segunda-feira, maio 11, 2020

Meu nome é Ferraunha

O Ferraunha era um cãozito super afável e esperto adotado pela Livinha. Tinha sido ensinado a ir fazer algumas compras aos donos e todos ficavam encantados com a sua eficácia a satisfazer os seus desejos.
Naquela manhã, o sr. Lains levantou-se, deu-lhe a ração matinal e disse-lhe:
- Ferraunha, vai buscar o jornal ao Café Central.
O cãozito partiu em alta velocidade. Subiu aquela que é agora a Rua 25 de Abril, virou à direita na 5 de Outubro e prosseguiu pela Silva Carvalho até chegar à praça dos carros. Pouco depois, entrava no Café Central e pôs-se em pé, apoiando as patitas dianteiras no balcão.
Um cliente pouco amistoso refilou:
- Está aqui um cão. Vou correr com ele.
Mas o sr. Joaquim Espada deteve-o.
- Não faça isso. Sabemos o que ele pretende.
E o brutamontes ficou banzado a ver o dono do café a pôr o jornal na boca do cãozito e este a partir a toda a velocidade de regresso a casa.
- Formidável. Nunca tinha visto uma coisa destas.
- Há muitos animais que são mais espertos que os humanos – replicou o sr. Espada, olhando significativamente para o cliente.
O homem não percebeu e abandonou o café.
Entretanto, o Ferraunha chegava a casa, depois de fazer o caminho inverso, e preparava-se para fazer novo recado agora à Livinha.
- Ferraunha, vai à farmácia aviar estes medicamentos.
E pôs-lhe um saquinho à volta do pescoço que no interior levava a receita médica e uma nota de mil escudos para pagar os medicamentos.
Mais uma vez, o Ferraunha saiu a toda a velocidade e, pouco depois, estava na farmácia Leitão, aguardando a sua vez de ser atendido.
- Olha o Ferraunha – dizia o empregado. – Que é que te traz por cá?
O cãozito pôs-se a jeito e ele retirou-lhe o saco com a receita e dinheiro.
- Hum… bactrim…paracetamol… ibuprofeno… umas injeções. O Dr, Preto está a receitar muita coisa.
- Béu.. béu… – respondeu o cãozito.
A farmácia quase não tinha clientes e o empregado pôs-se a aviar calmamente a receita. Depois, pegou no dinheiro e começou a fazer o troco.
De repente, o sossego deste quase bucólico espaço foi quebrado por uma voz ameaçadora:
- Todos quietos! Mãos ao ar! Isto é um assalto…

sábado, maio 09, 2020

O banquete do crocodilo

Um agricultor alentejano, já entrado nos anos, tinha uma bela barragem na sua  herdade.
Depois de algum tempo sem ir ao local, decidiu naquele dia ir dar uma olhadela geral para ver se estava tudo em ordem.
Pegou num balde para aproveitar o passeio e trazer fruta do pomar e, ao aproximar-se do lago, ouviu vozes femininas, animadas e divertidas. Então viu um grupo de jovens a tomar banho no lago, completamente nuas.
«Oh! Que seres tão belos e virginais!...».
Chegou mais perto e, com isso, todas elas, ao verem-no, fugiram para a parte mais funda do lago, deixando apenas a cabeça fora de água.
Uma delas gritou:
- Não saímos daqui enquanto o senhor não se for embora.
O alentejano, que não era burro, respondeu:
- Calma meninas, eu não vim até aqui para as ver a nadar ou para as ver sair nuas do lago... 
E, levantando o balde, acrescentou:
- Eu só vim dar comida ao crocodilo...




Nota: autor desconhecido. Enviado por mão amiga...

sexta-feira, maio 08, 2020

A fuga do grande artista

Na casa do Largo de Castela, o Estorietas andava de um lado para o outro desesperado.
- Destruiu, aquela malvada destruiu tudo. Nunca devia ter confiado nela.
Contemplou os seus quadros completamente desfeitos.
- Como pode ter feito isto à minha magnífica arte? Ah! Não aguento isto. Não consigo respirar. Vou-me embora.
Encheu apressadamente uma mala e saiu de casa, partindo na direção da encosta do moinho. Fez a escalada em pouco mais de dez minutos, depois, lá de cima,
contemplou Ourém…
Ali se deixou ficar em contemplação, sentindo-se cada vez mais calmo.
A certa altura, viu o jeep ir na direção da sua casa.
- Ah! Pensam que vão prender-me, mas nunca mais me encontrarão. Vou-me embora, vou partir, vou para bem longe. Uma nova vida me espera.

Há quem diga que, considerando aquele momento, o Estorietas e a Ciete estiveram mais de 50 anos sem voltar a encontrar-se… mas, na ficção, tudo pode ser diferente.

quinta-feira, maio 07, 2020

O esfumar da Arte

Entretanto, na casa roxa do início da Rua de Castela, travava-se uma intensa batalha de palavras entre a Cietezinha e o Estorietas:
- Tens de me deixar sair, Estorietas. Isto está a ir demasiado longe.
- Anda, anda ver os nossos quadros e diz-me que queres sair, diz-me que não é Arte. Será que não sentes a intensidade da criação?
Puxou-a por um braço, arrastando-a para junto dos quadros.
- Olha esta maravilha. Até te pus loira, mais bela que a Deolinda…
Ela ficou furiosa.
- Não me compares com essa serigaita. Não vale nada comparada comigo…
- Então, vê este outro em que apareces como mulher com máscara de tigre…
- Não me interessa…
- Mas vê! – e passou-lhe o quadro para as mãos.
Ela não aguentou mais. Pegou no quadro e desfechou com ele na cabeça do Estorietas. Ele ficou atordoado e ela aproveitou para lhe enfiar com outro em volta do pescoço.
- Vê, vê o que eu faço aos teus malditos quadros – e destruiu tudo em cima dele sem que o Estorietas pudesse reagir.
Pobre Estorietas! A ver a sua arte de que tanto esperava a esfumar-se numa tarde de tragédia.
- Os meus quadros… - balbuciava.
Ela aproveitou a sua falta de discernimento para correr para a porta e fugir.
«Vou já para o posto da GNR ver o que se passa com os outros».
Ainda não tinha percorrido metade da distância que a separava da esquadra quando o comandante e o guarda Ernesto chegaram junto dela.
- Como conseguiu chegar aqui?
- Atordoei-o com os próprios quadros. Agora quero ver com estão os meus amigos.
- Nós acompanhamo-la. Depois vimos prendê-lo…
E, ao fim da tarde, para grande desgosto do João, as vinte miúdas foram postas em liberdade e puderam regressar a casa, depois de terem aceitado as desculpas do comandante e perante o olhar desconfiado do Dr. Armando.
- De futuro, em vez de fazerem uma manifestação, venham avisar-nos primeiro… E amanhã esperamos pela Teresinha para mais uns bolinhos…
Lá foram todas a rir da situação já esquecidas do Estorietas, enquanto o João chuchava no dedo por deixar de estar no meio de tanta menina.

quarta-feira, maio 06, 2020

Equívoco esclarecido

No interior da esquadra, o ambiente era carregado. O comandante passeava-se diante dos miúdos com um cassetete nas mãos e ia dizendo:
- Mas que foi que vos deu na cabeça para fazerem uma manifestação de apoio a um preso político?
Eles parecia não perceberem o que se estava passando até que a Teresinha avançou e respondeu:
- O comandante permite-me que fale?
Ele olhou para ela e só então a reconheceu:
- A Teresinha? Mas que faz no meio destes arruaceiros? A menina ainda ontem esteve aqui a cozinhar para nós…
- Julgo que há uma confusão, comandante. Nós não estávamos a fazer qualquer manifestação politica…
O João começou a ver o caso mal-parado.
«Bolas. Estava aqui tão bem. Esta vai estragar tudo. Já não passamos aqui a noite».
- Mas vocês até tinham um cartaz: “Liberdade para a Ciete”.
- Esse cartaz era dirigido ao Estorietas, comandante. Ele sequestrou a Cietezinha…
Naquele momento, a Ceuzinha desatou num pranto clamoroso:
- A minha irmã, comandante, a minha irmã…
O Comandante só então percebeu:
- Então, fui enganado pelo Estorietas. Ele telefonou a avisar que era uma manifestação para libertar uma perigosa comunista.
- É isso, comandante, o Estorietas está louco com a mania que é o maior pintor do Universo e sequestrou a minha irmã para lhe servir como modelo. A pobre nem come devidamente.
- Mas isso não pode acontecer. Guarda Ernesto!
- Aqui estou, meu comandante.
- Prepare-se para irmos a casa do Estorietas. Ele é o culpado de toda esta situação – virou-se para os miúdos: - Por agora, ficam aqui, pois vou precisar do vosso testemunho, mas podem ficar tranquilos que nada lhes irá acontecer.
«Pronto. Tudo estragado – pensava o João».

terça-feira, maio 05, 2020

O CFL, um antro de comunas

Pouco depois, no CFL, a Florência relatou ao Dr. Armando tudo o que tinha visto passar-se na Rua de Castela.
- Não pode ser – gritou. – O meu colégio está perdido. Que pensará lá no Céu o Fernão Lopes e todos os que contribuíram para a maravilhosa cultura do nosso país. Vou apurar tudo e expulsar essas miúdas.
Pegou no sobretudo e dirigiu-se para o seu Peugeot.
«Quem diria? O meu colégio a formar células de comunas… ainda vou preso também».
Atirou-se para dentro do carro e arrancou com toda a velocidade. O seu coração estava acelerado. A sua mente não tinha um momento de descanso.
Frente à taberna do Frazão, teve de travar com toda a força, senão tinha batido no carro da Dra. Lurdes Moreira que, naquele momento, se dirigia ao CFL para dar uma aula. Valeu-lhe o apitar constante da professora.
Um pouco mais à frente, só a intervenção dum anjo guardião fez com que não atropelasse um rapaz que atravessava distraidamente a Avenida.
Continuou a acelerar e, pouco depois, travava frente ao posto da GNR. Saiu do carro e tentou entrar, mas um guarda não lho permitiu.
- O que pretende? – perguntou um guarda. – Neste momento, não pode entrar…
- Fui informado que tinham prendido alunos do CFL. Pretendo saber o que se passa.
- Neste momento estão a ser interrogados pelo comandante. Tem de esperar aqui.
- Mas eu quero saber o que se passa. – e tentou forçar a entrada.
Mas o guarda manteve-se firme no posto.
- O senhor espera aqui, senão vejo-me obrigado a detê-lo.
E o Dr. Armando teve de esperar. Mesmo assim, não deixou de profetizar umas ameaças.
- Ah! Esses miúdos não sabem o que os espera quando os apanhar a jeito!!!
Estava muito longe de perceber que a situação estava quase a esclarecer-se.

segunda-feira, maio 04, 2020

Danos colaterais, um testemunho

Naquele dia, àquela hora, a Florência descia a Rua de Castela acompanhada da sua amiga Luísa. Nas suas memórias de Ourém, ela relata que iam carregadas com material de desenho comprado na papelaria Godinho ou na papelaria Joaquim da Cruz: Uma pasta de cartão com papel almaço, papel cavalinho, régua T, estojo com compasso e tira-linhas, esquadro, transferidor, ´´punaises´´, lápis 1 e 2, borracha, tinta da china, guaches,  pincéis, afiadeira, godés, vidro para preparar as tintas, pano para limpar os pincéis.....
A rua tinha uma ligeira descida e ao chegarem quase ao fim, um dos cavalos da GNR levantou-se nas patas traseiras e ameaçou-as. Escorregaram e caíram na calçada. Os elásticos, já sem força, não deram conta da situação e o material de desenho espalhou-se para todos os lados. 
A Florência nem sabia explicar o que tinha visto.
- Parecia um cow-boy em cima de um cavalo com as patas no ar. Que medo!
O GNR, com o bastão, apontava-lhes uma certa direção. 
- Para casa! Já para casa!
Não sabiam se deviam rir ou chorar tão insólita era a situação. A régua T, que era maior do que a pasta, molhou-se e nunca mais conseguiu desempená-la.
Mas, dali, conseguiram aperceber-se de que a miudagem era levada para a esquadra da GNR. E, daí a pouco, todo o CFL estava avisado do que acontecera.

sábado, maio 02, 2020

A grande manifestação

Mas era tarde demais.
Naquele momento, começou a ouvir-se no largo frente à casa roxa um grande ruído.
- Liberta a Ciete! – parecia que um grande grupo gritava.
O Estorietas ficou admirado. Chegou à janela que abriu, e deparou-se com uma manifestação de cerca de 20 miúdas: a Ceuzinha, a Mari’mília, a Teresinha, a Livinha, todas com um ar de poucos amigos. E, no meio delas, como sempre, o famigerado linguiça de Madrid.
«Foi ele! Foi aquele sacana! – pensou o Estorietas».
- Que é que vocês querem? – gritou lá para fora.
- Liberta a Ciete. Sabemos que está sequestrada por ti…
- É mentira. Estamos num projeto de pintura que levará a nossa terra à Glória…
- Estorietas, liberta a minha irmã, senão invadimos a tua casa.
- Nem pensem. Sumam-se ou chamo a GNR.
Fechou a janela e pegou no telefone enquanto a Ciete contemplava aterrorizada os seus gestos de louco. Do outro lado, ouviu-se:
- Aqui, posto da GNR de Vila Nova de Ourém. Diga em que podemos servi-lo.
- Fala o Estorietas. Por favor, ligue-me ao comandante. É muito importante.
A ligação não tardou a estabelecer-se. Do outro lado, ouviu a voz do comandante do posto.
- Então, meu caro Estorietas? Como passa? Há muito tempo que não falamos.
- Não há tempo a perder, comandante. Há uma manifestação contra o regime no largo em que se inicia a Rua de Castela. Exigem a libertação de uma tal Ciete, com certeza, uma perigosa comunista.
- Uma manifestação? Em Ourém? Não posso crer…
- Venha imediatamente, comandante. Oiça os urros deles…
E levou o telefone à janela abrindo-a para ele ouvir melhor.
O comandante compreendeu e imediatamente deu uma ordem.
- Guarda Ernesto, mobilize imediatamente vinte guardas e mande aparelhar os cavalos. Temos de intervir na Rua de Castela frente à casa do Estorietas.
- Às suas ordens, meu comandante.
No “atelier”, o Estorietas dizia para a Ciete:
- Não saias daí. Isto vai dar para o torto.
Voltou a abrir a janela e gritou lá para fora.
- Vão embora. Olhem que vão arrepender-se.
Mas a multidão de miúdos não desistia:
- Liberdade para a Ciete! Liberdade para a Ciete!
Pouco depois, os manifestantes ouviram um tropel ruidoso e, pelo largo, viram irromper um grupo de guardas da GNR, a cavalo, e com o comandante à frente que se apercebeu logo da situação.
«Mas não é possível! São miúdos. Aquele Estorietas em que estaria a pensar para falar numa manifestação contra o regime? O melhor é prendê-los e esclarecer tudo».
- Guardas, cerquem os manifestantes e conduzam-nos à prisão, sem violência.
Num instante, os miúdos com a Céu à frente, ficaram cercados pelos guardas e foram conduzidos à força para a prisão da GNR. Aos mais renitentes, os guardas forçavam com uma cabeçada dos cavalos, mas, garante-se, não houve qualquer violência naquela manhã.
No posto, o comandante desmontou, mandou abrir uma cela e ordenou:
- Vamos, entrem todos para aqui! Vamos ter de esclarecer o que se passou.
E mais uma vez, o João e a Teresinha foram parar à prisão da GNR. Desta vez, ele estava no meio de vinte miúdas aterrorizadas.
«Jejjjejjjjjejje. Nunca estive tão bem como neste momento. Espero que o comandante não as mande embora e eu possa consolá-las toda a noite».



Continua na próxima segunda-feira

sexta-feira, maio 01, 2020

O elogio do nu

Ao sétimo dia, o “atelier” do Estorietas já estava cheio de telas com a imagem da Ciete nas mais diversas posições.
Ele continuava a adorar contemplá-la e desenhá-la, mas, por vezes, ela sentia que ele se excedia e começou a pensar que a irmã talvez tivesse razão quando disse que ele estava louco, que não batia bem…
«Esta fixação em mim… é doentia».
- Estorietas, quando acabamos este projeto?
- Acabar? Tu não percebes que vamos ser famosos. Eu, o Rafael de Castela, tu, a Dama do Castelo… o nosso destino é continuar, continuar sempre…
- Mas como? Já me desenhaste de toda a maneira e feitio…
- Não interessa, a Arte é uma paixão que transcende o âmago da substância…
Ela ficou estupefacta e a pensar que ele já não dizia coisa com coisa. A irmã tinha razão: ele estava transtornado de todo…
- Cietezinha, tenho mais uma coisa para te pedir. De certeza, apreciarás o resultado…
Ela olhou-o surpreendida. Que mais poderia ele querer?
- Sabes que um ritual fundamental entre os clássicos era a representação do nu. Mas eu não vou por aí, não tenhas receio. Quero que poses para mim, coberta com aquelas sedas. Vamos recriar uma Odalisca de Hayez.
Ela afogou um grito de surpresa.
- O quê? Estás doido?
- Nunca estive tão lúcido. A nossa fama só atingirá o auge quando reproduzirmos as grandes obras dos clássicos. Só te peço que envergues aquelas vestes em seda. Vamos, trata de as vestir, eu nem olho…
- Nem penses…
Ela já não sabia como havia de escapar àquele louco. Olhou para a porta suplicante, mas ele interpôs-se quando tentou escapar.
- Ah! Ah! Tens de fazer o que quero. Vais ser famosa...
Mal sabiam que a Ceuzinha e a Teresinha estavam a espreitar pelo buraco da fechadura e tinham assistido a tudo.



Pobre pequena… nas mãos de um louco...

quinta-feira, abril 30, 2020

Um projeto de pintura

E a Ciete voltou ao “atelier” do Estorietas nos três dias seguintes o que começou a despertar a curiosidade das colegas.
Um dia, a Ceuzinha manifestou a sua estranheza.
- Ouve lá, minha irmã, por que razão não almoças comigo já há uns quatro dias…?
- Oh! Não sei se te posso dizer…
A outra ficou cheia de curiosidade.
- Claro que podes. É algo relacionado com o Estorietas?
A Cietezinha ruborizou-se muito.
- Sabes, temos um projeto artístico…
A outra quase que ficou sufocada, a tossir sem poder.
- Um projeto artístico?
- Sim, ele tem uma grande vocação para a pintura. É um artista maravilhoso. E eu tenho funcionado como a sua modelo privativa.
- Tu estás apanhada, minha irmã…
- Ah! Se tu visses os quadros que ele faz. Aquela Luz… Aquela Paixão que se desprende deles… é indescritível.
- Não posso crer no que estou a ouvir. Uma miúda tão ajuizada como tu a ser arrastada para um projeto por um louco. Por que tu sabes que ele não bate bem, não sabes?
- É a clarividência total…
- Olha, tem cuidado com os estudos. O Sr. Bragança, quando souber, não vai gostar nada.
- Ele não precisa de saber…
Foram para as aulas e a Ceuzinha foi logo contar à Teresinha.
- Sabes uma coisa? Ih! Ih! Ih! Ih! A minha irmãzinha anda metida num projeto de pintura com o Estorietas.
- Minha alma quase me salta pela boca – replicou a Teresinha. – Mas isso pode ser perigoso para ela. Ele, às vezes, passa-se.
- Temos de estar atentas e intervir se for necessário.
- Conta comigo, vou já falar com a Mari’mília e o João.
E, ao fim, de dois ou três dias, toda a miudagem sabia o que se passava na casa roxa do Largo de Castela.

quarta-feira, abril 29, 2020

A revelação do grande artista

Os dias foram passando e nada acontecia. O Estorietas olhava para a pequena, mas o ar dela fazia crer que não tinha recebido o seu bilhete. O grande artista já desesperava. Se ela não lhe respondesse quem lhe poderia servir de modelo? A Deolinda? A Mari’mília? Ambas esculturais, mas nenhuma tinha aquele ar de inocência, amargura e dureza que a Cietezinha tantas vezes ostentava.
Mas um dia tudo mudou…
Iniciava-se a aula de Matemática e o Estorietas notou que os seus livros tinham sido remexidos. Procurou avidamente e, entre eles, lá estava um bilhete.
«A resposta dela» - pensou.
Abriu rapidamente e leu:
«Estorietas
Fiquei surpreendida com a tua mensagem. Nunca pensei que pudesses pedir desculpa alguma vez pelos teus irrefletidos actos. Para além disso, convidares-me para um encontro excede tudo o que poderia esperar de ti. Mas resolvi dar-te o benefício da dúvida e proponho-te que o nosso encontro seja ao cimo da Rua de Castela, em local onde já não passam os nossos colegas do CFL, amanhã, após a aula de História e antes de irmos almoçar.
Ciete»
Nessa noite, o Estorietas não dormiu.
«E se isto corre mal? Que lhe vou dizer?».
Mas, no dia seguinte estava mais calmo. E mais seguro ficou quando a viu chegar ao cimo da Rua de Castela com os seus livros e a lancheira com o almocito.
- Bom, espero que tenhas uma boa razão para me fazeres passar por isto – começou ela.
- Tinha muita urgência em falar contigo. Sabes? Sinto que tenho uma alma de artista… e tenho-me dedicado à pintura. Fiz um atelier em minha casa e passo grande parte do meu tempo a pintar.
- Um ofício tão legítimo como qualquer outro. E que tenho eu a ver com isso?
- Até agora só tenho desenhado flores, natureza morta. Preciso de alguém que transmita calor, paixão aos meus quadros.
- Não me venhas com essa. Olhas sempre para mim com ar estranho quando as minhas notas são melhores que as tuas…
- Esse ar estranho que tenho é porque sinto que há algo em ti que poderá fazer com que me transcenda a mim próprio. Cietezinha, eu vejo em ti uma Adjani…
- O quê? Que é isso?
- Uma futura atriz do cinema francês muito bela. Vai ter vários óscars. Eu penso poder levar-te aos píncaros da fama.
- Não percebo.
- Cietezinha, queres ser a modelo para as minhas pinturas?
- O quê? Estás louco, Estorietas?
- Nunca estive tão lúcido como neste momento. Anda, acompanha-me ao meu estúdio. Podemos almoçar lá os dois e falar, depois voltaremos às aulas.
Pouco depois estavam no “atelier” do Estorietas. Ela notou como tudo estava bem delineado e ele mostrou-lhe alguns quadros que já tinha feito.
- São bonitas as tuas pinturas…
- Finalmente, um elogio.
Mais para a direita naquela sala com muita luz, estava um cavalete com uma tela em branco.
- E qual vai ser o teu próximo desenho?
- Queria desenhar o teu rosto. Tens um ar tão profundo… Mas, agora, é melhor almoçarmos. Traz a tua comidinha. Eu também tenho o meu almoço já arranjado.
Efetivamente, em cima de uma mesa, já estavam talheres e pratos para dois pelo que puderam tratar da barriguinha.
Pouco depois de terem comido, ele disse:
- Agora, senta-te naquela cadeira, põe o teu ar de menina de sangue azul residente no Castelo e deixa-me desenhar o teu rosto.
Ela obedeceu e ele esboçando durante cerca de trinta minutos o rosto dela.
- Pronto, já está. Podes vir ver.
Ela veio e ficou encantada.
- Eu… eu sou assim?
- Não tenhas qualquer dúvida. A tua beleza é insuperável.
- Estorietas, como estou bonita! Como conseguiste dar-me esta expressão?
- É arte, menina, arte e paixão. Podemos ficar famosos, Cietezinha. Eu, um grande pintor, um verdadeiro Rafael e tu a sua modelo.
- Olha, não divagues. Já estamos atrasados para as aulas.
- E amanhã posso contar contigo?
Ela hesitou um pouco, mas, por fim, disse:
- Sim, amanhã voltaremos ao teu estúdio…

terça-feira, abril 28, 2020

O apelo a Florbela

Ao fim da tarde, a Cietezinha chegou ao jardim da sua casa na Vila Medieval de Ourém e começou a rever a matéria do dia. Tirou os livros de Ciências e Matemática e colocou-os sobre uma mesa sem notar que um papel tinha caído do interior de um deles.
Apareceu a Ceuzinha.
- Olha! Caiu um papel.
A Céu pegou no papel e desatou a ler.
- Oh! Ah! Ah! Ah! Ah! Minha irmã vai ter um encontro…
- O quê? Não estou a perceber nada.
A Ceuzinha estendeu-lhe o papel e ela ficou toda ruborizada.
- Meu Deus! Aquele gato esfolado está maluco de todo…
- Minha irmã vai ter um encontro - dizia a Ceuzinha aos saltos - Vou já telefonar à Teresinha.
E foi para o interior da casa de onde ligou para a pensão Simões.
- Teresinha, tenho uma coisa louca para te contar. Blá… blá… blá…
Esteve ao telefone mais de um quarto de hora.
Cá fora, a Cietezinha parecia embevecida.
«Mas o que é que ele quererá de mim? Que hei de fazer? Florbela, por favor, ajuda-me».
E, como que por encanto, apareceu-lhe nas mãos «A mensageira das violetas» que abriu ao acaso e começou a ler.

Não sei quem és. Já não te vejo bem...
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!...)
Sonho que um outro sonho me desfez?
Fantasma de que amor? Sombra de quem? 

Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?...
- Não sei se tu, amor, assim me vês!...
Nossos olhos não são nossos, talvez...
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!... 

És tudo e não és nada... És a desgraça...
És quem nem sequer vejo; és um que passa...
És sorriso de Deus que não mereço... 

És aquele que vive e que morreu...
És aquele que é quase um outro eu...
És aquele que nem sequer conheço...

«É verdade. Nem o conheço, não posso duvidar das suas intenções».
E, depois de refletir um bocado, pôs-se a escrever uma nota em resposta à missiva do Estorietas. Dobrou o papel e guardou-o cuidadosamente na pasta.
Pouco depois, surgiu a Ceuzinha.
- Então, minha irmã, já sabes o que vais fazer?
- Não vou fazer nada. Nem lhe respondo.
- Fazes mal, parece um rapaz bem intencionado.
E tudo ficou assim. Quando foram para casa, a Ceuzinha pensava que a irmã não lhe tinha dito a verdade toda, por isso, iria dar-lhe mais atenção sem ela dar por isso…

segunda-feira, abril 27, 2020

A arte nasce dalguma paixão

No seu “atelier” de pintura na casa rosa da Rua de Castela, o Estorietas contemplava extasiado a sua última obra.
«Que beleza! Que definição! Mais luz que num Van Gogh…».
Mas não se sentia completamente satisfeito.
«Preciso de mais. Preciso de algo que humanize a minha arte. Estou a arder por algo indefinido… E se eu lesse um pouco de Pessoa?».
Um texto que tinha à mão tinha a designação de «Heróstato». Pegou nele e leu ao acaso:

«Para que a arte possa ser arte, não se lhe exige uma sinceridade absoluta, mas algum tipo de sinceridade. Um homem pode escrever um bom soneto de amor sob duas condições - porque está consumido pelo amor, ou porque está consumido pela arte. Tem de ser sincero no amor ou na arte; não pode ser ilustre em nenhum deles, ou seja no que for, de outro modo. Pode arder por dentro, sem pensar no soneto que está a escrever; pode arder por fora, sem pensar no amor que está a imaginar. Mas tem de estar a arder algures. De contrário, não conseguirá transcender a sua inferioridade humana.»

«E eu ardo, porque não lhe pedi perdão… - pensava o Estorietas.»
Surgiu-lhe uma ideia, mas hesitou antes de avançar com ela.
«Se calhar, ainda está zangada comigo, mas era a pessoa indicada para me servir como modelo…».
Sentou-se numa cadeira e com um ar desesperado passou a mão pela cabeça. Estava visivelmente nervoso. Tal e qual um artista no momento em que a ideia explode.
«Tenho de falar com ela? Mas como? Virar-me-á as costas, não me ouvirá… Já sei, vou escrever-lhe um bilhete e ponho no meio dos livros dela…».
No dia seguinte, no CFL, a primeira aula era de Ciências Naturais. Quando a DRa. Lurdes Moreira mandou sair os alunos e abandonou a sala, o Estorietas deixou-se ficar para trás. O lugar dela era na primeira fila, o mais à direita, mesmo junto à porta. Um alvo fácil…
Ia nervoso, bastante nervoso. Se fosse apanhado a fazer aquilo, ainda diziam que lhe estava a espiar os apontamentos. Mas teve sorte. Abriu um livro e deixou lá o bilhete.

«Cietezinha
Espero que já me tenhas perdoado pelo meu comportamento no salão da banda. Tenho um pedido para te fazer, mas para isso preciso de me encontrar a sós contigo. Acredita, sou um rapaz honesto, as minhas intenções são as melhores. Por favor, diz-me um sítio onde nos possamos encontrar.
Sempre amigo
Estorietas»

Ao sair, ainda olhou para todos os lados. Não vinha ninguém. Respirou aliviado e foi para o recreio onde já era estranhada a sua ausência.
- Anda aqui marosca – resmungava o Amândio

sexta-feira, abril 24, 2020

Um merecido par de coices

Pouco depois, o Estorietas teve uma ideia:
- O melhor é desatrelarmos os burros, deixá-los ir para o campo de futebol para estarem mais à vontade e tirar as carroças da estrada.
À falta de melhor ideia, assim fizeram e, pouco depois, o trânsito podia circular.
Mas o brutamontes não estava satisfeito. Estacionou um pouco mais à frente e saiu da camioneta dirigindo-se para o sítio onde estavam os nossos amigos.
- Vou dar uma lição a esses burros – praguejou enquanto exibia um pau enorme que trazia na mão.
A Mari’mília saltou-lhe para a frente.
- Você não faz mal aos burros, ouviu? Eles não têm culpa da sua natureza.
Mas ele não a ouviu e dirigiu-se para os burros. A verdade é que a Dulcineia percebeu as suas intenções. Saciada dos beijinhos do burro, quando o homem se aproximou para lhe bater, apoiou-se nas pernas da frente e mandou-lhe monumental par de coices que o fez estatelar-se imediatamente.
O homem ficou aturdido. A Mari’mília chegou junto dele e disse-lhe:
- Nunca mais ameace a minha burra, senão sou eu quem trata de si. – e mostrou-lhe a faca que ocultava debaixo do saiote. – Ainda há dias dei cabo de uma serpente muito mais perigosa que você.
Era terrível aquela rapariga. Nada lhe metia medo e tinha sempre argumentos contra os que enfrentava.
O brutamontes encolheu-se com medo enquanto o Estorietas o ajudava a levantar.
- Isto não vai ficar assim…
- Não volte a aproximar-se de nós – respondeu a Mari’mília muito séria. - E dê-se por feliz por o castigo ser apenas um par de coices. Suma-se…
O brutamontes meteu o rabo entre as pernas e afastou-se. Pouco depois, ligava a camioneta e desaparecia na direção de Tomar.
- És uma mulher cheia de coragem – dizia o Estorietas.
- Bom. Vamos atrelar os burros e prosseguir o nosso caminho.
Pouco depois, estavam em cima das carroças, percorrendo pacificamente os caminhos para os seus destinos. A conversa já não era romântica, enervados que estavam com o incidente com que se haviam deparado.
Depois, já cada um em seu destino, pensavam no futuro, afastados daquela terra maravilhosa longe de todas as aventuras que ela lhes tinha proporcionado…



FIM

quinta-feira, abril 23, 2020

As carroças do amor

A Mari’mília e a mãe preparavam o regresso a casa e esta decidiu voltar na camioneta dos Claras.
- Olha, eu vou à frente para preparar o almoço. Chego lá muito antes da carroça.
A Mari’mília entregou-lhe o produto da venda e respondeu:
- Está aqui o dinheiro dos limões. Eu vou buscar o Estorietas que vai ver os tios.
- Tem cuidado com esse malandro. Ele olha-te de uma maneira esquisita.
Ela riu-se.
Foi para o quintal da Dona Aurora e, pouco depois, tinha a burra aparelhada à carroça. O Estorietas chegou e tomou o lugar ao lado dela.
Desceram a rua da Olaria, entraram na Avenida e viraram na direção de Tomar. A burra trotava a um ritmo suave.
- Gostas de vir na carroça a Ourém? – perguntou o Estorietas.
- Enquanto não tiver melhor meio… ao menos respiramos ar puro e não ar poluído pela combustão de gasolina… e posso desfrutar da tua companhia.
- Sem dúvida, uma companhia muito agradável e motivadora. Olha e para onde vais quando terminares o quinto ano?
- Vou para o Magistério em Leiria. Quero ser professora…
- Gostas de miudagem? Eu… nem vê-los. Não me imagino a aturar cachopos mal educados.
- Então, para onde vais depois?
- Devo ir também para Leiria, para o Liceu, possível para a área de Economia e Finanças.
- O curso do nosso Presidente do Conselho…
- É o que me dizem… outros gozam afirmando que vou para ciências alcoólicas e bagaceiras.
- Então, se vais para Leiria, poderemos encontrar-nos algumas vezes.
E a conversa prosseguiu acerca dos projetos daqueles dois miúdos.
Já estavam a chegar ao Lagarinho quando viram vir em sentido contrário outra carroça puxada por um burro e sentiram a burra um pouco nervosa.
- Lá vem o burro do ti’ Guilherme. É o namorado aqui da Dulcineia…
- Não me digas que se conhecem…
- Passam o fim de tarde juntos. Antes de ontem, ela deitou-me no chão para ir para o pé dele.
O certo é que naquele momento, o burro zurrou fortemente e a Dulcineia virou na direção dele. As carroças atreladas não os deixavam mexer-se à vontade pelo que ficaram atravessados na estrada a ocupá-la no sentido da largura. Os condutores bem faziam esforços para os fazer seguir para o seu destino, mas o parzinho de burros não obedecia. Davam beijinhos, encostavam a cara, uma doçura…
A Mari’mília contemplava aquilo embevecida. O Estorietas começou a lembrar-se que tinha uma bela miúda a seu lado.
- Eles é que nos ensinam. Aquilo é amor verdadeiro…
- Quem me dera ter alguém que gostasse assim de mim.
Ele decidiu avançar.
- Quando te vejo, o meu coração…
Mas aquele momento maravilhoso foi destruído por uma formidável buzinadela. Um brutamontes, dentro de uma camioneta, fazia gestos e praguejava.
- Tirem-me essa porcaria da frente ou passo-lhe por cima.
Os condutores das carroças bem faziam todos os esforços para separar os burros, mas estes, dignos exemplares da espécie, eram bem teimosos. As duas filas de carros e camionetas continuavam a crescer sem que se conseguisse uma solução para o caso. Todos buzinavam e praguejavam…


E agora? Que vai acontecer? O brutamontes concretizará a sua ameaça?

quarta-feira, abril 22, 2020

Nas boas graças do Poder

Pouco depois, a Mari’mília terminou a venda de limões e foi na direção do posto da GNR intrigada com o que tinha visto antes.
Ao entrar ainda ouviu parte da conversa e ficou abismada. O guarda que a recebeu perguntou-lhe:
- O que pretende a menina?
- A minha mãe está aí dentro. O que se passa?
- Vou levá-la ao comandante e à sua mãe.
E conduziu-a ao gabinete do comandante que a reconheceu imediatamente. Entretanto, a mãe desatou a chorar:
- Nicha, querem multar-nos. Não temos licença de feirante e era necessária para vender no mercado. A multa é de 500 escudos. Como vamos arranjar o dinheiro?
- Mãe, decerto que há uma solução diferente para o caso.
O comandante, entretanto, tinha-se levantado e pôs uma mão nas costas da senhora:
- Esteja descansada. Nós não vamos multá-la nem apreender os produtos. Não podemos fazer isso a quem nos salvou a vida.
- Mas o que se passa? – perguntou a senhora muito admirada. – Não percebo nada.
- A sua filha salvou-nos a vida há uma semana em Peras Ruivas. Nós temos de cumprir a lei, mas temos de mostrar a nossa gratidão a quem nos ajuda. Guarda Ernesto, traga imediatamente, os produtos apreendidos.
O guarda referido apareceu, cumprimentou timidamente a Mari’mília e disse:
- Comandante, o guarda Elias já levou dois coelhos para casa. Nós pensámos que os podíamos repartir entre nós.
- Seus alimárias. Desde quando lhes tenho dito que não podem ficar com os produtos apreendidos??!! Todos os produtos devem ser enviados para o quintal do nosso venerado Presidente do Conselho de Ministros onde ele cria galinhas e coelhos para se alimentar. – e curvou-se perante a salazarenta fotografia. - Tratem de o avisar imediatamente para trazer os coelhos. E tu, vai já à Câmara tratar de arranjar uma licença de feirante para esta senhora e filha.
- Às suas ordens, meu comandante.
Pouco depois, já com licença de feirante na mão, as nossas amigas puderam completar a venda e iniciar o regresso a Peras Ruivas. Mas as suas atribulações não tinham acabado…

terça-feira, abril 21, 2020

Uma licença para vender

Manhã cedo, na quinta-feira seguinte, a Mari’mília e a mãe atrelaram uma carroça à burra e começaram a carregar as coisas para o mercado: uma cesta com limões, outra com pintainhos e noutra puseram os coelhos a que, previamente, ataram as patas.
Sentaram-se e iniciaram a deslocação para Ourém num trote bastante suave. Pelo caminho, a miúda revia-se num auto de Gil Vicente:

"Vou-me à feira de Ourém e farei dinheiro grosso. Do que dos pintos e coelhos render comprarei ovos de pata, que é a coisa mais barata que eu de lá posso trazer; e estes ovos chocarão; cada ovo dará um pato, e cada pato um tostão, que passará de um milhão e meio, a vender barato. Casarei rica e honrada por estes ovos de pata, e o dia que for casada sairei ataviada com um brial de escarlata, e diante o desposado, que me estará namorando: virei de dentro bailando assim dest'arte bailado, esta cantiga cantando."

Meia hora depois, chegaram ao mercado junto à esquadra da GNR e cada uma levou os cestos para os locais respetivos de venda.
- Mãezinha, olha pela minha cesta, enquanto vou estacionar o carro.
Naquele tempo, em Ourém, havia muitas pessoas que disponibilizavam os pátios para estacionamento das carroças e para descanso dos animais. A Nicha conduziu a carroça na direção da Rua de Castela e parou no largo junto à casa da Dona Aurora. Falou com a senhora e estacionou o carro no pátio, depois deu algo de comer à burra e saiu.
Nessa altura, o Estorietas saía de casa para ir para as aulas. Ela contou-lhe rapidamente por que estava ali.
- Então, vais para Peras Ruivas quando o mercado fechar… podias dar-me boleia na carroça para ir ver os meus tios.
E combinaram o ponto de encontro. Ela foi na direção do mercado e, daí a pouco estava junto ao cesto a enfrentar os clientes.
- Quanto custam os limões? – perguntou uma senhora.
- Cinco escudos o quilo.
- Arranje-me um quilo.
Os limões foram desaparecendo e a Mari’mília ia guardando o produto da venda. Um pouco afastada, a ti’ Núncia já tinha despachado os pintos e, naquele momento, mostrava um coelho a uma cliente. O pobre bicho, agarrado pelas orelhas, olhava-as com terror e não deixava de dar às pernas traseiras.
Foi então que dois GNR pararam em frente ao ponto de venda da senhora.
- Belos coelhos, não achas, Ernesto?
A senhora olhou para eles e ficou apreensiva. O chamado Ernesto olhou-a com desconfiança e perguntou:
- A senhora tem licença de feirante? Faça favor de me a mostrar…
Ela ficou muito atrapalhada.
- Senhor guarda, não sabia que era necessária…
- Nunca sabem. Vou ter que lhe apreender os coelhos – pegou no cesto e dirigiu-se ao outro guarda. – Dá aqui uma ajudinha. Temos de levar isto para o posto. E a senhora acompanhe-me pois tenho de a autuar.
A Mari’mília praticamente já não tinha limões e começou a ver a mãe a acompanhar os guardas que transportavam a cesta com os coelhos. Pouco depois, estavam no posto da GNR. O comandante recebeu-a enquanto os guardas combinavam entre si:
- Há seis coelhos. Dois para cada um de nós e dois para o comandante. Que achas?
- Está bem. Vamos guardá-los naquela cela que está disponível. Se calhar, o melhor é também apreendermos a cesta.
- Olha, a minha casa é aqui ao lado. Vou já lá pôr os que me cabem…
- Ok. Não demores.
Entretanto, o comandante explicava à ti’Núncia as razões da multa e apreensão.
- Sabe? O que fez é muito grave. A senhora devia ter tirado uma licença de feirante que só custa 15 escudos na Câmara Municipal. Não o fez e veio vender produtos ilegalmente para o mercado, pelo que vai ser autuada e os produtos serão apreendidos. A multa é de 500 escudos. Como vê, teria sido muito mais simples e menos dispendioso tirar a licença.
- Que horror! Eu nem fiz esse dinheiro na feira…
- As pessoas têm de aprender. A Economia tem de ter regras senão a concorrência desenfreada leva à ruína de todos.

segunda-feira, abril 20, 2020

O apelo do amor

Certa tarde, a Mari’mília esteve na fazenda da família a regar. Para isso, prendeu a burra à nora, tapou-lhe os olhos com um pano e, suavemente, pô-la a caminhar. O animal ali ficou cerca de meia hora a tirar água que ela aproveitou para transportar para os diversos canteiros: feijões, couves, batatas, melões… tudo ela conseguia tirar da terra com o seu formidável labor.
«Nem sei para quê estudar se gosto tanto desta terra, de fazer o que faço e consigo tirar daqui o meu sustento…».
É que, apesar de tudo, era duro o seu dia a dia já que, de manhã, tinha aulas no colégio e, à tarde, tinha de trabalhar na fazenda para além de tratar dos animais.
Depois de regar, sentou-se numa pedra e olhou o horizonte de uma forma sonhadora. 

Entardecer
Serenidade idílica das fontes
E em silêncio
Eu escuto pelos montes
O coração das pedras a bater...

Reparou então que o limoeiro estava carregado. Limões lindos…
«Ena. Será que se vai perder aquilo tudo?».
Separou a burra da nora, tirou-lhe a venda e atou-a a uma árvore, dando-lhe de comer umas couves e umas cenouras. O animal zurrou, agradecido.
«Mereces um beijinho. Trabalhas tanto…».
Foi buscar um cesto de verga vazio, um cesto enorme, e entregou-se à tarefa de o ir enchendo de limões.
«Isto tem de ir para o mercado de Ourém, senão apodrece».
A Mari’mília terminou a tarefa de colheita dos limões e, como se fazia tarde, olhou para a burra e disse:
- Bom, vou levar-te para o curral. Hoje já trabalhaste que chegue…
Libertou a burra e pôs-se a conduzi-la na direção de casa. Nessa altura, proveniente do outeiro, ouviu-se um zurro muito forte. A burra levantou as orelhas e espojou-se no chão fazendo a dona acompanhá-la na queda e largar a rédea. Depois levantou-se e correu para o outeiro.
- Malvada! Deitaste-me no chão… vais pagá-las.
Mas a burra já não a ouvia e não ligava nenhuma aos seus chamamentos. Percebeu que o encontro era inevitável e murmurou:
- Já percebi. Queres ir ter com o namorado. Ninguém pode calar o amor. Vou a casa pôr os limões e, depois, vou-te buscar.
Pegou na cesta carregada de limões, pô-la sobre a cabeça e dirigiu-se para casa.
«Bolas! Isto pesa…».
A mãe já a esperava.
- Ai, filha, vens tão carregada.
- Mãe, esta quinta-feira, falto às aulas e vou ao mercado de Ourém vender estes limões.
- Não gosto que faltes às aulas…
- Não tem importância. É Desenho e Religião e Moral. Eu depois justifico com uma doença.
- Vou aproveitar para ir contigo e levo os pintainhos e os coelhos para vender.
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