sexta-feira, junho 05, 2020

Uma equipa que ganha / um busto que desaparece

O jogo contra o Tomar, «os da ponta do rabo branco», mais uma vez foi épico. O Atlético alinhou com o Mário que alternou na baliza com o Fonseca, o Abel, o Rui Costa, o Piriquito e o Rui Prego. A famosa «Equipa Maravilha» que se dava ao luxo de ter um Pintassilgo a suplente. Ao princípio estavam nervosos e os outros muito rápidos, tanto que, em determinada altura, o Carreira atirou o Abel contra a cercadura do campo que se partiu e caíram os dois cá para fora.
A multidão puxava pela sua equipa.
- A-tlé-ti-cu! A-tlé-ti-cu!! A-tlé-ti-cu!!!
Sentados na bancada lateral, o João e a Deolinda, de mão dada, quase não davam pelo jogo, tão concentrados estavam um no outro. O Estorietas estava mais para a esquerda, perto dos balneários com outro grupo de amigos.
 Certa altura, a Deolinda apontou o atelier do Bernardino.
- Estás a ver, João?
- A ver o quê?
- Do outro lado. O busto…
Efectivamente do outro lado do campo, na varanda do atelier, o busto do Bernardino, uma representação perfeita do autor, quase parecia assistir ao jogo.
- João, aquele homem é que é o verdadeiro artista. Quero aquele busto para mim, para a minha cabana…
- O quê? Estás louca?
- Nem por sombras. Nunca estive tão lúcida. E já sei quem vai ser responsabilizado pelo desaparecimento do busto. João, tu vais ajudar-me.
Estava tão chegadinha a ele, tão entrelaçada, tão doce que ele não pôde recusar.
- Está bem. O que queres que faça?
Foram interrompidos por formidável manifestação de júbilo. O Abel, o grande defesa do Atlético, acabava de marcar um golo que virava o resultado. Pela primeira vez na partida, o Atlético estava a ganhar.
O João levantou-se a gritar a apoiar a equipa. Nessa altura jurou que, toda a vida, apoiaria qualquer equipa cuja designação fosse Atlético. Mas a rapariga não o deixou embriagar-se na comemoração. Puxou-o para ela e segredou-lhe:
- Quando isto acabar, deixamos sair todos, tu saltas lá acima, tiras o busto e levamo-lo no carro para a cabana. E eu deixo algo a incriminar o Estorietas…
- JJjjjejjejjjjejjjj. O busto pesa muito.
- Não sejas maricas. Eu ajudo a transportá-lo.
Pouco depois, o jogo acabava com uma gloriosa vitória do Atlético. A multidão saiu satisfeita. Encolhidos, a um canto do campo, o João e a Deolinda esperaram que o campo ficasse vazio, que saíssem os jogadores e dirigentes, que alguém fechasse a luz. Depois ele saltou ao atelier do Bernardino, retirou o busto que pesava a valer, pois era de madeira maciça, saltou com a rapariga o muro que os separava do exterior e enfiou-se com ela dentro de um carro que, pouco depois, os conduziu para fora de Ourém. No local do busto, ficava uma coisa estranha, parecia um pedacito de madeira com papel, mas neste podia ler-se claramente um nome: «Estorietas».

quinta-feira, junho 04, 2020

Planos para uma noite em Ourém

A cabana reconstruída estava uma maravilha. Situada no meio da natureza, transformava qualquer momento em algo muito especial.
Enquanto se dirigia para lá, o João, recordando a imagem da linda rapariga, cantarolava:


Tenho fome tenho sede, não é de pão nem é de vinho, tenho fome de um abraço, tenho sede de um beijinho.


O João adorou a cabana, adorou o almoço e adorou a companhia.
Depois de comerem, sentaram-se no exterior em cadeiras que baloiçavam e o rapaz sentiu a tentação de lhe pegar na mão, mas conteve-se.
- Estás a gostar deste dia, João?
- Sem dúvida, nunca pensei desfrutar de um momento tão bom e numa companhia tão doce.
Foi ela quem lhe tocou na mão e, pouco depois, estavam de mão dada.
- Achas que sou uma companhia doce?
- Doce, bela, um encanto…
- E como interpretas que alguém me recuse?
- Mas… eu não recuso a tua companhia.
- Tu não, mas aquele teu amigo…
- É um parvalhão. Não sabe o que perde, Jejjjejjjjjejje
- Mas fez com que me sinta muito magoada.
- Ele magoou-te?
- Tanto! Tanto! Tanto!
E levantou-se de um salto que até assustou o rapaz.
- Anda comigo. Vou mostrar-te…
Levou-o para o interior da cabana e mostrou-lhe duas ou três telas. Todas com animais horríveis com dentes ameaçadores.
- Olha o que ele me fez. Pedi-lhe várias vezes para me desenhar e fez estes animais horríveis. Não achas que tenho razão para o odiar?
- Que horror! Como é que alguém pode fazer uma desfeita como essa a uma miúda linda como tu?
Ela encostou-se-lhe ao peito e aproximou a cara da dele.
- Não me farias isso, pois não, João?
O rapaz sentiu-se fraquejar, sentiu que começava a ser dominado por aquele encanto soberbo.
- Deolinda, eu não sei desenhar – foi o que conseguiu articular.
- Mas felizmente não me rejeitas…
E o João sentiu a força do amor daquela linda miúda. Estava encantado.
- Deolinda, temos de encontrar-nos muitas vezes.
- Sempre que quiseres, meu amor. Mas temos de ter cuidado com o Estorietas…
- É um cretino. Não conseguirá fazer nada – garantiu o João.
- Se calhar, devíamos preparar-lhe uma partida…
- Ouve, não vais fazer mal ao meu amigo…
- Só uma pequena partida…
- Mas o quê?
- Ainda não sei. Depois pensaremos. Agora, diz-me uma coisa: gostas de ver hóquei em patins?
- Gosto, porquê?
- Eu aprecio muito e vai começar o campeonato. O Atlético agora joga no antigo campo do Juventude donde se avista o atelier do Bernardino. Hoje é contra os de Tomar. Queres ir ver o jogo comigo?
- Claro…
- Então, encontramo-nos em Ourém logo à noite antes do jogo.


O João, pateta como sempre, vai cair no jogo da beldade? Trairá a sua amizade com o Estorietas? 

quarta-feira, junho 03, 2020

A integração no grupo

Viu que a rapariga lhe sorria.
«Parece um anjo. Quem diria que me espetou a forquilha no traseiro?»
- Ansiava por poder desculpar-me daquele dia na minha cabana…
- Mas está viva? Como escapou?
- Naquele dia, apenas desmaiei. Quando voltei a mim, fui ter com os meus familiares que me socorreram. Somos um grupo muito unido. Tanto que já reconstruímos a cabana…
- Mas a polícia não voltou a procurá-la?
- Não houve queixa contra mim. No fundo que mal fiz eu? Era apenas um momento de paixão louca a que o Estorietas não conseguia corresponder.
- Vejo que ele não a merecia.
Ela colocou a mão no braço dele.
- Esqueçamos isso. Felizmente você está bem e já esqueceu a agressão a que o sujeitei…
- Tudo esquecido – disse o João sorridente. – Estou encantado por a conhecer. Aliás, acabou de me salvar a vida. Quer vir até ao café?
- Hoje não posso. Tenho de regressar a casa…
- E amanhã? Por que não aparece amanhã no Avenida? Apresentava-a a todos os meus amigos…
Combinaram encontrar-se no dia seguinte na esplanada do Avenida. E, pelas onze horas, um pequeno grupo falava animadamente quando ela ali chegou. O João levantou-se, pegou-lhe delicadamente na mão e anunciou:
- Meninos e meninas, esta é a Deolinda uma amiga que ontem me salvou e vida…
E contou rapidamente o que lhe acontecera na noite anterior. Todos ficaram muito admirados com a agressão da Teresinha.
- Não consigo acreditar – dizia a Livinha. – A Teresinha não é pessoa para maltratar ninguém…
- Possivelmente excedeste-te. Ela anda atrapalhada a estudar para exames – informou a Leninha. – Também me custa a crer nessa agressão por parte dela…
- A verdade é que o encontrei num estado lastimoso – afirmou a Deolinda. – Mas ela já não estava à janela. Acredito que não se tenha apercebido das consequências…
- Olha, Deolinda, não interessa. Oportunamente ela esclarecerá tudo. Agora, és nossa amiga. Queres vir ao nosso bailarico desta noite no sótão do Luís Filipe?
Ela ficou encantada com o convite.
- Ainda agora os conheci. Não sei se deva aceitar…
- Tens de vir – acrescentou o João. – Vais ver que todos te tratam bem.
Ela sorriu, mas de repente ficou tensa a olhar na direção dos Correios. Pelo passeio, vinha uma figura conhecida.
O Estorietas começou a atravessar a rua. Ainda não a tinha visto, mas, mal olhou para a esplanada, virou a cara, fez um esgar de desprezo e mudou de direção como se fosse para o Central.
«Será que perderam um amigo? – pensou a Deolinda».
À noite, a rapariga foi uma espécie de rainha do baile. Todas as atenções dos rapazes eram para ela e o João foi a pessoa que mais tempo passou a dançar com ela. Estranhamente, O Estorietas não apareceu no bailarico, mas pouco pensaram nisso.
Já eram onze da noite quando a rapariga disse para o João.
- Devo ir-me embora. Amanhã não queres visitar a minha cabana? Podemos almoçar por lá…
- Lá estarei – respondeu o João ansioso por avançar.


E agora? Estará o João em perigo? Terá a Deolinda alguma ideia em mente?

terça-feira, junho 02, 2020

Aparição

Mal o Zé Manel sentiu que a Teresinha estava incomodada, deixou de tocar e foi direito ao Avenida, deixando o João sozinho. Este continuou a cantar mesmo sem acompanhamento e, de repente, sentiu que um corpo pesado, mas não muito duro, lhe caía em cima.
O problema é que algo se rasgou e começou a sentir-se envolvido por uma massa branca totalmente pulverizada.
- Pffffff! Que porcaria é esta?
Tentou afastar aquilo de cima, mas não foi capaz. O nariz começou a ficar tapado e a não conseguir respirar, a boca ficou cheia de uma massa branca pulverulenta, os olhos estavam incapazes de ser abertos já que cobertos daquele pó horroroso.
Começou a sentir-se atrapalhado e batia com toda a força com a mão na cara para sacudir a massa horrorosa que parecia sufocá-lo. No entanto, a impotência começou a dominá-lo.
O João desesperava.
«Parece que não escapo desta. O que aquela malvada me fez… a minha doce Teresinha».
A pobre rapariga, alheia a tudo aquilo, continuava a preparar-se para os exames.
E foi quando o João já pensava que ia morrer calçado que uma voz muito doce soou ao seu lado:
- Precisa de ajuda?
Arfou, fez todo o possível para mostrar que estava o pior possível. A dona da voz doce puxou um lenço e começou a limpar-lhe o rosto. Mas os progressos eram lentos e o rapaz sentia-se cada vez mais com falta de ar.
Ela sugeriu:
- Vamos ao chafariz e eu retiro-lhe a farinha com água.
Farinha… então a malvada da Teresinha tinha-lhe atirado com um saco de farinha acima…
A providencial ajuda serviu-lhe de apoio para irem até ao largo do chafariz frente à casa do Administrador onde ainda funcionava a alfaiataria do Sabino e a Anita pôde assistir ao estranho espetáculo de uma rapariga muito bonita a lavar a cara do João e a retirar-lhe a farinha que tinha enfiado por todos os buracos da cara.
«Se calhar meteu-se nos copos – pensou e não ligou mais ao assunto.»
Entretanto, o João começou a respirar com mais facilidade e a sentir-se melhor. E houve um momento que pôde ver a sua salvadora… e teve um arrepio.
«É ela… é ela.»

segunda-feira, junho 01, 2020

Serenata numa noite de quase Verão

Era uma noite quente de quase Verão. A miudagem de Ourém encontrava-se no café e dava longos passeios pela Avenida e até ao jardim frente à Câmara. Entre eles estava o João, mas um João um pouco triste, pois, havia uma série de dias que a Teresinha não se juntava ao grupo, passando todo o tempo a estudar para exames.
Nessa noite, o Zé Manel trouxe a sua viola e uma ideia mirabolante ocorreu de imediato ao João.
- Zé, anda comigo vamos fazer uma serenata a uma miúda…
- Pá, eu não te consigo acompanhar. Só posso tocar «A brasileirinha».
- Não faz mal, dás uns acordos espaçados e eu canto. Basta que sigas o mesmo ritmo.
O Zé Manel lá se dispôs e, com o seu ar sonolento que fazia lembrar o Bob Dylan, acompanhou o João.
- Espera, ao menos ensaia um pouco…
- Pá, não me vou pôr a cantar no meio desta malta toda. Pensam que estou maluco.
- Então, vamos até ao pé da escola das meninas e, lá, podes erguer a tua voz.
Assim fizeram. Afastaram-se do grupo com uma pequena desculpa e, pouco depois, o João cantava:
«O meu desejo / é dar-te um beijo / é ter desejo / de te beijar…»
O rapaz nem cantava mal, pode-se garantir, mas nunca sentira aquele chamamento para a arte de cantar. A verdade é que, com tanta afinação, o Zé Manel em pouco tempo acertou o acompanhamento e, pouco depois, dizia:
- Bom, parece que funciona. Aonde vamos então?
- Frente à casa da Teresinha…
- Ena. Perdeste o juízo ou quê? Olha que ela tem uns irmãos mais velhos e a Céu também não me parece para brincadeiras.
- Que é que pensavas? Querias que te acompanhasse a Alcanena, não?
- Essa história da miúda de Alcanena é invenção tua. Nunca existiu tal miúda. Olha que, se a coisa der para o torto, piro-me logo. Não quero nada com o Luís ou o Taito.
- Vamos lá, vá… - dizia o João já agitado.
E dirigiram-se para a frente da pensão Simões que ficava na Avenida quase em frente ao cineteatro. Nesse dia, não havia sessão de cinema pelo que praticamente não se via ninguém na rua.
E, pouco depois, o João satisfazia o frémito do seu coração e elevava a sua voz numa canção lancinante procurando que a Teresinha aparecesse à janela.
Lá dentro, a pequena esforçava-se por estudar.
«Bolas! Isto está difícil. Por que hei de ter exames e os outros todos a passear?»
De repente, ouviu aquilo…
«Estranho! Alguém parece estar a cantar na rua. E tem acompanhamento. Que se passará?»
Foi até à janela e abriu-a. E foi então que viu o cantor e acompanhante e quase se sentiu sufocar. Lá fora, estava o seu amigo João, um verdadeiro pinga-amor, a cantar uma balada conhecida, sendo acompanhado pelo Zé Manel.
Ao princípio, não conseguiu balbuciar palavra. Depois, pensamentos preocupantes começaram a invadi-la: que iria pensar a família? Os vizinhos? Os outros amigos? E arranjou força para falar:
- João, o que é que te deu?
Ele nem respondeu. Continuou a cantar e a Teresinha notou que já outras pessoas chegavam à janela.
«Que irão pensar de mim? Eu, uma menina sempre ajuizada…»
E gritou lá para baixo:
- João, para com isso ou chamo a polícia.
Mas ele não se calava. A balada parecia ser interminável e ele arranjava sempre forma de repetir, repetir…
A miúda sentiu-se afogueada. Como poderia acabar com aquilo?
Olhou para o lado e viu um saco de farinha que devia pesar uns vinte quilos. Ainda avisou:
- João, para com isso ou arrependes-te.
Foi inútil. Ela não encontrou outra solução. Pegou no saco e atirou-o para cima do João, fechando de imediato a janela. Como por encanto, o silêncio voltou a Ourém

sábado, maio 30, 2020

A inevitável paragem

Queridos amigos, chegou a hora de anunciar a efetiva suspensão de produção de novos conteúdos para o Estórias de Ourém. A próxima estória, a mais longa, se a conseguir terminar, marca o fim de um período que, para o autor, foi desafiador, divertido e gratificante pela quantidade de amigos que reuniu.
Se, por qualquer motivo imprevisto, ela não surgir no Facebook, ficam a saber que o seu conteúdo está agendado para o blog Ourem ao longo das próximas três semanas. O autor também não pode garantir a inclusão de ilustrações e a formatação final com que eram produzidos os conteúdos antes. De qualquer forma, o texto estará disponível para vos contar mais uma maravilhosa aventura do terrível João Passarinho e da fera Deolinda.
Foi pena outros amigos não se terem juntado ao grupo, pode ser que numa próxima série de estórias isso aconteça.
As razões para esta paragem têm a ver com um certo cansaço e a necessidade de sair do local onde é mais fácil e viável proceder à elaboração de posts.
O Estórias permanecerá aberto para todos postarem o que muito bem entenderem. Podemos continuar a falar uns com os outros, podemos inclusivamente discutir como poderemos prosseguir daqui a uns tempos. É preciso ter consciência que o caminho por onde viemos já estava um pouco saturado, há que mudar a abordagem.
E agora um grande abraço para todos pelo apoio que deram ao Estorietas e pelo imenso gozo que algumas horas proporcionaram.

sexta-feira, maio 29, 2020

Um braço ergue-se acima dos destroços

Noite cerrada.
O silêncio abateu-se sobre o local onde existira uma cabana.
Agora, não passava de um monte de destroços, depois de ter sido o cenário de um estranho caso passional.
Tudo parecia parado, morto…
Parecia que os ventos, as aves e a restante bicharada se tinham posto de acordo para se calar.
Mas eis que no meio desse silêncio tétrico, algo parece ganhar vida.
Naquele escuro tenebroso, uma ou duas telhas começam a mover-se. E, de repente, uma mão, um braço aparecem. A vida voltava à cabana…
Pouco a pouco, uma figura começou a movimentar-se, a levantar-se lentamente. E o corpo da Deolinda surgiu do meio dos destroços.
«- Malvados! Destruíram tudo! Malvado Estorietas…»
Procurou algumas coisas suscetíveis de recuperar.
«Ainda me aparecem aí com a polícia. Tenho de me pirar. Mas voltarei… juro que voltarei para me vingar. Aquele Passarinho duma figa vai pagar-mas todas. E a lascarina do Castelo…

*

Rompia a manhã quando o jeep da GNR chegou às imediações da casa da Deolinda a qual tinha sido cercada por um cordão policial.
- Guarda Ernesto, procure se existe algum corpo no meio dos destroços…
A busca foi infrutífera.
- Ninguém, não há ninguém, meu comandante.
- Então, essa rapariga selvagem fugiu. Esperemos que não volte.
E os guardas voltaram para Ourém onde deram notícia dos resultados da busca aos nossos amigos…
«-Talvez a volte a encontrar – pensou o João. – E então não me escapará. Jejjjejjjjjjejjjejejej»





FIM

quinta-feira, maio 28, 2020

A força do prisioneiro

Conheceram então a fúria selvagem da rapariga. O João foi o primeiro. A forquilha acertou-lhe no traseiro, ele sentiu uma dor lancinante e só pensou em se pirar dali para fora. Em seguida, a rapariga atacou a Mari’mília acertando-lhe na cabeça com uma pancada fenomenal. Vendo isto, as outras desataram a fugir.
Lá dentro, o Estorietas ouviu as vozes e o ruído da luta.
«Os meus amigos… – murmurou – Ela está a maltratar os meus amigos…»
Como por encanto, sentiu-se a recuperar as forças. E fez monumental esforço para se libertar enquanto os gritos continuavam lá fora. Não podia consentir que os seus amigos fossem maltratados.
Naquele momento, o Estorietas faria inveja ao Sansão quando derrubava o templo. Com monumental força, conseguiu que a coluna desse de si, e o telhado começou a inclinar.
Lá fora cessara a luta. A Mari’mília estava caída no chão e os outros corriam para as bicicletas para se porem a caminho de Ourém com o João a sangrar do traseiro. Tinha-lhe saído cara a tentativa de conhecer a Deolinda.
Esta entrou em casa no momento em que o Estorietas atingia o seu objetivo. De um momento para o outro, a coluna deu de si, o telhado caiu com estrépito e uma telha atingiu a Deolinda que desmaiou. O Estorietas refugiou-se debaixo de uma mesa, depois, quando tudo terminou saiu de casa.
Viu a Mari’mília caída e amparou-a.
- Vamos, fujamos daqui.
Ela deixou-se envolver e ele conduziu-a à bicicleta. Depois, montou-a à sua frente e foi conduzindo com alguma dificuldade até Ourém. Mas sentia-se compensado sentindo o perfume dela.
Pouco depois encontravam-se com os amigos e o jeep da GNR.
- Eles estão salvos – gritou a Ciete.
- Mas precisam de assistência hospitalar. Vamos regressar a Ourém. Estes três jovens feridos vão no jeep e vamos trazer reforços para ver o que se passou na cabana.
- A cabana está derrubada e a Deolinda sepultada com ela – disse o Estorietas.
- Estabeleceremos uma cerca ao local e, amanhã, veremos como tudo está. Agora é o momento de descansar e tratar dos feridos.
E assim o Estorietas pôde voltar à sua terra e ao convívio com os seus amigos de sempre…


E a fera? Teria perecido sob o telhado caído?

quarta-feira, maio 27, 2020

Frente a frente com a fera

Chegaram agitadas a Ourém e procuraram os outros miúdos.
- A Ciete descobriu que o Estorietas está lá sequestrado. Que devemos fazer?
- Eu acho que o melhor é fazermos uma visita inesperada à Deolinda – disse o João. – Estou ansioso por conhecê-la e, decerto, não será difícil dominá-la.
- Mas já pensaram – redarguiu a Teresinha. – que o Estorietas pode querer estar ali com ela? Quem são vocês para dizer que ele está sequestrado?
- Então por que não apareceu? – perguntou a Mari’mília. – Que receio tinha de que o víssemos?
- Eu acho que devemos ir já. – dizia o João, ardendo por ver a Deolinda. – A Teresinha pode acompanhar-me e a Luzinha pode avisar a GNR para qualquer coisa.
- Era muito mais giro sermos nós a salvá-lo em vez da GNR – protestou a Ciete.
O João decidiu-se.
- Vamos os quatro e a Luzinha só avisa a GNR passada meia-hora. Isso dá-nos tempo para o libertar. Embora…
Partiram por ali acima levando lanternas pois a noite não tardaria muito a cair enquanto a Luzinha se dirigiu a pé para cumprir a sua parte da missão.
Quando chegaram à cabana, a Mari’mília afirmou:
- Olhem! Há luz naquela janela. Vamos espreitar…
Deixaram as bicicletas e foram por ali fora tentando não fazer ruído. A Ciete foi a primeira a aproximar-se da janela. Mal olhou lá para dentro, recuou, sufocando um grito de terror.
- Oh! Meu Deus! Já viram aquilo?
O João espreitou logo. Lá dentro, o Estorietas estava amarrado à coluna central, meio adormecido, com todo o ar de ser maltratado. Ao lado dele estava uma tela completamente partida, despedaçada, espalhada pelo chão.
- Não a vejo, não a consigo ver – resmungava o João.
Mas o destino iria fazer-lhe a vontade.
Ainda nem todos se tinham apercebido do estado do Estorietas quando uma voz feminina, mas bastante dura, soou por trás deles.
- Quietos todos! Isto é uma invasão de propriedade. Vou dar cabo de vocês.
Voltaram-se aterrorizados. À sua frente estava uma Deolinda furiosa com uma forquilha na mão e pronta a atacar.
O João ficou abismado.
«-É mais bela do que eu pensava.»


E agora? Será que a Deolinda vai atacar os nossos amigos?

terça-feira, maio 26, 2020

A camisa delatora

No dia seguinte, pelas quatro da tarde, a Mari’mília e a Ciete saíram do colégio, partindo na direção do Olival. A meio caminho, a Ciete já dizia:
- Bolas! Isto custa a subir…
- Tu és uma mulher de coragem. Anda, faz mais um esforço.
A subida terminou e puderam moderar um pouco o esforço. Mais abaixo a Mar’mília disse:
- Olha! Está aqui o caminho para casa dela.
Pouco depois, estavam em frente à cabana. Viram a bicicleta da rapariga encostada à casa. Do lado direito, uma corda sustinha alguma roupa estendida a secar. No lado esquerdo, encontrava-se um automóvel já com alguma idade.
Da chaminé da casa, saia fumo e um belo cheirinho a comida invadia o ar.
- Hum! Deve estar a cozinhar.
Mas, entre os vidros, a Deolinda já as vira e preparou-se para as receber. Quando bateram à porta, ela demorou um bocadinho a perguntar:
- Quem é?
- Pessoas amigas - responderam.
Ela abriu a porta e saiu, não as mandando entrar.
- Olá. Não me lembro de as conhecer. O que querem dos meus domínios?
- Eu conheço-te. Estive no mesmo casting que tu no salão da banda.
- Ah! Já me lembro. És a garotinha que desmaia perante uma cena mais forte da vida real.
A Ciete ruborizou-se, mas a Mari’mília atalhou a conversa:
- Não é isso que interessa. O nosso amigo Estorietas desapareceu e andamos à procura dele. Sabes alguma coisa?
- Eu? Pfffff! Nunca mais quero ver esse crápula. Não sei nem quero saber.
- Pronto. Mas se souberes alguma coisa informa-nos. Este cartaz tem as indicações para esse efeito. Nós vamos continuar as buscas.
Ela recebeu o cartaz e despediu-as.
- Ok! Espero que tenham sorte com a busca…
As duas miúdas iniciaram o caminho de regresso e ela voltou ao interior da cabana depois de fechar a porta:
- Ouviste, Estorietaszinho? As tuas amigas já te procuram. A lagartixa do castelo e a serigaita de Peras Ruivas… mas eu enganei-as bem. Agora vou tirar-te a mordaça.
Com cuidado, tirou-lhe a mordaça com que o mantivera calado e foi ver o cozinhado.
- Hoje, vais ter um jantar de reis.
Entretanto, cá fora, as duas miúdas chegavam à estrada:
- Voltemos a Ourém – dizia a Mari’mília – Não conseguimos nada…
- Tem calma, não te precipites. Ela tentou enganar-nos, mas não conseguiu.
- Mas que descobriste tu, minha cara Mrs. Watson?
A Ciete riu-se e explicou:
- Ela tinha roupa estendida cá fora, não é verdade? E a camisa que o Estorietas tinha vestido no dia do desaparecimento estava lá. Portanto, ela sequestrou o Estorietas.
- Que horror! Que vamos fazer?
- Vamos a Ourém falar com os outros e pedir a ajuda deles. Esta noite ainda vamos voltar cá… mas sem ela saber.
- Ainda bem que vieste. Eu nunca me aperceberia desse pormenor. De certeza, vais para investigação criminal.
Daí a pouco desciam a caminho de Ourém.

segunda-feira, maio 25, 2020

Prisioneiro pela arte

A bela Deolinda circulava na sua bicicleta na estrada em direção ao Olival e, quinhentos metros após o cruzamento definidor das direções Pinheiro / Caxarias, meteu por um caminho estreito detendo-se frente a uma cabana relativamente recente toda feita em madeira e com algumas janelas de vidro.
Pegou nas compras, abriu a porta de entrada e saudou:
- Então como está o meu lindo Estorietas?
No centro da sala, com mais de trinta metros quadrados, podia ver-se o Estorietas em estado andrajoso. Estava atado à coluna central da cabana, em tronco nu. Não podia mover os pés e a própria cintura estava rodeada por cordas, permanecendo os pulsos amarrados atrás do tronco.
Ela aproximou-se e deu-lhe um beijinho evidenciando alguma ternura:
- Estorietaszinho, sabes o que te trouxe? Olha…
E mostrou-lhe as telas e o material de pintura.
- Sabes o que vais fazer à tua pombinha que gosta tanto de ti? Vais fazer o retrato dela. Tal como fizeste da outra… também quero parecer como a Adjani…
- Não tens hipótese – redarguiu ele com voz rouca – És loura e a Adjani tem uns belos cabelos negros.
Ela esbofeteou-o.
- Eu posso ser o que quiser, ouviste?
Era uma selvagem aquela rapariga, uma selvagem perigosa.
- Se queres que te liberte, vais pintar-me e fazer de mim uma artista de classe.
- Eu pinto-te, mas serás mais uma Bardot, uma France Gall ou uma Meg Ryan. Mas nunca se parecerá contigo. A arte é uma representação do real sublimada por uma introspeção latente. E tu nunca conseguiste olhar para dentro de ti…
Pensando que ele estava a ficar maluco, ela foi buscar um cavalete, colocou lá uma das telas e aproximou dele o material de pintura.
- Estorietaszinho, agora vou libertar-te as mãos para poderes cumprir o nosso contrato. Não faças disparate, senão o castigo ainda será maior…
- Está bem, venceste.
Ela libertou-lhe as mãos e foi pôr-se em posição, sentada numa mesa um pouco em frente dele. E ele pintou aquela rapariga do modo que a via naquele momento.
Passada meia hora, disse:
- Pronto, já está…
Ela levantou-se felina, contente e aproximou-se para ver a obra. Mas, ao contemplá-la, soltou um grito de horror.
- Malvado!!! Estás a gozar comigo?
Na tela, estava desenhado um dos bichos mais feios que alguma vez tinha visto. A Deolinda não resistiu à ira. Pegou na tela e, mais uma vez, o Estorietas sentiu na cabeça o peso de uma das suas obras.
- Não vais sair daí, não te liberto até que me desenhes como fizeste à lagartixa do castelo.
Voltou a amarrá-lo. O Estorietas preparou-se para passar mais uma noite sem comer e sem descansar. Nem tinha força para pensar como poderia libertar-se daquela fera…


Pobre Estorietas… Será que alguém o poderá salvar?

sexta-feira, maio 22, 2020

Encontro com uma lenda do comércio de Ourém

Deixemos o João e a Teresinha e sigamos as três miúdas que ficaram junto ao Central. O primeiro local onde se dirigiram foi à Farmácia Leitão onde colocaram o cartaz na parede de entrada. Depois prosseguiram para a tipografia do Melo, passaram à taberna do Manuel do Raul e dali atravessaram na direção da loja do senhor Pina. Pouco depois entravam na loja do sr. Oliveira e a primeira pessoa que se lhes deparou foi o sr. Manuel Cartuxo.
- Olha que lindas flores aqui estão! Hoje é o meu dia de sorte…
- Meninas, apresento-vos o sr. Manuel Cartuxo, o comercial mais falador e simpático de Ourém – começou por dizer a Mari’mília. – Senhor Manuel, o seu nome escreve-se com “x” ou “ch”.
O sr. Manuel pôs um ar muito sério e a resposta não desiludiu.
- Com “x”, com “ch” é de polvora e não quero cá cartuchos de pólvora…
Riram com gosto e a Mari’mília fez a apresentação das amigas ao sr. Manuel. Ele virou-se para a Ciete e propôs-lhe uma charada:
- Ah! A menina é filha do Bragança e vai estudar Matemática. Então, veja lá se me ajuda a resolver um problema como este: há doze casas para distribuir a treze pessoas, como é que vamos reparti-las de modo que todos fiquem satisfeitos?
A Ciete ficou boquiaberta e ele continuou.
- Sabe? O que economistas e matemáticos aprendem é o modo de enganar o povo. Eu vou-lhe dizer.
E desenhou doze quadrados que preencheu com números: 1 – 2 – 3 – 4 – 5 – 6 – 7 – 8 – 9 – 10 - 11 – 12. Depois disse:
- Para a primeira casa, vão dois. Depois o terceiro vai para a segunda e por aí fora. Quando uma das casas vagar, o que está a mais na primeira passa para essa.
Continuaram a rir, mas a Mari’mília interrompeu:
- Senhor Manuel, vimos pedir-lhe uma coisa. Deixe-nos colocar este cartaz na loja.
Ele olhou para o cartaz e lembrou-se da visita que tinha tido.
- É curioso… muito curioso…
Elas ficaram ansiosas.
- O quê, sr. Manuel?
- Hoje, esteve cá aquela menina muito bonita que teve um caso com ele na banda. Levava material de desenho num saco e comprou comida para um batalhão o que não era habitual nela.
- Isso é muito suspeito – afirmou a Luzinha.
- Eu diria mais – respondeu a Ciete. – Isso é muito suspeito.
- Sr. Manuel, ajudou-nos muito. Vamos colar o cartaz e combinar novas ações.
Voltaram à zona do Central, esperando os que tinham ido à parte de cima da vila e, pouco depois, combinavam.
- Amanhã, eu e a Ciete vamos de bicicleta até à cabana da Deolinda e tentaremos falar com ela. Logo veremos a reação. Encontramo-nos aqui às quatro da tarde…



Que irão encontrar as duas miúdas? Correrão perigo com a sua ação aventureira?

Continua na próxima segunda-feira

quinta-feira, maio 21, 2020

A ajuda dum interesseiro

No CFL, trabalhava-se afincadamente para produzir os cartazes de procura do Estorietas. O Dr. Armando cedera o equipamento de reprografia e três meninas dedicavam-se a redigir o texto que iria acompanhar a fotografia do desaparecido.
- Vejam lá se fica bem – dizia a Teresinha. – “Procura-se rapaz de 13 anos conhecido por Estorietas. Residia na Rua de Castela e já não é visto há uma semana, sendo referenciado, pela última vez, na zona dos moinhos. Por favor, informe para o CFL ou para o telefone 42402”
- Acho bem – dizia a Mari’mília.
- Eu acho que devias referir que o indivíduo está louco – acrescentou a Ciete. – As pessoas precisam de ser protegidas dos excessos dele, não vá fazer alguma maluqueira.
- Não sejas revanchista – respondeu a Teresinha. – Compreendo que tenhas ficado marcada pelos actos dele, mas conhecemo-lo desde pequeno.
- Sempre foi meu amigo – reconheceu a Mari’mília. – Não vamos enxovalhá-lo num momento difícil para todos.
Chegaram a acordo e, pouco depois, dispunham de 50 exemplares do cartaz. Olharam umas para as outras felizes com a obra. A Terezinha ainda disse:
- E se a gente visse o que está naquela gaveta? Pode ser o próximo teste de Matemática…
- Nem penses  - respondeu a Ciete. – Se descobrirem a fuga de informação, o Dr. Armando perceberá que fomos nós as autoras. Tens sempre ideias suicidas.
- Então vamos planear a distribuição de cartazes…
Pouco depois, andavam pela vila a colar cartazes nas árvores e nas paredes. Começaram pelo Central e, à saída, depararam com o João e a Luzinha.
- Oh! Oh! Oh! Oh! – fez o João – Que lindas meninas aqui estão. Que andam a fazer?
- Andamos a afixar cartazes relativos ao desaparecimento do Estorietas. Precisamos de informação para o encontrar – respondeu a Terezinha.
- Esse facínora devia era estar preso. Jejejjjejjjjje. Não achas, Cietezinha?
- Eu acho, mas, para isso, temos de saber onde ele está…
- João – disse a Mari’mília. – toma vinte cartazes e vai colá-los com a Luzinha na zona da tua morada, do Zé Domingos e do Estorietas. Passa também pela Câmara e pelo Bairro. Nós ficamos na parte de baixo.
- Só vou se a Teresinha for comigo…
- Farsante. Chantagista! – berrou a Mari’mília.
- Deixa lá – disse a Teresinha. – Eu vou com ele.
- Não digam que eu sou mau – respondeu o João. – Agora, cedo-vos a minha irmã para ir convosco.
E assim o João aproveitou a busca ao Estorietas para passar o resto da tarde com a Teresinha…
- Encontramo-nos aqui às seis da tarde… - combinaram.

quarta-feira, maio 20, 2020

Uma jovem faz compras em Ourém

Ainda no mesmo dia, uma bela figura de mulher de cabelos loiros saracoteava-se por Ourém. A primeira visita que fez foi à Marina.
- Bom dia, Fernando. Está bom?
- Bom dia, menina Deolinda. Em que posso servi-la?
Ela sorriu encantadora.
- Eu queria duas telas grandes e material para pintar…
O Vieira sorriu todo solícito.
- Vai dedicar-se à arte? Olhe que é muito difícil encontrar esse material em Ourém. Por acaso, tenho algum que tinha encomendado para o Estorietas, mas, como ele desapareceu, posso dispensar-lho.
- Ainda bem. Sabe, resolvi pintar. Tenho um retrato meu, mas acho que tenho mãos para fazer melhor. Que acha? Ficarei bem?
E sorriu toda coquete.
- Eu acho que ficará maravilhosa. E, se precisar de modelo…
Aviou o que a rapariga pretendia e ela, depois de pagar, saiu, passou junto ao Central e dirigiu-se a uma loja junto da “Loja do Povo”.
- Bom-dia, senhor Manuel. Precisava que me aviasse esta lista de coisas.
- Bom-dia, menina. Vou já tratar disso.
Consultou a lista e olhou para a rapariga.
- São muitas coisas. É tudo para a menina?
- Claro. Neste momento, eu vivo sozinha…
- A menina era a namorada do Estorietas, não era?
- Eu? Por que pergunta isso? Mal o conheço…
- Custa-me a crer. Sabe?....
E durante mais de meia-hora desbobinou tudo o que sabia acerca do Estorietas, do seu caso na banda com uma miúda encantadora e o caso dos quadros. Rematou dizendo que ele fugira e ninguém sabia dele.
A rapariga já bufava quando ele terminou e só disse:
- Não sei para que me conta isso tudo. Como lhe disse, mal o conheço…
- Não me leve a mal, mas não é isso que consta por aí. Dizem que ele gostou muito dos seus encantos. E a menina tenha cuidado. Há muito malandro nesta terra. Já ouviu falar no neto mais novo do Dr. Preto? Anda a dizer que tem de a conhecer.
- Bahhh! Depenava esse passarito com água fria em três segundos. O Estorietas é bem mais estimulante.
- Mas olhe que o menino João tem cada história de encantamento…
- Nããããooooo. Nem quero ouvir…
- Tenha paciência, menina. São muitas coisas para aviar e eu preciso de me distrair com qualquer coisa. Pronto, já está…
Preparou um saco enorme com as coisas, ela pagou e saiu.
«- Bem engraçada o diabo da rapariga. Há estorietas com muita sorte.»

terça-feira, maio 19, 2020

O início do cerco

Os dias foram passando e os verdadeiros amigos do Estorietas começaram a preocupar-se com a sua ausência.
- Onde andará essa alma do diabo? Raios o partam – dizia a Mari’mília para a Cietezinha.
- Já quase estou arrependida de lhe partir os quadros na cabeça. Mas ele mereceu. Estava louco de todo.
Continuaram a passear lado a lado no recreio do CFL e a Mari’mília disse:
- Eu acho que devíamos fazer qualquer coisa para o procurar. Estou preocupada.
- Não sejas assim. Ele tem sete vidas como os gatos. Se nos encontra, ainda faz alguma partida das dele.
- Cietezinha, de certeza não é o teu coração que fala. Ele nem é mau rapaz. Passa-se de vez em quando.
- Olha, vem aí a Teresinha. Vamos falar com ela.
Efetivamente, a Teresinha aproximava-se e elas puseram-na ao corrente da sua preocupação. Ela teve logo uma ideia.
- Eu hoje vou fazer bolinhos para os presos. Vocês podem vir comigo e falamos com o comandante. Ele pode saber mais qualquer coisa.
E, terminadas as aulas, as três meninas dirigiram-se ao posto da GNR onde foram recebidas pelo comandante a quem puseram a par da sua preocupação.
- Todos os dias mandamos um jeep à procura dele. Sabemos que não está em casa e parece que andou nos moinhos. Há quem afirme que ele tinha a mania que estava a voar e a ir para Peras Ruivas ou para os Castelos. Em Ourém, houve quem ouvisse o Flying dos Beatles parecendo que o som vinha dos moinhos.
- Que horror! Estás a ver? – dizia a Ciete – Continua maluco de todo…
- Nós vamos continuar a procurá-lo – rematou o comandante. – Tem de pagar pelo que fez e, para além disso, é um perigo para a sociedade.
- Acha que podemos pôr uns cartazes pela vila a pedir que nos informem se o virem.
- Apesar de não gostar muito de jornais murais, por esta vez, não me oponho.
E as ruas de Ourém encheram-se de cartazes a pedir que informassem uma das três meninas se alguém deparasse com o Estorietas. O contacto podia ser para o CFL ou para um telefone.
Estava iniciado o cerco…

segunda-feira, maio 18, 2020

O desaparecimento do promissor artista

Naquela noite escura, junto aos moinhos, enquanto o vento sibilava quase gelado, o Estorietas, evidenciando formidável desorientação, caminhava sem rumo.
«Oh! O que aquela malvada me fez… nunca mais lhe perdoo.»
A sua cabeça não conseguia concentrar-se num rumo.
«Isto já me parece O Vendaval:
Para onde vou, não sei
O que farei, sei lá…
Ah! Mas não me consigo encontrar
Eu já não sou eu… sou um farrapo»
Levava consigo alguns parcos haveres, os necessários para mudar de roupa de quando em quando e alguma comida. Mas tinha largado tudo… tudo o que desfrutava na sua boa vida.
As árvores escuras com os seus ramos abertos pareciam-lhe fantasmas.
- Olha aquele… parece que está a olhar para mim… que me vai a engolir.
Atravessou uma estrada para o outro lado. De repente, as luzes dum automóvel iluminaram o caminho.
«Não posso ser visto.»
E saltou para a berma.
Mas as coisas não correram bem. Havia um buraco e estatelou-se ficando inconsciente e à mercê do que desse e viesse.
O carro parou um pouco mais à frente e dele saiu uma figura escultural.
«É ele… calculei logo que andava por aqui.»
A muito custo levantou o Estorietas e pô-lo dentro do carro. Fez inversão de marcha e voltou pelo caminho por onde viera.



Quem seria a misteriosa figura?
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