- Que acordo? Fala! Confesso que não me agrada matar tanta miudagem de Ourém.
- É porque não és má pessoa. Olha, deixa-nos pegar nas nossas coisas e ir embora. E vocês vão à vossa vidinha. Nós prometemos esquecer tudo.
Mas a Guida não estava pelos ajustes
- Não esquecemos nada. Eles têm que devolver o que roubaram.
O bandido voltou a irritar-se e virou a arma para ela. Parecia disposto a disparar. Nesse momento, ouviu-se o ruído de dois jeeps e quatro GNR saltaram do interior dos mesmos rodeando os dois bandidos.
- Larguem as armas.
- Olha quem eles são. Os irmãos Catitinha… há quanto tempo andávamos à procura deles…
Sorridentes, a Mari’mília e o Estorietas chegaram junto dos amigos.
- Nós vimos elas começarem a ser perseguidas e fomos de imediato à GNR conduzindo-os até aqui. Foram impecáveis.
Nesse momento, o comandante do posto olhou o João e a Teresinha.
- Eu já os conheço de algum lado, não é verdade?
- Sim – respondeu o João. – Durante um ou dois dias fomos seus hóspedes.
- É notável como o neto do Dr. Preto e a filha da Dona Estefânia, que nos faz bolinhos tão bons, conseguem sempre meter-se em sarilhos…
- Desta vez, foi por uma boa causa – disse a Guida. – Há uma espécie de depósito de coisas roubadas num dos moinhos abandonados.
Um dos bandidos gritou:
- Não é verdade. Aquilo são coisas nossas. Compradas honestamente…
- Todos dizem o mesmo – respondeu o comandante.
Esta aventura foi muito falada por toda a Ourém e ainda hoje muitos oureenses recordam o momento em que o João e dois amigos queriam fugir de burro e a Luzinha fazia frente aos bandidos com toda a coragem tal como está registado numa foto da época…

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

O encanto do roseiral

A Mari’mília e o Estorietas chegaram à loja da Lourinhã. Atendeu-os a mesma senhora que tinha atendido as miúdas.
- Boa tarde. Estiveram aqui duas meninas a comprar pilhas?
- Estiveram, sim – respondeu a senhora. – Duas meninas muito simpáticas de Ourém. Foram embora há cerca de meia-hora.
- Mas como é possível se não as encontrámos no caminho para aqui.
- Sabem, eu disse-lhes para irem ver as lindas flores que há ali à direita e elas foram por lá.
- Isso explica que as não tenhamos encontrado.
Pouco depois, o Estorietas e a Mari’mília caminhavam na direção do roseiral.
- Gosto de passear contigo pelas terras altas de Ourém. – dizia ele.
- Sim, isto é muito agradável. É ar puro, são flores silvestres. É um perfume inebriante. E o Sol ainda está tão quente. Parece que um amor tórrido nos inunda a alma…
- O amor… sempre o amor...
O Estorietas contemplou o roseiral e, sem se conter, cortou uma rosa e ofereceu-a à miúda.
- Aceita esta flor como prova…
Não pôde continuar. Um carro branco fez uma travagem com enorme ruído na estrada ali ao pé. Dois homens saltaram lá de dentro, sacaram de uma arma cada e desataram a correr na direção do moinho mais perto do acampamento.
- Que coisa estranha! O que se passa? – perguntava ela.
Nisto viram as duas miúdas, a Guida e a Livinha, a fugirem a toda a velocidade.
- Eles vão a persegui-las e vão na direção dos outros.
- Que podemos fazer?
- Nicha, temos de descer esta colina a toda a velocidade e avisar a GNR. Esses dois têm armas, temos de ser muito rápidos.
E, com a sensação de que eram perseguidos por um urso, desataram a correr por ali abaixo. Quase que rebolaram pela colina estando em poucos minutos atrás da casa do Ferraz. Dali à GNR foi uma corrida de mais uns duzentos metros. Pouco depois, um jeep com três GNR e um jeep com um GNR e os nossos amigos partiam em alta velocidade na direção do Fernão Lopes, passando por trás do ginásio perante a surpresa de todos aqueles que ali se deliciavam a fumar um cigarro.




E agora? A nossa estória aproxima-se do fim. Será que se salvarão os amigos do Estorietas? Não deixe de ler amanhã a conclusão desta estória…

quarta-feira, fevereiro 12, 2020

O tesoiro da colina

A Guida e a Livinha saíram de junto do grupo, caminhando em linha recta na direção da Lourinhã. Pouco depois, estavam na terreola e numa pequena loja adquiriram as pilhas necessárias ao gira-discos.
A dona da loja conheceu-as.
- É a filha do senhor Fernando Rodrigues e a filha do senhor Lains. Nunca mais me esqueço que vieram à minha loja. Querem alguma coisa para comer?
- Não – respondeu a Livinha – A senhora é muito amável. Vamos voltar para o pé dos nossos amigos, mas vamos ver umas flores que, ao longe, parecem muito bonitas.
- Têm toda a razão. Se desviarem um bocadinho à direita, encontrarão um roseiral único. Nunca no concelho se viu algo assim.
Com as pilhas partiram na direção indicada e, em breve, contemplavam as rosas mais bonitas que algum dia lhes tinha sido dado ver.
- Que bonito! – dizia a Guida.
O cheiro das rosas misturava-se com o cheiro do alecrim criando um ambiente quase místico.
- Que bem cheira! – dizia a Livinha. – Parece-me que estou em Fátima em dia de oferta de flores…
Seguramente, estiveram uma meia-hora a apreciar as flores. Depois, iniciaram a viagem de regresso.
- Já devem estar preocupados connosco.
- Eles? – respondeu a Guida. – Estão bem a jogar às cartas. Não se ralam com ninguém.
Passaram junto aos moinhos e contemplaram aquele espetáculo deprimente. Sem velas, sem portas, quase a cair…
- Tudo abandonado! É uma pena que as pessoas não preservem o que foi a sua vida ou a dos seus pais há uns anos atrás.
Quando chegaram junto do terceiro moinho, notaram uma pequena diferença.
- Olha! Aquele tem uma porta que até parece nova. Vamos ver…
Encaminharam-se para o moinho e, pouco depois, estavam junto dele. A Guida empurrou a porta e esta abriu-se sem um esforço de maior. Ela aproveitou para entrar no moinho e proferiu logo uma exclamação de assombro.
- Oh! Parece um tesouro.
Efetivamente, pelo interior do moinho, viam-se objetos de prata, de ouro, televisores, gira-discos, tudo coisas com valor…
A Livinha deu uma sugestão.
- Parece mais um depósito de coisas roubadas.
Nesse momento, ouviram um ruído horroroso, terrivelmente agressivo.
- GGGRRRRRRRR!!!!!!!!!
Da parte superior do moinho, com o nariz engelhado, os dentes de fora, vinha um cão enorme ainda com olhos de ter estado a dormir.
- Foge! – gritou a Guida.
A Livinha deu um salto para o exterior e a prima imitou-a, puxando a porta com toda a força que se fechou atrás delas. Ainda sentiu o bafo do cão junto da mão.
- E agora? Que fazemos?
- Temos de avisar os outros do que aqui há e possivelmente a polícia.
Lá dentro, o cão ladrava e atirava-se contra a porta com uma ferocidade incrível.
- Ai se ele nos apanhasse. Não restava nada de nós.
Mas o perigo não tinha passado. Nesse momento, vindo da estrada, ouviram o ruído da travagem de um carro. Dois homens saltarem lá de dentro e começaram a correr na direção delas. A distância ainda era grande pelo que decidiram voltar ao acampamento.
- Vamos embora. Corre!
Os dois homens gritavam um para o outro.
- Não podemos deixá-las escapar. Se isso acontecer estamos perdidos.
E cada um deles puxou de uma pistola…


(continua amanhã)

terça-feira, fevereiro 11, 2020

Em busca das meninas

Estorietas e Mari’mília partiram na direção dos moinhos. Pouco depois, o grupo deixou de os ver.
- É estranho elas não terem aparecido.
- Possivelmente, a loja não tinha pilhas e foram procurar noutra.
Junto a um dos moinhos, olharam Ourém. Era impressionante a paisagem com o Castelo do outro lado.
- Ainda um dia, poderemos ir de teleférico daqui para o castelo.
Continuaram a caminhada na direção da Lourinhã e das miúdas não encontraram qualquer sinal.
- Tu, que consegues subir às árvores, podias subir àquela oliveira e ver se as avistas.
A Mari’mília não se fez rogada. Parecia uma gazela, toda ela fibra, a subir pela árvore acima. O Estorietas apreciou o seu belo movimento.
- Tens muita classe – disse ele.
- Faço isto desde pequenina. Aos sessenta ainda vou apanhar azeitona a tua casa.
Ela olhou o horizonte.
- Então?
- Não vejo nada e já ali estão as casas da Lourinhã.
- Vamos até lá.
Ela começou a descer da árvore.
- Dá-me uma ajudinha. É mais fácil subir que descer.
O Estorietas aproximou-se da árvore e ela deixou-se cair na sua direção. Ele amparou-a, impedindo-a de cair, sentindo a sua respiração um pouco ofegante. Teve de a puxar para si para que ela não se estatelasse.
- Cuidado! Ainda cais…
A preocupação deles começava a ser grande. Que se passaria com as duas meninas? Ter-se-iam perdido?
(continua amanhã)

segunda-feira, fevereiro 10, 2020

Uma demora estranha


Numa tarde primaveral, a Luzinha chegou ao café Avenida com um ar bastante animado.
- Meninos e meninas, o Zé Carlos emprestou-nos o burro. Podemos levá-lo com o nosso farnel e os nossos discos carregados nos alforges e ir fazer um piquenique.
Alguns resmungaram.
- Outra vez, os castelos? Já estou farto…
- A ideia é outra. Há um caminho pouco íngreme para os moinhos que passa por trás do Colégio. Vamos por ali acima e fazemos o acampamento já lá no alto. Tenho um postal de como aquilo era há uns anos. Até lá andavam rebanhos.
- Que bucólico! – disse a Teresinha visualizando o belo postal que ela mostrava.
Alguns continuavam a preferir uma tarde de jogo de cartas, mas a Luzinha foi perseverante.
- Conto contigo, Estorietas, para fazeres a reportagem. Que dizes?
- Claro que podes contar comigo. Daqui a uns cinquenta anos serei o cronista de Ourém e muito mais famoso que o Fernão Lopes. Até vou sugerir uma mudança de nome: em vez de Colégio Fernão Lopes, deverá chamar-se Ruínas do Estorietas…
Aos poucos, ela conseguiu mobilizar um grupo razoável. A Livinha prontificou-se quase de imediato:
- Vou a casa preparar umas sandochas para levarmos. Daqui a um quarto de hora estarei aqui.
O Jó e a Guida também tiveram de concordar, pois eram eles quem levava o equipamento musical. A Luzinha contou os voluntários para o piquenique e disse:
- Precisamos de mais uma menina para o bailarico.
Do outro lado da rua ia a Maria Emília que raramente os acompanhava e ela correu a convidá-la para o piquenique.
- Tu podes conduzir o burro, pois tens mais experiência.
A Nicha riu-se e, daí a pouco, estava um bom grupo à frente do Avenida à espera da Livinha, do Jó e da Guida. Pouco depois, uma estranha excursão, percorreu a Avenida: um burro com dois alforges bem carregados e uma menina a puxá-lo e um grupo de rapazes e raparigas atrás deles a cavaquearem. Junto ao Zé Canoa, viraram à esquerda e, mais acima, penetraram no pinhal. Pouco depois, passaram atrás do ginásio do CFL por um caminho estreito com uns dois metros de largura e continuaram por ali acima embora com suave inclinação.
Já estavam um pouco cansados quando chegaram a um planalto. Lá adiante via-se o esqueleto de três moinhos abandonados. A atmosfera estava maravilhosa, respirável. O som do silêncio era inebriante.
Montaram duas mesas de campanha e o Jó encarregou-se do som. De repente, ouvimos uma exclamação de desespero:
- Bolas! Que chatice!
Olhámos naquela direção e vimos o Jó visivelmente irritado com a irmã.
- Trouxeste as pilhas que estavam gastas! Agora não temos gira-discos. A culpa é tua, eu disse-te onde estavam as novas.
- Deixa. Eu vou a casa buscá-las – respondeu a Guida.
- Nem penses, é muito longe.
A Livinha lançou uma sugestão.
- Há uma pequena loja depois dos moinhos na Lourinhã. Eu posso lá ir comprar as pilhas num instante. É muito mais perto que a casa da Guida.
Esta ofereceu-se logo.
- Eu vou contigo, priminha…
E as duas miúdas completaram a subida da colina, fizeram a travessia junto aos moinhos. Pouco a pouco, as suas figuras foram desaparecendo cada vez mais pequenas.
O João, o Jó, a Teresa e a Luzinha encetaram um jogo de cartas. O Estorietas falava junto a uma árvore com a Emília. Mais abaixo, o Jó Alho e o Rui Themido davam uns toques numa bola.
E o tempo foi passando. Meia hora, uma hora, hora e meia…
- Que estranho! Já deviam cá estar há muito tempo…
- Se calhar, não as devíamos ter deixado ir sozinhas…
A preocupação começou a invadir o grupo. O Jó era o mais despreocupado.
- Não se ralem. A minha irmã gosta muito de ver flores. Deve andar a apreciar os jardins silvestres.
Foi então que o Estorietas resolveu agir.
- Eu vou ver o que se passa. Nicha, vens comigo?
E partiram os dois à procura da Guida e da Livinha. Que se passaria com as duas miúdas?

sábado, fevereiro 08, 2020

Uma construção que se refaz

Em deslocação aqui pela Parede, notei uma estranha construção. Não eram só as pedras, mas também as duas cruzes que mal se distinguiam na parede e que só a fotografia me fez notar. Quase me senti o fotógrafo do «Blow-up». Para além disso, aquilo parecia um altar onde se poderão colocar oferendas.
Esta construção já está naquele local há alguns meses. Houve uma vez que as pedras não estavam empilhadas, sugerindo que tinham sido destruídas, mas, logo no dia seguinte, estava refeita.
Que coisa estranha é esta? O que pretende quem a mantem?
Procurei imagens semelhantes na NET e fui conduzido à civilização Inca e à palavra «apacheta».
Apachetas são altares em honra aos deuses incas.
Utilizando pedras encontradas pelo caminho ou nos espaços em que vivem, as pessoas vão empilhando uma em cima da outra, em formato cónico, para pedir e agradecer principalmente a Pachamama (Madre Tierra) e aos Apus (deuses das montanhas).
Pedir para que tenham proteção, para que tenham uma bela colheita, um bom ano...
Agradecer pela saúde, pela chuva, pela fartura, pelas estrelas, pelo sol, pelas riquezas da natureza...
As apachetas podem ser formadas por pedrinhas pequenas ou por pedronas. Algumas chegam a alcançar 3 metros de altura.
Um dos provérbios fundamentais dos guias peruanos diz-nos algo como isto:

Na vida há três caminhos: o certo, o errado e o do coração.
O certo nem sempre é o certo, o errado nem sempre é o errado, mas o do coração é sempre o do coração.
Portanto, segue o teu coração!

Posso não saber o que significam aquelas pedras tão perto de mim, mas posso garantir que o que é válido para os Incas também o pode ser para nós…

sexta-feira, fevereiro 07, 2020

A menina que colecionava lacraus

Conheci a Gracelinda ainda muito novinha no CFL. Curiosamente, pensava que ela me tinha acompanhado desde a primeira classe, mas há dias ela revelou que só tinha entrado no colégio para a quarta classe. Mas gostei logo dela. Tanto que, um dia, numa aula, pus-me a dizer em estilo de cantarolar:
- Gracelinda, és muito linda…
Tanto bastou para que as alcoviteiras de serviço começassem logo a dizer:
- O Luís gosta da Gracelinda…
Eu sabia lá. Simpatizava com ela, achava piada ao nome e, por isso, nunca a esqueci. O certo é que nunca me apercebi no seu ego da sua vocação para freira recentemente revelada. Claro, era uma pessoa bondosa, simpática, bonitinha, mas de freira não tinha nada… como poderão concluir através de uma revelação que vos vou deixar.
A Gracelinda era uma pessoa adorável, mas tinha um estranho costume: ela tinha a mania de colecionar lacraus…
Como vivia no campo, rapidamente apurou uma técnica de levantar uma pedra, ver lá o bicho, apanhá-lo com um rápido movimento dos deditos e enfiá-lo numa caixa de plástico transparente. Através de um orifício, dava-lhe umas ervitas e uns insectos e o simpático bicharoco ia sobrevivendo.
Por essa altura, no cineteatro de Vila Nove de Ourém foi projetado o filme «Marcelino, pão e vinho» com o Joselito. Eu gostava mais da Marisol, mas lá fui ver o filme e assisti ao sofrimento do rapaz quando sofreu a mordidela do lacrau. O filme foi muito comentado no CFL.
Um dia, numa aula de Inglês, o Dr. Laranjeira interrogou a turma:
- Decerto já viram o filme do Joselito. Quem é que sabe como se diz lacrau em inglês?
Respondeu logo a sabichona do Castelo:
- O lacrau é uma espécie de escorpião. Deve ser scorpion.
Ao lado dela, a Gracelinda não se fez rogada e puxou a sua caixinha de estimação com dez lacraus bem nutridos.
- Olhem o que eu aqui tenho. Posso distribuir pela turma toda.
A Ciete viu aquilo e só lhe ocorreu gritar:
- Ai! Que horror! Ela trouxe lacraus para a aula…
O Dr. Laranjeira ficou amarelo. As meninas ao lado da Gracelinda fugiram dela e abriram a porta da sala para escapar. Mas a pequena com toda a calma, voltou a guardar a caixinha na mala e disse:
- Bom! Era só para ilustrar a aula. Escusavam de fazer uma cena dessas.
Quando tudo acalmou, do alto da sua sabedoria e autoridade, o Dr. Laranjeira só disse:
- Gracelinda, nunca mais traga qualquer espécie de bicho para as aulas.
Bolas! E tinha a miúda vocação para freira…

quinta-feira, fevereiro 06, 2020

Regresso à aula de Português

Uma das técnicas do Dr. Laranjeira para prestarmos aos livros de leitura obrigatória maior atenção, era fazer proceder a uma leitura dividida entre os diferentes alunos, por vezes intervalada por comentários para melhor interpretação ou para introduzir conceitos da gramática.
Foi assim que fizemos quase um teatro a ler o «Frei Luís de Sousa» que culminava naquele: «Quem és tu, romeiro» e na resposta com o dedo a apontar: «Aquele…».
Mas, se a leitura da obra de Garrett decorreu excecionalmente bem, até porque convidava a usar um certo estilo teatral, ao passarmos por Júlio Dinis, as coisas não foram tão fáceis.
Estávamos a tratar a obra «A Morgadinha dos Canaviais». A aula já ia um pouco longa e o professor quis fazer-nos ler algumas passagens.
- Começa a menina Borda d’Água.
E a Lena não se fez rogada. Com voz firme, pausada, bem colocada iniciou a leitura da passagem atribuída.
- «O ti' Zé Pereira era homem dos seus quarenta e tantos anos; tinha no rosto, principalmente no nariz, vestígios evidentes das suas simpatias pela divindade celebrada nos antigos ditirambos. Esposo da Sra. Catarina do Nascimento de S. João Baptista, vivia em perene sabatina com a sua cara-metade, sujeitando lhe todas as suas ações, mas salvando sempre o direito de protestar pela palavra. Ganhava a vida no ofício de hortelão, e, aos domingos e dias de festa, à força de rufos e pancadaria na retesada pele do seu companheiro inseparável — o zabumba. Era aos cuidados e vigilância deste par conjugal que o recoveiro Cancela confiava o seu mais precioso tesouro, a pequena Ermelinda, uma mimosa criança, que lhe ficara à sua viuvez, tão cheia de saudades, e a quem ele mais queria do que à menina dos olhos.
«Ermelinda era afilhada da família Zé Pereira, e a mesma a quem ouvimos referir-se Ângelo no fim da carta.»
O Dr. Laranjeira interrompeu a leitura da Lena e disse:
- Estivemos a caraterizar a figura do ti’ Zé Pereira e a submissão conjugal a que ele se sujeitava. Mas há esta passagem em que se fala numa divindade celebrada em antigos ditirambos. Quem sabe o que é isto?
Ouviu-se logo a vozinha da sabichona:
- É uma referência ao Deus do vinho, Baco…
- Mas aqui a referência é a Grécia. Daí ser uma louvação a Dionísio. Prossiga agora o Luís Manuel.
- O Zé Pereira é parvo – dizia o Amândio ao meu lado.
O certo é que eu estava a achar piada à descrição. Parecia que via a figura do homem tisnado pela bebida. E iniciei a leitura.
- «Zé Pereira estava, como dissemos, só na cozinha, quando Augusto ali chegou: sentado, no meio da sala, sobre um alqueire voltado com o fundo para o ar, viradas as costas para a porta e a face para o lar apagado e vazio, falava, gesticulava e mudava de tom desde a nota mais grave e rouca da sua escala de barítono, até o mais agudo e desafinado falsete. A língua pegava-se lhe ao céu da boca, dificultando-lhe suspeitosamente a articulação de algumas sílabas; era evidente que se apossara do hortelão o espírito familiar, o qual, neste caso, era um verdadeiro espírito, na aceção química do termo.»
Naquele momento, começou a invadir-me irreprimível vontade de rir. Mas ainda continuei:
- «Zé Pereira era um homem baixo, já grisalho, suficientemente nutrido, de olhos vesgos e que mais vesgos se faziam quando o entusiasmo, o rapto artístico se apoderava dele; usava de umas suíças que pareciam tentar sumir-se-lhe pela boca dentro; tinha longos braços, acomodados às dificuldades e evoluções da sua arte, e pernas que, do joelho para baixo, lhe divergiam em ângulo de mais de trinta gra… gra… gra… us.»
Não aguentei mais. Um homem baixo, nutrido, vesgo, com umas suíças até à boca era demais. Ainda tentei, mas as palavras não saiam. Ri, ri, ri que nem um perdido.
Os outros alunos começaram todos a rir também e eu que não parava. O Dr. Laranjeira teve de interromper a aula e fazer uma pausa.
Quando tudo acalmou, virou-se para mim e disse:
- Não sei onde estava a piada…
- Desculpe, professor, não aguentei, comecei a ver a figura do homem à minha frente…
- Espero que não se repita, se não terei de falar com o diretor…
A verdade é que nunca mais esqueci esta aula de Português. E resta dizer que o relacionamento com este professor foi, a partir daí, sempre excelente.

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

O equipamento do padre



Uma formosa menina, muito viajada e culta, residente em Ourém, mas cuja identidade não me é possível revelar, estava num avião vindo da Suíça. Vendo que estava sentada ao lado de um padre simpático, perguntou:
- Desculpe-me, padre, posso pedir-lhe um favor?
- Claro, minha filha, o que posso fazer por si?
- É que eu comprei um novo secador de cabelo, sofisticadíssimo, muito caro. Realmente ultrapassei os limites da declaração e estou preocupada com a Alfândega. Será que o Senhor o poderia levar debaixo de sua batina?
- Claro que posso, minha filha, mas certamente sabe que eu não posso mentir!
- O Senhor tem um rosto tão honesto, Padre, que estou certa de que eles não lhe farão nenhuma pergunta. 
E deu-lhe o secador.

*




O avião chegou a seu destino. Quando o padre chegou à Alfândega, perguntaram-lhe:
- Padre, o senhor tem algo a declarar?
O padre prontamente respondeu:
 - Do alto da minha cabeça até a faixa na minha cintura, não tenho nada a declarar, meu filho.
Achando a resposta estranha, o fiscal da Alfândega perguntou:
- E da cintura para baixo?
- Eu tenho um equipamento maravilhoso, destinado a uso doméstico, em especial para as mulheres, mas que nunca foi usado.
Soltando uma sonora gargalhada, o fiscal exclamou:
- Pode passar, Padre! O próximo...



A inteligência faz a diferença.
Não é necessário mentir, basta escolher as palavras certas.



segunda-feira, fevereiro 03, 2020

Uma procissão atravessa Ourém



Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.

*

Mas um dia que a procissão passou por Ourém, as coisas não foram bem assim. O Padre tinha ganho o bonito hábito de ir saudando os fiéis e beijando as criancinhas.
Naquele dia, entre a multidão estava a nossa bem conhecida Leninha Borda d´Água, uma menina que tinha a mania de puxar o braço da pessoa quando a cumprimentavam, mesmo ao estilo do nosso venerado Presidente, professor Marcelo, que um dia aplicou o golpe ao inenarrável Trump.
E o Padre lá vinha no meio da procissão saudando e beijando à esquerda e à direita. Quando chegou junto da Lena, esta chamou:
- Senhor Prior! Senhor Prior!
O religioso não respondeu, mas aproximou-se dela estendendo a mão. A Lena não hesitou, pegou na mão e puxou por ela, levando o Padre a estatelar-se no chão:
- Oh! O que eu fiz…
As pessoas ajudaram o Padre a levantar-se e a Lena olhou para o chão acabrunhada. Ele aproximou-se e deu-lhe duas palmadas bem merecidas e com ar de zangado:
- Nunca mais voltes a fazer isto, menina mal-educada…
Nessa noite, a Lena sonhou que, um dia, o Papa iria ser puxado com brusquidão por uma mulher de aspeto oriental e que, depois de lhe ter dado uma palmada, acabou por pedir desculpas por se ter irritado.
- Só a mim ninguém pede desculpa – murmurou ao acordar enquanto um soluço lhe percorria o corpo…

sábado, fevereiro 01, 2020

Compilação do desvario alentejano

Que os Deuses do Olimpo Alentejano me perdoem ...
O que é que os Alentejanos chamam aos caracóis?

Animais irrequietos.

O que é que os Alentejanos esperam depois da seca?

Que as vacas deêm leite em pó.

Por que é que os Alentejanos leêm os jornais nas esquinas?

É para o vento lhes mudar as folhas.

O que fazem 17 Alentejanos à porta do cinema?

Estão à espera de mais um, porque o filme é para M/18.

Qual a melhor Universidade do mundo?

A de Évora porque entram Alentejanos e saem Engenheiros.

Um dia um Alentejano diz pra mulher:

- Maria põe a mesa no quintal que hoje vamos jantar fora.

Por que é que os Alentejanos treinam futebol na piscina?

Para puderem treinar lances em profundidade.

Por que é que os Alentejanos semeiam alhos nas bermas das estradas?

Porque o alho faz bem à circulação.

Na prisão estão dois Alentejanos. Diz um para o outro:

- Olha lá é meio-dia ou meia-noite?

Responde o outro:

- Nã sei o mê relógio tá parado.

Por que é que os Alentejanos plantam 3 laranjeiras juntas?

Para sair directamente Trinaranjus.

1º Lema do Alentejano:

Mais vale uma mão inchada do que uma enchada na mão.

2º Lema do Alentejano:

Mais vale morrer de frio do que trabalhar para aquecer.

Qual é a peça da mota que os Alentejanos gostam mais?

É o descanso.

Um Alentejano vai à praia pra se bronzear. Deita-se na areia, adormece e quando acorda vê um preto ao lado dele a apanhar sol.

- Ó cumpadre, há quanto tempo é que está cá?

- Dois dias.

- Porra e eu que era pra ficar quinze dias.

O que é que os Alentejanos fazem no fim de um dia de trabalho?

Tiram as mãos dos bolsos.

Por que é que os Alentejanos costumam dormir com o relógio debaixo deles?

É para acordarem em cima da hora.

Como é que os Alentejanos fazem o controlo da natalidade?

Atiram pedras às cegonhas.

Por que é que os Alentejanos quando andam de mota levam um machado à frente?

É para cortarem o vento.

Onde é que os Alentejanos costumam guardar o dinheiro?

Debaixo da enchada. Ninguem lá toca.

Estavam dois Alentejanos a brincar à apanhada. Vai um deles e diz assim:

- Já estou farto de correr atrás de ti. A partir de agora corres tu à minha frente.

Vai o outro e diz:

- Tá bem, por mim tanto faz.

Uma brigada de transito estava a fazer um relatório de um acidente de viação e perguntou a um pastor Alentejano como tinha sido o acidente. 

Resposta do pastor:

- Os senhores guardas veêm ali aquela estrada? Veêm aquela curva? Veêm aquele chaparro? Olhe eles nã viram.

Por que é que os Alentejanos se levantam de madrugada?

É para estarem mais tempo sem fazerem nada.

Por que é que os Alentejanos não bebem leite frio?

Porque não conseguem meter a vaca no frigorifico.

Por que é que os bolsos das calças dos Alentejanos são de plástico?

É pra meterem o salário líquido.

Como é que os Alentejanos arranjam dinheiro para comprarem um video?

Vendem a televisão.

Estavam dois velhos Alentejanos falando sobre o mar quando a páginas tantas diz um pro outro:

- Oh home, cala-te que nã percebes nada de mari.

Resposta pronta do outro:

- Pra tua informação, o mar morto, que é o mar morto já eu o conhecia antes dele estar doente.

Estão dois alentejanos encostados a um chaparro à beira da estrada, quando passa um automóvel a grande velocidade e deixa voar uma nota de 100 euros que vai cair no outro lado da estrada. Passados cinco minutos, diz um alentejano para o outro:

- Cumpadri, se o vento muda temos o dia ganho.

A futura sogra alentejana para o futuro genro, também alentejano:

- Ouve lá. Tu queres a minha filha para casar ou pra quê ?

- pra quê.

Sabem porque é que os alentejanos preferem apanhar azeitonas em vez de caracóis?

 Porque as azeitonas estão paradas.

Sabem como é que um alentejano mata uma minhoca?

Enterra-a.

Conversa entre alentejanos:

- Cumpadri, porque é que você arrancou dois dentis no mesmo dia?

- Porque o dentista não tinha troco de 100 euros.

Um turista chega a beira de um alentejano e pergunta-lhe:

- Já nasceu aqui algum grande homem?

- Nã senhori. Aqui nascem crianças!...


Um alentejano para o outro:

- oh compadri, vai chover!

- ora essa, va vocêmecê...

Por que é que mandaram 10000 Alentejanos para o GOLFO quando houve conflitos?

- Foi para acalmarem a situação.


   

sexta-feira, janeiro 31, 2020

Salvos pelo cachorro

No CFL, estranhava-se a ausência da Teresinha e todas ficaram espantados quando alguém trouxe a notícia da sua detenção.
O Dr. Armando reuniu os alunos mais relacionados com ela e afirmou:
- Alunos do CFL, deem muita atenção ao que se passou que não me admira absolutamente nada. Esse Passarinho é um malandro que já fez várias partidas aqui no Colégio. Até acho bem que esteja preso. A Teresa é uma menina exemplar. Mas eu conheço o graduado e sei que ele é uma pessoa ponderada. Decerto a vai libertar dentro em breve. Eu próprio falarei com ele se a libertação se atrasar.

A Gracelinda é que não gostou nada do que ouviu. Não achava bem que miúdos tão jovens estivessem detidos na prisão. Assim, combinou rapidamente um plano com o seu Pepe…

*

Nessa tarde, vestida de freira, a Gracelinda dirigiu-se ao posto da GNR. O graduado reconheceu-a imediatamente:
- Oh! É a menina Gracelinda. Então, voltou ao convento.
- Ainda não, mas estou a ponderar fazê-lo. Vim aqui pois soube que a Teresinha está presa por uma questão fútil. Acha que posso falar com ela?
O graduado tinha as chaves da cela em cima da mesa e levantou-se para cumprimentar a jovem.
- Sabe? Contamos libertá-la dentro em breve, até já aqui tenho as chaves, mas pretendemos que lhe sirva de lição para ela não repetir o disparate de circular pela vila da maneira que fez.
Neste momento, um pequeno vulto entrou pelo posto da GNR, saltou para cima da mesa e fugiu com as chaves na boca. Não mais chegou a ser visto. O graduado ficou boquiaberto.
- O diabo do cão fugiu com as chaves…
- Está a ver? Agora como vai libertar a Teresinha e o João? Para onde terá ido o cão?
- Temos de o procurar. Que disparate eu fiz…
Rapidamente saíram do posto. A Gracelinda disse:
- Eu vou na direção da Câmara, o senhor vá pelo outro lado. Se encontrar o cão, dê um tiro para o ar para me avisar. Encontramo-nos no posto.
E partiram em busca do cão. O graduado mobilizou ainda mais dois homens que partiram em direções diferentes.
Claro que a Gracelinda sabia muito bem onde estava o seu Pepe e, daí a pouco, encontrou-o junto ao parque por trás da Câmara.
- Cãozinho lindo! És mais rápido e inteligente que o Baloo! Ele nunca faria o que fizeste…
O Pepe deu dois saltitos e entregou-lhe alegremente as chaves das celas.
- Agora, esperas aqui por mim.
Rapidamente, voltou ao posto e, ao passar pela cela da Teresinha, disse-lhe:
- Prepara-te. Penso que, em breve serás libertada…
Mas foi preciso passarem umas duas horas para  os GNR regressarem. Vinham todos com cara de caso e o graduado disse:
- Não conseguimos nada. Para onde terá ido o cão? E agora temos de chamar os bombeiros ou o ferreiro para abrirem as celas à força. Que vou dizer aos meus superiores?
A Gracelinda olhou para ele e sorriu:
- Não, não é preciso nada disso. Olhe aqui…
E mostrou-lhe as chaves das celas. O graduado ficou comovido:
- Não sabe como lhe estou agradecido, irmã Gracelinda. Que posso fazer para a compensar?
- A única coisa que pretendo é que devolva a liberdade aos meus amigos. Eles devem estar muito tristes. O desaparecimento das chaves foi uma partida que Deus quis fazer-lhe para lhe lembrar que, neste mundo, se não deve tirar a liberdade a pessoas inocentes por motivos fúteis…
Pouco depois, a Teresa e o João foram libertados e encontraram-se com o graduado e a sua amiga.
- É a ela que devem a liberdade. Agora, não façam mais disparates para não os voltar a enfiar na prisão.
O João trazia na mão o carrinho de madeira completamente montado:
- Diga ao miúdo a quem o vai oferecer que foi feito por mim, o João Passarinho. Aliás, leva as minhas iniciais: "JP".
No Avenida, foi uma alegria o reencontro com os amigos. Entretanto, no posto da GNR, o graduado via passar frente ao mesmo a Gracelinda acompanhada de um cãozito que se deslocava rapidamente.
- Coisa esquisita! Dir-se-ia que já vi aquele vulto noutra ocasião… 




FIM



quinta-feira, janeiro 30, 2020

O trabalho ajuda a reabilitar

Ainda na tarde do dia da detenção do João, o graduado foi falar com ele à cela. Levava um pau de vassoura, uma roda de madeira com uns vinte centímetros de diâmetro e um pau arredondado curto.
- Estamos a averiguar o teu comportamento e o da restante família. Demorará alguns dias pelo que, para passares o tempo, vamos iniciar-te à arte de construção de um cavalo de madeira.
Mostrou-lhe um desenho e entregou-lhe uma faca bem afiada:
- Com este material, deves reconstruir este carro que vai ser oferecido a um dos miúdos cá da terra.
- Eu não faço nada disso – reagiu o João.
- Se não fazes, não sais…

E o João teve de atirar-se ao trabalho. Oh! Se os reclusos de agora fossem assim tratados, aprenderiam num instante a ser boas pessoas.
Mal o viram a aplainar a madeira, os miúdos da escola fizeram nova dança e cantoria:

Passarito, companheiro
toda a noite alisa o pau
quis armar-se em cavalheiro
no fundo é um marau

e, depois, num ritmo bem mais forte:

Olha o triste Passarito
na gaiola a penar
é bem feita, é bem feita
não vai ter com quem casar.

Na cela ao lado, a Teresinha chorava. Ela não podia comunicar com o João e ver as pessoas passarem na rua em liberdade causava-lhe uma terrível angústia.
«Oh! Por que me pus a fazer o disparate de andar a cavalo nas ruas de Ourém…? E a multa… como é que vou conseguir pagar essa quantia exorbitante?».
À noite, trouxeram-lhe o jantar.
- Comidinha do Manel do Raul. Nada má…
A Teresinha provou, mas a situação em que estava não a deixou apreciar as excelentes iguarias que tinham posto à sua disposição. E passou a noite a chorar enquanto, na cela ao lado, ouvia o estranho ruído de alguém como que a cortar e aplainar madeira.


quarta-feira, janeiro 29, 2020

Uma lição de civismo

Quando os pais da Teresinha souberam da sua prisão ficaram em pânico.
- Oh! Meu Deus, o que vai acontecer à nossa menina??!!
- Eu sempre disse que ela não devia acompanhar aquela miudagem do Café Avenida. São todos uns mal comportados e aqueles que vêm de Lisboa são piores, habituados a coisas horrorosas. Há alguns que até já deixam crescer o cabelo. Então o Passarinho tem mesmo aspeto de malandro e já se lhe conhecem várias ações lamentáveis. Um dia foi preso acusado de fabricar dinheiro falso para pagar dívidas de jogo.
E a sua preocupação aumentou muito mais quando souberam o valor da multa:

- Cinquenta contos… o dinheiro que estávamos a juntar para um Fiat 127. Lá se vão as nossas economias.
A Céu estava boquiaberta e não conseguiu evitar um comentário:
- Olha, Estefaninha, se lhe tivesses dado as chineladas que me deste, isto não aconteceria.
- Eu acho uma multa demasiado elevada – dizia a mãe da Teresinha toda decidida. – Temos de contestar o graduado da GNR.
E dirigiram-se ao posto da GNR. O graduado, quando os viu, recebeu-os com um sorriso:
- Não tenham receio. Eu só quero dar uma lição a esses dois miúdos. Eles vão ficar em isolamento até amanhã e, depois, liberto-os na convicção de que terão aprendido a lição de que devem ser bem comportados.
- Mas a nossa menina é um anjo, não precisa de uma lição dessas – respondeu a mãe da Teresinha, apesar de mais descansada por terem desistido da multa. - Se os senhores quiserem, até pode vir todas as semanas fazer bolinhos para os prisioneiros...
- Estes jovens são bons, mas têm de ser moldados para terem um melhor comportamento e servirem a Pátria quando for necessário. Vão ficar na prisão até amanhã e espero que não repitam estes disparates. Mas acho que vou aceitar a sua oferta dos bolinhos. Fica desde já marcado que todas as terças-feiras, ela vem até cá fazer uns bolos para nós e para os prisioneiros. Eles não merecem, mas...
- E podemos ver a nossa menina?
- Não. Ela fica em reclusão, pois, se a virem e lhe falarem, o castigo perderá o seu efeito. Poderão vê-la através das grades, mas só isso…
Quando saíram, viram a Teresinha por trás das grades, a ver o Sol aos quadradinhos…
- Mãezinha, quando é que eu saio daqui?
- Minha filha, tem paciência. O graduado disse-me que, em breve, serás libertada, mas não me permite que fale contigo.

E a Teresinha ficou na prisão de Ourém a chorar enquanto os pais se afastavam de regresso a casa, mas já com a certeza que ela seria libertada…
Cá fora, os miúdos de escola, conhecedores da sua situação, iniciaram um estranho bailado usando pequenos carrinhos de madeira fabricados pelos presos:

A Teresinha está presa
não aprendeu a lição
ela não vai ter defesa
não vai sair da prisão

e, depois, num coro mais forte:

Olha a triste Teresinha
está na prisão a penar
é bem feita, é bem feita
não vai ter com quem casar...

Um deles veio bater nas grades:
- Olá… - e escapuliu-se.
Ali passou mais uma noite horrível a ouvir os gemidos e lamentos de outros presos, esses sim autores de crimes que mereciam castigo.
«Que grande lição! Mas estão a ser injustos comigo. Eu não merecia este castigo…»


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